02.16.09

As Escrituras na Vida dos Filhos de Deus

Enviado em Bibliologia tagged às 5:43 pm por Marcelo Berti

Material extraído da apostila “Autoridade e Suficiência das Escrituras” de Marcelo Berti e Vlademir Hernandes.

Artigo redigido por Vlademir Hernandes.

Bom Proveito!

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1. Boas Práticas a Serem Adotadas

O Salmo 119 traz vários vocábulos para se referir à Palavra de Deus:

  • 1.  towrah – Lei
  • 2.  edah – Prescrições; testemunhos
  • 3.  piqquwd – Mandamentos, preceitos, estatutos
  • 4.  choq – Tarefa; obrigação, decreto
  • 5.  mitsvah – Mandamentos (os 10)
  • 6.  mishpa) – Juízos, julgamentos, justiça, critério de decisão
  • 7. imrah – Palavra, fala

 

Dar o devido valor

“Para mim vale mais a lei (towrah) que procede de tua boca do que milhares de ouro ou de prata.” (Sl 119:72 RA) “A minha alma tem observado os teus testemunhos („edah); eu os amo ardentemente.” (Sl 119:167 RA) “Eis que tenho suspirado pelos teus preceitos (piqquwd); vivifica-me por tua justiça.” (Sl 119:40 RA) “Os teus decretos (choq) são motivo dos meus cânticos, na casa da minha peregrinação.” (Sl 119:54 RA) “Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; mas o teu mandamento (mitsvah) é ilimitado.” (Sl 119:96 RA) “Puríssima é a tua palavra („imrah); por isso, o teu servo a estima.” (Sl 119:140 RA) “Consumida está a minha alma (BLH-O meu coração sofre, ansioso) por desejar, incessantemente, os teus juízos (mishpat).” (Sl 119:20 RA) “Amo os teus mandamentos (mitsvah) mais do que o ouro, mais do que o ouro refinado.” (Sl 119:127 RA)

 

Desenvolver hábitos sistemáticos (cotidianos)

“Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!” (Sl 119:97 RA)

  • Esses hábitos devem maximizar nosso aproveitamento das verdades reveladas pelo Senhor na Sua Palavra.
  • Esse processo de “maximização” do aproveitamento pode ser comparado a um sistema de computação: 
    • “Input” – Leitura, audição

“Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.” (1Tm 4:13 RA)

“Também, quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si um traslado desta lei num livro, do que está diante dos levitas sacerdotes. E o terá consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o SENHOR, seu Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir. Isto fará para que o seu coração não se eleve sobre os seus irmãos e não se aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda; de sorte que prolongue os dias no seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel.” (Dt 17:18-20 RA) “E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós.” (Cl 4:16 RA)

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    • “processamento”
      • Meditação 

“Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos.” (Sl 119:99 RA) “Os meus olhos antecipam-se às vigílias noturnas, para que eu medite nas tuas palavras.” (Sl 119:148 RA). “Eu fico acordado a noite inteira para meditar na tua palavra.” (BLH)

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      • Estudo 

“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.” (1Tm 5:17 RA) “E logo, durante a noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos judeus. Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando (anakrinw- investigar, fazer perguntas, inquirir) as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (At 17:10-11 RA) “Render-te-ei graças com integridade de coração, quando tiver aprendido os teus retos juízos.” (Sl 119:7 RA) “Pois Esdras tinha decidido dedicar-se a estudar a Lei do Senhor e a praticá-la, e a ensinar os seus decretos e mandamentos aos israelitas.” (Ed 7:10 NVI)

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      • “Armazenamento” – Memorização

 “Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti.” (Sl 119:11 RA) “Bendito és tu, SENHOR; ensina-me os teus preceitos. Com os lábios tenho narrado todos os juízos da tua boca.” (Sl 119:12-13 RA) “Com os lábios repito todas as leis que promulgaste.” (Sl 119:13 NVI)

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    • “Output”
      • Benefícios para si e para o Reino

 

2. Benefícios que as Escrituras proporcionam

Consideraremos alguns dos benefícios obtidos por alguém que zela pela Palavra de Deus, conforme o Salmo 119.

Temos aqui 10 benefícios selecionados:

 

1. As Escrituras promovem o desenvolvimento de um amor genuíno por seu Autor

  ”Viva a minha alma para louvar-te; ajudem-me os teus juízos.” (Sl 119:175 RA) “De todo o coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos. Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti.” (Sl 119:10-11 RA) “O SENHOR é a minha porção (herança, bem); eu disse que guardaria as tuas palavras.” (Sl 119:57 RA) “Profiram louvor os meus lábios, pois me ensinas os teus decretos.” (Sl 119:171 RA) “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (Jo 14:15 RA) “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14:21 RA) Porque nisto consiste o amor a Deus: obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados. (1 Jo 5:3 NVI)

 

2. As Escrituras promovem a coerência com o propósito correto da vida

  • Nosso lar não é aqui. Somos forasteiros à serviço do Senhor.

“Sê generoso para com o teu servo, para que eu viva e observe a tua palavra. Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei. Sou peregrino (estrangeiro, estranho) na terra; não escondas de mim os teus mandamentos.” (Sl 119:17-19 RA)

“Os teus decretos são motivo dos meus cânticos, na casa da minha peregrinação (BLH-Na minha curta vida aqui na terra).” (Sl 119:54 RA)

 

3. As Escrituras proporcionam alegria e prazer

 “Não fosse a tua lei ter sido o meu prazer, há muito já teria eu perecido na minha angústia.” (Sl 119:92 RA) “Folgo (alegro-me) com a tua palavra, como aquele que acha um grande despojo.” (Sl 119:162 RC) “Terei prazer nos teus mandamentos, os quais eu amo.” (Sl 119:47 RA) “Mais me regozijo com o caminho dos teus testemunhos do que com todas as riquezas.” (Sl 119:14 RA) “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer, são os meus conselheiros.” (Sl 119:24 RA) “Eis que tenho suspirado pelos teus preceitos; vivifica-me por tua justiça.” (Sl 119:40 RA)

 

4.  As Escrituras promovem um aumento de sabedoria

“Os teus mandamentos me fazem mais sábio que os meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo.” (Sl 119:98 RA) “Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos.” (Sl 119:99 RA) “Eterna é a justiça dos teus testemunhos; dá-me a inteligência deles, e viverei.” (Sl 119:144 RA) “Eu me apresso em obedecer aos teus mandamentos porque assim tu me darás mais entendimento.(RC-quando dilatares o meu coração)” (Sl 119:32 BLH)

 

5. As Escrituras auxiliam na tomada de decisões

 Escolhi o caminho da fidelidade e decidi-me pelos teus juízos.” (Sl 119:30 RA) “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer, são os meus conselheiros.” (Sl 119:24 RA) “Induzo o coração a guardar os teus decretos, para sempre, até ao fim.” (Sl 119:112 RA) “Arrepia-se-me a carne com temor de ti, e temo os teus juízos.” (Sl 119:120 RA) “A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples.” (Sl 119:130 RA)

 

6. As Escrituras orientam a conduta e promovem mudança de vida

 “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos.” (Sl 119:105 RA) “Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca.” (Sl 119:4 RA) “Firma os meus passos na tua palavra, e não me domine iniqüidade alguma.” (Sl 119:133 RA) “Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço.” (Sl 119:165 RC) “Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça. Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade, e vivifica-me no teu caminho.” (Sl 119:36-37 RA) “Firma os meus passos na tua palavra, e não me domine (exerça poder) iniqüidade alguma.” (Sl 119:133 RA) “Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes.”(1 Ts 2:13)

 

7. As Escrituras ajudam a resistir às tentações

 “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra.” (Sl 119:9 RA) “A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus. Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto. Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram.” (Mt 4:1-11 RA)

 

8. As Escrituras são úteis nas aflições

 “Sobre mim vieram tribulação e angústia; todavia, os teus mandamentos são o meu prazer.” (Sl 119:143 RA) “A minha alma, de tristeza, verte lágrimas; fortalece-me segundo a tua palavra.” (Sl 119:28 RA)

 “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos.” (Sl 119:71 RA) “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra.” (Sl 119:67 RA) “Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste. Venha, pois, a tua bondade consolar-me, segundo a palavra que deste ao teu servo. Baixem sobre mim as tuas misericórdias, para que eu viva; pois na tua lei está o meu prazer.” (Sl 119:75-77 RA)

 

9. As Escrituras são fundamentais à saúde do Corpo de Cristo

 Companheiro sou de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos.” (Sl 119:63 RA)

  • Na igreja, essa relação de companheirismo deve necessariamente estar marcada pela ministração mútua da Palavra:

 Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3:16 RA)

  • A Palavra deve ser a fonte de autoridade dos líderes:

apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem.” (Tt 1:9 RA)

 

10. As Escrituras impulsionam à proclamação

 Quem é apegado à palavra, prega a palavra.

 Não tires jamais de minha boca a palavra da verdade, pois tenho esperado nos teus juízos. Assim, observarei de contínuo a tua lei, para todo o sempre. E andarei com largueza (RC-em liberdade), pois me empenho pelos teus preceitos. Também falarei dos teus testemunhos na presença dos reis e não me envergonharei.” (Sl 119:43-46 RA)

Credibilidade História da Bíblia

Enviado em Bibliologia tagged , às 5:23 pm por Marcelo Berti

Material extraído da apostila “Suficiência e Autoridade das Escrituras” de Marcelo Berti e Vlademir Hernandes.

Artigo redigido por Vlademir Hernandes

Bom Proveito!

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Quanto à sua credibilidade histórica, o critério usado com a Bíblia deve ser o mesmo utilizado para avaliar qualquer outro manuscrito antigo.

Existem 4 critérios básicos de avaliação :

  1. Teste bibliográfico
  2. Teste das evidências internas
  3. Teste das evidências externas
  4. A arqueologia

O teste bibliográfico

É o exame da fidelidade na transmissão do texto através das suas diversas cópias.

Uma vez que não existem mais os documentos originais, avaliar a qualidade das cópias torna-se um aspecto fundamental para se verificar a qualidade do documento.

Evidências manuscritas do Novo Testamento:

O teste bibliográfico responde às suposições de que o Novo Testamento sofreu alterações intencionais para acomodar interesses.

Atualmente existem mais de 5.300 manuscritos gregos do Novo Testamento. Além desses, existem mais de 10.000 manuscritos da Vulgata Latina (versão antiga em latim) e pelo menos mais de 9.300 cópias de antigas versões.

Ao todo tem-se 24.000 cópias antigas de porções do Novo Testamento

Nenhum outro manuscrito antigo chega nem perto desse volume de cópias.

Em segundo lugar vem um documento grego chamado A Ilíada de Homero com 643 manuscritos.

Nenhum outro documento da antiguidade tem um intervalo tão pequeno entre as cópias e os originais (os manuscritos mais antigos são do quarto século -  cerca de 250 anos após terem sido escritos). Alguns pequenos fragmentos remontam a 125 dc – 25 anos após a obra original. Parece muito, mas se comparado com outros escritores clássicos é um intervalo insignificante. Um autor antigo, sobre o qual considera-se que sua obra conhecida atualmente é fiel, só existem cópias datadas de 1400 anos após sua morte. Homero (900 aC) tem fragmentos mais antigos datados de de 400 aC – 500 anos de hiato. A obra completa só foi copiada no século treze – após 1.200 Dc.

Existe alguma corrupção entre as cópias? Sim, existe. Existem algumas variações entre as cópias.

Estudiosos desses manuscritos tem calculado que o texto do novo testamento é 98,33% puro (Hort, Geisler e Nix, conforme Josh McDowell).

Frederik Kenyon (uma das maiores autoridades no campo da crítica textual do Novo Testamento) também é citado por Josh mcDowell como tendo afirmado que nenhuma doutrina fundamental da fé cristã depende de algum texto controvertido.

Além disso tudo, o Novo testamento é uma obra grandemente citada pelos primeiros autores cristãos em suas obras. Josh McDowell cita outro estudioso chamado David Dalrymple. Ele diz que já achou citações de todo o Novo Testamento em obras antigas, exceto 11 versículos.

A conclusão é que a credibilidade do Novo Testamento é maior que qualquer outro documento da antiguidade.

Evidências manuscritas do Antigo Testamento:

Ao contrário do Novo Testamento, o AT não dispõe dessa abundância de cópias.

Antes das descobertas do Mar Morto, o mais completo e antigo manuscrito hebraico do AT datava de 900 Dc – intervalo de mais de 1.300 anos do original.

Em 1947, com a descoberta arqueológica dos rolos do Mar Morto, da comunidade de Qumram, encontraram-se manuscritos anteriores à época de Cristo – diminuindo o hiato para menos de 400 anos.

Para avaliarmos a qualidade do texto do AT devemos avaliar os seus copistas.

Os Talmudistas (100-500 Dc)

Eram extremamente criteriosos no processo de gerar cópias do AT.

Suas regras eram:

1. Usar peles de Animais puros

2. preparado por um judeu para uso em uma Sinagoga.

3. Devem ser presas por um fio de pele de animal puro

4. Cada pele deve ter um número fixo de colunas que será mantido por todo o códice.

5. O comprimento de cada coluna não deve ser inferior a 48 nem superior a 60 linhas e a largura deve ter 30 letras.

6. Deve-se traçar inicialmente as linhas de toda a cópia, e se 3 palavras forem escritas sem linha, a cópia fica inutilizada.

7. A tinta deve ser preta, preparada de acordo com uma fórmula específica.

8. A cópia deve se basear em uma cópia autêntica (que passou por todos os rigores)

9. Não se pode escrever nenhuma palavra ou letra de memória. O escriba tem que tê-la visto diante de si.

10. entre cada consoante deve haver o espaço de um fio de cabelo.

11. Entre cada novo “parashah” ou capítulo deve haver o espaço de 9 consoantes.

12. Entre um livro e outro deve haver um espaço de 3 linhas.

13. O quinto livro de Moisés deve terminar exatamente no final de uma linha.

14. O copista deve estar vestido em trajes judaicos a rigor

15. Lavar o corpo todo antes de iniciar o trabalho.

16. não começar a escrever o nome de Deus com uma pena recém mergulhada na tinta.

17. Caso um rei se dirija a ele enquanto escrevendo o nome de Deus, este não deve dar atenção ao rei.

Ou seja, o processo de cópia era um ritual de extremo rigor e seriedade.

A idade de uma cópia talmudista não era uma vantagem para ela – ao contrário, poderia se tornar ilegível em alguns pontos com o tempo, e era então considerada imprópria, e guardada em um armário, existente em cada sinagoga, chamado Gheniza. Quando a Gheniza se enchia, as cópias defeituosas eram queimadas.

Isso explica a ausência de volumes de cópias do AT.

Após uma cópia ter sido conferida, os talmudistas a consideravam autêntica, tendo igual valor que qualquer outra cópia.

Um manuscrito talmudista mais antigo do livro de Isaías era de 980 DC. Quando esse foi comparado com os manuscritos do Mar Morto  (quase 1000 anos entre as cópias) verificou-se 95% de exatidão absoluta, e os outros 5% eram pequenos erros de ortografia. Nesses 1000 anos a mensagem não havia se corrompido!

Os Massoretas (500 – 900 DC)

Os Massoretas criaram um formato de edição e padronização para o texto hebraico.

Seu principal centro de atividades foi Tiberíades.

O texto produzido por eles é denominado texto Massorético. Esse texto recebeu uma sinalização vocálica, para garantir a correta pronúncia.

Atualmente, é o texto hebraico mais considerado como padrão para estudos.

Eles também eram extremamente zelosos na qualidade dos documentos produzidos.

Os Massoretas desenvolveram uma metodologia para garantir a qualidade das suas cópias:

Eles contavam quantas vezes cada letra do alfabeto aparecia em um livro.

Eles faziam cálculos minuciosos, como por exemplo:

a letra que ficava exatamente no meio do Pentateuco,

a que ficava exatamente no meio de todo o AT,

a palavra e a letra central de cada livro

lista de parágrafos que continham todas as letras do alfabeto

outros critérios de contagem e verificação

Seu objetivo era garantir que nenhuma palavra ou sinal massorético fosse perdido no processo de cópia.

A Septuaginta (285 – 246 AC)

Essa versão também testifica a autenticidade do AT.

Foi preparada durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo, do Egito.

Ptolomeu era um grande incentivador da literatura

Em seu reinado foi inaugurada a Biblioteca de Alexandria – que por muito tempo foi uma das grandes maravilhas do mundo.

Seu nome também representado por LXX

Uma carta encontrada, cujo autor era Aristeu da corte de Ptolomeu, conta como a versão foi formada:

O bibliotecário de Ptolomeu, Demétrio, teria convencido Ptolomeu a traduzir para o grego a lei Judaica

Ptolomeu, então enviou uma delegação a Eleazar (Sumo sacerdote em Jerusalém)

Eleazar teria escolhido como tradutores 6 anciãos de cada tribo de Israel (72 anciãos ao todo)

OS 72 anciãos foram levados para a ilha de Faros, e em 72 dias completaram a tarefa de traduzir

A Septuaginta ajuda a confirmar a credibilidade na transmissão.

Os textos utilizados para traduzi-la levaram a uma tradução bem próxima do texto massoretico (hebraico) – as principais divergências da LXX estão no livro de Jeremias.

A Septuaginta junto com outras citações feitas em livros apócrifos de 300 aC comprovam que o texto hebraico que temos hoje é muito semelhante ao existente em 300 AC.

O Texto Samaritano (500 AC)

É um texto que contém o pentateuco – o pentateuco é um subconjunto desse texto

As variações entre o pentateuco samaritano e o massorético é bem insignificante.

Os Targuns

O significado básico de Targun é “interpretação”

São paráfrases e comentários sobre o Antigo Testamento.

Seu valor reside no fato de mostrar que os textos utilizados para os comentários são praticamente os mesmos existentes hoje

Alguns targuns:

Onquelos (60 AC) – contém o pentateuco

Jonatas bem Uzziel (30 AC) – contém livros históricos e os profetas

O Misná (200 DC)

Significado básico é “explicação e ensino”

Contém uma coleção de tradições orais

As citações utilizadas são bem semelhantes ao texto massorético

Os Guemarás (200 DC a 500 DC)

São comentários escritos em aramaico, e que cresceram em torno do misrá

Também contribuem para credibilidade do texto massorético

O Midraxe (100 ac – 300 DC)

São estudos doutrinários do AT.

As citações são também massoréticas.

A Hexapla (ou sêxtupla) (185-254 DC)

Foi uma harmonia do AT preparada por Orígenes em 6 colunas:

A LXX, tradução de Áquila, tradução de Símaco, tradução de Teodócio, o texto hebraico e uma transliteração para o grego.

O texto hebraico é também semelhante ao massorético.

O teste das evidências internas

Esse também averigua se há fraudes, erros ou mentiras deliberadas por parte dos escritores, em relação a fatos conhecidos.

Notar que dificuldades e problemas não solucionados não significam necessariamente erros. Um erro é uma discrepância que se verifica sem sombra de dúvidas.

Argumentos favoráveis ao NT:

Os escritores foram testemunhas oculares dos fatos, ou receberam os mesmos de antemão (Marcos e Lucas):

Lc 1:1  Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, 2  conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, 3  igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem,

2Pe 1:16 ¶  Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade,

1Jo 1:3  o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.

At 2:22  Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis;

Jô 19:35  Aquele que isto viu testificou, sendo verdadeiro o seu testemunho; e ele sabe que diz a verdade, para que também vós creiais.

Lc 3:1 No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene,2  sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto.

At 26:24   Dizendo ele estas coisas em sua defesa, Festo o interrompeu em alta voz: Estás louco, Paulo! As muitas letras te fazem delirar! 25  Paulo, porém, respondeu: Não estou louco, ó excelentíssimo Festo! Pelo contrário, digo palavras de verdade e de bom senso. 26  Porque tudo isto é do conhecimento do rei, a quem me dirijo com franqueza, pois estou persuadido de que nenhuma destas coisas lhe é oculta; porquanto nada se passou em algum lugar escondido. 27  Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem sei que acreditas. 28  Então, Agripa se dirigiu a Paulo e disse: Por pouco me persuades a me fazer cristão. 29  Paulo respondeu: Assim Deus permitisse que, por pouco ou por muito, não apenas tu, ó rei, porém todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias.

Não seria fácil inventar fatos e palavras de Jesus, quando tantas outras testemunhas oculares poderiam facilmente contradizê-los

Eles precisavam estar atentos também aos inimigos de Cristo, que poderiam contradizê-los facilmente, se manipulassem a verdade.

Ao contrário de temer, um ponto forte da pregação inicial dos apóstolos é o apelo confiante ao conhecimento dos ouvintes.

Dos 12 apóstolos, excetuando-se Judas, 10 foram assassinados por causa da mensagem que pregavam, e 1 (João) foi barbaramente torturado por ela.

É plausível crer que 11 pessoas estivessem dispostas a sacrificar suas próprias vidas para sustentar uma mentira deliberada?

O teste das evidências externas

Esse teste se propõe a averiguar se existem fontes externas que confirmam sua exatidão

Alguns exemplos:

Eusébio em sua obra História eclesiástica preserva escritos de Pápias, bispo de Hierápoles (130 dc):

“O ancião (apóstolo João) também costumava dizer o seguinte: Marcos, tendo sido intérprete de Pedro, escreveu fielmente tudo o que ele (Pedro) mencionava, fossem palavras ou obras de Cristo; todavia não o fez em ordem cronológica, pois não esteve ouvindo pessoalmente o Senhor nem o esteve acompanhando, mas mais tarde, como eu já disse, ele acompanhou Pedro. Dessa forma, então, Marcos não cometeu qualquer erro, tendo assim escrito algumas coisas à medida que ele , Pedro, mencionava, pois ele prestava toda atenção à isso, a fim de não omitir qualquer coisa que ouvisse, nem incluir qualquer afirmação falsa no que registrava.”

“Mateus registrou os oráculos na língua hebraica (aramaica)”

Irineu, bispo de Lion (180 DC)

Foi discípulo de João

Deixou por escrito sua credibilidade nos evangelhos:

“Tão firme é a base sobre a qual esses evangelhos repousam que os próprios hereges dão testemunho a favor desses livros, e tomando-os por base, cada um deles se esforça para estabelecer sua própria doutrina”

“O Verbo nos deu o evangelho em forma quádrupla, forma que se mantém coesa em um só espírito”

“Mateus divulgou o evangelho entre os hebreus na língua deles, enquanto Pedro e Paulo pregavam o evangelho em Roma”

“Marcos transmitiu por escrito a pregação de Pedro”

“Lucas, o seguidor de Paulo, pôs num livro o evangelho pregado por seu mestre”

“João escreveu seu evangelho quando vivia em Éfeso, na Ásia”

Clemente de Roma (95 DC)

Também usa as escrituras como confiáveis e autênticas

Inácio, bispo de Antioquia (entre 70 e 100 DC)

Foi martirizado por sua fé (jogado às feras no coliseu de Roma)

Conheceu todos os apóstolos, e foi discípulo de Policarpo, discípulo de João

Registrou sua credibilidade nas escrituras, a ponto de morrer pelo que elas continham

Policarpo (70-156 DC)

Discípulo de João

Sofreu martírio aos 86 anos de idade por sua devoção à cristo e às escrituras

Vários membros da sua igreja em Esmirna também foram martirizados por Antonio Pio

Foi queimado em uma fogueira

Flávio Josefo (historiador judeu – nascido em 37 DC)

Em sua obra Antiguidades, livro 18 capítulo 5 ele confirmam a história de João Batista e sua execução por Herodes Antipas.

(embora hajam diferenças apontadas por ele na causa da morte de João Batista)

Além disso tudo, o Novo Testamento é uma obra grandemente citada pelos primeiros autores cristãos em suas obras. Josh McDowell cita outro estudioso chamado David Dalrymple. Ele diz que já achou citações de todo o Novo Testamento em obras antigas, exceto 11 versículos.

A arqueologia

Nelson Glueck – renomado arqueólogo judeu- diz “Pode-se afirmar categoricamente que até hoje nenhuma descoberta arqueológica contradisse qualquer informação dada pela Bíblia”.

William F. Albright – reputado como um dos grandes arqueólogos da atualidade-

“Não pode haver dúvida alguma de que a arqueologia tem confirmado a historicidade substancial da tradição do Antigo Testamento”.

“Progressivamente o exagerado ceticismo para com a Bíblia foi sendo desacreditado”

“Uma descoberta atrás da outra tem confirmado a exatidão de incontáveis detalhes e tem feito com que a Bíblia receba um reconhecimento cada vez maior como fonte histórica”

“À medida que o estudo crítico da Bíblia for cada vez mais influenciado pela abundância de material recém-descoberto, vindo do antigo Oriente Próximo, observaremos um aumento crescente do respeito para com o significado histórico de passagens e detalhes atualmente negligenciados e menosprezados, tanto do antigo quanto do novo testamento”

Millar Burrow – Universidade de Yale

“Em muitos casos a arqueologia tem refutado as opiniões de críticos modernos. Ela tem demonstrado que essas opiniões repousam sobre pressuposições falsas e esquemas irreais e artificiais de desenvolvimento da história”

Exemplos de descobertas arqueológicas que confirmam a Bíblia:

Tabletes de Ebla:

Alguns críticos modernos têm proposto a “hipótese documentária” com base na qual afirmam que à época de Moisés, cerca de 1400 AC, ainda não havia qualquer conhecimento de escrita – portanto, Moisés não poderia ter escrito o Pentateuco.

Esses críticos afirmam também que o conteúdo da legislação do Pentateuco é muito avançado para essa época.

Por conta disso, eles têm refutado a autoria mosaica do Pentateuco, afirmando que esses documentos teriam sido obras fictícias escritas por alguém muito tempo depois.

Também tem sido refutada como histórica a vitória de Abraão sobre Quedorlaomer e os 5 reis mesopotâmeos descrita em Gênesis 14. Também têm sido consideradas lendárias as 5 cidades da planície mesopotâmia (Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar)

Desde 1974 têm sido encontrados 17.000 tabletes de Ebla, no norte da Síria.

Ebla foi uma proeminente cidade antiga. No auge do seu poder em 2300 AC tinha 260.000 habitantes.

Foi destruída em 2250 AC.

Esses tabletes contém o registro de vários acontecimentos, costumes e códigos legais de Ebla.

Como as descobertas dos tabletes auxiliam a confirmar a Bíblia:

Os tabletes foram escritos quase 1000 anos antes de Moisés – o que prova que em uma idade bem anterior à de Moisés, havia escrita na região.

Os tabletes contém um código legal tão complexo quanto o do Pentateuco – o que combate a hipótese de os mesmos serem muito avançados para a época.

Os tabletes de Ebla citam as 5 cidades da planície mesopotâmia – confirmando sua historicidade.

O Túmulo de José

John Elder em seu livro “Profetas, Ídolos e escavadores” faz um interessante comentário:

“Nos últimos versículos de Gênesis lê-se sobre como José conjurou seus parentes a transportarem seus ossos para a terra de Canaã quando Deus viesse a restaurá-los à sua terra de origem. E em Josué 24:32 é narrado como seu corpo foi realmente transportado para a Palestina e sepultado em Siquém. Durante séculos houve um túmulo em Siquém reverenciado como o túmulo de José. Anos atrás, esse túmulo foi aberto. Achava-se ali um corpo mumificado de acordo com os costumes egípcios. E nesse túmulo, entre outras coisas, foi encontrada uma espada do tipo usado por oficiais egípcios.”.

Os Hititas

Os hititas são povos mencionados na Bíblia, mas sobre os quais não havia nenhuma outra fonte.

Por muito tempo, muitos achando que eles nunca existiram, taxavam os textos bíblicos que os citavam como sendo fantasiosos.

Recentes escavações arqueológicas têm confirmado a existência desse povo, confirmando a narrativa bíblica.

OS tabletes de Tell-El-Amarna

Esses tabletes confirmam muitos relatos bíblicos sobre o quadro da palestina à época da conquista de Canaã.

Em um dos tabletes, um governador de Jerusalém escreve ao faraó Akhnaton (1937 – 1366 AC) rogando ajuda egípcia contra os Hebreus que estavam invadindo a região.

Conclusão

Para concluir os 4 critérios de análise, consideremos a declaração de Josh McDowell:

“Depois de tentar refutar a historicidade e a validade das escrituras, cheguei à conclusão que elas são historicamente confiáveis.”

A Vida do Evangelista

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 4:10 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

É fato que ações falam mais que palavras. A fim de que a mensagem das Boas Novas seja proclamada e não negligenciada, é essencial que nós, como evangelistas, adotemos alguns padrões ou qualidades em nosso viver, pois estamos sendo observados a cada passo dado e a cada palavra falada. Mais do que ouvir o evangelho, os não-cristãos estão interessados em ver em nós o evangelho. Com certeza, o que mais proporcionou a eficiência dos grandes evangelistas foi o modo de vida.

1. O evangelista e a santidade 

O evangelista precisa ter cuidado redobrado com sua vida de santidade, visto que esta é a área em que mais somos atacados. Diariamente somos bombardeados por conceitos que deturpam os padrões divino para a vida dos Seus filhos. Artistas renomados, programas assistidos por muitos cristãos e não-cristãos, jornais e revistas têm transmitido a idéia de que santidade é sinônimo de ultrapassado, o que importa hoje é deixar a imaginação correr solta e buscar satisfazer todos os prazeres da carne. Esses conceitos têm se infiltrado no meio cristãos e influenciado a muitos. Os não-cristãos já não nos olham mais como referenciais, eles quase não conseguem fazer distinção dos padrões de vida e, por isso, acham que estão bem onde estão e se saírem, não vai mudar muita coisa.

Ao lermos a Palavra de Deus vemos bem claro as instruções dadas para um viver santo. Em 1 Pedro 1.14-16, a orientação do apóstolo é para não nos deixarmos amoldar pelos desejos que tínhamos antes de nos tornarmos filho de Deus, e esses desejos são considerados por ele como maus. Pedro ainda nos instrui a sermos santos em tudo o que fizermos e faz alusão a uma citação de Levítico 11.45 em que Deus diz: “Sejam santos, porque eu sou santo”. Este é que deve ser o nosso referencial de santidade.

A santidade envolve o nosso pensar. Paulo diz que todas a coisas que forem nobres, corretas, amáveis, puras, todas as coisas que forem de boa fama, nestas devemos pensar, ou seja, estas devem ocupar nossos pensamentos (Fp 4.8). Lembro-me de ter visto a propaganda de um tênis em um outdoor que trazia os seguintes dizeres: “Garotas gostam de rapazes com tênis limpinho e uma mente poluída”. Isso reflete a mentalidade desta geração, enquanto somos exortados a mantermos uma mente pura, o mundo tenta induzir-nos a  mantermos pensamentos impuros. O evangelista, pensando em todo cristão como um evangelista em potencial, deve zelar por manter uma mente pura, pensamentos que tragam edificação.

E o que falamos? Será que os não-cristãos observam isto também? Sem dúvida alguma, com já disse, estão observando tudo, e mesmo que não estivessem observando, as nossas palavras também devem edificar aos que as ouvem (Ef 4.29). Em nosso vocabulário não devem existir palavras torpes[1], pois para nada servirão, senão para escandalizar o nome de Cristo.

No texto de 1 Pd 2.12 somos chamados a viver de maneira exemplar, de modo que as pessoas nos observem e não encontrem falhas para nos acusar. Uma vez que fomos salvos, devemos nos considerar mortos para o pecado, e não permitirmos que domine sobre nossas vidas, pois fomos libertos da escravidão do pecado. Cada membro do nosso corpo deve ser oferecido a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.11-13).

Deus requer daqueles que estão anunciando a Sua mensagem de salvação uma vida de santidade, irrepreensibilidade, uma vida que reflita o Seu caráter santo.

2. O evangelista e a oração

A Igreja de Jerusalém crescia a cada dia, conforme o Senhor lhes acrescentava os que iam sendo salvos (At 2.47). Note que no verso 42 relata que os crentes daquela Igreja se dedicavam ao ensino e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Entendemos que a oração é fundamental na vida de cada cristão e por isso ela  deve fazer parte da vida  de um evangelista.

Charles H. Spurgeon dizia aos seus colegas pregadores:

Devemos ter por norma jamais ver a face dos homens antes de vermos a face de Deus…Quem sai correndo da cama para as ocupações sem primeiro passar tempo com Deus, é tão insensato quanto seria se não se lavasse nem se vestisse; é tão imprudente quanto o soldado que se lança na batalha sem armas nem armadura[2].

Jesus Cristo ensinou para os Seus discípulos que deveriam manter sempre uma vida de oração, e jamais se desanimar (Lc 18.1). Quando Paulo escreveu para o jovem Timóteo, disse: “Quero, pois, que os homens orem em todo lugar…” (1 Tm 2.8a), e aos tessalonicenses, Paulo falou: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). Podemos ver o quanto a oração é valiosa para a vida de qualquer um que queira viver uma vida de compromisso com Deus e queira empenhar-se na missão de anunciar a todo homem que Jesus Cristo é o único caminho para livrá-lo da perdição eterna.

É muito comum ouvir alguém dizer que já está cansado de falar de Jesus para determinada pessoa e parece que não está adiantando nada, mas é raro ouvir alguém dizer que já está cansado de orar por aquela pessoa para que ela compreenda o evangelho porque também não está adiantando nada. Muitas vezes queremos ganhar as pessoas para Cristo somente pelo falar, e a oração é deixada de lado ou para quando não nos resta mais nada a fazer. Precisamos aprender a começar a evangelização pela oração. Tiago disse que a oração de um justo é poderosa e eficaz (Tg 5.16b). Precisamos pedir que Deus intervenha na vida daquele para quem falaremos do evangelho e também na nossa vida, como instrumentos nas mão de Deus. Não podemos esperar influenciar os corações endurecidos e almas errantes da humanidade sem convidar Deus para que Ele nos dê poder e abençoe nossos esforços, por si mesmos estéreis, em favor de sua causa eterna.

3. O evangelista e as Escrituras

Muitos fracassam na evangelização por não conhecerem as Escrituras e indiscutivelmente só a conheceremos se nos dedicarmos a estudá-la. Não basta apenas transmitirmos a Palavra, é preciso também nos alimentarmos dela. Nós podemos querer ter sempre uma mensagem simples ao apresentarmos o evangelho, mas para sabermos comunicá-la bem, mesmo no plano mais simples, temos de conhecer mais do que meramente as verdades básicas. Pedro nos exorta a estarmos sempre preparados para respondermos a qualquer um que pedir a razão da esperança que há em nós se não a conhecermos, infelizmente teremos que nos calar (1 Pe 3.15),.

É evidente para todos que o conhecimento acerca da Palavra é fundamental para quem deseja viver uma vida cristã dinâmica, de acordo com os planos divinos para os homens. O salmista diz que bem-aventurado é o homem que medita na Palavra dia e noite; o homem que se dedica em estudar e compreender a lei do Senhor. Este homem é comparado a uma árvore que é plantada junto a ribeiros de águas, uma árvore cuja folhagem não murcha e cujo fruto dá no tempo certo (Sl 1.1-3). Tais árvores possuem suas raízes profundas, mesmo que venha uma tempestade e vento forte ela permanece firme. O servo do Senhor que medita na Palavra dia e noite não será facilmente abalado.

Estudar as Escrituras é importante. Tiago falando sobre o valor deste livro enfatiza que não é suficiente conhecê-lo nos mínimos detalhes se não permitirmos que ele nos mude. Diz ele que aquele que é apenas ouvinte da Palavra e não praticante, engana-se a si mesmo e é semelhante ao homem que contempla o próprio rosto no espelho e saindo logo se esquece como era sua aparência (Tg 1.22-24).  Aquele, porém, que ouve e pratica será bem sucedido em tudo o que realizar (Tg1.25, Sl 1.3). Logo, se meditarmos e nos esmerarmos em praticar as Escrituras obteremos sucesso na proclamação do evangelho.

Como evangelistas precisamos ter em mente que Deus está mais interessado em nossa intimidade com Ele do que em nossa atividade para Ele. É lendo e meditando na Palavra que ouviremos a voz de Deus, que aprenderemos a como ter intimidade com Ele, pois Sua vontade, seus preceitos e instruções estão expressos nas Escrituras.

4. O evangelista e a paixão pelos perdidos

Um evangelista que tenha paixão pelos perdidos quando olha para o mundo e vê a situação em que se encontram, sem Deus, perdidos caminhando rumo ao inferno, ele sente compaixão e um profundo desejo em anunciar-lhes o caminho que os livra da perdição.

Ao observarmos a vida de Estevão, notamos um homem que amava os pecadores, tanto aos seus amigos quanto aos seus inimigos. Ao final de sua vida, enquanto alguns homens ímpios o apedrejavam por causa da mensagem que pregava a respeito de Jesus Cristo, ele orou a Deus dizendo: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Com estas palavras adormeceu”( At 7.59-60). Uma demonstração de amor incondicional, mesmo morrendo, sua preocupação estava voltada para aqueles que poderiam morrer sem compreender o evangelho, os seus próprios assassinos.

Vale a pena lembrarmos novamente os exemplos de Paulo, Filipe e do Senhor Jesus, que amaram os pecadores e gastaram suas vidas proclamando-lhes a mensagem de salvação. Através destes exemplos, precisamos aprender ou desenvolver a paixão pelos perdidos. Normalmente as pessoas desempenham melhor e com mais motivação, um trabalho pelo qual sentem amor. Se não amarmos o pecador não nos sentiremos motivados a falar-lhe a respeito do plano de Deus para sua vida. Nos exemplos que vimos, o amor pelo pecador é notório.

Deus não está em busca de profissionais de sucesso para desempenharem a tarefa de evangelização, Ele quer pessoas que tenham disposição, disponibilidade, vida, paixão. Pessoas que se coloquem em Suas mãos para serem usadas conforme o que Ele planejar e quiser, e não conforme o que elas planejarem e quiserem.  Jesus chamou homens simples, provavelmente sem muita instrução; homens comuns (At 4.13). Não eram do tipo que alguém esperaria que conquistasse o mundo para Cristo.       No entanto, naqueles homens simples, Jesus viu líderes em potencial do Seu reino. Eram homens capazes de ser ensinados, homens honestos, prontos a confessar a sua própria necessidade.

É imprescindível que o evangelista que deseja ver vidas sendo transformadas, tenha também sua própria vida transformada. Como poderemos impressionar a outros com a beleza da santidade, com a felicidade da harmonia e comunhão com Deus, com o valor infinito da crucificação e com a ternura de Jesus, sem que nós mesmos estejamos desfrutando de tais experiências?

O apóstolo Paulo viveu de tal forma que teve autoridade de vida para dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co 11.1). Paulo era um cristão que levava a mensagem da cruz, mas levava também as marcas da cruz consigo: uma vida de santidade, oração, dedicação ao estudo da Palavra e paixão pelos homens perdidos. Sendo seus imitadores, com certeza seremos evangelistas eficientes na tarefa de ganhar almas para Cristo.


[1] Segundo Aurélio, torpe pode ser: desonesto, impudico, infame, ignóbil, repugnante, nojento, obsceno, indecente e também maculado – Novo dicionário da língua portuguesa – p. 1692.

[2] SUMNER, Roberto L. Evangelização em chamas. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1965. p. 27.

Exemplos Bíblicos de Comunicadores do Evangelho

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 4:07 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

A Bíblia está repleta de exemplos de pessoas que alcançaram sucesso na proclamação das Boas Novas aos homens. Observaremos pelo menos três destes exemplos a fim de descobrirmos algumas de suas qualidades e táticas usadas para que fossem ouvidos: e exemplo de Paulo, Filipe e Jesus.

1. O exemplo do de Paulo

Vemos em Paulo o esforço e a dedicação em ganhar almas para Cristo. Em 1Co 9.19-23 ele afirma que fez de tudo para com todos a fim de ganhar alguns, e deixou bem claro que o seu interesse era ganhar o maior número possível. Paulo buscou ser semelhante socialmente, através do contato diário com as pessoas. Ele era diferente em questões éticas, nas quais mantinha-se firme, mas estabeleceu pontes para ser igual, pois havia em si uma consciência flexível em assuntos sem importância moral. Ele foi muito criticado por essas coisas, mas o que era importante para ele é que o nome de Cristo estava sendo anunciado. Quando Paulo afirma: “…ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Co 9.16b), percebemos que ele tinha plena consciência de sua missão. Ganhar almas para Cristo era mais importante que preocupar-se com o que os irmãos pensariam ou falariam. Isso não significa que Paulo não se preocupava com seus irmãos em Cristo, pelo contrário, ele tinha por eles respeito e zelo muito grandes (1Ts 2.7-12).

Jônatas Edwards, um dos grandes evangelistas do passado, ficou muito conhecido por sua eficácia em ganhar almas, escrevia seus sermões por extenso; lia-os em voz monótona, página por página, segurando o manuscrito perto dos olhos porque era míope; mesmo assim algumas vezes as pessoas do auditório agarravam-se aos bancos com medo de cair no inferno dos pecadores, pois seus sermões transmitiam palavra de fogo, verdades tão vívidas, que multidões foram conquistadas para Deus. Não era a personalidade do homem que os atraía, mas sim as verdades divinas que estavam sendo proclamadas[1]. Sua confiança não era em si mesmo, no que poderia ou não realizar, mas sim no que Deus era capaz de realizar através de Sua vida, e Paulo não devia pensar muito diferente deste homem, visto que o grande número de almas que Paulo ganhou para Cristo, não foi atraída por sua personalidade (1 Co 2.4,5) nem por sua presença corporal (2 Co 10.10), mas pela Palavra que pregava, pelo Espírito que nele habitava.

Vivemos em uma sociedade capaz de dar a própria vida na luta pelos seus direitos. Esta é uma mentalidade que tem entrado sorrateira no meio evangélico, onde as pessoas só pensam e si mesmas. O exemplo que temos em 1 Coríntios 9.1-15 é totalmente o oposto, o apóstolo Paulo abriu mão dos “seus direitos” para pregar o evangelho, ou seja, para beneficiar a outros. Havia nele a disposição de passar por necessidades se fosse necessário para que fosse eficiente na pregação do evangelho. Muitas vezes nós precisaremos abrir mão do nosso conforto, das nossas vontades a fim de anunciar o evangelho àqueles a quem ninguém está disposto a anunciar.

Enquanto prisioneiro, a preocupação do apóstolo não estava em como sair daquela prisão, ou em como provar sua inocência, mas ele se alegra com a situação em que se encontra porque como resultado dela muitos vieram a conhecer a Cristo, e ainda muitas pessoas se sentiram motivadas a anunciar com maior intrepidez a mensagem capaz transformar o homem por inteiro (Fp 1.12-14). Tudo uma questão de valores, para Paulo nada teria importância em sua vida se ele não cumprisse o propósito para o qual ele foi liberto da escravidão do pecado.

Notamos por fim que Paulo era um homem que tinha paixão pelas almas. Certa vez fez a seguinte declaração: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: que tenho grande tristeza e incessante dor no coração; porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne”( Rm 9.1-3). Disse mais: “Irmãos, os votos do meu coração e a minha oração a Deus são que eles se salvem ( Rm 10.1).

Paulo foi excelente comunicador da mensagem do evangelho, e isso graças a uma vida de compromisso com Deus, uma vida de temor e reverência àquele que tem todas as coisas sob o Seu controle.

2. O exemplo de Filipe

Filipe era um dos sete homens que  foram escolhidos para servir na Igreja de Jerusalém, era um homem de boa reputação, cheio do Espírito e de sabedoria (At 6.1-7). Além de destacar-se em várias áreas de sua vida, encontramos evidências de que ter sido um grande evangelista. Em Atos 8.4-8, o encontramos como um pregador de grandes multidões; com toda coragem pregava a Palavra de Deus por onde quer que passasse. Um pouco mais adiante o encontramos praticando o evangelismo pessoal (At 8.26-36).

Como comunicador da mensagem do evangelho, Filipe tem muito o que nos ensinar com a sua forma de agir e de apresentar a mensagem. Observemos em Atos 8.26-35 algumas das virtudes deste grande evangelista.

No verso 26 diz que um anjo do Senhor disse a Filipe para onde ele deveria ir, e sem questionar nem retrucar ele obedeceu a orientação de Deus. Havia neste homem a sensibilidade para ouvir a voz de Deus, fruto de sua comunhão constante com o Pai, e também a disponibilidade para obedecer e atender ao chamado. Filipe não sabia qual o local exato para onde deveria ir e nem com quem se encontraria, mas uma coisa ele sabia: era Deus quem lhe estava falando e nEle ele poderia confiar e deveria atender ao chamado. Filipe tinha um coração disposto a ouvir e a atender à voz de Deus. O contrário aconteceu com o profeta Jonas, que diante do chamado de Deus para pregar o arrependimento a Nínive colocou-se à disposição, porém, para desobedecer a ordem divina (Jn 1.1-3).

No verso 29, percebemos mais uma vez a sensibilidade de Filipe em ouvir e atender à voz do Espírito de Deus, pois tendo obedecido desde o primeiro momento, encontrou no caminho um oficial, o Eunuco Etíope, que estava lendo o livro de Isaías. Filipe é orientado a aproximar-se da carruagem, mesmo sem conhecer o homem a quem mais adiante abordaria com a mensagem do evangelho.

Como evangelista, Filipe ficou atento ao que o Eunuco lia, e no momento certo fez a abordagem. A forma que usou para iniciar uma conversa foi perguntando ao homem se ele entendia o que estava lendo. O grande evangelista não precisou criar uma situação para falar do evangelho, ele aproveitou a oportunidade e a ocasião, e ficou atento para o momento certo de agir. Podemos deduzir também que Filipe conhecia bem as Escrituras, fator que muito contribuiu para facilitar sua abordagem, pois caso não a conhecesse, como responderia a dúvida do Eunuco?

Por fim, nos versos 34 e 35 vemos a objetividade de Filipe, que diante da pergunta do Eunuco, anunciou-lhe as boas novas de Jesus começando pela passagem onde estava aberta as Escrituras. Havia em sua mente um objetivo determinado, falar a respeito do sacrifício de Jesus. Portanto, ele manteve o assunto voltado para as Escrituras, pois aquela poderia ser a única oportunidade para aquele homem ouvir do evangelho. Naquele mesmo dia o Eunuco compreendeu o evangelho e foi batizado (vv. 38-39).

Filipe foi mais um homem que viveu para comunicar a mensagem do evangelho por onde quer que passasse e a quem quer que encontrasse (At 8.40).

3. O exemplo de Jesus

Por último, o exemplo do próprio Cristo, exemplo máximo e perfeito de evangelista. Para chamarmos a atenção dos não-cristãos como Jesus, devemos comunicar a verdade espiritual da mesma forma que Ele comunicou. Jesus não só falava sobre o amor, como também amou. Ele não só pregava sobre o perdão, ele perdoava; as pessoas pecadoras e atormentadas pela culpa caíam a Seus pés, perdoadas e limpas. Eles O consideravam seu amigo. Ele não só proclamava a necessidade de justiça e integridade como também atacou instituições iníquas de Seu tempo. Ele não começou um instituto bíblico nem estabeleceu uma cadeira de teologia em nome de Seu Pai; mas sim convidou homens para morarem com Ele vinte e quatro horas por dia. A Sua estratégia foi tornar-se carne e viver entre eles.[2]

Jesus ia de encontro às necessidades, feridas e interesses das a fim de construir uma ponte para evangelizá-las pessoas (Lc 4.18-19). Quando faltou vinho em um casamento, supriu uma necessidade – transformou água em vinho, e por intermédio deste milagre a glória do Senhor foi revelada a muitos (Jo 2.1-11). Em outra ocasião Jesus aproximou-se de uma mulher samaritana, mesmo sendo um judeu[3] e iniciou um diálogo com ela; note que para falar a respeito de salvação com aquela mulher, Jesus partiu de um ponto em comum, Ele estava com sede e aquela mulher estava buscando água, e lhe falou a respeito da água da vida (Jo 4.1-42). Para muitos, tal atitude seria um absurdo, como poderia Jesus um judeu conversando com uma mulher samaritana, e ainda mais, considerada de má fama na cidade. Entretanto, Ele não estava preocupado com o que as pessoas pensariam a seu respeito, sua preocupação era com a vida daquela mulher.

Os ensinamentos de Jesus eram claros, relevantes e aplicáveis, Ele procurava relacionar a verdade com a vida das pessoas. O Seu alvo era transformar vidas e não apenas informá-las. Não é suficiente simplesmente proclamarmos que “Cristo é a única resposta”, ou que “Jesus é a liberdade”, é necessário mostrar às pessoas que o que elas estão freneticamente buscando, somente em Cristo encontrarão: perdão, liberdade, segurança, alegria, propósito para a vida e amor verdadeiros. Jesus falava e também mostrava que Ele era o “caminho, e a verdade e a vida”.

Na comunicação da mensagem do evangelho Jesus falou às multidões num estilo interessante e prático, as pessoas gostavam de ouvi-lo, pois Ele ensinava verdades profundas de forma simples, sem ser simplista ou superficial e ainda, conseguia ser criativo usando ilustrações que auxiliassem na compreensão da mensagem transmitida(Mc 10.1, 12.37b).

Nos evangelhos nota-se que Jesus gostava mais de estar com o povo que com os líderes religiosos. Ele freqüentava as festas dos pagãos; foi até chamado de “amigo dos pecadores” (Lc 7.34). É importante ressaltarmos que há uma grande diferença entre ser amigo dos pecadores e amigo dos pecados. Jesus andou entre o povo, falou sua língua, observou seus costumes, cantou suas canções, porém, fez tudo isto sem comprometer Sua missão e mensagem, Ele sempre abominou o pecado e nunca deixou de amar os pecadores.

Jesus é o exemplo máximo de evangelista, pois estava disposto a sofrer dores, oposições, injustiças; estava disposto a quebrar preconceitos e paradigmas, a fim de que o homem pudesse ouvir as boas notícias de salvação, e acima de tudo, Ele amou o pecador até a morte.


[1] BOYER, Orlando. Esforça-te para ganhar almas. São Paulo: Vida, 1975. p. 23-24.

[2] ALDRICK, Joseph C. Op. cit. p. 29.

[3] Em João 4.9 diz que os judeus não se davam bem com os samaritanos.

Como entender os Descrentes?

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 4:04 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

As pessoas que são arredios ao evangelho (a Deus) são bem variados, tanto homens quanto mulheres, tanto jovens quanto adultos.

O que pensam estas pessoas, de nada nos adiantaria saber seu perfil sem entender o que se passa em sua cabeça. Baseado no livro “Como alcançar os que evitam a Deus e a Igreja”.

Cientes de que nem todos pensam da mesma forma a respeito de Deus e da Igreja, cada geração tem suas peculiaridades, eis aqui algumas observações gerais que poderão ser úteis na compreensão dos descrentes.

O fato de o não-cristão ter rejeitado a Igreja não significa que também rejeitou a Deus

São vários os motivos pelos quais alguma pessoa pode ter se afastado de uma igreja, pode variar desde decepções a desinteresse. Muitos julgam-na antiquada, ultrapassada, e preferem manter distância. Geralmente estas pessoas estão mais abertas para conversar sobre Deus do que imaginamos.

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos constatou que cerca de 13% das pessoas são atéias ou agnósticas. Porém, apesar de a maior parte das pessoas dizerem que acreditam em Deus, constatou-se também que dentre os que acreditam havia algumas diferenças no que se refere a que espécie de divindade acreditavam. Alguns ao se referirem a um princípio do bem, referiam-se a Deus, e outros viam Deus como aquele que realizou o big-bang, ou aquele que criou o universo e deixou tudo correr livremente, sem intervenções. Penso que no Brasil não é tão diferente.

Muitos afirmam: Acredito em Deus mas não acredito na igreja. Consideram a igreja sem sentido, sem significado, incapaz de ajudá-lo em alguma coisa. Muitos destes são os que tiveram alguma experiência religiosa e se decepcionaram de alguma forma com igreja. Para trazer tais pessoas de volta faz necessário que as igreja superem tais objeções.

Tem sido interessante ver o quanto as pessoas tem demonstrado interesse em estudar a Bíblia, em aprender sobre Deus e o Seu plano, mas quando se fala de igreja muitos se assustam e até mesmo se distanciam, pois há algum tipo de preconceito, barreiras que precisam ser quebradas a todo custo.

O descrente opõe-se a regras, mas é sensível ao raciocínio

Os não-cristãos geralmente não gostam que lhe digam o que devem fazer.

O não-cristão é resistente à idéia de que a Bíblia determina os padrões para se viver. Ele acha que ele mesmo é capaz de determinar o que é bom ou não para ele, e o que deve ou não fazer.

Ao mesmo tempo que não gostam que lhe digam o que devem ou não fazer, estão prontos para ouvir e racionar. Se tentarmos mostrar-lhes o que Deus colocou como limite moral para nós e mostrá-lo os benefícios de sujeitar-se a eles, isto o torna mais pronto a segui-los.

Um exemplo específico disto é se encontrar-se com alguém que vive com a namorada. Certamente você poderia apresentar-lhe vários versículos bíblicos que mostram que sua atitude é reprovada por Deus. Provavelmente ele não lhe daria ouvidos, porém se você lhe explicasse os danos emocionais, psicológicos, e familiares que tal relacionamento pode causar, ele estaria mais pronto para ouvir, e então você apresentaria o que as Escrituras dizem a respeito do assunto, que é uma demonstração do amor de Deus querendo poupar-nos de tais problemas que podem surgir como fruto de um relacionamento íntimo sem a segurança de um casamento.

É importante mostrar-lhes os benefícios de se viver nos caminhos do Senhor. As pessoas afastadas de Deus estão sempre prontas a ouvir quando o assunto é ‘como podem se beneficiar’[1].

A maioria dos não-cristãos não compreendem o cristianismo e nem sabem exatamente em que acreditam

Embora muitos não-cristãos já tenham ouvido falar algo a respeitos dos cristãos, ou da Bíblia, embora muitos até tenham uma Bíblia em casa, eles não compreendem o que é o cristianismo, ou seja eles não sabem o que é ser cristão.

Não podemos partir do pressuposto que eles sabem alguma coisa, para alguns a rejeição ao cristianismo não está fundamentada em conhecimento algum, é simplesmente porque os amigos o fazem, ou a família, mas ele mesmo nem sabe o motivo.

Hoje em dia a sociedade tem sido bombardeada pelo misticismo, esoterismo e uma série de idéias erradas que geram uma confusão ainda maior na cabeça do não-cristão, que não conhece o verdadeiro cristianismo, e acaba colocando tudo no mesmo pacote.

A orientação dada por Lee Strobel é que ao conversarmos com algum não-cristão não devemos pressupor nada. O interessante é ouvir a sua visão do cristianismo e avaliar o nível do seu conhecimento. Neste processo pedir esclarecimento de termos usados, pois nem sempre por ele falar sobre salvação, pecado, graça, significa que para ele tem o mesmo significado que tem para você.

Além de não conhecer o cristianismo, a maioria dos não-cristãos nem sabem o que afirmam crer. São incapazes de enunciar e muito menos de defende suas crenças. Neste casos é interessante levá-los a avaliarem suas crenças e onde estão fundamentadas, se são fontes consideradas verdadeiras, se são fontes nas quais ele pode confiar sua vida. Finalmente ajudá-lo a ver a firme fundação sobre o qual o cristianismo se baseia.

“Temos uma fonte verdadeira que ser sustenta com base na história, na arqueologia, nos relatos de testemunhas oculares, em artigos de pessoas não relacionadas com o cristianismo. Uma fonte cuja sobrenaturalidade foi patenteada pelo cumprimento de profecias e por milhões de vidas transformadas por Jesus”[2].

Provavelmente o não-cristão se tornará mais receptivo para conversar sobre o cristianismo após perceber que suas crenças não tem aquelas bases que ele presumia ter.

O não-cristão não quer ser o projeto de alguém. Ele gostaria, porém, de ser amigo de alguém

É possível que você já teve um amigo interesseiro, ou você já foi um amigo interesseiro. Há aqueles que se aproximam para uma amizade com o interesse de obter informações sobre escola, trabalho, sobre alguém, outros mantêm uma amizade devido a quantidade de dinheiro que o outro possui, ou o carro que lhe serve de carona, e por aí vai. Este é o tipo de amizade que não dura muito.

Muitos não-cristãos sentem que os cristãos aproximam-se deles simplesmente com um interesse, o de convertê-los. Ninguém gosta de saber que está sendo estudado por alguém. Este é um dos principais motivos pelos quais há pouco amizade entre um descrente e um cristão.

O não-cristão está interessado em amizades verdadeiras, e precisamos demonstrar por eles, primeiramente, o amor incondicional de Cristo através de relacionamentos verdadeiros. Infelizmente nossas igrejas estão infestadas de pessoas que vivem sozinhas em uma comunidade. Precisamos aprender o valor de uma amizade profundam, sincera, onde há o interesse em “…levar as cargas uns dos outros” (Gl 6.2). No momento em que o não-cristão notar que seu amigos cristãos têm uma estreita comunhão uns com os outros e que ele também pode ter isso, ele se sentirá atraído pela igreja.

O descrente não segue denominações. É atraído a lugares onde possa satisfazer os anelos de sua alma

Nos dias atuais, o descrente compara preços e produtos até no campo espiritual. O fato de ter pertencido a uma determinada denominação talvez ainda possa exercer alguma influência quanto à escolha da igreja quando estiver disposto a voltar. A grande maioria, entretanto, irá onde encontrar qualidade, criatividade e conveniência.

O não-crente até está disposto a freqüentar diferentes denominações, a fim de tirar partido de programas específicos que o ajudem no seu viver diário.

É melhor não se falar em assuntos denominacionais com um não-cristão, visto que muitos vêem isso como uma divisão das igrejas, ou associam a igreja local com o Congresso, em que a local é controlada por uma sede distante. Não é esta uma associação muito boa.

Eis aqui alguma sugestões dadas por Lee Strobel para as igrejas denominacionais alcançarem os não-cristãos:

  • Para traze-lo de volta à igreja, não tente interessá-lo na sua antiga denominação. Ele reagirá de maneira mais positiva ao convite para um programa específico que vá ao encontro de suas necessidades.
  • As denominações devem evitar os modos tradicionais do ministério. Devem deixar que os seus membros abram um novo caminho que possa atingi-lo.
  • As igrejas tradicionais devem procurar desenvolver laços de amizade nos seus cultos e promover acontecimentos fora da rotina, bem como reuniões especiais, para onde seus membros possam trazer os amigos não-cristãos.
  • Não se devem enfatizar os laços existentes entre ministérios “profissionais” e de leigos, pois, para quem não pertence à igreja, isso pode parecer “elitismo” e manobra de organizações.
  • Valores que atraem um descrente, como excelência, criatividade, autenticidade, conveniência, participação dos leigos e liderança disposta a servir, devem ser traçados e facilitados pela cúpula da estrutura denominacional.
  • A atitude “Sempre fizemos assim” precisa se transformar em “Que podemos fazer para ajudar e alcançar mais pessoas com o evangelho?[3]

O descrente pode não demonstrar interesse espiritual na igreja, mas quer que os seus filhos recebam treinamento moral de alta qualidade

Há não cristãos que quando os filhos chegam a determinada idade concluem que já é hora de eles terem algum tipo de treinamento religioso. A partir de então começam a procurar uma igreja com o intuito de “simplesmente levar os filhos”.

A maioria acredita que a igreja exerce um papel relevante em promover um “código moral” para a sociedade e gostariam que seus filhos tivessem algum tipo de educação religiosa.

Em um estudo realizado, 55% de homens da geração pacifista disseram que não tinham de modo nenhum planos de se unir a uma igreja nos próximos cinco anos. Mas, 73% afirmaram que gostariam que os seus filhos tivessem treinamento religioso[4].

Este tipo de pensamento pode ser fruto de uma vida desregrada que deixaram marcas e agora os pais não querem que os filhos sigam o mesmo caminho, buscando a solução para os filhos em uma instrução religiosa.

Com esta tendência surge então a grande oportunidade de evangelizar as crianças ou jovens que levadas pelos pais, e há também a grande oportunidade de alcançar os pais com a mensagem do evangelho.

Há um casal que tem vindo à igreja, e já expressou que o motivo de virem é que desejam que suas filhas tenham uma instrução religiosa, mas enquanto isso, eles têm sido bombardeados com mensagens a respeito do plano de Deus para homem. A semente têm sido semeada tanto no terreno das crianças quanto no dos pais.

O mundo tem colocado um padrão muito alto de programas atrativos para crianças e jovens, logo, é importante que a igreja tenha um trabalho criativo e atrativo tanto para a criança quanto para o jovem, caso contrário, mesmo os pais queiram oferecer uma educação religiosa, provavelmente eles preferirão o que tem sido oferecido lá fora.

O descrente tem orgulho de ser tolerante com os diversos tipos de fé, mas acha que os cristãos têm mentalidade estreita

O não-cristão intelectualizado quer que os cristãos adoram a seu deus, os muçulmanos adorem Alá e os hindus adorem inúmeros deuses. Mas, quando os cristãos afirmam que o seu caminho é o único caminho para o céu (Jo 14.6), ele chama isso de fanatismo. É corrente o conceito de que todas as religiões levam até Deus. Para os não-cristãos é pura presunção do cristão afirmar que há somente um caminho que leva até Deus e que somente eles estão certos e todos os demais errados.

Estas são apenas algumas idéias gerais, com certeza não é regra que todo não tenha tais conceitos. O importante é conhecermos quem de fato queremos evangelização e o que pensam a respeito de Deus. Cada pessoa tem necessidades, personalidade e interesses diferentes umas das outras.


[1] Lee Strobel. Como alcançar os que evitam a Deus e a igreja. P.48

[2] Lee Strobel. Como alca… p. 51

[3] Lee Strobel. Como alcançar os que evitam a Deus e a igreja, p. 66-67.

[4] Lee Strobel cita “Here Come the Baby Boomers”, Emergin Trends, junho de 1991,5.

Como alcançar os que evitam a Deus e a Igreja?

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 4:00 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

Eis aqui alguns pensamentos de alguém que evitava a Deus:

  • Alguém inteligente jamais acreditaria num Pai celestial, num Deus todo-poderoso e criador do universo.
  • Darwin explicara que a vida era meramente um acidente da evolução
  • Marx estabelecera que a religião era apenas um instrumento usado pelos poderosos para oprimir os pobres
  • Freud demonstrara de maneira clara que as crenças religiosas eram simples ilusões provenientes “dos mais antigos, forte e urgentes desejos da humanidade”, um desejo de proteção contra os perigos da vida.[1]

Quem são os que evitam a igreja.

  • O professor de ciências da escola secundária local cuja idéia é de que qualquer religião é para pessoas não-intelectuais.
  • A vizinha extrovertida que está muito feliz sem Deus.
  • O mestre de obras duma construção que somente usa o nme de jesus para praguejar.
  • A empresária, sempre tão ocupada com o sucesso dos seus negócios, que não tem tempo para assuntos espirituais.
  • O comerciante que se esquiva do cristianismo porque recia que a fé modifique sua maneira de conduzir os negócios.
  • A estudante universitária cujas amargas experiências como o seun pai envenenaram a sua idéia de um pai celestial.
  • O marido que considera a fé de sua esposa uma perda de tempo.
  • A dentista que acredita que Jesus Cristo é o Filho de Deus, mas sempre adia um relacionamento pessoal com Ele.
  • O mecânico de automóveis que vai à igreja religiosamente no Natal e Páscoa, numa atitude automática.
  • A contadora que leva seu filhos à igreja para receberem um bom treinamento moral e, embora assista aos cultos, no fundo do seu ser é descrente.
  • O advogado que passa as manhãs de domingo lendo o jornal ociosamente, ou jogando golfe no clube, e se irrita com a idéia de que deveria sentir-se culpado disso.
  • A funcionária do governo que, por alguma experiência religiosa, afastou-se de Deus, convencendo-se de que o cristianismo é, na melhor das hipóteses, enfadonho e sem valor. Ou, o que é pior, algo para enganar os ingênuos.

Há pessoas que são avessas à igreja. Este pode ser um colega de trabalho, de escola, talvez o seu vizinho ou um parente. Pode ser que este seja o seu melhor amigo ou o seu cônjuge. Pessoa que você anseia que Deus o use para falar do Seu amor a estas pessoas de forma que eles venham compreender a mensagem. Diante de tudo isso, surge também o medo de afastar estas pessoas ao invés de alcançá-las.

Parte do receio de falar de Cristo a estas pessoas advém da falta de conhecimento sobre o que os não-cristãos pensam, por isso, é preciso entender os descrentes a fim de que o esforço evangelístico torne-se eficaz.


[1] Lee Strobel. Como alcançar os que evitam a Deus e a Igreja, p. 12

Fatores que Prejudicam a Evangelização

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 3:56 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

É importante que ao pararmos para analisar o empenho e resultado da ação evangelística dos apóstolos façamos a seguinte pergunta: Temos desempenhado a nossa missão de forma eficiente ou deficiente?

Se comparado ao empenho e resultados obtidos pelos apóstolos, os resultados nos levam a admitir que temos sido ineficientes na proclamação das Boas Novas. O que será que tem nos levado a resultado muitas vezes frustrantes? Joseph Aldrich fala um pouco a respeito de alguns fatores que nos levam a desempenhar um evangelismo deficiente[1], fatores esses que uma vez detectados, cabe a nós nos empenharmos para que sejam sanados.

Relacionamentos superficiais

A necessidade  que temos em nos relacionar com um número de pessoas cada vez maior, o que tem influenciado grandemente para que sejamos ineficientes na proclamação do evangelho, ou seja, as exigências de mantermos relacionamentos excessivos mutilam a nossa capacidade de relacionamentos profundos; o contato diário com várias pessoas não passa de um mero contato superficial. Esta influência cria uma barreira para a apresentação das Boas Novas, visto que vivemos em uma sociedade carente de relacionamentos, e ao mesmo tempo “individualista”.

Disponibilidade

A “falta de tempo” tem nos levado a um ritmo de vida acelerado. Com tantas coisas para realizar durante a semana, agenda sempre lotada, acrescentar evangelização implicaria em mais uma tarefa a ser cumprida. Definitivamente, há pessoas precisando de ajuda, clamando por socorro, mas não temos tempo nem disposição para pararmos e gastarmos tempo com essas pessoas, pois há “coisas mais importantes” a serem feitas. Tais atitudes surgem de uma visão egoísta, onde as pessoas só pensam em si mesmas.

Modelos evangelísticos deficientes

Consideramos também que hoje geralmente somos ineficientes em nossa proclamação do evangelho devido aos nossos contatos com modelos evangelísticos defeituosos. Embora muitas práticas evangelísticas proporcionem o crescimento das igrejas, há também muitas que inibem o crescimento das mesmas. Ao mesmo tempo em que há igrejas que não crescem porque não estão evangelizando, há igrejas que não crescem justamente porque estão evangelizando de maneira errada.

Há muitos que imaginam que evangelização é o que o pastor faz domingo pela manhã ou à noite,  pregando sermões evangelísticos e ao final de cada culto fazendo “o apelo”. A igreja fica dependente e acomodada, simplesmente trazendo os visitantes para ouvirem a mensagem. “Semana após semana, o pastor evangeliza os evangelizados. O seu povo se enfraquece numa dieta de sermões evangelísticos, incapazes de testemunhar com eficiência acerca da realidade do evangelho total em suas próprias vidas”[2]. Sem dúvida alguma há pessoas que se convertem nessas igrejas, porém os membros não se empenham em cumprir o que lhe fora designado por Deus, pregar o evangelho.

A “emboscada” é mais um desses modelos defeituosos. Um programa “evangelístico” é planejado e convidam-se as pessoas para participar, porém não explicam o que acontecerá no programa, e quando o não-cristão chega é surpreendido com a mensagem do evangelho. Isto causa na pessoa um sentimento de traição, sente-se enganada, como se fosse um “animal inocente” que caiu numa emboscada, e muitos sentem-se até envergonhados. A maioria das vezes este tipo de abordagem leva o não-cristão a sentir aversão por igreja, por crentes, e alguns até aversão a Deus.

Muitos cristãos pensam que evangelização é somente o que Billy Graham faz, e acham-se incapazes de realizar o mesmo que ele, pois não têm as aptidões necessárias. O resultado é que preferem então deixar para que Billy Graham, e outros “mais dotados de capacidade” desempenhem a difícil tarefa de falar para as pessoas do amor e obra do Senhor Jesus Cristo. De fato temos muito o que aprender com os grandes evangelistas que têm surgido, mas o problema está em tentarmos ser idênticos a eles.

Má compreensão de espiritualidade

Uma outra razão que nos leva a ser falhos na comunicação do evangelho é que a partir do momento em que uma pessoa se converte, ela adquire um novo estilo de vida e quase que automaticamente ele perde todo o contato que tinha com seus amigos não-cristãos, pois a velha natureza destes torna a separação uma “necessidade” para que o crescimento espiritual ocorra.

A má compreensão da espiritualidade nos leva a ver os não-cristãos como nossos inimigos e não enxergamos que eles, na verdade são como vítimas do “inimigo”. Colocamos na cabeça que é necessário sermos diferentes, mas no esquecemo que não há como ser totalmente diferente dos não-cristãos, pois há coisas que nos são comuns, tais como: o gosto pelo lazer, família, filhos a serem educados, dentre muitas outras coisas que são os meios de mantermos contato com eles. A má compreensão da verdadeira espiritualidade torna-se uma barreira para a propagação do evangelho.

Contradição entre o falar e o viver

Por fim, é necessário considerarmos o desequilíbrio que há entre o que ser fala e o que se vive. É muito fácil falar do evangelho, o difícil é mostrar o evangelho através do dia a dia. As pessoas estão muito mais atentas ao que nós, cristãos, fazemos do que para aquilo que dizemos. Infelizmente, muitos são os que têm pregado mas não têm vivido o evangelho puro e verdadeiro. Normalmente estas pessoas tornam-se pedras de tropeço, prejudicando a eficiência em comunicar o evangelho, e também a eficiência da Igreja como corpo, pois como todo membro é visto como sendo uma parte do corpo, todo cristão é visto como uma parte da Igreja.


[1] ALDRICH, Joseph. Op. cit. p. 14-19.

[2] Idem, p. 15.

Métodos para Evangelização

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 3:53 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

Atualmente existem muitos métodos usados para a proclamação do evangelho, alguns mais eficientes que outros. De um modo geral, todos têm o seu devido valor. As pessoas possuem qualidades, personalidades e habilidades diferentes, e o desejo de Deus é que cada um use daquilo que Ele deu para levar as Boas Novas. Na Bíblia encontraremos vários exemplos de personagens que foram usados por Deus para que muitos viessem a crer no Senhor Jesus, cada um usando o seu próprio estilo. Destacaremos apenas alguns dos métodos que podem ser usados tanto pelo cristão como membro, quanto pela igreja como corpo.

Lembre-se que a mensagem sempre será a mesma em qualquer época ou para qualquer pessoa, porém os métodos podem e devem variar.

1. Método de confrontação

A evangelização confrontadora é a forma pela qual os cristãos encontram uma pessoa ou mais, que geralmente não conhecem e aproveitam a oportunidade para apresentar-lhe o evangelho. Às vezes, o uso desta técnica ocorre com pessoas conhecidas pelo evangelizador, tais como colegas de trabalho ou vizinhos, com quem o cristão não tem um relacionamento particularmente forte ou longo. Uma característica bem forte deste método é que o cristão habitualmente determina quem está inclinado a ouvir o evangelho, quando e onde as condições são apropriadas, sendo a mensagem tipicamente dogmática para levar o ouvinte a tomar uma decisão no ato, ou arriscar-se à condenação eterna, ou seja, há proclamação das Boas Novas e uma chamada à decisão.

A evangelização confrontadora acontece nos mais variados ambientes: no lar do não-cristão, por exemplo: evangelização de porta-em-porta ou encontro combinado por telefone; em lugares de atividade de lazer ou de descanso, como em praias, em concertos; em lugares públicos, ônibus, aviões, estacionamentos e eventos esportivos; em qualquer lugar onde duas pessoas ou mais possam manter uma conversa.

Este é o método que é muitas vezes usado nas grandes cruzadas evangelísticas, onde um evangelista leva a mensagem de salvação a uma grande quantidade de pessoas. As pessoas que usam este método geralmente são mais ousadas agir como no falar. Na Bíblia encontramos o exemplo de Pedro, que tinha um temperamento muito forte, explosivo e que não hesitava em falar de Jesus independente das circunstâncias. Pedro também era incisivo em suas atitudes, tanto que quando os guardas foram prender a Jesus, Pedro não hesitou em cortar fora a orelha de um deles (Jo 18.10).

Em Atos 2.11-12, na ocasião da descida do Espírito, diante do que estava acontecendo, alguns ficaram atônitos e perplexos, mas outros zombavam e diziam que os discípulos estavam bêbados. Diante desta situação, Pedro começa o seu discurso (At 2.14-41) e neste deixa bem claro as Boas Novas de salvação para aquele povo, e no verso 41 diz que naquele dia houve cerca de três mil pessoas se rendendo aos pés de Cristo. Coragem, intrepidez, disposição e paixão pelos perdidos, isto é que Pedro possuía. Deus usou a Pedro com suas características pessoais, com sua personalidade própria e com suas imperfeições.           Deus queria uma pessoa sem medo para assumir uma posição ali em Jerusalém – local em que Cristo fora crucificado.

Em nosso meio há pessoas que precisam ser confrontadas com as verdades do evangelho seja pessoalmente, através de um diálogo ou impessoalmente, através de uma grande cruzada evangelística.

2. Método socrático[1]

Este é o método pelo do qual argumenta-se com o não-cristão acerca da realidade, reflete-se sobre os argumentos que tem ouvido e tira conclusões para uma conversa, uma troca de idéias. É um método que leva a pessoa a pensar a raciocinar e até mesmo a questionar, a fim de que suas dúvidas quanto ao evangelho sejam tiradas. Este tipo de abordagem não requer uma aceitação calada de verdades impostas. Segundo George Barna este método “…diferencia conhecimento de opinião, fato de emoção”[2].

Este é o método pelo do qual argumenta-se com o não-cristão acerca da realidade, reflete-se sobre os argumentos que tem ouvido e tira conclusões para uma conversa, uma troca de idéias. É um método que leva a pessoa a pensar a raciocinar e até mesmo a questionar, a fim de que suas dúvidas quanto ao evangelho sejam tiradas. Este tipo de abordagem não requer uma aceitação calada de verdades impostas. Segundo George Barna este método “…diferencia conhecimento de opinião, fato de emoção”.

Normalmente as pessoas não têm muita confiança naqueles que alegam conhecer a verdade e, além do mais, afirmam saber como obtê-la, visto que fazemos parte de uma geração onde tudo é relativo, onde não “há mais” verdades absolutas.

Através da evangelização socrática, é menor o risco do não-cristão tomar uma decisão simplesmente por emoção, por pressão de um amigo ou parente, ou por estar passando por um período de dificuldades. A sua decisão virá após uma compreensão do significado do evangelho que está aceitando. Paulo usou muito este método, mesmo que ele usasse a confrontação, o seu método envolvia também uma apresentação lógica e racional da mensagem do evangelho, ele era expert em apresentar verdades centrais a respeito de Deus, o pecado, o homem e a solução para o problema do homem, haja visto a carta aos Romanos.

Certa ocasião, Paulo estava em Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus, e foi procurá-los a fim discutir sobre as Escrituras (At 17.1-4). É interessante que a Bíblia diz que este já era um costume de Paulo (v.2), e este “discutir” envolvia expor ou defender algum assunto alegando razões, envolvia muito o raciocínio, o intelecto. Paulo explicava-lhes porque foi necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos.

Um pouco mais adiante, Paulo encontra-se em Atenas enfurecido por causa da idolatria do povo, e não se cala e começa a anunciar as Boas Novas, e por isso foi levado ao Areópago, que era um Tribunal Ateniense onde eram realizadas assembléias de magistrados, sábios e literatos, e lá pôde falar mais ainda a respeito do seu Deus. Paulo usou de muita sabedoria para falar àqueles homens, pois ele partiu do conhecido; que eram as várias estátuas de deuses, para o desconhecido, que era uma estátua que havia entre as demais a qual Paulo chamou de “o Deus desconhecido”. Paulo falou com eles usando cultura e conhecimento do evangelho, e alguns creram e se agregaram a ele (At 17.16-34).

Há pessoas que são resistentes ao evangelho, não aceitam qualquer idéia que seja nova para elas. São pessoas que não aceitam respostas fáceis, quadradinhas, muitos querem ver a razão em tudo. Diante destas pessoas não há método melhor a ser usado que o socrático, pois este envolve o uso de uma argumentação racional, e para isto é necessário estar preparado “…para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15).

3. Método testemunhal

Este é o método em que a pessoa evangeliza falando da obra realizada por Deus em sua vida, é um testemunho do poder transformador do evangelho. Este método, como qualquer outro, exige muito mais do que falar, porque as pessoas vão querer ver o que de fato aconteceu, investigarão para ver se é verdade ou não.

As Escrituras falam a respeito de um cego de nascença que fora curado pelo Senhor Jesus (Jo 9), e este teve a oportunidade de testemunhar a respeito deste milagre, tanto para seus vizinhos (vv. 8-9) quanto para os fariseus (vv. 31-33), mesmo sem conhecer o autor do mesmo. Após conhecê-lo, o que era cego creu no Senhor Jesus e O adorou (v. 38). Mesmo a liderança não acreditando, questionando o seu testemunho, ele não cessou de falar a verdade ao ponto de ser expulso da sinagoga. Nem sempre as pessoas reagirão positivamente ante ao testemunho pessoal, muitos rejeitam o evangelho independente do método usado para anunciá-lo.

Outro exemplo do uso deste método é o testemunho da mulher samaritana (Jo 4.1-18) que, após compreender quem era Jesus saiu contanto a todos quem havia conhecido (Jo 4.39-42); por intermédio do seu testemunho, muitos vieram a crer no Senhor. Mesmo sendo uma mulher de má reputação ela não receou em ir até a cidade para falar a respeito de quem ela conhecera.  É bem possível que tenha acontecido alguém tê-la rejeitado, mas muitos foram os que a ouviram.

A maioria das pessoas tem em mente o método testemunhal para ser usado somente por aqueles que possuem um testemunho dramático ou sensacionalista. Na realidade basta haver evidências de transformação de vida, para que um testemunho seja eficiente, e se algum cristão não consegue ver o que Deus fez e faz em sua vida, algum problema há.

4. Método assistencial

É aquele que leva as Boas Novas através de alguma obra de ação social, seja abrigando crianças de rua, distribuindo alimentos e roupas aos carentes. Este método busca infiltrar o evangelho na comunidade suprindo suas necessidades, tanto físicas quanto materiais e espirituais.

Vemos em Dorcas o exemplo de alguém que praticava este método de evangelização, um personagem pouco conhecido, mas que fez muita diferença na vida de algumas pessoas. Em Atos 9.36-42, diz que Dorcas era uma mulher notável pelas boas obras que praticava, pelos seus atos amorosos; tinha um ministério de assistência às viúvas, confeccionava roupas e lhes dava. Nesta passagem fica nítido o amor que os beneficiados sentiam por Dorcas, que havia falecido e fora ressuscitada pelo apóstolo Pedro, fato este, que tornou-se conhecido por toda Jope.

Geralmente as pessoas que gostam de servir aos demais são as que se identificam com este método. Elas tem a sensibilidade de perceber a necessidade dos outros e procuram empenhar-se ao máximo para ajudá-los sentem-se realizadas e felizes em exercer este ministério, mesmo que não haja o reconhecimento de muitos.

Este é um método que leva tempo até que a pessoa compreenda o evangelho, visto que muitos só estão interessados em suprir suas necessidades físicas e materiais. As pessoas que se empenham neste método de evangelismo são as que tocam naquelas pessoas que ninguém jamais tocaria, são geralmente aquelas consideradas “escória da sociedade”.

Certa vez ouvi uma ilustração que contava a história de um menino de rua que estava faminto em frente a uma padaria, observando pela janela de vidro os pãezinhos que iam saindo. Eis que chegou um senhor e vendo o menino perguntou-lhe se estava com fome, ao que este respondeu positivamente. Então, aquele senhor entrou na padaria e comprou vários daqueles pãezinhos e os entregou nas mãos do menino que olhou para ele e perguntou-lhe: – Moço, o senhor é Deus?

Há pessoas famintas não só de pão, mas de Deus, e nós somos instrumentos seus para suprir tais necessidades. As pessoas não estão tão interessadas no que pensamos ou falamos até estarem sensibilizadas pelo que somos e como nos interessamos por nelas, elas querem ver Jesus Cristo em nós.

5. Método Comportamental

Como o próprio nome diz, este método de evangelização baseia-se no relacionamento entre cristãos e não-cristãos.  É desenvolvido através da amizade sincera e desinteressada do cristão.  Consequentemente essa amizade desperta  uma curiosidade no não-cristão quanto ao modo de viver, padrões, conduta, razões e motivações essenciais do estilo vida do cristão. Desta forma, não se corre o risco de fazer do não-cristão apenas o projeto evangelístico, é uma oportunidade para investir em um relacionamento autêntico de amor e amizade, o que os não-cristãos estão sempre a procura. Esse método tem crescido de modo significativo, e o que é melhor, tem crescido também a confiança mútua.

Joseph Aldrich, divide o evangelismo comportamental em três fases. A primeira fase é a presença, na qual o cristão se aproxima do não-cristão e antes que ele ouça a respeito do evangelho ele deve perceber através do modo de vida e do amor demonstrado pelo cristão, o evangelho no qual  ele supostamente se baseia.  A segunda fase é a proclamação, e nesta sim, o cristão falará do evangelho para o seu amigo. Viver o evangelho não é suficiente para que o não-cristão o compreenda, há também a necessidade de falar sobre a essência do evangelho, falar sobre os fundamentos ou em que está baseado este diferente estilo de vida. É fundamental, portanto, que se fale para o não-cristão as boas notícias de salvação.  A terceira fase, Aldrich a chama de persuasão.  É a fase em que a pessoa é chamada a tomar uma decisão por Cristo.

Algumas vantagens deste método é que é um método que não depende de muito conhecimento bíblico, visto que o não-cristão valoriza mais a pessoa do cristão do que o conhecimento dele. O fato de apresentar o evangelho a uma pessoa com a qual já exista um laço de amizade, facilita a proclamação da mensagem do evangelho. O conteúdo do evangelho ganha impacto adicional quando é comunicado com base no que se vive, e se a presença do espírito for de fato sentida e positiva, o não-cristão perguntará a respeito da razão da sua fé[3].

O cuidado que se deve tomar com este método de evangelismo é o de não acomodar-se a simplesmente viver o evangelho e se calar não buscando oportunidades para para compartilhar o evangelho. O “deixar que Deus fale aos corações dos pecadores” pode-se tornar desculpa para o cristão fugir de sua responsabilidade de proclamar as Boas Novas.

Deus escolhe pessoas diferentes para realizar Seus propósitos; “…deleita-se em usar pessoas comuns e simples de maneiras surpreendentes e emocionantes”[4]. O evangelho deve permanecer puro e inflexível, não importando que mecanismos são usados para apresentá-lo aos não-cristãos, porém, o mecanismo que escolhermos poderá influenciar na disposição, na capacidade de ouvir, ou até mesmo na compreensão da mensagem que está sendo pregada.

O próprio Cristo usou vários métodos para falar das Boas Novas do Reino, evangelizou através do Seu testemunho de vida, supriu as necessidades das pessoas, pregou para grandes multidões e falou individualmente com as pessoas, contudo, Ele diferenciou os método que usou para alcançar judeus, samaritanos e romanos, ricos e pobres. É preciso avaliarmos o provável sucesso de cada um desses métodos baseados no que sabemos a respeito de formas de pensamento, estilos de vida, visões e experiências religiosas, bem como das necessidades e interesses pessoais desta geração.

O incentivo do apóstolo Paulo aos cristãos é que usem de todos os meios que estiverem ao alcance para efetivamente e sem comprometimento da integridade da mensagem, apresentem o evangelho aos não-cristãos (Rm 11.13-14; 1 Co 9.19-23).


[1] Sócrates desenvolveu um método de instrução que tem a propriedade de envolver um estudante em um debate lógico que leva a uma conclusão sólida. A chave para o método socrático é que o professor tenha domínio sobre a questão que está sendo considerada, de modo que ele possa fazer perguntas investigativas, diretivas que não manipulem o estudante, antes ajudem a esclarecer a verdade conclusiva que o estudante procura. (George Barna. Evangelização Eficaz, p. 162).

[2] BARNA, George. Evangelização Eficaz. Campinas, SP: United Press, 1998. p.164.

[3] As fases do evangelismo como estilo de vida e suas vantagens encontram-se no livro de Joseph Aldrich. “Amizade a chave para a evangelização”, p. 73-78.

[4] HYBELS, Bill, MITTELBERG, Mark, BISPO, Armando. Cristão Contagiante, São Paulo: Vida, 1999. p. 141.

Uma perspectiva Bíblica da Evangelização

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 3:48 pm por Marcelo Berti

Fábio Grigório

É fundamental que observemos o que as Escrituras dizem a respeito de tão importante tarefa: a evangelização. Muitos têm dúvidas a respeito do que deve ser proclamado para um não-cristão, e até mesmo como proclamar a mensagem; e o mais grave ainda, há aqueles que têm dúvidas quanto a quem foi dada a ordem de evangelizar.

Deus não queria que essas dúvidas atrapalhassem os Seus propósitos, e para que isso não acontecesse Ele deixou claro na Bíblia a quem foi dada a ordem, o que deve ser proclamado e vários exemplos de como proclamar a mensagem das Boas Novas.

Consciência da Missão[1]

Deus tem um propósito que foi expresso por todos os tempos. Em Salmo 57.5,11; 72.19; 102.15, notamos a presença de uma oração, onde a expectativa do salmista é: “que a glória do Senhor encha a terra”. Os salmos são expressões de louvor, de adoração e de exaltação. As orações dos salmistas eram baseadas em revelações. Tendo isso em mente, não podemos cometer o erro de interpretar os Salmos sem o contexto teológico do Antigo Testamento.

Os profetas tinham a certeza de que a Glória do Senhor encheria a terra (Hc2.14; 3.3; Is 2.12-21), e na condição de profetas eles estão falando de algo que com certeza acontecerá. Note que o homem do Pentateuco já ouvira que a glória do Senhor encheria toda a terra, pois em Números 14.20 encontra-se uma afirmação onde Deus diz que tão certo quanto Ele existe a Sua glória encherá a terra. Atentando para o Autor desta afirmação, não nos resta dúvidas de que é algo real, uma promessa que se cumprirá.

Voltando novamente para a oração do salmista, podemos afirmar que ele está clamando por algo que Deus havia prometido. O salmista tinha uma visão calcada na revelação de Deus: “a glória do Senhor encherá toda a terra”..

Neste trabalho que Deus está realizando para aquele dia, em que a Sua glória encherá a terra, todo cristão tem uma responsabilidade, que é fazer discípulos. Esta responsabilidade encontra-se registrada em Mateus 28. 16-20. Há alguns conceitos acerca desta nossa responsabilidade que precisamos considerar nesta passagem.

A prerrogativa de Jesus

No versículo 18 de Mateus 28 encontramos a prerrogativa de Jesus, que ao aproximar-se dos discípulos fez a seguinte declaração: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra“. Jesus é aquele que tem toda autoridade, e esta é uma autoridade sobre todo o universo, como Ele mesmo afirma.

Nos dias de hoje me parece que as pessoas querem ser discípulas de Cristo, mas não querem, ou pelo menos sentem alguma dificuldade em reconhecê-lO como Aquele a quem foi dado todo o poder e toda a autoridade. Estas palavras parecem ter perdido o seu sentido verdadeiro, as pessoas não compreendem o que é uma autoridade.

Quando se pensa em autoridade, vem à mente alguém que merece todo o respeito, alguém a quem se deve obediência, alguém que tem poder, que tem domínio. Aurélio definiu autoridade como “…um indivíduo de competência indiscutível em determinado assunto”[2]. Tendo isto em vista, não podemos ser indiferentes com uma autoridade, não podemos simplesmente ignorar o que ele nos diz. Feito um pedido é para ser atendido, dada uma ordem é para ser obedecida.

Dentro da responsabilidade que recebemos, temos que levar em consideração quem a designou, que no nosso caso foi Aquele que possui toda a autoridade. Como Aurélio mesmo definiu, Aquele que possui toda competência em todo e qualquer assunto, Jesus Cristo, de quem um pedido devemos considerar uma ordem, a quem devemos obediência incondicional.

A proposta de Jesus

Além da prerrogativa, Jesus faz uma proposta aos Seus discípulos, que na verdade é uma ordem. No versículo 19 de Mateus 28 Ele diz: “… ide e fazei discípulos de todas as nações…”. Jesus Cristo não deixou implícito e muito menos explícito que o testemunhar, o proclamar as Boas Novas poderia ser opcional. Ele não chegou para os discípulos e disse: no dia em que vocês estiverem animados, com vontade e tempo sobrando, por favor considerem a possibilidade de fazer alguns discípulos. O verbo usado neste versículo é um imperativo, maqhteuvsate (matheteusate) “… fazei discípulos…“, que expressa uma ordem, e como toda ordem dada é para ser obedecida sem restrições, esta com certeza também é, principalmente vindo de quem veio (Jesus Cristo).

Jesus Cristo com todo o Seu poder e autoridade, apresentou aos Seus discípulos, bem como a todo cristão, a Sua proposta: fazer testemunhas, ou testemunhar a todo indivíduo de todos os lugares. Desta forma inseriu a todo cristão em Seu programa de formar adoradores, fazendo com que deixem de ser meramente adoradores.

O programa apresentado por Jesus

A ordem foi dada, mas como cumpri-la? Como fazer discípulos? Jesus não deu a ordem e simplesmente deixou a todos sem orientação de como executá-la, Ele deixou em Mateus 28.19-20 um programa a ser seguido, que mostra como cada cristão pode fazer discípulos.

O primeiro passo apresentado é “ir”, ou seja, tomar atitude, movimentar-se, sair do local onde você se encontra e ir em busca de almas perdidas. Como pode um cristão testemunhar para alguém se não se mobilizar a aproximar-se dos perdidos para falar-lhes a respeito do caminho que os livra da perdição?

Nenhum cristão pode viver fechado em uma grande redoma onde há somente cristãos, em que para entrar nela o pré-requisito é ser cristão. Para se cumprir o mandamento de fazer discípulos o cristão não pode perder o contato com o mundo. Normalmente, depois de um ano de conversão, as pessoas perdem quase todo o contato com o mundo, e quando falo mundo me refiro não aos prazeres e valores do mundo, mas às pessoas que estão no mundo, vivendo deste mundo. O relacionamento com os amigos é abruptamente cortado e começa-se então a viver na grande redoma de cristãos. Fica aí uma grande questão: Como alcançar os não-cristãos se não sair desta grande redoma e ir ao encontro deles?

Jesus intercedendo junto ao Pai em favor dos Seus discípulos disse: “Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo 17.15). Jesus deixou claro aqui que não faz parte dos Seus planos tirar ou isolar os cristãos deste mundo. Com certeza é um desafio viver neste mundo, e Jesus também está ciente disto, tanto que Ele ainda pede pela santificação dos Seus (Jo 17.17). O desafio é viver neste mundo sem perder o contato com os não-cristãos, mas não abrir mão do padrão de vida que Deus requer dos Seus discípulos.

O segundo passo do processo apresentado por Jesus é “batizar”. O batismo não é simplesmente o ato de mergulhar nas águas. O batismo é a demonstração pública do reconhecimento de Jesus Cristo como sendo o único e suficiente salvador da alma perdida. O programa de fazer discípulos envolve o batismo.

E por fim, Jesus apresenta o terceiro passo que é “ensinar”. Jesus mostra aqui que o programa de fazer discípulos não se encerra no batismo, mas envolve também ensinar ao novo convertido todas as coisas que Ele nos ensinou, ensinar ao novo convertido o que as Escrituras dizem a respeito do andar de um cristão. Faz parte do programa orientar e instruir a pessoa como viver a vida cristã.

A promessa de Jesus

É  muito comum as pessoas se sentirem sozinhas em seu empenho de proclamar as Boas Novas. Sentem-se incapazes diante do desafio, porém Jesus fez uma promessa aos Seus discípulos, que é a de nunca deixá-los na mão. Jesus prometeu estar com os Seus discípulos todos os dias, em qualquer lugar que estivessem, até a consumação dos séculos (Mt 28.20).

Problemas e dificuldades sempre surgirão, pessoas interessadas e pessoas desinteressadas em ouvir as Boas Novas, pessoas sensíveis e pessoas de coração endurecido. O problema é que o homem tem a habilidade de focalizar as dificuldades encontradas de tal forma que se esquece que não está sozinho nessa missão. Diante de tais situações Jesus manda ficar tranqüilo porque Ele está sempre ao lado e fará a Sua parte, jamais abandonará o barco em que se encontram os Seus pescadores.

Deus conferiu aos cristãos o ministério da reconciliação (2 Co 5.18-21). Ele é por natureza O Salvador, isto faz parte do Seu caráter, salvar. Foi Deus quem desenvolveu o plano de Salvação para a humanidade e comissionou a Igreja para espalhar essas boas notícias. O motivo maior de ainda haver cristãos neste mundo é para cumprir o propósito evangelístico de Deus. Nós cristãos, somos instrumentos de Deus para arrebanhar os Seus. Como o salmista afirmou, com toda certeza a glória do Senhor encherá a terra. É um grande privilégio fazermos parte deste projeto de Deus. Diante desta responsabilidade há a necessidade de nos empenharmos em proclamar Jesus Cristo a todas pessoas de todos os lugares e em todo e qualquer momento.

Cientes de que evangelizar é uma ordem e foi dada por Deus, cientes também do programa apresentado por Ele e que Ele está sempre presente capacitando e orientando a cada cristão, o mínimo que podemos fazer é gastar nossa vida para cumprir com excelência essa tarefa que é tão preciosa para Deus.


[1] Este tópico foi baseado em uma aula ministrada pelo Pr. Fernando G. Leite, em um curso sobre evangelismo, na Igreja Batista Cidade Universitária, em fevereiro de 1999.

[2] FERREIRA, Aurélio Buarque de Olanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Fronteira, 1986. p. 204.

A Mensagem do Evangelho

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 3:35 pm por Marcelo Berti

Material Extraído da Apostila “A prática da evangelização” de Fábio Grigório.

Bom Proveito!

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O homem tem a capacidade de complicar o que  é simples, e esta realidade acontece com muitos cristãos que têm procurado cumprir sua missão. A mensagem do evangelho é tão simples, que muitos não a compreendem e até mesmo muitos cristãos não conseguem comunicá-la com clareza. Independente de qual for a mensagem a ser transmitida, sempre são encontradas barreiras no processo de comunicação, e sempre haverá onde melhorar neste processo.

            Independente da situação, cabe a cada cristão empenhar-se na proclamação das Boas Novas de salvação para o homem. Para alcançar o sucesso nesta missão é importante identificar algumas das barreiras que geralmente são encontradas, bem como qual de fato é a mensagem a ser transmitida. Será de grande valor também buscarmos uma forma de aprimorarmos nossa comunicação da mensagem do evangelho.

 

1. Barreiras encontradas na proclamação da mensagem do evangelho

 

De um modo geral, os cristãos sentem alguma dificuldade em comunicar a mensagem do evangelho aos não-cristãos. Identificamos alguns dos motivos pelos quais os não-cristãos não compreendem, ou não dão ouvidos à mensagem do evangelho, que são considerados como barreiras encontradas na comunicação das Boas Novas.

 

Falta de clareza

Precisamos saber transmitir a mensagem de Deus aos homens de forma que eles a compreendam, tornando-se capazes de transmiti-la também a outros. A grande barreira é que simplesmente falamos a mensagem, o que é muito fácil, e o mais importante, comunicarmos a mensagem, não conseguimos, pois esta é a parte em que se encontra maior dificuldade na transmissão de uma mensagem.

            O segredo da boa comunicação é expressar-se na linguagem dos ouvintes. Nós, os evangélicos, temos um talento todo especial para usar uma linguagem altamente obscura, tornando o simples em complexo. Esta característica é bem forte em nossa geração, século XX, que não nos esforçamos por transportar a linguagem espiritual para as situações da vida diária. Para que esta barreira seja quebrada precisamos adotar uma linguagem simples e clara que possa ser entendida por aqueles que ainda não compreenderam o evangelho. Muitas vezes somos parecidos com aquele médico que sorri e diz:

- Tenha coragem. Você está com gastrenterite.

            ­- Está bem doutor, dizemos aflitos. Mas o que é mesmo que eu tenho?

            – Dor de barriga[1].

            Os não-cristãos são doentes espirituais, e entenderão melhor se usarmos termos simples para falar da sua doença e da cura para tal. Alguns termos são muito importantes para uma compreensão do evangelho, tais como: salvação, redenção, pecado, propiciação, regeneração, depravação total, vida com Deus; porém, eles precisam ser entendidos pelo não-cristão, pois, se falados sem alguma explicação, esses termos não fazem sentido algum para o não-cristão.

            Este é um desafio na comunicação do evangelho, tornarmos clara a mensagem, usarmos termos simples de modo que o não-cristão compreenda o que queremos comunicar e não simplesmente falar.

 

Mensagem irrelevante

Um vendedor de aspirador de pó que chega para vender o seu produto e não sabe nem como mostrar a sua utilidade, ou mesmo que saiba, se não apresentá-la ao cliente, certamente não será bem sucedido na sua venda. Todo vendedor deve conhecer bem o seu produto, a fim de apresentá-lo como um bom produto a ser comprado e que de fato trará benefícios ao comprador.

Se todo consumidor for como eu, ele prefere conferir a utilidade do produto antes de adiquirí-lo.       Não quero fazer aqui uma comparação barata do evangelho, com certeza ele não é um mero produto e muito menos está à venda. O que acontece é que apresentamos o evangelho e sua mensagem salvadora a fim de que o não-cristão a aceite, porém não mostramos para as pessoas a sua relevância, não falamos de como evangelho muda a vida do homem perdido, não falamos dos benefícios de se viver uma vida em comunhão com Deus, nos esquecemos de falar das bênçãos que Deus derrama sobre uma vida que foi por Ele transformada.

            A mensagem com toda certeza é relevante, o que precisamos fazer é mostrar ao mundo a sua relevância, mostrar que o evangelho é transformador, restaura os feridos, traz a alegria que tantos procuram e não a encontram, traz a verdadeira paz que é a paz com Deus, a paz de Deus. Se fôssemos relacionar aqui toda a relevância, todos os benefícios que Deus concede aos Seus filhos, faríamos uma bela lista e ainda correríamos o risco de deixar muitos de fora. Isto é apenas para mostrar que o evangelho é relevante, e esta relevância deve ser proclamada e demonstrada para o mundo perdido.

 

Mensagem sem emoção

            Sob a pressão de se cumprir uma ordem que foi dada, acabamos anunciando as Boas Novas somente por obrigação – Vou porque Deus mandou.

            Para uma mensagem ser comunicada com sucesso, palavras não são o suficiente. A forma como falamos, como nos expressamos também comunica, e muitas vezes até mais do que nossas palavras. O não-cristão quer perceber o quanto essa mensagem de fato tem valor para nossas vidas, e não somente isto, ele quer ver o quanto estamos nos importando com ele. Quanto mais demonstrarmos o nosso amor pela alma perdida, maior será o impacto que a mensagem causará nela.

            A mensagem proclamada somente para cumprir uma incumbência provavelmente apresentará suas deficiências. O desejo de ver vidas sendo transformadas pelo poder de Deus deve ser o objetivo de proclamarmos as Boas Novas.

 

Rebeldia do homem

            Há ainda outra barreira que não podemos desconsiderar. O ser humano possui uma resistência natural a novas idéias, novos conceitos, e principalmente no que diz respeito a religião. Além desta resistência a novos conceitos, quando se trata das Boas Novas de salvação, temos que ter em mente que o homem sem Deus permanece sob a escravidão do pecado, e mantém-se rebelde contra Ele, portanto, este também é um dos motivos pelos quais o não-cristão não dá ouvidos à mensagem do evangelho. Ele insiste em sua desobediência e simplesmente ignora as Boas Novas, permanece com o seu coração endurecido e distante de Deus.

            Estas são apenas algumas das dificuldades encontradas no processo de comunicação do evangelho, porém não devem ser motivos para que o cristão se cale ou se acomode, deixando assim de cumprir a ordem dada por Deus de anunciar as Boas Novas a todo homem.

 

2. A mensagem a ser proclamada

             Alguns cristãos têm dúvidas sobre o que falar para o não-cristão, ou o que é necessário que ele saiba. Com certeza não precisamos inventar uma mensagem nova, pois Deus já deixou bem determinado em Sua Palavra qual é a mensagem a ser proclamada, e esta não muda, o que pode e deve variar, são os métodos e o estilo de comunicá-la.

            Para se transmitir a mensagem do evangelho é fundamental que se conheça esta mensagem, pois, quanto melhor conhecermos, mais capacitados estaremos para transmiti-la. A fim de expressarmos aqui qual é a mensagem determinada nas Escrituras, faremos o uso de algumas idéias das quatro leis espirituais, que é um método simples e prático para se comunicar a mensagem do evangelho.

 

Deus tem um plano para o homem.

            O homem foi criado por Deus para que O adorasse, para que O servisse e para que vivesse em perfeita harmonia com o Seu Criador. Infelizmente a desobediência do homem, o pecado, quebrou essa harmonia que havia, causando uma grande separação entre O Criador e Suas criaturas.

            Em João 3.16 encontramos expresso o plano de Deus para o homem, plano este que envolve o Seu amor, um amor sem medidas, ao ponto de entregar o único Filho para morrer em uma cruz. Este amor tem um propósito, que é dar a vida eterna a todo aquele que crer em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, um plano que envolve a restauração daquele relacionamento harmonioso que havia antes do pecado entrar no mundo.

            Paulo, quando escreveu à Timóteo, também falou explicitamente acerca do plano de Deus para o homem. Ele disse que “…Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores…”(I Tm 1.15). Cristo veio ao mundo para trazer salvação ao perdido.

            Jesus fez uma distinção bem clara entre qual é o Seu objetivo e qual é o de um ladrão (Jo 10.10). Disse Ele que o ladrão vem somente para roubar, matar e para trazer destruição à vida do homem, mas Ele veio para dar vida ao homem, uma vida abundante. O plano de Deus consiste em dar o melhor para o homem, a Salvação, a vida eterna.

Deus quer restaurar a comunhão com o homem, porém há um problema que precisa ser encarado.

 

É impossível ao homem chegar-se a Deus

            É fundamental mostrar ao homem a situação em que ele se encontra, a fim de que possa mudar de atitude. Muita gente que está em pecado, não recorre ao Salvador porque não têm noção da situação em que se encontra. As pessoas não compreendem a necessidade de serem salvas, alguns até acham que não têm pecado. O pecado consiste em desobediência a Deus por não fazer o que foi ordenado ou por fazer o que foi proibido por Ele.

            Por causa da desobediência do homem, a sua situação é de separação Deus (Rm 3.23). O homem encontra-se privado de desfrutar de um relacionamento com Deus. Uma das primeiras reações que Adão e Eva tiveram após comerem do fruto que Deus havia proibido que comessem, foi correr e se esconder de Deus entre as árvores do jardim, refletindo aqui uma imagem de culpa. E desde então o homem tem sempre procurado esconder-se de Deus. O homem tem fugido de Deus. Por causa do pecado ele encontra-se impedido de desfrutar do amor e da glória de Deus[3].

            A Bíblia é bem clara quando diz que todo homem merece a morte por causa do pecado (Rm 6.23), este é o salário que lhe fora designado. A morte retratada aqui implica em separação de Deus nesta vida, pois o homem sem Deus encontra-se morto em seus pecados e delitos (Ef 2.1,5). Esta morte envolve também a separação de Deus por toda a eternidade (Ap 20.14), para aqueles que não crerem na eficiência do sacrifício de Cristo na cruz.

            Através dos séculos o homem tem tentado de alguma maneira conquistar sua salvação por meio da prática de boas obras, por meio de alguma religião, filosofia ou outra fonte qualquer. Seja qual for o meio usado, o resultado é sempre o mesmo – frustração, decepção. Por mais que o homem faça o bem, para Deus é inútil. Em Romanos 3.11-12 encontra-se uma declaração da situação em que o homem se encontra: “Não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis, não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”.(grifo pessoal)

            Alguns alegam que por serem mais bons do que ruins, ou por cumprirem a lei, isto lhes dá o direito de ir para o céu, porém não sabem nem para que serve a lei. Paulo falando ao romanos disse: “Sabemos que tudo o que a lei diz, o diz àqueles que estão debaixo dela, para que toda boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus. Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado“( Rm 3.19-20). (grifo pessoal)

            Podemos comparar a lei com um prumo. O prumo é usado para verificar se uma parede encontra-se inclinada para algum lado; porém, o fato de o prumo acusar que uma parede encontra-se pendendo para um dos lados, ele não a concerta. Semelhantemente, a lei serve para mostra a condição do homem, de torto, inclinado, mas, a lei não pode concertá-lo em nada. Olhando para a lei, o homem só percebe que é incapaz de cumpri-la.

            Poderia alguém chegar para Deus e falar que cumpriu 99% de toda a lei e por isso merece o céu? Deus na Sua sabedoria já declarou que aqueles que não praticam toda a lei são considerados malditos (Gl 3.10). Mesmo que o homem tivesse cumprido os 99% da lei, por causa do 1% que não cumpriu, segundo as Escrituras, ele se torna culpado de toda a lei (Tg 2.10). Para Deus é como se não tivesse cumprido nada. Não adianta cumpri-la parcialmente e é impossível cumpri-la totalmente. A lei nos diz: Não matarás, e Jesus nos diz que se nos irarmos contra um irmão nos tornamos sujeitos a juízo (Mt 5.21-22). A lei nos diz: Não adulterarás, e Jesus nos diz que se tão somente olharmos para uma mulher com intenção impura no coração, já cometemos adultério (Mt 5.27-28).

Todo homem está debaixo do juízo de Deus. O pecado causa separação entre Deus e o Homem e é para o homem impossível chegar-se novamente a Deus. Por mais que ele tente ou faça alguma coisa, sempre será frustrado, mas em Mateus 19.26, Jesus afirma que o que é impossível para o homem é possível para Deus.

 

Deus provê o meio para que Seu plano se cumpra

            Vendo a situação do homem, Deus pelo seu amor e graça intervém na história da humanidade e abre um caminho onde não havia nenhum. Deus providenciou o meio para que o relacionamento que fora quebrado fosse restaurado, e o homem pudesse receber a vida eterna.

            A providência de Deus foi enviar o Seu único filho, Jesus Cristo, para morrer numa cruz trazendo salvação a todo aquele que nEle crer (Jo 3.16). Esta foi a maior prova de amor demonstrada. Paulo afirmou que “…Deus prova o Seu amor por nós pelo fato de Cristo ter morrido em nosso favor quando ainda éramos pecadores”(Rm 5.8).

            Muitas pessoas não compreendem o sacrifício de Cristo na cruz, não sabem o porquê dEle ter morrido e nem o que isso tem a ver com a salvação, com a vida eterna. Em Colossenses 2.13 e 14 encontramos uma explicação simples e clara do que foi o sacrifício de Cristo na cruz: o homem encontrava-se morto espiritualmente, perdido em seus pecados, e Deus o faz viver novamente, dando uma nova vida por meio de Jesus Cristo. O sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente para nos justificar de todos os nossos pecados, tanto os que já cometemos quanto os que ainda iremos cometer. Ele nos perdoou e cancelou o nosso escrito de dívida, ou seja, aquilo que era o motivo da separação entre Deus e o homem, Jesus removeu-o e cravou-o na cruz.

            Todo homem estava debaixo da maldição da lei, porém Cristo nos resgatou, nos redimiu dessa maldição, pois Ele se tornou maldito em nosso lugar (Gl 3.13). O homem perdido precisa compreender que “…Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”(2 Co 5.21) . No momento em que Cristo foi cravado na cruz, Ele levou sobre si todos os nossos pecados, assumindo a nossa culpa e tornando-nos justos perante Deus (Rm 5.1). Esta foi a maneira de Deus religar o homem com Ele, visto que é impossível ao homem fazê-lo por si mesmo.

            Ouvi uma história que pode ajudar-nos a compreender um pouco do que foi o sacrifício da substituição. Um senhor do Canadá passou por uma experiência em sua família que é considerado por ele como uma das que mais lhe marcaram a vida. Disse ele que em sua casa havia algumas regras que deveriam ser obedecidas, e caso algum de seus filhos desobedecesse, ou transgredisse alguma dessas regras, havia uma punição conforme o grau da transgressão. E aconteceu que o seu filho, que sempre fora exemplar, fez algo que o tornou digno da mais alta disciplina.

O pai, entristecido, chamou o filho e foram para o quarto juntamente com a mãe a fim de conversar sobre o ocorrido.

- Filho você está ciente do que você fez? – Perguntou o pai.

- Sim pai.

- Você sabe que será castigado conforme o erro que cometeu.

- Sim pai – responde o filho mais uma vez.

O pai então mandou que o filho se reclinasse no chão para que fosse disciplinado, contudo ele disse ao filho que quem bateria desta vez seria a sua mãe. Enquanto o filho tomava posição para ser castigado o pai disse-lhe que não suportaria vê-lo sofrer porque tamanho era o amor que tinha por ele, então ele mesmo (o pai) é quem sofreria o castigo no lugar do filho. O Pai colocou-se no lugar do filho e mandou que a mãe executasse a disciplina sobre ele.

No caso acima, por mais que houvesse amor, a disciplina não foi tirada. Semelhantemente aconteceu com o homem. Deus não poderia simplesmente perdoá-lo e não discipliná-lo, o que Ele fez então? Veio em forma de homem, sem pecado nem mancha alguma, e levou sobre si o castigo que cabia a nós. Tudo puramente por amor, bondade e misericórdia (Tt 3.4-5), a fim de trazer salvação ao homem.

 

A salvação é um presente

O sacrifício foi realizado, a salvação está diante do homem, mas o que me parece é que este insiste que precisa fazer alguma obra a fim de merecê-la ou a fim de conquistá-la.

Em Efésios 2.8 encontramos a seguinte declaração: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós é dom de Deus, não de obras para que ninguém se glorie”. Fica bem claro nesta passagem que a salvação é graça de Deus, ou seja, é um favor que homem algum merece, é um presente de Deus para o homem e por um presente não se paga. A Bíblia ainda nos diz que por mais que o homem fosse bom, fizesse grandes obras, de nada adiantaria, porque a salvação é um presente para que ninguém se glorie, para que ninguém se ache digno de recebê-la por algum mérito próprio.

Consideremos que você possua uma dívida que jamais conseguiria pagar, mesmo que trabalhasse por toda a sua vida. Surge então um amigo e lhe oferece um cheque em branco, assinado, lhe dizendo que a sua dívida já está paga, basta aceitar o cheque e cobrir o valor da dívida. Encontramos registrado nas Escrituras que Jesus veio para os que eram seus, porém estes não O receberam, porém a todos aqueles que O receberam deu-lhes o privilégio de serem feitos filhos de Deus (Jo 1.11-12) ou seja, todos aqueles que aceitaram o presente de Deus. O cheque já está assinado, a dívida já foi saudada, só é preciso crer nisso e aceitar o presente.

O homem quer complicar o que é tão simples e ao mesmo tempo tão valioso. Quando Deus fala que para ter a vida eterna é preciso somente crer no sacrifício de Jesus Cristo na cruz, confiar nEle como único e suficiente salvador (Jo 5.24), o homem fica a inventar meios para chegar-se a Deus, ou meios para se conquistar a vida eterna. Por mais que ele busque em outras fontes, o único meio de ter acesso a Deus é através do Seu Filho Jesus Cristo, “porque em nenhum outro há salvação senão em Jesus Cristo”(At 4.12).

Todo o homem que invocar o nome do Senhor, receberá dele o maior de todos os presentes, a vida eterna com Deus(Rm 10.13).

 

Deus é quem faz a obra

A ordem que foi dada a todo cristão é que anuncie estas Boas Novas, as boas notícias a respeito da salvação em Jesus Cristo. Muitos cristãos sentem-se frustrados ou desanimados por proclamar a mensagem e as pessoas permanecerem indiferentes. Sentem-se como se tivessem jogado o seu tempo fora.

É importante não nos esquecermos que a obra de convencer o pecador da sua condição e da sua necessidade, pertence ao Espírito Santo, pois é Ele quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16. 7-11). Não queiramos fazer o que não cabe a nós. Somos apenas instrumentos nas mãos de Deus, o autor da Salvação, e sem a Sua atuação o pecador não se converte.

 

3. Orientações práticas para melhorar na comunicação da mensagem do evangelho

 

No início deste capítulo falamos um pouco sobre algumas das razões pelas quais os não-cristãos não dão ouvidos à mensagem do evangelho, queremos agora dar algumas dicas para melhorarmos na comunicação desta mensagem, que é uma mensagem de vida ou morte.

 

Identifique onde você é falho

Sempre que você comunicar a mensagem para alguém, faça depois uma análise tentando identificar onde houve dificuldade na comunicação. Pode ser que encontre dificuldades em explicar alguns termos usados nas Escrituras (ex.: remissão, justificação, fé, etc.), ou então você fala rápido demais e a pessoa não consegue acompanhar a sua linha de raciocínio. Enfim, identificar as falhas ou dificuldades ajudarão a comunicar-se melhor e facilitar para que seja entendido. Muitas pessoas não melhoram sua comunicação porque vivem constantemente cometendo os mesmo erros.

 

 

Provoque perguntas

É importante que as pessoas expressem suas dúvidas através de perguntas. Quando estiver explicando algo e não ocorrem perguntas, ou você deve estar sendo um comunicador de primeira e a pessoa está compreendendo tudo o que diz; ou a pessoa não compreendeu nada por isso não faz perguntas; na verdade, ela até gostaria de fazer alguma, mas nem sabe o que perguntar. Ao expor o evangelho para alguém, sempre pergunte se ela está compreendendo, explique uma, duas, três ou quantas vezes for necessário. Incentive as pessoas a fazerem perguntas, a não guardarem suas dúvidas consigo.

 

Prepare-se bem para falar

Um dos grande motivos que não somos entendidos é porque não nos preparamos para falar. Achamos que a mensagem é tão simples que não precisamos investir tempo estudando a mensagem, e isto é a principal causa da falta de clareza na hora da comunicação. Se a mensagem não está clara para mim, como vou ser claro ao transmiti-la? Sendo assim, separe os versículos básicos e estude-os, escreva-os novamente usando suas próprias palavras (tendo o cuidado para não alterar o conteúdo da mensagem), use ilustrações que poderão ajudar na compreensão do que deseja falar. Quando alguém se prepara para falar já encontra dificuldades em ser entendido, imagine alguém que não se prepara para falar tentando comunicar algo.

 

Transmita com entusiasmo

Lembra-se da ilustração do vendedor que conhece bem o seu produto e mostra entusiasmo ao cliente? A mensagem deve ser transmitida com emoção, com sentimento, você está levando uma boa notícia para a pessoa, e uma boa notícia é transmitida com entusiasmo.

Todo cristão é um comunicador da mensagem de Jesus Cristo em potencial. A maioria só precisa ser instruída em como aprimorar a sua comunicação. Não existe um só comunicador que seja perfeito por natureza, exceto o próprio Cristo.

 


 

[1] Esta ilustração foi extraída do Livro “Comunique com amor“, de Howard G. Hendricks, página 29.

[2] WALKER, Luisa J. Evangelização Dinâmica. Deerfield, Flórida: Vida, 1991. p. 72.

[3] HENDRICKS, Howard G. Comunique com amor. Venda Nova, MG: Betânia, 1983. p.14.

Uma Breve Teologia da Evangelização

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 3:19 pm por Marcelo Berti

Material extraído da Apostila “A Prática da Evangelização” de Fábio Grigório.

Bom Proveito!

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Quando evangelizamos alguém, todos nós cristãos carregamos conosco alguns pressupostos teológicos que norteiam o conteúdo da nossa mensagem, ainda que não tenhamos parado para analisar. Pressupostos estes que influenciam na forma em que proclamamos e nas expectativas que alimentamos com relação ao que é proclamado.

Dentre estes pressupostos, alguns são mais evidentes que outros, vejamos a seguir alguns deles.

 

1. A inspiração e inerrância das Escrituras

 Compreendemos a inspiração “como sendo a influência sobrenatural do Espírito Santo sobre os homens separados por Ele mesmo, a fim de registrarem de forma inerrante e suficiente toda a vontade revelada de Deus, constituindo este registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão (2 Tm 3.16; 2 Pe 1.20-21)”[1].

Infelizmente muitos problemas têm surgido pelo fato de pessoas proclamarem o evangelho com um conceito deturpado no que diz respeito às Escrituras e Sua autoridade. Estas deturpações têm dado margem ao surgimento de muitas heresias e seitas, que têm feito com que o cristianismo pareça uma grande farsa, ou simplesmente conceitos e princípios sem fundamentos uma vez que a sociedade não faz muita distinção dentro do cristianismo, consideram tudo e todos como “evangélicos”.

No momento em que uma pessoa é evangelizada, fala-se para ela da salvação eterna oferecida por Jesus Cristo conforme as Escrituras, fala-se do amor demonstrado por Jesus na Cruz conforme as Escrituras, fala-se também do alvo de todo regenerado durante a sua vida. A partir do momento em que não se acredita na inspiração das Escrituras, nem mesmo em sua inerrância, consequentemente a mensagem anunciada torna-se sem valor, sem fundamento, pois está baseada em fonte não confiável. Como pregaremos a Palavra se não confiamos no sentido exato do que estará sendo anunciado? Como evangelizaremos se não temos a certeza de que o que falamos procede de fato de Deus, ou se é meramente uma falácia dos homens?

O apóstolo Paulo mostra a sua convicção de que as Escrituras são de fato a Palavra de Deus e digna de toda aceitação (1 Tm 2.12; 4.9). A sua vida e mensagem estavam baseadas nas Escrituras. Note que em Romanos 1.16, Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para a salvação do pecador, este é o evangelho pregado pela Igreja, um evangelho que proclama a Palavra que transforma e não simplesmente opiniões dos homens a respeito da Palavra. “A Igreja por si só não produz vida, todavia ela recebeu a vida em Cristo (João 10.10), através da Sua Palavra vivificadora; desse modo, ela ensina a Palavra, para que pelo Espírito de Cristo, que atua mediante as Escrituras, os homens creiam e recebam vida abundante e eterna”[2].

Se proclamamos para as pessoas o conteúdo das Escrituras como a mais pura verdade, como uma mensagem que pode mudar vidas, uma mensagem sempre atual, é porque de fato cremos que a Palavra é viva e eficaz, é transformadora, e cremos que ela é inspirada por Deus. Logo, não contém erros porque o nosso Deus é perfeito e nEle não há falhas.

 

2. A Universalidade do Pecado

Ao falarmos para alguém das Boas Novas, não saímos a procurar onde estão os pecadores e nem mesmo a perguntar quem é pecador para que possa ouvir o que temos a dizer. Ao nos dirigirmos aos homens apresentando o plano de salvação de Deus para a humanidade, partimos do pressuposto de que todo homem é pecador, está debaixo da condenação e necessita da glória de Deus (Rm. 3.23). Uma das conseqüências mais óbvias do pecado é a morte. Essa verdade é destacada na declaração em que Deus proíbe Adão e Eva de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal: ‘porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás’ (Gn 2.17)[3].

A Palavra de Deus é bem clara quando nos diz que não há um justo se quer, não há quem busque a Deus (Rm 3.10-11). Desde a queda, o homem encontra-se sob o domínio do pecado, que corrompeu o seu intelecto, vontade e sua faculdade moral. A raça humana encontra-se morta espiritualmente, escrava do pecado (Gn 6.5; Is 59.2; Jo 8.34,43,44, Ef 2.1,5) e não há nada que ela possa fazer para restaurar a comunhão que fora quebrada (Rm 3.19-20).

Partindo deste pressuposto, temos em mente que devemos anunciar as Boas Novas a todo homem, cientes de que todos estão perdidos e todos necessitam da graça, do perdão, da salvação que só vem por meio de Cristo Jesus.

 

3. A Suficiência e eficácia da obra de Cristo

 O apóstolo Paulo falando aos Coríntios, lembra-lhes do evangelho que lhes fora pregado por ele, por meio do qual muitos foram salvos. Paulo diz que a mensagem consistia em que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras relatam, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, e ainda apareceu a várias pessoas (1 Co 15.1-8). Paulo está afirmando que a obra de Jesus Cristo na cruz dá sentido genuíno à mensagem pregada pela Igreja, que se tudo fosse uma invenção humana, ou se o que Ele fez na cruz não foi o suficiente para a salvação do pecador, a nossa fé é vã, a nossa mensagem consiste em mentira, em enganação (1 Co 15.14).

Jesus Cristo, nosso mediador, cumpriu de forma cabal e vicária as demandas da Lei em favor do Seu povo. Se a obra de Cristo não fosse plenamente satisfeita, não haveria “bênção” alguma a ser aplicada (João 17.4; 19.30; Hb 9.23-28; 1 Pe 3.18).

Jesus Cristo veio para obter a salvação definitiva para o Seu povo (Mt 1.21; Jo 3.16; 2 Co 5.21), Ele mesmo afirma que dá a vida eterna, e aqueles a quem Ele a dá, jamais a perderão (Jo 10.27-28). Graças à eficácia da obra de Cristo na cruz, o homem tem paz com Deus, torna-se amigo de Deus (Cl 1.21-22), torna-se filho de Deus (Jo 1.12), mediante fé em Cristo Jesus como seu único e suficiente salvador. É amparada nesta certeza que a igreja evangeliza.

 

 

4. A Responsabilidade Humana

 O ser humano foi criado por Deus como um ser pessoal que tem consciência e determinação própria. Diferentemente de todo e qualquer animal, o homem faz a distinção entre o eu, o mundo e Deus. O homem foi criado com capacidade de se relacionar com Deus (Gn 3.8-14; Jr 29.13; Mt 11.28-30) e com o seus semelhantes, podendo compreender racionalmente a vontade de Deus, fazer-se entender e avaliar todas as coisas (Gn 1.28-30; 2.18-19). Deus não tinha como propósito criar robôs que ao toque de algum dos comandos responderia sem qualquer sinal de raciocínio e, pior ainda, uma criação impessoal, que não tenha capacidade de se relacionar. Com certeza o homem não é perfeito como o Seu criador e mesmo que o pecado tenha comprometido de forma gravíssima todas as suas faculdades originais, ele não deixou de ser a imagem e semelhança de Deus.

As Escrituras apresentam o evangelho como uma mensagem que deve ser anunciada a todos os homens, a fim de que eles possam entendê-la e crer nela. A fé é um dom de Deus (Ef 2.8). Todavia, a proclamação compete a nós; é uma responsabilidade inalienável e essencial da Igreja. Por certo, não compreendemos exaustivamente a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana; contudo, a Bíblia ensina estas duas verdades: Deus é soberano e o homem é responsável diante de Deus por suas decisões (Rm 1.18-2.16).

Em nosso testemunho, cabe a nós anunciarmos o evangelho de forma inteligível, pois estaremos dirigindo-nos a seres racionais a fim de que entendam a mensagem e creiam; por isso, ao mesmo tempo que sabemos que é Deus quem converte o pecador, devemos usar todos os recursos que temos à disposição para atingir aos homens perdidos; desde que estes recursos não contrariem a Palavra de Deus. A nossa proclamação deve ser apaixonada, no sentido de que queremos alertar os homens para a realidade do evangelho, “persuadindo-os” pelo Espírito, a se arrependerem de seus pecados e a se voltarem para Deus ( Rm 11:13-14; 1 Co 9.19-22).

 


[1] COSTA, Hermisten M. P.  Breve Teologia da Evangelização .São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996. p. 19-20.

[2] Idem, p. 23.

[3] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1992. p. 251.

Descrição da Ação Evangelística

Enviado em Artigos Evangelísticos tagged às 3:02 pm por Marcelo Berti

Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado

 

A conexão entre autoridade e mandamento autoritário é observada pela expressão “Portanto” (conjunção grega oun), como resultado da primeira declaração “Toda autoridade”. Ou seja, por que Cristo é o que é, Ele pode ordenar o que ordena; pelo fato de que tem todo “poder-autoridade“, seja pela concessão da parte do Pai (céu), seja pela sua execução ministerial (terra), Ele agora não apenas autoriza seus discípulos a fazer o mesmo, mas os comanda a exercer um ministério nos moldes daquele que Ele mesmo desempenhou.

A descrição da Ação Ministerial dos seguidores de Cristo é marcada pela presença de quatro termos que vamos analisar com atenção: Ir, Fazer, Batizar e Ensinar. Todos os termos ressaltados tem suas peculiaridades e vamos observá-las com cautela com o objetivo de ressaltar do texto aplicações para a prática ministerial relevante e em conformidade com a vontade do nosso Soberano Senhor que tem toda a autoridade.

 

1.       Conceituando o “Ide”

Apesar do conhecimento que os cristãos tem decorado desse texto, é importante ressaltar que sua complexidade de compreensão tem dividido comentaristas e ministros do evangelho. Tal complexidade deve-se quase que exclusivamente da conceituação do verbo “ir” utilizado nesse verso. Aquilo que em nossa tradução é visto como uma ordem (Ide) também tem sido interpretada de dois modos distintos pelos comentaristas:

 

  • 1. Modal: Muitos materiais de evangelização têm usado a expressão “indo” para traduzir o verbo grego “poreúomai“. Na bem da verdade, eles o fazem pois identificam corretamente o termo como um verbo particípio aoristo passivo (poruthéntes), que tomado à parte do contexto em que está inserido poderia ser traduzido exatamente assim.

 

  • 2. Temporal: Outros materiais, por observarem o termo no particípio e pelo fato de não estar acompanhado de qualquer artigo, substantivo anartro ou locução verbal, poderia fazer referência ao uso adverbial do termo grego. Assim, a tradução ficaria “Enquanto vão“.

 

A conclusão que retira-se de qualquer uma das duas possibilidades é esta: (1) Cristo pressupunha que seus discípulos fariam o que era esperado e por essa razão (2) não ordenou que eles o fizessem, apenas sugeriu. Alguns expositores ao observarem esse quadro e chegarem a conclusões parecidas com essas lembram seus ouvintes que, muito embora não tenhamos uma ordem aqui ela pode ser encontrada em outros lugares, como por exemplo em Mc.16.15. Ou seja, a ordem continua sobre os cristãos, só não retira-se essa idéia desse texto.

Entretanto, uma pergunta precisa ser feita aqui: Por que, então, todas as traduções que dispomos continuam a interpretar essa sugestão como uma ordem? Essa é uma pergunta muito pertinente.

Eu, particularmente, não considero que qualquer uma dessas duas opções seja verdadeira. Também sei que muitos outros não adotam essa opinião pelo medo de retirar do texto o caráter de Ordem do Rei do Reino. Essa não é a razão pelo qual adoto a opinião de que vemos aqui uma ordem explícita. Por essa razão, gostaria de apresentar duas razões pelas quais adoto tal posição.

 

a.         Conceituação sintática

Em primeiro lugar vamos observar como a frase grega nos é apresentada: “poreuthentes oun mathëteusate panta ta ethne”, que foi traduzida pela ARA como: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações“. O verbo principal dessa frase é o verbo fazer discípulos (matheteuo) que é identificado como um verbo aoristo imperativo ativo. Uma vez que esse verbo está bem identificado, entendemos que o verbo “ir” é um verbo secundário na oração.

Portanto, existem duas opções plausíveis de tradução dessa sentença: (1) Ou traduzimos individualmente cada termo (como já demonstrado) ou (2) traduzimos os verbos como parte de uma mesma expressão.

Vale lembrar que esse tipo de expressão grega (verbo participo + verbo no imperativo) é comum em narrativas de língua grega. Um exemplo interessante desse tipo é visto no mesmo capítulo do texto que estamos a estudar: “Ide, pois, depressa e dizei aos seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis” (Mt.28.7). Aqui notamos com clareza que a intenção de Jesus era dar duas ordens distintas: Ir e dizer. Outro exemplo pode ser visto no segundo capítulo do mesmo evangelho: “E, enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo” (Mt.2.8). Aqui a ordem é clara, vão e informem-se. À essa altura é válido dizer que esse tipo de uso grego é bem comum no evangelho de Mateus (Mt.2:8; 9:13; 11:4; 17:27; 21:6; 22:15; 25:16; 28:7; cf. Mc.16.15; Lc.7.22; 13.32; 17.14; 22.8).

Esse tipo de uso do particípio é conhecido como particípio circunstancial. O Particípio circunstancial pode ser: Antecedente, Simultâneo e Posterior. No caso de Mt.28.19, o seu uso é antecedente, ou seja, o particípio é traduzido como imperativo + uma conjunção aditiva + o verbo imperativo. Ou seja, IDE e FAZEI DISCÍPULOS. Como na frase em questão tem mais verbos, o uso de vírgulas em substituição da conjunção aditiva é uma condição da gramática portuguesa. Por isso lemos: “Portanto, Ide, fazei discípulos, batizando e ensinando“.

Sobre esse uso de particípio, Daniel Wallace diz: “O particípio circunstancial é utilizado para comunicar uma ação, que em determinado sentido, é coordenado pelo verbo no infinitivo. Nesse aspecto, não é dependente, por isso é traduzido como um verbo. Mas ele ainda se mantém dependente semanticamente, por que ele não pode existir sem o verbo principal. Ele é traduzido como um verbo no infinitivo conectado ao verbo principal pela expressão ‘e’. [1]” Stelio Rega completa: “O particípio não é o verbo principal de uma frase e poderá depender dele para expressar o seu significado, indicando, assim, se a sua forma é antecedente (precede), simultânea (coincide) ou subseqüente (sucede) à do verbo principal da frase[2]“.

Segue-se que, ainda que de modo separado o termo grego poderia ser traduzido como um gerúndio, ou com uma parcela de temporalidade, a expressão grega construída por um particípio + verbo no imperativo deve ser traduzida de acordo com as designações sintáticas exigidas pelo texto. Logo, o uso do particípio circunstancial é o melhor modo de traduzir a expressão em pauta.

 

b.         O contexto histórico

Outro detalhe que deve ser observado aqui é o contexto histórico dos discípulos a quem é dada essa ordem: Eles são judeus, que por sua própria natureza tem dificuldades com nações do mundo (At.10.28). Como judeus, são centrados nos seus e demonstram que tem certo preconceito com aqueles que são de outras etnias, como por exemplo os samaritanos (Jo.4.9, 27). É válido lembrar ainda que esses discípulos estavam incluídos no grupo que Cristo teria enviado para pregar que o reino dos céus está próximo com a seguinte ordem: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos, mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10.5-6).

Entretanto, vemos que em Sua última ordem, o Senhor ordena explicitamente: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt.28.19). Considerando aqueles que ouviram essa mensagem, temos mais um indicativo para pensar que a ORDEM de IR a TODAS AS NAÇÕES era necessária.

Aliás, é digno de nota que o conceito da abrangência da missão é visto em outros textos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc.16.15). Nesse texto a abrangência é vista tanto do ponto de vista geográfico (mundo) como do ponto de vista étnico (criatura). Não importa onde essas pessoas estão, de que etnia são, que religião tem, eles precisam ser alcançados pelo o evangelho. Em Atos, vemos as etnias destacadas ainda com maior ênfase: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At.1.8).

Considerando a repetição de Cristo em informar seus discípulos que deveriam dirigir-se a todas as etnias nos faz considerar na razão pelo qual Ele faz isso. Eu entendo que Cristo assim procede por que SABIA que Seus discípulos não iriam por vontade própria às outras nações. Essa conclusão é completamente antagônica àquela retirada da interpretação do verbo ir (indo). Eu não entendo que Cristo pressupunha que seus discípulos iriam à outras nações, por isso sugeriu que eles fizessem discípulos enquanto passassem por outras etnias. Pelo contrário, Ele ordenou que seus discípulos fizessem aquilo que Ele sabia que, por vontade própria, eles não fariam.

Essa indisposição de sair da sua nacionalidade foi marca da Igreja Primitiva durante um bom tempo. As mensagens pregadas pelos discípulos eram centradas nos judeus, com citações extensas do Velho Testamento e realizadas da região de Jerusalém. Veja alguns exemplos: “Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras” (At.2.14; cf. v.22, 29); “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At.2.36; cf. At.2.46; 3.1, 6, 12-13, 24; 4.10).

Mas o fato mais interessante da História do Cristianismo em seus primeiros ano é que, por tanto fazerem discípulos em Jerusalém (At.2.41; 4.4; 5.14) isso começou a incomodar a liderança judaica (At.5.17) de tal modo que iniciaram a persegui-los. Já no quatro capítulo de Atos vemos a primeira prisão dos apóstolos por estarem no templo falando acerca de Cristo (At.4.1-3) ; no capítulo 5 são novamente presos (At.5.18; cf. v.26) sob a acusação de já terem sido notificados a não ensinar sobre Jesus Cristo (At.5.28). Observe que nessa ocasião a mensagem oferecida por Pedro e os demais apóstolos era tão centrada em sua própria etnia que o objetivo da morte e ressurreição de Jesus apresentado na ocasião parecia quase exclusivo para a nação de Israel: “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At.5.31). É válido lembrar que pela influência e crescimento do cristianismo em Jerusalém, “Afluía também muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém” (At.5.16) para serem curadas pelo poder de Deus usado por intermédio dos apóstolos (At.2.43)

Ainda após tal situação, o comportamento dos apóstolos e dos cristãos continuou do mesmo modo que vinha operando: “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo” (At.5.42) e o número de discípulos não cessava de crescer (At.6.1). É bem provável que a situação começou a tornar-se insuportável para a liderança judaica ver o crescimento desenfreado de uma “perversão” do judaísmo que partiram para uma atitude mais intensa: “Então, subornaram homens que dissessem: Temos ouvido este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Sublevaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo, o arrebataram, levando-o ao Sinédrio. Apresentaram testemunhas falsas, que depuseram: Este homem não cessa de falar contra o lugar santo e contra a lei ” (At.6.11-12).

Essa inquisição contra Estevão (At.6.8-9) foi provavelmente a gota d’água para os judeus que não aceitavam o ensino a respeito de Cristo. O fim da história de Estevão acaba por ser seu assassinado (At.7.54-6) e o nascimento de uma postura de perseguição dos judeus contra os cristãos: “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” (At.8.1).

A partir da morte de Estevão, parece que ficou entendido que os cristãos que permanecessem em Jerusalém corriam o mesmo risco de vida, até por que todos os cristãos foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria, EXCETO os apóstolos. Sob risco de vida, aqueles que tinham recebido a ORDEM de irem por todo mundo, permaneciam em sua teimosia e permaneciam em Jerusalém.

Entretanto, os que saíram de Jerusalém passaram a realizar aquela ordem que havia sido dada aos discípulos: “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At.8.4).

Para a situação mudar foi necessário que Pedro tivesse uma visão sobre o que era puro diante de Deus (At.10.9-16) associada a uma intervenção sobrenatural de Deus na vida de um centurião gentio da Cesaréia, Cornélio (At.10.1-2). Para demonstrar o tamanho desprezo que tinha por pessoas de outras etnias, cercados de fenômenos sobrenaturais, Pedro ainda tem a capacidade de dizer ao chegar na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo” (At.10.28). Para agravar a situação, após apresentar o evangelho à casa de Cornélio e eles aceitarem (At.10.44-48), Pedro ainda teve que se explicar perante os apóstolos em Jerusalém sobre sua ida aos gentios (At.11.1-3).

É importante lembrar que Pedro não hesitou em ir à casa de um gentio (At.10.29), mas tudo isso aconteceu para que os apóstolos iniciassem a realizar aquilo que já era esperado deles desde a ascensão de Cristo (At.1.8).

Quando olho para como a história aconteceu não posso supor que Cristo em suas últimas palavras pressupunha que Seus discípulos sairiam à outras etnias, mas o vejo como Senhor a ORDENAR algo que os discípulos se mostrariam falhos em realizar.

 

 

Bom, tendo considerado a sintaxe grega e a história dos discípulos, a conclusão que chego é que a tradução da ordem de Mt.28.19 como “Ide, fazei discípulos de todas as nações” é compatível com as exigências da gramática grega e adequada à realidade dos apóstolos e cristãos. Portanto, a ordem é de caráter centrífugo, onde os discípulos deveriam iniciar em pró-atividade a abordagem evangelística. Considerando esse fato com a realidade judaica que era etnocêntrica, uma missão ectocêntrica era um grande desafio.

 

2.       Conceituando o “Fazei discípulos”

O termo grego por trás da expressão portuguesa é “matheteo” e pode ser compreendida transitivamente e intrasitivamente, onde a primeira aponta para o fato de ser discipulado por alguém, e a segunda para o ato de discipular alguém. Neste caso, o imperativo bem traduzido deixa clara a idéia da realização da ação. Portanto, a questão é que isso significa? O que Jesus quis dizer quando nos ordenou FAZER DISCÍPULOS?

Acredito que podemos começar essa investigação compreendendo o que de fato significa ser discípulo. O termo grego pode significar ser pupilo, aprendiz, adepto, discípulo e normalmente é anexado ao responsável pela tutoria. Por exemplo: discípulos de João (“mathetai Ioannou” – Mt.9.14), ou seja, aprendiz adepto, tutoriado, maestrado e pertencente a João.

Um discípulo é que aquela pessoas que está debaixo da supervisão e comando do seu mestre e de forma nenhuma lhe é superior: “O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo, acima do seu senhor” (Mt.10.24). Outro exemplo pode ser visto mais à frente: “E ele lhes respondeu: Ide à cidade ter com certo homem e dizei-lhe: O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos” (Mt.26.18).

Esse discípulo é alguém que busca seguir seu mestre, estar onde ele está e a fazer o que ele faz. Esse tipo de situação acontece várias vezes na vida de Cristo: “Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram” (Mt.8.23); “E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos” (Mt.9.19). Os discípulos de Cristo o acompanhavam, iam onde ele ia, estavam com Ele onde quer que Ele estivesse, à exceção de quando Ele quisesse estar sozinho (Mc.1.35). Ademais, o discípulo é aquele que, acima de tudo, quer ser como seu Mestre: “Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor” (Mt.10.25).

À acrescentar essa lista, é importantíssimo ressaltar que o discípulo é aquele que está debaixo do ensino de seu mestre. Aliás, pelo próprio conceito semântico do termo, o ensino é parte essencial do discipulado. Ou seja, se houver proximidade e não houver ensino não há discipulado. Observe que o ministério de Cristo é marcado pela presença do ensino aos seus discípulos: “Ora, tendo acabado Jesus de dar estas instruções a seus doze discípulos, partiu dali a ensinar e a pregar nas cidades deles” (Mt.11.1); “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo” (Mt.5.1-2; cf. Mt.12.1-2; 13.36; 15.1-2; 16.20-21; 24.3ss; 26.1; entre muitos outros).

Considerando essas colocações, o discípulo é muito mais do que um mero prosélito autônomo, é alguém cujo crescimento espiritual é dependente de alguém que o coordene, direcione, nutra e guie. Por outro lado, o discipulando é aquele que está disposto a ser tutoriado, submisso a autoridade e comando do mestre e é ensinável a ponto de aprender o que lhe é transmitido para oferecer para outros.

Entretanto, a pergunta que torna-se necessária aqui é: Onde esse discipulado inicia? Iniciaria ele na pregação do evangelho ou o texto nos ensina a discipular cristãos? A princípio não entendo o uso do termo como algo compartimentado, onde o discipulado é exclusivo ao salvo, mas que trata-se de um processo que inicia-se com a evangelização e estende-se ao crescimento espiritual deste salvo.

Um texto que nos auxiliar a compreender desse modo encontra-se em At.14.21: “E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia“. Nesse texto nós vemos duas idéias associadas: Evangelizar e Fazer Discípulos. A princípio considera-se a primeira anterior à segunda, seja pela natureza das atividades ou pela ordem da frase. Entretanto, as duas idéias aqui são colocadas como paralelas, como uma duplicação de idéias para reforçar o que se havia realizado. Caso o texto tivesse dito que Paulo teria apenas feito discípulos em Derbe ele seria compreendido integralmente, tal como observado em outros textos em Atos (cf. At.5.42; 8.4, 35, 40). Talvez o autor tenha tido interesse em apontar para o sucesso da pregação de Paulo ao falar que ele teria feito muitos discípulos. Mas, uma importante distinção aqui é válida: o discípulo de Cristo é aquele que já segue a Cristo, já está salvo, mas aquele que precisa ser feito discípulo ainda não segue a Cristo nem é salvo. Logo, na ordem “fazei discípulos” encontramos a idéia de evangelizar e nutrir.

Ou seja, não basta apenas anunciar o evangelho, pois é parte do trabalho do seguidor de Cristo fazer como ele fez. Nosso trabalho, norteado pelo ministério de Cristo deve ser desempenhado em excelência da proclamação do evangelho ao treinamento do novo na fé até que ele possa fazer o mesmo com outras pessoas. Portanto, é necessário viver e conviver com pessoas que precisam ser feitas discípulas de Cristo, e está debaixo da nossa responsabilidade treiná-lo para que venha a ser um discípulo maduro e pronto a realizar o mesmo.

Mas, nossa responsabilidade não acaba nesse ponto, pois existem mais duas responsabilidades do discipulador apresentadas nesse texto:

 

a.         Batizar

Aqui está um acréscimo da ação ministerial dada por Cristo. E novamente nos deparamos com um verbo substantivado sem compreender o que exatamente o que ele quer dizer, visto não ser específico o gerúndio em português. Tanto em inglês como em português trazem a idéia de ação contínua (baptizing – batizando), como também parece demonstrar a versão latina (baptzantes). O termo grego, que é muito semelhante ao termo latino, baptizontes é mais um particípio.

Considerando a relação particípio aoristo e infinitivo aoristo, qual é a razão pelo qual não traduz-se esse termo como um imperativo? A explicação para essa pergunta é simples, pois não existe na sintaxe grega nenhuma construção para esse tipo de relação, onde um segundo particípio sofre influência de um particípio circunstancial que já fora influenciado pelo verbo principal. Portanto o que acontece aqui é um acréscimo da descrição da ação ministerial ordenada por Cristo.

Com isso em mente, como poderíamos compreender, então, a função desse verbo na frase? Muitas alternativas já foram oferecidas, e poucas conclusões foram levantadas. Em particular, acredito que trata-se de um particípio de uso adverbial temporal, que seria traduzido como “enquanto batizam“. A idéia do particípio de uso adverbial temporal é oferecer ao verbo principal da frase a resposta para a pergunta “quando?” de três formas: Antes, com ou após a ação do verbo principal. Nesse caso, poderíamos pensar em uma ação posterior ou simultânea, mas desacreditamos a primeira, visto não ser lógico interromper a ação ministerial em função do batismo dos novos adeptos. Ou seja, à medida que novos abraçam a fé, eles são batizados, em uma ação simultânea.

O termo é utilizado em três formas, basicamente. O primeiro modo diz respeito a uma lavar cerimonial com propósito de purificação. Esse é o caso da exortação dos fariseus contra os discípulos de Cristo: “E, vendo que alguns dos discípulos dele comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar (pois os fariseus e todos os judeus, observando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem; e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de metal e camas)” (Mc.7.2-4). No contexto de purificação Marcos utilizou o termo “batizar” para descrever o lavar de copos. Uso similar acontece na ocasião em Cristo é convidado por um fariseu a comer e não lava as mãos antes de fazê-lo: “O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara primeiro, antes de comer” (Lc.11.38).

Um segundo modo de se utilizar o termo seria uma comparação entre situações extraordinárias e o ato de batizar. Esse é o caso que encontramos na declaração de Paulo sobre o que aconteceu com Israel no deserto: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés” (1Co.10.1-2). Esse tipo de uso também aconteceu em referência ao Espírito Santo: “Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc.1.8; cf. Jo.1.33; At.1.5; 11.6; 1Co.12.13). O termo também foi utilizado em relação ao martírio dos apóstolos (Mc.10.38; Mt.20.22; Lc.12.50).

O termo também pode ser encontrado em um terceiro modo, que seria o ato de usar água em um ritual para renovar ou estabelecer um relacionamento com Deus. Esse é o uso que descreve a função de João Batista: “apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Mc.1.4). Esse tipo de ação ministerial fez parte do ministério público de Jesus: “Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judéia; ali permaneceu com eles e batizava” (Jo.3.22; cf. Jo.4.1-2). E, é com esse uso que vemos a descrição do ritual cristão: “Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” (At.8.36; cf. 8.12; 2.38; 41).

Consideradas essas questões, ainda perguntamos: Mas, o que é de fato o batismo? O batismo cristão é um sinal de Deus para significar purificação interior e remissão de pecado (At 22.16; 1Co 6.11; Ef 5.25-27), regeneração operada pelo Espírito e uma nova vida (Tt 3.5) e a permanente presença do Espírito Santo, como selo de Deus testificando e garantindo que aquele que o recebe está seguro em Cristo para sempre (1Co 12.13; Ef 1.13-14). Fundamentalmente, o batismo significa união com Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição (Rm 6.3-7; Cl 2.11-12), e essa união com Cristo é a base da vida do discípulo deste ponto em diante. Isso significa que aquele que foi batizado em nome de Jesus deve conformar sua vida à Dele e viver de acordo com o que Cristo espera de sua vida. Deve ser por essa razão que Ele nos adverte: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24).

 

b.         Ensinar a obediência

O termo para “ensinando” é “didascontes”, um particípio que sofre de falta de definição tal como o “enquanto batizam“. Não podemos seguir a lógica anteriormente lançada para a tradução deste termo, em função da redundância que traria. Contudo, é bem possível que duas ações possam acontecer em paralelo à uma anterior sem qualquer problema. Gramaticalmente, podemos identificar o segundo verbo particípio como uma extensão do anterior. Assim a sentença inteira ficaria assim: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as etnias, enquanto [os] batizam em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo e [os] ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“.

Com esse acréscimo Jesus estabelece uma nova ação à ação do discipulado: o ensino. Como já vimos, a ação ministerial dos cristãos percebida nesse texto é descrita pela expressão: Ir e Fazer Discípulos. Como também já vimos, o ato de fazer discípulo inicia-se na evangelização e desenvolve-se no nutrir do novo convertido. Nesse contexto, ensinar parece ser algo bem apropriado.

Como é bem visto por nossas traduções, o objetivo do discipulado não trazer o neófito à profundidade do conhecimento teológico, mas ensiná-lo a obedecer. O tipo do ensino esperado por Cristo de seus discípulos é o que desenvolve a prática não o conhecimento. De modo nenhum subjugamos o conhecimento por isso auferirmos, mas demonstramos a prioridade que Cristo dava à prática. É bem visto na vida e no ministério público de Cristo que Ele teria dedicado grande parte do seu tempo ensinando pessoas. Seus discípulos na seqüência fizeram o mesmo. Mas, o caráter do ensino de Cristo era a vida prática.

Se considerarmos a ordem de Cristo nesse texto vemos que deveríamos ensinar todas as coisas que Ele mesmo nos teria ensinado: “ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“.  Isso nos faz lembrar do exemplo de Paulo: “Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa” (At.20.18-20). Paulo era alguém comprometido com esse ensino segundo Cristo, que além de oferecer conteúdo adequado é focado no desenvolvimento cristão.

Pouco à frente, vemos algo mais: “Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos, porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (v.26-27). A quantidade de informações necessárias para que os efésios tivessem boa vida perante Deus havia sido fornecida por Paulo. Ou seja, a informação e a formação estavam lado-a-lado no ministério paulino.

Assim, percebemos que o nutrir e o instruir fazem parte da ministração cristã àqueles que chegam a Cristo. Mas, uma pergunta ainda nos falta: “Até quando devemos fazer isso”? Acredito que Jesus Cristo nos dá uma dica: “ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“. Como vemos no exemplo de Paulo, ele apenas considerou-se livre das pessoas de Éfeso quando compreendeu que havia ensinado todo o desígnio de Deus. Essa deveria ser nossa compreensão da missão cristã: Ensinar a obediência em todas as áreas da vida cristã que estão debaixo de direta coordenação de Cristo.

Por outro lado, existe uma continuidade na ação, pois uma vez que os neófito é discipulado, nutrido nas escrituras e treinado para uma vida cristã adequada ele fará o mesmo com outras pessoas, pois ele também deve aprender a levar o evangelho. Assim vemos que a ordem que Cristo deixa aqui é fundamento da continuidade e expansão da fé, que deveria ser disponível a todos através do ministério cristão.

 


[1] WALLACE, Daniel, Greek Grammar Beyond the Basics, pp.640.

[2] REGA, Lourenço Stelio, Noções do Grego Bíblico pp.102.

02.11.09

Redenção

Enviado em Soteriologia tagged , , , às 5:29 pm por Marcelo Berti

Esse artigo é resultado da leitura do capítulo sobre Redenção do livro Grandes Vocábulos do Evangelho escrito por H.A. Ironside.

Bom Proveito!

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Texto fundamental: 1Pe.1.18-21:

“Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, as pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus”.

 

“A palavra ‘Redenção’ atravessa a Bíblia de capa a capa; de fato, podemos dizer sem qualquer sugestão de hipérbole que este é o grande e notável temo das escrituras Sagradas (…) Por toda parte do, do Gênesis ao Apocalipse, encontramos Deus, de um modo ou de outro, a apresentar-nos a verdade da redenção – redenção em promessa e em tipo, no Antigo Testamento; redenção em gloriosos cumprimento no Novo Testamento” (pp.13).

Segundo Ironside, redenção refere-se ao ato da compra de algo que fora seu, readquirir algo que foi retirado temporariamente de seu poder. Pode ser empregado também como Liberdade, libertar, livrar, no sentido de redimir alguém que corria grave perigo.

O Velho Testamento apresenta a figura do homem endividado que poderia hipotecar seus bens para conseguir pagar o que estava devendo. Se porventura, ainda não fosse suficiente ele poderia hipotecar sua força, suas habilidades como um escravo até que sua dívida fosse paga. Sobre ele Lv.25.48 diz: “Depois de haver-se vendido, haverá ainda resgate para ele“. Um irmão poderia, se tivesse condições, redimi-lo, mas não era o que normalmente aconteceria. Outra maneira de redimir esse homem seria se ele herdasse subitamente uma propriedade para, então, pagar sua dívida. Contudo, existe ainda outra possibilidade, e essa merece nossa atenção: É a figura do Redentor Parente. O redentor parente seria alguém com capacidade para remi-lo, e que se “preocupasse suficientemente por ele, a ponto de responsabilizar-se pelas dívidas e as solvesse, então poderia ser libertado” (pp.14).

Segundo a grande maioria dos comentaristas bíblicos tem encontrado na figura do Redentor Parente um tipo para Jesus Cristo como aquele que provê a redenção. O termo aplicado a esse libertador é “goel“, que é utilizado muito antes do estabelecimento de Israel como nação. Observe o que Jó diz sobre ele: “Por que eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra” (Jó.19.25).

Tal pensamento pode ser aplicado a humanidade com um todo, pois sabemos que o homem é um pecador vendido e condenado. O texto de Isaías 52.3 nos diz: “Por nada fostes vendidos, e sem dinheiro sereis resgatados“. “Não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humano” (pp.14).

Segundo Ironside, o Novo Testamento nos informa sobre três aspectos da Redenção: (1) Redenção da Culpa do Pecado; (2) Redenção do Poder do Pecado; (3) Redenção Presença do Pecado.

Sobre a Páscoa Ironside diz: “Os israelitas tinha sido escravizados pelo egípicios, e sofriam debaixo da crueldade de Faraó; mas, conforme deveis estar relembrados, disse Deus: ‘Por isso desci a fim de livra-los…’ (Ex.3.8), e anunciou a Moisés um acontecimento que logo se realizaria, pelo qual ele faria distinção (literalmente, redenção) entre egípcios e os israelitas (ex.11.7). Essa redenção foi efetuada pelo sangue do cordeira pascal; e é justamente a esse cordeiro que o apóstolo Pedro se referiu tipicamente, em sua primeira epistola ao escrever ‘Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, as pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo’ (1Pe.1.18-19).

O sangue do cordeiro, derramado há tantos séculos atrás, foi a ilustração divina do sangue do Senhor Jesus Cristo, que seria derramado sobre a cruz do Calvário mil e quinhentos anos mais tarde, mas para o qual agora miramos através da névoa de quase dois mil anos já passados. Como é que esse sangue serve para nossa redenção hoje? Nos dias de Israel escravizado, o sangue do cordeiro tinha de ser literalmente aspergido sobre as vergas e ombreiras da porta, e assim os habitantes dentro daquela casa estavam em segurança. Já se passaram séculos, desde a morte de Jesus Cristo. Em qual sentido, pois, podemos estar em segurança, livres da condenação, através do sangue que há tantos séculos foi derramado?” (pp.16)

A questão levantada por Ironside nos remete a seguinte colocação: Seria a aplicação do sangue de Cristo literal, ou a aplicação do sacrifício de Cristo é espiritual? Se consideramos literal, estaremos sem condições de sermos salvos, visto que é impossível que exista uma gota sequer de tal sangue. Por outro lado, se cremos que sua aplicação é espiritual, termos que considerar que muitas das promessas referentes a Cristo possam ter a mesma aplicação. A aplicação espiritual da morte de Cristo não seria um problema, mas a aplicação das outras promessas em relação a Jesus, principalmente no que tange ao Reino de Deus e ao cumprimento das profecias e promessas referente ao Messias, sim. Analisar com mais calma o argumento.

Lemos, na epístola aos Hebreus, que nossos corações te sido aspergidos pelo sangue de Cristo. Como é que esse sangue é aplicado a nossos corações? Mediante a simples fé” (pp.16). “Em outras palavras, quando confiamos no Senhor Jesus que derramou Seu sangue no Calvário, então somos enumerados entre aqueles que tem redenção por meio do Sacrifício que Ele ofereceu, e isso significa que ficamos seguros para sempre, salvos da condenação devida ao pecado, tais como Israel, protegida sob o sangue do cordeiro pascal, ficou livre do julgamento que cairia sobre o Egito…” (pp.17).

Ironside utiliza o texto de Tt.2.11-14 para demonstrar a utilização do termo “redenção” como “livramento”, visto ser aplicado à iniqüidade: “…Cristo Jesus, o que al si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras“.  Ironside diz: “Ele morreu a fim de livrar-nos de toda iniqüidade, para tirar-nos das coisas más que põem em perigo nossa experiência Cristã, e visam arruinar e naufragar nossas vidas” (pp.19).

Cordeiro de Deus

Enviado em Cristologia, Soteriologia tagged , , , , às 5:27 pm por Marcelo Berti

Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Cordeiro de Deus do livro Deus estava em Cristo.

Bom Proveito

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Santo Anselmo é, muitas vezes, acusado de iniciar o estudo da expiação a partir do final, por que seu primeiro passo consiste em mostrar, abstratamente, a urgência da situação que exigia semelhante expiação divina para, somente então, contemplar a provisão efetiva de Deus, em Jesus Cristo. Eu poderia ser acusado do mesmo erro. Mas, ainda que, neste caso, esteja muito bem acompanhado, parece-me que seria mais exato dizer que procurei mostrar a experiência cristã da reconciliação para daí reconsiderar aquilo que a tornou possível, a Cruz e a Paixão de Cristo” (pp.206).

 

Por que morreu Jesus? 

Se quisermos compreender a relação que há entre a Expiação divina e a Cruz de Cristo, devemos voltar nossa atenção ao relato evangélico e ao Jesus da história” (pp.206). Baillie, depois de expor a idéia de expiação quer fazer a ligação entre tal conceito e a Morte de Cristo. Para que isso seja evidente, ele procura demonstrar que é necessário compreender quem foi de fato este que morreu. Por isso, quer voltar sua atenção ao relato dos Evangelhos para buscar Jesus como personagem histórico. “Foram preservadas [as narrativas sobre Jesus], na tradição, por que o significado da Cruz não seria compreendido sem o conhecimento e a compreensão daquele que foi crucificado” (pp.206).

Algumas perguntas propostas por Baillie sobre a morte de Cristo: “Por que Jesus morreu? Por que foi condenado à morte pelo Procurador Romano? Por que as autoridades judaicas tramaram sua condenação? Qual o propósito final da morte de Jesus na economia divina, na providência de Deus? Em que sentido e por que razão Jesus ‘entregou-se’ ao destino da Cruz?” (pp.207). Sobre a voluntariedade de Jesus para a morte na concepção de Baillie implica em dizer que Ele o fez através da fé humana. Para ele é certo que Jesus aceitou a cruz como vontade e propósito de Deus. Quando ele afirma que Jesus fez isso mediante a fé humana ele quer enfatizar a humanidade de Cristo a ponto de não ser “guiado por um conhecimento sobre-humano que lhe faria discernir ‘o fim desde o começo’. Seria artificial pensar nele como tendo desde o início a consciência clara de que viera ao mundo para morrer de morte violenta pela salvação humana. Seria igualmente artificial concebe-lo em qualquer ponto de sua vida a formar a intenção de estar condenado a morte” (pp.207). Para Baillie, “os evangelhos foram escritos numa época em que os cristãos podiam olhar para trás e se gloriar da Cruz, aceitando-a como ordenada pelo propósito de Deus; mas não ocultaram o fato de que Jesus, ao contemplar o seu futuro e percebendo como haveria de ser, via-o como tragédia indescritível, aceitando-o contudo pela fé, e que até na última noite esperou e orou para que não chegasse” (pp.207-8).

É válido relembrar que, segundo Baillie, Jesus não morreu como vítima indefesa, “ele poderia ter escapado mas prosseguiu com olhos bem abertos” (pp.208). Segundo tal autor, se Jesus tivesse alterado o caráter de seus ensino, o número de confrontos com as autoridades judaicas, se tivesse mantido-se reservadamente com seus discípulo, por certo as autoridades judaicas o deixariam viver, e assim Ele teria salvo sua vida.  “Mas mesmo quando os seus próprios discípulos tivessem desejado que tomasse o caminho menos perigoso – o que tornou muito mais difícil sua decisão (Mc.8.31-35) – ele não hesitou. ‘O que salvar a sua vida perde-la-á’ – havia ensinado. Poderia ter salvo a sua vida, mas seria a perda de tudo o que tinha sentido para a sua própria vida. E, assim, não haveria de voltar atrás no caminho que lhe conduzia ao sofrimento, à vergonha e à morte“. (pp.208).

Algumas perguntas interessantes são propostas por Baillie: 

  • Qual era o caminho que não podia abandonar embora tivesse que morrer?
  • Para que morreu?
  • Que objetivo levou-o a tal fim?

 Provavelmente a respostas a todas essas perguntas sejam resumidas a um vocábulo: “AMOR”. Contudo, seria ainda necessário considerar a existência do objeto desse amor. Logo, “AMOR AOS PECADORES” seria a mais plausível das respostas. A pouco, discutimos sobre o amor incondicional de Deus, como deve ser ele compreendido de maneira correta. “Não há nada tão certo e tão autenticado no relato dos evangelhos do que o assombro que o Rabi de Nazaré causava, indispondo-se mesmo com as autoridades ao manter relações de amizade e simpatia com homens e mulheres de caráter duvidoso e pela atitude que demonstrava para com estas pessoas. Freqüentava suas casas e lhes falava com familiaridade. Demonstrava mais interesse nessas pessoas do que em outras e praticamente disse que Deus também fazia o mesmo. Disse que a sua própria missão não era para os ‘justos’ mas para os ‘pecadores’ (…) Não que considerasse os ‘justos’ – escribas e fariseus – sem pecado. Talvez fossem piores do que os ‘publicanos e pecadores’ aos olhos de Deus. Eram também pecadores e precisavam de arrependimento. E quando lhes falou com tanta severidade sobre os seus pecados não foi, em última análise, por que também os amava e desejava que se arrependessem?” (pp.209). “Mas à parte da profecia mencionada e de todas as interpretações teológicas, é verdade que ele morreu pelos pecadores no mais pleno sentido histórico: foi o seu amor pelos pecadores que o levou a morrer na Cruz” (pp.210).

 

A Cruz e o Amor de Deus 

A crucifixão de Jesus levou os homens à reflexão, mas do que qualquer outro acontecimento na vida da raça humana. E o fato mais notável na história do pensamento religiosos é que, quando os cristãos primitivos se reportavam ao que havia acontecido e consideravam os momentos terríveis do Calvário, eram levados a meditar no amor redentor de Deus” (pp.211). É interessante tal afirmação, pois para uma mente inquiridora e saudável, a morte trágica e sofrível, tal como a sofrida por Cristo, deveria ser encarada como a mais faltosa de amor, ou como atitude inescrupulosa de Deus. Talvez, ainda, considerada como a mais cruel de todas as atitudes, ou como afirma Baillie, “a crucifixão poderia ser vista como reductio ad absurdum” (pp.211). O ponto de vista de Baillie da presente argumentação sobre a Morte de Cristo é que, a princípio ela parece cruel demais para revelar um Deus amoroso por trás. O que ele reconhece facilmente é que Jesus demonstra claramente seu amor para com o homem. Mas o paradoxo da Morte de Cristo é reconhecer o amor de Deus por trás de tudo isso. “Se Deus era bom, como havia permitido que tal coisa acontecesse?” (pp.210). Isso é ainda pior quando notamos que os seguidores mais próximos de Cristo nunca inquiriram estas perguntas, ao contrário, consideravam a crucificação como ponto central na exposição do evangelho (ver pregações em Atos). É provável que tal atitude para com a crucifixão de Cristo tenha nascido a partir dos acontecimentos da manhã da Páscoa.

Desde os primeiros dias da vida da Igreja diziam, aparentemente, que de alguma forma tudo acontecera pelos propósitos de Deus e, ainda mais, pelo propósito misericordiosos de Deus par ao perdão dos pecados – um perdão que poderia alcançar até os homens que haviam crucificado Jesus” (cf. At.2.23, 38; 3.17-19,  26; 4.27ss; 1Co.15.3).

Na verdade, não muitos problemas com a preocupação de Baillie em compreender o amor de Deus por trás da morte de Cristo, visto que há farto número de referências neo-testamentárias para esse fim (Rm.5.8; 8.32; Jo.3.16; 1Jo.4.10).

Em resumo ‘tudo é de Deus’: o desejo de perdoar e reconciliar, os meios indicados, a provisão da vítima vindo do seu próprio seio, mediante preço infinito. Tudo acontece dentro da própria vida de Deus: pois se tomamos a Cristologia do Novo Testamento, temos de afirmar que ‘Deus estava em Cristo’ neste grande sacrifício expiatório, e que o Sacerdote e a Vítima eram o mesmo Deus“. (pp.215).

Mas seja qual for o meio empregado no processo da salvação através da cruz, a atitude misericordiosa de Deus para com os pecadores nunca é vista como o resultado do processo, mas como sua causa e origem” (pp.215-6).

Por que a Expiação?

Enviado em Cristologia, Soteriologia tagged , às 5:25 pm por Marcelo Berti

Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Por que a expiação? do livro Deus estava em Cristo.

Bom Proveito

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Baillie intenciona neste capítulo procurar a razão por traz da expiação, como parte da Obra de Cristo. A primeira pergunta que levanta já havia sido dita por Alselmo de Cantuária séculos antes, durante o período do Escolasticismo Católico. Contudo, a princípio Baillie levanta questões que provavelmente são ouvidas em sua época sobre a realidade da fé cristã. Uma pergunta que teria sido muito ouvida durante a história do Cristianismo é a seguinte: “Seria isto verdade?”. A profundidade deste questionamento demonstra que a preocupação dos antigos cristãos estava voltada para a veracidade da sua fé. Contudo, no tempo de Baillie, o questionamento parece muito mais superficial, pois diz-se “Tem importância?”. Ou seja, os cristãos estão se perguntando se existe valor ou importância na existência de Deus amoroso que revela-se ao homem. “Tem alguma importância, para mim, na vida real, a existência desse misteriosos ser chamado Deus? Importa que eu creia em sua existência mais do que saiba de existência de alguma estrela distante, invisível a olho nu?” (pp.179).

A conclusão que se chega é que “Se tais perguntas inquietantes são freqüentes, é por que, sem dúvida, a Cristandade anda muito afastada dos próprios conhecimentos elementares do ensino cristão. Sugere também que nós, cristãoas, não estamos fornecendo explicações e informações adequadas do que cremos” (pp.180). Certamente os problemas não estão nas perguntas, pois são adequadas, mas na falta de respostas.

Algumas questões a serem consideradas: “Por que Deus se fez homem? Com que propósito Cristo desceu do céu? Será que a encarnação fazia parte do plano original e terno de Deus para a humanidade, como o verdadeiro fim da coroa da criação? Ou se tornou necessária somente por causa da Queda do Homem e a conseqüente necessidade de redenção? Teria Cristo vindo, se Adão não tivesse pecado? Se o homem não tivesse caído, a Encarnação ocoreria de maneira talvez diferente e sob condições diversas? Foi somente para morrer na Cruz, pela salvação humana que Cristo se encarnou? Seria necessário que a salvação humana se verificasse através desse único método? Não poderia Deus ter salvo o homem de outra forma, talvez menos custosa, mediante simples Fiat de sua vontade?” (pp.180).

Tais perguntas históricas do cristianismo são, sem dúvida, cruciais para a consolidação da fé cristã. Contudo, não é possível responde-las satisfatoriamente sem que alguns conceitos anteriores sejam tais como o problema do pecado e do perdão, da expiação e da reconciliação (1Tm.1.5; Mc.10.45; 1Jo.4.10). Por isso, “devemos responder a estas perguntas e tentar compreender o significado do perdão dos pecados na vida cristã, expor a compreensão de modo real e vital, e daí voltar à quetãos da expiação e sua conexão com a Encarnação” (pp.180-1).

 

A Necessidade do Perdão de Deus 

Normalmente se ouve que o homem moderno não se preocupa com o pecado e sua realidade. Aliás, há quem diga que o sentido do pecado e da necessidade de perdão é muito estranhos à mente moderna. Contudo, Dr. Reinhold Niebuhr, em 1939, não podia deixar de falar da consciência complacente do homem moderno: “A universalidade dessa consciência complacente, entre os modernos, é tanto mais surpreendente quanto mais se expressa, sem restrições, em uma época de decadência social bem semelhante ai apogeu da cultura burguesa dos séculos XVIII e XIX” (pp.183).

A indiferença com relação à existência do pecado e da preocupação com suas conseqüências foi normalmente aplicado ao medo do juízo e castigo deles, seja neste mundo como o vindouro. Para eles, mais importante é o erro que a penitência, pois o primeiro permanece inalterado e pertence ao passado e não pode ser desfeito nem mesmo com muitas lágrimas penitenciais. O importante é futuro. Portanto, deixando para trás os erros, procurando repara-los a medida do possível, sigo com minha auto-expiação e não me importo nem me perturbo com os meus pecados e com o perdão dele.

O pensamento moderno não pode subsistir a realidade. Como disse Niebuhr: “Sobre o perpétuo sorriso da modernidade há uma careta de desilusão e cinismo” (pp.186). Se considerarmos o homem simplesmente como tendo uma “mera moral”, um ser apenas consciente de seus erros, ser simplesmente um moralista. Para o moralismo moderno não existe solução, pois jamais poderia perdoar-se a si mesmo. Não existe auto-perdão, ou conceito de liberdade moral que supra as acusações de uma consciência normal. Portanto, aqui demonstra-se o fracasso da vã moralidade desprovida de vida de fé. “Este esforço não terá sucesso, por que se centraliza no eu em vez de ter Deus no centro, e esta á a verdadeira raiz do mal. E quanto mais ansioso, mais desesperado se torna, por que não há maneira alguma que sirva para tratar de suas próprias falhas. O pobre moralista é orgulhoso demais para perdoar a si mesmo, e deste modo a auto-retidão e o auto-desespero se encontram, impedindo a salvação da alma” (pp.187-8).

Contudo, quando nos orientamos para Deus, a situação muda de figura, pois a moralidade, não torna-se “mera moralidade”, mas constitui-se Moral absoluta, transformada e saudável, como parte integral da fé. Assim, não existe apenas a consciência do erro, mas a certeza de um mal orientado contra Deus, uma desobediência e violação completa da vontade de Deus, bem como a traição do seu amor incondicional. Ou seja, o homem moderno, em sua concepção da vida meramente moral e moralista não tem “o segredo salvado para enfrentar suas faltas morais” (pp.189). Portanto, sua tristeza é a tristeza do mundo que produz a morte, que deveria transformar-se em tristeza segundo Deus que produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar, por que leva ao perdão (2Co.7.10).

A conclusão que se chega é que não existe resposta suficientemente completa para a questão moral do homem sem que exista o padrão moral absoluto. Não existe solução para o homem, como ser moral, em suas próprias forças e limitações. Não existe quem escape da verdade, veracidade e realidade do pecado como degradador da humanidade do homem. Se, temos pecado em não o negamos, temos certeza de que a verdade está em nós e que, “se confessarmos os nosso pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo.1.8,9).

 

Perdão e Castigo? 

A questão em pauta neste tópico é relacionada a existência do perdão na inevitabilidade de um castigo para o pecado. “Temos o caso de um homem que pela sua vida pecaminosa adquiriu doenças e incapacidade físicas, ou perdeu o emprego e as melhores perspectivas, caindo em séria privação. Ele deve considerar tudo isso como castigo de Deus. Contudo, quando sinceramente ele se arrepende e aceita o perdão de Deus, iniciando uma nova etapa de sua vida, as más conseqüências dos seus velhos pecados podem ainda acompanhá-lo em sua vida nova e mesmo permanecer com ele até o fim” (pp.191). “O castigo rela não está nos sofrimentos, mas na separação de Deus” (idem). “Martinho Lutero refere-se à regra da arte dramática proposta por Horácio, segundo a qual não se deve introduzir nenhum deus na ação e não ser que o argumento se haja complicado tanto, que somente um deus pudesse desenredar a trama. ‘Pois bem’, diz Lutero, ‘o pecado humano é esta complicação’. Somente Deus pode desenredar a trama dos nossos pecados” (pp.195).

 

Mas por que Expiação? 

Portanto, a questão que insurge neste ponto é: “O perdão de Deus não é suficiente?“. O pressuposto dessa questão é visto pela própria argumentação de Baillie, pois demonstra o Amor de Deus como incondicional e seu Perdão como gratuito a todos que o aceitam. Então, por que elaborar uma Teologia de redenção, propiciação e reconciliação por meio do Sangue de Cristo? “Não é melhor crer, afinal de contas, no amor eterno de Deus que busca os pecadores para gratuitamente lhes dar o perdão?” (pp.197). Para responder a essa pergunta, Baillie procura demonstrar a diferença moral e espiritual entre um favor bem intencionado e uma reconciliação custosa.

A questão do amor incondicional de  Deus tem que ser compreendida corretamente, pois é certo que o Amor de Deus continua a atuar sobre homem mesmo em situação de pecado. Contudo, isso não significa que Deus não se importa com a gravidade do nosso pecado, como se tudo fosse parte da vida do homem, uma rotina a qual Deus está habituado. Tal pensamento pode ser claramente estampado pelo pensamento de Heine[1] em seu leito de morte que disse: “Deus me perdoará: este é o seu ofício“.

A questão do pecado pode ser ilustrada como uma ação depreciativa de um amigo para outro. Suponhamos que um deles use de falsidade para com seu amigo e o coloque em situação de risco. A reação dele vai depender da intimidade que existe entre eles, pois se for uma amizade superficial, com leviandade será tratada a ofensa. Contudo, se for um bom amigo, será custosa a restauração desse relacionamento. Observe essa analogia da perspectiva do casamento. Traição é apenas perdoada com muito custo, pois o ofendido teve sua honra maculada, sua vergonha exposta. O ofendido é quem sofre mais, ele carrega a vergonha como se fosse dele, por causa do seu amor traído. A agonia do ofendido é muito maior que a do ofensor, pois é certo que seu amor é muito mais profundo. Portanto, se o perdão for concedido, é neste misto nobre de vergonha e agonia que advém o perdão, e por certo é deveras custoso. Mas, deve-se levar em conta a falibilidade da humanidade, pois o ofendido, na questão da traição no casamento, pode muito bem ser levado por seu amor próprio e desempenhar um julgamento unilateral, e não lhe atribuir o perdão. 

No que tange ao pecado, o ofendido é Deus e o ofensor sou eu. “Se lhe fui desleal como acontece em todas as minhas más ações, a minha deslealdade é para com o Amor infinito que é o coração do universo, a fonte e o fim da minha existência e o próprio significado da ‘Lei Moral’ que eu quebrei. Não pode haver nada mais inexorável do que este amor. Se o traí a traição é definitiva. Esta é que deve ser apagada, e uma ‘expiação’ assim deve ser a mais difícil, a mais sobrenatural e custosa do mundo” (pp.199).

A questão do perdão não trata-se de um Tirano de boa índole conceder anistia com um simples mover de sua caneta. O perdão “provém do coração de um amor que carregou todos os nosso pecados e, por seu amor infinito, a paixão é também infinita. ‘ Quem sofre mais do que Deus?’ pergunta Piers Plowman. Existe no próprio coração de Deus uma expiação, um sacrifício,produzindo o perdão dos nossos pecados“.

Os termos “expiação”, “prociciação” e “reconciliação” vem do antigo sistema sacrificial de Israel, e encontra seu clímax no Cristianismo do Novo Testamento, mais especificamente, em Cristo, onde se entende que Deus é quem paga o preço pelo pecado.

 


 

[1]Seu nome em alemão era Heinrich Heine. Assina a mensagem inserida em O Evangelho segundo o espiritismo, no item 3 do capítulo XX, intitulada “Os últimos serão os primeiros”. Nasceu em Düsseldorf em 13 de dezembro de 1797, de família judaica. Seu destino era o comércio e por isso foi encaminhado pelo pai a um tio banqueiro em Hamburgo. Logo verificou-se que ele não tinha dom para a atividade e o tio o remeteu a Bonn, a fim de estudar direito. Mas o jovem Harry como era chamado então, interessou-se pelos assuntos literários e abraçou os cursos de literatura. Berlim foi seu ambiente mais propício, permitindo-lhe freqüentar os salões literários e seguir a filosofia política de Hegel. Poeta e jornalista, ficou famoso pelos poemas e livros de viagens. Desgostoso pelo clima anti-semita do país, emigrou para Paris no ano de 1831. Ali se tornaria correspondente de grandes jornais alemães. Foi um dos mais inquietos e polêmicos jornalistas de seu tempo. Para o Jornal Geral de Augsburgo descrevia quadros da vida francesa, sendo seus temas constantes o parlamento, a imprensa, o mundo artístico, o teatro e a música. Sua influência foi enorme dentro e fora da Alemanha. Na segunda metade do século XIX todos os poetas alemães pareciam heinianos. Sua poesia é de um lirismo melancólico de início. Seus poemas sentimentais são cheios de infelicidade e lamentações amorosas. Alguns poemas de amor conquistaram fama universal, sendo depois musicados por Schubert , Schumann e muitos outros compositores. Escreveu poemas dedicados ao mar, em versos livres. E por fim, a poesia política, tangendo versos que retratavam situações da época como Os Tecelões, poema inspirado pela greve dos tecelões esfomeados da Silésia. Como prosador é considerado um dos mais ágeis da literatura de língua alemã, em qualquer tempo. Suas obras mais ambiciosas são A escola romântica e Sobre a história da religião e da filosofia na Alemanha. Nesse último, Heine parece querer completar o livro de Mme de Stäel sobre a Alemanha, tentando mostrar aos franceses o pensamento estético e filosófico do seu país. Nele está estampada a profecia de um despertar revolucionário da consciência alemã e, sobretudo, a crença do poeta na importância universal do pensamento de Hegel. Sofreu dificuldades financeiras, enfrentou conflitos políticos e a doença acabou por vitimá-lo. Sofreu uma paralisia que o conduziu à morte em 17 de fevereiro de 1856, em Paris. A mensagem que se encontra em O Evangelho segundo o espiritismo é datada de 1863, também em Paris”.  (www.panoramaespirita.com.br).

Pré-conhecimento

Enviado em Efésios, Soteriologia tagged , , , , às 5:07 pm por Marcelo Berti

Existe uma constante luta entre alguns termos bíblicos, a saber, pré-conhecer (Rm.8.29; 1Pe.1.2) e Predestinar (Ef.1.5). Todos os comentaristas que não adotam uma postura mais reformada em termos de soteriologia, tendem a agrupar os vocabulos alistados em referência a uma possível ordem para salvação. Ou seja, para eles Deus precisa conhecer alguém, e por seu conhecimento antecipado dos fatos, sabendo que este creria, então Ele predestinaria este.

Essa ordem é, em primeiro lugar, uma superposição temática, teológica e contextual, e uma declaração equivocada em função de uma má observação dos vocábulos gregos. Assim é necessário observá-los em seus contextos. A tentativa não é de afirmar a isenção de ligação entre os vocábulos, mas compreender o seu real significado no ambiente em que é utilizado. Mas, vamos por partes. A princípio vamos observar o texto de Rm.8.29:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos

Este é o texto do qual normalmente se retiram o verbete conhecer em referência a salvação. Note que os tradutores da versão ARA utilizam o vocábulo conhecer associado com o advérbio antemão. Em conjunto eles veêm a significar um conhecimento prévio, antecipado, ou seja, um pré-conhecimento.

Segundo os teólogos aversos à teologia reformada afirmam que esse vocábulo implica em dizer que Deus conhece a cada um daqueles que “aceitarão a Jesus” no futuro, e então, segundo o texto, ele os predestina à salvação. Ou seja, Deus em seu conhecimento prévio resolver predestinar a salvação aqueles que, Ele sabe, já se predestinaram a salvação eterna “aceitando a Jesus” como salvador. Logo, a conclusão que se chega é que a Predestinação da parte de Deus é na verdade uma obra em cooperação com o homem. E sobre isso muito bem acentuou Spurgeon:

 

De acordo com o esquema do livre-arbítrio, o Senhor tem boas intenções, mas precisa aguardar como um servo, a iniciativa de sua criatura, para saber qual é a intenção dela. Deus quer o bem e o faria, mas não pode, por causa de um homem indisposto, o qual não deseja que sejam realizadas as boas coisas de Deus. (…) Se eu decidir, tornarei ineficaz o sangue de Cristo, pois sou mais poderoso que o sangue, o sangue do próprio Filho de Deus. Embora Deus estipule seu propósito, me rirei desse propósito; será o meu propósito que fará o dEle realizar-se ou não”. Senhores, se isto não é ateísmo, é idolatria; é colocar o homem onde Deus deveria estar.[1]

 

Contudo, esse corrente teológica tende a minimizar a Obra Salvífica de Deus, que é um ato iniciado e perfeito por Ele. Assim é mister compreender o significado deste vocábulo, no ambiente bíblico, a fim de observar quão grande obra foi realizada por Deus na salvação do homem.

 

Prognosko

O verbo utilizado por Paulo em Romanos 8.29 é proginosko. Esse vocábulo e formado a a partir da junção do verbo ginosko com  a preposição pró, que passa a modificar o sentido do verbo. Segundo Collin Brown e  Lothar Coenen, o verbo “é atestado de Eurípedes em diante (Hippolytus, 1072)[2]“, ou seja, um termo relativamente recente.

O verbo ginosko tem significado simples e pode ser utilizado basicamente de duas maneiras: de maneira universal e particular. No que diz respeito aos usos mais universais do verbo, ele vem a sigficar conhecer, saber, vir a conhecer, compreender, obter conhecimento ou, como sugere o Thayer’s Greek Lexicon, como um eufemismo hebraico referindo-se à conexão carnal íntimas entre homem e mulher (LXX Gn.4.1, 17, 19.8; 1Sm.1.19).  De maneira particular pode referir-se ao conhecimento de Deus e de Cristo e das coisas relativas a Eles ou procedentes Deles.

Neste aspecto mais particular é que parece ser utilizado o vocábulo, mesmo que precedido por uma preposição, pois refere-se ao conhecimento relativo a Deus, pois, como lê-se: “Porquanto [Deus] aos que de antemão conheceu, também os predestinou…”. Assim, esse conhecimento seria prévio, exclusivo de Deus embora ainda não manifesto claremente ao homem, como sugeriu Eurípedes, Platão e Xenofontes ao aplicarem o vocábulo proginosko em referência direta a Deus. O que se pode concluir que esse vocábulo não pode ser aplicado ao simples fato de que Deus previu algo, mas que desde a eternidade passada ele já tinha conhecimento.

Entrementes, pode-se perceber que a busca para a definição léxica do verbete é fundamentada apenas nas citações do grego clássico. Isso poderia criar objeção à definição visto não ser retirada do ambiente bíblico. Mas, antes que se pense de maneira inadequada, é necessário observar atentamente as citações bíblicas e procurar compreender qual uso os autores do Novo Testamento fizeram desse vocábulo.

Nas citações bíblicas pode-se observar 5 utilizações do vocábulo, sendo uma de Lucas (At.26.5), duas de Paulo (Rm.8.29, 11.2) e duas de Pedro (1Pe.1.20; 2Pe.3.17). Em Atos é que observa-se a colocação mais simples, pois trata-se de uma defesa pessoal de Paulo. Em sua defesa ele afirma: “pois, na verdade, eu era conhecido deles desde o princípio, se assim o quiserem testemunhar, porque vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião”. A intenção de Paulo é demonstrar que os fariseus o coheciam a muito tempo, ou seja, o conheciam anteriormente ao julgamento. Essa colocação não pode ser classificada de outra maneira, senão no uso mais universal do verbo, referindo-se a atividades humanas de recordação (cf. 2Pe.3.17). As outras três citações dizem respeito às atividades de Deus, e por certo, estão classificadas de maneira mais particular, pois refere-se ao conhecimento anterior que Deus tem.

Romanos 8.29

Antes de qualquer discução no que diga respeito ao vocábulo e o ambiente em que ele está inserido, é necessário observar algumas características da epístola em que o ambiente, que contém o vocábulo, está inserido.

Paulo escreve esta Carta-Tratado, aos Romanos, com alguns pontos em mente.  Tais como Justiça de Deus  que se revela no Evangelho (1.17). Sendo revelada no Evangelho, qualquer outra possibilidade de Justificação é anulada, pois todos estão debaixo do Pecado (1.18-3.31). E fora do evangelho, permanecerá como tal (1.17-3.31). Dessa forma é necessária a justificação, que é ilustrada (4.1-25), é recebida pela fé (5.1-11) e aplicada a muitos (5.11.19) em função da manifestação da graça de Deus (5.20-21), sendo esta graça atribuida a pecadores, isso não isenta a responsabilidade do salvo em relação ao pecado (6.1-23),  a busca pela santificação (7.1-25) embora se pudesse ter muitas questões sobre o cristão e a lei judaica.

Nesse interím, sabendo de todas as informações acima lancadas, Paulo passa a criar o ambiente em que a palavra é utilizada. O ambiente parece denotar um aspecto da vida cristã que é muito desgostasa, as tribulações. Mas, Paulo, de maneira muito madura, contrasta as tribulações e sofrimentos com a glória que em nós será revelada. (8.18). pois, segundo ele, até mesmo a natureza e toda a criação de Deus sofre com o problema do pecado no mundo, e isso inclui o homem (8.19-23). A partir deste ponto Paulo faz uma demonstração de que o ápice da posição do cristão encontra-se no fato de que no futuro será glorificado (8.24-30). Então, é nesse contexto que encontramos o vocábulo, onde lê-se:

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmão. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. Rm.8.28-29       .

Note que a contrução do versículo: “…aos que de antemão conheceu, também os predestinou”. Se observado dentro da gramática em português, fica evidente que o fato de que Deus conheceu não é a base, nem o fundamento da predestinação, pois o advérbio entre conhecer previamente e predestinar é “também”. Em grego isso fica mais estampado, pois lê-se: “o[ti ou]j proe,gnw( kai. prow,risen)))”. O vocábulo “kai,” utilizado neste texto não pode ser traduzido por “por causa”, muito menos por “por isso”. Normalmente o termo é utilizado apenas para conectar cláusulas e sentenças, bem como narrativas, além de, epexegeticamente, anexar palavras e sentenças. A função sintática do termo restringe-se a isso.

Assim, não pode-se afirmar que a razão da predestinação é o pré-conhecimento que Deus tem. O que pode-se concluir é que Deus de fato conheceu e predestinou, embora o texto não faça distinção entre tempo ou época em que isso aconteceu.

A exceção dessa observação, a própria palavra que refere-se ao pré-conhecimento, não expressa o sentido desejado pelos teólogos aversos à teologia mais reformada, no que tange à salvação. E sobre isso J.I Paker diz:

 

Para a pergunta, “Em que base escolheu Deus os indivíduos para salvação?” às vezes é respondido: em base da presciência dele que quando os confrontou com o evangelho eles escolheriam a Cristo como Salvador deles. Nesta resposta, pre-conhecimento significa previsão passiva da parte de Deus do que os indivíduos irão fazer, sem o predeterminar de suas ações dEle. Mas 

(a) Pré-conhecimento em romanos 8:29 e 11:2 (…): não expressa a idéia da antecipação de um espectador do que acontecerá espontaneamente[3]

 

Sendo assim, observa-se que a fundamentação é vaga, pois não tem base exegética. Mas é valido afirmar que pré-conhecimento e predestinação não referem-se ao mesmo evento, sendo isso evidenciado pelo uso de duas palavras diferentes para a especificação das atividades que são iniciadas por Deus e perfeitas por Ele. Assim, é muito mais provavel que esse conhecer seja marcado pelo senso hebreu de escolha antecipada[4], como sugeriu Archibald Thomas Robertson.

Portanto, é mister afiançar que o texto diz que “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à Imagem de Seu Filho”, o que inibe a possibilidade em que se afirme que fomos eleitos por que Deus sabia que creríamos, pois sabe-se que ser conforme a imagem de Seu Filho é consequência da salvação. Ao contrário, deve-se afirmar que fomos eleitos com objetivo de sermos conformes à Imagem de seu Filho, como bem destaca a preposição “eivj” no texto. Ou seja, não se deve considerar como fundamento, como normalmente alguns teólogos tem feito de maneira indevida, o que é conseqüência da salvação. Assim, “a eleição não se pode basear em obediência, obras e santidade previstas, porque isso tudo é resultado da eleição, e não sua causa[5]“.

Logo, conclui-se que o ato de conhecer fatos antecipadamente da parte de Deus não significa que Ele tenha previsto fatos futuros como um profeta, nem mesmo que isto fundamente sua predestinação, como fica bem estampado pelo grego no texto em pauta. Mas é válido relembrar que o termo não é um sinônimo de predestinar, visto que, neste texto, Paulo usa os dois termos juntos. Contudo é necessário que se diga que ambos estão em acordo.

Romanos 11.2

Este texto é muito pouco utilizado para defender o pré-conhecimento passivo e soteriológico, embora utilize a mesma palavra que Rm.8.29. Possivelmente isto aconteça em função de que o texto não corrobora para o fim desejado por aqueles que visam distorcer os texto e verdades bíblicas.

Antes de qualquer qualquer menção seja feita sobre este texto é necessário fazê-lo exposto: “Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu…”. O discurso de Paulo, que está ao redor deste versículo, refere-se à possivel rejeição de Deus do povo de Israel. Mas, sua conclusão, no texto, é bem clara, pois Deus não repudiou seu povo. Em confirmação a esta premissa, ele ilustra a partir da história de Elias, que não estava sozinho e diz: “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. Segue-se que Deus não repudiou seu povo, que conheceu de antemão.

A esse conhecimento de Deus é impossível que se diga que Ele simplesmente sabia que este povo o iria cultuar e aceitar seu plano pactual e remissor.  Aqui fica evidente que a palavra é utilizada no sentido de escolha antecipada. Embora não seja a mesma palavra que “predestinação”, esse conhecimento antecipado está em consonâcia com ela.

Segue-se que o pre-conhecimento de Deus não é passivo, muito menos espectador das atividades humanas, mas, é ativo e eletivo, como foi bem demonstrado acima.

 

1 Pedro.1.20

Neste texto acontece fenômeno semelhante com o que acontece em Rm.11.2, como lê-se: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram,  mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós”.

Neste caso é impossível que diga-se que esse conhecimento de Deus refere-se à sua estimada previsão que Cristo iria entregar sua vida em resgate de muitos. Principalemente pelo fato de que no grego pode-se observar uma certa ênfase no que tange a esse conhecimento, como lê-se: “proegnwsme,nou me.n pro. katabolh/j ko,smou”. Se traduzido com mais literalidade, notar-se-á a seguinte tradução: “conhecido antecipadamente, com efeito, antes da fundação do mundo”. Assim, a definição desse conhecimento é anterior à fundação do mundo, como fica bem enfatizado pelos termos bíblicos utilizados por Pedro.

Logo, é impossível dizer que este texto afirma apenas um saber desconexo com seu determinar. Porém, se isso é de fato verdade, como alguns creêm piamente, a morte propiciatória de Cristo passa a ser um evento estranho ao propósito de Deus, e ser considerado um anexo posterior ou um apêndice, que veio a colaborar com suas espectativas. Sem contar que a remissão dos pecados não faria parte dos Seus Planos.

Mas como é muito bem observado pela literatura bíblica, Cristo não é um evento histórico, mas o centro dos Propósitos de Deus para a humanidade. Deus não sabia que Cristo morreira, mas assim predeterminou, pois “a crucificação foi o centro de seu plano eterno para a redenção[6]” (veja ponto 2.2, At.2.23). Assim, não se pode chegar a outra conclusão, senão que o ato de pre-conhecer de Deus está em conformidade com o ato de predestinar, é ativo e que por vezes carrega um aspecto de eleição e determinação antecipada, como pôde-se observar nos textos analisados. Segue-se que afirmar que Deus predestinou aqueles que sabia que o aceitaria não passa de uma declaração não bíblica, senão, como afirmado por Spurgeon, uma heresia:

 

Qual é a heresia de Roma, senão acrescentar algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, ou seja, trazer obras da carne,  para ajudarem na justificação? E qual é a heresia do arminianismo, senão acrescentar alguma coisa à obra do Redentor? Toda heresia, analisada com profundidade, se descobrirá aqui[7].

Prognosis

Este é a forma substantiva do verbo anteriormente mencionado, um termo bíblico utilizado para pré-conhecimento, sendo encontrado em 1Pe.1.2, e imediatamente ligado com Rm.8.29, como já observado. Como prognwskw, prognosij é formado pela junção de pro com gnosis. Como é muito bem conhecido, a primeira partícula deste vocábulo refere-se a temporalidade, e a segunda a conhecimento. Assim, encontra-se mais uma palvra bíblica que refere-se ao conhecimento prévio de Deus.

Nas escrituras o termo aparece apenas duas vezes, à exceção das duas citações encontradas na septuaginta (Jd.9.6 – h’ kri,sij sou evn prognw,sei: juízos previstos de antemão; 11.19 –  tau/ta evlalh,qh moi kata. pro,gnwsi,n mou: estas coisa me foram ditas previamente), em At.2.23 e 1Pe.1.2. Esse vocábulo parece não acontecer no Grego clássico, o que sugere que seu significado pode ser muito bem identificado nas citações bíblicas.

Por ser um verbo composto é válido observar as ocorrências do verbo sem o prefixo “pro,”. Das 29 ocorrências de “gnw,sij”, nenhuma foge da idéia de conhecimento, sabedoria, saber, ciência. Assim, pode-se afirmar que “gnw,sis” é um sinônimo de “gnwskw”, como também afirma o Thayer’s Greek Lexicon.

Logo, pode-se perceber que esta é apenas outra forma para expressar a idéia de conhecimento antecipado, ou pré-conhecimento, como se tem insistido neste trabalho. Vale assim observar as ocorrências Neo-testamentárias desse vocábulos.

 

1 Pedro.1.2

Este parece ser o mais polêmico dos textos, no que se refere a esse conhecimento antecipado de Deus. Todo o problema parece surgir no mesmo ponto, pois segundo todos os comentaristas que não concordam com a predestinação bíblica tentar dar outro significado ao termo bíblico.

Entretanto, de todas as definições encontradas, nenhuma é mais interessante que a encontrada no Bauer’s Lexicon, pois este define o verbete como a sabedoria e intenção onisciênte de Deus. Essa definição vai além de todas as outras definições encontradas, visto que traz em si o reconhecimento correto de que pré-conhecer não isenta o fato do Pleno,  Perfeito, Infinito e Eterno Conhecimento de Deus, Sua Onisicência. Ou seja, “Deus conhece os infinitos resultados das infinitas possibilidades[8]“. Assim nada pode escapar de seu conhecimento.

Mas o fato mais interessante dessa definição, é que encontra-se nesta definição uma partícula que retira e inibe toda a passividade que se possa encontrar nesse conhecimento, pois diz respeito a sua intenção. Não aplica-se o termo apenas a uma espécie de conhecimento que, porventura Deus possa ter, mas Suas Intenções são caracterizadas por essa sabedoria onisciênte.

Mas, é possível que algum mal informado possa afirmar que tal argumento não está estampado nas páginas bíblicas, pois afinal de contas trata-se de uma definição léxico-teológica. Entremente, em resposta a esse raciocínio infundado pode-se dizer que a própria utilização em 1Pe.1.2 favorece a tal definição.

Note que Pedro escreve àqueles que são “eleitos” (1.1). Porém pouco a frente acrescenta “eleitos, segundo a presciência de Deus”. Em um raciocínio simples há de se notar que os cristãos, a quem escreve Pedro, foram escolhidos. Ou sejam, trata-se de um povo que foi escolhido por alguém, visto ser impossível ser que a ação, que Pedro demonstra, faça menção a uma atividade autocausada, onde o homem é o motivo, executor e alvo da ação. Sem contar que a segunda afirmação, que diz respeito à eleição, é clara em afirmar que é segundo a presciência de Deus. Como a presciência não é um departamento, ou aspecto independente em Deus, pode-se afirmar sem medo que os cristãos foram eleitos por Deus, sendo que essa atividade está em conformidade com seu conhecimento prévio.

Rapidamente pôde-se perceber que a presciência de Deus não refere-se apenas a uma antecipação, ou previsão da parte de Deus, dos fatos que viriam a acontecer, mas a uma intenção que permeia sua escolha, que é realizada segundo seu pré-conhecimento. Sobre isso muito bem afirmou McArthur:

Ao escrever que ’somos eleitos, segundo a presciência de Deus Pai (1Pe.1. 2), Pedro não estava usando a palavra ‘presciência’ para significar que Deus sabia de antemão quem haveria de crer e, por isso, escolheu a essas pessoas pela fé que previra nelas. Em vez disso, Pedro estava dizendo que Deus determinou, antes do princípio dos tempos, conhecê-las, amá-las e salvá-las; e escolheu-as sem levar em conta qualquer coisa boa ou ruim que pudessem fazer[9].

A declaração de McArthur parece concordar com a definição do Bauer’s Lexicon, visto que a presciência não trata-se de um conhecimento passivo, mas efetivo e determinante na questão da eleição. Sem contar que o texto não afirma que  “Deus predestinou ou elegeu aqueles cuja fé, santidade e perseverança ele conheceu de antemão[10]“. Sobre isso Samuel ainda argumenta:

Se a presciência divina do arrependimento e da fé do homem fosse a base par a eleição, Deus teria oferecido uma oportunidade às cidades pagãs de Tiro, Sidom e Sodoma, as quais, conforme Jesus disse (Mt.11.20-24), ter-se-iam arrependido se tivessem presenciado seus milagres. Deus previu que elas se arrependeriam e, apesar disso, não lhes deu uma oportunidade de ver as obras de Cristo e de se arrependerem (…) Portanto, a eleição não depende de Deus conhecer previamente o arrependimento e a fé, mas depende de sua vontade e soberania[11].

A partir deste ponto, é necessário que se apresente alguns argumentos fundamentados diretamente no texto grego. E neste lê-se: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j”. Note que a expressão que acompanha o pré-conhecimento de Deus é “kata,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, kata, é uma preposição que denota movimento, difusão ou direção de cima para o baixo, basicamente. Emobora, possa ser subdividida em dois grandes grupos de possibilidades de tradução. A primeira, acompanhando palavras no caso genitivo, e a segunda, no acusativo. Com genitivo, a preposição significa basicamente “contra”, “para baixo”. Com acusativo, no que diz respeito a tempo pode significar “durante”, mas no que tange a referência ou relação, significa “em conformidade”, “de acordo com”, “segundo”. Como fica bem estampado no texto, “pro,gnwsin ” deve ser identificado como um substantivo comum, no acusativo, feminino, singular de “pro,gnwsij”. Assim restringe-se as possibilidades de tradução.

Vale anotar que “pré-conhecimento”, embora tenha uma conotação temporal, não pode ser usado com o aspecto temporal da preposição “kata,” visto não fazer o menor sentido. Logo, a que conclusão se chega, senão que a melhor tradução para os termos associados seria: “em conformidade com o pré-conhecimento”.

Mais uma vez chega-se a conclusão que não se pode afirmar que o conhecimento antecipado de Deus é a causa efetiva da ação, nem mesmo a inspiração motivadora, mas significa dizer que a eleição está em acordo com esse Seu conhecimento. Com obviedade, existe uma distinção considerável em afirmar que a eleição está em acordo com o pré-conhecimento, do que afirmar que foi por causa deste pré-conhecimento.

Dessa forma, claramente nota-se que a preposição “kata.” utilizada por Pedro inibe a possibilidade de que esse preconhecimento seja o motivo pelo qual Deus escolhe, pois o fato claro é que Deus sabia de antemão em quem iria atuar, por isso os escolheu.

Outro detalhe que acaba por derrubar o argumento infundado que afirmar a eleição em função do pré-conhecimento, é outra preposição muito bem ajustada com o texto e muito bem colocada, a preposição “eij”. Uma particularidade dessa preposição é que ela é utilizada apenas com o caso acusativo, e segundo o Lothar Coenen e Collin Brown, “nínguém nunca questionou que eis pode expressar a direção metafórica, isto é, alvo ou propósito[12]“. Trata-se, na verdade, do uso télico ou final da preposição grega, que é um uso comum no Novo Testamento.

Mas que ligação teria essa preposição com o argumento anteriormente lançado, a saber, a impossibilidade de que se diga que a eleição é fundamentada sobre o pré-conhecimento? A resposta está estampada no texto grego de 1Pe.1:2: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j evn a’giasmw/| pneu,matoj eivj u’pakoh.n kai. r’antismo.n ai[matoj VIhsou/ Cristou/". O que Pedro parece estar estampando no versículo nada mais é do que o propósito da Eleição. A utilização de "eij" não deixa dúvidas.

Assim, se o texto demonstra que o propósito da Eleição é a obediência, ninguém pode argumentar que fomos eleitos por que Deus sabia que obedeceríamos. Obviamente, há quem diga que "eij" neste texto possa ser utilizado como causa, sendo traduzido por "eleitos segundo a presciência (...) por causa da obediência". A primeira ojeção que pode-se fazer sobre essa malfadada tradução é, de fato, não existe utilização como essa no Novo Testamento. Sobre isso Lothar Coenen e Collin Brown afirmam que "tal significado para eis parece improvável em quer uma das passagens às vezes aduzidas[13]“. Já no Léxico Liddell-Scott, não encontra-se qualquer análise de uso causal da preposição em pauta. O mesmo acontece com o Thayer’s Greek Lexicon e o Friberg Lexicon. Conclui-se que seguramente pode-se afirmar que tal uso é indevido na passagem, sem contar que parece tratar-se de uma desvirtuação do texto em prol de uma ideolgia filosófica que não tem seus princípios estampados nas páginas bíblicas. A segunda objeção que pode-se fazer está em caráter de lógica, pois não pode-se fundamentar como causa o que é efeito, como outrora demonstrado. Nas páginas do Novo Testamento pode-se observar que a obediência é resultado da salvação, como fica bem exposto por Paulo em Rm.1.5 “por intermédio de quem [Jesus Cristo] viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé”. (cf. Rm.16.26).

Segue-se que o pré-conhecimento de Deus não é o fundamento da sua eleição, mas pode-se assumir com segurança que a eleição está em conformidade com seu pré-conhecimento. Além de que, este pré-conhecimento não é passivo, mas trata-se de uma sabedoria e intenção onisciente, que está além das estipulações da vontade humana.

 

Atos 2.23

Este é mais um texto que utiliza a forma substantiva de “prognwskw”, a saber “prognwsij”. Mas, como é de se esperar, não é um texto utilizado para comprovar a antipática e antibíblica ideologia do pré-conhecimento como base ou fundamento para a eleição.

Mas, antes de qualquer colocação é válido fazer o texto conhecido: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis, sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;”.

Este texto encontra-se na primeira defesa pública da Vida De Jesus Cristo, feita por um dos seus discípulos, pouco após ter recebido, junto com outros discípulos, a promessa do derramento do Espírito Santo. Este é o momento de ápice na defesa-testemunho de Pedro, pois chega onde todo evangelismo deveria chegar, na mensagem da morte da Jesus Cristo e consequentemente na sua ressureição.

Note a forma como Pedro estampa o fato de que Jesus foi entregue por Deus para ser morto pelo judeus, que o mataram. Ou seja, dois fatos estão acontecendo em consonância nesta ação, o decreto de Deus e a responsabilidade dos homens. Mas o mais interessante é que dois termos estão muito próximos aqui, a saber “determinado desígnio” e “presciência”.

A palavra grega referente a palavra portuguesa para “determinado” é “o’ri,zw”, já conhecida pelo estudo de “proori,zw” estampado em boa parte do trabaho anterior. Esse verbete, como já preanunciado, está intimamente ligado com a ação de determinar, designar, decidir.  A palavra que acompanha essa “determinação”, demonstrada por “ovri,zw” é “boulh,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, este substantivo encontrado em At.2.23 fala “especialmente do propósito de Deus com respeito à salvação de homens por Cristo”. Assim, “boulh,” não apenas caracteriza uma vontade determinada, mas a um propósito determinado por Deus. Logo, conclui-se que a morte de Cristo é um decreto eterno de Deus em relação ao seu plano redentor para o homem.

Somado a esse reconhecimento, muito necessário, é válido afirmar que esse propósito determinado acompanha o pré-conhecimento de Deus. Note o texto grego: “tou/ton th/| w’risme,nh| boulh/| kai. prognw,sei tou/ qeou/ e;kdoton”. Em uma pequena observação, perceber-se-á que a conjunção que une o determinado desígnio de Deus e sua presciência é a partícula “kai,”.

A utilização dessa conjunção nesse tipo de contexto já foi comentado em Rm.8.29, porém é válido lembrar que aqui a conjunção deve ser identificada como uma conexão entre os termos. Logo, determinado desígnio está ligado sintaticamente à presciência. Ou seja, a determinação estampada pelo verbo “ovri,zw” atinge tanto a “desígnio” quanto “presciência”, visto que ambos substantivos concordam em caso com o verbo substantivado, identificado como um particípio de uso adjetivo. Segue-se que, tanto o desígnio quanto a presciência de Deus são determinadas por seu propósito.

À luz dessa conclusão, não se pode afirmar que Deus apenas previu o sacrifício de Cristo, como apenas um ato voluntário da parte de Jesus. Mas foi um predeterminação da parte de Deus. Isso está em acordo com Jamiesson, Fausset and Brow, que afirmam que “a morte de Cristo tinha sido predeterminada de antes da fundação do mundo (veja 1Pe.1.19, 20; Ap.13:8)[14]“. Mas isso não implica em afirmar isenção de responsabilidade humana, pois Pedro demonstra a culpabilidade dos homens pela morte de Cristo no texto. Sobre isso Archibald Thomas Robertson diz: “Deus teve legado a morte de Jesus (Jo.3:16) e a morte de Judas (At.1:16), mas aquele fato não perdoou o Judas da responsabilidade e culpa dele (Lc.22:22). Ele agiu como um livre agente moral[15]“.

O que se quer afirmar nada mais é do que, muito bem fez Jonh Walvoord e Roy Zuck, ao dizer que “o ponto deste verso está claro: a Crucificação não era nenhum acidente. Estava no propósito de jogo de Deus (“plano”) e era o determinado desígnio de Deus, não somente a inclinação dele. Era uma necessidade divina (cf. 4:28)[16]“.  

Que se conclui, então? Presciência, ou pré-conhecimento, não é um aspecto independente de Deus, nem mesmo um anexo a sua Onisciência. Pré-conhecimento em referência a Deus não pode ser considerado apenas como uma previsão profética, mas uma determinação onisciênte da parte de Deus, que por vezes diz respeito a Cristo e em outras a salvação dos homens. Visto que, tanto a ação de pre-conhecer como o pré-conhecimento em si referem-se à salvação dos homens, considera-se ambos tenham um aspecto ativo e eletivo da parte de Deus.

Portanto, qualquer afirmação que se faça que fuja das afirmações acima alistadas, trata-se de afirmações equivocadas e sem respaldo bíblico e exegético podendo ser considerada como heresia, como o fez Charles Spurgeon


[1] SPURGEON, Charles H., Implicações do Livre Arbítrio.

[2] BROWN, Collin, COENEN, Lothar, Dicionáio Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp1792.

[3] PACKER, J.I, Concise Theology: a guide to historic Christian beliefs. Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois. 1997

[4] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.

[5] FALCÃO, Samuel. Escolhidos em Cristo. Cultura Cristâ:São Paulo, 1997.  pp.127

[6] MCARTHUR, Jonh F., Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo.1997. pp. 192

[7] SPURGEON, Charles H., Spurgeon’s Autobiography. Londre: Passmore and Alabaster, 1897. pp.168, 169

[8] GRANCONATO, Marcos Mendes. Teologia Sistemática 3, material não publicado.

[9] MACARTHUR, John F. Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo, 1997. pp.179.

[10] FALCÃO, Samuel, Escolhidos em Cristo. Cultura Cristã:São Paulo, 1997. pp.121.

[11] Idem. pp.123

[12] COENEN, Lothar, BROWN, Collin, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp.1764

[13] Idem, pp.1765

[14] JAMIESON, FAUSSET and BROWN, New Commentary on the Whole Bible. Parsons Tecnology:Iowa. 1998. Tradução Pessoal.

[15] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.

[16] WALVOORD, Jonh F., ZUCK, Roy B., The Bible Knowledge Commentary. Press:Canadá.

Saudações – Efésios 1.1-2

Enviado em Efésios tagged às 5:03 pm por Marcelo Berti

“A Saudação de Paulo visa demonstrar sua autoridade como Apóstolo, ratificar a posição dos crentes em Cristo, afirmar Deus como causa primária da Graça e da Paz  e afiançar a Paternidade de Deus”.

Como é comum em um início de carta, Paulo inicia a sua aos efésios de uma maneira natural, pois deixa claro quem é, não simplesmente como escritor, mas como participante do ministério apostólico, e também levanta características destes a quem escreve, demonstrando que a graça e a paz, essência de sua saudação, são da parte de Deus que é nosso Pai e de Jesus Cristo.

1. A saudação de Paulo demonstra quem ele é e a quem escreve

Como demonstrado, a saudação paulina nesta epístola é curta e muito simples, pois apenas apresenta-se, na primeira palavra do texto, como Paulo, ratifica seu ministério e identifica de forma clara seus leitores, não simplesmente referindo-se a uma região, mas à postura destes diante de Deus.

1.1. Paulo se apresenta como Apóstolo

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus

Paulo se apresenta como avpo,stoloj de Cristo Jesus, ou seja, se apresenta como alguém enviado pelo Messias (Cristou/). Assim, Paulo é comissionado para seu ministério pelo próprio Senhor Jesus, o que de certa forma é uma tentativa de demonstrar a autenticidade, bem como autoridade de seu ministério. No que diz respeito a sua autoridade fica evidente pela própria palavra empregada para descrever-se, pois “contém em si um elemento de autoridade concedida e reconhecida por aquele que envia[1]“.

Esse argumento pode ser comprovado pelo fato de que a palavra “avpo,stoloj” é utilizada nos evangelhos designar aqueles que estavam com Jesus, que foram eleitos por Ele para o acompanharem e que foram enviados por Ele (cf. Mt.10.2-5; Lc.6.13; Lc.11.49). Já em Atos pode-se notar que a referida palavra tem seu significado estendido, sendo atribuída àqueles que têm autoridade para ministrar, são ligados diretamente a Jesus (At.1.26; 2.37, 43; 4.33, 35-37; 5.12, 29), tem autoridade doutrinária (At.2.42), tem autoridade conciliar (At.15.2, 4, 6, 22-23)  e são escolhidos pelo próprio Senhor Jesus (At.1.2).

Em Atos 9.27, Paulo é apresentado por Barnabé aos Apóstolos de Jerusalém como alguém convertido, embora a princípio eles não acreditassem. Pouco à frente Paulo e Barnabé são reconhecidos por Lucas como Apóstolos (At.14.14). Assim, esse título que traz em si um conteúdo de Autoridade é colocado sobre Paulo, que também utiliza este termo em suas cartas.

Paulo utiliza a palavra avpo,stoloj em autoreferência em outras saudações iniciais das suas epístolas (cf. Rm1.1; 1Co.1.1; 2Co.1.1; Gl.1.1; Cl.1.1; 1Tm.1.1; 2Tm1.1; Tt.1.1), mas a de Efésios é muito semelhante a de 1Coríntios que afirma: “Pau/loj klhto.j avpo,stoloj Cristou/ VIhsou/ dia. qelh,matoj qeou/” (1Co.1.1a). Assim fica evidente que Paulo é chamado para ser apóstolo pela vontade de Deus, e não por auto-sugestão, ou imposição dos outros apóstolos. E isso , segundo John MacArthur, implica em dizer que “a credencial de Paulo aqui não é seu treinamento acadêmico ou sua liderança rabinica, mas o fato de ser um apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus[2]“.

Contudo, a utilização da preposição “dia” pode dar muitos significados à expressão, entretanto a opção de tradução mais plausível é “pela vontade de Deus“, mas não somente como motivo ou razão, mas como um marcador de instrumentalidade, pelo qual o apostolado de Paulo pôde ser concedido e realizado.

Logo, na saudação epistolar de Efésios existe um reconhecimento secundário no que diz respeito à auto-apresentação de Paulo, pois ele tem em mente reforçar a autoridade do seu ministério que é viabilizado pela vontade de Deus, e não dele por meio de sua própria vontade ou de outras pessoas.

1.2. Paulo Apresenta os Efésios como santos e fiéis em Cristo

aos santos e fiéis em Cristo Jesus que vivem [em Éfeso],

Os destinatários da carta que Paulo escreve são claramente identificados como moradores da cidade de Éfeso (toi/j ou=sin Îevn VEfe,sw|Ð – O verbo grego “toi/j ou=sin” está no Dativo, Masculino, Singular, Presente do Particípio Ativo de “eivmi,”, sendo melhor traduzido como um Particípio Substantivo, pelo fato de que tem artigo em concordância, mas não tem um substantivo). Entretanto, é também notório que Paulo oferece qualidades a estes, como “a[gioj" ("santos") e "pistoi/j evn Cristw/| VIhsou/" (Discussão sobre a ausência ou inclusão do termo [em Éfeso], ver Questões Introdutórias e Apêndice 1).

Entrementes, a primeira dessas duas características parece estar ligada ao caráter destes, pois o adjetivo santo, muitas vezes no Novo Testamento é atribuído ao alvo moral da vida Cristã (cf. Rm.1.7; 12.1; 1Co.1.2; 7.34; Cl.1.22). Note que esta palavra é utilizada por Paulo em Efésios com esse sentido. Em Ef.1.4 nota-se que existe um propósito para a eleição, que é vir a ser santo (Ef.5.27; cf. Rm.1.7; 12.1; 1Co.1.2; 1Co.7.34; Cl.1.22).

Assim a conclusão simples deste argumento seria afirmar que os efésios teriam chegado a um estágio avançado da fé, ou chegado ao alvo final. Contudo, isso seria excluir a grande maioria de texto que falam sobre o assunto, sem contar que estaria completamente em desacordo com o todo das Escrituras. Logo, é razoável procurar entender a afirmação de Paulo no que diz respeito aos efésios.

Em Ef.1.15, pode-se notar a utilização dessa palavra no início da oração de Paulo pelos efésios de uma maneira muito interessante, pois estes têm demonstrado amor por outros santos (kai. th.n avga,phn th.n eivj pa,ntaj tou.j a’gi,ouj ). Segue-se que é provada a existência de mais um povo que tem a mesma nomenclatura.

Pouco à frente Paulo afirma que os efésios são “sumpoli/tai tw/n a’gi,wn” (Ef.2.19), demonstrando que existe um povo que é também conhecido como “oivkei/oi tou/ qeou/” como identificado no mesmo versículo. Mais à frente ainda Paulo afirma a totalidade destes, enfatizando que não se restringe apenas aos Efésios (Ef.3.18; cf. 6.18).

Em uma observação mais profunda é possível notar que Paulo utiliza esse termo outras vezes a outros grupos de pessoas (Rm.8.27; 12.13; 15.25, 31; 16.2, 15; 1Co.6.1; 16.1, 15; 2Co.1.1; 8.4; 9.1; Cl.3.12; Fm.1.5,7) o que indica que Paulo não está enfatizando o caráter deste mas a classe a que pertencem esses. Classe no sentido de categoria de pessoas baseada nas distinções de ordem moral. Isso está em pleno acordo com a colocação de Jonh Sttot sobre o texto, quando afirma que Paulo “não está usando esta palavra para referir-se a alguma elite espiritual dentro da congregação, uma minoria de cristãos excepcionalmente piedosos mas, sim, à totalidade do povo de Deus[3]“.

O que Paulo quer dizer com o termo é que os moradores de Éfeso, a quem escreve, já não fazem mais parte da categoria de gentios ou filhos da desobediência, mas que agora são feitos santos em Cristo, como ele enfatiza outras vezes nesta epístola (Ef.2.1-10; 4,17-19). Logo a ênfase do termo não é referida sobre o aspecto moral dos efésios, mas à posição destes diante de Deus.

Isso pode ser também evidenciado pela próxima expressão utilizada por Paulo para demonstrar quem são esses efésios, que é “pistoi/j evn Cristw/| VIhsou”. O adjetivo “pisto,j”, que neste caso está a qualificar os efésios, tem dois significados básicos. O primeiro deles diz respeito a pessoas que demonstram fidelidade em transações de negócio, ou na execução de comandos, ou na consecução de deveres oficiais.  O outro significado claro da palavra é aquele que crê ou que confia, e no Novo Testamento diz respeito àquele que confia nas promessas de Deus, e é convencido que o Jesus foi ressucitado dos mortos.

Assim, visto as definições possíveis da expressão pode-se concluir que os efésios confiam nas promessas de Deus e estão convencidos da ressureição de Cristo Jesus dentre os mortos, e por esse motivo podem ser denominados santos.

2. A saudação de Paulo tem por base a graça e a paz

A essência da saudação de Paulo nesta epístola é a graça e a paz, que estão presentes em outras saudações. Em sua epístola aos romanos, Paulo utiliza a mesma fórmula para introduzir sua epístola, “ca,rij u’mi/n kai. eivrh,nh avpo. qeou/ patro.j h’mw/n kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/”. Fato idêntico acontece em 1 Coríntios (cf. 1Co.1.3 cf. 2Co.1.2; Gl.1.3; Ef.1.2; Fl.1.2; Fm.1.3). Assim pode-se concluir que esta é uma saudação de Paulo, confirmando a autenticidade da autoria.

Essa “fórmula” utilizada por Paulo, é por vezes alterada, acrescentando algumas palavras, substituindo outras, mas mantendo sempre graça e paz, o que implica em dizer que estes dois elementos são a essência, ou a base, de sua saudação.

2.1. Paulo afirma que a Graça e a Paz são da parte de Deus

Graça e paz a vocês, da parte de Deus

Como observado, esses dois elementos são a base da saudação de Paulo, por isso é importante conhecê-los bem. A palavra “ca,rij” aparece 164 vezes no Novo Testamento, mas Paulo é responsável por 106 destas, sendo que 12 destas se encontram na Epístola aos Efésios. Ou seja, é uma palavra comum no vocabulário de Paulo pelo fato de conhecer o real significado desta palavra, pois, quanto mais se tem consciência  do valor das palavras, mais se conscientiza do emprego delas.

Em documentos gregos antigos, esse substantivo é comumente encontrado, principalmente naqueles que se referem a documentos de registro de herança. Nestes, a palavra é utilizada no sentido de um presente generoso. É válido demonstrar que o substantivo “ca,rij” pode evidenciar uma qualidade que atribua bondade ao objeto de sua definição ou à atitude deste em relação a alguém. Contudo, é importante notar que bondade em português indica uma atividade na qual um indivíduo é amável a alguém, entretanto, o substantivo grego transcende esse significado pois pode ser traduzida como um favor que não se merece, um favor imerecido. Assim a identificação fica clara, a base ou a essência da saudação de Paulo é o favor imerecido da parte de Deus (sobre o termo veja ponto 4.3.1).

A palavra “eivrh,nh” (paz) quando utilizada literalmente vem a significar um estado de paz em sentido oposto a conflito armado, guerra. Figurativamente pode ser traduzida como um acordo entre pessoas (Tg.3.18), em contraste com “diamerismo,j”. Contudo pode ser uma saudação ou adeus correspondendo à palavra hebraica “~Alv’” (shalom): saúde, bem-estar, paz [para você]. Neste introdução epistolar é possível que Paulo esteja utilizando o vocábulo simplesmente como uma saudação, como faziam os judeus.

Assim, é provável que Paulo tenha emprestado um comprimento judaico e acrescido neste a palavra graça para a introdução de suas epístolas, o que demonstra suas raízes e suas mudanças, pois apesar de judeu era um cristão, e como tal reconhecia a graça de Deus.

Mas o ponto mais alto desta saudação se encontra na identificação feita por Paulo, pois esta graça e esta paz não provem dele mesmo, mas da parte de Deus. Esta expressão é muito significativa pois especifica a origem dos elementos que são considerados a base ou a essência de suas Saudações.

2.2. Paulo afirma que a Graça e a Paz são da parte de Cristo

Graça e paz a vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e de Deus nosso Pai

Em uma simples e curta introdução, Paulo demonstra claramente a graciosidade de Deus, bem como sua paternidade sobre nós, como se pode observar no texto grego, “avpo. qeou/ patro.j h’mw/n”. Essa paternidade é  claramente observada na epístola de efésios.

Em Efésios 4.6 nota-se claramente a demonstração de Paulo da existência de um único Deus que é Pai de todos (ei-j qeo.j kai. path.r pa,ntwn).  Em Efésios 5.20, falando sobre conduta cristã, Paulo enfatiza que os cristãos devem dar sempre graças a nosso Deus e Pai (euvcaristou/ntej pa,ntote u’pe.r pa,ntwn [...] tw/| qew/| kai. patri,). Em Efésios 6.23, Paulo encerrando sua epístola demonstra novamente essa característica de Deus como Pai (qeou/ patro.j). Assim, pode-se concluir que Paulo faz referência a mais um atributo de Deus, a paternidade.

Contudo, Paulo parece fazer uma identificação entre Cristo e Deus Pai, pois atribui a Cristo a graça e a paz que são a base de sua  saudação. Ou seja, Cristo é tão capaz de prover graça e paz quanto Deus. Isso demonstra a posição Elevada de Cristo, que não é apenas homem, mas é demonstrado como Deus. Logo, Paulo comprova, de maneira indireta a divindade de Cristo.

Porém, aqui surge um problema, pois a frase é, de certa forma, ambígua. Pois é possível fazer duas identificações interesantes neste texto [ca,rij u'mi/n kai. eivrh,nh avpo. qeou/ patro.j h'mw/n kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/]: Pois, a partir de “eivrh,nh” a sentença está no genitivo. Segue-se que é possível dizer que o versículo demonstre a Paternidade de Deus sobre Jesus Cristo. Como se nota na tradução da ARA: “graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”.

Entrementes, pode-se afirmar que a Graça é da parte de Deus, como fica um pouco melhor definido na NVI: “A vocês, graça e paz da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo” e na tradução pessoal: “Graça e paz a vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e de Deus nosso Pai”.

Portanto, dizer que o texto enfatiza a Paternidade de Deus, não é nenhum problema, contudo, contextualmente observa-se que o versículo seguinte faz essa colocação. Assim é mais aceitável esperar que Paulo está enfatizando a divindade do Senhor Jesus Cristo, e não a Paternidade de Deus.


[1] PINTO, Carlos Osvaldo, Análise Exegética de Tito 1.1-2. Material não Publicado.

[2] MACARTHUR, Jonh. Efesians, The MacArthur New Testament Commentary. Moody:Chicago, 1986. pp. 2

[3] STTOT, John R.W. A mensagem de Efésios. ABU:São Paulo, 1994. pp. 6.

Questões Introdutórias – Efésios

Enviado em Efésios, Teologia de Paulo tagged , às 4:58 pm por Marcelo Berti

Antes de qualquer comentário exegético ou teológico, é necessário conhecer alguns aspectos anteriores com respeito a essa epístola. Assim, demonstrar-se-á dados a respeito do autor, da localidade a que escreve, bem como os problemas subseqüentes de ambos. Isto uma vez feito, ressaltar-se-á fatos gerais da epístola que marcam o propósito pelo qual o autor escreve o que escreve, enquanto destacar-se-á o conteúdo desta.

 

1                 Autor

Embora não seja de comum acordo, o que pode ser afirmado por ora é que o autor desta epístola é Paulo (Sobre supostos problemas com a autoria desta epístola veja Ponto 2.3). Este, nasceu em Tarso, uma das principais cidades da Cilícia, que atualmente refere-se à costa sul da Turquia (At.9.11; 21.39; 22.3).  Este região, a Cilícia, abrange uma área relativamente grande e, como é de se esperar, é formada de regiões extremamente distintas. Segundo F.F. Bruce, na região:

Havia a planície fértil no leste chamada de Cilícia Pedias, entre as montanhas Tauro e o mar; a rota de comércio da Síria para a Ásia Menor passava por ela, atravessando o monte Amano pelas Portas Sírias e cruzando a cadeia de montanhas do Tauro, pelas Portas da Cilícia, para o centro da Ásia Menor. A oeste destas ficava a região costeira montanhosa da Cilícia Tracheia (Cilícia acidentada), onde a cadeia do Tauro desce para o mar[1] 

De acordo com o relato de F.F.Bruce é impossível não reconhecer a importância da região do ponto de vista comercial, pois era localizada no ponto de encontro entre a ligação comercial da Síria com a Ásia Menor. Por essa razão, o desenvolvimento da região era, em relação a realidade das demais regiões, avançada. E, nesta região encontrava-se a cidade de Tarso, que na concepção do próprio apóstolo Paulo, é uma “cidade não insignificante” (At.21.39). A cidade de Tarso além de ter grande importância comercial, teve relevância intelectual, visto ter uma universidade cuja fama rivalizava com a de Atenas e Alexandria.

Paulo, por ter nascido nessa região, poderia ter cursado nesta universidade onde absorveria um pouco da cultura e língua grega. Entretanto, segundo suas próprias considerações, recebeu sua principal educação em Jerusalém (At.22.3). Mas, sobre a possibilidade de absorção da cultura e língua, sua própria convivência na região se encarregaria desse fato.

Um ponto interessante na vida do Apóstolo é que ele é, ao mesmo tempo um judeu e cidadão romano. Em At.22.27 Paulo afirma que tem cidadania romana por nascimento. Como não se contesta a validade dessa afirmação, é possível que seu pai já fosse um cidadão romano e que por direito hereditário teria assumido tal cidadania. É de comum acordo que a cidade de Tarso possuísse benefícios ante ao Império Romano, como a isenção de impostos imperiais durante o governo de Augusto, o que facilitaria com que pessoas nascidas em Tarso pudessem comprar seu direito de cidadania, ou recebê-lo por mérito a uma atividade em benefício do Império. Não se sabe ao certo como seu pai, ou avô, pudesse ter recebido esse direito, mas é acima de suspeita que Paulo possuísse tal cidadania, e que como tal participava da elite social da cidade.

 Entretanto, é importante notar que Paulo também se apresenta como “hebreu dos hebreus”, no sentido de descendente de Abraão (Fp.3.5). Ou seja, sua ascendência é naturalmente judaica. Assim, por mais que sua família pudesse ter sido totalmente enraizada na cultura grega, a religião de seus antepassados sempre falou mais alto, e a ela dedicou toda sua devoção, como lê-se em At.22.3: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus“. Em Fp.3.5 pode-se encontrar mais informações ainda: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu“.

Portanto, Paulo é considerado como um homem de influência no judaísmo, e de respeito perante o Império Romano. E, em posse desses direitos, e impulsionado pelo seu zelo para com Deus, o fariseu de nome hebraico Saulo empenha-se em perseguir aqueles que corrompem a verdade que considera inequívoca. Como ele mesmo afirma: “quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Fp.3.6).

O que provavelmente impulsionou Paulo nessa perseguição à igreja foi sua própria concepção de que era impossível que o Ungido de Deus, o Messias libertador da nação, pudesse sofrer tamanha indignidade como morrer em uma cruz. Isso era claramente demonstrado pela lei: “porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus” (Dt.21.23). Assim, aquele que perante a lei se considera irrepreensível, não podia aceitar essa informação. Contudo, essa era a mensagem anunciada pelos discípulos de Jesus. Pedro, em seu primeiro sermão em Atos faz a seguinte colocação: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo“.

Diante dessa realidade, Paulo como fariseu e zeloso pelos ensinos de Deus, não podia conter-se, deveria mover-se contra tal difamação da verdade que tanto crê. E prova de que tamanho era o zelo de Paulo contra o cristianismo, é que é possível encontrá-lo na cena do apedrejamento de Estevão (At.8.1), quando consente com sua morte[2]. Além de “consentir” com a morte de Estevão, pouco depois é apresentado como aquele que “assolava a igreja, entrando pelas casas, e, arrastando homens e mulheres e encerrava-os no cárcere” (At.8.3).

Sobre a dedicação de Paulo para com o judaísmo é assim expresso por John Sttot: “Seu zelo é demonstrado por sua disposição de realizar uma longa viagem para desarraigar todos os adeptos desse ‘Caminho’ nocivo[3]“. Paulo é aquele que, segundo ele mesmo, não só perseguia a Igreja, mas a detestava (Gl.1.13), enquanto respirava “ameaças de morte contra os discípulos do Senhor (At.9.1). Dessa forma, “Paulo se tornou um dos maiores líderes dos opressores da igreja[4]“.

Mas, todo esse zelo em prol do judaísmo não poderia durar por toda sua existência. Sua busca por defender os fatos em conformidade com verdade do próprio Deus, não poderia cerrar seus olhos para a mais sublime verdade já conhecida: “O Cristo ressurreto”.

Seu encontro com a verdade estava próximo, e a caminho de Damasco o inesperado acontece:

Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? (At.9.4) 

Em Hebraico Paulo ouve seu nome e uma pergunta (At.26.14). E, como qualquer um em sua situação, questiona: “Quem és tu?”. Atordoado com o evento, não conseguia nem discernir quem falava com ele. Mas a resposta não deixa dúvidas: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At.9.4s; 22.7s; 26.14s). Após esse fato, cego por causa do fulgor daquela luz, Paulo é encaminhado para Damasco, onde Ananias, como muito temor, seria convidado por Deus para impor-lhe as mãos. Com certeza a situação é tensa, mas Deus Deus é claro em afirmar Seu propósito:

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel, pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome

Em uma conversa com Ananias, o que lhe tampava a vista, cai como que escamas dos seus olhos e torna a ver, e ao levantar-se foi batizado. Agora, o tão poderoso perseguidor do evangelho reúne-se aos perseguido e “logo pregava nas sinagogas a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus” (At.9.20). Transformado pela graça de Deus, dedica-se a anunciá-la. Como ele mesmo chegou a dizer:

A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor, pelo qual temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele. (Ef.3.8-12) 

Agora uma mudança sem precedentes acontece na vida de Paulo, perseguidor para perseguido. Toda a intensidade que tinha em defender o judaísmo é agora aplicada em propagar o evangelho da salvação pela graça. Paulo, agora, é cônscio de sua tarefa: pregar aos gentios o evangelho de Cristo, enquanto aprende a sofrer pelo nome de Deus.

Além desses fatos anunciados, Paulo, após recuperar sua visão, ainda mudou sua visão com respeito a Jesus, pois afirma que ele é o Messias; mudou sua visão da lei, passou a questionar o todo seu procedimento como fariseu, tendo em mente que a lei o incitou a perseguir o próprio Messias; mudou sua visão da salvação, pois nada mais do que pudesse realizar poderia garanti-la; e assim, como um hebreu dos hebreus, cidadão romano, decidido e zeloso naquilo que crê, dedica sua vida em prol da causa de Cristo. E, talvez, deve ser essa a razão pelo qual, ao lembrar do passado chega a dizer:

Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes, e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (1Co.1.27-29). 

A sabedoria de Deus deve ser exaltada na experiência da salvação de Paulo, pois este que era a “pedra no sapato” do evangelho, vem a ser de fundamental importância para a propagação do evangelho. Um judeu, conhecedor da lei e das tradições, com grande instrução, conhecedor não só da língua mas como da filosofia grega, universalizou o evangelho com suas epístolas na língua que todos poderiam ter acesso, com verdades que apenas ele parecia dispor.

Deve-se isso à graça de Deus que transformou, não apenas sua visão, mas sua vida, fazendo com que sua cosmovisão fosse nova, sua missão diferente, diante de uma perspectiva correta, produzindo uma teologia sadia e digna de autoridade e respeito, enquanto empenhava-se em auxiliar a igreja a portar-se corretamente. De missão em missão, dificuldades e problemas, a ponto de experimentar o cárcere, por algumas vezes, por assim dizer, aprende aos poucos o que significava sofre pelo evangelho. E preso, dedica-se a escrever cartas àqueles que durante suas missões conhecera; às igrejas que ele mesmo lançou o fundamento, buscando informá-los sobre a realidade do evangelho, e sua importância na prática vivencial.

É o que acontece com a mensagem contida na epístola aos Efésios, que é marcada pela graça de Deus, que ele pessoalmente teria experimentado. Graça que o alcançou a despeito de seu zelo fariseu para com a lei, concedendo-lhe a justificação diante de Deus, a redenção em Cristo, e o selo do Espírito que é a garantia de sua herança.

 

2                 Destino

Como é comum na maioria dos documentos neotesta-mentários, existem problemas na epístola em pauta que dificultam a identificação satisfatória do rumo que ela teria tomado, e a quem teria sido enviada (Sobre essa discussão veja ponto 2.4). Entretanto, nesta altura considerar-se-á apenas Éfeso como destino desta carta, pois é certo que tenha chegado até lá. O intuito desta consideração é tomar como Éfeso modelo social e cultural da região para onde esta epístola possa ter ido, para ressaltar algumas informações que auxiliem a identificação do propósito pelo qual Paulo escreve o que escreve nesta epístola.

Assim, não é necessário ler muito para encontrar a seguinte oração: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, aos santos que vivem em Éfeso“. Éfeso, pertencia à região da Ásia, que “foi formada pelo reino de Pérgamo, quando Atalo III morreu em 133 a.C. e deixou seu território para o senado e o povo de Roma[5]” e a região da Mísisa, Lídia, Caria, Lícia, e parte da Frígia.

Posteriormente, parte da costa da Ásia, a Jônia, foi inserida à Lídia, e após diversos conflitos sobre o domínio da região, acaba dominada pelos gregos, que vêem a ser denominados gregos jônios. Dentre as principais cidades dessa região, que possuíam autonomia cívica, Éfeso, na foz do Caístro, era a mais ilustre, chegando a ser considerada como “a cidade mais importante da província romana da Ásia[6]“.

A cidade era adentrada e cortada por uma magnífica estrada com aproximadamente 22 metros de largura adornada com colunas esculturais, que chegava até o porto, que servia tanto como grande centro exportador como escala natural para quem viajava para a capital do império. Devido a esse fato, a economia era crescente, e a cidade era de extrema importância para o comércio, também crescente naquele tempo.

Sua grandiosidade como cidade não é apenas marcada pela sua proeminência comercial, nem mesmo pela sua fama com os direitos cívicos, mas era o centro de adoração da deusa pagã Diana. Homero, em A Ilíada, apresenta Diana como senhora e protetora da vida selvagem[7], e na Grécia era conhecida como a virgem caçadora. O templo de Diana, situado em uma planície próxima à entrada da cidade pela porta Magnesiana, guardava a imagem da deusa que tinha muitos seios que, segundo as crenças, teria caído do céu (At.19.35). A veneração dessa deusa teria se espalhado pelo mundo antigo (At.19.27), e em função disso a cidade orgulhava-se de ser a Guardiã do templo de Diana. Entretanto, uma espécie de multiformidade ideológica marcava a cultura religiosa da região, pois segundo Walter Elwell e Robert Yarbrough a cidade “era dominada pela adoração do imperador, pela idolatria, e as artes negras de ocultismo e espiritismo[8]“.

E a esta cidade é que o apóstolo Paulo chegou, próximo ao fim do verão de 52.d.C. e ficou durante quase três anos. O evangelho parece ter nascido nesta cidade fruto dos esforços de Priscila e Áquila, em um momento de grande expansão do cristianismo, que se espalhou com igrejas pelo vale do Lico (cf. Cl.1.7; 2.1). É provável que, de Éfeso Paulo tenha mantido contato com a Igreja de Corinto, e que, segundo G.S. Duncan, nesta cidade é que Paulo ficou aprisionado pro três vezes e que de lá teria escrito suas epístolas de prisão[9]. Entretanto, poucas evidencias apóiam tal hipótese.

O que é certo é que durante o ministério de Paulo uma comunidade cristã tenha crescido e se fortalecido na região após o encontro de Paulo com alguns discípulos de João (At.19.1ss), e por meio dessa comunidade, o evangelho espalhou-se pela província da Ásia. Outro fato que deve ser ressaltado é que a esta comunidade, poucos anos depois, Paulo tenha dirigido uma epístola, embora sem referências diretas a pessoas, a conhecida epístola de Paulo aos Efésios.

 

3                 Problemas com a Autoria

Entrementes, essa consideração não é simples assim. A epístola de Efésios é normalmente atribuída a Paulo como autor, embora alguns teólogos modernos tentam atribuir a epístola a um pseudônimo, devido a algumas discrepâncias literárias, teológicas e de vocabulário ao que se refere aos outros escritos paulinos. Tal dificuldade tem impulsionado alguns comentaristas a não conseguirem expressar opinião concreta, como Arthur G. Patzia, que ao levantar dados sobre o fato parece não fechar a questão da autoria. Para ele, “todas as questões internas e externas que rodeiam esta carta não nos deveriam distrair de sua beleza e valor essenciais, e completa autoridade que ela tem para a igreja[10]“.

Assim, é de fundamental importância conhecer os argumentos que favorecem ou desfavorecem a autoria paulina para que uma conclusão sólida, concreta, consistente e digna de confiança possa ser levantada, com o propósito de não atribuir suspeitas no que tange a fidedignidade e veracidade do texto.

 

3.1                   Argumentos contra a autoria paulina

Sobre os argumentos contra a autoria paulina pode-se ressaltar pelo menos 3 pontos: vocabulário e estilo,  doutrina e semelhança com Colossenses.

Vocabulário e Estilo:

Neste ponto, as afirmações parecem muito subjetivas. O primeiro grande argumento lançado é que em Efésios existem oitenta duas palavras que não ocorrem em nenhum outro escrito de Paulo, e que trinta e oito não se encontram em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Desse grupo de palavras pode-se destacar avswti,a (dissolução) e  politei,a (comunidade). Outro detalhe é que em Efésios algumas marcas registradas de Paulo são alteradas, como por exemplo: sua referência ao céu (oiv ouvranoi,) é cunhada como “nos lugares celestiais” (evn toij evpourani,oij); a expressão normalmente utilizado por Paulo para designar sua atividade de “dar graças” (ca,rij di,domi) é apresentada pelo verbo “conceder graciosamente” (carito,w); normalmente Paulo refere-se a Satanás, mas em Efésios como “diabo”. No que tange ao estilo, apenas duas colocações são importantes; a primeira diz respeito às orações normais de Paulo, que são curtas, concisas e formadas por orações breves, o que não acontece em Efésios; em Efésios o autor tem o costume de ligar termos sinônimos o que não ocorre nos outros escritos paulinos. Segue-se, que à luz desses argumentos pode-se reforçar a idéia de um autor pseudônimo.

Doutrina:

A doutrina expressa em Efésios parece muito organizada para a época que é comumente atribuída. Um exemplo disso é a doutrina relacionada à Igreja, pois é normal que Paulo se refira à igreja como uma comunidade individual, ou igreja local. Porém, em Efésios encontra-se o conceito claramente universal da igreja, pensamento encontrado por volta do início do segundo século. Patzia sugere que esse tipo de pensamento é encontrado no início do catolicismo, o que implica em uma carta pós-paulina[11]. Ainda em relação à igreja, o autor de Efésios ilustra a união entre Cristo e a Igreja com a idéia do “casamento”. Mas parece impossível que esse pensamento provenha de Paulo, pois parece conflitante com 1Coríntios 7[12]. A idéia de que na igreja tanto gentios como judeus são incluídos pelo derribamento da “parede de separação” sugere a idéia da destruição do Templo em 70.d.C., visto que na época de Paulo era impossível que gentios e judeus vivessem em harmonia. Outro fator interessante é que Paulo sempre menciona algo referente a “parousia“, sua doutrina favorita[13], e em Efésios isso não acontece nem indiretamente. Pouca ênfase na iminência da Volta de Cristo é encontrada em Efésios, e Paulo costumava referir-se ao futuro e a urgência de uma vida irrepreensível em função desta iminência. Observado esse quadro, é possível sugerir um pseudônimo muito posterior a Paulo, pois apenas assim é que essas tensões podem ser harmonizadas.

Semelhança com Colossenses:

Este argumento é muito interessante, mas não se sabe a quem apóia. Por exemplo, é notória a semelhança entre Efésios e Colossenses, que é uma carta genuinamente paulina. Isso mais atrapalha que auxilia tal argumento, contudo o que se tem sugerido é que Colossenses é uma carta paulina e que um admirador de Paulo a tenha utilizado para redigir Efésios. Argumento um tanto subjetivo e confuso, a não ser que ambas sejam consideradas não paulinas. Contudo, essa similaridade é apenas superficial, pois, embora setenta e cinco dos vocábulos encontrados em Efésios estejam presentes em Colossenses, muitos desses são utilizados de maneira diferente nestas epístolas. A idéia de supremacia de Cristo, denominado o cabeça das potestades (Cl.2.10, 19), em Efésios é aplicado à Igreja, onde Cristo é o cabeça (Ef.4.15-16); o mistério em Colossenses refere-se a “Cristo em vós” (Cl.1.27) e em Efésios a unificação entre judeus e gentios (Ef.3.3, 6); a palavra dispensação em Colossenses denota mordomia (Cl.1.20) e em Efésios refere-se ao plano soberano de Deus (Ef.1.10; 3.2). Assim, um admirador de Paulo pode ter assumido seu nome e alguns de seus termos, para escrever uma carta que fosse aceita pela igreja primitiva, em uma data muito posterior à morte de Paulo. Um fator, mesmo sendo tolo, que apoiaria esse argumento é que as cartas de Paulo circulavam entre as igrejas por meio de cópias, assim é possível que um pseudônimo inserisse uma pseudocarta de Paulo como uma carta sem que ninguém pudesse notar.

Diante dos fatos levantados é possível que a autenticidade da autoria possa ser reavaliada. Mas é ainda necessário conhecer os argumentos a favor da autoria paulina para que tal afirmação possa ser levado a cabo, como alguns tem tentado.

 

3.2                   Argumentos a favor da autoria paulina

Antes de qualquer argumento a favor, é importante demonstrar que dois pontos são interessantes até aqui: (1) O argumento contra a autoria paulina é fundamentado no fato de que o vocabulário, estilo e doutrina são avançados demais para se admitir a autoria paulina, mas são tão semelhantes que é preciso crer que um admirador de Paulo, de seu estilo, vocabulário e doutrina redigisse tal documento; (2) as evidências anteriores apontam para um autor pós Paulo, o que seria ilógico esperar que um admirador escreveria uma carta com o nome de alguém que certamente está morto. Assim, uma conclusão é clara: existe muitos conflitos entre os argumentos contra a autoria paulina, e sua base é muito subjetiva, e a subjetividade não é um bom ponto de partida para um debate tão perigoso como esse.

Após essa breve colocação, é válido lançar um pequeno questionamento: Qual seria o valor e a veracidade das informações espirituais contidas nesta epístola se é baseada na intenção dolosa de algum pseudônimo admirador de Paulo? Se Ef.1.1 é inválido, qual é a validade do resto? Ou toda a epístola é uma mentira, ou as teorias sobre sua autoria o são. Neste trabalho, evidencia-se a clarividência de que a segunda opção é verdadeira, a saber, que as teorias recentes são inválidas. As respostas às possibilidades lançadas no tópico anterior, neste tópico é refutada, como segue abaixo.

No que tange a vocabulário e estilo, a avaliação é inócua. A demonstração de um vocabulário rico não pode garantir que Paulo não o tenha escrito, e por certo este nunca resolveu anotar as suas palavras preferidas para redigir suas cartas com vocábulos exclusivamente seus. É evidente que para ênfases distintas usa-se vocabulário distinto. Assim afirmar que Paulo não escreveu a epistola fundamentado nessa premissa é no mínimo ilógico. Sobre seu estilo diferenciado é novamente uma avaliação superficial, pois é impossível que durante o tempo, tanto vocabulário como estilo, não sejam alterados. Ninguém pode escrever com absolutamente mesmo estilo durante todas as fases da vida. Isso é demonstrável nos próprios escritos de Paulo, pois que conexão existe entre Romanos e 1Coríntios em termos de estilo? Não se pode acusar Shakespeare de escrever poesias e peças, e negar-lhe os sonetos em função do estilo de escrita e vocabulário. Isso ilustra o fato de que, em função de destinatários diferentes, problemas diferentes, pessoalidade diferente uma abordagem diferente nasce, e com ela um estilo literário distinto. Mas não se pode afirmar que Romanos é de Paulo e 1Coríntos não, nem o contrário, pois é certo que ambas pertençam ao mesmo autor, a história da igreja assim o confirma. Do mesmo modo com Efésios e os demais escritos de Paulo.

Sobre a doutrina mesmo problema é encontrado, pois Paulo não pode não mencionar sua doutrina favorita, pois isso iria impossibilitá-lo como autor desta carta, o que é ilógico. Sobre a Igreja universal em Efésios, em Cl.1.18 é clara a consideração da universalidade da Igreja, o que sugere um mesmo autor para ambas (cf. 1Co.4.9; 12.28; 15.9; Gl.1.13; Fl.3.6). As outras sugestões teológicas são também inconsistentes, pois sobre a parede de separação e sua aplicação à queda do templo está mais diretamente relacionado com uma má interpretação do argumento de Paulo naquele texto do que uma alusão a este fato histórico. E para agravar, a queda do templo não auxiliaria em nada essa convivência, pois que relação existiria entre os dois fatos? A impossibilidade anunciada para a convivência entre gentios e judeus não tem respaldo histórico, pois as advertências neotestamentárias sempre abordam essa questão. O que é certo é que esta convivência era por vezes conflitante, não impossível. Outro detalhe importante aqui é que em Rm.9-11 Paulo se importa em demonstrar que o conceito de unidade entre gentios e judeus já fazia parte de seu escopo teológico. Sobre 1Coríntios 7 e a figura do casamento em relação a Cristo e a Igreja é fruto de uma má compreensão de ambos textos, pois não há indícios que um atribua problemas ao outro. Além disso, essa idéia não é proposta pelo Apóstolo, mas é indicada pelo próprio Messias (Mt.25.1-13).

Em relação à sua semelhança com Colossenses, até onde ela é levada, mais confirma a autoria paulina do que a desacata. Como já demonstrado, as supostas discrepâncias não são decisivas, visto serem fruto de má disposição de interpretação. Todos os termos que foram sugeridos como conflitantes estão sendo usados dentro do campo semântico aceito, embora aplicações distintas possam ter sido elaboradas em cada consideração. Com respeito a Cristo ser o cabeça das potestades em Colossenses e o cabeça da Igreja em Efésios não é problemático, pois em Colossenses Cristo também é testemunhado como Cabeça da Igreja (Cl.1.18). Sobre o mistério, a expressão “Cristo em vos” (Cl.1.27) é aplicada a gentios, e mesma ênfase existe em Efésios, contudo de maneira mais detalhada, o que não desmerece o texto. Sobre a palavra “dispensação” em ambos os casos referem-se à mordomia ou administração soberana da parte de Deus. Ou seja, todas as afirmações de caráter doutrinário não parecem tão consistente assim, antes contribuem mais para uma autoria paulina do que o contrário. Vale ainda ressalvar que Colossense e Efésios são escritos aproximadamente na mesma época e do mesmo lugar, e segundo tudo indica, pelo mesmo autor. Isso resolve o problema da similaridade.

Sobre a idéia de um imitador, é válido questionar: Se ele era um admirador de Paulo, por que razão não procurou utilizar outras cartas de Paulo na sua redação? Por que utilizou apenas Colossenses? Sobre isso, Hendriksen cita E.F. Scott que diz:

Quando um escritor tira de si mesmo, ele faz o que quer de seu próprio material. Ele não pode deixar de fazer revisões e modificações em cada frase. Somente o imitador desonesto é o que percebe que precisa atentar bem ao seu original se não quiser trair a si mesmo[14] 

À luz dessas respostas é necessário demonstrar as evidência à favor da autoria paulina.

História Eclesiástica:

Dentro das informações recolhidas pela história a Epístola é reconhecida como Paulina. Sua aceitação no Cânon deu-se em função do reconhecimento da autoria paulina. Marcion, mesmo sendo um herege, incluiu Efésios no seu Cânon particular, embora sob o título de “aos Laodicenses“. Policarpo, martirizado em 168, faz alusões dessa epístola como escrito de Paulo Irineu, no segundo século já reconhecia tal epístola. O Cânon Muratoriano também incluía a epístola em questão, reconhecendo a autoria paulina. O mesmo acontece com Clemente de Alexandria e Orígenes. Eusébio de Cesaréia reconhece Efésios como epístola paulina quando se refere aos textos considerados como Escritura[15]. Se aqueles que estavam mais próximos reconheciam a autoridade do texto é válido considerar como autêntico. Ainda é importante demonstrar que até o século dezesseis “pende completamente para o lado Paulino quanto a questão da autoria[16]“. O que se pode notar é que existe um forte apoio externo e uma certa unanimidade presente na igreja primitiva.

Autoridade das Escrituras:

Em primeiro lugar deve-se ressaltar que o autor da epístola se identifica, não apenas uma vez mas duas (1.1; 3.1). A não ser que existam muitas provas do contrário é válido aceitar a carta pela sugestão deixada nela mesma. Um detalhe importante é que os receptores da carta deveriam reconhecer o escrito em pauta pelas sugestões deixadas na própria epístola, tal como a oração do autor pelos receptores (1.15), chama-se de “o prisioneiro de Cristo” (3.1; 4.1) e pelos pedidos de orações deixados (6.19-20). Se algum pseudônimo assumisse a identidade de Paulo, notas com uma certa pessoalidade seriam evitados. Se o caso desta epístola fosse de falsificação de autoria ela seria, sem sombra de dúvidas, retirada do cânon aceito.

Semelhança teológica consigo mesmo:

Dentre os temas tratados em Efésios, muitos são encontrados nos documentos inconteste de Paulo: Domínio da carne nos não regenerados; O papel da graça na salvação; a obra de Cristo como reconciliação; o papel dos judeus e da lei; isso, ao menos, sugere que o mesmo autor as tenha escrito.

 

3.3                   Conclusão

Diante das informações recolhidas é impossível que se atribua a Epístola ao Efésios a um admirador, ou imitador do Apóstolo Paulo. As sugestões que nascem para colocar em “cheque” a autoria paulina podem ser utilizadas para validá-la. Tais argumentos, além de incoerentes, são inconsistentes com a realidade da epístola. Assim, é incontestável que a autoria seja paulina.

 

4.  Problemas com o destino

O problema em relação ao destino desta epístola nasce logo no início da Epístola: “Pau/loj avpo,stoloj Cristou/ VIhsou/ dia. qelh,matoj qeou/ toi/j a’gi,oij toi/j ou=sin Îevn VEfe,sw|Д. Como se observa, a expressão que indica o destino desta epístola está entre colchetes, ou seja, não consta em manuscritos importantes. Se isso é correto, é possível que “em Éfeso” não indica que Paulo tenha endereçado esta epístola à comunidade de Éfeso (maiores detalhes textuais sobre a expressão, veja Apêndice 1). O papiro mais antigo P46, considerado o mais confiável, e em alguns outros documentos antigos (a, B, 424c, 1739) não constam tal expressão, o que sugere que ela não estivesse no autógrafo.

Entretanto é válido demonstrar que não se sabe afirmar para quem tais documentos são mais importantes. Tal título é mantido pela idade de tais documentos, e que por serem antigos devem estar mais próximos do autógrafo. Contudo, as evidências a favor da inclusão de “em Éfeso” são devastadoramente maiores numericamente, regionalmente, textualmente com boas evidências patrísticas. O argumento que favorece a não inclusão deve sua força a esse fato, que parece não resolver a questão, pois é notório que na história da igreja as cópias dignas de confiança foram mantidas, e as demais, rejeitadas. Assim, afirmar que documentos antigos são mais próximos do original pode ser um risco muito grande, pois existem duas hipóteses válidas para documentos antigos: (1) foram perdidos no decorrer do tempo ou (2) foram deixados de lado. Para qualquer uma das duas hipóteses é certo que não existia qualquer valor textual, por que a igreja não deixaria cópias dignas de confiança serem esquecidas ou perdidas no tempo. Assim, é certo que as evidências que desacreditam o destino para Éfeso não podem ser tão conclusivas.

Além deste problema textual nesse assunto, é possível notar certa incoerência no relacionamento de Paulo com os efésios durante seu ministério e o tom impessoal da carta a eles dirigida: “tendo ouvido a fé que há entre vós” (1.15); “se é que tendes ouvido…” (3.2; 4.21). Como foi demonstrado, Paulo não apenas passou por Éfeso, mas esteve nesta cidade durante três anos (At.19.8; 20.31), e a estes se despede com tom de muita amizade, comunhão e carinho (At.20.17-38), como se pode ler:

Tendo dito essas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. Então houve grande pranto entre todos e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que dissera, que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até o navio (v.36-38) 

Se tamanha pessoalidade é encontrada entre Paulo e os efésios, por que não existe nenhum reflexo disto em sua epístola, uma vez que ela foi endereçada a eles? A resposta a esta questão parece não favorecer a inclusão do destino, e assim “é muito difícil imaginar que Paulo teria escrito uma carta tão seca e impessoal a amigos tão queridos[17]“, sem contar que, é possível que essa seja a carta mais impessoal do apóstolo Paulo.

A questão pode ser ainda pior quando uma análise patrística é aplicada a esse problema. Sobre isso Broadus David Hale afirma:

Tertuliano, em seu debate corrente contra Marcião, citou o título, mas não se referiu à locução “em Éfeso”,  contida em 1.1. Quando Orígenes escreveu sobre esta carta, está evidente em sua exposição de 1.1 que a expressão não estava no manuscrito que ele usou. Muito mais tarde, Basílio escreveu que seus predecessores haviam omitido a locução[18]

Relevando ainda a questão patristica, é possível que o cânon de Marcião contivesse essa mesma epístola sob a referência de “aos Laodicenses”. Mas, se era verdadeira tal indicação, por que motivo foi descartada? A essa pergunta, não existe resposta histórica. Então, se as evidências levantadas acima são verdadeiras, bem como a autoria paulina, pode-se assegurar que ela não tenha sido endereçada a Éfeso. Contudo, essa conclusão descarta a veracidade do conteúdo dês epístola, pois, se o destino dela é uma incógnita, ou uma falácia má intencionada, que se dirá de seu conteúdo?

Ante a essas perguntas, possivelmente sem resposta, deve-se ter em mente que dois destinos a uma mesma carta nunca foi problema para ninguém, pois se pode endereçar a mesma carta a dois ou mais destinos distintos. A questão do destino da carta pode ser bem explicada pela possibilidade de que Paulo tenha escrito uma carta circular, e que Éfeso, como a cidade proeminente da região a que escreve teve seu título mantido no decorrer da história. Entretanto, não se abraça a idéia de uma carta sem destino, ou com uma lacuna para se preencher, visto que não existe nenhuma outra indicação na antiguidade de que isso tenha acontecido.

Em prol da opinião da carta circular, é válido afirmar que a tradução expressa pela ARA para Ef.3.2 (“se é que tendes ouvido“), que retira a dignidade de Paulo como autor e Éfeso como destino, não expressa o sentido da frase grega “ei; ge hvkou,sate”. A palavra “ge” é uma partícula de ênclise, e não corresponde diretamente a nenhuma palavra em Latim ou em Português, mas indica que o significado da palavra a qual pertence tem proeminência especial. Ou seja, uma vez conectada à preposição “eiv”, ela eleva a uma condição de ênfase tal preposição. Dessa forma, “eiv” não expressa dúvida, mas uma suposição que é dada por garantida. Logo, a sentença pode ser assim traduzida: “visto que tendes ouvido”. Ou seja, tal versículo não é respaldo para a negar a autoria de Paulo, ou o destino a Éfeso, antes dignifica a possibilidade que tal documento tenha sido escrito como um encíclica que, certamente, chegou a Éfeso.

Se a carta é uma encíclica para ser lida em diversas igrejas, não existe nenhuma prova que possa desmerecer o conteúdo, autoria ou até mesmo o destino. É válido lembrar que, se a carta foi endereça da à Laodicéia e nenhum dos manuscritos foi mantido com essa referência, é possível que a tradição da igreja o tenha retirado, pela conexão direta com Marcião que isso traria. Dessa forma conclui-se que, a carta apesar de ter sido destinada a várias regiões da Ásia, chegou até Éfeso, e possivelmente a partir desta é que se estenderam as cópias posteriores mantendo-a até os dias de hoje.

 

5. Propósito geral da Carta

Certa dificuldade cerca esta epístola por que, normalmente, o propósito da redação está intimamente ligado à circunstância específica dos destinatários. E, como observado, na Epístola aos Efésios existem muitas dificuldades no que tange aos destinatários bem como a circunstâncias vividas por eles. Mas é válido ressaltar que: (1) a carta chegou até Efésos, e que esta cidade serve como modelo sócio-cultural e religioso dentre todas as possíveis Igrejas que receberam tal epístola; (2) considera-se que esta epístola seja encíclica, assim releva-se um propósito mais abrangente do que as demais cartas de Paulo; (3) a carta é proveniente de Roma, como a ortodoxia tem se preocupado em defender, chegando aos destinatários por volta do ano 61 d.C.; Segue-se que é possível compreender o propósito de Paulo nesta epístola.

Contudo, as premissas (1) e (2) já foram bem demonstradas, o que não ocorre com (3). Mas, não é sem provas que tal conclusão é aceita, pois Paulo esteve em Roma sob confinamento em uma casa alugada (At.28.16, 30, 31) com certa liberdade tanto para locomover-se como para escrever; as evidências das outras epístolas de prisão (Fp.1.7; Cl.4.10; Fm.9) apontam para a primeira prisão em Roma, o que sugere que não seria diferente com Efésios, visto ser normalmente enquadrada na mesma época que as demais; a narrativa do Livro de Atos também favorece essa conclusão; ou seja, a premissa (3) é válida.

Portanto, diante dessas evidências, pode-se levantar fatos que demonstrem o propósito. É possível a considerar três pontos altos nessa epístola, que cooperam entre si, para a identificação do propósito maior desta, as saber: Paulo tem interesse em expressar satisfação pelo testemunho dos cristãos a que escreve; impulsioná-los a demonstrar a graça de Deus manifesta na salvação deles visando assim glorificar a Deus; e por fim estabelecer um conceito sólido tanto da salvação como da Igreja para que os cristãos, convictos de sua nova posição em Cristo, pudessem viver de maneira irrepreensível diante de Deus.

Expressar satisfação: Nesta carta, embora com poucas referências pessoais, Paulo deixa evidente que a postura dos gentios cristãos, em relação a fé em Cristo e no amor para com os santos (1.15, 16), está correta, e assim louva a Deus por isso, embora peça que Deus lhes dê espírito de sabedoria e revelação para que eles possam compreender o poder de Deus manifesto na salvação deles.

Estimular a propagação da graça de Deus: Nesta carta é evidente que Paulo estimula seus leitores a serem uma eterna demonstração da graça de Deus (1.12; 2.7, 10; 4.1-3; 5.1). A intenção é que os gentios compreendessem a graça de Deus na salvação deles, da realidade da inclusão deles no plano histórico de Deus, com o objetivo de que não vivam mais como viviam antes da salvação (4.17-19).

Estabelecer conceitos corretos: Com obviedade, a epístola de Paulo aos efésios inclui um caráter didático muito forte e coeso, mas diretamente ligado à práxis vivencial do cristão. Neste ponto nota-se a base para tudo o que é levantado na carta, pois Paulo compreende que apenas a partir de conceitos corretos pode-se levantar uma conduta correta. Assim, a demonstração do conceito correto da salvação de Paulo conduz os gentios a conclusão da isenção de mérito para o recebimento desta bênção, e os   conclama à humildade, pois não podem alegar mérito da salvação, mas devem relembrar da sua condição antes da atuação de Deus e que por meio de Cristo foram aproximados deste plano histórico e inseridos na comunidade dos santos, podendo, a partir de então, desfrutar desta nova posição em Cristo como santos em busca da santidade.

Segue-se que, segundo essas informações pode-se sintetizar o propósito da Epístola de Paulo ao Efésios nas seguintes palavras: “Conscientizar cristãos gentios da sua posição em Cristo, bem como da nova comunidade que participam, a Igreja, para que entendam a postura digna que devem ter diante de Deus, dos judeus e do mundo“.

 


[1] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça. Shedd Publicações:São Paulo, 2003. pp.27

[2] A idéia presente neste texto é que Paulo aprovava em sentimento comum com outros o assassinato de Estevão como um blasfemador.

[3] STTOT, Jonh. Homens com uma mensagem. Cristã Unida:São Paulo, 1996, pp.88.

[4] DOUGLAS, J.D and COMFORT, Philip W. Who’s who in Christian History. Tyndale House: Illinois, 1997.

[5] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça. Shedd Publicações:São Paulo, 2003. pp.279

[6] DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vida Nova:São Paulo, 1962. Vol I. pp.459.

[7] HOMERO, A Ilíada. Martin Claret:São Paulo, 1998, pp.470.

[8] ELWEEL, Walter e YABROUGH, Robert. Descobrindo o Novo Testamento. Cultura Cristã:São Paulo. 2002, pp.309.

[9] DUNCAN, G.S. St. Paul’s Ephesian Ministry. In: DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vida Nova:São Paulo, 1962. Vol I. pp.460

[10] PATZIA, Arthur. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Vida:São Paulo, 1995. pp.137.

[11] Idem, pp.139.

[12] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 1997. pp.338

[13] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.273

[14] SCOTT, E.F, Epístola de Paulo aos Colossenses, a Filemom e aos Efésios. In: HENDRISKSEN, William, Comentário do Novo Testamento. Casa Presbiteriana:São Paulo, 1992. pp.38

[15] EUSÉBIO, História Eclesiástica. CPAD:São Paulo, 1997. pp.235

[16] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.275

[17] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 1997. pp.340

[18] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.275

Uma reflexão à Teologia do Processo

Enviado em Teologia tagged às 4:46 pm por Marcelo Berti

Reflexão do autor do blog ao texto de Norman Geisler.

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Um movimento de grande alcance, talvez o maior movimento, na teologia contemporânea é a teologia do processo. Formas de metafísica de processo que ressaltam a imanência de Deus num mundo em evolução foram propostas durante os trinta primeiros anos deste século[1]“.

 

A colocação de Geisler aqui aponta para o mais importante foco da Teologia do Processo, o fato da imanência de Deus [o que inclui sua relação com a humanidade] e um mundo em evolução [que inclui seu relacionamento com um criador].

A idéia por traz da nomenclatura a reflete. Observe que todo processo é cronológico, inda que seja retroativo. Portanto é certo que dinâmica do relacionamento exclusivamente imanente de Deus em relação a um mundo em evolução acontece em um processo contínuo e intercambiável de alterações no relacionamento e no caráter, tanto de um como de outro. Segue-se que, em conformidade com o progresso da humanidade e de sua visão de Deus, há uma adaptação do caráter e do relacionamento do Deus com suas criaturas. Logo, toda a estrutura primária da teologia sustenta-se por trás de sua nomenclatura: Teologia do Processo.

 

Precursores

Heráclito: Cria em um Logos imutável por trás e além do mundo mutável. Autor da declaração: “Um homem não poderia colocar o pé duas vezes no mesmo rio, pois outras águas, e ainda outras, sempre estariam fluindo” (500 a.C). Aqui há apenas a declaração de um processo contínuo na natureza que impossibilita uma mesma situação ser revista ou re-experimentada.

Crátio: Discípulo de Heráclito, sofista, cético o suficiente para descrer de sua própria existência, chegou a conclusão de que ninguém jamais pisa em um rio. Neste caso, além da afirmação processual, nota-se um problema existencial, como um acréscimo depreciador da realidade.

Platão: É difícil afirmar sua relação com a evolução do pensamento processista, mas uma de suas importantes considerações são refletidas na teologia do processo. A bipolaridade de Deus, como mutável e inconstante.

Hegel: Influenciado por um “conceito linear cristão de história” somado a uma dialética desenvolvida a partir da “síntese pós-Kantiana de tese e antítese na experiência humana[2]” criou uma espécie de “panteísmo dialético“. Isso tornou Deus preso as estipulações temporais: “Deus está num processo histórico“.

Hebert Spencer + Herbert Spencer: Expandiu a hipótese biológica darwiniana numa filosofia da evolução cósmica. Atribuiu a Deus a característica de um criativo criador de criadores com um ímpteo vital, ou força vivencial.

 

Alfred North Whitehead

Alfred North Whithead (1861 – 1947), matemático britânico, logicista e filósofo é bem conhecido pelo seu trabalho em lógica matemática e filosofia da ciência. Em colaboração com Bertrand Russell, ele escreveu o marcante livro de três volumes Principia Mathematica (1910, 1912, 1913) e contribuiu significativamente para a lógica e metafísica do século vinte[3]“.

 

Principais eventos na vida de Whitehead:

  • (1861) Nasceu em 15 de Fevereiro em Ramsgate, Ilha de Thanet, Kent, Inglaterra.
  • (1880) Entrou no Trinity College, Cambridge, com bolsa de estudos em Matemática.
  • (1884) Eleito como Fellow in Mathematics no Trinity.
  • (1891) Casou com Evelyn Wade.
  • (1903) Eleito como Fellow of the Royal Society como resultado do seu trabalho em álgebra universal.
  • (1910) Mudou para University College London.
  • (1914) Apontado como Professor de Matemática Aplicada no Imperial College of Science and Technology.
  • (1924) Apontado como Professor de Philosophy no Harvard University.
  • (1931) Eleito como Fellow of the British Academy.
  • (1937) Retirou-se de Harvard.
  • (1945) Premiado por Mérito.
  • (1947) Morre em 30 de Dezembro em Cambridge, Massachusetts, USA[4].  

Segundo o Standford Encyclopedia of Philosophy sua vida pode ser dividida em três períodos, onde o terceiro é dedicado ao desenvolvimento filosófico do sistema de compreensão metafísica que foi posteriormente denominado “Filosofia do Processo“. Uma de suas máximas conhecidas é esta: “Todo objeto da vida real pode ser entendido como uma série semelhantemente construída de eventos e processos“. Essa afirmação tornou-se posteriormente o norte do clássico livro Process and Reality (1929).

 

Teologia de Whitehead:

Em princípio vale a consideração de que a estrutura ideológica de Whitehead nasce no progresso de estudo matemático e metafísico da realidade. Portanto, sustenta-se como mais como filósofo teísta que teólogo. Porém é visto como paneteísta, embora já tenha sido relacionado como panteísta de desenvolvimento, ou deísmo infinito ou teísmo neoclássico. Norman Geisler supõe que lhe caiba adequadamente o rótulo de bipolarista.

Aqui cabe uma rápida nota de distinção entre as terminologias:

  • Panteísmo: é uma doutrina que identifica o universo (em grego: pan,tudo) com Deus (em grego: theos). Etimologicamente falando, o panteísmo sustenta a idéia da crença em um Deus que vive em tudo, complementa e coexiste pacificamente com Universo.
  • Paneteísmo: É uma doutrina que diz que o universo está contido em Deus (ou nos deuses), mas Deus (ou os deuses) é maior do que o universo. É diferente do panteísmo (pan-teísmo), que diz que Deus e o universo coincidem perfeitamente (ou seja, são o mesmo).
  • Deísmo: É uma postura filosófico-religiosa que admite a existência de um Deus criador, mas rejeita a idéia de revelação divina. É uma doutrina que considera a razão como a única via capaz de nos assegurar da existência de Deus, rejeitando, para tal fim, o ensinamento ou a prática de qualquer religião organizada.
  • Teísmo: sustenta a existência de um deus (contra o ateísmo), ser absoluto transcendental (contra o panteísmo), pessoal, vivo, que atua no mundo através de sua providência e o mantém (contra o deísmo). No teísmo a existência de um deus pode ser provada pela razão, prescindindo da revelação; mas não a nega.

 

O Caráter Geral da Filosofia de Processo de Whitehead:

O ponto central da Filosofia de Whithead é a seguinte afirmação: “a realidade não é estática e substancial, mas, sim, dinâmica e em processo. Aquilo que é real, inclusive Deus, não é composto de essências imutáveis, mas, sim, de atividades mutaveis[5]“.

 

As modificações de Whitehead e Hartshorne feitas por John Cobb:

Alterações:

  • Conceito Clássico da Bipolaridade de Deus: Conceito da Unidade de ação, como homem;
  • Conceito do Alvo da Origem Subjetiva das coisas: Não mais Deus, mas a própria entidade como fim em si.
  • Conceito de da vida Deus: Não mais como Entidade, mas como Pessoa una.
  • Conceito da Pessoalidade de Deus: Deus não é uma entidade, mas é como uma sociedade de entidades e sua preensão de todas as entidades anteriores é idêntica do Seu passado. [há sucessão imutável em sua personalidade]
  • Conceito da Consciência de Deus: Por ser um pessoa em uma sociedade de entidades idênticas em relação ao tempo, não experimenta a perda de identidade, pois é consciente em todo processo.
  • Conceito da Eternidade de Deus: Deus permanece como um Ato Eterno e Imutável.

 

As Contribuições de Nelson Pike e Schubert Ogden à Teologia do Processo:

A fundamentação de Whitehead para a concepção da posterior teologia do processo foi basicamente filosófica. Entretanto, Pike e Ogden introduziram suas conclusões ao estudo de  dimensão bíblica.

Pike foi responsável por destacar o contraste entre conceitos da teologia tradicional de um Deus além das limitações do tempo (eterno) e o conceito de um processo de um Deus temporal. Nesse ponto há uma abertura para a apresentação da mutabilidade de Deus, embora não seja aqui que isto aconteça.

Ogden ultrapassa Pike na sistematização filosófica do conceito do teísmo tradicional sobre Deus, para evidenciar a vialbilidade de uma teologia de processo mais relacional. Aqui sim a mutabilidade em Deus parece ser estabelecida.

 

Objeções de Pike a um Deus Tradicional Infinito:

A concepção tradicional da Imutabilidade de Deus depende de sua Atemporalidade, Perfeição e Onisciência (tal como exposto no fim do documento). E é neste contexto que Pike intenta objetar:

  • Se Deus é Atemporal Ele não é Presciente: Alguns textos apresentam a Deus como capaz de prever o Futuro (Rm.8.29; 1Pe.1.2). Porém, não há futuro para quem não está inserido no Tempo. Se Deus é atemporal, o tempo é um eterno e único agora, assim Ele não prevê ou antevê, mas apenas vê. Aqui nota-se um dilema: Ou Aceitamos uma concepção “bíblica” de Deus e rejeitamos a concepção grega ou o inverso.
  • Se Deus é Atemporal Ele não Criou o Universo: Se Deus é Atemporal não pode agir no tempo, portanto não teria criado. Contudo, as escrituras apresentam uma criação sendo realizada no Tempo. Portanto, um Deus Atemporal não poderia ter Criado um Universo Temporal. Deus torna-se, então, criador, temporal e mutável.
  • Se Deus é Atemporal Ele não uma Pessoa Completa: Uma pessoa completa está sujeita a corresponder intelectual, emocional e volitivamente a pessoas. Contudo, o conceito de Atemporalidade implica em Imutabilidade, que por sua vez aponta para alguém que não pode mudar de opinião, de sentimento e de vontade. Tornar-se-ia imóvel. Portanto, um ser que não possa compadecer-se, e que por certo é impassível de tal sentimento, é menos pessoal que aqueles que assim se procedem.
  • Se Deus é Temporal é mais digno de Adoração: Se Deus pode compadecer-se de mim, mudar de opinião, vontade, Ele é mais capaz de interagir com a humanidade e por isso ser mais digno de adoração. Por que razão dedicar-se em clamor a um Deus que não Muda e não se Compadece?
  • Se Deus é Atemporal Ele não está de acordo com sua Revelação: Se Deus é Atemporal, Ele é Imutável. Contudo as Escrituras apresentam suas mudanças em resposta a orações (Js.10), ou arrependimento dos homens (Jn.3) ou por causa da maldade humana (Gn.6). Algumas construções lingüísticas apresentam um conceito muito próximo a Temporalidade (Sl.90.2). As expressões como “pelos séculos dos séculos” (Ap.20.10) o evidenciam.
  • Conclusão de Pike: “Concluirei que a doutrina da atemporalidade não de ser incluída num sistema de Teologia Cristã“. Platão é a origem da doutrina da atemporalidade, “Mas Platão não era cristão – nem posso pensar em qualquer razão porque um cristão deva aceitar o julgamento de Platão sobre esta questão“. Deus torna-se então temporal e mutável

 

Argumentos Lógicos em prol da Imutabilidade de Deus[6]:

  • Argumento da Temporalidade

Para que uma mudança possa existir, deve existir um “antes” e um “depois”. Para que um “antes” e um “depois” existam é necessário uma cronologia. Para que a cronologia exista, é necessário que o objeto da mudança seja um ser temporal. Logo, não se pode aplicar mudanças a Deus (Deus é eterno, atemporal Jo.17.5; 1Tm.1.9).

 

  • Argumento da Perfeição

Uma mudança pode ser para “melhor” e para “pior”. Se não existe diferença não existe mudança. Ou algo necessário é acrescentado ou algo necessário é perdido. Mas Deus é perfeito. A perfeição de Deus implica em que Ele seja “ausente de ausências“, ou seja Deus é completo.

 

  • Argumento da Onisciência:

Quando alguém muda de idéia, é por que recebeu uma nova informação que anteriormente não conhecia. Contudo, Deus é onisciente, conhecedor dos infinitos fins das infinitas possibilidades. Ele conhecia a situação. Sendo assim, as situações mudaram e demandaram uma atitude diferente.

 


[1] pp.195

[2] A Ideologia por traz da Filosofia humana foi descrita pela dialética de Hegel na sistematização do argumento da TESE: “Toda tese terá uma antítese, que formará uma síntese“. Esse progresso conceitual influi e dirige diretamente no processo da construção ideológica da Filosofia. Isso é observado nos nossos dias: A modernidade [tese] como filosofia genérica, serviu como retaliação absolutista de crenças (com grande crescimento do Ateísmo), mas foi confrontada por outra Ideologia, a pós-modernidade [antítese], que tornou-se a retaliação relativista dos absolutos (com a expansão do sincretismo e do ecumenismo).

[3] Fonte: http://plato.stanford.edu/entries/whitehead/

[4] Idem.

[5] pp.197

[6] Fundamentado na exposição de Tomas de Aquino e no Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia (Geisler e Howe).

Eu me Importo

Enviado em Pregação às 4:39 pm por Marcelo Berti

Texto extraído de parte de uma mensagem ministrada pelo autor deste blog.

Bom Proveito.

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Em uma noite de batismo nós podemos perceber como Deus alcançado pessoas. São pessoas diferentes que encontraram-se com Cristo em algum momento de suas vidas, por que alguém se importou com elas e comunicou-lhes a verdade do evangelho. Em algum lugar da suas histórias, Deus usou pessoas para levar o evangelho a eles. Talvez um alguém achou que precisava aumentar seu Compromisso Pessoal com a Obra do Senhor e Fortalecer  suas Amizades para Levar o Evangelho, mas o importante é que essa pessoa se importou com eles.

Cada um dos que foram batizados tem uma história para contar sobre como conheceram a Cristo. Embora existam muitas diferenças na forma como isso aconteceu, todos reconheceram que Cristo deu-se a morte por eles, e por isso podem re-estabelecer seu relacionamento com Deus.

Nessa noite, gostaria de aproveitar essa oportunidade e contar a história de alguém que teve sua vida transformada por conhecer a Jesus Cristo. Entretanto, não gostaria apenas de contar sua história, mas de retirar dela princípios válidos para nossa vida.

[VÍDEO]

Essa é a mulher de Sicar, a samaritana. Em evento incomum para aquela sociedade um grupo relativamente grande de pessoas daquela cidade conheceu a Jesus Cristo por intermédio daquela mulher. Entretanto, não parece ser a atitude da mulher em si que desperta algumas perguntas. Acredito que a postura de Jesus. A iniciativa de Jesus em conversar com ela foi o ponto onde tudo começou. Da mesma forma que alguém se importou em testemunhar para vocês sobre Jesus Cristo, Ele mesmo demonstrou esse mesmo. Ao que tudo indica, JESUS SE IMPORTOU COM ESSA MULHER. Observe comigo.

 

1 .     Jesus se importou a ponto de quebrar preconceitos

A primeira vista essa colocação parece até estranha, mas vamos lá. Vamos compreender um pouco desse dilema.

 

a.       Jesus falava com uma mulher:

A sociedade judaica sempre foi marcada por uma visão “maxocentrista”. Quando você ouve o Fernando falar sobre o número da comunidade cristã no início do cristianismo segundo o registro de Atos, ele sempre ressalta que eram 5.000 o número de homens, depois esse número cresceu aponto de perder-se a conta. Ele não fala isso por opção dele, mas as evidências apresentadas nas escrituras nos dão a entender que esse era o modo como as coisas funcionavam. É comum nas genealogias bíblicas encontrarmos apenas nomes de homens (1Cr.1.1 – 9). Apenas a genealogia de Jesus narrada em Mateus é que inclui mulheres, mas é algo super incomum naquela cultura.

A verdade é que essa sociedade teria algumas restrições no relacionamento público entre homens e mulheres. Você vai perceber em alguns lugares na escritura que refletem esse tipo de visão naquela sociedade. Isso era, provavelmente, parte de uma percepção equivocada sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Por isso nós também encontramos na escritura recomendações para um bom relacionamento entre homens e mulheres.

 

b.       Jesus falava com uma mulher samaritana:

Entretanto, isso era apenas parte de um problema. Se existia um povo que os judeus consideravam como inferior, indigno de participação eram os Samaritanos. Você consegue perceber isso nas parábolas “irônicas” que Cristo propunha, como por exemplo o Bom Samaritano. A expressão bom samaritano era uma antítese, ou um paradoxo. Agora, pense por um momento que Jesus estava diante de uma mulher samaritana. Que tipo de preconceito poderia existir nessa aproximação?

Aliás, parece ser essa a declaração da mulher quando Jesus inicia uma conversa com ela: 

Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana -Jo.4.9a

 

A pergunta dela inclui esses dois aspectos da sociedade em que ela e Jesus viviam. Era inadmissível que essa cena pudesse acontecer sem que provocasse escândalo. Da perspectiva daquela mulher isso era extranho. Observe que ela explicita essa idéia quando reconhece a nacionalidade judaica de Jesus, e se apresenta como MULHER SAMARITANA. Isso era um problema. Aliás, o problema é tão claro que João, aquele que relata, deixa uma nota sobre esse relacionamento: 

porque os judeus não se dão com os samaritanos – Jo.4.9b 

A expressão “não se dão” exprime….. Ou seja, o problema era feio e parecia estranho àquela comunidade.

 

c.       Jesus falava com uma mulher samaritana sem boa reputação:

Se não bastassem esses problemas, a mulher a quem Jesus dirigia-se era uma mulher de vida duvidosa. Em uma sociedade hipócrita, onde todos têm seus problemas, mas apenas os dos outros são grandes, uma mulher de vida duvidosa era uma grande ofensa social. Em alguns casos, o preconceito daquela sociedade ultrapassava as prescrições da lei. Por exemplo a história da mulher apanhada em adultério. Observe que aparentemente os fariseus estavam colocando Jesus contra a lei, pedindo para que ele tomasse uma decisão que já era prescrevida pela Lei de Moisés. Entretanto esse fato tem alguns problemas, pois os que fossem apanhados em adultério deveriam ser apedrejados, e não apenas a mulher. Mas por que razão eles trouxeram apenas a mulher? Não podemos definir tudo, mas que o preconceito estava presente, ele estava.

Observe que a mulher a quem dirige a mulher que certamente seria evitada em publico: 

Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá;  17 ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido;  18 porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. – Jo.4.16-18

 

Você pode estar pensando: “Ô muleque, para de achar que a mulher era ruim. Ela só era casamenteira“. Para isso vamos precisar olhar com atenção essa declaração. Imagine as possibilidades:

  • Os maridos morreram:
    • Causa Natural: Para isso acontecer ela precisaria de 5 maridos de saúde frágeis que morressem um após o outro de modo rápido. De qualquer forma seria vista como amaldiçoada. Pessoas com essa reputação seriam consideras impuras e não teriam boa reputação. Ela poderia também ser prima antiga do McLaed (Highlander) e não teria milhares anos de vida.
    • Assassinados: Ela poderia te solicitado ou executado a morte dos próprios maridos. Fazendo isso ela seria enquadrada como assassina ou mandante de assassinato. Com isso, ela também não teria uma boa reputação
  • Os maridos ainda eram vivos. Para essa opção é simples. Ele simplesmente não mantinha-se casada. Por qualquer que tenha sido as razões dela, ela não prosseguia com seus relacionamentos, a ponto de ter tido 5 maridos e conviver com um sexto com quem nem havia se casado. 

Como você pode perceber as opções para essa mulher não eram das mais simples. O que dá a entender a situação é que trata-se de uma mulher com uma gama de divórcios muito grande, o que não a deixaria com uma boa reputação. Tudo isso parece indicar que Cristo estava violando uma grande lei daquela sociedade.

Entretanto, o foco de Cristo não está atrelado ao preconceito daquela sociedade. O foco dele nessa interação era outro. Seu interesse não era em parecer politicamente correto, ou agir de acordo com as normas de atividade aceitável diante da sociedade. Ele estava acima disso. Jesus não se importou com a realidade da sua sociedade, mas se importou com a mulher de Sicar a ponto de não dar importância a sua sociedade. 

Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva – Jo.4.10 

O foco de Cristo estava sobre a vida eterna dessa mulher, e do resultado que essa mulher poderia causar naquela sociedade. Cristo não se importava com o que pensavam dele (Mt.9.10-11; Mt.11.19; Lc.15.1-2), ele se importava com pessoas carentes da graça de Deus.

 

2.     Jesus se importou a ponto de colocar em 2º. plano suas próprias necessidades

Nós temos certeza que Cristo é um grande exemplo para nós nesse assunto, mas nesse texto mostra que Ele tem uma disposição para alcançar pessoas de um modo que nós não estamos preparados para acompanhá-lo: Ele se importou com pessoas a ponto de colocar em segundo plano suas próprias necessidades pessoais. Note o texto: 

31 Nesse ínterim, os discípulos lhe rogavam, dizendo: Mestre, come!  32 Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.  33 Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o que comer?  34 Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar sua obra. – Jo.4.31-34 

Os seus discípulos que teriam saído para comprar comida voltaram e pediram para que o mestre comesse. Entretanto, Ele afirma que teria outra comida para aquele momento. Essa comida era realizar a vontade de Deus, e para isso, ele preferiu estar com aquela mulher que comer com seus discípulos. Lembre-se que Jesus, em outras ocasiões esteve com publicanos para comer com eles, mas nessa ocasião, ele optou por conversar com aquele povo.

Observe que Jesus dialoga sobre a questão da colheita, que embora demoraria cerca de 4 meses do presente deles, Cristo afirmou que os campos já estavam brancos. Essa era a vontade de Deus naquele momento. Isso era o que importava.

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