Celebrando a Liberdade


Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanece, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão (Gl.5.1)

Hoje estamos reunidos aqui para celebrar nossa salvação com o memorial de sua morte. Hoje estamos aqui para, em comunhão com nossos irmãos, relembrarmos o sacrifício de Cristo, de reavaliarmos nossas vidas, de nos arrependermos por nossa intensa maldade que não apenas nos assedia como nos seduz a abandonarmos as instruções do nosso Deus. Hoje estamos aqui para celebrar nossa liberdade em Cristo Jesus, nosso acesso direto e pessoal a Deus. Hoje estamos aqui para nos colocarmos em sua presença em gratidão por tudo que ele já fez por nós, pelo que tem feito, e pela esperança que temos de que, conforme sua vontade ele continuará a fazer em nós e por nós.

Por isso, gostaria de convidar a você a celebrar nossa liberdade em Cristo, pois foi para a liberdade que Cristo nos libertou“.

A.     Libertos da escravidão

A situação dos gálatas a quem Paulo escreve era bem perigosa, pois estavam se deixando levar (5.7, 8) por algum tipo de teologia (1.9) que acaba por corromper a vida do cristão liberto por Cristo (5.1, 13). Seja o retorno a submissão à lei (5.3) seja pela vida licenciosa (5.13, 16), Cristo nos chamou para liberdade. Não importa onde você estava antes de conhecer a Cristo, você foi convidado para a liberdade.

No primeiro verso do quinto capítulo da sua carta aos gálatas, Paulo diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão“. A princípio, o que nos chama a atenção nesse verso é a aparente redundância que existe na frase: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou“. Mas, na verdade a linguagem aqui precisava ser forte, até mesmo repetitiva, pois Paulo intencionava ressaltar quão tolo seria ser liberto e voltar a submeter-se a uma nova espécie de escravidão. Guthrie chega a sugerir que, ser liberto e não desfrutar da liberdade oferecida seria uma ofensa Àquele que o teria liberto[1].

Evidentemente, era vontade de Deus que desfrutássemos de verdadeira liberdade com Ele, visto que teria enviado Seu Filho para oferecer completa liberdade aos que crêem Nele como o Salvador do Mundo (Jo.4.41-42).

É por essa razão que Paulo acresce: “Permanecei, pois firmes e não vos submetais novamente a jugo de escravidão“. A idéia é que os cristãos deveriam apegar-se à decisão de desfrutar dessa liberdade com intensidade, visto que, caso contrário, estariam deixando de continuar a obedecer à verdade (Gl.5.7). Talvez essa ordem fosse uma necessidade visto que falsos mestres estavam a assolar essa comunidade.

Mas, a que poderia o apóstolo referir-se ao “jugo de escravidão“? Pelo contexto, podemos perceber que isso faz referência à instrução deixada pelos judaizantes que procuravam justificar-se na lei (Gl.5.4). Ao que tudo indica, Paulo exorta seus leitores a rejeitar essa idéia e a desfrutarem da liberdade oferecida por Cristo (Gl.2.4), pela imposição da completa obediência do cerimonial judaico, o que de certa feita inclui a Lei.

Isso nos faz pensar que a Lei é má? De modo algum. Paulo mesmo já teria nos ensinado: “Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa” (Rm.7.16). Tiago também nos lembra que a lei é perfeita e que ela concede liberdade (Tg.1.25). O que então Paulo esta a ensinar?

Que aqueles que se justificam diante de Deus pelas obras da lei, decaíram da graça, de Cristo foram desligados (Gl.5.4), transformaram Jesus em algo desnecessário (Gl.5.2) e estão obrigados a cumpri-la por inteiro (Gl.5.3).

Essa conclusão é importante, visto que até mesmo os que são judeus por natureza precisam ser justificados pela fé, visto que ninguém será salvo por obras da lei (Gl.2.14, 15; cf. Rm.3.20, 28)

B.     Libertos da licenciosidade

Pouco à frente, Paulo reforça: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor“. A forma como Paulo escreve (verbo no passado – aoristo grego) sugere que os gálatas não apenas conheciam essa tal liberdade, como dela já haviam desfrutado. Isso ainda reforça um pouco da mentalidade de Paulo sobre o posicionamento ilógico que os gálatas tinham tomado diante da situação.

Mas, Paulo relembra que liberdade e licenciosidade não são a mesma coisa: “porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne“. A impressão que alguém poderia ter ao ouvir da não necessidade de salvar-se diante de Deus por meio das obras da lei, ou da obediência irrestrita é que a vida poderia ser lavada de qualquer forma uma vez que o que se requer para ter vida com Deus é fé.

Nada mais longe da verdade! Paulo quer relembrar ao seus leitores que, muito embora a vida eterna não seja conquista por boas obras (Ef.2.8-9), ou por obras da lei (Rm.3.20), isso não significa que o cristão deve desobedecer as instruções morais de Deus. Muito pelo contrário, o desenvolvimento do relacionamento do cristão com Deus, depende do seu desenvolvimento espiritual e moral, sendo que um não vem sem o outro.

Na verdade é válido lembrar que antes de Cristo é que éramos licenciosos: “…entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais“. A licenciosidade na verdade é uma marca daqueles que ainda não conheceram a Cristo (Ef.4.17-19).

Por isso é que Paulo é enfático ao dizer fomos chamados para liberdade, o que inclui a vida moral acertada diante de Deus, pois não temos mais necessidade de vivermos entregues à devassidão.

C.     Libertos para servir

Da mesma forma que fomos libertos do jugo da escravidão e da licenciosidade, fomos feitos homens livres para servirmos os nossos irmãos: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl.5.13).

Aqui temos um daqueles paradoxos interessantes: Como alguém que é liberto é convidado a agir como servo de alguém? Isso eventualmente não soa como algo aprazível nem desejável. Entretanto, o que percebemos aqui é que a atitude daquele que é salvo, não é mais buscar satisfazer-se, mas que agora, ele está liberto do seu egoísmo e pode de modo espontâneo prestar serviço aos seus irmãos em Cristo.

O cristão deve fazer isso por intermédio do amor de Deus que flui em sua vida. Ou seja, reflexo do seu serviço é o seu amor.


[1] GUTHRIE, Donald, Gálatas: Introdução e Comentário, pp.163

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