Obra Salvífica de Cristo


“Há luz suficiente para quem quer ver, e trevas suficientes para quem não quer ver[1]

 

Dentro da progressão histórica do significado da salvação e da consecução da soberania de Deus em relação ao seu plano preestabelecido para salvação, o ponto mais alto, mais sublime e necessário é a Obra de Cristo. Por muitos teólogos a Obra de Cristo é considerada como um acidente na história, como se Deus fosse pego de surpresa por esse evento. Contudo, a história demonstra a progressão desse significado, de modo que, fica evidente que a Obra de Cristo a nosso favor é parte integral do Plano de Deus para a Salvação daqueles que fazem parte da Soberana e Amorosa Eleição Incondicional.

A.           Significados

A verdade é que o significado total da morte de Cristo não pode ser resumido em apenas uma ou duas frases. Porém, é igualmente verdade que seu significado central pode e deve estar centrado em algumas idéias fundamentais[2]

A verdade estampada por Ryrie não pode ser contrariada, e sobre essa afirmação é que se sustenta a abordagem sobre o significado da Obra de Cristo. Assim, podemos facilmente considerar quatro significados principais para essa Obra: (1) A morte de Cristo foi em substituição dos pecadores; (2) foi uma redenção para os pecados; (3) uma reconciliação do homem para com Deus; (4) e uma propiciação pelo pecado.

A Morte de Cristo foi em lugar dos pecadores

Neste ponto é válido recordar algumas verdades: (1) Quando o homem caiu e se afastou de Deus, ficou em débito eterno para com Deus; (2) Contudo, a única maneira de o homem pagar por essa dívida, era sofrendo eternamente a penalidade fixada pela transgressão; (3) É também importante perceber que, o cumprimento dessa penalidade, é o que Deus deveria exigir por uma questão de justiça, e teria exigido, se não tivesse agido com amor e compaixão do pecador.

Assim, nota-se que o homem, por si só não poderia resolver seu problema ou pagar sua dívida diante de Deus, a não ser que um substituto fosse providenciado, o que está fora do alcance do homem conseguir. Contudo, está dentro do Plano Histórico de Deus conceder esse Substituto. Isso é observado desde Gn.3.15, como já observamos. E, de fato, Deus designou um substituto na pessoa de Jesus Cristo para tomar o lugar do homem, e este substituto expiou o pecado e obteve eterna redenção para o homem.

Essa atividade, dentro da Teologia, é chamada de “Expiação Vicária“, que pode ser entendida como “Substituição Penal“. E não é sem provas que se admite essa realidade, pois “a Bíblia certamente ensina que os sofrimentos e a morte de Cristo foram vicários, e vicários no sentido mais estrito da palavra, que Ele tomou o lugar dos pecadores, e que a culpa deles lhes foi imputada e a punição que mereciam foi transferida para Ele[3]” [Lv.1.2-4; 16.20-22; 17.11; Is.53.6, 12; Mt.20.28; Mc.10.45; Jo.1.29; 11.50; Rm.5.6-8; 8.32; 2Co.5.14, 15, 21; Gl.2.20; 3.13; 1Tm.2.6; Hb.9.28; 1Pe.2.24[4]].

Assim, uma definição simples com relação a esse aspecto da Obra de Cristo pode ser assim anunciada: “Cristo é o substituto proposto legalmente por Deus para assumir o débito moral do homem em seu lugar, de modo que pôde providenciar um benefício eterno para este, para que o homem não tivesse mais que suportar o fardo da condenação do pecado”. Nosso texto base é obviamente 2Co.5.14, 15, 21:

Pois o amor de Cristo nos compele, julgando nós isto: Ele morreu em lugar de todos, logo todos morreram. E ele morreu em lugar de todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que em benefício deles morreu e ressuscitou. Aquele que não conheceu o pecado, fez-se pecado em nosso lugar, para que fossemos feitos justiça de Deus.

A Morte de Cristo foi para Redenção dos Pecados

A redenção é um aspecto da morte de Cristo sobre a cruz, que é ligado ao pecado e restrito em seu significado. Como substituição tem o sentido de assumir a culpa, a redenção tem sentido de pagar essa culpa assumida. Ou seja, a redenção é aplicada no que diz respeito ao pecado e o débito que ele causa, que pode apenas ser pago com sangue (Hb.9.22 cf. Lv.17.11). Logo, para que o preço de pecado pudesse ser pago, era necessário derramamento de sangue de um Cordeiro sem máculas. Essa era exigência colocada na história da redenção, que tem seu significado completo em Cristo (Jo.1.29; cf. Is.53.9; 1Pe.2.21-22).

No Antigo Testamento podemos perceber que o sentido de redenção é aplicado, não somente a pessoas, mas também a posses, como terras e animais (Lv.25.25, 47, 48). A idéia expressa nesse contexto é de prover liberdade através do pagamento de um resgate.

Um ponto interessante no VT é que existe a idéia de um Redentor-Parente, como no caso de Boás, que foi o redentor parente da Família de  Noemi em benefício de Rute (Rt.3.9; cf. Os.3.15; Is.43.3, 10-14). É possível que isso tenha implicações com a Obra de Cristo, como se Ele, como homem que é, fosse o Redentor da Raça humana. Segundo Chafer, esse aspecto “é uma exigência básica que o Filho de Deus trouxe do céu para a terra e tornou necessária a encarnação para Ele pudesse ser um perfeito Redentor-parente[5]”.

Em Ex.21-1-6 (cf. Dt.15.15-17), podemos perceber que no VT um escravo tinha vida de serviço de 6 anos, sendo que no sétimo ele deveria ser solto. Contudo, se este entrasse solteiro para servir seu senhor, e este lhe desse uma esposa, quando ele saísse deveria deixar a esposa e os filhos que tivesse com ela. Contudo, se ele amasse sua esposa, seus filhos e seu senhor, ele voluntariamente aceitaria servi-lo até sua morte. Ou seja:

Um escravo liberto por seu senhor era totalmente livre; mas ele podia voluntariamente permanecer com seu senhor, a quem ele amava.

Alguns textos que testemunham as verdades acima anunciadas: [Ex.13.12; 21.28; 30.12; Nm.18.15-17; Sl.130.8; Is.59.20]

No NT podemos ressaltar três vocábulos que auxiliam a compreensão dessa verdade: avgora,xw( lutro,w e peripoioumai:

avgora,xw: A idéia expressa por esse vocábulo é de comprar (Mt.13.44, 46; 14.15; Mc.6.36; Lc.9.13; cf. LXX Gn.41.57, 42.5, 7; Dt.2.6) Este vocábulo é aplicado à soteriologia neotestamentária de maneira interessante. Observe o texto de 1Co.6.20: “Por que fostes comprados por preço” (cf. 1Co.7.23). A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2.1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1Co.6.19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “evx”, formando o vocábulo “evxavgora,xw”. Em Gl.3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “evx” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra.

lutro,w: É um termo muito utilizado no NT e significa basicamente que o redimido é desatado e liberto. Mas isso ocorre apenas quando é recebido o pagamento do preço do resgate. Assim, por meio do pagamento, o redimido é desatado e está livre. Mt.20.28 testemunha esse fato: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. LXX: Ex.30.11-16; Lv.25.31, 32; Nm.2.46-51; NT: Lc.1.68; 2.38; 24.21; Tt.2.14; Hb.9.12; 1Pe.1.18,19). Neste caso, como com “avgora,xw”, é possível encontrar o termo preposicionado: “avpolutrw,sij”. Seu significado é basicamente redenção, seguindo mesmo rumo do verbo em pauta (Lc.21.28; Rm.8.23; Ef.4.30 – prisma escatológico; Rm.3.24; Ef.1.7, 14; Cl.1.14; Hb.9.14 – prisma de libertação de incrédulos; 1Co.1.30 – sentido geral).

peripoioumai: Esse vocábulo ocorre apenas uma vez, e é aplicado ao Sacrifício de Cristo: At.20.28.

Portanto, deve ser observado que a doutrina da redenção mostrada pelo NT é um cumprimento completo da verdade mostrada em sombras no AT, de que há um sentido em que o preço é pago, mas o escravo não é necessariamente liberto  (que é o estado de todos por quem Cristo morreu que ainda não são salvos) e que, por uma realização mais profunda e abundante da redenção, o escravo pode ser solto e liberto (que é o estado de todos que são salvos). A relação dos não salvos com a verdade de que, pela sua morte, Cristo pagou o preço do resgate, é crer no que está declarado como verdadeiro. A relação dos salvos com a verdade de que, por sua morte, Cristo liberta, é reconhecer essa liberdade maravilhosa e, então, pela rendição de si mesmo, tornarem-se escravos voluntários do redentor.

Se Cristo deu sua vida por mim, o mínimo que posso fazer é dar a minha a ele.

A Morte de Cristo foi para reconciliar o Mundo Consigo

A idéia de reconciliação é completamente neotestamentária, e só pode ser real por meio da Obra de Cristo. A reconciliação é necessária pelo fato de que o homem sem salvação vive em uma relação de inimizade e hostilidade com Deus (Rm.5.9, 10;  cf. 2Co.5), e, como inimigos de Deus está plenamente passível de sofrer a manifestação de Sua Ira. Contudo, o cenário não assim deixado, pois vemos que Deus propõe uma resolução para esse problema por meio da morte do Senhor Jesus (Rm.5.10). Assim, fomos aproximados a Deus, pois Cristo mudou completamente nosso estado anterior de inimizade e substituiu por um de Justiça e de completa harmonia com Deus (2Co.5.18-20).

[Rm.5.10; 11.15; 2Co.5.18-21; Ef.2.16; Cl.1.20-21

A Morte de Cristo foi para Satisfazer a Ira de Deus pelo Pecado

Como já foi demonstrado anteriormente, Deus demonstra sua Justa Ira para com o pecado (Jo.3.36; Rm.1.18-32; Ef.2.3; 1Ts.2.16; Ap.6.16; 14.10, 19; 15.1, 7; 16.1; 19.15), de forma que, qualquer que seja a atitude desse Deus absolutamente Santo contra o pecado, é completamente justo e aceitável, pois, devido a seu caráter Santo, não pode deixar impune o mal, nem tão pouco fingir que ele não existe, ou que não tem importância. Por sua Justiça e Santidade deve puni-lo. Contudo, em Cristo é providenciada uma oferta “propiciatória” e assim a Ira de Deus contra o pecado é apaziguada. Logo, pode-se dizer que a Morte de Cristo, além de Substitutiva, Redentora, Reconciliadora, é também Propiciatória, pois satisfaz a Ira de Deus pelo pecado.

Aqui três textos devem ser demonstrados:

Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (1Jo.2.1-2)

[Jesus Cristo] a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm.3.25)

e sobre ela, os querubins de glória, que, com a sua sombra, cobriam o propiciatório. (Hb.9.5a)

Em todos os textos mencionados podemos encontrar formas derivadas do termo grego “i’lasth,rion” (hilastérion), que tem por significado básico “propiciação”. Contudo, no primeiro texto podemos entender o termo como “aquele que propicia” (cf. 1Jo.4.10 – Sobre a questão da abrangência eficiente desse aspecto da salvação). Já no segundo caso a termo denota a idéia de “lugar da propiciação” (cf. LXX: Ex.25.17-22; Lv.16.14.15). Essa idéia é claramente exposta no terceiro texto. Ou seja, Cristo não é apenas a oferta como também o lugar onde se faz a oferta, como sugere os textos citados.

O significado dessa oferta vem desde o VT, e “em qualquer lugar que pudesse estar o propiciatório no Tabernáculo, tipicamente, era para o israelita aquilo que Cristo é, realmente, para o crente e para Deus[6]” (Dt.13.15-17; Jn.3.7-10; Sl.78.38; Is.48.9).

B.            Conseqüências

Diante dos principais significados da Obra de Cristo a nosso favor é necessário demonstrar que tal Obra tem conseqüências diretas àqueles que são beneficiados por ela.

Justificação

A Justificação não é apenas uma das conseqüências da Obra de Cristo a nosso favor, mas um tema doutrinário central na Salvação e fundamental para a essência do cristianismo. Tal importância é expressa pelo próprio vocábulo: “JUSTIFICAR”, que carrega o sentido de declara justo diante de Deus“. Isso não significa que uma pessoa, ao ser declarada justa, seja absolutamente sem falhas ou completamente justa no seu proceder, mas que a partir desse momento ela é Posicionalmente Justa, ou livre de culpa do pecado. “A justificação é o pronunciamento do juiz justo de que o homem em Cristo é justo; mas esta justiça é uma questão de relacionamento, e não de caráter ético[7]”.

A Justificação é um empreendimento do próprio Deus, e aparece como o complemento de Deus na obra da Salvação, é uma declaração de Deus a respeito do cristão de que foi feito para sempre justo e aceitável diante de Deus. Segundo a Confissão de Fé de Westminster “a Justificação é um ato da livre graça de Deus, pela qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos à sua vista, somente pela justiça de Cristo, imputada a nós, e recebida pela fé somente”.

Existe estreita ligação entre a Justificação e a Ressurreição de Cristo, pois a ressurreição de Cristo mostrou que a morte como resultado do pecado de Adão, teve seu poder neutralizado. Se a morte foi vencida, segue-se que a culpa foi removida. Assim, a ressurreição é uma prova ou garantia de que o problema da culpa, geradora da morte, foi resolvido. Ora, a Justificação é o termo que se refere ao livramento da culpa. Daí a relação entre a Ressurreição de Cristo e a Justificação dos cristãos. Tal pensamento tem fundamento evidente em Rm.4.25:

…o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.

Diante dos fatos levantados é notório que existe uma ligação entre a Justificação e a Lei, por conseguinte com um Juiz. Sobre isso não há dúvidas, pois Deus não é apenas o legislador, mas o Justo Juiz (2Tm.4.8; Tg.5.9). Logo, o sentido forense da expressão está completo. Mas é válido demonstrar que, diante do Juiz, o justificado tem acesso pela fé a esta graça (Rm.5.2; 9.30), desfruta de um relacionamento de paz com Deus (Rm.5.1) e implica na demonstração de uma conduta concernente com a Nova Posição (Rm.6.7; Tg.2.24).

Adoção

Como já ficou muito evidente, não existe dignidade suficiente no homem que o faça merecer Tão Graciosa Obra da Salvação. Mas, não há tão maior prova de ausência de mérito senão a expressão “eivj ui’oqesi,an” (para a adoção) em Ef.1.5 (cf. Gl.4.5; Rm.8.15), “por que um filho adotado deve sua posição à graça e não ao direito, e, ainda mais, é trazido ao seio da família, passando a ter os mesmos privilégios e deveres de um filho de nascimento[8]“.

Adoção é uma palavra normalmente utilizada no meio romano. Em uma cerimônia legal, o filho adotado era determinado a todos os direitos de um filho natural. É possível que Paulo tenha emprestado este termo para o empregar eficientemente à salvação. A palavra em pauta, na literatura paulina, “descreve os direitos e privilégios como também a nova posição do crente em Cristo[9]“.

Segundo Hendriksen, a adoção vai ainda um pouco além, pois “ela outorga aos seus recipientes não apenas um novo nome, um novo status legal e uma nova relação familiar, mas também uma nova imagem, a imagem de Cristo (Rm.8.29)[10]“.

J.I Packer afirma que no mundo de Paulo a “adoção era ordinariamente de homens jovens de bom caráter, que se tornavam os herdeiros e mantinham o sobrenome dos ricos sem filhos. Porém, o NT proclama a adoção cortesa de Deus a pessoas de mal caráter para se tornar ‘os herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo’[11]” (Rom. 8:17). Mais uma vez é digno de nota que o adotado não tem qualquer mérito pela escolha do “Adotador”, embora possa desfrutar de todos os benefícios e, principalmente, responsabilidades de um filho natural, pois a “soberania divina  exclui com eficácia qualquer mérito[12]“.

Paulo ensina que o presente de justificação (i.e., aceitação presente por Deus como o Juiz do mundo) traz com isto o estado de filho por adoção (i.e., intimidade permanente com Deus como o Pai divino da pessoa, Gl. 3:26; 4:4-7).   Justificação é a bênção básica na qual adoção é fundada; adoção é a bênção de coroamento para a qual justificação é direcionada. O status de adotado pertence a todos que recebem o Cristo (Jo.1:12). Agora, os crentes estão debaixo do cuidado paternal de Deus e de sua disciplina (Mat.6:26; Hb.12:5-11) e é dirigido, especialmente por Jesus, a viver suas vidas levando em conta o reconhecimento de que Deus é seu Pai celestial. .

Adoção e regeneração acompanham um ao outro como dois aspectos da salvação que o Cristo traz (Jo.1:12-13), mas eles serão distinguidos. Adoção é o favor de uma relação, enquanto regeneração é a transformação de nossa natureza moral. Ainda a ligação é evidente; Deus quer as crianças dele quem ele ama, agüentar o caráter dele, e entra em ação adequadamente.


Santificação

Santificação, segundo o  Catecismo Menor de Westminster (Q.35), é “a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão.” O conceito não é que o pecado é totalmente erradicado ou completamente controlado, mas de uma divina mudança de disposições, virtudes, hábitos pecaminosos e caráter, forjados nos moldes de Cristo.

Santificação é uma transformação contínua dentro de uma consagração mantida, e gera real retidão. Por “santo” entende-se aqui como um portador de uma verdadeira semelhança com Deus. Santificação é o estado de ser separado permanentemente para Deus, e aflora desde a cruz, onde Deus, em Cristo, nos comprou e nos conduziu para Ele (At.20:28; 26:18; Hb.10:10). Santificação implica em renovação moral (Rm.8:13; 12:1-2; 1Co.6:11, 19-20; 2Co.3:18; Ef.4:22-24; 1Ts.5:23; 2Ts.2:13; Hb.13:20-21).

A Santificação é a continuação do que foi iniciado na salvação, quando uma novidade de vida foi conferida ao crente e sobre ele instalada. Contudo, é importante saber que a palavra santificação possui dois significados básicos: (1) é uma característica formal de um grupo de pessoas salvas (1Co.1.2; Ef.2.19; 1Pe.2.9); (2) é uma qualidade moral almejável e conseqüência do significado anterior. Assim, os cristãos são Santos, diante de Deus, mas buscam a Santidade em suas vidas.

O conceito correto de Santificação repousa sobre uma tensão muito grande: É uma obra da graça de Deus, mas exige busca pessoal do cristão. Uma ênfase demasiada no primeiro lado dessa tensão, conclui-se que a Santificação é passiva. Da mesma sorte, uma ênfase demasiada no segundo lado dessa tensão, a Santificação passa a ser encarada com um grau meritório, e fruto apenas do esforço humano, o que é impossível. Por isso, deve-se admitir que a santificação é uma obra sobrenatural (1Ts.5.23; cf. Ef.5.26; Tt.2.14; Hb.13.20, 21) da qual o cristão participa ativamente (Gl.5.16, 25; Fp.2.12, 13; Rm.8.13; 12.1, 2, 9, 16, 17). Embora a santificação seja exclusivamente de Deus, o crente é constantemente exortado a trabalhar e crescer nas questões que dizem respeito à salvação.

Sobre esse assunto, é importante ressaltar que a Santificação tem alvo claro: Semelhança com Cristo (Rm.8.29); e é encarada com um progresso, que se inicia na salvação e dura toda a vida do homem.

Perseverança

Diante do que já foi anunciado uma pergunta precisa ser feita: “Aquele que foi justificado, adotado, santificado persistirá para sempre neste estado?”. Ou melhor: “Será um cristão sempre um cristão?”. Ou ainda: “Existe possibilidade de se perder a salvação?”.

Historicamente a resposta para a questão em pauta sempre correu para dois lados distintos: o sim (arminianos)  e o não (calvinistas). Diante da lógica é obvio que aquele que é recipiente da salvação, que é iniciada e perfeita por Deus, permanecerá salvo pela graça de Deus. Contudo, não é a mera lógica que sustenta o fato da Perseverança dos Santos, pois existe grande número de evidências bíblicas que testemunham a favor da indestrutibilidade da salvação. 1Pe.1.3-5 é um exemplo desses:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.

Romanos 8.38-39 também testemunha esse fato:

Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

O próprio Cristo testemunhou essa verdade quando falou que aqueles que o Pai lhe dá, irá até ele e Ele de modo nenhum os jogará fora (Jo.6.37). Neste mesmo trecho é anunciado por Ele que a vontade de Deus Pai é que todo o que crer tenha a vida eterna e seja ressuscitado por Ele no último dia (v.39, 40, 44; cf. Jo.10.27-30).

Assim, nota-se que Cristo não apenas nos concede vida eterna e nos abandona em nosso próprio esforço, mas antes, a obra que foi por Ele iniciada em nós continua até ser completada (Fp.1.6). Paulo testemunha essa fato quando diz: “Não me envergonho, por que sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar meu tesouro até o dia final” (2Tm.1.12).

Em Efésios 2, o conceito correto da salvação é exposto, e no v.4 nota-se que aquele que é salvo é feito assentar nas regiões celestiais com Cristo. Assim, como este poderia ser retirado de onde está, uma vez que tal atividade é realizada a semelhança da experiência de Cristo, testemunhada pouco antes (1.20)? Se o cristão pode ser derrubado de sua posição de assentado nas regiões celestiais, o mesmo espera-se de Cristo, o que é ilógico.

Outro detalhe que é comumente esquecido é que a vida eterna é eterna, no sentido de que não tem mais fim. Assim, como alguém que tem uma vida sem fim pode morrer? Dessa forma, podemos crer, diante da clareza das escrituras, que nossa salvação está garantida perante Deus.

Glorificação

A Glorificação é a confirmação dessa certeza obtida pela doutrina da Perseverança dos Santos. A Glorificação é o estágio final da salvação e é aplicado a todos os salvos incondicionalmente.  Essa doutrina impulsiona a Perseverança no texto de Rm.8.28, 30:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Se analisado com cautela o texto, notar-se-á que todos os verbos relacionados a Salvação são ativos e reportam para uma atividade realizada por completo no passado: Conheceu, Predestinou, Chamou, Justificou, Glorificou. Ou seja, aquele que é salvo, já era conhecido por Deus e predestinado por ele para a salvação, mesmo que ainda seria chamado, justificado e glorificado. O que nota-se com clareza aqui é que Deus, quando resolveu conceder salvação eterna aos homens ele o fez de maneira completa. Logo, aquele que já foi Predestinado para salvação, já está Glorificado, mesmo que isso seja um evento futuro.

Fim da Lei

Com relação à Lei e a sua validade, é necessário ter muita cautela em fazer uma afirmação, pois o tema é delicado e tem implicações muito complexas para a práxis cristã e para uma teologia saudável. Anunciar o Fim da Lei em Cristo, não é uma questão de dizer que ela não tem mais validade, ou que em Cristo não se necessita mais dela. Portanto, é necessário compreender a expressão: “te,loj ga.r no,mou Cristo.j” (télos gar nomou Cristós: Por que o fim da Lei é Cristo, Rm.10.4).

A mesma palavra grega utilizada para “fim” em Rm.10.4, é utilizada em Rm.6.21-22, como se lê: “Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna”. Ou seja, se Cristo é o fim (télos) da Lei, pode-se dizer que Cristo é o alvo final da Lei. Logo, pode-se dizer que a primeira possibilidade a respeito de Cristo ser o fim da Lei é esta: A Lei teve Cristo por alvo, ou testemunhava a seu favor (Calvino). Por outro lado, o vocábulo ainda pode ser utilizado com o sentido de completar, cumprir, como se lê em Lc.22.37, que diz: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido“. A idéia expressa pelo vocábulo neste texto sugere a idéia de completar ou cumprir, o que pode ser aplicado a Cristo, que veio para cumprir a Lei: “não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt.5.17b). Assim, pode-se afirmar que outra possibilidade é esta: Em Cristo a Lei foi completa ou cumprida, ou teve suas exigências satisfeitas (Hodge).

Contudo, a tônica em Romanos não parece estar voltada para nenhuma dessas possibilidades, antes direcionada para a idéia de que em Cristo, a lei teve seu término. Com essa afirmação concordam Ryrie, John Sttot, F.F Bruce e L.S. Chafer. Ryrie, sobre esse assunto, afirma:

A declaração de Paulo em Romanos 10.4, dizendo que Cristo é o fim da lei, pode ser entendida como término ou propósito. Em outras palavras, ou Cristo terminou com a lei ou o propósito da vinda de Cristo era cumprir a lei. No entanto, término claramente parece ser o significado nesse contexto, por causa do contraste (iniciado em 9.30) entre lei e a justiça de Deus[13].

John Sttot afirma:

Telós pode ter dois significados. Um é “fim” no sentido de alvo, ou “completar algo”, significando que a lei apontava para Cristo e que ele a cumpriu. Ou então poderia significar poderia significar um “fim” no sentido de “terminalidade” ou “conclusão”, indicando que Cristo aboliu a lei. Paulo com certeza se refere a este último sentido[14].

F.F. Bruce diz:

Cristo é a terminação da lei no sentido de que, com Ele, a velha ordem, da qual a lei fazia parte, foi eliminada, para ser substituída pela nova ordem do Espírito[15].

Deve-se ter em mente que as idéias que mencionadas anteriormente, não são de todo excluídas, mas antes não se restringe a elas o significado da Obra de Cristo em relação a Lei. Pois, não se pode se negar que a Lei testemunhou a respeito de Cristo (Jo.12.4; Gl.3.24) ou que em Cristo ela é Satisfeita (Rm.3.29-31). Contudo, não se retira de Rm.10.4 essas idéias. Assim, o que se pode dizer sobre a Obra de Cristo em relação a Lei, é uma das conseqüências dela é o Término da Lei (At.15.10, 24; Rm.3.21, 22; Gl.5.1, 4, 13).


[1] PASCAL, Blaise, Pensamentos

[2] RYRIE, Charles, Teologia Básica. pp.331

[3] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. pp.346

[4] Note a progressão de significado no sentido da Substituição. Observe que nos versículos citados a base encontra-se no VT, mas tem seu significado completo no NT, especificamente na Obra de Cristo em nosso favor (J Ou seja, em favor dos eleitos J).

[5] Idem, pp.95

[6] SCOFIELD, C.I. In: CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistmática. Vol.3, pp.99

[7] LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento. pp. 414

[8] FOULKES, Francis, Efésio, Introdução e Comentário. Mundo Cristão:São Paulo,  pp.41

[9] ENNS, Paul, Moody Handbook of Theology. Moody:Chicago, 1998.

[10] HENDRISKSEN, William, Comentário do Novo Testamento. Casa Presbiteriana:São Paulo, 1992. pp.101

[11] PACKER, J.I, Concise Theology. Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois. 1997

[12] SUPURGEON, C.H., A Soberania de Deus remove a Vanglória. Fé para Hoje, nº10 ano 2001 pp.6 Ed. Fiel.

[13] RYRIE, Charles, Teologia Básica. pp.350

[14] STTOT, John, Romanos. pp. 341

[15] BRUCE, F.F. Romanos, Introdução e Comentário. pp.164-165

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