04.28.08
O uso de monogenes em referência a Cristo
Talvez o assunto mais controvertido na Teologia Joanina no escopo da cristologia deva ser o uso e aplicação do termo gr. “monogenes” a Jesus Cristo. Em primeira João vemos o termo acontecer em 4.9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele“[1]. Nesse texto o que podemos perceber é que a manifestação do amor de Deus consiste no envio de seu filho ao mundo com o objetivo de que os que depositam sua fé nEle vivam por meio dEle. A expressão “unigênito” nesse verso é a tradução do termo gr. “monogenes” e tal como foi traduzido pode ser compreendido como único gerado. Tal compreensão tem causado grandes dificuldades na compreensão da Pessoa de Cristo e desafiado teólogos por toda a história a compreenderem seu real significado.
A estrutura do termo monogenes
A estrutura do termo tem sido palco de grande discussão:
- 1. Gennäo: Uma das possibilidades de estrutura desse termo é a junção do substantivo “monós” (único) com o verbo “gennäo” (gerar) traduzindo a idéia de “único gerado”. O Friberg Lexicon oferece entre muitas opções a possibilidade de que João tivesse utilizado o termo com essa construção, traduzindo-o como único gerado (unigênito)[2]. Além disso, existem muitas evidências históricas para afirmar que teólogos acreditavam que o termo em pauta é derivado da junção do termo “monos” com “gennäo”, o que traria exatamente a idéia de “único gerado”. O Holman Bible Dictionary afirma o seguinte sobre o termo: “A expressão ‘unigênito’ deriva diretamente de Jerônimo (340?-420) que substituiu o termo unicius (único), a leitura do latim antigo, com unigenetus (único gerado) enquanto traduzia a Vulgata Latina[3]“. Talvez essa leitura tenha influenciado a construção do Credo de Nicéia (325d.C.), que foi revisado em Constantinopla em 381d.C., que traz a seguinte declaração sobre Cristo: “Em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos[4]“. Acredita-se que Jerônimo teria substituido o termo por intencionar combater ensinos arianos sobre Cristo, que ensinava que havia sido feito pelo Pai. Outros teólogos falam desse termo de modo compatível com essa construção do termo. Esse é o caso de Chafer, que diz que quando o termo é utilizado em relação ao Filho no NT traz a idéia de que “Ele é o Filho de Deus como ninguém poderia ser porque o único gerado foi ele, e já existia no estado perfeito que Ele desfruta eternamente[5]“. Essa é a visão mais tradicional do termo e está em conformidade com a expressão histórica referente a Cristo que foi “eternamente gerado da substância do Pai” encontrado no vigésimo nono ponto do credo atribuído a Atanásio[6]. Quem parece compartilhar essa opinião é Jonatas Edwards. Sobre o assunto, ele diz: “O Filho é a Deidade gerada pelo entendimento do Pai, ou tendo uma idéia de si mesmo e subsistindo nessa idéia[7]“. Em outro lugar também diz ele fala da “geração eterna do Filho” e completa dizendo que “gostaria de adicionar que a geração eterna do Filho consiste no Pai ter uma idéia perfeita dele, que é o Filho[8]“.
- 2. Ginomai: Segundo o Strong`s o termo “monogenes” (G3439) é resultado da junção de “monós” (G3441) com “ginomai” (G1096). Segundo esse mesmo léxico, a definição é exatamente único nascido, podendo ser também aplicado como “único filho”[9]. Fato semelhante é encontrado no Liddel-Scott Lexicon que sugere alguma relação de monogenes com o uso Épico “mouno-genés” em Heródoto, Hesíodo e outros, que deriva-se de ginomai. Sendo que ainda é utilizado em Eurípedes em relação a um laço familiar: “monogenes aima” (do mesmo sangue)[10].
- 3. Genós: Por outro lado, é possível que o termo seja resultado da junção de “monós” com “genós”, o que forneceria uma leitura completamente diferente do termo. “Genós” pode significar espécie, tipo, classe. Caso essa seja a construção do termo, veríamos nessa expressão uma indicação da unicidade de Cristo como Filho de Deus. Essa opção é compartilhada por BDAG Lexicon, Thayer`s Greek Lexicon, UBS Lexicon, Louw-Nida Lexicon, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Chave Lingüística do Novo Testamento Grego, além de alguns comentaristas e teólogos. Embora não considere que o conceito de “monogenes” seja muito claro no Novo Testamento, Ladd diz: “De qualquer modo, João declara Jesus ser o único, o exclusivo Filho de Deus“. Pouco a frente acrescenta: “João pretende dizer que Jesus é o único de sua classe. Outros podem tornar-se filhos de Deus, mas a filiação de Jesus permanece distinta[11]“. Sttot diz o seguinte: “Aplicado a Jesus, o termo indica sua singularidade; Ele é ‘o Filho’ no sentido absoluto[12]“. Westtcot afirma o seguinte sobre o termo: “Monogenes descreve a absoluta e única relação entre Pai e Filho em sua natureza divina[13]“. Rees acredita que monogenes enfatiza mais “a Sua unicidade que a sua Filiação, embora os dois conceitos estejam presentes[14]“. Marshall afirma: “Jesus refere-se ao Pai como único Deus verdadeiro (Jo.17.3; cf. Jo.5.44). Não existe lugar para nenhum outro ser ocupar uma tal posição em relação ao Pai. O adjetivo ‘monogenes’ (Jo.1.14, 18; 3.16, 18) enfatiza tal restrição e destaca o papel de Jesus como o único Revelador e Salvador[15]“
Portanto, podemos perceber que o termo tem sido compreendido de modo muito controvertido por léxicos e teólogos. Entretanto, parece-nos mais sensato que a última opção seja a mais razoável, pelos seguintes fatos:
- 1. A primeira opção pode ser identificada como possibilidade, mas alguns comentaristas têm sugerido que caso fosse a construção do termo uma junção de “monós” com “gennäo” dever-se-ia encontrar um outro “n” no termo: “monogennes”[16].
- 2. A segunda opção (ginomai) parece de tão pouco respaldo que não verifica-se nenhum uso do termo na LXX ou NT que justifique qualquer ligação entre “monós” e “ginomai”.
- 3. A terceira opção sagra-se favorita pelo grande número de declarações diretas que recebe. Todos os léxicos mencionados nessa opção declaram que objetivamente que o termo deriva do substantivo “genes” e não do verbo “gennäo”. Essa é a opinião de F.F. Bruce: “Etimologicamente, a palavra significa o único (monós) do seu tipo (genós)”. Entretanto, pouco a frente, o mesmo autor reconhece que é possível que João tivesse realizado um uso diferenciado para o termo quando aplica a Jesus Cristo: “Com referência a Jesus como Filho de Deus, a tradução tradicional ‘unigênito’(do latim unigenetus) é mantida, talvez por que o evangelista tenha associado -genes com o verbo gennäo (usado no v.13), tomando, assim, o composto monogenes no sentido ou de ‘único gerado’ ou ‘gerado Único’[17]“. Isso nos remete à seguinte conclusão: Etimologicamente parece evidente que o termo derive da junção de “monós” com “genós”, mas há ainda a possibilidade de o termo ser utilizado de outro modo.
Segue-se que a etimologia não determina necessariamente o tipo de uso do substantivo, pois é possível que alguém faça uso do termo considerando a penas sua aplicação e não sua origem. Até por que, a origem de um termo aponta para nada mais que sua origem.
Por esta razão que é necessário observar usos específicos do termo para tentar compreender como esse termo pode ser utilizado, para então nos aproximarmos do seu uso na literatura joanina e conceituarmos seu uso em referência a Cristo.
O uso de Monogenes na LXX
O termo “monogenes” foi utilizado cerca de 4x na LXX[18] em tradução do termo hebraico “Yachiyd” (Jz.11.34; Sl.21.20; 25.16; 35.17). O termo hebraico é utilizado cerca de 12x em todo o Velho Testamento, sendo que em 7x a LXX traz o verbo gr. “agapetós” (Gn.22.2, 12, 16; Pv.4.3; Jr.6.26; Am.8.10; Zc.12.10) como tradução. Existe outro termo gr. que faz alguma correlação com o termo hebraico “yachiyd”, que é utilizado em Sl.67.7 na LXX (Sl.68.5 ARA) que é o termo “monotrópos” que denota o sentido de sozinho, solitário, mas parece não ter direta conexão com “monogenes”. O termo foi utilizado de três modos diferente na LXX:
- 1. Como indicação de um único filho: Nos apócrifos podemos ressaltar alguns usos do termo que podem nos ajudar a compreender seu uso. Em Tobias 3.15, vemos uma declaração interessante: “Sou filha única do meu pai, ele não tem outro filho para herdar, não tem junto a si irmão algum, nem parente a quem eu me deva reservar“. O termo em destaque representa o verbete “monogenes”. O uso do termo nesse contexto parece consoante com o uso de Jz.11.34: “Vindo, pois, Jefté a Mispa, a sua casa, saiu-lhe a filha ao seu encontro, com adufes e com danças; e era ela filha única; não tinha ele outro filho nem filha“. Em ambos os casos vemos que além do emprego do termo, houve um acréscimo de informação para não deixar dúvidas sobre o que se pretende dizer com o emprego do termo (cf. Tobias 6.11; 8.17 – mesmo uso do termo)
- 2. Como definição de um único filho gerado: Outro uso interessante para o termo na nas versões gregas de textos apócrifos encontra-se nos Salmos de Salomão 18.4: “A tua instrução está sobre nós como sobre um filho primogênito e unigênito, para redimir a dócil alma dos pecados cometidos na ignorância“. O uso aproximado e equivalente de “monogenes” e “prototokós” antecedidos pelo termo “huiós” em um texto antigo[19] parece apontar para o fato que o termo poderia ser entendido como “único filho gerado”.
- 3. Como definição de unicidade: Entretanto, outro uso é encontrado em livros apócrifos que nos auxiliam a compreender a diversidade de significados que termo pode englobar: “Nela há um espírito inteligente, santo, único, multiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo” (Sabedoria de Salomão 7.22). Nesse texto podemos perceber com clareza que o uso intencionado era a idéia de “sem igual”, “incomparável”, uma possibilidade para o termo. Ou seja, na LXX, o que podemos perceber é que o uso é diverso, e pode significar um filho único, um único filho gerado, como alguém que é único.
O que se pode perceber aqui é que o uso do temo expressa um pouco mais que sua origem. Os autores da LXX conceituaram de modo diferente o termo, em ocasiões diferentes, isso confirma o que já se havia dito: A etimologia não define necessariamente o modo de uso de um termo.
Contudo, com uma análise mais apurada, podemos traçar um paralelo entre os dois termos mais utilizados na LXX para “yachiyd” para definirmos uma possível relação sinônima entre ele. Aliás, a grande proximidade entre “monogenós” e “agapetós” é tão grande (em referência a Cristo) que Rudolf Bultmann fala que “A designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[20]“. Para ele a relação não é apenas de proximidade léxica, mas de proximidade de definição, tal como verificada na LXX.
F.F.Bruce apresenta esse conceito quando observa o uso do termo hebraico “yachiyd” em Gn.22.2: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (cf. v.12; 16). Ele diz: “Isaque não era literalmente o ‘único’ filho de Abraão, mas era seu filho mais amado, ‘especial’, a quem ele dava tudo o que tinha[21]“.
Entretanto, o termo hebraico per si pode oferecer algum suporte para a compreensão do termo grego utilizado por João em referência a Cristo. Essa é a opinião dos editores do DITVT: “Teologicamente, yachiyd é importante pelas marcas que deixa na cristologia do NT[22]“. Para o DITVT, a compreensão o termo hebraico suporta a compreensão do termo neotestamentário. É por essa razão que chega a afirmar que existe alguma ligação entre o fato acontecido com Abraão e o que aconteceu com Cristo. Ao considerar Isaque como “agapetós” Gilchrist lembra-nos que Cristo também teve esse mesmo título (Mt.3.17; 17.5, Mc.1.1; 9.7; Lc.3.22; 2Pe.1.17). Dever ser por isso que o R. Laird Harris chega a concluir: “É, portanto, justificada a idéia de que em João o termo monogenes não se refere ao fato de que o Filho procede do Pai, como nas famílias humanas, mas à singularidade e ao amor do relacionamento trinitário[23]“.
Desse modo, fica evidente que a relação entre o termo hebraico e o grego podem auxiliar a conceituar o uso de “monogenes” em relação a Cristo. Nos falta, então, observar o uso neotestamentário e verificar sua contribuição.
O uso de Monogenes no NT
No Novo Testamento não encontramos tantos usos do termo, mas os usos encontrados podem contribuir com o que já foi demonstrado da LXX. Predominantemente no Evangelho de Lucas encontramos o termo “monogenes” em referência a filhos que são únicos: “Como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela” (Lc.7.12; cf. 8.42). Talvez, no evangelho de Lucas o uso que traga alguma contribuição encontra-se em Lc.9.38: “E eis que, dentre a multidão, surgiu um homem, dizendo em alta voz: Mestre, suplico-te que vejas meu filho, porque é o único“. Muito embora fique explícito no contexto que o termo é aplicado a um filho que é único, a construção grega nos sugere que Lucas tenha empregado o termo “monogenes” especificamente como “único”. O texto grego diz: “hoti monogenes moi estin“. Como o termo “huiós” está presente na sentença não é de se esperar que Lucas faça uso do termo com esse significa, ainda que incluso. Porém, ainda assim, vemos um uso aplicado a expressão de um único filho.
Talvez o uso mais interessante no Novo Testamento, fora da literatura de João encontra-se em Hebreus 11.17: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas“. Aqui, caso semelhante ao encontrado na LXX (Gn.22.2) é visto no NT. Isaque não era o filho único, no sentido de único filho gerado, mas o filho especial, amado, aquele que herdaria as promessas feitas a Abraão. Nesse caso, vemos que “monogenes” tem uma aproximação muito forte com “agapetós” e confirma-se o que havia sido observado pelo Rudolf Bultmann.
O DITNT afirma que o termo monogenes “é encontrado como título cristológico somente em João. Mateus e Marcos empregam o termo “agapetós’[24]“. Novamente verifica-se a correlação existente entre os dois termos. Pouco à frente, o mesmo dicionário diz: “Monogenes se emprega para destacar Jesus de modo sem igual, acima de todos os seres terrestres e celestiais; no emprego desta palavra, o significado presente, soteriológico se ressalta de modo mais forte que sua origem[25]“. Westcott parece completar o sentido quando diz que “monogenes” “se centraliza na existência Pessoal do Filho, e não na geração do Filho[26]“.
Como é possível perceber, o uso de “monogenes” pode ser aplicado ao Filho em expressão a sua Unicidade com Deus, como único autorizado a expressar: “Eu e o Pai somos um”, como tem sido demonstrado pela estrutura do termo, seu uso na LXX e no Novo Testamento. Resta-nos, então, compreender o uso do termo nos escritos de João.
O uso de Monogenes na Teologia de João
Como já foi bem evidenciado, o termo tem diferentes usos em diferentes contextos. Entretanto, pode-se afirmar que existe uma coerência entre o uso da LXX e do NT, visto serem comuns em alguns casos. Isso nos habilita a afirmar que o termo pode ser compreendido dentro da especifidade do seu uso em contextos específicos. Isso nos leva a buscar compreender como esse termo foi utilizado em referência a Cristo na literatura de João.
O termo na literatura joanina pode ter três conotações interessantes:
- Monogenes auxilia a compreensão da grandiosidade do amor de Deus: O primeiro ponto a ser percebido é que o termo “monogenes” como sinônimo de “agapetós” pode ser compreendido como a expressão do amor de Deus quando observado dentro do escopo soteriológico de João. Observe o que diz 1Jo.4.9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele“. O envio de Deus de seu Filho que é “monogenes” ao mundo é manifestação do amor de Deus. Ou seja, esse Filho que é de modo especial amado, que é único em sua classe, que é Filho como ninguém mais é habilitado a ser, que tem relacionamento especial com Deus Pai, é ofertado como pagamento propiciatório para o mundo. Da mesma forma que Abraão oferece seu único filho (amado de modo especial) Cristo é ofertado. Esse Filho (huiós) é agora o modelo de vida para todos os filhos (tékna) de Deus recebidos adotados pela fé no sacrifício vicário de Cristo. Deve ser por isso que Lutero chega a dizer: “Deus tem muitos filhos, mas apenas um ‘monogenes’, por meio de quem são feitas todas as coisas e todos os outros filhos[27]“. O Filho unigênito é a maior prova do amor de Deus, e o termo “monogenes” o ressalta de modo especial, como fica evidente nesse verso: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Esse é o único verso em toda a escritura que apresenta objetivamente, com termos declarados, que Deus amou ao mundo. Vemos afirmações nas escrituras sobre o amor de Deus ao mundo, mas esse é a única vez que encontramos o verbo amar ligado ao substantivo mundo. O elo nessa ligação é certamente o Filho Único, amado de modo especial. F.F. Bruce fala sobre esse verso: “O amor de Deus não tem limites; ele engloba toda a humanidade. Nenhum sacrifício foi grande demais para trazer sua intensidade sem medidas a homens e a mulheres: o melhor que Deus tinha para dar, ele deu – seu único Filho, tão amado[28]” A compreensão da pessoa de Cristo, qualificada nesse verso como “monogenes”, nos habilita a entender o grandiosidade do amor de Deus em sua disposição de ofertar seu Filho Amado de modo especial. É por essa razão que fica evidente que o termo “monogenes” nos auxilia a compreender a grandiosidade do amor de Deus em João.
- Monogenes expressa parte do carater soteriológico de Cristo: Monogenes como caracterização de Cristo é visto em João de modo claramente soteriológico: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Nesse texto fica evidente a conexão entre “pistis” (fé) e a “zoen aionion” (vida eterna) como antítese de “apóllumi” (perecer). Pouco a frente na literatura joanina lemos: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). Mais uma vez o termo aparece em um contexto de definições soteriológicas para João, e estabelece-se outro termo importante no contexto da fé salvífica, pois quem cre não é “krino” (julgado), outro termo bem soteriológico em João. Ou seja, alvo da fé salvífica deve ser centrada no Filho que é “monogenes”. Deve, portanto, existir uma singularidade especial nesse Filho por sua Obra e caracterização. Como já foi mencionado por Marshall, que Jesus é o “único Revelador e Salvador“. Ou seja, no que se refere a Soteriologia joanina, o termo monogenes enfatiza a singularidade de Cristo, talvez da mesma forma que Paulo o faz em 1Tm.2.5.
- Monogenes expressa a divindade de Cristo: Aqui talvez esteja o ponto mais interessante do uso de “monogenes” em João. Dois textos poderiam ser utilizados como paralelo para essa informação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14) e “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo.1.18). Rudolf Bultmann diz o seguinte sobre o primeiro verso: “O monogenes absoluto de Jo.1.14 deve provir da mitologia gnóstica[29]“. É provável que essa opinião aconteça pois Bultmann não vê o uso do termo de modo absoluto em nenhum outro lugar na literatura religiosa judaica ou cristã. Entretanto, esse uso absoluto faz uma referência interessante se considerar como a influência de João na compreensão de Cristo, e não na influência gnóstica na visão de João, pois, embora único uso, parece bem respaldado pelo contexto a referência que faz nesse verso. O verbo é chamado de unigênito. Essa relação, reforça o conceito da divindade de Cristo já esboçada nos primeiros versos do capítulo. Essa relação de proximidade entre “logos” e “monogenes” parecem reforçar a divindade do Filho, conclusão antagônica a retirada desse texto pelos arianos modernos (TJ). Em reforço à essa idéia, vemos o debate textual sobre o verso 18. Onde leu-se “Filho unigênito”, é possível que seja lido “Deus unigênito”, o que levaria às últimas conseqüências o conceito da proximidade entre “monogenes” e “logos” no verso 14. Em seu comentário aos dilemas textuais, Bruce Metzger afirma: “Com a aquisição de P66 e P75, onde ambos lêem theos, o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecido[30]“. Robertson afirma que a leitura de “monogenes theos é indubitavelmente a leitura verdadeira do texto[31]“. Vincent, mesmo que aponte para a dificuldade de definição do texto, afirma: “Muitos dos principais manuscritos e um grande grupo de evidencias antigas suportam a leitura monogenes theos[32]” F.F. Bruce textifica: “O peso da evidência textual favorece aqui a versão ‘monogenes theos’, Deus unigênito[33]“. Essa leitura foi considerada como “quase certa” pelos editores da quarta edição do texto grego da UBS. Aliás, essa é a opção do Nestle-Aland. Por ser tão bem aceita, é vista na ARA, NVI, NIV, que traduziu a expressão mo o único Deus. Considerando o verso 14 com sua conexão com o logos, o termo monogenes no verso 18 reafirma categoriamente a divindade de Cristo.
[1] No evangelho de João vemos o termo ser utilizado em mais quatro ocorrências (cf. Jo.1.14, 18; 3.16;18).
[2] FRIBERG, Timothy, FRIBERG, Barbara, MILLER, Neva, Analytical Lexicon of the Greek New Testament.
[3] BUTLER, Trent, Holman Bible Dictionary. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.
[4] CREDO DE NICÉIA, In: GRUDEN, Wayne, Teologia Sistemática. Vida Nova:1999, pp.996.
[5] CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistemática. Hagnos:2008, Vol.VII, pp.272
[6] O Credo de Atanásio, subscrito pelos três principais ramos da Igreja Cristã, é geralmente atribuído a Atanásio, Bispo de Alexandria (século IV), mas estudiosos do assunto conferem a ele data posterior (século V). Sua forma final teria sido alcançada apenas no século VIII. O texto grego mais antigo deste credo provém de um sermão de Cesário, no início do século VI.
[7] EDWARD, Jonathan, Works. IN: CRAMPTON, Gary, A conversation with Jonathan Edwards. Reformation Heritage Books, pp.70
[8] Idem
[9] STRONG, James. Strong`s Hebrew and Greek Dictionaries. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.
[10] LIDELL, Henry George; SCOTT, Robert, A Greek-English Lexicon. Bibleworks, 2003
[11] LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento. Exodus:1997, pp.232.
[12] STOTT, John, I, II, III João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1988, pp.140
[13] WESTCOTT, Brooke, Commentary on Hebrews, IN: ISBE. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.
[14] ISBE. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.
[15] MARSHALL, I. Howard, Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:2007, pp.446
[16] MCCORD, Hugo, Gospel advocate.
[17] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.46 (nota de rodapé 82).
[18] Sem contar as aparições em livros apócrifos: Tobias 3.15; 6.11; 8.17; Tobit 6.15; Odes.14.13; Sabedoria de Salomão 7.22; Salmos de Salomão 18.4
[19] O texto denominado “Salmos de Salomão” é um conjunto de 18 salmos escritos nos moldes do livro de Salmos e atribuídos a Salomão. Entretanto, tem-se chegado a conclusão que esses textos são conjuntos de escritos de cristãos do primeiro ou segundo século.
[20] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.
[21] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.46.
[22] HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason Jr.; WALTKE, Bruce, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:1998, pp.608.
[23] Idem, pp.609.
[24] COENEN, Lothar; BROWN, Colin, O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:1983, Vol. IV, pp.672.
[25] Idem.
[26] WESTCOTT, Brooke, The Epistles of St. John, IN: COENEN, Lothar; BROWN, Colin, O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:1983, Vol. IV, pp.673
[27] LUTERO, Martinho IN: CHAMPLIN, Russel Norman, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Voz Bíblica, Vol. 2, pp.274
[28] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.87.
[29] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.
[30] METZGER, Bruce, Textual Commentary on the Greek New Testament. UBS:1971, pp.198.
[31] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.5
[32] VINCENT, Marvin R., Vincent`s Word Studies. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.2
[33] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.50