O Conceito de “kosmós” em João


“A pregação de João consiste na mensagem de que Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu Filho ‘unigênito’ – não para julgá-lo, e sim para salvá-lo (3.16s; 1Jo.4.9, 14). Bem que ele merecia o juízo, pois o mundo inteiro jaz no maligno (1Jo.5.9); mas é da salvação que ele carece”

Rudolf Bultmann, Teologia do Novo Testamento pp.443

 O conceito de “kosmós” tem grande lugar na Teologia Joanina, sendo isto confirmado não apenas pelo uso constante do termo (78x no evangelho e 24x nas cartas; 185 é o número total), mas pelo papel teológico que ele desempenha. Como podemos perceber pela citação de RB, existe uma ligação muito grande entre o amor de Deus e o mundo. Alias a compreensão de mundo para João pode apresentar um sentido ainda mais especial para esse amor de Deus.

O que se pode perceber com clareza é que o termo tem papel fundamental na compreensão da relação que existe entre Deus e o ser humano. Por essa razão, abaixo sistematizo alguns usos do termo na teologia de João:

Pode ser usado em referência a um local:

  1.  Criado por Deus (1.3). Em paralelo com o uso nos sinóticos, pode referir-se a ordem criada como um todo (universo – Jo.17.5, 24; cf. Mt.13.35; 24.21; 25.34; Lc.11.50)
  2. Pode referir-se à terra em particular (Jo.11.9; 16.21; 25.25; cf. Mt.14.9; Lc.12.30; Mt.4.8; 13.48). A terra é referida como o lugar da habitação dos homens, sentido percebido pelas expressões (DITNT pp.2501):
    • “Vindo ao mundo” (6.14; 9.39; 11.27; 18.37), também entendido como nascido
    • “Estando no mundo” (9.5), também entendido como “existir”
    • “Partindo do mundo” (13.1; 16.28), também entendido como morrer.
  3. No que se refere à criação, não há evidências de alguma coisa má a respeito do mundo (1.3). “O mundo criado continua a ser o mundo de Deus” (Ladd, pp.211)

Pode referir-se aos habitantes desse mundo (metonímia):

  1. O gênero humano (12.19; 18.20; 7.4; 14.22), criado por Deus (1.10)
  2. Não é usado com a intenção de designar todos os homens que habitam a terra, mas o ser humano em geral (12.19)
  3. O amor de Deus é demonstrado para o gênero humano:
    • Deus ama o mundo (3.16)
    • Ele enviou seu Filho para salvar o mundo (3.17; 12.47)
    •  Jesus é o Salvador do Mundo (4.42)
    • Ele veio para tirar o pecado do Mundo (1.29)
    • E dar sua vida ao mundo (6.33)

Pode referir-se ao caráter moral/espiritual do ser humano natural:

Em referência ao gênero humano, pode referir-se ao fato de serem considerados pecadores, rebeldes e alienados de Deus como humanidade decaída. Isso não implica que a humanidade tenha algo de maligno intrinsecamente, mas é mau pelo fato de ter-se afastado de Deus. Nesse quesito, o mundo é visto como:

  1. Impiedade (7.7)
  2. Não conhecedor de Deus (17.25)
  3. Não conhecedor de Cristo (1.10)
  4. Aquele que manifesta seu ódio contra o Filho de Deus (7.7; 15.18) que veio para salvá-lo.
  5. Dominado por satanás:
    • O poder maligno escravizou o mundo em sua rebelião para com Deus
    • Satanás detém o poder das trevas e da mentira
    • Satanás detém o poder do pecado e da morte
    • Satanás é príncipe deste mundo[1](12.31; 14.30; 16.11; 1Jo.5.19) e dele descendem:
      • Os judeus descrentes (8.44)
      • Os pecadores em geral (1Jo.3.8,10)
  6. f. A natureza desse “kosmos” pode ser identificada como:
    • Trevas como uma fatalidade (1.10 + 1.5; cf. 8.12; 12.35, 46; 1Jo.1.5s; 2.8s,11). Em função disso, os seres humanos são cegos, sem que saibam ou queiram admitir (9.39-41; cf. 12.40; 1Jo.2.11)
    • Mentira
      • Conclusão retirada de afirmações indiretas (18.37; cf. 8.32; 1.17; 14.6; 1Jo.2.21; 3.19)
      • Conclusão retirada de afirmações diretas (8.42-45; cf. 1Jo.2.21, 27)
      • Aquele que não conhece a Jesus como o Messias é mentiroso (1Jo.2.22)
    • Um poder escravizador conhecido através da promessa de libertação pela verdade (8.32). “Kosmos é por natureza a existência na escravidão” (Rudolf Bultmann, pp.444)
  7. Assim, estar no mundo significa estar morto, pois quem crê em Cristo já passou da morte para a vida (5.24)[2].
  8. O ponto mais horrendo da morte é a inimizade do mundo contra a vida.
    • Como satanás é assassino por natureza (8.44), assim também são os que dele descendem;
      • Caim (1Jo.3.12)
      • Incrédulos (Jo.8.40)
    • O ódio ao irmão é a identificação com essa natureza assassina própria do Diabo (1Jo.3.15 cf. 2,9,11)[3].
  9. Por essa razão, esse mundo é contrastado com os discípulos de Cristo
    • Eles pertenceram ao Mundo, mas foram escolhidos do mundo para estar com Cristo (17.6)
    • Mas continuam a viver no mundo (13.1; 17.11, 15)
    • Não participam mais do caráter do mundo por que receberam a Cristo e sua Palavra (17.14)
    • Seus objetivos não são mais terrenos, mas centrados em Deus (15.19; 17.14) o que evidencia que não são mais do mundo

Pode expressar a cosmovisão de João sobre a humanidade:

  1. A vinda de Cristo criou uma divisão entre os homens:
    • i. Deus escolheu homens dentre as pessoas do mundo (15.19) para que formassem uma nova comunhão centrada em Cristo (17.15).
    • ii. O mundo odiou a Jesus e também odiará seus seguidores (15.18; 17.14)
  2. Os discípulos não devem retirar-se do mundo, mas viver no mundo, motivados pelo amor de Deus ao invés do amor ao mundo (1Jo.2.15)
    • i. Eles deveriam dar continuidade na missão de Cristo (17.18)
    • ii. Como Cristo entregou-se ao cumprimento da vontade de Deus, os discípulos não deveriam encontrar satisfação e segurança no nível humano, como o mundo tenta fazer, mas na dedicação ao propósito de redenção de Deus (17.17, 19).
    • iii. Deviam guardar-se do mal (17.15)
  3. Essa divisão não é uma divisão absoluta. Os homens podem ser transferidos para a condição de Filho de Deus por ouvir a mensagem de Jesus (17.6; 3.16).
  4. Assim, o ministério de Cristo é perpetuado por meio de seus seguidores (20.31)
    • O mundo não pode receber o ES (14.17)
    • Mas muitos dele serão por Ele convencido (16.8) e aceitarão o testemunho dos discípulos de Jesus (17.21)
    • E crerão nele, mesmo sem nunca tê-lo visto (20.39).

[1]      Quando apresentado em oposição a Deus, João usa a expressão “este mundo” (kosmos houtos; 8.23; 9.39; 11.9; 12.25, 31; 13.1; 16.11; 18.36; 1Jo.4.17)

[2]       Por isso é que Cristo traz a água da vida e o pão da vida (4.10; 6.27ss); é a luz da vida (8.12), ressureição e a vida (11.25; 14.6).

[3]       Por isso o novo mandamento de Jesus é o do amor ao irmão (13.34s; 1Jo.2.7s) e a demonstração desse amor é uma evidência de ter passado da morte para a vida.

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