Aspectos Imateriais do Homem


Como tem sido demonstrado, o homem é um ser completo e unitário, embora bipartido. Ou seja, em sua inteireza o homem é constituído de duas partes, material e imaterial. O aspecto material do homem é muito bem entendido, pois se sabe o necessário sobre esse aspecto, que é bem entendido pela biologia. Entretanto, a parte imaterial é constituída de algumas facetas que merecem nossa atenção. Assim,neste tópico estaremos estudando esses aspectos imateriais do homem.

A.           Elementos que compreendem a Parte imaterial

Podemos listar alguns elementos importantes que compreendem a Parte Imaterial do Homem, e procurar entender o que cada um é de fato. Dentre esse, é possível listar: Alma, Espírito, Coração e Mente.

Alma

O termo “alma” em português reporta-se basicamente a “nephesh” em hebraico e a “psiche” no grego. No Velho Testamento podemos encontrar os seguintes usos para o termo hebraico: “Alma”, “ser vivente”, “vida”, “eu”, “pessoa”, “desejo”, “apetite”, “emoção” e “paixão”.  Mas basicamente significa “vida”. O termo hebraico pode tanto significar uma pessoa por inteiro, tanto viva quanto morta. Pode referir-se ao aspecto imaterial do homem como um todo em relação à emoções, e tem  um importante enfoque na redenção.

Espírito

A palavra “espírito” é equivalente a “ruah” hebraico e “pneuma” grego. Pode, como já bem demonstrado, ser utilizado intercambiavelmente com a palavra “Alma”, referindo-se ao Aspecto Imaterial do homem como um todo. Mas é válido demonstrar que o homem nunca é apresentado como um espírito, embora possua um. O que se demonstra com a atribuição de Espírito e Alma ao Aspecto Imaterial do homem, não é que Alma e Espírito sejam o mesmo elemento, mas que não são os únicos elementos do aspecto imaterial.

Não é verdadeira a premissa que sustenta que apenas os cristãos têm espírito, pelo fato de que a Bíblia ensina que todos os homens tem espírito (Nm.16.22; Hb.12.9; 1Co.2.11; Hb.4.12; Tg.2.26). Algumas funções são atribuídas ao espírito, da mesma forma que para a Alma: entendimento (Is.29.24), memória (Sl.77.6), humildade (Mt.5.3), amargura (Gn.26.35), a angústia (Jo.13.21), ciúme (Nm.5.14), a altivez (Pv.16.18) e a opressão (Sl.34.18).

Assim, podemos dizer que o Espírito não pode indicar uma pessoa como um todo, é uma palavra que se refere exclusivamente ao aspecto imaterial do homem, imediatamente ligado à suas atividades, embora para Paulo a palavra assuma proeminência à vida espiritual.

Coração

O Coração também é relatado na Bíblica como parte do homem. Com certeza nós sabemos que o coração é um órgão muito importante para a vida natural, embora poucas passagens falem sobre isso (2Sm.18.14; 2Rs.9.24). Na maioria dos casos o coração é utilizada para se referir ao homem interior, “a essência da muitas facetas de sua personalidade[1]“.

Sobre o coração, quatro observações podem ser importantes: (1) o coração é o centro da vida intelectual, pois adquire o conhecimento da palavra de Deus (Sl.119.11), ele sabe (Dt.8.5), é fonte dos maus pensamentos e ações (Mt.15.19, 20), possui propósitos e pensa (Hb.4.12) e pode ser enganoso; (2) o coração é o centro da vida emocional, pois ama (Dt.6.5), reprova (Jó.27.6), se alegra (Sl.10415; Is.30.29), entristece (Ne.2.2; Rm.9.2), possui desejos (Sl.37.4) e pode ficar amargurado (Sl.73.21); (3) Ele é o centro da vida volitiva, pois busca (Dt.4.29), pode ser mudado (Ex.14.5) e  endurecido (Ex.8.15; Hb.4.7), é capaz de escolher (Ex.7.22, 23) e pode ser insubmisso (Jr.9.26; At.7.51); (4) o coração é o centro da vida espiritual, pois é nele que o homem crê para justiça (Rm.10.9, 10), é a morada do Pai (1Pe.3.15), do Filho (Ef.3.17) e do Espírito Santo (2Co.1.22), e para o cristão seu coração deve ser puro (1Tm.1.5; Hb.10.22) e estar submisso (Rm.2.29).

Mente

Mente é normalmente mais encontrado no Novo Testamento. O conceito para mente no Velho Testamento é formado por coração. Na concepção hebraica, o coração aparece como o responsável pela atividades intelectuais, como já foi mencionado. No Novo Testamento é claro o conceito de mente, entretanto com uma distinção interessante entre cristãos e incrédulos. Para os cristãos a mente está ligada ao desenvolvimento espiritual, pois com ela o homem compreende a verdade (Lc.24.45; 1Co.14.14, 15), está envolvida em questões de decisão complicada (Rm.14.5), na busca da santificação (1Pe.1.13), na compreensão da vontade de Deus (Ef.5.17), no amor de Deus (Mt.22.37) e ela deve ser renovada para uma vida dedicada (Rm.12.2) e ter todo pensamento cativo em Cristo (2Co.10.5)

B.            Capacidades e Faculdades da Parte Imaterial

Neste sub-tópico gostaria de demonstrar existem atividades dos elementos que compreendem o aspecto imaterial do homem. Por exemplo, que o homem possui mente, mas de que lhe serve? E o que é essa consciência? O coração por vezes tem vontade, mas o que ela seria? A mudança, aqui, encontra-se na ênfase que é posta, não sobre o que é, mas o que faz.

Para qualquer a ação moral, o homem tem o intelecto e a razão para discernir entre o certo e o errado; o sentimento para mover-se a cada um deles; vontade para fazer um ou outro

Intelecto

O intelecto é a faculdade cognitiva pela qual as impressões recebidas pelos sentidos se tornam inteligíveis, e podem ser plenamente conhecidas. É uma referência abrangente, em relação à mente como um todo, que diz respeito ao entendimento.

Essa atividade da mente do homem é bem demonstrada pela literatura bíblica. O entendimento do cristão tem grande lugar no Novo Testamento,e uma iluminação sobrenatural desse entendimento foi prometida por Cristo (Jo.16.7-11). O intelecto reporta-se à compreensão da mensagem do evangelho (2Co.4.3-4). Para o regenerado pelo Espírito Santo, uma gama de informações se torna inteligíveis (Jo.16.12-15; cf. Jo.3.3; 1Co.2.9-3.4; Hb.5.12-14; 11.3; 1Pe.2.2; 1Jo.2.27)

Paulo, após anunciar grandes verdades na introdução de sua epístola aos efésios, ele ora para que Deus dê “o espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” aos efésios (Ef.1.17). Assim, o homem não possui apenas uma mente que absorve informações, mas também é apta a executá-las, e em função disso, o homem precisa ter sua mente transformada (Rm.12.2), mesmo após a iluminação do Espírito Santo, para que informações corretas levem à prática correta. “O viver é reflexo do pensar“.

Consciência

A consciência é a capacidade das faculdades do aspecto imaterial do homem que se reporta ao julgamento destas faculdades. Assim como a mente pode produzir pensamentos, a memória guardá-los, o espírito discernir o valor desses pensamentos, a alma respondê-los, a consciência os avalia sua dignidade moral. A consciência é a marca da criação de Deus, pois até mesmo os que não conhecem o padrão moral de Deus, por vezes o seguem, pelo fato de que a consciência testemunha esse padrão (Rm.2.15).

A consciência de alguém que não é salvo pode ser classificada como: (1) Corrompida (Tt.1.15); (2) (Hb.10.22); (3) Convencida (Jo.8.9); (4) Cauterizada (1Tm.4.2). Já o cristão busca manter a boa consciência (1Tm.1.19), o que sugere que mesmo o cristão pode ter uma consciência má. Outra sugestão que pode existir é que a consciência no cristão tem o próprio Espírito Santo como árbitro (Rm.9.1).

Outras referências relativas à consciência: At.24.16; 1Co.4.4; Hb.10.1,2; 1Pe.3.16; 1Jo.3.20-22.

Vontade

“A vontade humana é legitimamente um tema importante em teologia. Ela aparece não somente em antropologia, mas também em soteriologia[2]“. É possível ainda que a vontade esteja diretamente relacionada Deus, pois a vontade do homem é reflexo da Imagem de Deus no homem.

O que pode-se afirmar sobre a vontade, é que ela é influenciada, ou dirigida, pelo intelecto, emoções e desejos e que sua liberdade nada mais é do que a experiência de realizá-la na ausência de controle ou influência. Seguindo essa afirmação, a liberdade da vontade é inconsciente. Entretanto, isso é impossível, pelo fato de que a vontade sempre está à mercê de alguma informação, necessidade, desejo correto ou não.

Observe que quando Paulo afirma que os não salvos tem um modo de vida em conformidade o curso deste mundo, o enganador deste mundo, e das inclinações da própria carne (Ef.2.1-3). Neste texto pode-se ler:

“..fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”

A vontade relaciona-se com os outros aspectos da constituição do homem, e inclina o homem segundo as inclinações destes aspectos. Dessa forma, o homem não regenerado tem sua vontade inclinada pelas paixões carnais e intenções malévolas, o que faz com que sua vontade não possa ter arbítrio isento de influência.

O mesmo acontece com o homem regenerado, embora após a salvação o homem seja conduzido à liberdade, a vontade do homem não é absolutamente livre. Paulo testemunha esse fato quando diz:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm.7.18-19)

O que acontece nesse texto demonstra a luta entre a intenção de fazer o bem e não conseguir efetuá-lo. Embora o homem regenerado desfrute de um ambiente de liberdade ainda não possui a liberdade essencial e verdadeira que o próprio Deus tem. De alguma forma até mesmo a vontade do homem é influenciada, ou regida por outro aspecto. Em Fp.2.13 podemos ler:

“Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”

Segue-se que a liberdade da vontade é o desejo de todo homem, porém, impossível à luz de sua própria definição:

Vontade é a capacidade inerente das faculdades do aspecto imaterial do homem,  que o possibilita realizar escolhas morais influenciadas por sua condição moral, com o objetivo de movê-lo para alguma direção dentre as possibilidades desejadas[3].

Assim, não se nega a capacidade volitiva do homem, ao mesmo tempo que não afirma seu liberdade utópica.


[1] RYRIE, Charles, Teologia Sistemática. pp.228 (Informações sobre o aspecto imaterial retirados dele)

[2] CHAFER, Lewis Sperry, pp.601

[3] BERTI, Marcelo Mendes.

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