Saudações – Efésios 1.1-2


“A Saudação de Paulo visa demonstrar sua autoridade como Apóstolo, ratificar a posição dos crentes em Cristo, afirmar Deus como causa primária da Graça e da Paz  e afiançar a Paternidade de Deus”.

Como é comum em um início de carta, Paulo inicia a sua aos efésios de uma maneira natural, pois deixa claro quem é, não simplesmente como escritor, mas como participante do ministério apostólico, e também levanta características destes a quem escreve, demonstrando que a graça e a paz, essência de sua saudação, são da parte de Deus que é nosso Pai e de Jesus Cristo.

1. A saudação de Paulo demonstra quem ele é e a quem escreve

Como demonstrado, a saudação paulina nesta epístola é curta e muito simples, pois apenas apresenta-se, na primeira palavra do texto, como Paulo, ratifica seu ministério e identifica de forma clara seus leitores, não simplesmente referindo-se a uma região, mas à postura destes diante de Deus.

1.1. Paulo se apresenta como Apóstolo

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus

Paulo se apresenta como avpo,stoloj de Cristo Jesus, ou seja, se apresenta como alguém enviado pelo Messias (Cristou/). Assim, Paulo é comissionado para seu ministério pelo próprio Senhor Jesus, o que de certa forma é uma tentativa de demonstrar a autenticidade, bem como autoridade de seu ministério. No que diz respeito a sua autoridade fica evidente pela própria palavra empregada para descrever-se, pois “contém em si um elemento de autoridade concedida e reconhecida por aquele que envia[1]”.

Esse argumento pode ser comprovado pelo fato de que a palavra “avpo,stoloj” é utilizada nos evangelhos designar aqueles que estavam com Jesus, que foram eleitos por Ele para o acompanharem e que foram enviados por Ele (cf. Mt.10.2-5; Lc.6.13; Lc.11.49). Já em Atos pode-se notar que a referida palavra tem seu significado estendido, sendo atribuída àqueles que têm autoridade para ministrar, são ligados diretamente a Jesus (At.1.26; 2.37, 43; 4.33, 35-37; 5.12, 29), tem autoridade doutrinária (At.2.42), tem autoridade conciliar (At.15.2, 4, 6, 22-23)  e são escolhidos pelo próprio Senhor Jesus (At.1.2).

Em Atos 9.27, Paulo é apresentado por Barnabé aos Apóstolos de Jerusalém como alguém convertido, embora a princípio eles não acreditassem. Pouco à frente Paulo e Barnabé são reconhecidos por Lucas como Apóstolos (At.14.14). Assim, esse título que traz em si um conteúdo de Autoridade é colocado sobre Paulo, que também utiliza este termo em suas cartas.

Paulo utiliza a palavra avpo,stoloj em autoreferência em outras saudações iniciais das suas epístolas (cf. Rm1.1; 1Co.1.1; 2Co.1.1; Gl.1.1; Cl.1.1; 1Tm.1.1; 2Tm1.1; Tt.1.1), mas a de Efésios é muito semelhante a de 1Coríntios que afirma: “Pau/loj klhto.j avpo,stoloj Cristou/ VIhsou/ dia. qelh,matoj qeou/” (1Co.1.1a). Assim fica evidente que Paulo é chamado para ser apóstolo pela vontade de Deus, e não por auto-sugestão, ou imposição dos outros apóstolos. E isso , segundo John MacArthur, implica em dizer que “a credencial de Paulo aqui não é seu treinamento acadêmico ou sua liderança rabinica, mas o fato de ser um apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus[2]”.

Contudo, a utilização da preposição “dia” pode dar muitos significados à expressão, entretanto a opção de tradução mais plausível é “pela vontade de Deus“, mas não somente como motivo ou razão, mas como um marcador de instrumentalidade, pelo qual o apostolado de Paulo pôde ser concedido e realizado.

Logo, na saudação epistolar de Efésios existe um reconhecimento secundário no que diz respeito à auto-apresentação de Paulo, pois ele tem em mente reforçar a autoridade do seu ministério que é viabilizado pela vontade de Deus, e não dele por meio de sua própria vontade ou de outras pessoas.

1.2. Paulo Apresenta os Efésios como santos e fiéis em Cristo

aos santos e fiéis em Cristo Jesus que vivem [em Éfeso],

Os destinatários da carta que Paulo escreve são claramente identificados como moradores da cidade de Éfeso (toi/j ou=sin Îevn VEfe,sw|Ð – O verbo grego “toi/j ou=sin” está no Dativo, Masculino, Singular, Presente do Particípio Ativo de “eivmi,”, sendo melhor traduzido como um Particípio Substantivo, pelo fato de que tem artigo em concordância, mas não tem um substantivo). Entretanto, é também notório que Paulo oferece qualidades a estes, como “a[gioj” (“santos”) e “pistoi/j evn Cristw/| VIhsou/” (Discussão sobre a ausência ou inclusão do termo [em Éfeso], ver Questões Introdutórias e Apêndice 1).

Entrementes, a primeira dessas duas características parece estar ligada ao caráter destes, pois o adjetivo santo, muitas vezes no Novo Testamento é atribuído ao alvo moral da vida Cristã (cf. Rm.1.7; 12.1; 1Co.1.2; 7.34; Cl.1.22). Note que esta palavra é utilizada por Paulo em Efésios com esse sentido. Em Ef.1.4 nota-se que existe um propósito para a eleição, que é vir a ser santo (Ef.5.27; cf. Rm.1.7; 12.1; 1Co.1.2; 1Co.7.34; Cl.1.22).

Assim a conclusão simples deste argumento seria afirmar que os efésios teriam chegado a um estágio avançado da fé, ou chegado ao alvo final. Contudo, isso seria excluir a grande maioria de texto que falam sobre o assunto, sem contar que estaria completamente em desacordo com o todo das Escrituras. Logo, é razoável procurar entender a afirmação de Paulo no que diz respeito aos efésios.

Em Ef.1.15, pode-se notar a utilização dessa palavra no início da oração de Paulo pelos efésios de uma maneira muito interessante, pois estes têm demonstrado amor por outros santos (kai. th.n avga,phn th.n eivj pa,ntaj tou.j a’gi,ouj ). Segue-se que é provada a existência de mais um povo que tem a mesma nomenclatura.

Pouco à frente Paulo afirma que os efésios são “sumpoli/tai tw/n a’gi,wn” (Ef.2.19), demonstrando que existe um povo que é também conhecido como “oivkei/oi tou/ qeou/” como identificado no mesmo versículo. Mais à frente ainda Paulo afirma a totalidade destes, enfatizando que não se restringe apenas aos Efésios (Ef.3.18; cf. 6.18).

Em uma observação mais profunda é possível notar que Paulo utiliza esse termo outras vezes a outros grupos de pessoas (Rm.8.27; 12.13; 15.25, 31; 16.2, 15; 1Co.6.1; 16.1, 15; 2Co.1.1; 8.4; 9.1; Cl.3.12; Fm.1.5,7) o que indica que Paulo não está enfatizando o caráter deste mas a classe a que pertencem esses. Classe no sentido de categoria de pessoas baseada nas distinções de ordem moral. Isso está em pleno acordo com a colocação de Jonh Sttot sobre o texto, quando afirma que Paulo “não está usando esta palavra para referir-se a alguma elite espiritual dentro da congregação, uma minoria de cristãos excepcionalmente piedosos mas, sim, à totalidade do povo de Deus[3]”.

O que Paulo quer dizer com o termo é que os moradores de Éfeso, a quem escreve, já não fazem mais parte da categoria de gentios ou filhos da desobediência, mas que agora são feitos santos em Cristo, como ele enfatiza outras vezes nesta epístola (Ef.2.1-10; 4,17-19). Logo a ênfase do termo não é referida sobre o aspecto moral dos efésios, mas à posição destes diante de Deus.

Isso pode ser também evidenciado pela próxima expressão utilizada por Paulo para demonstrar quem são esses efésios, que é “pistoi/j evn Cristw/| VIhsou”. O adjetivo “pisto,j”, que neste caso está a qualificar os efésios, tem dois significados básicos. O primeiro deles diz respeito a pessoas que demonstram fidelidade em transações de negócio, ou na execução de comandos, ou na consecução de deveres oficiais.  O outro significado claro da palavra é aquele que crê ou que confia, e no Novo Testamento diz respeito àquele que confia nas promessas de Deus, e é convencido que o Jesus foi ressucitado dos mortos.

Assim, visto as definições possíveis da expressão pode-se concluir que os efésios confiam nas promessas de Deus e estão convencidos da ressureição de Cristo Jesus dentre os mortos, e por esse motivo podem ser denominados santos.

2. A saudação de Paulo tem por base a graça e a paz

A essência da saudação de Paulo nesta epístola é a graça e a paz, que estão presentes em outras saudações. Em sua epístola aos romanos, Paulo utiliza a mesma fórmula para introduzir sua epístola, “ca,rij u’mi/n kai. eivrh,nh avpo. qeou/ patro.j h’mw/n kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/”. Fato idêntico acontece em 1 Coríntios (cf. 1Co.1.3 cf. 2Co.1.2; Gl.1.3; Ef.1.2; Fl.1.2; Fm.1.3). Assim pode-se concluir que esta é uma saudação de Paulo, confirmando a autenticidade da autoria.

Essa “fórmula” utilizada por Paulo, é por vezes alterada, acrescentando algumas palavras, substituindo outras, mas mantendo sempre graça e paz, o que implica em dizer que estes dois elementos são a essência, ou a base, de sua saudação.

2.1. Paulo afirma que a Graça e a Paz são da parte de Deus

Graça e paz a vocês, da parte de Deus

Como observado, esses dois elementos são a base da saudação de Paulo, por isso é importante conhecê-los bem. A palavra “ca,rij” aparece 164 vezes no Novo Testamento, mas Paulo é responsável por 106 destas, sendo que 12 destas se encontram na Epístola aos Efésios. Ou seja, é uma palavra comum no vocabulário de Paulo pelo fato de conhecer o real significado desta palavra, pois, quanto mais se tem consciência  do valor das palavras, mais se conscientiza do emprego delas.

Em documentos gregos antigos, esse substantivo é comumente encontrado, principalmente naqueles que se referem a documentos de registro de herança. Nestes, a palavra é utilizada no sentido de um presente generoso. É válido demonstrar que o substantivo “ca,rij” pode evidenciar uma qualidade que atribua bondade ao objeto de sua definição ou à atitude deste em relação a alguém. Contudo, é importante notar que bondade em português indica uma atividade na qual um indivíduo é amável a alguém, entretanto, o substantivo grego transcende esse significado pois pode ser traduzida como um favor que não se merece, um favor imerecido. Assim a identificação fica clara, a base ou a essência da saudação de Paulo é o favor imerecido da parte de Deus (sobre o termo veja ponto 4.3.1).

A palavra “eivrh,nh” (paz) quando utilizada literalmente vem a significar um estado de paz em sentido oposto a conflito armado, guerra. Figurativamente pode ser traduzida como um acordo entre pessoas (Tg.3.18), em contraste com “diamerismo,j”. Contudo pode ser uma saudação ou adeus correspondendo à palavra hebraica “~Alv'” (shalom): saúde, bem-estar, paz [para você]. Neste introdução epistolar é possível que Paulo esteja utilizando o vocábulo simplesmente como uma saudação, como faziam os judeus.

Assim, é provável que Paulo tenha emprestado um comprimento judaico e acrescido neste a palavra graça para a introdução de suas epístolas, o que demonstra suas raízes e suas mudanças, pois apesar de judeu era um cristão, e como tal reconhecia a graça de Deus.

Mas o ponto mais alto desta saudação se encontra na identificação feita por Paulo, pois esta graça e esta paz não provem dele mesmo, mas da parte de Deus. Esta expressão é muito significativa pois especifica a origem dos elementos que são considerados a base ou a essência de suas Saudações.

2.2. Paulo afirma que a Graça e a Paz são da parte de Cristo

Graça e paz a vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e de Deus nosso Pai

Em uma simples e curta introdução, Paulo demonstra claramente a graciosidade de Deus, bem como sua paternidade sobre nós, como se pode observar no texto grego, “avpo. qeou/ patro.j h’mw/n”. Essa paternidade é  claramente observada na epístola de efésios.

Em Efésios 4.6 nota-se claramente a demonstração de Paulo da existência de um único Deus que é Pai de todos (ei-j qeo.j kai. path.r pa,ntwn).  Em Efésios 5.20, falando sobre conduta cristã, Paulo enfatiza que os cristãos devem dar sempre graças a nosso Deus e Pai (euvcaristou/ntej pa,ntote u’pe.r pa,ntwn […] tw/| qew/| kai. patri,). Em Efésios 6.23, Paulo encerrando sua epístola demonstra novamente essa característica de Deus como Pai (qeou/ patro.j). Assim, pode-se concluir que Paulo faz referência a mais um atributo de Deus, a paternidade.

Contudo, Paulo parece fazer uma identificação entre Cristo e Deus Pai, pois atribui a Cristo a graça e a paz que são a base de sua  saudação. Ou seja, Cristo é tão capaz de prover graça e paz quanto Deus. Isso demonstra a posição Elevada de Cristo, que não é apenas homem, mas é demonstrado como Deus. Logo, Paulo comprova, de maneira indireta a divindade de Cristo.

Porém, aqui surge um problema, pois a frase é, de certa forma, ambígua. Pois é possível fazer duas identificações interesantes neste texto [ca,rij u’mi/n kai. eivrh,nh avpo. qeou/ patro.j h’mw/n kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/]: Pois, a partir de “eivrh,nh” a sentença está no genitivo. Segue-se que é possível dizer que o versículo demonstre a Paternidade de Deus sobre Jesus Cristo. Como se nota na tradução da ARA: “graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”.

Entrementes, pode-se afirmar que a Graça é da parte de Deus, como fica um pouco melhor definido na NVI: “A vocês, graça e paz da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo” e na tradução pessoal: “Graça e paz a vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e de Deus nosso Pai”.

Portanto, dizer que o texto enfatiza a Paternidade de Deus, não é nenhum problema, contudo, contextualmente observa-se que o versículo seguinte faz essa colocação. Assim é mais aceitável esperar que Paulo está enfatizando a divindade do Senhor Jesus Cristo, e não a Paternidade de Deus.


[1] PINTO, Carlos Osvaldo, Análise Exegética de Tito 1.1-2. Material não Publicado.

[2] MACARTHUR, Jonh. Efesians, The MacArthur New Testament Commentary. Moody:Chicago, 1986. pp. 2

[3] STTOT, John R.W. A mensagem de Efésios. ABU:São Paulo, 1994. pp. 6.

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