03.30.09
Lista dos Milagres de Cristo nos Evangelhos
Lista de Milagres no Evangelho de Mateus
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Milagres em Mateus |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura de um Leproso (Mt.8.1-4) Cura do Criado de um Centurião (Mt.8.5-13) Cura da Sogra de Pedro (Mt.8.14-17) Curou um paralítico (Mt.9.1-8) Cura de uma mulher com hemorragia (Mt.9.20-22) Cura da filha do Chefe (Jairo) (Mt.9.23-26) Cura dos Cegos (Mt.9.27-31) Cura do homem de mão ressequida (Mt.12.10-13) Cura do filho lunático (Mt.17.14-18) Cura de dois cegos (Mt.20.29-34)
Natureza Acalmou a Tempestade (Mt.8.23-27) Multiplicação dos pães (Mt.14.14-21) Andou sobre o mar (Mt.14.22-32) Multiplicação dos Pães (Mt.15.32-39) Dinheiro do Imposto (Mt.17.24-27) Maldição da Figueira (Mt.21.18-22)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Expulsou demônios (Mt.8.28-34) Libertação de um Endemoninhado (Mt.9.32-33) Libertação da Filha da Cananéia (Mt.15.21-28)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Thaumázo/ Exístemi – Admiração; Maravilhamento.
REAÇÕES ANTERIORES Adoração (Mt.8.1; 9.18) Implorar (Mt.8.5; 9.27; 15.22-27) Medo (Mt.8.24) Riam-se dele (Mt.9.24) Reconhecimento da Messianidade (Mt.9.27; 15.22; 20.30) Reconhecimento da Divindade (Mt.8.1; 9.18; 15.22, 25; 20.30)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Maravilharam-se (Mt.8.27; 15.31; 21.15) Temor (Mt.9.8) Glorificaram a Deus (Mt.9.8; 15.31) Fama espalhada (Mt.9.26; 31) Admiração (Mt.9.33, 12.23; 21.20) Adoração (Mt.14.22) Reconhecimento da Divindade (Mt.14.22)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Expulsão da Cidade (Mt.8.34) Acusado de Blasfêmia (Mt.9.3) Murmuração (Mt.9.34; 12.24) Conspiraram contra ele (Mt.12.14) Indignação (Mt.21.16) |
Lista de Milagres no Evangelho de Marcos
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Milagres em Marcos |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (1.29-31) Cura de um Leproso (1.40-45) Cura de um paralítico (2.3-12) Cura de um homem de mão ressequida (3.1-5) Cura da mulher com hemorragia (5.25-34) Ressurreição da Filha de Jairo (5.22-24; 35-43) Cura da mulher siro-fenícia (7.24.30) Cura do surdo-gago (7.31-37) Cura de um cego (8.22-26) Cura do cego Bartimeu (Mc.10.46-52)
Natureza Acalmou a tempestade (Mc.4.35-41) Multiplicação dos Pães (6.34-44) Caminhou sobre as Águas (6.45-52) Multiplicação dos Pães (8.1-9) Figueira Amaldiçoada (11.12-14)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na Sinagoga (1.23-28) Libertação dos demônios gadarenos (5.1-20) Libertação de um endemoninhado (9.14-29)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Exístemi/ Thaubémai/ Thaumázo/Ekpléssomai – Admiração Maravilhamento
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento da Divindade (1.24; 5.7) Reconhecimento da Messianidade (10.47, 48) Rogar/Suplicar (1.40; 5.23; 7.26; 8.22) Adoração (1.40; 5.6, 22; 7.25) Fé (2.5; 5.23, 28, 36; 9.24) Emboscada (3.2) Medo (4.38; 6.49, 50) Riam-se (5.40) Incredulidade (6.37; 8.4; 9.22)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (1.27; 2.12; 5.20; 5.42; 6.51; 7.37) Reconhecimento da Autoridade (1.27) Fama espalhada (1.28; 1.45; 5.20; 7.36) Passou a servi-los (1.31) Glória a Deus (2.12) Temor (4.41; 5.15, 33) Adoração (5.33)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (2.6-7) Conspiração de Assassinato (3.5) Expulso de Cafarnaum (5.17) |
Lista de Milagres no Evangelho de Lucas
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Milagres em Lucas |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (4.38-39) Cura de um leproso (5.12-16) Cura de um paralítico (5.18-26) Cura do homem de mão ressequida (6.6-10) Cura do servo do Centurião (7.1-10) Ressurreição do filho da viúva (7.11-15) Cura da mulher com fluxo de Sangue (8.43-48) Ressurreição da filha de Lázaro (8.41-42; 49-56) Cura de uma paralítica (13.10-17) Cura de homem hidrópico (14.1-6) Cura de 10 leprosos (17.11-19) Cura de um cego (18.35-43) Restauração da Orelha de Malco (22.49-51)
Natureza Primeira pesca maravilhosa (5.1-11) Acalmou a Tempestade (8.22-25) Multiplicação dos Pães (9.12-17)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na sinagoga (4.31-36) Libertação dos demônios gadarenos (8.26-27) Libertação de um endemoninhado (9.38-42) Cura de um endemoninhado cego e mudo (11.14)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento de Divindade (4.34; 7.6-7; 8.28) Reconhecimento de Messianidade (18.38-39) Adoração (5.12) Certeza (5.12) Fé (5.20; 8.48; 8.50; 17.19; 18.42) Emboscada (6.7) Medo (8.24) Súplica (8.41; 9.38) Risos (8.53)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (4.36; 5.9; 8.25; 9.43; 11.14) Alegria (13.17) Fama espalhada (4.37; 5.15; 7.17; 8.39) Servir (4.39; 5.11) Reconhecimento de Divindade (5.8) Glória a Deus (5.25-26; 7.16; 13.13; 17.15; 18.43) Temor (5.26; 7.16; 8.25; 8.35, 37; 8.47)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (5.21) Raiva (6.11; 13.14) Expulsão da Cidade (8.37) Incomodo (11.15; 13.14)
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Lista de Milagres no Evangelho de João
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Milagres em João |
Aspectos Envolvidos |
| Água em Vinho (2.1-11)
Cura do filho de um Oficial (4.46-54) Cura do Paralítico no Tanque de Betesda (5.1-9) Multiplicação dos Pães (6.5-13) Caminhar sobre as águas (6.16-21) Cura de um cego de nascença (9.1-7) Ressurreição de Lázaro (11.17-44) Restauração da orelha de Malco (18.10) Segunda pesca maravilhosa (21.1-11) |
PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Semeion – Sinais, sinais miraculosos; Faneróö – Manifestar; Pisteö – Ter fé; crer; acreditar;
REAÇÕES ANTERIORES Rogar (4.49) Dúvida (5.7; 9.2) Temor (6.19) Fé (11.22; 27) Desconfiança (11.37)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Crer Nele (2.11; 4.50; 9.38; 11.45) Reconhecimento da Messianidade (6.14-15; 9.38) Reconhecimento de Divindade (9.38)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATIVAS Perseguição (5.16) Procuravam matá-lo (5.18; 11.53) Dúvida (9.8-9) Inquisição (9.13-34) Incredulidade (9.18) Rejeição (9.24) Fofoca (11.46) Medo (11.48) |
Milagre de Cristo nos Evangélhos Sinóticos
Nos sinóticos, ainda que ênfases parecidas com a do quarto evangelho possam ser levantadas, é bem possível que o foco recaia sobre outros aspectos. O modo como são narrados os milagres nos sinóticos também apontam para um foco distinto em cada ocasião: ora os milagres são apenas mencionados genericamente sem descrição de detalhes (Mt.4.24; 8.16; 12.15; 14.14; 15.30; 21.14; Mc.1.34; 6.5; Lc.7.21; 9.42; 14.4; 22.51) , ora são completos e cheios de informação (Mt.9.32-39; Mc.2.3-12; 5.18-26). O que se pode concluir disto é que os autores arranjam os milagres para apresentação de propósitos específicos sem fazer demérito de uma ação em relação a outras, mas para fortalecer o que se pretende enfatizar.
Diante da grande diversidade de milagres operados por Cristo e narrados nos evangelhos sinóticos, faço aqui uma observação da linguagem de como se apresentam (de modo geral) os milagres de Cristo. O primeiro termo que destaco é dunamis[6], que eventualmente é traduzido como poder miraculoso (Mt.13.54; cf. 14.2). A idéia do termo é de algo que tem poder ou que o apresenta poderosamente, e comumente é relacionada com as atividades de Cristo. Essa demonstração de poder causa nas pessoas (não em todos os casos nem em todas as pessoas) um maravilhamento, admiração (gr. Exístemi/Thaubémai/Thaumázo/Ekpléssomai) pelo que tinham visto (Mt.8.27; 9.33; Mc.1.27; 5.42; Lc.4.36; 5.9). O termo mais usado para demonstrar essa admiração é thaumázo, que pode ser entendido como ser extraordinariamente impressionado ou perturbado por algo. Em alguns casos esse maravilhamento é seguido por um ato de glorificar a Deus (Mt.9.8; 15.31; Mc.2.12; Lc.5.25-26; 7.16). O ato de glorificar a Deus podia ser feito pela multidão que assistia o milagre ou pelo que recebera o milagre, mas de qualquer forma, era um modo de reconhecer a origem do ato milagroso que acontecera.
Entretanto, outro elemento decorrente do maravilhamento das multidões, e fundamental para a compreensão de Cristo nos sinóticos, é o Poder-Autoridade que é confirmado por meio de atos milagrosos. O termo grego que traduz essa idéia é exousia. Esse termo pode ser usado para descrever cargos de autoridade, o poder da pessoa que exerce tal cargo e a autoridade decorrida desse poder. Essa é uma marca muito interessante nos evangelhos sinóticos, pois não é incomum encontrarmos esse conceito. Quando os evangelistas registram o apreço das multidões pelo ensino de Cristo esse reconhecimento está invariavelmente presente (Mt.7.29; Mc.1.22; Lc.4.32). O mesmo reconhecimento é visto em relação aos atos milagrosos de Cristo.
Mateus quando narra a história da cura de um paralítico (Mt.9.1-8) afirma que Jesus o tendo visto teria dito: “Tende bom ânimo filho; estão perdoados os seus pecados” (v.2). Mas isso teria incitado nos fariseus um sentimento de rejeição sobre o que Cristo teria dito; na mentalidade deles isso era apenas possível de ser realizado por Deus, por isso o acusavam de blasfêmia. Sabendo disso, Jesus resolve evidenciar seu Poder-Autoridade (gr. exousia) ao curá-lo: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (v.6). O resultado obtido nessa ocasião foi: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens” (v.8).
Nessa caso[7] vemos quase todos os elementos encontrados nas narrativas dos sinóticos: O evento milagroso, o maravilhamento, a Glória dada a Deus e o reconhecimento do Poder-Autoridade que Cristo tinha. É bem verdade que alguns dos aspectos desse quadro eventualmente é faltoso em outros registros, muito embora, o reconhecimento ou a pergunta pelo reconhecimento do Poder-Autoridade de Cristo estivessem aparentes em quase todo ministério de Cristo: Os fariseus demonstram sua preocupação com a fonte do Poder-Autoridade de Cristo (Mt.21.23; Mc.11.28; Lc.20.2); as multidões ficavam, ora maravilhadas (Mt.9.8) ora temerosos ou com dúvidas (Mc.1.27; Lc.4.36). Mas, Cristo, sempre estava consciente de Sua Missão, Identidade e Seu Poder-Autoridade (Mt.28.19), e essa mesma missão delega a Seus discípulos, enquanto estava com eles (Mt.10.1; Mc.6.7; Lc.9.1). Após sua ressurreição além de delegar a Seus representantes que fizessem o mesmo Ele assegura que estará com Eles até o fim dos tempos (Mt.28.20).
Após essa breve introdução ao estudo dos milagres de Cristo nos sinóticos, passo abaixo a destacar duas categorias e duas características dos milagres narrados nos evangelhos sinóticos.
Poder-Autoridade sobre o Natural
Quando falo sobre o poder que Cristo tem sobre o que é natural tenho duas perspectivas distintas em mente: o poder que Ele tem sobre o homem (saúde, vida) e sobre a natureza (funcionamento).
- § Sobre o Homem[8]: Uma das grandes marcas do ministério milagroso de Cristo está focado nos sinóticos em sua capacidade de ter domínio, controle, autoridade, poder sobre a saúde do homem. A grande maioria dos milagres nos sinóticos refere-se a esse tema. No caso da cura de um leproso (Mt.8.1-4; Mc.1.40-45; Lc. 5.12-16) podemos notar na narração dos três evangelistas que mesmo o leproso tinha convicção do Poder-Autoridade que Cristo tem sobre a doença, pois na aproximação que faz Cristo ele transparece confiança no poder, mas sua questão põe-se sobre a vontade do Senhor, ante quem está prostrado. Sobre esse tema é interessante notar que Cristo também é apresentado como Aquele que pode tornar à vida aquele que já estava morto. Dois casos são registrados nos sinóticos: A ressurreição da filha de Jairo (Mc.5.22-24; 35-43; Lc.8.41-42; 49-56) e a ressurreição do filho de uma viúva (Lc.7.11-15). No caso da filha de Jairo, é bem interessante que Jairo aproxima-se de Cristo como se aproximaria de alguém que tem autoridade: “vendo-o, prostrou-se a seus pés” (Mc.5.22; Lc.8.41). No ato de prostrar-se perante alguém é um modo de reconhecimento de Autoridade ou Divindade. Seria um pouco precipitado dizer que Jairo tinha a perspectiva da divindade de Cristo, mas sua ação nos deixa pensar nessa possibilidade. Seja como for, o desenrolar da história é bem provável que a fé de Jairo estivesse abalada, pois Jesus mesmo sugere: “Não temas, crê somente” (Mc.5.36; Lc.8.50). Não é muito claro que tipo de fé Jesus exige de Jairo nessa ocasião, mas é certo que toda a confiança dele repousava sobre o Poder-Autoridade que Cristo tinha para realizar algo que está contrário ao curso da natureza: dar vida ao morto. Tal pedido parece uma antítese para as pessoas que estavam na casa de Jairo, pois já não podiam acreditar no que Cristo dizia (Mc.5.40; Lc.8.53), quanto mais no que poderia fazer. Com a cura da menina, o maravilhamento toma conta dos pais que são convidados por Cristo para manter o relato entre eles. Se tomarmos a história como um todo, podemos dizer que a fé de Jairo repousou em Cristo e com a confirmação do milagre tal fé fora confirmada. Considerados esses pontos, podemos dizer com certeza que a relação de Cristo com a operação de milagres sobre as doenças tem por propósito evidenciar Seu Poder-Autoridade da parte de Deus como ratificação de Sua pessoa (Messias, Deus).
- § Sobre a Natureza: Nos casos em que Cristo manifesta Seu Poder-Autoridade sobre a natureza certamente nos falam sobre Sua Pessoa. No caso da tempestade acalmada (Mt.8.23-27; Mc.4.35-41; Lc.8.22-25) vemos que a pergunta dos discípulos era exatamente sobre Sua Pessoa: “Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt.8.27; Mc.4.41; Lc.8.25). Embora nenhuma conclusão dos seus discípulos seja dada, a pergunta pode ser entendida como retórica, pois ficou evidente que entre os homens, ninguém teria tal poder. Entretanto, quando Cristo anda sobre as águas, segundo o relato de Mateus, fica evidente que os Seus discípulos o reconheceram como Deus: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt.14.33).
Poder-Autoridade sobre Sobrenatural
A relação de Cristo com o sobrenatural tem algumas características interessantes, especialmente no evangelho de Marcos. Segundo a narrativa das memórias petrinas, vemos que os reconhecimentos mais claros sobre a Pessoa de Cristo são oferecidos por demônios. No primeiro caso registrado no evangelho, lemos: “Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc.1.23-24). Situação similar é encontrada no caso dos demônios gadarenos: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc.5.7). É bem interessante que esse reconhecimento demorou a acontecer com os discípulos, a despeito de tudo o que testemunhavam.
É bem verdade que o Poder-Autoridade de Cristo não pode necessariamente apontar para sua Divindade, muito embora os demônios em Marcos assim o tenham feito, por que tal Poder-Autoridade da parte Cristo cedido aos discípulos resultou no mesmo efeito, exceto por uma vez (Mt.17.21; Mc.9.29). Entretanto, não podemos deixar de perguntar por essa possibilidade reconhecida pelos demônios. É bem verdade que a característica fundamental do Diabo e seus seguidores é a mentira e que no caso, nortear uma convicção sobre uma mensagem demoníaca seria um pouco frágil. Contudo, o contexto onde estão inseridas essas passagens demonstram um terrível pavor dos demônios na presença de Jesus e sua súplica para não serem atormentados por Sua Pessoa, nos leva a considerar que o Poder-Autoridade de Cristo no mundo sobrenatural é tão grande que nem mesmo as legiões podem com Ele. A própria submissão dos demônios à ordem de Cristo testificam Seu Poder-Autoridade.
Um dos aspectos que também é interessante é o tempo que Cristo investe nesses encontros. Salvo o caso dos demônios gadarenos, Cristo com apenas uma ordem simples resolve problemas que os tele-evangelistas gastariam dias: “Cala-te e sai desse homem” (Mc.1.25; Lc.4.35). E o resultado na vida do endemoninhado é impressionante: “O demônio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer mal” (Lc.4.35). Contudo, o foco parece ser centrado na mensagem que isso transmite às pessoas que o assistem. Ao testemunharem a ação de Cristo, eles ficam grandemente admirados, e se pergunta,: “Que palavra é esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc.4.36). Assim, o que se pode dizer é que, quando Cristo manifesta seu Poder-Autoridade sobre o sobrenatural Ele testifica sua pessoa como Deus e Senhor sobre tudo.
Milagres e Incredulidade
Outro aspecto que é digno de rápida apresentação é que à semelhança do quarto evangelho, os milagres também exerceram grande papel na rejeição da Pessoa de Cristo. Muito embora existia o forte elemento evangelístico nos atos milagrosos operados por Cristo, nos sinóticos eles também foram mal interpretados: “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt.11.20-24; cf. Lc.10.13-16).
Milagres e confirmação Messiânica
É ainda válido demonstrar que os milagres de Cristo tem grande valor apologético, pois quando perguntado sobre quem Ele era, pelos discípulos de João, Jesus aludiu à profecias messiânicas: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt.11.4-5; cf. Is.35.5; 61.1-2).
Milagres de Cristo no Evangelho de João
O uso quase exclusivo de “semeion” por João ao apresentar os milagres de Cristo evidencia que seu propósito está além do que relatar um caso miraculoso. Ele certamente o faz em caráter teológico, apologético e evangelístico: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Valor Teológico dos Milagres
No que se refere a teologia, João assegura que os milagres registrados atestam que Jesus é o Filho de Deus: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
A designação Filho de Deus, ao contrário do que os arianos modernos (TJ) afirmam atestam a divindade de Cristo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). O uso da expressão unigênito Filho de Deus (gr. tou monogenous uiou tou theou) é uma das formas pelas quais João apresenta Cristo como divino[5], e essa definição é uma exigência para salvação. Ou seja, ainda que as opiniões sobre Cristo fossem divergentes já nessa ocasião, é certo para João que Jesus é Deus. Aliás, a linguagem de João aqui parece trazer a tona uma referência ao gnosticismo incipiente e sua desconexão da pessoa de Cristo Deus Pai (1Tm.1.4).
A designação de Filho assumida por Cristo expressa uma relação familiar com o Deus Pai. Tal ênfase é explicitamente majoritária em João, pois enquanto os sinóticos atestam esse fato em aproximadamente 24 ocasiões, em João encontramos cento e seis vezes. Esse fato é visto desde o prólogo do evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14). João Batista também atesta o mesmo fato: “Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (Jo.1.34).
Uma situação que pode testificar a Pessoa de Cristo como Filho de Deus é encontrada no encontro de Natanael com Cristo (Jo.1.44-51). No exercício de sua onisciência, Jesus demonstra que o que Felipe disse a Seu respeito é verdadeiro, e Natanael afirma: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Ao ouvir isso, Jesus garante que Natanael veria sinais mais evidentes de que Ele o é (Jo.1.50). A cena que segue a esse diálogo nos conta seu primeiro milagre (sinal; gr. semeion), com o qual Ele manifestou sua Glória (Jo.2.11).
Ao ter conhecimento dos atos de Cristo, o próprio Nicodemos atesta: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo.3.2). Esse reconhecimento é fundamental para compreender alguns dos milagres de Cristo narrados em João, como por exemplo a cura do filho do oficial do Rei (Jo.4.46-54). Nessa ocasião, apenas o declara a cura do filho do oficial à distância foi suficiente para que ele fosse curado. O fato de que o texto narra a expressão de pontualidade da cura (v.53) demonstra que Aquele que realizara o Milagre é Filho de Deus. E esse teria sido apenas o seu segundo milagre (sinal; gr. semeion) narrado no evangelho.
Valor Apologético dos Milagres
No que se refere a apologética, João também atesta a Messianidade de Jesus quando o chama de Cristo (ungido, messias): “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Alias, essa ênfase é muito forte na literatura joanina: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo.2.22). A preocupação com a apresentação da Messianidade de Cristo também é vista na reação das pessoas que estavam próximas a Ele. O convite de Felipe a Natanael deixa isso transparecer, quando diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo.1.45). A resposta de Natanael também testifica isso: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (v.49).
Um ato milagroso de Jesus que testifica sua Messianidade é a ressurreição de Lázaro, narrado no capítulo onze do Evangelho de João. Após anunciar a morte de Lázaro (v.11-14), Jesus diz-se alegre de não estar lá na ocasião, pois assim seus discípulos poderiam crer, pois com Lázaro eles se encontrariam (v.15). Ao chegar na casa de Marta e Maria, uma multidão já havia chegado para consolar a família de Lázaro, pois ele já estava morto a quatro dias. Marta, chega a expressar seu lamento pela ausência de Jesus na ocasião, mas reconhece que se Ele pedir ao Pai, seu pedido seria atendido (v.21, 22). Ao ouvir isso, Jesus garante: “Teu irmão há de ressurgir” (v.23). Ainda que Marta não tenha entendido exatamente quando isso aconteceria (v.24), Jesus garante que Ele é a ressurreição e a vida, e que aquele que Nele deposita sua fé, ainda que morra viverá (v.25) e que se estiver vivo não morrerá (v.26). Ao ouvir isso, Marta afirma: “Sim, Senhor, respondeu ela, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (v.27). Quando o milagre ia ser realizado Jesus pronuncia-se ao Pai para que aqueles que o ouvem pudessem crer que Ele é o envidado da parte de Deus (v.42) e isso mesmo acontece com muitos deles (v.45) depois que testemunham o milagre.
Valor Evangelístico dos Milagres
A relação entre a fé e vida eterna é claramente exposta na teologia Joanina. No terceiro capítulo encontramos: “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (v.15); “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v.16); “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (v.36; cf. Jo.5.24; 6.35, 40, 47; 11.25). Essa característica também é bem encontrada na literatura joanina: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo.5.13).
É fundamental ressaltar que tal conceito também é testemunhado pelos milagres (sinais; gr. semeion) realizados por Cristo e registrados por João: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
As ações milagrosas de Cristo têm por motivo apresentar sua Real Pessoa para Seus expectadores; para que compreendam sua Divindade e Messianidade e para que possam depositar sua fé Nele. E isso é visto em vários dos seus milagres: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo.2.11); “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome” (Jo.2.23) “Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa” (4.53); “Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou” (9.38). “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele” (11.45)
Entretanto, assim como seus ensinos seus atos milagrosos estavam sujeitos a avaliação e rejeição. Já no início do seu ministério a incredulidade já estava anunciada: “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome, mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos” (Jo.2.23-24). Em outras ocasiões, o milagre promoveu completa rejeição. No caso da cura da aleijado do tanque de Betesda, por realizar no sábado o milagre, os fariseus passaram a perseguí-lo (Jo.5.16). Tal rejeição torna-se discussão e Jesus deixa clara a opinião dos fariseus a Seu respeito: “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo.5.46-47). No caso da cura do cego de nascença a incredulidade é clarividente, pois pesquisam para saber se aquele que se dizia cego o era de fato: “Não acreditaram [criam] os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais” (Jo.9.18). Outro exemplo interessante desse fato é visto entre os judeus descrentes: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo.12.37). A interpretação que João tem desses fatos é que eles são cumprimento profético: “para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados” (Jo.12.38-40).
Assim, ainda que os milagres tivessem claro papel evangelístico, também funcionaram como problema para a compreensão sobre a verdadeira pessoa de Cristo. Aliás, esse é um dos muito motivos pelos quais a pessoa de Cristo continua sob suspeita.
A Relevância dos Milagres de Cristo para Cristologia do NT
”Milagre é o ato especial de Deus que interrompe o curso natural dos eventos”
Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética. Pp.555
“O termo milagre, segundo ordinária definição, designa um acontecimento que contradiz as leis da natureza. Esta definição e as inúmeras histórias de milagre não verificadas em todas as religiões tornaram o termo enganador e perigoso para o uso teológico”
Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.102
“Faço uso da palavra milagre para indicar uma intervenção na natureza mediante poder sobrenatural. A não ser que exista, em adição à natureza, algo mais que possamos chamar de sobrenatural, não pode haver milagres”
C.S. Lewis, Milagres. Pp.6
“Milagre é um gênero menos comum da atividade divina, pela qual Deus desperta a admiração e o espanto das pessoas, dando testemunho de si mesmo”
Wayne Gruden, Teologia Sistemática. Pp.286
No que se referem ao cristianismo histórico, os milagres operados por Cristo são componentes importantes de sua crença, ainda que nos ambientes mais acadêmicos essa crença tenha sido rejeitada. Há, entre os acadêmicos quem creia que os milagres operados por Cristo nada testemunhem a seu respeito. Por exemplo, Kümmel, quando fala em ações sobrenaturais de Cristo nos evangelhos observa que, ora os relatos miraculosos nada falam sobre Cristo ou seu ensino, ora deixam evidências de sua pessoa e doutrina[1]. Isso o leva a concluir que os relatos narrados sobre Cristo são divergentes em caráter.
Entretanto, esse não é o parecer mais comum sobre eles. Até mesmo Bultmann, aquele que rejeita ‘mitologia‘ do Novo Testamento, confere significado aos atos miraculosos de Jesus quando estuda o quarto evangelho. Para ele os milagres de Cristo revelam sua glória (Jo.2.11), as obras de Deus (Jo.9.3) e sua autenticação como Filho de Deus (11.4). Muito embora ele os considere como figura ou símbolo, Bultmann diz que os milagres “revelam a glória de Jesus, não como a do milagreiro, e sim a daquele através do qual são concedidas a graça e a verdade[2]“.
Mas, o que podemos dizer sobre papel dos milagres de Cristo no entendimento da Cristologia do Novo Testamento? Se tomarmos por base que os milagres atestam Sua divindade, temos que elevar ao mesmo patamar os apóstolos após ele, por que também são registrados milagres operados por Deus mediados por eles. Por outro lado, não podemos descartar essa possibilidade, visto que em alguns dos registros que temos testemunha exatamente esse fato. Por isso, vamos observar as palavras que descrevem os atos milagrosos de Cristo, qualificá-los e então apontarmos sua contribuição.
A. Termos Neo-Testamentários para “Milagre”
São basicamente três os termos usados para descrever ações sobrenaturais no Novo Testamento:
- 1. Téras: O uso neo-testamentário segue a LXX, onde é usado como um sinal divino que admoesta ou encoraja (Ex.7.3; Dt.4.34). Poderia ser traduzido como milagre. No NT o termo é normalmente traduzido como “prodígio” e não é exclusivo à uma ação sobrenatural operada pelo próprio Deus. Esse termo também descreve a ação de falsos profetas que também realizariam obras miraculosas (Mt.24.24; Mc.13.22) e á própria obra de Satanás (2Ts.2.9). Entretanto, o uso mais normal do termo descreve uma ação realizada por Deus por meio de alguém (At.2.22; 4.30 – Cristo; 5.12; 6.8 – Apóstolos) que causa o maravilhamento dos expectadores. Eventualmente expressa uma confirmação da pessoa por meio de quem o milagre é realizado (At.14.3; 15.12; 2Co.12.12). É somente usada no plural no NT e normalmente acompanhada da palavra grega para sinais (gr. semeion).
- 2. Semeion: Na LXX o termo semeion é usado para descrever todo acontecimento que aponta para Deus e sua disposição de auxiliar (Ex.7.3; 10.2; Nm.14.11; Dt.6.22; Sl.86.17). Eventualmente descrevem uma ação de autenticação profética da parte do Deus Todo-Poderoso (Ex.4.8-9; Sl.74.9; Is.8.18). No NT o termo descreve um milagre de origem divina, executado por Deus mesmo (At.2.19), por Cristo (Jo.2.11) ou por um homem de Deus (At.2.43). É um sinal que normalmente aponta para Deus ou ao Seu Filho. É o termos empregado por João para descrever as ações sobrenaturais do Filho de Deus como comprovação de sua Divindade.
- 3. Dunamis: Esse termo é de uso bem variado. Na LXX encontramos o termo com os seguintes significados: habilidade, capacidade (Dt.8.17), força (Dt.6.5), realização (Gn.21.22), ato poderoso (Dt.3.24). De outro modo, também pode significar uma hoste, grupo de pessoas, exército (Ex.7.4; Nm1.3, 24). Esse mesmo termo é usado para descrever os milagres operados por Cristo nos sinóticos. É bem provável que o sentido esteja associado ao poder derivado do termo (Mt.24.30; 5.30; Mc.12.24) e autoridade dele decorrente (Lc.4.36). O exercício de poder de Cristo maravilhava as pessoas (Mt.13.54; Mc.6.2, 14; Lc.6.16) mas não era um modo de convencer as pessoas (Mt.13.58), pois, assim como seu ensino, suas ações estavam sujeitas ao entendimento das pessoas que, mesmo que testemunhassem o poder de Deus, não o entendiam como da parte de Deus (Mt.11.20-24).
Ao observarmos essas colocações podemos concordar com Goppelt quando diz: “Assim, os milagres são compreendidos como exteriorizações do poder de Deus, que provoca salvação na história e que conduz a salvação[3]“. Considerada a questão etimológica, passo a classificar os Milagres de Cristo.
B. Como podem ser Classificados os Milagres de Cristo?
“Os evangelhos registram 35 milagres feitos por Jesus. Mateus menciona 20 deles; Marcos 18; Lucas 20; e João 7. Estes não são, todavia, todos os milagres do Senhor”
Charles Ryrie, Bíblia Anotada. Pp.1663
São muitos os milagres de Jesus registrados nos evangelhos, eles podem ser observados sob focos distintos quando apresentados por autores distintos. Ao que parece, os milagres relatados no quarto evangelho, até pela terminologia que são apresentados, sugerem que os milagres são “sinais” que apontam para a Pessoa de Cristo e sua Relação com Deus. Por outro lado, nos sinóticos parece que os milagres são narrados em conformidade com um propósito particular em cada ocasião. Por isso, de modo sucinto, classifico aqui os milagres de Cristo entre os que são apresentados por João e aqueles que são apresentados nos evangelhos sinóticos[4].
1. Milagres no Quarto Evangelho
O uso quase exclusivo de “semeion” por João ao apresentar os milagres de Cristo evidencia que seu propósito está além do que relatar um caso miraculoso. Ele certamente o faz em caráter teológico, apologético e evangelístico: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Valor Teológico dos Milagres
No que se refere a teologia, João assegura que os milagres registrados atestam que Jesus é o Filho de Deus: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
A designação Filho de Deus, ao contrário do que os arianos modernos (TJ) afirmam atestam a divindade de Cristo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). O uso da expressão unigênito Filho de Deus (gr. tou monogenous uiou tou theou) é uma das formas pelas quais João apresenta Cristo como divino[5], e essa definição é uma exigência para salvação. Ou seja, ainda que as opiniões sobre Cristo fossem divergentes já nessa ocasião, é certo para João que Jesus é Deus. Aliás, a linguagem de João aqui parece trazer a tona uma referência ao gnosticismo incipiente e sua desconexão da pessoa de Cristo Deus Pai (1Tm.1.4).
A designação de Filho assumida por Cristo expressa uma relação familiar com o Deus Pai. Tal ênfase é explicitamente majoritária em João, pois enquanto os sinóticos atestam esse fato em aproximadamente 24 ocasiões, em João encontramos cento e seis vezes. Esse fato é visto desde o prólogo do evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14). João Batista também atesta o mesmo fato: “Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (Jo.1.34).
Uma situação que pode testificar a Pessoa de Cristo como Filho de Deus é encontrada no encontro de Natanael com Cristo (Jo.1.44-51). No exercício de sua onisciência, Jesus demonstra que o que Felipe disse a Seu respeito é verdadeiro, e Natanael afirma: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Ao ouvir isso, Jesus garante que Natanael veria sinais mais evidentes de que Ele o é (Jo.1.50). A cena que segue a esse diálogo nos conta seu primeiro milagre (sinal; gr. semeion), com o qual Ele manifestou sua Glória (Jo.2.11).
Ao ter conhecimento dos atos de Cristo, o próprio Nicodemos atesta: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo.3.2). Esse reconhecimento é fundamental para compreender alguns dos milagres de Cristo narrados em João, como por exemplo a cura do filho do oficial do Rei (Jo.4.46-54). Nessa ocasião, apenas o declara a cura do filho do oficial à distância foi suficiente para que ele fosse curado. O fato de que o texto narra a expressão de pontualidade da cura (v.53) demonstra que Aquele que realizara o Milagre é Filho de Deus. E esse teria sido apenas o seu segundo milagre (sinal; gr. semeion) narrado no evangelho.
Valor Apologético dos Milagres
No que se refere a apologética, João também atesta a Messianidade de Jesus quando o chama de Cristo (ungido, messias): “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Alias, essa ênfase é muito forte na literatura joanina: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo.2.22). A preocupação com a apresentação da Messianidade de Cristo também é vista na reação das pessoas que estavam próximas a Ele. O convite de Felipe a Natanael deixa isso transparecer, quando diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo.1.45). A resposta de Natanael também testifica isso: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (v.49).
Um ato milagroso de Jesus que testifica sua Messianidade é a ressurreição de Lázaro, narrado no capítulo onze do Evangelho de João. Após anunciar a morte de Lázaro (v.11-14), Jesus diz-se alegre de não estar lá na ocasião, pois assim seus discípulos poderiam crer, pois com Lázaro eles se encontrariam (v.15). Ao chegar na casa de Marta e Maria, uma multidão já havia chegado para consolar a família de Lázaro, pois ele já estava morto a quatro dias. Marta, chega a expressar seu lamento pela ausência de Jesus na ocasião, mas reconhece que se Ele pedir ao Pai, seu pedido seria atendido (v.21, 22). Ao ouvir isso, Jesus garante: “Teu irmão há de ressurgir” (v.23). Ainda que Marta não tenha entendido exatamente quando isso aconteceria (v.24), Jesus garante que Ele é a ressurreição e a vida, e que aquele que Nele deposita sua fé, ainda que morra viverá (v.25) e que se estiver vivo não morrerá (v.26). Ao ouvir isso, Marta afirma: “Sim, Senhor, respondeu ela, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (v.27). Quando o milagre ia ser realizado Jesus pronuncia-se ao Pai para que aqueles que o ouvem pudessem crer que Ele é o envidado da parte de Deus (v.42) e isso mesmo acontece com muitos deles (v.45) depois que testemunham o milagre.
Valor Evangelístico dos Milagres
A relação entre a fé e vida eterna é claramente exposta na teologia Joanina. No terceiro capítulo encontramos: “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (v.15); “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v.16); “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (v.36; cf. Jo.5.24; 6.35, 40, 47; 11.25). Essa característica também é bem encontrada na literatura joanina: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo.5.13).
É fundamental ressaltar que tal conceito também é testemunhado pelos milagres (sinais; gr. semeion) realizados por Cristo e registrados por João: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
As ações milagrosas de Cristo têm por motivo apresentar sua Real Pessoa para Seus expectadores; para que compreendam sua Divindade e Messianidade e para que possam depositar sua fé Nele. E isso é visto em vários dos seus milagres: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo.2.11); “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome” (Jo.2.23) “Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa” (4.53); “Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou” (9.38). “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele” (11.45)
Entretanto, assim como seus ensinos seus atos milagrosos estavam sujeitos a avaliação e rejeição. Já no início do seu ministério a incredulidade já estava anunciada: “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome, mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos” (Jo.2.23-24). Em outras ocasiões, o milagre promoveu completa rejeição. No caso da cura da aleijado do tanque de Betesda, por realizar no sábado o milagre, os fariseus passaram a perseguí-lo (Jo.5.16). Tal rejeição torna-se discussão e Jesus deixa clara a opinião dos fariseus a Seu respeito: “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo.5.46-47). No caso da cura do cego de nascença a incredulidade é clarividente, pois pesquisam para saber se aquele que se dizia cego o era de fato: “Não acreditaram [criam] os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais” (Jo.9.18). Outro exemplo interessante desse fato é visto entre os judeus descrentes: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo.12.37). A interpretação que João tem desses fatos é que eles são cumprimento profético: “para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados” (Jo.12.38-40).
Assim, ainda que os milagres tivessem claro papel evangelístico, também funcionaram como problema para a compreensão sobre a verdadeira pessoa de Cristo. Aliás, esse é um dos muito motivos pelos quais a pessoa de Cristo continua sob suspeita.
Lista de Milagres no Evangelho de João
|
Milagres em João |
Aspectos Envolvidos |
| Água em Vinho (2.1-11)
Cura do filho de um Oficial (4.46-54) Cura do Paralítico no Tanque de Betesda (5.1-9) Multiplicação dos Pães (6.5-13) Caminhar sobre as águas (6.16-21) Cura de um cego de nascença (9.1-7) Ressurreição de Lázaro (11.17-44) Restauração da orelha de Malco (18.10) Segunda pesca maravilhosa (21.1-11) |
PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Semeion – Sinais, sinais miraculosos; Faneróö – Manifestar; Pisteö – Ter fé; crer; acreditar;
REAÇÕES ANTERIORES Rogar (4.49) Dúvida (5.7; 9.2) Temor (6.19) Fé (11.22; 27) Desconfiança (11.37)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Crer Nele (2.11; 4.50; 9.38; 11.45) Reconhecimento da Messianidade (6.14-15; 9.38) Reconhecimento de Divindade (9.38)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATIVAS Perseguição (5.16) Procuravam matá-lo (5.18; 11.53) Dúvida (9.8-9) Inquisição (9.13-34) Incredulidade (9.18) Rejeição (9.24) Fofoca (11.46) Medo (11.48) |
2. Milagres nos Evangelhos Sinóticos
Nos sinóticos, ainda que ênfases parecidas com a do quarto evangelho possam ser levantadas, é bem possível que o foco recaia sobre outros aspectos. O modo como são narrados os milagres nos sinóticos também apontam para um foco distinto em cada ocasião: ora os milagres são apenas mencionados genericamente sem descrição de detalhes (Mt.4.24; 8.16; 12.15; 14.14; 15.30; 21.14; Mc.1.34; 6.5; Lc.7.21; 9.42; 14.4; 22.51) , ora são completos e cheios de informação (Mt.9.32-39; Mc.2.3-12; 5.18-26). O que se pode concluir disto é que os autores arranjam os milagres para apresentação de propósitos específicos sem fazer demérito de uma ação em relação a outras, mas para fortalecer o que se pretende enfatizar.
Diante da grande diversidade de milagres operados por Cristo e narrados nos evangelhos sinóticos, faço aqui uma observação da linguagem de como se apresentam (de modo geral) os milagres de Cristo. O primeiro termo que destaco é dunamis[6], que eventualmente é traduzido como poder miraculoso (Mt.13.54; cf. 14.2). A idéia do termo é de algo que tem poder ou que o apresenta poderosamente, e comumente é relacionada com as atividades de Cristo. Essa demonstração de poder causa nas pessoas (não em todos os casos nem em todas as pessoas) um maravilhamento, admiração (gr. Exístemi/Thaubémai/Thaumázo/Ekpléssomai) pelo que tinham visto (Mt.8.27; 9.33; Mc.1.27; 5.42; Lc.4.36; 5.9). O termo mais usado para demonstrar essa admiração é thaumázo, que pode ser entendido como ser extraordinariamente impressionado ou perturbado por algo. Em alguns casos esse maravilhamento é seguido por um ato de glorificar a Deus (Mt.9.8; 15.31; Mc.2.12; Lc.5.25-26; 7.16). O ato de glorificar a Deus podia ser feito pela multidão que assistia o milagre ou pelo que recebera o milagre, mas de qualquer forma, era um modo de reconhecer a origem do ato milagroso que acontecera.
Entretanto, outro elemento decorrente do maravilhamento das multidões, e fundamental para a compreensão de Cristo nos sinóticos, é o Poder-Autoridade que é confirmado por meio de atos milagrosos. O termo grego que traduz essa idéia é exousia. Esse termo pode ser usado para descrever cargos de autoridade, o poder da pessoa que exerce tal cargo e a autoridade decorrida desse poder. Essa é uma marca muito interessante nos evangelhos sinóticos, pois não é incomum encontrarmos esse conceito. Quando os evangelistas registram o apreço das multidões pelo ensino de Cristo esse reconhecimento está invariavelmente presente (Mt.7.29; Mc.1.22; Lc.4.32). O mesmo reconhecimento é visto em relação aos atos milagrosos de Cristo.
Mateus quando narra a história da cura de um paralítico (Mt.9.1-8) afirma que Jesus o tendo visto teria dito: “Tende bom ânimo filho; estão perdoados os seus pecados” (v.2). Mas isso teria incitado nos fariseus um sentimento de rejeição sobre o que Cristo teria dito; na mentalidade deles isso era apenas possível de ser realizado por Deus, por isso o acusavam de blasfêmia. Sabendo disso, Jesus resolve evidenciar seu Poder-Autoridade (gr. exousia) ao curá-lo: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (v.6). O resultado obtido nessa ocasião foi: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens” (v.8).
Nessa caso[7] vemos quase todos os elementos encontrados nas narrativas dos sinóticos: O evento milagroso, o maravilhamento, a Glória dada a Deus e o reconhecimento do Poder-Autoridade que Cristo tinha. É bem verdade que alguns dos aspectos desse quadro eventualmente é faltoso em outros registros, muito embora, o reconhecimento ou a pergunta pelo reconhecimento do Poder-Autoridade de Cristo estivessem aparentes em quase todo ministério de Cristo: Os fariseus demonstram sua preocupação com a fonte do Poder-Autoridade de Cristo (Mt.21.23; Mc.11.28; Lc.20.2); as multidões ficavam, ora maravilhadas (Mt.9.8) ora temerosos ou com dúvidas (Mc.1.27; Lc.4.36). Mas, Cristo, sempre estava consciente de Sua Missão, Identidade e Seu Poder-Autoridade (Mt.28.19), e essa mesma missão delega a Seus discípulos, enquanto estava com eles (Mt.10.1; Mc.6.7; Lc.9.1). Após sua ressurreição além de delegar a Seus representantes que fizessem o mesmo Ele assegura que estará com Eles até o fim dos tempos (Mt.28.20).
Após essa breve introdução ao estudo dos milagres de Cristo nos sinóticos, passo abaixo a destacar duas categorias e duas características dos milagres narrados nos evangelhos sinóticos.
Poder-Autoridade sobre o Natural
Quando falo sobre o poder que Cristo tem sobre o que é natural tenho duas perspectivas distintas em mente: o poder que Ele tem sobre o homem (saúde, vida) e sobre a natureza (funcionamento).
- § Sobre o Homem[8]: Uma das grandes marcas do ministério milagroso de Cristo está focado nos sinóticos em sua capacidade de ter domínio, controle, autoridade, poder sobre a saúde do homem. A grande maioria dos milagres nos sinóticos refere-se a esse tema. No caso da cura de um leproso (Mt.8.1-4; Mc.1.40-45; Lc. 5.12-16) podemos notar na narração dos três evangelistas que mesmo o leproso tinha convicção do Poder-Autoridade que Cristo tem sobre a doença, pois na aproximação que faz Cristo ele transparece confiança no poder, mas sua questão põe-se sobre a vontade do Senhor, ante quem está prostrado. Sobre esse tema é interessante notar que Cristo também é apresentado como Aquele que pode tornar à vida aquele que já estava morto. Dois casos são registrados nos sinóticos: A ressurreição da filha de Jairo (Mc.5.22-24; 35-43; Lc.8.41-42; 49-56) e a ressurreição do filho de uma viúva (Lc.7.11-15). No caso da filha de Jairo, é bem interessante que Jairo aproxima-se de Cristo como se aproximaria de alguém que tem autoridade: “vendo-o, prostrou-se a seus pés” (Mc.5.22; Lc.8.41). No ato de prostrar-se perante alguém é um modo de reconhecimento de Autoridade ou Divindade. Seria um pouco precipitado dizer que Jairo tinha a perspectiva da divindade de Cristo, mas sua ação nos deixa pensar nessa possibilidade. Seja como for, o desenrolar da história é bem provável que a fé de Jairo estivesse abalada, pois Jesus mesmo sugere: “Não temas, crê somente” (Mc.5.36; Lc.8.50). Não é muito claro que tipo de fé Jesus exige de Jairo nessa ocasião, mas é certo que toda a confiança dele repousava sobre o Poder-Autoridade que Cristo tinha para realizar algo que está contrário ao curso da natureza: dar vida ao morto. Tal pedido parece uma antítese para as pessoas que estavam na casa de Jairo, pois já não podiam acreditar no que Cristo dizia (Mc.5.40; Lc.8.53), quanto mais no que poderia fazer. Com a cura da menina, o maravilhamento toma conta dos pais que são convidados por Cristo para manter o relato entre eles. Se tomarmos a história como um todo, podemos dizer que a fé de Jairo repousou em Cristo e com a confirmação do milagre tal fé fora confirmada. Considerados esses pontos, podemos dizer com certeza que a relação de Cristo com a operação de milagres sobre as doenças tem por propósito evidenciar Seu Poder-Autoridade da parte de Deus como ratificação de Sua pessoa (Messias, Deus).
- § Sobre a Natureza: Nos casos em que Cristo manifesta Seu Poder-Autoridade sobre a natureza certamente nos falam sobre Sua Pessoa. No caso da tempestade acalmada (Mt.8.23-27; Mc.4.35-41; Lc.8.22-25) vemos que a pergunta dos discípulos era exatamente sobre Sua Pessoa: “Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt.8.27; Mc.4.41; Lc.8.25). Embora nenhuma conclusão dos seus discípulos seja dada, a pergunta pode ser entendida como retórica, pois ficou evidente que entre os homens, ninguém teria tal poder. Entretanto, quando Cristo anda sobre as águas, segundo o relato de Mateus, fica evidente que os Seus discípulos o reconheceram como Deus: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt.14.33).
Poder-Autoridade sobre Sobrenatural
A relação de Cristo com o sobrenatural tem algumas características interessantes, especialmente no evangelho de Marcos. Segundo a narrativa das memórias petrinas, vemos que os reconhecimentos mais claros sobre a Pessoa de Cristo são oferecidos por demônios. No primeiro caso registrado no evangelho, lemos: “Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc.1.23-24). Situação similar é encontrada no caso dos demônios gadarenos: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc.5.7). É bem interessante que esse reconhecimento demorou a acontecer com os discípulos, a despeito de tudo o que testemunhavam.
É bem verdade que o Poder-Autoridade de Cristo não pode necessariamente apontar para sua Divindade, muito embora os demônios em Marcos assim o tenham feito, por que tal Poder-Autoridade da parte Cristo cedido aos discípulos resultou no mesmo efeito, exceto por uma vez (Mt.17.21; Mc.9.29). Entretanto, não podemos deixar de perguntar por essa possibilidade reconhecida pelos demônios. É bem verdade que a característica fundamental do Diabo e seus seguidores é a mentira e que no caso, nortear uma convicção sobre uma mensagem demoníaca seria um pouco frágil. Contudo, o contexto onde estão inseridas essas passagens demonstram um terrível pavor dos demônios na presença de Jesus e sua súplica para não serem atormentados por Sua Pessoa, nos leva a considerar que o Poder-Autoridade de Cristo no mundo sobrenatural é tão grande que nem mesmo as legiões podem com Ele. A própria submissão dos demônios à ordem de Cristo testificam Seu Poder-Autoridade.
Um dos aspectos que também é interessante é o tempo que Cristo investe nesses encontros. Salvo o caso dos demônios gadarenos, Cristo com apenas uma ordem simples resolve problemas que os tele-evangelistas gastariam dias: “Cala-te e sai desse homem” (Mc.1.25; Lc.4.35). E o resultado na vida do endemoninhado é impressionante: “O demônio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer mal” (Lc.4.35). Contudo, o foco parece ser centrado na mensagem que isso transmite às pessoas que o assistem. Ao testemunharem a ação de Cristo, eles ficam grandemente admirados, e se pergunta,: “Que palavra é esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc.4.36). Assim, o que se pode dizer é que, quando Cristo manifesta seu Poder-Autoridade sobre o sobrenatural Ele testifica sua pessoa como Deus e Senhor sobre tudo.
Milagres e Incredulidade
Outro aspecto que é digno de rápida apresentação é que à semelhança do quarto evangelho, os milagres também exerceram grande papel na rejeição da Pessoa de Cristo. Muito embora existia o forte elemento evangelístico nos atos milagrosos operados por Cristo, nos sinóticos eles também foram mal interpretados: “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt.11.20-24; cf. Lc.10.13-16).
Milagres e confirmação Messiânica
É ainda válido demonstrar que os milagres de Cristo tem grande valor apologético, pois quando perguntado sobre quem Ele era, pelos discípulos de João, Jesus aludiu à profecias messiânicas: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt.11.4-5; cf. Is.35.5; 61.1-2).
Lista de Milagres no Evangelho de Mateus
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Milagres em Mateus |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura de um Leproso (Mt.8.1-4) Cura do Criado de um Centurião (Mt.8.5-13) Cura da Sogra de Pedro (Mt.8.14-17) Curou um paralítico (Mt.9.1-8) Cura de uma mulher com hemorragia (Mt.9.20-22) Cura da filha do Chefe (Jairo) (Mt.9.23-26) Cura dos Cegos (Mt.9.27-31) Cura do homem de mão ressequida (Mt.12.10-13) Cura do filho lunático (Mt.17.14-18) Cura de dois cegos (Mt.20.29-34)
Natureza Acalmou a Tempestade (Mt.8.23-27) Multiplicação dos pães (Mt.14.14-21) Andou sobre o mar (Mt.14.22-32) Multiplicação dos Pães (Mt.15.32-39) Dinheiro do Imposto (Mt.17.24-27) Maldição da Figueira (Mt.21.18-22)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Expulsou demônios (Mt.8.28-34) Libertação de um Endemoninhado (Mt.9.32-33) Libertação da Filha da Cananéia (Mt.15.21-28)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Thaumázo/ Exístemi – Admiração; Maravilhamento.
REAÇÕES ANTERIORES Adoração (Mt.8.1; 9.18) Implorar (Mt.8.5; 9.27; 15.22-27) Medo (Mt.8.24) Riam-se dele (Mt.9.24) Reconhecimento da Messianidade (Mt.9.27; 15.22; 20.30) Reconhecimento da Divindade (Mt.8.1; 9.18; 15.22, 25; 20.30)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Maravilharam-se (Mt.8.27; 15.31; 21.15) Temor (Mt.9.8) Glorificaram a Deus (Mt.9.8; 15.31) Fama espalhada (Mt.9.26; 31) Admiração (Mt.9.33, 12.23; 21.20) Adoração (Mt.14.22) Reconhecimento da Divindade (Mt.14.22)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Expulsão da Cidade (Mt.8.34) Acusado de Blasfêmia (Mt.9.3) Murmuração (Mt.9.34; 12.24) Conspiraram contra ele (Mt.12.14) Indignação (Mt.21.16) |
Lista de Milagres no Evangelho de Marcos
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Milagres em Marcos |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (1.29-31) Cura de um Leproso (1.40-45) Cura de um paralítico (2.3-12) Cura de um homem de mão ressequida (3.1-5) Cura da mulher com hemorragia (5.25-34) Ressurreição da Filha de Jairo (5.22-24; 35-43) Cura da mulher siro-fenícia (7.24.30) Cura do surdo-gago (7.31-37) Cura de um cego (8.22-26) Cura do cego Bartimeu (Mc.10.46-52)
Natureza Acalmou a tempestade (Mc.4.35-41) Multiplicação dos Pães (6.34-44) Caminhou sobre as Águas (6.45-52) Multiplicação dos Pães (8.1-9) Figueira Amaldiçoada (11.12-14)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na Sinagoga (1.23-28) Libertação dos demônios gadarenos (5.1-20) Libertação de um endemoninhado (9.14-29)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Exístemi/ Thaubémai/ Thaumázo/Ekpléssomai – Admiração Maravilhamento
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento da Divindade (1.24; 5.7) Reconhecimento da Messianidade (10.47, 48) Rogar/Suplicar (1.40; 5.23; 7.26; 8.22) Adoração (1.40; 5.6, 22; 7.25) Fé (2.5; 5.23, 28, 36; 9.24) Emboscada (3.2) Medo (4.38; 6.49, 50) Riam-se (5.40) Incredulidade (6.37; 8.4; 9.22)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (1.27; 2.12; 5.20; 5.42; 6.51; 7.37) Reconhecimento da Autoridade (1.27) Fama espalhada (1.28; 1.45; 5.20; 7.36) Passou a servi-los (1.31) Glória a Deus (2.12) Temor (4.41; 5.15, 33) Adoração (5.33)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (2.6-7) Conspiração de Assassinato (3.5) Expulso de Cafarnaum (5.17) |
Lista de Milagres no Evangelho de Lucas
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Milagres em Lucas |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (4.38-39) Cura de um leproso (5.12-16) Cura de um paralítico (5.18-26) Cura do homem de mão ressequida (6.6-10) Cura do servo do Centurião (7.1-10) Ressurreição do filho da viúva (7.11-15) Cura da mulher com fluxo de Sangue (8.43-48) Ressurreição da filha de Lázaro (8.41-42; 49-56) Cura de uma paralítica (13.10-17) Cura de homem hidrópico (14.1-6) Cura de 10 leprosos (17.11-19) Cura de um cego (18.35-43) Restauração da Orelha de Malco (22.49-51)
Natureza Primeira pesca maravilhosa (5.1-11) Acalmou a Tempestade (8.22-25) Multiplicação dos Pães (9.12-17)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na sinagoga (4.31-36) Libertação dos demônios gadarenos (8.26-27) Libertação de um endemoninhado (9.38-42) Cura de um endemoninhado cego e mudo (11.14)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento de Divindade (4.34; 7.6-7; 8.28) Reconhecimento de Messianidade (18.38-39) Adoração (5.12) Certeza (5.12) Fé (5.20; 8.48; 8.50; 17.19; 18.42) Emboscada (6.7) Medo (8.24) Súplica (8.41; 9.38) Risos (8.53)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (4.36; 5.9; 8.25; 9.43; 11.14) Alegria (13.17) Fama espalhada (4.37; 5.15; 7.17; 8.39) Servir (4.39; 5.11) Reconhecimento de Divindade (5.8) Glória a Deus (5.25-26; 7.16; 13.13; 17.15; 18.43) Temor (5.26; 7.16; 8.25; 8.35, 37; 8.47)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (5.21) Raiva (6.11; 13.14) Expulsão da Cidade (8.37) Incomodo (11.15; 13.14)
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[1] KÜMMEL, Werner Georg, Síntese Teológica no Novo Testamento. Pp.85.
[2] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Pp.475-6.
[3] GOPPELT, Leonard, Teologia do Novo Testamento. Pp.168.
[4] Essa classificação não é comumente apresentada quando tratada nesse assunto, entretanto, para fins didáticos, deixo minha impressão de como podem ser classificados.
[5] Sobre o uso de “monogenes” na literatura joanina, ver: BERTI, Marcelo Mendes, O uso de monogenes em referência a Cristo. Em: http://marceloberti.wordpress.com/2008/04/28/o-uso-de-monogenes-em-referencia-a-cristo/
[6] Esse termo é utilizado cerca de 37x nos sinóticos
[7] O mesmo evento é narrado em Marcos (2.10) e Lucas (5.24)
[8] Para uma visão mais geral sobre os milagres operados por Cristo nos Sinóticos ver a tabela abaixo com o registro de todos eles classificados.
Doutrina da Trindade e Soteriologia
Essa pergunta é extremamente pertinente, e para vou respondê-la em quatro etapas.
- Ninguém pode ser salvo sem a Trindade. Efésios capítulo 1 nos ajuda a compreender essa verdade de forma muito clara, pois as três pessoas da Trindade estão ativas na salvação dos homens. Deus Pai é responsável por todas as bênçãos celestiais e pela eleição e predestinação: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos” (Ef.1.3-5). Já o Filho é o meio (critério, instrumento) pelo qual essa eleição e predestinação é realizada: “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5). Entretanto é em Cristo que temos a Redenção e Graça: “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef.1.6-7). E o Espírito Santo é a garantia de que essa salvação será terminada no futuro, pois é Ele quem sela o salvo: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef.1.13-14). Essa breve exposição de Efésios capítulo um nos auxilia a compreender o papel de cada pessoa da Trindade na salvação do homem de modo que a afirmação inicial mostra-se verdadeira: Ninguém pode ser salvo sem a Trindade.
- Eu acredito que uma pessoa pode ser salva sem entender a Trindade. Não acredito que a salvação esteja restrita àqueles que compreendem corretamente a Trindade, ou a divindade como um todo. Esse é o caso das crianças que por depositarem sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador estão salvas sem que mesmo tenham conseguido definir a Trindade. Ou seja, sofreram a ação da Trindade, muito embora não a possam explicar. Esse é o caso da pessoa simples que atende ao chamado eficaz da Graça de Deus, deposita sua fé em Cristo como exclusivo Redentor e está salvo, muito embora, a complexidade da Trindade não lhe seja de completamente compreensível. Contam-se inumeráveis os cristãos que demonstram dificuldade em expressar sua visão da Trindade, embora creiam nela.
- Em terceiro lugar, eu acredito que uma pessoa possa ser salva sem crer na Trindade. Ao observar as mensagens evangelísticas dos apóstolos em Atos não consigo ver uma ênfase se quer na doutrina da Trindade. Na primeira mensagem evangelística registrada em Atos e pessoa vemos algo quase incomum: Tanto o Espírito Santo tem parte significativa na pregação. Ele é apresentado como profecia de Deus no Velho Testamento (v.16-21) e é apresentado como aquele que batiza (v.38). Muito embora eles sejam citados, isso não se constitui uma definição de Trindade. O apelo não foi, creiam em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo e sejam salvos? Muito pelo contrário, o apelo foi pelo arrependimento e aceitação de Jesus como Cristo (v.36). A evidência da salvação seria o batismo. Mas, no decorrer do livro de Atos, vemos que isso passa a não acontecer mais, especialmente quando o evangelho chegou à regiões gentílicas. A própria pregação de Pedro a Cornélio (um prosélito) menciona rapidamente o Espírito Santo, mas nenhuma doutrina parece ser claramente ensinada. Mas nesse caso, temos certeza que seus ouvintes foram salvos. Isso também vale para as pregações de Paulo, que muito embora não fizesse uma apologia da Trindade, apresentava a Jesus Cristo como Salvador e muito criam e eram salvos. Vale ainda dizer que é bem provável que os cristãos dos dois primeiros séculos não tivessem uma formulação da Trindade, e ainda assim eram salvos. Ainda é válido acrescentar que são inúmeras as passagens que anunciam a centralidade de Cristo para salvação e não da doutrina da Trindade. Em Romanos 10.9, lemos: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo“. Muito embora a divindade de Cristo e a ação de Deus seja demonstrada aqui, a centralidade da fé soteriológica repousa sobre Cristo. Nada é mencionado sobre a Pessoa do Espírito Santo aqui, e isso não impede que as pessoas que tomarem de serem salvas. Paulo quando lembra os Coríntios do evangelho que promove a salvação (1Co.15.1-2) ele faz claras declarações da Pessoa de Cristo (1Co.15.3-4) e algumas inferências ao Deus Pai e nenhuma citação do Espírito Santo. A própria apresentação de Paulo da Salvação em Efésios 2 apresenta a Deus como rico em misericórdia, amoroso (v.4), doador da vida por meio da graça juntamente com Cristo (v.5), e com Cristo ele ressuscita e faz assentar nas regiões celestiais em Cristo (v.6) como demonstração para o futuro da sua rica graça (v.7). Ou seja, muito embora a ação do Pai e do Filho esteja claramente anunciada, o Espírito Santo novamente não é mencionado. Por isso acredito que aqueles que tiveram acesso à essas informações apostólicas podem ter acesso a salvação sem conseguir sistematizar a doutrina da Trindade. Por isso, quando digo que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade penso na doutrina, no conteúdo da fé sistematizada, e não acredito haver fundamento para a salvação apenas pela fé trinitária.
- Isso me leva a uma última consideração: não é possível alguém ser salvo e rejeitar a Trindade. Isso é diferente do que não crer. Essa distinção é importante, pois não crer pode significar não ter tido acesso à doutrina formalizada, como deve ser o caso de diversas etnias indígenas, que embora tenham Cristo como Salvado não tiveram um conhecimento sistematizado da Trindade. Por outro lado, rejeitar implica em ter conhecimento, mesmo que inadequado, e ainda assim ter completa antipatia a ele. Esse é o caso do Harold Bloom, que por mais impressionado que possa ficar com o conceito da Trindade afirma que ele é um absurdo. Mas, então, por que a salvação não pode ser desfrutada por pessoas que rejeitam a Trindade? Por que é impossível rejeitar a Trindade sem diminuição das pessoas da Trindade e quando isso ocorre com a pessoa de Cristo, a salvação está invariavelmente perdida. Esse é o caso do Testemunha de Jeová, que por atribuir a Cristo uma posição não divina, não pré-existente acaba por ser enquadrado entre aqueles que “negam que Jesus é o Cristo” (1Jo.2.22) e que por isso não tem nem o Pai nem o Filho. Esse é o caso dos gnósticos do passado que negavam a encarnação do Logos (1Jo.4.2) e também são chamados de impostores (gr. antíchristos) e falsos profetas (gr. pseudoprofétes).
Portanto, ainda que a doutrina da Trindade tenha grande valor soteriológico, não creio que a doutrina sistematizada seja o cerne conteúdo da fé soteriológica. A centralidade do conteúdo da fé que leva à salvação está sobre a Pessoa de Cristo e Sua Obra.
Base Bíblica da Doutrina da Trindade
“A doutrina da trindade é explicitamente ensinada no Novo Testamento?”
Bart Ehrman – O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Pp. 218.
Palco de discussão teologia quanto a definição e compreensão por parte dos cristãos e completa rejeição por parte dos que estudam a teologia sem fé, a Trindade é fundamental para a cosmovisão, teologia e prática cristã. Mais importante do que isso: A doutrina da Trindade é claramente ensinada nas escrituras.
1. Definição Pessoal Da Trindade
O conceito da Trindade é fundamento na compreensão da existência de três pessoas divinas distintas (diferente do unitarismo), que tem sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas escrituras (diferente da nova escola). Considerando isso, abaixo passo a demonstrar ocasiões no Novo Testamento que apontam para a comprovação da sentença.
2. Evidências Neo-Testamentárias
Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.
Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).
Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.
No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho. A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.
Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”[16].
Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?
A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.
No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai[17]“
É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.
Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?
Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade[18].
Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.
Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.
Bom, com a exposição já feita até aqui fica clarividente a existência de um Triunidade apresentada no Novo Testamento. Mas será que essa apresentação é uma criação dos autores neo-testamentários? Será que essa doutrina é uma rejeição ao monoteísmo judaico e uma aproximação (ainda que distante) do politeísmo grego? Será que o Velho Testamento pode nos ajudar a compreender a Trindade?
3. Evidências Vétero-Testamentárias
A visão da teologia história sobre a Trindade no Velho Testamento é bem diversa. Berkhof nos lembra que para alguns Pais da igreja a Trindade teria sido completamente apresentada no Velho Testamento ao passo que os arminianos afirmam que não há dessa doutrina no VT. Ele também considera as duas opções erradas e complementa: “O Antigo Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela[19]“. É bem provável que Berkhof esteja certo, mas vamos observar o que o VT tem a nos informar sobre o assunto.
Normalmente a Trindade é defendida pela forma como Deus é apresentado no primeiro capítulo de Gênesis. Alguns teólogos apontam para o fato de que a pessoa de Deus está descrita no plural (Elohim). Uma vez que os judeus têm lido esse texto durante séculos e não apontaram a existência de vários deuses, podemos considerar isso uma situação interessante. McClaren sobre o assunto chegou a dizer: “O plural Elohim não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza divina em sua totalidade completa, incluindo uma pluralidade de pessoalidades[20]“. Entretanto, nos lembra Berkhof que embora o plural contenha a idéia de pluralidade de pessoas, não aponta para sua triunidade[21].
Ainda no primeiro capítulo de Gênesis uma expressão nos chama a atenção: “Façamos o homem” (v.26). Uma vez que vemos que existe uma pluralidade, não é de se espantar que use a primeira pessoa do plural para realizar algo tão majestoso como o homem. É bem verdade que é possível que esse plural seja um plural majestático. Entretanto, é interessante perceber que os autores neo-testamentários entendiam que Cristo tenha sido ativo na criação: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb.1.1-2). Em João 1.3 ainda lemos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez“. Em nenhum momento vemos os autores neo-testamentários atribuírem tal idéia à Gênesis capítulo 1, isso é bem verdade, mas isso parece subentendido no seu parecer.
Assim, não considero um exagero encontrar um alusão à trindade aqui, até por que o Espírito de Deus também é mencionado nesse capítulo: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn1.2). A ação atribuída aqui ao Espírito de Deus é muito interessante, pois, ainda que denote a idéia de sobrevoar ela também descreve uma forma de proteção. Em Deuteronômio 32.11-12, onde essa palavra é novamente usada, lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”. Considerando isso, é bem possível que essa seja uma alusão à participação criativa do ES no início, pelo menos essa é a opinião de Ryrie[22].
Outra situação, ainda em Gênesis que merece nossa atenção é vista na cena da queda: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn.3.22). Uma vez que o autor dessa expressão é o mesmo que escreveu o shema de Deuteronômio 6.4, não podemos supor que ele entenda a existência de muitos deuses. Mais uma vez, a pluralidade de Deus ficou evidente, muito embora não delineada em quantidade ou diferença de pessoa. Mas será que no VT temos algum indicativo disso?
Para responder a essa indagação podemos citar um texto que parece elucidar essa questão: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” (Is.48.16). Essa parece uma indicação muito interessante da Trindade no Velho Testamento, uma vez que o texto fala do Messias como enviado da parte de Deus com o Espírito. Em outro caso, o Messias fala sobre sua unção do Espírito e de Deus: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1; cf. Lc.4.18). Isso parece deixar evidências nas páginas da teología histórica que apontam para uma compreensã primitiva do conceito da Trindade. Essa conclusão está em acordo com a revelação progressiva das escrituras.
* * *
Até aqui, vemos que as escrituras defendem a doutrina da Trindade de modo muito peculiar. Por isso é importante se considerar a interação entre os dois testamentos e progressão da revelação. Para ilustrar esse princípio, cito mais uma vez Berkhof: “Se no Antigo Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador de Seu povo (…) no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade (…) E se no Antigo Testamento é Jeová que habita em Israel e nos corações dos que temem (…) no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na Igreja”. Assim, podemos ver que aquelas atividades que são apresentadas a Deus no Velho Testamentos são especificadas a pessoas diferentes no Novo Testamento e isso atesta tanto a divindade do Filho e do Espírito como sua própria unidade com Deus.
Mas, uma vez que fica evidente a doutrina ensinada pelas escrituras, precisamos fazer de sua aplicação. Pois, é possível que alguém possa ser salvo sem entender a Trindade? É possível que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade? O que as escrituras nos ensinam?
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Conceituações Teológicas da Trindade
“Pretendo aqui expor o mistério da trindade, o melhor que posso fazê-lo, ao mesmo tempo que, de um lado, deixo clara a minha admiração pelo brilhantismo criativo e cognitivo do conceito e, de outro, afirmo minha perplexidade diante do atrevimento e do escândalo inerentes a esse mesmo dogma”
Harold Bloom – Jesus e Javé. Pp. 119.
Harold Bloom é professor na Yale University e na New York University e famoso crítico de poesia. Crítico a fé cristã como judeu de nasceimento, mas sem considerar-se como da Aliança (religião), escreve um conturbado livro para expor sua visão sobre a relação entre Javé (o Deus judeus do VT) e Jesus (o Deus cristão do NT). Esse livro, além de reconhecimento mundial, também levou a fama de um brilhante e provocativo estudo[1].
Para ele, a doutrina da trindade é uma grande invenção da criatividade cristão antiga, uma tentativa de conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão. Para Bloom, quando Constantino unificou o império ele “astutamente reconheceu em Jesus Cristo a continuidade da tradição pagã[2]“. De opinião forte e grande influência, Bloom é uma espécie de representante da crítica a fé cristã nos nossos dias feita por pessoas fora da oikia da teologia, mas não é o único nem o primeiro ou o último.
Na bem da verdade, a doutrina da Trindade, desde que foi sistematizada tem sido palco para discussões e controvérsias teológicas. Lous Berkhof acredita que por influência da mentalidade judaica na raiz do cristianismo, que enfatizava exclusivamente a unidade de Deus, a distinção entre as pessoas da Divindade foi ou eliminada por alguns ou apresentada sem devida justiça à segunda ou terceira pessoa da trindade[3]. Já Tillich lembra que em algumas obras teológicas do passado a Trindade chegou a ser tratada de modo quase binária, em função do rebaixamento da dignidade da pessoa do Espírito Santo. Em outros casos, chegou a ser tratada quase que como uma quatrindade pela forma que tratavam a substância comum entre as três pessoas da trindade[4].
De qualquer forma, desde que Tertuliano formulou a expressão “Trindade“[5] ela tem sido objeto de divergência de opiniões. A Nova Escola[6] eventualmente ataca a doutrina por afirmar que tal conceito é uma invenção da Igreja instituição no passado. Bart Ehrman é um bom exemplo dessa escola.
Em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? ele apresenta grandes interrogações na manutenção histórica do texto das escrituras, mas sua intenção não e apenas levantar objeções à ação de Deus em manter o texto, mas de atacar a Cristologia do NT e da fé cristã. Uma das formas com que faz isso é colocando em dúvida a doutrina da Trindade.
Sua dúvida sobre o ensino da Trindade não é uma mera rejeição à idéia do cristianismo como religião, é (segundo a nova escola) uma conclusão acadêmica, fruto de estudos coerentes com a pesquisa científica de documentos escritos no passado. Segundo Ehrman, um dos trunfos que esteve a disposição dos cristãos históricos foi a passagem de 1 João 5.7-8 (também conhecida como parêntesis joanino): “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um]. E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. A parte entre chaves e em itálico no texto é fruto de um problema de crítica textual, que muitos acadêmicos dos nossos dias, inclusive os cristãos entendem que não faz parte do texto original[7]. Sobre isso ele diz que esse parêntesis “representa a ocorrência mais óbvia de corrupção motivada por teologia em toda tradição manuscrita do Novo Testamento[8]“.
Ehrman ainda nos lembra que Erasmo na primeira edição do seu texto grego (1516) não havia encontrado registros desse verso nos materiais que teve acesso e por isso havia retirado do texto. Além disso, ele acrescenta que é bem provável que essa leitura seja uma produção desse período histórico, onde alguém tomou essa sentença do texto latino[9]. Seja como for, temos a impressão que a falta explícita da palavra trindade, ou da sistematização em uma única sentença do seu conceito faz a nova escola crer e ensinar a existência de um mito trinitário.
Embora a academia teológica dos nossos dias tenha dificuldades com o conceito, isso não é mérito da nossa era. Sabélio[10], um “cristão” do terceiro século ensinava que o Pai havia se encarnado no Filho e que o próprio Pai havia padecido na cruz[11]. Essa ideologia foi também representada nos ensinos de Práxeas[12]. Seu principal oponente foi Tertuliano que denominou a teoria de Patripassionismo[13]. Em tempos posteriores essa ideologia tomou novas formas, muito embora sob a responsabilidade de Sabélio. O Sabelianismo também é uma forma de aludir a um conhecimento da Trindade sobre o qual as pessoas da trindade não são vistas como pessoas, mas como modos de atuação de Deus. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo. Tal ideologia afirma que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem)[14].
É importante frisar que religiões “cristãs” dos nossos dias também têm suas próprias opiniões sobre a Trindade. Existem aqueles que denominam cristãos antitrinitários, como o caso dos Cristadélfos. Essa doutrina é bem conhecida pela obra Um Manual de Estudo revelando a alegria e a paz do verdadeiro cristianismo escrita por Duncan Heaster. Para eles, nem a palavra trindade nem seu conceito aparecem nas escrituras e por isso não pode ser verdadeira. Deus Pai é o Deus supremo, mais poderoso e exaltado que o Filho. Como unitaristas[15] acreditam que o Filho não existia eternamente, mas passou a existir ao nascer de Maria. Embora, quando assim anunciada, a doutrina dos cristadélfos seja similar à doutrina dos Testemunhas de Jeová ela tem outras peculiaridades, como a não crença no tormento eterno e outras rejeições menos importantes para nosso estudo aqui.
Vale a pena dizer que os Testemunhas de Jeová também podem ser incluídos entre os grupos contemporâneos de rejeição do conceito da Trindade, pois o consideram antibíblico e pagão. Para eles apenas o Jeová é o Deus verdadeiro e único. Jesus Cristo é considerado uma espécie de Deus, ou como sua tradução das escrituras, ele é [um] Deus. Já o Espírito santo é chamado de força ativa de Deus. Não precisamos fazer uma distinção entre pessoa e força para notarmos como eles tratam com desprezo o Espírito Santo.
Essa complexidade de conceituação e percepção teológica não ficou retida nos ambientes da crítica da fé, pois há ainda quem diga que mesmo entre os pais da igreja, a conceituação da Trindade era palco de pequenas diferenças. Os pais gregos viam uma essência e três substâncias enquanto os latinos viam uma essência e três pessoas, opção que veio a ser mais aceita e reconhecida. O que podemos perceber hoje é que, mesmo dentro do cristianismo ortodoxo vão encontrar suas distinções de conceito, ênfase e fundamento bíblico.
E, tendo dito isso, é possível conceituar a Trindade a partir das escrituras, ou será que é verdade que a Trindade é fruto da produção criativa da mentalidade cristão do passado? É possível encontrar alguma referência à Trindade no Velho Testamento? E o Novo Testamento, o que fala sobre o assunto? Abaixo, passo a focalizar o que entendo que as escrituras apresentam sobre a Trindade.
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03.20.09
Observações à Doutrina da Trindade
“Quando falamos em Trindade de Deus, nos referimos a uma trindade em unidade e em uma unidade que é trina”
Louis Berkhof, Teologia Sistemática. Pp.80
“A doutrina da trindade não afirma o absurdo lógico de que três é um e um é três. Ela descreve, em termos dialéticos, o movimento interno da vida divina como uma eterna separação de si mesma e o retorno a si mesma”
Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.54
“Podemos definir a doutrina da Trindade do seguinte modo: Deus existe eternamente como três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – e cada pessoa é plenamente Deus e existe apenas um Deus”
Wayne Gruden, Teologia Sistemática. Pp.165
“O monoteísmo trinitário não é uma questão com o número três. É uma caracterização qualitativa e não quantitativa de Deus. É uma tentativa de falar do Deus vivo: o Deus em quem estão unidos o último e o concreto”
Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.193.
Ao observar essas citações confrontativas, percebemos que o conceito da Trindade embora seja aceito por grande parte dos Teólogos Cristãos é expressa de modo diferente. Isso nos ajuda a compreender um pouco do dilema que ainda em nossos dias a doutrina da Trindade causa. Por isso, vamos observar abaixo um pouco da doutrina da Trindade na conceituação teológica e nas escrituras, com a intenção de lançar luz ao conhecimento de Deus. Também citaremos brevemente algumas teorias sobre a Trindade, a relação entre Unidade e Diversidade na Trindade para finalmente trataremos da relação da Trindade e da Salvação.
A. Conceituações Teológicas
“Pretendo aqui expor o mistério da trindade, o melhor que posso fazê-lo, ao mesmo tempo que, de um lado, deixo clara a minha admiração pelo brilhantismo criativo e cognitivo do conceito e, de outro, afirmo minha perplexidade diante do atrevimento e do escândalo inerentes a esse mesmo dogma”
Harold Bloom – Jesus e Javé. Pp. 119.
Harold Bloom é professor na Yale University e na New York University e famoso crítico de poesia. Crítico a fé cristã como judeu de nasceimento, mas sem considerar-se como da Aliança (religião), escreve um conturbado livro para expor sua visão sobre a relação entre Javé (o Deus judeus do VT) e Jesus (o Deus cristão do NT). Esse livro, além de reconhecimento mundial, também levou a fama de um brilhante e provocativo estudo[1].
Para ele, a doutrina da trindade é uma grande invenção da criatividade cristão antiga, uma tentativa de conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão. Para Bloom, quando Constantino unificou o império ele “astutamente reconheceu em Jesus Cristo a continuidade da tradição pagã[2]“. De opinião forte e grande influência, Bloom é uma espécie de representante da crítica a fé cristã nos nossos dias feita por pessoas fora da oikia da teologia, mas não é o único nem o primeiro ou o último.
Na bem da verdade, a doutrina da Trindade, desde que foi sistematizada tem sido palco para discussões e controvérsias teológicas. Lous Berkhof acredita que por influência da mentalidade judaica na raiz do cristianismo, que enfatizava exclusivamente a unidade de Deus, a distinção entre as pessoas da Divindade foi ou eliminada por alguns ou apresentada sem devida justiça à segunda ou terceira pessoa da trindade[3]. Já Tillich lembra que em algumas obras teológicas do passado a Trindade chegou a ser tratada de modo quase binária, em função do rebaixamento da dignidade da pessoa do Espírito Santo. Em outros casos, chegou a ser tratada quase que como uma quatrindade pela forma que tratavam a substância comum entre as três pessoas da trindade[4].
De qualquer forma, desde que Tertuliano formulou a expressão “Trindade“[5] ela tem sido objeto de divergência de opiniões. A Nova Escola[6] eventualmente ataca a doutrina por afirmar que tal conceito é uma invenção da Igreja instituição no passado. Bart Ehrman é um bom exemplo dessa escola.
Em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? ele apresenta grandes interrogações na manutenção histórica do texto das escrituras, mas sua intenção não e apenas levantar objeções à ação de Deus em manter o texto, mas de atacar a Cristologia do NT e da fé cristã. Uma das formas com que faz isso é colocando em dúvida a doutrina da Trindade.
Sua dúvida sobre o ensino da Trindade não é uma mera rejeição à idéia do cristianismo como religião, é (segundo a nova escola) uma conclusão acadêmica, fruto de estudos coerentes com a pesquisa científica de documentos escritos no passado. Segundo Ehrman, um dos trunfos que esteve a disposição dos cristãos históricos foi a passagem de 1 João 5.7-8 (também conhecida como parêntesis joanino): “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um]. E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. A parte entre chaves e em itálico no texto é fruto de um problema de crítica textual, que muitos acadêmicos dos nossos dias, inclusive os cristãos entendem que não faz parte do texto original[7]. Sobre isso ele diz que esse parêntesis “representa a ocorrência mais óbvia de corrupção motivada por teologia em toda tradição manuscrita do Novo Testamento[8]“.
Ehrman ainda nos lembra que Erasmo na primeira edição do seu texto grego (1516) não havia encontrado registros desse verso nos materiais que teve acesso e por isso havia retirado do texto. Além disso, ele acrescenta que é bem provável que essa leitura seja uma produção desse período histórico, onde alguém tomou essa sentença do texto latino[9]. Seja como for, temos a impressão que a falta explícita da palavra trindade, ou da sistematização em uma única sentença do seu conceito faz a nova escola crer e ensinar a existência de um mito trinitário.
Embora a academia teológica dos nossos dias tenha dificuldades com o conceito, isso não é mérito da nossa era. Sabélio[10], um “cristão” do terceiro século ensinava que o Pai havia se encarnado no Filho e que o próprio Pai havia padecido na cruz[11]. Essa ideologia foi também representada nos ensinos de Práxeas[12]. Seu principal oponente foi Tertuliano que denominou a teoria de Patripassionismo[13]. Em tempos posteriores essa ideologia tomou novas formas, muito embora sob a responsabilidade de Sabélio. O Sabelianismo também é uma forma de aludir a um conhecimento da Trindade sobre o qual as pessoas da trindade não são vistas como pessoas, mas como modos de atuação de Deus. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo. Tal ideologia afirma que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem)[14].
É importante frisar que religiões “cristãs” dos nossos dias também têm suas próprias opiniões sobre a Trindade. Existem aqueles que denominam cristãos antitrinitários, como o caso dos Cristadélfos. Essa doutrina é bem conhecida pela obra Um Manual de Estudo revelando a alegria e a paz do verdadeiro cristianismo escrita por Duncan Heaster. Para eles, nem a palavra trindade nem seu conceito aparecem nas escrituras e por isso não pode ser verdadeira. Deus Pai é o Deus supremo, mais poderoso e exaltado que o Filho. Como unitaristas[15] acreditam que o Filho não existia eternamente, mas passou a existir ao nascer de Maria. Embora, quando assim anunciada, a doutrina dos cristadélfos seja similar à doutrina dos Testemunhas de Jeová ela tem outras peculiaridades, como a não crença no tormento eterno e outras rejeições menos importantes para nosso estudo aqui.
Vale a pena dizer que os Testemunhas de Jeová também podem ser incluídos entre os grupos contemporâneos de rejeição do conceito da Trindade, pois o consideram antibíblico e pagão. Para eles apenas o Jeová é o Deus verdadeiro e único. Jesus Cristo é considerado uma espécie de Deus, ou como sua tradução das escrituras, ele é [um] Deus. Já o Espírito santo é chamado de força ativa de Deus. Não precisamos fazer uma distinção entre pessoa e força para notarmos como eles tratam com desprezo o Espírito Santo.
Essa complexidade de conceituação e percepção teológica não ficou retida nos ambientes da crítica da fé, pois há ainda quem diga que mesmo entre os pais da igreja, a conceituação da Trindade era palco de pequenas diferenças. Os pais gregos viam uma essência e três substâncias enquanto os latinos viam uma essência e três pessoas, opção que veio a ser mais aceita e reconhecida. O que podemos perceber hoje é que, mesmo dentro do cristianismo ortodoxo vão encontrar suas distinções de conceito, ênfase e fundamento bíblico.
E, tendo dito isso, é possível conceituar a Trindade a partir das escrituras, ou será que é verdade que a Trindade é fruto da produção criativa da mentalidade cristão do passado? É possível encontrar alguma referência à Trindade no Velho Testamento? E o Novo Testamento, o que fala sobre o assunto? Abaixo, passo a focalizar o que entendo que as escrituras apresentam sobre a Trindade.
B. Quais são as bases bíblicas da doutrina?
“A doutrina da trindade é explicitamente ensinada no Novo Testamento?”
Bart Ehrman – O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Pp. 218.
Palco de discussão teologia quanto a definição e compreensão por parte dos cristãos e completa rejeição por parte dos que estudam a teologia sem fé, a Trindade é fundamental para a cosmovisão, teologia e prática cristã. Mais importante do que isso: A doutrina da Trindade é claramente ensinada nas escrituras.
1. Definição Pessoal Da Trindade
O conceito da Trindade é fundamento na compreensão da existência de três pessoas divinas distintas (diferente do unitarismo), que tem sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas escrituras (diferente da nova escola). Considerando isso, abaixo passo a demonstrar ocasiões no Novo Testamento que apontam para a comprovação da sentença.
2. Evidências Neo-Testamentárias
Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.
Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).
Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.
No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho. A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.
Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”[16].
Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?
A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.
No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai[17]“
É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.
Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?
Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade[18].
Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.
Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.
Bom, com a exposição já feita até aqui fica clarividente a existência de um Triunidade apresentada no Novo Testamento. Mas será que essa apresentação é uma criação dos autores neo-testamentários? Será que essa doutrina é uma rejeição ao monoteísmo judaico e uma aproximação (ainda que distante) do politeísmo grego? Será que o Velho Testamento pode nos ajudar a compreender a Trindade?
3. Evidências Vétero-Testamentárias
A visão da teologia história sobre a Trindade no Velho Testamento é bem diversa. Berkhof nos lembra que para alguns Pais da igreja a Trindade teria sido completamente apresentada no Velho Testamento ao passo que os arminianos afirmam que não há dessa doutrina no VT. Ele também considera as duas opções erradas e complementa: “O Antigo Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela[19]“. É bem provável que Berkhof esteja certo, mas vamos observar o que o VT tem a nos informar sobre o assunto.
Normalmente a Trindade é defendida pela forma como Deus é apresentado no primeiro capítulo de Gênesis. Alguns teólogos apontam para o fato de que a pessoa de Deus está descrita no plural (Elohim). Uma vez que os judeus têm lido esse texto durante séculos e não apontaram a existência de vários deuses, podemos considerar isso uma situação interessante. McClaren sobre o assunto chegou a dizer: “O plural Elohim não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza divina em sua totalidade completa, incluindo uma pluralidade de pessoalidades[20]“. Entretanto, nos lembra Berkhof que embora o plural contenha a idéia de pluralidade de pessoas, não aponta para sua triunidade[21].
Ainda no primeiro capítulo de Gênesis uma expressão nos chama a atenção: “Façamos o homem” (v.26). Uma vez que vemos que existe uma pluralidade, não é de se espantar que use a primeira pessoa do plural para realizar algo tão majestoso como o homem. É bem verdade que é possível que esse plural seja um plural majestático. Entretanto, é interessante perceber que os autores neo-testamentários entendiam que Cristo tenha sido ativo na criação: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb.1.1-2). Em João 1.3 ainda lemos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez“. Em nenhum momento vemos os autores neo-testamentários atribuírem tal idéia à Gênesis capítulo 1, isso é bem verdade, mas isso parece subentendido no seu parecer.
Assim, não considero um exagero encontrar um alusão à trindade aqui, até por que o Espírito de Deus também é mencionado nesse capítulo: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn1.2). A ação atribuída aqui ao Espírito de Deus é muito interessante, pois, ainda que denote a idéia de sobrevoar ela também descreve uma forma de proteção. Em Deuteronômio 32.11-12, onde essa palavra é novamente usada, lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”. Considerando isso, é bem possível que essa seja uma alusão à participação criativa do ES no início, pelo menos essa é a opinião de Ryrie[22].
Outra situação, ainda em Gênesis que merece nossa atenção é vista na cena da queda: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn.3.22). Uma vez que o autor dessa expressão é o mesmo que escreveu o shema de Deuteronômio 6.4, não podemos supor que ele entenda a existência de muitos deuses. Mais uma vez, a pluralidade de Deus ficou evidente, muito embora não delineada em quantidade ou diferença de pessoa. Mas será que no VT temos algum indicativo disso?
Para responder a essa indagação podemos citar um texto que parece elucidar essa questão: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” (Is.48.16). Essa parece uma indicação muito interessante da Trindade no Velho Testamento, uma vez que o texto fala do Messias como enviado da parte de Deus com o Espírito. Em outro caso, o Messias fala sobre sua unção do Espírito e de Deus: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1; cf. Lc.4.18). Isso parece deixar evidências nas páginas da teología histórica que apontam para uma compreensã primitiva do conceito da Trindade. Essa conclusão está em acordo com a revelação progressiva das escrituras.
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Até aqui, vemos que as escrituras defendem a doutrina da Trindade de modo muito peculiar. Por isso é importante se considerar a interação entre os dois testamentos e progressão da revelação. Para ilustrar esse princípio, cito mais uma vez Berkhof: “Se no Antigo Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador de Seu povo (…) no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade (…) E se no Antigo Testamento é Jeová que habita em Israel e nos corações dos que temem (…) no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na Igreja”. Assim, podemos ver que aquelas atividades que são apresentadas a Deus no Velho Testamentos são especificadas a pessoas diferentes no Novo Testamento e isso atesta tanto a divindade do Filho e do Espírito como sua própria unidade com Deus.
Mas, uma vez que fica evidente a doutrina ensinada pelas escrituras, precisamos fazer de sua aplicação. Pois, é possível que alguém possa ser salvo sem entender a Trindade? É possível que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade? O que as escrituras nos ensinam?
C. A Doutrina da Trindade e a Salvação
Essa pergunta é extremamente pertinente, e para vou respondê-la em quatro etapas.
- Ninguém pode ser salvo sem a Trindade. Efésios capítulo 1 nos ajuda a compreender essa verdade de forma muito clara, pois as três pessoas da Trindade estão ativas na salvação dos homens. Deus Pai é responsável por todas as bênçãos celestiais e pela eleição e predestinação: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos” (Ef.1.3-5). Já o Filho é o meio (critério, instrumento) pelo qual essa eleição e predestinação é realizada: “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5). Entretanto é em Cristo que temos a Redenção e Graça: “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef.1.6-7). E o Espírito Santo é a garantia de que essa salvação será terminada no futuro, pois é Ele quem sela o salvo: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef.1.13-14). Essa breve exposição de Efésios capítulo um nos auxilia a compreender o papel de cada pessoa da Trindade na salvação do homem de modo que a afirmação inicial mostra-se verdadeira: Ninguém pode ser salvo sem a Trindade.
- Eu acredito que uma pessoa pode ser salva sem entender a Trindade. Não acredito que a salvação esteja restrita àqueles que compreendem corretamente a Trindade, ou a divindade como um todo. Esse é o caso das crianças que por depositarem sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador estão salvas sem que mesmo tenham conseguido definir a Trindade. Ou seja, sofreram a ação da Trindade, muito embora não a possam explicar. Esse é o caso da pessoa simples que atende ao chamado eficaz da Graça de Deus, deposita sua fé em Cristo como exclusivo Redentor e está salvo, muito embora, a complexidade da Trindade não lhe seja de completamente compreensível. Contam-se inumeráveis os cristãos que demonstram dificuldade em expressar sua visão da Trindade, embora creiam nela.
- Em terceiro lugar, eu acredito que uma pessoa possa ser salva sem crer na Trindade. Ao observar as mensagens evangelísticas dos apóstolos em Atos não consigo ver uma ênfase se quer na doutrina da Trindade. Na primeira mensagem evangelística registrada em Atos e pessoa vemos algo quase incomum: Tanto o Espírito Santo tem parte significativa na pregação. Ele é apresentado como profecia de Deus no Velho Testamento (v.16-21) e é apresentado como aquele que batiza (v.38). Muito embora eles sejam citados, isso não se constitui uma definição de Trindade. O apelo não foi, creiam em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo e sejam salvos? Muito pelo contrário, o apelo foi pelo arrependimento e aceitação de Jesus como Cristo (v.36). A evidência da salvação seria o batismo. Mas, no decorrer do livro de Atos, vemos que isso passa a não acontecer mais, especialmente quando o evangelho chegou à regiões gentílicas. A própria pregação de Pedro a Cornélio (um prosélito) menciona rapidamente o Espírito Santo, mas nenhuma doutrina parece ser claramente ensinada. Mas nesse caso, temos certeza que seus ouvintes foram salvos. Isso também vale para as pregações de Paulo, que muito embora não fizesse uma apologia da Trindade, apresentava a Jesus Cristo como Salvador e muito criam e eram salvos. Vale ainda dizer que é bem provável que os cristãos dos dois primeiros séculos não tivessem uma formulação da Trindade, e ainda assim eram salvos. Ainda é válido acrescentar que são inúmeras as passagens que anunciam a centralidade de Cristo para salvação e não da doutrina da Trindade. Em Romanos 10.9, lemos: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo“. Muito embora a divindade de Cristo e a ação de Deus seja demonstrada aqui, a centralidade da fé soteriológica repousa sobre Cristo. Nada é mencionado sobre a Pessoa do Espírito Santo aqui, e isso não impede que as pessoas que tomarem de serem salvas. Paulo quando lembra os Coríntios do evangelho que promove a salvação (1Co.15.1-2) ele faz claras declarações da Pessoa de Cristo (1Co.15.3-4) e algumas inferências ao Deus Pai e nenhuma citação do Espírito Santo. A própria apresentação de Paulo da Salvação em Efésios 2 apresenta a Deus como rico em misericórdia, amoroso (v.4), doador da vida por meio da graça juntamente com Cristo (v.5), e com Cristo ele ressuscita e faz assentar nas regiões celestiais em Cristo (v.6) como demonstração para o futuro da sua rica graça (v.7). Ou seja, muito embora a ação do Pai e do Filho esteja claramente anunciada, o Espírito Santo novamente não é mencionado. Por isso acredito que aqueles que tiveram acesso à essas informações apostólicas podem ter acesso a salvação sem conseguir sistematizar a doutrina da Trindade. Por isso, quando digo que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade penso na doutrina, no conteúdo da fé sistematizada, e não acredito haver fundamento para a salvação apenas pela fé trinitária.
- Isso me leva a considerar a uma última consideração: não é possível alguém ser salvo e rejeitar a Trindade. Isso é diferente do que não crer. Essa distinção é importante, pois não crer pode significar não ter tido acesso à doutrina formalizada, como deve ser o caso de diversas etnias indígenas, que embora tenham Cristo como Salvado não tiveram um conhecimento sistematizado da Trindade. Por outro lado, rejeitar implica em ter conhecimento, mesmo que inadequado, e ainda assim ter completa antipatia a ele. Esse é o caso do Harold Bloom, que por mais impressionado que possa ficar com o conceito da Trindade afirma que ele é um absurdo. Mas, então, por que a salvação não pode ser desfrutada por pessoas que rejeitam a Trindade? Por que é impossível rejeitar a Trindade sem diminuição das pessoas da Trindade e quando isso ocorre com a pessoa de Cristo, a salvação está invariavelmente perdida. Esse é o caso do Testemunha de Jeová, que por atribuir a Cristo uma posição não divina, não pré-existente acaba por ser enquadrado entre aqueles que “negam que Jesus é o Cristo” (1Jo.2.22) e que por isso não tem nem o Pai nem o Filho. Esse é o caso dos gnósticos do passado que negavam a encarnação do Logos (1Jo.4.2) e também são chamados de impostores (gr. antíchristos) e falsos profetas (gr. pseudoprofétes).
Portanto, ainda que a doutrina da Trindade tenha grande valor soteriológico, não creio que a doutrina sistematizada seja o cerne conteúdo da fé soteriológica. A centralidade do conteúdo da fé que leva à salvação está sobre a Pessoa de Cristo e Sua Obra.
[1] É bem apropriado lembrar que o livro não se enquadra na categoria de estudo. Ele é melhor categorizado como um ataque.
[2] BLOOM, Harold, Jesus e Javé. Pp.121
[3] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. Pp.79
[4] TILLICH, Paul, Teologia Sistemática. Pp.193-4.
[5] A definição de Tertuliano ainda parece bem equilibrada. No segundo capítulo da obra Contra Práxeas ele afirmou: “while the mystery of the dispensation is still guarded, which distributes the Unity into a Trinity, placing in their order the three Persons – the Father, the Son, and the Holy Ghost: three, however, not in condition, but in degree; not in substance, but in form; not in power, but in aspect; yet of one substance, and of one condition, and of one power, inasmuch as He is one God, from whom these degrees and forms and aspects are reckoned, under the name of the Father, and of the Son, and of the Holy Ghost“.
[6] Nova escola é uma expressão utilizada em referência a um modo de fazer teologia que ultrapassa os limites da fé (religiosa) e produz um novo modo de reflexão da divindade. Trata-se quase de uma visão humanista da religião e sua literatura sem qualquer compromisso com o aprendizado prático. Eventualmente é levada adiante por pessoas que rejeitam a idéia da divindade, ou que não afirmam haver relação entre o divino e o humano.
[7] GRUDEM, Wayne, Teologia Sistemática. Pp.169.
[8] EHRMAN, Bart, The Orthodox Corruption of the Scriptures. Pp.45
[9] EHRMAN, Bart, O que Jesus disse? O que Jesus não disse?. Pp. 91-2
[10] Sabélio foi um teólogo cristão, provavelmente nascido na Líbia ou Egito. Começou a tornar-se famoso quando foi para Roma e tornou-se líder daqueles que aceitaram a doutrina do monarquianismo modalista. Ele foi excomungado pelo Papa Calixto I no ano de 220.
[11] Vale a pena dizer que todas as concepções cristológicas não concordantes com o ensino apostólico também acabam por colocar em cheque a doutrina da Trindade. Seja pela exclusiva humanidade, ou divindade, ou pela má compreensão do relacionamento do Pai com o Filho, a doutrina da trindade também é ferida.
[12] Sobre Práxeas, Tertulianos disse: “Com isto Praxeas fez um duplo serviço para o diabo em Roma: ele desviou a profecia para longe e a trouxe em heresia; pôs em vôo o Paracleto [Espírito Santo] e crucificou o Pai“.
[13] Patripassionismo significa o sofrimento do Pai (patris – pai; passus – sofrer)
[14] Esse tipo de visão é apresentada no livro Jesus e Javé de Harold Bloom. Nesse livro Bloom afirma divindade parece ser vista como o Deus legislador do passado, na existência de Jesus na história e na presença do Espírito Santo no presente.
[15] Conceito diferente de unicistas, que apresentam uma doutrina mais parecida com o Modalismo de Sabélio do que o Unitarismo judaico.
[16] Fora da literatura paulina, vemos exemplos similares em 1Pe.1.2; Judas 20-21.
[17] GRUDEN, Wayne, Teologia Sistemática. Pp.170
[18] Veja também: Jo.14.16; 15.26; At.8.29; 13.2; 15.28; 16.7-8; Rm.8.16; 26-27; 1Co.2.10, 11; 12.11; Ef.4.30
[19] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. Pp.82.
[20] IN: BRANCOFT, Emery H., Teologia Elementar. Pp.43
[21] Idem.
[22] RYRIE, Charles, Bíblia Anotada.