04.28.09
Conceito de Redenção nas Escrituras
Bibliografia:
STOTT, A Cruz de Cristo; HARRIS, GLEASON, BRUCE, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento; COENEN, BROWN, O Novo Dicionário do Novo Testamento de Teologia; GRENZ, GURETZKI, NORDLING, Dicionário de Teologia; DOUGLAS, O Novo Dicionário da Bíblia; IRONSIDE, Grandes Vovábulos do Evangelho; TENNEY, The Pictorial Encyclopedia oj the Bible; GIRDLESTONE, Synonyms of the Old Testament; BUTTLER, Holman Bible Dictionary; EASTON, Easton’s Bible Dictionary; ORR, Internacional Standard Bible Encyclopedia; FAUSSET, Fausset’s Bilbe Dictionary; Léxicos: BDB Hebrew Lexicon; Friberg Greek Lexicon; Louw-Nida Greek Lexicon; Lidell-Scot Greek Lexicon; Thayer’s Greek Lexicon
Recentemente os símbolos tem sido grande foco de pesquisa e perguntas desde que Daniel Brown lançou o controvertido livro “O código da Vince” que fantasia a história de um professor de simbologia, Robert Langdon, que é acusado de assassinato no Louvre em Paris. Toda a trama policial, envolvendo idéias mirabolantes sobre o passado do cristianismo, é emoldurada por símbolos aparentemente desconexos. O autor deste romance aproveita do grande número de símbolos históricos para criar enigmas que serão solucionados a medida que os protagonistas compreendem o sentido primeiro de cada símbolo deixado.
O apreço por símbolos por parte do autor do livro fez com seus leitores ficassem intrigados com a profundidade de significado dos símbolos mais simples, e buscassem fontes fidedignas para comprovar seus significados. Por isso, os símbolos vieram a ter grande lugar na busca de significado na vida de muitas pessoas, tornado a simbologia uma ideologia comum entre muitos estudantes.
É bem verdade que símbolos não tem um significado único, mas conforme o tempo e a época, carregam um significado particular. Um exemplo disto é a flor de Lótus, que é normalmente associada ao budismo, mas já foi usada chineses, egípcios e hindus antigos. Contudo, apesar de sua variedade de significados, os símbolos sempre representam uma idéia central de determinado pensamento. E o cristianismo histórico não um exceção a esse fato.
Nos primeiros momentos da história do cristianismo, os cristãos adotaram o peixe como símbolo do cristianismo. Atualmente, alguns adesivos colados em carros, casas ainda levam esse símbolo. Mas qual é a razão da escolha desse símbolo?
Quando criança era muito curiosos, como a maioria das crianças, mas o meu desenvolvimento lógico era um pouco mais lento que o normal, e eu não conseguia entender a razão do peixe simbolizar a Jesus, como eu tinha ouvido falar em uma escola dominical. Certo dia ouvindo sobre a história da multiplicação dos pães, feita por Jesus, eu tive uma conclusão interessante: “Aqui está a resposta! O peixe que representa Jesus vem da multiplicação dos pães! O menino trouxe 2 peixes e 5 pães. E é lógico que o Peixe representa Jesus“.
Por certo essas não foram minhas palavras naquele dia, mas essa foi a conclusão que carreguei durante anos. Há pouco tempo atras eu compreendi o símbolo por trás do peixe escolhido pelos primeiros cristãos. Trata-se de um acróstico: “ichthus” que é a palavra grega para peixe foi assim demonstrada: “Iesus Christou Theou Huios Soter“, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A idéia é excelente, mas poucas pessoas poderiam compreender facilmente essa idéia.
Deve ser por isso que o símbolo mais conhecido do cristianismo e que o representa facilmente é a CRUZ. Contudo, “a escolha que os cristãos fizeram da cruz como simbolo de sua fé é tanto mais surpreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo[1]“. A crucificação sempre foi vista com horror pelo mundo antigo. Os gregos e romanos adotaram a crucificação, como pena capital, dos bárbaros, que eram caprichosamente cruéis em suas formas de execução. Para os romanos, a crucificação era aplicada somente a criminosos extremamente desumanos, para que pudessem sofrer muito antes de sua morte. Com a crucificação, era possível fazer com que o criminoso sofresse durante dias, e isso servia de ilustração para outros que tentassem trilhar o mesmo caminho. Então,
Por que razão o cristianismo escolheu a cruz?
Como já foi dito anteriormente, o símbolo é a expressão gráfica do cerne de uma idéia. E dessa forma, não haveria para o cristianismo outro símbolo tão apropriado quanto a cruz. A cruz em si, como acontecimento comum no antigo mundo romano, era deveras cruel. Era um símbolo de repulsa, medo, sofrimento e desprezo. Mas para o cristianismo é símbolo de vida e liberdade, pois representa a morte de Cristo. Com isso não negamos a crueldade com que foi executada, mas afirmamos o resultado obtido por essa morte.
A cruz, como evento histórico necessário, marca o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus:
- É na morte que a Obra Messiânica de Cristo é encerrada (Jo.19.30)
- É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3)
- A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como das suas boas obras (Tt.2.14)
- É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para a perdão dos pecados (Hb.9.15, 22; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14).
- É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12).
- É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24)
- Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)
De acordo com as colocações supracitadas, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se a cruz de Cristo, que representa Sua Morte em nosso favor. Aliás, cristianismo sem a cruz é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pois esta é o cerne de sua ideologia e fé. Se o que foi dito é verdadeiro, e o símbolo que deveria representar tal idéia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal para o Cristianismo.
E o que significa essa cruz senão nossa liberdade!? Nossa Redenção!? A remissão dos nosso pecados!? Comunhão com Deus!? É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de Jesus Cristo.
Cruz nos lembra a morte de Cristo, que nos garante a Redenção do pecado, que nos proporciona a perfeita vida eterna com Deus.
Com isso não estamos tentando minimizar nem a Vida nem a Ressureição de Cristo[2], que são igualmente essenciais para a expectativa e vida cristã. Mas, queremos enfatizar é que a Sua Morte é o cerne de Redenção administrada históricamente por Deus para a salvação da humanidade.
A.W Pink, quando escreveu o livro Deus é Soberano, adimitiu estar escrevendo um livro unilateral no que diz respeito ao relacionamento entre Deus e os homens no que tange a sua Soberana Administração e a volição dos homens dentro dessa Administração, pois estava interessado em enfatizar apenas o que diz respeito a Deus. No presente estudo, tenho interesse semelhante, pois quero tratar exclusivamente da morte de Cristo como cerne da Obra Redentora de Deus.
Contudo, para que isso seja corretamente exposto, teremos que passar pela História que envolve tal Obra, para, então, levantar sua realidade e aplicação. Para tanto, precisaremos passar por uma fase inicial de conceituação da Obra Redentora, observar termos envolvidos na literatura bíblica, observar algumas opiniões teológicas na história da teologia cristã, para então levantarmos um conceito aplicável para a realidade bíblica.
Conceito de Redenção
A palavra Redenção em si tem diversas definições, devido a sua origem. O Dicionário de Teologia de Grenz, Guretzki e Fee Nordling traz a seguinte definição: “Redenção é o processo pelo qual o homem pecador é resgatado da prisão do pecado e entra num relacionamento com Deus por meio de sua Graça e do pagamento feito na morte de Jesus. A redenção é uma das figuras metafóricas que o Novo Testamento usa para explicar a obra salvadora e misericordiosa de Deus em Jesus“.
Alguns pontos são notáveis em tal definição:
- Reconhecimento da Redenção como um Processo: Embora o reconhecimento seja ainda primário e pouco explorado, o conceito em si é bem colocado. O que tal definição expressa até aqui, é que existe uma progressão na vida do homem para que compreenda a verdade sobre Cristo e se aproprie dela.
- Reconhecimento do Pecado no homem como prisão: A idéia do pecado como prisão expõe em simples palavras a realidade da vida do homem. Como Jesus mesmo já afirmou, “todo que vive pecando é escravo do pecado” (Jo.8.34)
- Exaltaçã da Graça de Deus: A Graça de Deus não poderia ter sido deixada de lado quando falamos da Eterna Redenção que nos oferece em Cristo Jesus.
- Reconhecimento da Morte de Cristo como pagamento: Esse ponto é essencial para conceituação de Redenção. Sem tal premissa, toda definição estaria errada.
Contudo, não podemos considerar tal definição como suficiente. O autor dessa definição, por certo, não considerou as declarações que o Velho Testamento tem a dizer sobre o assunto. Sem contar que cre que o termo em pauta seja um figura metafórica utilizada no Novo Testamento. Tal colocação tende a minimizar o sentido original e básico do termo, e por certo sua aplicação pode ser assim, igualmente, minimizada.
Portanto, para uma compreensão e definição plausível e adequada, é necessário compreender os vocábulos envolvidos na literatura bíblica.
Definição Léxica
A redenção é objeto de estudo de critãos há muito tempo. Muito teólogos já se dedicaram a pesquisar e levantar questões bíblicas sobre o assunto. H.A. Ironside, foi um desses, e escreveu o excelente livro “Os grandes vocábulos do Evangelho, e em sua abordagem, Ironside faz a seguinte colocação sobre o termo em pauta: “A palavra ‘Redenção’ atravessa a Bíblia de capa a capa; de fato, podemos dizer sem qualquer sugestão de hipérbole que este é o grande e notável temo das escrituras Sagradas (…) Por toda parte, do Gênesis ao Apocalipse, encontramos Deus, de um modo ou de outro, a apresentar-nos a verdade da redenção – redenção em promessa e em tipo, no Antigo Testamento; redenção em gloriosos cumprimento no Novo Testamento[3]“.
Segundo Ironside, redenção refere-se ao ato da compra de algo que fora seu, readquirir algo que foi retirado temporariamente de seu poder. Pode ser empregado também como Liberdade, libertar, livrar, no sentido de redimir alguém que corria grave perigo.
Tal referência feita por Ironside, está em consonância com a maioria dos comentaristas e teólogos bíblicos. M.G. Easton, autor do Easton’s Bible Dictionary, concorda com Ironside e complementa que tal recuperação exige pagamento adequado[4]. Ray Summers, que participa da elaboração do Holman Bible Dictionary, nos lembra que “no uso antigo da idéia e das palavras apontam para uso de atividades legais e comerciais. Elas proporcionam aos escritores bíblicos uma das mais básicas e dinamicas imagens para descrever a atividade de Deus em salvar a humanidade[5]“.
Seguindo essas colocaçãoes sobre o assunto, vamos observar com mais atenção, o que a Bíblia tem a nos informar sobre o assunto. A idéia é buscar o conceito sendo exposto no Velho e no Novo Testamento..
Velho Testamento
O livro International Standard Bible Encyclopedia, organizado por Jamer Orr, diz que “a idéia de redenção no Antigo Testamento tem início a partir do conceito de propriedade (Lv.25.26; Rt.4.4ss)[6]“. Um preço era pago em dinheiro, em conformidade com a Lei, para comprar novamente uma propriedade que necessitasse ser libertada ou resgatada (Nm.3.51; Ne.5.8). E a partir deste uso, o termo no Antigo Testamento é usada normalmente com um senso de libertação, embora o idéia de pagamento esteja presente.
Nesse mesmo sentido levantado, Deus é visto como o Redentor de Israel, pois é aquele que provê Libertação para seu povo. Em Dt.9.26 temos uma bela demonstração desse fato: “Ó Soberano Senhor, não destruas o teu povo, tua própria herança! Tu o redimiste com a tua grandeza e o tiraste da terra do Egito com mão poderosa“. Como podemos observar, Deus é visto pelo escritor sagrado como “Aquele que Liberta“. Redenção aqui é vista exatamente neste sentido, e a história da saída do povo do Egito é a prova definitiva desse sentido. Obeserve:
E quem é como Israel, o teu povo, a única nação da terra que tú, ó Deus, resgataste para dela fazerdes um povo para ti mesmo, e assim tornaste o teu nome famoso, realizaste grandes maravilhas ao expulsar nações e seus deuses de diante desta mesma nação que libertaste do Egito? (2Sm.7.23)
Observe que os termos em destaque reportam-se ao termo hebraico “padâ“, que ainda será conceituado no presente estudo. Portanto, não podemos negar que o conceito de Redenção no Velho Testamento denota o sentido de libertar, e normalmente é vista em benefício do povo de Deus (1Cr,17.21 Is.52.3). A idéia de “Redenção” inclui a libertação de todas as formas de mal (Is.52.9; 63.9 cf. Lc.2.38), ou pragas (Sl.78.35, 52) ou qualquer tipo de calamidade (Gn.48.16; Nm.25.4, 9).
O Velho Testamento também apresenta a figura do homem endividado que poderia hipotecar seus bens para conseguir pagar o que estava devendo. Se porventura, ainda não fosse suficiente ele poderia hipotecar sua força, suas habilidades como um escravo até que sua dívida fosse paga: “Depois de haver-se vendido, haverá ainda resgate para ele” (Lv.25.48). Um irmão poderia, se tivesse condições, redimi-lo, mas não era o que normalmente aconteceria. Outra maneira de redimir esse homem seria se ele herdasse subitamente uma propriedade para, então, pagar sua dívida. Contudo, existe ainda outra possibilidade, e essa merece nossa atenção: É a figura do Redentor Parente. O redentor parente seria alguém com capacidade para remi-lo, e que se “preocupasse suficientemente por ele, a ponto de responsabilizar-se pelas dívidas e as solvesse, então poderia ser libertado[7]“.
Como podemos ver, a idéia de rendenção do Velho Testamento é bem sólida, baseada em fatos concreto. Contudo, para uma compreensão mais abrangente e coesa, é necessário conhecer os termos hebraicos envolviudos nesse contexto.
O Velho Testamento Hebraico utiliza os seguintes vocábulos para conceituar o que o Latim, língua materna do Português, chamou de “redemptio”, o Inglês de “redemption” e o português de “redenção“:
ga’al[8]
Gn. 48:16; Ex. 6:6; 15:13; Lv. 25:25f, 30, 33, 48, 54; 27:13, 15, 19, 27, 31, 33; Nm. 5:8; 35:12, 19, 21, 24, 27; Dt. 19:6, 12; Js.20:3, 5, 9; Rh 2:20; 3:9, 12; 4:1, 3, 6, 8, 14; 2 Sm. 14:11; 1 Re. 16:11; Ed. 2:62; Ne. 7:64; Jò 3:5; 19:25; Sl. 19:15; 69:19; 72:14; 74:2; 77:16; 78:35; 103:4; 106:10; 107:2; 119:154; Pv. 23:11; Is. 35:9; 41:14; 43:1, 14; 44:6, 22; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 26; 51:10; 52:3, 9; 54:5, 8; 59:3, 20; 60:16; 62:12; 63:3, 9, 16; Jr. 31:11; 50:34; Lm. 3:58; 4:14; Dn. 1:8; Os. 13:14; Mc. 4:10; Zc. 3:1; Ml. 1:7, 12
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, de Harris, Archer Jr., e Waltke, o termo significa basicamente “Redimir, vingar, resgatar, livrar, cumprir o papel de resgatador[9]“. Este verbete é o verbo denominativo, que dá origem a outros termos, tal como “geûllay” (que aparece uma única vez em Is.63.4 – redenção), “geûllâ” (direito de redenção, preço de redenção) e “go’el” (redentor).
O Velho Testamento utilza o termo em quatro situações distintas: (1) É usada na legislação do Pentateuco para se referir ao resgate de um campo que for a vendido em tempos de necessidade (Lv.25.25), ou ao escravo que se vendera em termos de miséria (Lv.25.48); (2) Diz respeito a propriedades e animais, que não eram dedicados ao sacrifício ao Senhor ou eram primogênitos de animais imundos (Lv.27.11ss) que poderiam ser resgatadas por um homem que pudesse dar algo equivalente em troca, embora o preço do resgate fosse maior, para evitar trocas desonestas; (3) Refere-se, também, ao “vingador de sangue“, que era o parente mais próximo de um homem assassinado (Nm.35.12ss). Como nas relações comerciais, era necessário um valor equivalente para que uma propriedade ou escravo fossem resgatados, neste caso, de vida retirada, com a vida do assassino seria paga, visto que o parente mais próximo é o “vingador de sangue“. Neste caso, o “redentor” é um executor da pena capital, mas sem culpa para receber mesma punição; (4) Um outro uso muito comum nos Salmos e nos profetas, é a identificação de Deus como Redentor de Israel. Neste caso, o preço da redenção não é citado, embora a idéia de julgamento sobre os inimigos de Israel seja citado em Is.43.1-3.
Um uso interessante do termo está lançado em Prv.23.10-11: “Não removas os marcos antigos, nem entres nos campos dos órfãos, porque o seu Vingador é forte e lhes pleiteará a causa contra ti“. Como é evidente pelo uso de letra maiúscula na tradução da ARA, o Vingador referido é Deus. A NVI traz a idéia de “aquele que defende” de maneira um pouco superficial, embora a colocação seja aceitável do ponto de vista léxico. A versão inglesa New International Version, traz a idéia de “Defensor”, enquanto a King James Version traz “Redentor”. Segundo Girdlestone “Deus assume o lugar de redentor-parente e também de vingador do pobre e necessitado“. Todas astraduções expostas levantam um aspecto do termo “goel“, sendo que é possível, diante de fartas opções, compreender o seu significado. Portanto, o que vemos neste texto é que existe uma combinação de sentidos de “goel“, que expõe de maneira clara o seu significado[10].
O texto clássico sobre redenção está em Jó.19.25: “Por que eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra“. Alguns cristãos do passado o assinalaram como uma referência à vinda de Cristo em sua obra messiânica, o que seria uma grande colocação. Contudo, considerando o argumento do proprio livro, e a situação de Jó, seria mais correto crer que faça referência a Deus, que, como amigo e parente resgatador, por meio da fé, por fim redimiria Jó do pó da terra. Por outro lado, não podemos negar que existe uma relação profética deste texto, com a Obra Messiânica realizada por Cristo.
padâ[11]:
Ex. 13:13, 15; 21:8; 34:20; Lv. 19:20; 27:27, 29; Nm. 3:49; 18:15ss; Dt. 7:8; 9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18; 1 Sm. 14:45; 2 Sm. 4:9; 7:23; 1 Re. 1:29; 1 Cr. 17:21; Ne. 1:10; Jo 5:20; 6:23; 33:28; Sl. 25:22; 26:11; 31:6; 34:23; 44:27; 49:8, 16; 55:19; 69:19; 71:23; 78:42; 119:134; 130:8; Is. 1:27; 29:22; 35:10; 51:11; Jr. 15:21; 31:11; Os. 7:13; 13:14; Mc. 6:4; Zc. 10:8
O Dicionário Internacional de Teologia traz a seguinte colocação sobre o termo “padâ“: “O sentido básico é o de conseguir a transferência de propriedade de uma pessoa para outra mediante pagamento apropriado de uma quantia ou de um substituto equivalente. A raiz ocorre em assírio com o sentido de ‘poupar’, e em ugartico é mais usada com o significado de ‘resgatar’. A raiz e seus derivados aparecem 69 vezes no AT[12]“.
O termo em pauta é um dos termos mais significativos para a idéia de “Redenção” do ponto de vista cristão, porque recebe influências históricas. No Êxodo o termo é usado em relação a redenção dos primogênitos de Israel, que são popado por substituição, enquanto os primogênitos do Egito são mortos (Ex.12.13, 15). Naquela ocasião, Deus livrou Israel da servidão pelo preço da morte de todos os primogênitos do Egito, sejam eles humanos ou animais (Ex.4.23; 12.29). O termo também é utilizado em relação ao leviatas e seus animais, que deveriam ser separados para Deus, em lugar do povo e de seus animais (Nm.3.44ss), que não eram dedicados aos Senhor (Ex.13.11-16; 34.19-20; Nm.18.8-32). “Aquilo que era santo para o Senhor, i.e., o primogênito de vaca, ovelha e cabra, não seria resgatado[13]“.
Um texto que merece nossa atenção aqui é Dt.15.15: “Lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito e de que o SENHOR, teu Deus, te remiu; pelo que, hoje, isso te ordeno“. Israel também é visto como receptor da libertação proposta por Deus. Portanto, o termo não trata exclusivamente da questão legal ou religiosa do povo de Israel, mas é aplicado à Obra de Deus em relação a seu povo. Tal idéia, ainda será exposta em outras épocas.
Em 2Sm.7.23 vemos uma colocação importantíssima: “Quem há como o teu povo, como Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo? E para fazer a ti mesmo um nome e fazer a teu povo estas grandes e tremendas coisas, para a tua terra, diante do teu povo, que tu resgataste do Egito, desterrando as nações e seus deuses“. O reconhecimento sobre o privilégio da nação de Israel é vista historicamente como consequência da Redenção de Deus, ou seja, da libertação do povo.
Inclusive, Isaías parece interpretar o chamado de Abraão como um ato remidor da parte de Deus: “Portanto, acerca da casa de Jacó, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão: Jacó já não será envergonhado, nem mais se empalidecerá o seu rosto“. Com mesma visão, anteviu aquil que Deus lhe revelara sobre o futuro de Sião: “Os resgatados do SENHOR voltarão e virão a Sião com cânticos de júbilo; alegria eterna coroará a sua cabeça; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido” (Is.35.10; cf. 50.2; 51.11; Zc.10.8).
Como “ga’al”, “padâ” é aplciado a diversasa situações, principalmente nos Salmos. Deus é apresentado como aquele que “liberta, redimi” os homens de algum perigo (Sl.26.11; 31.5; 34.22-23; 44.26; 71.23) ou das mãos de opressores (Sl.55.18-19; 69.18-19). Nesse contexto vemos que os Salmos ensinam a insuficiência do homem diante da morte, visto não poder fazer nada perante ela (Sl.49.8-9), mas demonstra que o poder redentor de Deus não está limitado a ela (v.15-16).
O mais interessante no uso deste termo é que uma única vez é utilizado em referência ao pecado: “Espere Israel no SENHOR, pois no SENHOR há misericórdia; nele, copiosa redenção. É ele quem redime a Israel de todas as suas iniqüidades” (Sl.130.8-9).
kapar:
Gn.32:21; Ex. 29:33, 36; 30:10, 15; 32:30; Lv. 1:4; 4:20, 26, 31, 35; 5:6, 10, 13, 16, 18, 26; 6:23; 7:7; 8:15, 34; 9:7; 10:17; 12:7f; 14:18ss, 29, 31, 53; 15:15, 30; 16:6, 10, 16, 20, 24, 27, 30, 32; 17:11; 19:22; 23:28; Nm. 5:8; 6:11; 8:12, 19, 21; 15:25, 28; 17:11f; 25:13; 28:22, 30; 29:5; 31:50; 35:33; Deut. 21:8; 32:43; 1 Sm. 3:14; 2 Sm. 21:3; 1 Cr. 6:34; 2 Cr. 29:24; 30:18; Ne. 10:34; Sl. 65:4; 78:38; 79:9; Pv. 16:6, 14; Is. 6:7; 22:14; 27:9; 28:18; 47:11; Jr. 18:23; Ez. 16:63; 43:20, 26; 45:15, 17, 20; Dn. 9:24 Is. 43:3; Am 5:12
Esse termo é o verbo denominativo dá origem a termos como “koper” (resgate, dádiva para obter favor), “kippur” (expiação) e “kapporet” (propiciatório, local da expiação). Embora exista muita discução sobre a raiz desse termo, alguns comentários devem ser elaborados. R. Laird Harris, no Dicionário Internacional de Teologia, diz que “a raiz kapar é usada cerca de 150 vezes. Tem sido objeto de intensos debates. Existe uma raíz árabe equivalente que significa ‘cobrir’ ou ‘ocultar[14]‘“. Girdlestone nos informa que o termo árabe mencionado pelo DITAT é “Kephr“[15], e que o sentido original é de se coberto ou protegido. Nos diz também que o termo tem 3 usos distintos do sentido original em hebraico mencionado acima: (1) Pode significar um vila, povoado, aldeia (Kaper-naum = Cafarnaum = vila de Naum; cf. 1Cr.27.25; Ct.7.12); (2) Pode referir-se a um planta (Ct.1.14; 4.13); e (3) pode significar calafetar com betume (Gn.6.14).
O conceito de “pecado coberto” é normalmente abordado por estudiosos da teologia sistemática, tal como Chafer, que diz que “a economia divina com respeito à disposição de tais pecados, representados nos sacrifícios de animais durante o extenso período entre Abel e Cristo, foi a de cobrir, como mostra a raiz hebraica kaphar, traduzida como expiação[16]“. Continuando seu raciocínio diz que o termo em pauta expressa com exatidão divina o conceito de cobrir. O International Standard Encyclopedia complementa, ainda, afirmando que o termo significa não apenas cobrir, mas também “cancelar, aplacar, oferecer ou receber uma oferta pelo pecado[17]“. O Holman Bible Dictionary contribui ao afirmar que “kapar” “é usado em conceitos e práticas estritamente religiosas. É da palavra “Kippur” que se origina “Yom Kippur”, dia da expiação, ou ‘dia de cobrir’, talvez o mais sagrado dos dias santos no Judaísmo. A forma verbal no Velho Testamento sempre é usada com um senso religioso de cobrir o pecado ou efetuar pagamento pelo pecado. Porém, a forma substantiva às vezes é usada no sentido secular de um suborno (Am. 5:12) ou resgate (Ex. 21:30). Com ‘padâ’, é usado no senso de resgate[18]“.
De fato, não podemos negar o que a escritura nos ensina sobre a morte expiatória de Cristo (sobre a morte de Cristo ser eficiente aos pecados cometidos antes de sua vinda ver At.17.30; Rm.3.26; Hb.9.15). Segue-se que o termo pode auxiliar na compreensão do conceito de “expiação“, como é visto por todo Velho Testamento. Portanto, concluímos que, apesar da dificuldade de identificação da aplicação do termo para a teologia do Velho Testamento, o termo é utilizado teologicamente com o conceito de “cobrir” os pecados (sobre essa conclusão, ver ISBE no tópico “The English Word”). Enfim, após algumas considerações etimológicas de aplicação teológica, vamos considerar o que o termo “Kapar” e suas variante podem nos auxiliar na compreensão de Redenção no Antigo Testamento.
Em Gn.32.20 vemo um uso interessante do termo “kapar”, pois a ARA traduziu o termo como “aplacar”, a NVI como “apaziguar” e a versão da Alfalit Brasil, como “perdoar”. O contexto é a reconciliação entre Jacó e Esaú, e um presente foi envidado adiante de Jacó, pois pensava que fazendo o presente chegar antes dele, seu irmão o perdoaria. O termo é usado neste contexto, e sua aplicação em português é bem vista com qualquer uma das possibilidades destacadas.
As sete ocorrências do termo em Exodo, seis são utilizadas na ARA com sentido de “expiação” e uma como “propiciação” (Ex.32.30). Em Levítico a maioria dos casos é traduzido como “expiação“. Em Nm.5.8 vemos outro uso que merece nossa atenção. A ARA traz a seguinte tradução: “Mas, se esse homem não tiver parente chegado, a quem possa fazer restituição pela culpa, então, o que se restitui ao SENHOR pela culpa será do sacerdote, além do carneiro expiatório com que se fizer expiação pelo culpado“. O termo “kapar” é traduzido pelo termo sublinhado no texto, mas o seu conceito é expresso pela colocação em negrito no texto. Ou seja, o bode expiatório, que era oferecido para morrer, tinha a função de “fazer restituição pela culpa“. Portanto, podemos notar que o sentido mais clássico do termo em relação a Teologia do Velho Testamento diz respeito a preço pago em favor de um débito. Deve-se lembrar que tal conceito aplica-se, não a dívida financeira, mas religiosa. Note os versos anteriores: “Dize aos filhos de Israel: Quando homem ou mulher cometer algum dos pecados em que caem os homens, ofendendo ao SENHOR, tal pessoa é culpada. Confessará o pecado que cometer; e, pela culpa, fará plena restituição, e lhe acrescentará a sua quinta parte, e dará tudo àquele contra quem se fez culpado” (v.6, 7).
Dos termos do Velho Testamento, o mais significativo em termos religiosos é “Kapar”. Sem sombra de dúvidas, o conceito de “expiação” é inexoravelmente ligado ao pecado. Uma simples abordagem de Levíticos deixará isso mais que evidente. A idéia de débito acompanhado pelo perdão é claramente observada na literatura vétero-testamentária. Observe a chamada de Isaías: “Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado” (Is.6.7; cf. Nm.15.28; Sl.653; 78.38; 2Cr.30.18-19).
Como pudemos ver, a idéia de Redenção exposta no Velho Testamento é concentrada em conceitos concretos e aplicada a práticas civis e religiosas. Entretanto, a idéia de preço adequado pago em função de um débito sempre está presente, bem como a idéia de substituição para essa reconstituição. Sobre o assunto, o Holman Bible Dictionary diz que “a doutrina de redenção no Velho Testamento não é derivada de pensamento filosófico abstrato, mas do pensamento concreto hebreu“. E isto foi bem observado em nossa exposição.
Novo Testamento
O Novo Testamento, ao contrário do Antigo, tráz conceitos mais claros para os cristãos mas, não perde de vista seu significado original. Como sabemos, o Novo Testamento aplica eficazmente o conceito vétero-testamentário à Jesus Cristo, como o Redentor do homem. Sobre isso, Ray Summers diz que “o Novo Testamento centra a redenção em Jesus Cristo. Ele comprou a Igreja com seu póprio sangue (At.20.28), deu-se pela vida do mundo (Jo.6.51), como Bom Pastor deu sua Vida por suas ovelhas (Jo.10.11) e demonstrou seu grande amor dando sua vida por seus amigos (Jo.15.13). O propósito de Jesus na terra foi realizar um sacrificío de Si mesmo para libertação do homem do pecado[19]“. Isso parece estar em concordancia com Merril C. Tenney, quando diz que “o coração da mensagem bíblica da redenção é a libertação do povo de Deus do domínio do pecado por meio do sacrifício substitutivo de Jesus Cristo e a sua consequente reconciliação com Deus e Seu Reino Celeste[20]“.
Diante das colocações neo-testamentárias, não podemos nos esquecer que tal sacrifício de Cristo em favor do homem é a maior prova da incapacidade do homem de libertar-se, por seu mérito ou capacidade, do pecado. Ironside, concorda com essa colocação, e diz que “não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humano[21]“. Ao tratarmos o assunto de Redenção no Novo Testamento temos que resgatar o sentido de deficiência humana perante Deus, em função do seu pecado. Não existem méritos no homem que o façam merecer o Sacrifício de Cristo. Não podemos retirar os perfeitos méritos de Cristo da questão. Sobre isso o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, organizado por Colin Brown, nos informa que:
“Sempre que os homens, por sua própria culpa ou através de algum poder superior ficam submetidos ao controle de outra pessoa, e perdem sua liberdade para implementar a vontade e as suas decisões, e quando seus próprios recursos são inadequados para enfrentar aquele outro poder, podem obter de novo sua liberdade somente mediante intervenção de um terceiro. No NT, conforme o aspecto encarado, o grupo de palavras gregas associado com lyo, sozo, rhyomai, é empregado para expressar semehante intervenção (…) No NT, estes termos se empregam de modo preeminente para a obra redentora de Cristo[22]” (grifo do autor).
J.D. Douglas acrescenta muito ao nosso estudo ao nos demonstrar uma outra perspectiva sobre a Redenção, ao dizer que “a redenção não somente lança os olhos de volta para o calvário, mas também comptempla a liberdade na qual se encontram os redimidos. [23]“. A idéia de liberdade após pagamento não deve ser deixada aqui. Aliás, tal conceito é necessário ser compreendido de maneira correta para que a Salvação oferecida por Jesus Cristo não seja mal interpretada. Lembre-se: quando Jesus disse, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo.8.32), os que o ouviram ficaram indignados por não conhecerem sua real situação diante de Deus, por isso Jesus acrescentou: “em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo.8.34). Apenas a verdade pode libertar o homem das amarras do pecado, e Jesus Cristo é a Verdade (Jo.14.6).
Para um compreensão maisq adequada da Redenção, vamos observar os termo envonvidos com esse conceito na Literatura do Novo Testamento:
lyo:
NT: Matt. 5:19; 16:19; 18:18; 21:2; Mk. 1:7; 7:35; 11:2, 4; Lk. 3:16; 13:15f; 19:30f, 33; Jn. 1:27; 2:19; 5:18; 7:23; 10:35; 11:44; Acts 2:24; 7:33; 13:25, 43; 22:30; 27:41; 1 Co. 7:27; Eph. 2:14; 2 Pet. 3:10ff; 1 Jn. 3:8; Rev. 1:5; 5:2; 9:14f; 20:3, 7; LXX: Gen. 42:27; Exod. 3:5; Jos. 5:15; Ps. 101:21; 104:20; 145:7; Job 5:20; 39:2, 5; 42:9; Isa. 5:27; 14:17; 40:2; 58:6; Jer. 47:4; Dan. 3:92; Apócrifos: 1 Es. 1:52; 9:13, 46; Jdt. 6:14; 9:2; Tbs. 3:17; 3 Ma. 1:4; 6:27, 29; 4 ma. 3:11; 7:13; 12:8f; Sir. 28:2; Dat. 3:92; 5:12
To termo Iyo significa basicamente “soltar, desligar, livrar, libertar, anular, abolir”, e como verbo denominativo dá origem a Iysis (soltura, divórcio), katalyo (quarto de visitas), akatalytos (indestrutível), eklyo (ficar solto, ficar cansado, ficar fraco), apolyo (livrar, libertar, soltar, perdoar, deixar ir, mandar embora, demitir, divorciar). Cada um dos termos derivados de Iyo é encontrado na LXX, o que atribui grande valor etimológico-conceitual ao termo em pauta no que tange ao conceito de Redenção.
Antes de observar como esse termo foi utilizado na LXX, é válido observar seu uso anterior à tradução da Torá para o grego, ou seja, é preciso ressaltar os usos do Grego Clássico. Na Odisséia, Homero utiliza o vocábulo com sentido da salvação oferecida pelos deuses aos homens, contudo sem nenhuma ligação com o conceito de pecado, demérito, ou inabilidade do homem em alcançá-la (Od.5, 397; 13, 321). Em outros autores, o conceito mais encontrado é “soltar” ou “libertar”. Portanto, a conclusão que pode-se auferir aqui é que a Etimologia de Iyo é vista fora da literatura bíblica está em harmonia com os usos bíblicos.
Na tradução da LXX o termo é visto algumas, mas em tradução a 7 diferentes termos hebraicos carregando sempre alguma idéia de “soltar” (cf. Ex.3 5; Js.5. 15 – referente a sandálias; Dn.3.9; 5.12 – resolver dificuldades; entre várias outras ocorrências). Entretanto, um texto deve ser vislumbrado aqui: Is.40.2: “Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pesados”. Aqui vemo o uso mais claro no VT referente a redenção. A idéia de perdão do termo Iyo é percebida pela tradução de rasah (heb), que significa ser favorável, perdoar, favorecer. A LXX faz a aplicação conceito do termo no sentido de libertar ou deixar ir a culpa pela iniquidade. Ou seja, o conceito do termo carrega a idéia de iniquidade como dívida ou débito, e que para que ela seja quitada é necessário ser liberto ou perdoado, como vemos no texto acima.
Outro texto que merece nossa atenção aqui é Jó. 19.25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”[24]. A idéia primária do texto está posta sobre Deus como Vindicador, visto não apresentar claramente a idéia de libertação do Sheol, mas da ajuda durante sua vida e resgate da justiça perdida. Neste ponto é clara a utilização de Iyo para traduzir go’el, com a intenção de apresentar o Resgate efetuado por Deus. Isso efetivamente acontece conforma exposto pelo cap.41 do livro de Jó.
Em Salmos vemos um texto que deve ser também analisado aqui: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu” (Sl.19.14). Aqui vemos a clara identificação de Deus como Redentor, ou seja, aquele que liberta. Novamente a idéia de Remidor parente está conceituada por Iyo na LXX.
No NT vemos o termo sendo aplicado em diversas ocasiões, tais como desatar a sandália (Mc.1.7; Lc.3.16; Jo.1.27; At.13.25; At.7.33 em relação a Ex.3.5), soltar o filhote da jumenta (Mt.21.2; Mc.11.2, 4-5; Lc.19.30-31, 33), soltar as cadeias de Paulo (At.22.30), desatar as ataduras de Lázaro (Jo. 1 1 .44), entre outros. Na verdade, o termo em paute é utilizado com quatro sentidos básico: (1) Libertar, Desligar, e é aplicado a Anjos (Ap.9. 14-15) e a Satanás (Ap.20.3, 7); (2) Em Lc.13 15-16 Jesus apresenta o conceito de libertar alguém de um problema espiritual (doença), que neste caso trata-se de um espírito de enfermidade. Sentido semelhante é visto em Mc.7 35; (3) Quebrar, desfazer (At.13.43), destruir (At.27.41); (4) Soltar, livrar da morte e do pecado (At.2.24; Ap.1.5) Em At.2.24 vemos que a ressurreição de Jesus rompeu os grilhões da morte, e em Ap.1.5 que o seus sangue nos libertou dos nossos pecados (cf.Ap.5.9; 7.14).
lytron:
NT: Mt. 20:28; Mc. 10:45; Lc. 24:21; Tt. 2:14; 1 Pe.1:18; LXX: Aparições como Verbo: Ex. 6:6; 13:13, 15; 15:13; 34:20; Lv. 19:20; 25:25, 30, 33, 48, 54; 27:13, 15, 19, 27, 31, 33; Nm. 18:15, 17; Dt. 7:8; 9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18; 2 Sm. 4:9; 7:23; 1 Re. 1:29; 1 Cr. 17:21; Ne. 1:10; Et. 4:17; Sl. 7:3; 24:22; 25:11; 30:6; 31:7; 33:23; 43:27; 48:8, 16; 54:19; 58:2; 68:19; 70:23; 71:14; 73:2; 76:16; 77:42; 102:4; 105:10; 106:2; 118:134, 154; 129:8; 135:24; 143:10; Pv. 23:11; Os. 7:13; 13:14; Mq. 4:10; 6:4; Sf. 3:15; Zc. 10:8; Is. 35:9; 41:14; 43:1, 14; 44:22ss; 51:11; 52:3; 62:12; 63:9; Jr. 15:21; 27:34; 38:11; Lm. 3:58; 5:8; Dn. 3:88; 4:27; 6:28; Apraições como substantivo: Ex. 21:30; 30:12; Lv. 19:20; 25:24, 26, 51; 27:31; Nm. 3:12, 46, 48, 51; 18:15; 35:31s; Pv. 6:35; 13:8; Is. 45:13; Apócrifos: 1 Macabeus. 4:11; As Odes de Salomão 1:13; Siraque. 48:20; 49:10; 50:24; 51:2; Salmos de Salomão 8:11, 30; 9:1; Adições a História de Daniel. 4:27
O termo tem grande significação na sua conceituação por sua imensa aparição na Versão Grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX). De fato, no Novo Testamento não faz mais que 5 manifestações sobre o termo[25], tanto na forma substantiva como verbal. A grande maioria das aparições de “lutron” são efetuadas na LXX, conforme podemos constatar acima. Nos livros apócrifos, que fazem parte da LXX, podemos notar o uso na forma verbal, o que evidencia que tipo de significado o termo carregava na época do seu uso. Um detalhe interessante é que apenas três vezes aparece no singular (Lv.27.31; Pv.6.35; 13.8), o resto está sempre no plural. Segundo o DITNT o sufixo tron traz a idéia de “instrumento ou meio mediante o qual se leva a efeito a ação do verbo, isto é, por meio da soltura, ou o pagamento[26].
Na Literatura Grega fora do NT, chamado Grego Clássico, encontramos comum uso de lytron em Platão, Xenofontes, Pindar e outros, com o sentido de “liberar alguém da miséria e da penalidade dos seus erros[27]“. Segundo Brown, o termo em pauta é utilizado fora da literatura bíblica desde o século V, as sua variante antilytron é apenas pós-bíblico. Os termos lytrosis e apolytrosis são raros e achados pela primeira vez no século primeiro. Contudo, a idéia de lytotes, redentor, não é encontrado fora da literatura bíblica. Portanto, notamos o valor do termo dentro da perspectiva teológica dos escritores neotestamentários e dos tradutores da LXX. Por certo tal termo tem significado importantíssimo para o conceito de redenção dentro da expectativa messiânica.
Na LXX[28] lytron traduz o termo hebraico kopper (cobir) em Ex.21.30; 30.12; Nm.31, 32; Pv.6.35; 13.8, com o sentido de oferta em troca por uma vida que está condenada ou está sujeita a castido divino. Traduz também alguns termos variantes de padâ (resgatar, redimir) como podemos observar em Nm.3.46-51. Em Lv.19.20 e Nm.18.35, onde vemos claramente o sentido da ação da redenção, bem como seu preço que deve ser pago aos primogênitos dos homens e dos animais que pertencem a Deus (sacrifício de um animal: Ex.13.13, 15; 34.20; pagamento em dinheiro: Ex.30. 13-16; Nm.18.15-16). Também traduz ga’al no caso do parente que tinha o direito e a obrigação de agir como redentor-parente (Lv.25.24, 26, 51-52). O sentido mais comum do termo pode ser percebido em Jr 32.7: “Eis que Hananel, filho de teu tio Salum, virá a ti, dizendo: Compra o meu campo que está em Anatote, pois a ti, a quem pertence o direito de resgate, compete comprá-lo” A princípio, o termo não tem aplicação religiosa, mas legal e civil.
No NT as declarações são mais claras e diretas, observe: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos[29]” (Mt.20.28; Mc.10.45; cf 1Tm.2.6[30]). A declaração de Jesus é feita em um contexto de liderança, quando Jesus apresenta o conceito de que veio para servir (cf. Lc.22.27). Aliás o foco é o serviço, mas Ele complemento com a expressão “dar sua vida em resgate de muitos”. Ao que tudo indica, parte de serviço de Cristo foi oferecer-se a Deus como pagamento efetivo da divida do homem perante Deus.
Neste texto vemos que o papel de Cristo em grego é desempenhado pelo vocábulo lytron, que seria um correspondente direto do grupo hebraico kipper. Assim concluímos que a morte de Cristo como resgate tem um aspecto propiciatório, bem como libertador. “Os muitos são livrados não somente da culpa, como também, ao mesmo tempo, das suas conseqüências, a morte e o julgamentos[31]“. Tal aspecto libertador acha paralelo na ocasião da Páscoa, em que o Povo de Deus foi liberto pelo sacrifício de um Cordeiro sem mácula. Assim, a conclusão levantada na Páscoa sobre o sacrifício ser anterior a liberdade, acha aqui seu ápice.
A pergunta feita por Cristo em Mc.8.37 (“Que daria um homem em troca de sua alma?”)parece ser satisfatoriamente respondida em Mc.10.45. Alias, é um contraste marcante com o texto apócrifo de Enoque 98.10: “E agora, sabei que fostes preparados para o dia da destruiição: portanto, ó pecadores, não tende esperança de viverdes, pois partireis e morrereis; pois não conheceis resgate algum; pois fostes preparados para o dia do grande julgamento, para a grande tribulação e grande vergonha para os vossos espíritos”.
A expectativa judaica para os pecadores, tal como ressaltado pelo texto de Enoque, é que sem resgate eles não tem outra alternativa. Por certo o argumento do texto apócrifo não expressa o reconhecimento de um Messias que redimiria o homem do seu débito com Deus, do seu pecado. É muito mais provável que esperassem no Messias um libertador, tal como Moiséis o fora. Observe que Estevão em seu discurso perante as autoridades judaicas apresenta a Moiséis como “chefe e libertador”(At.7.35). O termo que define Moisés como “libertador” é lytrotes, uma variante de lytron utilizada uma única vez em todo NT. Essa expectativa é vista em Simão, que segundo Lucas nos informa “esperava a consolação de Israel” (Lc.2.25) que em outras palavras significa esperava o Messias. A ele havia sido profetizado que morreria sem antes ter visto o Messias, e ao pegá-lo no colo, com oito dias de vida, ele declarou: “Agora Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra; por que meus olhos já viram a tua salvação[32]“(Lc.2.29-30). Fato semelhante acontece com Ana, uma profetiza vivua a oitenta e quatro anos que “falava a respeito do menino a todos que esperavam a redenção de Israel”(Lc.2.38). Há clara conexão entre as duas idéias aqui: Salvação e Redenção. O termo para salvação ainda será estudado (sotérios), mas redenção é exatamente lytrosis, outra variante de lytron. Ou seja, a expectativa judaica do Messias é que Ele seria o libertador, aquele que liberta (no sentido clássico de salvador), ou aquele que redimi seu povo. isso acompanhou o ministério terreno de Cristo, pois até mesmo após a sua morte tal expectativa ainda é encontrada. Isto é visto com os discípulos de Emaús, que em conversa com o próprio Cristo não o reconheceram e disseram: “O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc.24.19-21). A idéia do texto é que o Messias fosse aquele que libertaria Israel. O termo utilizado para “redimir” é a forma verbal de lytron, lytroö. Portanto conclue-se que a Liberdade oferecida por Cristo está além das expectativas dos primários discípulos (At. 1 6) e de todo Israel, como vimos nos textos mencionados.
Assim, Cristo é aquele que resgata o homem perdido (Mt 20 28; cf. Lc. 19. 10), por meio de sua Morte em favor deles, obtendo assim nossa “eterna redenção” (Hb.9.12). A colocação de “eterna” junto a “lytrosis” atribui infalibilidade e infinitude a esse resgate. Dessa forma conclui-se que aquele que é resgatado por Cristo, para Eternidade é resgatado.
Entrementes, ainda temos que observar dois textos que são importantíssimos para a conceituação de lytron da perspectiva da conduta cristã. 1 Pe. 1 .18 diz: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” Pedro tem a clara visão de que o sangue de Cristo é o preço oferecido pela liberdade desfrutada pelos cristãos. Mas, segundo a perspectiva de Pedro, tal resgate diz respeito ao fútil procedimento do homem. Assim, Cristo se propõe não apenas a conceder a Redenção eterna para eternidade, mas para a presente vida do cristão, a ponto de que ele não precisa mais viver;como antes, pois foi resgatado de lá. Sentido semelhante é demonstrado por Paulo em Tt.2. 14: “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. Portanto, conclui-se que Cristo não apenas efetuou pleno resgate no que diz respeito à nossa culpa perante Deus, mas Ele mesmo nos libertou do pecado e da Iniquidade, afim de nos purificar a ponto de sermos feitos um povo exclusivo Seu.
Com apolytrosis, podemos ver mais algumas colocações importantes para o conceito de redenção. Em Hb.9.12 vemos o conceito do sangue de Cristo como pagamento para redenção eterna. Em Ef 1.7 a idéia de Resgate, Libertação, Redenção é colocada lado a lado com a idéia de Remissão: “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” O Conceito de “no qual” é visto no verso anterior como “o Amado”, que é uma referência direta a Cristo. Assim, em Cristo temos a redenção, ou melhor, por meio do seu sangue temos a remissão dos pecados. Nesse texto temos a clara visão do pagamento efetivo da nossa divida a ponto de que nossos pecados são apagados, ou cancelados (cf. Rm.3.24; Cl.1.14; Hb.9.15).
Mas, ainda podemos encontrar um outro uso do termo apolytrosis, que é apenas visto em dois texto no NT. Em Rm.8.23 e Ef 1.14. Oserve: “E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso intimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8 23). O uso aqui dessa variante de lytron é claramente escatológica. Paulo em seu argumento no capítulo oito de Romanos deixa evidente sua expectativa sobre o futuro. Segundo Champlin, a redenção do corpo da perspectiva de Paulo, exige necessariamente a idéia, ainda que ausente neste trecho, a redenção, que é o cumprimento da adoção “Assim, pois, sob o titulo de ‘redenção do corpo: Paulo aponta, mais uma vez, para aquele exaltadíssimo conceito da glorificação em Cristo[33]“. Em contraste com as filosofias e ideologias não cristãs, que pregam a imortalidade da alma, até mesmo como o judaísmo pregou, o cristianismo apresenta com conceito além: A redenção do Corpo, ou, a Glorificação. Essa expectativa pode ser norteada pela experiência do próprio Senhor. Semelhantemente, Ef. 1 .14 nos diz: “qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (cf. Ef.4.30). O selo do ES no cristão é a garantia do resgate da propriedade de Deus. Ou seja, o cristão como propriedade particular de Deus, será aproximado junto a Ele no futuro, sendo que isso é garantido pelo selo do ES. Portanto, em linguagem claramente judaica, Paulo nos informa sobre o valor futuro da Redenção.
Em Sentido e Linguagem similar Lucas apresenta um discurso apocalíptico de Jesus, onde ele apresenta o conceito futuro da redenção: “exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima”. A idéia da proximidade da Redenção é introduzida pela expressão: “Então virá o Filho do Homem” em uma auto-referência. Assim, o estágio final dessa redenção levado a efeito em um futuro próximo, tal é nossa esperança e expectativa.
rýomai:
NT: Mt. 6:13; 27:43; Lc. 1:74; Rm. 7:24; 11:26; 15:31; 2 Co. 1:10; Cl. 1:13; 1Ts. 1:10; 2Ts. 3:2; 2Tm. 3:11; 4:17f; 2 Pt. 2:7, 9; LXX:Gn. 48:16; Ex. 2:17, 19; 5:23; 6:6; 12:27; 14:30; Js. 22:22, 31; Jz. 6:9; 8:34; 9:17; 11:26; 18:28; 2Sm. 12:7; 14:16; 19:10; 22:18, 44, 49; 2Re. 18:32f; 19:11; 23:18; Ed. 8:31; Ne. 9:28; Es. 4:8, 17; 10:3; Sl. 6:5; 7:2; 16:13; 17:1, 18, 20, 30, 44, 49; 21:5, 9, 21; 24:20; 30:2, 16; 32:19; 33:5, 8, 18, 20; 34:10; 36:40; 38:9; 39:14; 40:2; 42:1; 49:22; 50:16; 53:9; 55:14; 56:5; 58:3; 59:7; 68:15, 19; 70:2, 4, 11; 71:12; 78:9; 80:8; 81:4; 85:13; 88:49; 90:3, 14; 96:10; 105:43; 106:6, 20; 107:7; 108:22; 114:4; 118:170; 119:2; 123:7; 139:2; 141:7; 143:7, 11; Prov. 2:12; 6:31; 10:2; 11:6; 12:6; 13:17; 14:25; 22:23; 23:14; 24:11; Jo 5:20; 6:23; 22:30; 33:17, 30; Os. 13:14; Me. 4:10; 5:5; is. 1:17; 5:29; 25:4; 36:14f, 18; 37:12; 44:6; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5, 16; Ez. 3:19, 21; 13:21, 23; 14:18, 20; 37:23; Dan. 3:88; 8:4, 7, 11; Apócrifos: Apócrifo de Julzes 8:34; 11:26; 1 Esdras. 8:60; Judite. 6:2; Tobias. 4:10; 12:9; 14:11; Tobias. 12:9; 1 Macabeus. 2:60; 5:17; 12:15; 16:2; 2 Macabeus. 8:14; 3 Macabeus. 2:12, 32; 5:8; 6:6, 10, 39; Odes 9:74; Sabedoria de Salomão. 2:18; 10:6, 9, 13, 15; 16:8; 19:9; Sir. 29:16; 40:24; Salmos de Salomão. 4:23; 12:1; 13:4; 17:45; Epistola de Jeremias. 1:35, 53; Adições a história de Daniel. 3:17, 88, 96; 6:28; 8:11; 11:45;
O verbete ryomai é um verbo defectivo médio, por isso a terminação mai, e apesar de sua grande aparição nos escritos bíblicos, especialmente na LXX, o termo ryomai não tem termos cognatos. O termo significa basicamente “socorrer”, “livrar”, “preservar”, “salvar”. Nesse sentido é um sinônimo de sozo, termo não estudo que significa basicamente “salvar” e dá origem aos termos soteria (Salvação) e soter (Salvador).
No Grego Clássico aparece apenas a partir de Homero com sentido básico de “livramento” ou Preservação”, executado normalmente pelos deuses. Na oração de Ajax ao “Pai Zeus”, ele pede que os livre dos acáios da noite escura (Ilíada, 17,645). Semelhante colocação foi feita por Aquiles a Enéias: “Somente Zeus e os demais deuses te salvaram’ (Ilíada, 20,194). Tal livremente não era efetuado apenas em situações de guerra, mas a qualquer perigo ou aflição, bem como a proteção de bens (Ilíada. 15., 257,290; Heródoto 1, 87 [livrar do mal]; 5,49; 9,76, 184; 6, 7; 7, 217). Fato interessante é que da perspectiva do pensamento politeomítico, alguns casos não poderiam ser salvos ou libertos (Ilíada, 15.141; Odisséia 12,107). Em outra forma encontrada na literatura grega secular, pode ser aplicada à ação humana, principalmente às autoridades. Os príncipes libertavam cidades e países (Ilíada 9, 396), mulheres e crianças (Ilíada 17,224), os póscritos (Sóf. OC 285). Também é aplicado a objetos inanimados, tais como muro, capacete, armadura.
Na LXX o termo em pauta traduz nasal no sentido de “libertar”, “livrar, e “salvar-se” (cerca de 90x). De forma interessante, também traduz ga’al em passagens de Isaías, e em especial o texto de Gn,48.16, com a idéia de redimir, comprar de volta, libertar. A correlação entre esses vocábulos nos levam a crer que a gama original de significados aplicados a ryomai é de fundamental importância para a Teologia da Redenção, emoldurar pelo estudo etimológico. Segundo o DITNT, W. Kash percebeu que o uso que a LXX faz do termo pode ser equiparado ao uso do Grego Clássico, principalmente no que refere-se a YHWH como libertador. Por outro lado, é impossível deixar de reconhecer o lada plenamente particular em que a LXX aplica o termo para conceitos explicitamente hebraicos. Assim, temos dois grandes grupos de uso de ryomai.
Em Salmos a ação de YHWH como libertador do aflito é facilmente observável. Os salmistas cantam sobre o livramento dos perseguidores (Sl.7.1), de vizinhos ímpios (Sl.33.4), de homens falsos e maldosos (Sl.42.1), da morte e da fome (Sl32. 19; 55. 13). do Sheol (Sl.85. 13) entre várias outras colocações. Contudo, um outro uso que deve ser observado é que em alguns momentos em especial o termo é aplicado a grandes atos salvíficos de Deus, tal como o Êxodo (Ex.6.6 14.30) e a povoação de Canaã (Jz.ó.9; 8.34) entre outros exemplos (2Re.18.32; Is.36.15; Mq.4.10 5.5; 2Sm.12.7; 22.18- 3Ma.ó.10). Neste ponto o uso equipara-se ao uso do grego clássico, o que ressalta o bom uso feito do termo dentro do seu campo semântico ma LXX.
Como vimos, além de plausível tal tradução em conformidade com o sentido exposto pelo grego clássico, temos que ressaltar o sentido mais judaico aplicado ao termo na tradução da LXX. O que significa retirar o sentido mais antropocêntrico do conceito secular para abordar um sentido mais teocêntrico, como expressa todo o VT ao referir-se à Obra de Deus. W. Kash observa que a libertação não é determinada pelo acaso, ou pelas leis vigoradas pelos deuses ou homens, mas “mediante a palavra criadora e sustentadora de Javé, para Quem a salvação do povo e do individuo faz parte da Sua ação criadora da história da salvação começada por Ele[34]“.
Nesse aspecto um texto merece nossa atenção: Acaso, os deuses das nações puderam livrar, cada um a sua terra, das mãos do rei da Assíria?” (2Re.18.33). A declaração feita por Rabsaqué em afronta a YHWH é a clara demonstração da perspectiva antropocêntrica do povo assírio. Ele equipara YHWH com outros deuses de outros povos, mostrando a supremacia da Assíria (v.34; cf. 19.11-13). Certamente era verdadeira a afirmação de que a Assíria tinha subjugado outras nações, mas um fato estava equivocado na perspectiva dos assírios: YHWH não é como os deuses dos outros povos, feitos por mão humanas, Ele é O SENHOR. Observe a oração de Ezequias: “Ó SENHOR, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinas da terra; tu fizeste os céus e a terra” (19.15). A realidade de YHWH como Soberano Deus está além da compreensão ordinária dos gentios, por isso não podem entender Seu Caráter “Libertador”: Agora, pois, Ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinas da terra saibam que só tu és o SENHOR Deus” (v.19). A verdade sobre YHWH é exposta por Isaías da seguinte maneira: Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade” (Is.63.16). Deus é o Libertador, o Redentor, Resgatador (cf.4:ó; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5).
Em alguns textos vemos que a ação redentora de Deus é aplicada àquele que crêem positivamente na capacidade de YHWH de salvar. Observe Sl.21.4: Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste”; Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer” (v.8; cf. Sl.32.18-19; 33.7). YHWH é o que providência a salvação, a libertação do seu povo, e Ele ouve o clamor do justo e o livra de suas aflições (Sl.34.17); Ele livra os que o temem e confiam em sua misericórdia (Sl.33.18-19; Ez.14.20).
Portanto, diante das evidências acima lançadas, podemos notar que a consideração teocêntrica do judaísmo atribuiu uma nova perspectiva ao campo semântico do termo ryomai a ponto de ser aplicado condicionalmente ao homem, ao mesmo tempo que representa a ação do Soberano Senhor, que é poderoso para livrar seu povo (Dn.3.96 LXX- 3.29).
O termo ryomai aparece 15x em todo o NT, sendo que 7x refere-se a citações do VT, mas ele todos os casos Deus é o Libertador. Algumas vezes o termo é utilizado em situações de escárnio, tal como na crucifixão de Cristo, pois os zombadores entendiam os sofrimentos de Jesus e o não salvamento de Deus como prova absoluta da sua falsidade. Observe: Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt.27.43; cf. Sl.21.9). De fato, Deus não o livrou da morte, como esperavam seus zombadores, mas de modo especial o livrou na ressurreição.
Um fato interessante é que o uso neotestamentário do termo em pauta não traz a idéia de Salvação, tal como entendida pelo conceito cristão. O termo que desempenha esse papel é “sozo”. ryomai ocupa-se com a verdade da libertação oferecida por Deus ao Seu povo. Observe a declaração de Jesus, na famosa oração do Pai nosso: te não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre” (Mt.6. 13). Nesse sentido apresentado pro Cristo, é impossível que seja aplicado a incrédulos. O que é apresentado é a idéia da ação continua de Deus em livrar os eleitos do mal moral. Ao homem não foi dada a plena capacidade, em sua própria condição natural, para resistir ou escapar do mal que o assedia. Dessa forma, em sua oração deve reconhecer sua insuficiência diante da tentação e pedir que Ele nos livre do mal. Nesse mesmo sentido, a obra de Deus em livrar é apresentada por Paulo aos corintos da seguinte forma: “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos, o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos”.
Uma única vez o termo faz referência a Obra de Deus na Salvação, conforme apresentada por Paulo em sua Epístola aos Colossensses: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13). De qualquer forma, a ênfase é sobre a libertação moral do homem, por que “Império das Trevas” ilustra a situação de pecado que o homem vivia antes da libertação efetuada por Deus, por meio de Jesus Cristo. Contudo, podemos nos lembrar de Rm.11.26 e 1Ts.1.10 como textos que expressão a expectativa escatológica do cristão.
agorázo:
NT: Mt.13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; 1Co. 6:20; 7:23, 30; 2Pt. 2:1; Ap. 3:18; ~:9; 13:17; 14:3f; 18:11; LXX: Gn. 41:57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; is. 24:2; 55:1; Je. 44:12; Apócrifos: Tobias. 1:13f; 1 Macabeus. 12:36; 13:49; Siraque. 20:12; 37:11; Baruque. 1:10; Eplstola de Jeremias.1 :24;
O termo agorazo tem significação estrita, sendo normalmente encontrado com o sentido de compra. José foi comprado (Gn.41.57), os filhos de Israel foram para o egito comprar mantimentos (Gn.42.5, 7; 43.4; 43.42). Normalmente essa é a idéia exposta pelo termo, conforme expresso na LXX (cf. Gn. 41 :57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; Is. 24:2; 55:1; Je. 44:12).
No NT esse uso parece majoritário (cf. Mt. 13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; Ap. 3:18). Entretanto, alguns texto merecem nossa atenção: “Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens” (1Co 7.23; cf. 6.20). A idéia é que estávamos vendidos a escravidão, mas Deus nos comprou para si. A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2 1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1 Co.6. 19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “ex”, formando o vocábulo “exagorazo”. Em Gl 3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “ex” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra (Gl.3.13).
Conclusão
Diante das informações coletadas no estudo léxico dos termos envolvidos na conceituação de redenção, podemos concluir que:
(1) A doutrina da redenção mostrada pelo NT é um cumprimento completo da verdade mostrada em sombras no AT.
(2) Há um sentido em que o preço é pago, mas o escravo não é necessariamente liberto (que é o estado de todos por quem Cristo morreu que ainda não são salvos) e que, por uma realização mais profunda e abundante da redenção, o escravo pode ser solto e liberto (que é o estado de todos que são salvos).
(3) A relação dos não salvos com a verdade de que, pela sua morte, Cristo pagou o preço do resgate, é crer no que está declarado como verdadeiro.
(4) A relação dos salvos com a verdade de que, por sua morte, Cristo liberta, é reconhecer essa liberdade maravilhosa e, então, pela rendição de si mesmo, tornarem-se escravos voluntários do redentor, enquanto abandonam sua velha vida de pecado.
Em resumo, redenção refere-se ao ato da compra de algo que fora seu, readquirir algo que foi retirado temporariamente de seu poder. Pode ser empregado também como Liberdade, libertar, livrar, no sentido de redimir alguém que corria grave perigo. De certo, quanto a ação é aplicada a Deus, temos que admitir que trata-se de uma compra de algo que já for a completamente seu, o homem, pois sabemos que o homem é um pecador vendido e condenado. O texto de Isaías 52.3 nos diz: “Por nada fostes vendidos, e sem dinheiro sereis resgatados”. “Não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humanos[35]” (pp.14). Assim, podemos definir OBRA REDENTORA nas seguintes palavras:
Obra Redentora é um Plano estabelecido e executado historicamente por Deus em benefício do homem cujo ápice é Cristo e sua Aplicação é Eterna
Charles Hodge é que faz a seguinte observação: “As Escrituras falam de uma Economia de Redenção[36]“. A palavra Economia, utilizada em referência a Redenção, deriva da palavra grega “oikonomia” que significa administração, mordomia. A identificação dos dois conceitos nos leva a conclusão de que Deus administra historicamente a Redenção dos homens. Por esta razão é correto afirmar que existe um Plano da Salvação que deve ser anunciado. Doutra sorte, deve-se reconhecer que Deus é o Autor e Executor deste Plano. A redenção é iniciada e perfeita por Ele, pois a Ele pertence o poder para tal tarefa. Logo, Deus estabeleceu um Plano para a salvação do homem dentro da história do homem e vai levá-lo a cabo (Jo.42.2).
É das palavras de Jonas que devemos ter em mente ao levantarmos essa assunto: “Ao Senhor pertença a Salvação”. O termo salvação visto na oração feita por Jonas é yasha (heb) que tem sotérios (grego) que traz a clara idéia de libertação. A situação em que Jonas se encontrava não tinha o que podia fazer, senão reconhecer que a Salvação pertence ao senhor. Assim Ele não simplesmente inicia e termina como mantém.
Em todas as Obras de Deus nós podemos notar um plano pré-estabelecido, o que não poderia ser diferente para Obra Redentora. Ou seja, não se deve presumir que, no que diz respeito ao destino do homem tudo seja deixado ao acaso. E sobre isso a Escritura é clara, pois afirma que Deus não somente vê o fim desde o principio, mas que ele opera todas as coisas segundo o conselho de sua vontade, ou com base nesse propósito (Ef.1.11). Assim, se o que acima foi dito é verdade é possível encontrar na história marcas desse plano e evidências reais que apontam para a consumação de um plano iniciado e perfeito por Deus. Dessa forma, vamos buscar essas evidências na história.
“Há luz suficiente para quem quer ver, e trevas suficientes para quem não quer ver[37]“
Dentro da progressão histórica do significado da salvação e da consecução da soberania de Deus em relação ao seu plano preestabelecido para salvação, o ponto mais alto, mais sublime e necessário é a Obra de Cristo. Por alguns teólogos a Obra de Cristo é considerada como um acidente na história, como se Deus fosse pego de surpresa por esse evento. Contudo, a história demonstra a progressão desse significado, de modo que, fica evidente que a Obra de Cristo a nosso favor é parte integral do Plano de Deus para a Salvação daqueles que fazem parte da Soberana e Amorosa Eleição Incondicional.
“Se ignorarmos o grande fim a que se dirige o plano da redenção, ou as relações das diferentes partes do plano, ou tivermos uma falsa concepção do fim e daquela relação, todas as nossas idéias serão confusas e errôneas. Seremos incapazes ou de exibi-lo a outros ou de aplicá-lo a nós mesmos[38]“.
[1]STOTT, Jonh, A cruz de Cristo. pp.17
[2] A Ressureição é a confirmação divina da verdade exposta sobre o Cristo anunciado aos antigos (Is.53.10-11), a garantia da justificação (Rm.4.25) e da ressureição (1Co.15.20, 23) dos cristãos, da libertação do pecado (1Co.15.17), perfeição e imortalidade (1Co.15.53) entre diversas outras questões. Por isso não deve nem pode ser minimizada.
[3]IRONSIDE, H.A. Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.17
[4]EASTON, M.G. Easton’s Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[5]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[6]ORR, James Org. International Standard Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[7]IRONSIDE, H.A. Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[8]Sobre colocações mais profundas e completas sobre o termo em pauta, ver Robert B. Girdlestone: Synonyms of the Old Testament, pp.117-120. Girdlestone, faz a aplicação do conceito de “ga’al” exposto no Velho Testamento no Novo Testamento, evidenciando os termos gregos envolvidos. Sua exposição é excelente.
[9]HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. pp.235
[10]Sobre Pv.23.10-11, é válido observar a tradução que a septuaginta oferece para “Por que seu Vingador é forte“: “hó gar lutrúmenos autos kúrios krataiós estin“. O uso de “kurios” associado com “lutrow” no presente do particípio médio, nominativo, masculino, singular, nos dá a clara identificação de Deus como Redentor-Parente Vingador.
[11]É comum entre os comentaristas que ga’al e padâ sem sinònimos, embora tenham suas particularidades. Observe o que o Willian Coker diz sobre o termo no DITAT:
”O emprego de padâ e seus derivados ocorre, às vezes, em paralelo com outras raizes. Deve-se destacar particularmente que ga’al é usado como sinônimo. As duas raízes dizem respeito à redenção mediante o pagamento de um resgate, embora seja sugerido que ga’alestá basicamente associado a sutações familiares e, dessa forma, dá a idéia da ação de um parente consanguínio. No entanto, o suo de padâ e de ga’al em paralelismos encontrados em Os.13.14 e Jeremias.31.11 e o seu emprego como sinônimos em Levíticos 27.27 exemplificam a sobre posição de idéias entre as duas palavras. Além disso, das 99 vezes que a LXX utiliza o verbo lutroo, em 45 vezes esse verbo está traduzino a raiz ga’al e em 43 a raiz padâ“
[12]HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. pp.1200
[13]Idem, pp.1201
[14]HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. pp.743
[15]GIRDLESTONE, Robert B. Synonyms of the Old Testament. pp.127
[16]CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistemática. Vol 3 pp.107.
[17]ORR, James Org. International Standard Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[18]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[19]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[20]TENNEY, Merril C. The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Biblei. Vol.5, pp 49.
[21]IRONSIDE, Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[22]BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[23]DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vol.3, pp.1373
[24] Muita discussão tem sido feita sobre o conceito apresentado neste texto. Como vimos anteriormente, é certo que o texto faça referência ao remidor partente de Jó, embora tenha grande significância sobre a Obra Redentora efetuada por Cristo. Como já foi afirmado, é mais coeso crer que Jó faça menção a Deus como seu Remidor (cf. 16.19). Um detalhe que não pode passar desapercebido aqui é a continuação do texto: “Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus”. Jó parece esperar ver a Deus em sua carne, ou seja, em sua vida, o que seria uma infração de Ex.33.20, 23. Outro detalhe é que segundo a História de Jó, ele foi Vindicado por Deus no cap. 41, mas não chegou a ver a Deus literalmente. Portanto, pode-se concluir que ele vislumbra uma vida ressurreta. Assim, fica mais evidente o link entre esse texto e a expectativa messiânica posteriormente elaborada.
[25] Na forma não preposicionada. Existem outras variantes do termo encontradas em todo o NT, como anfflytron, Iytroo, lytrosis e apolytrosis.
[26] BROWN, Colin, Dicionário internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.93
[27] Thayer’s Greek Lexicon, BibleWorks Software Inc.
[28] Um detalhe importante é que a LXX diluiu o sentido de lytron ao adotar o termo anchisteus (lit. parente, cf. Rt.3.9, 12; 4.1, 3, 6, 8) e o verbo anchisteuo (ser o parente próximo, agir como parente próximo, fazer o dever de parente próximo, cf. Rt.2.20; 3.13; 4.4, 6-7). A idéia de redenção ainda é exposta pelos termos Hebraicos, embora o mesmo seja absorvido pelas expressões gregas na LXX.
[29] Ponto importante deste texto é que o resgate é aplicado a “muitos”. Tal colocação tem produzido intenso debate. Rudolff Bultmann acredita que tal colocação seja produto da Igreja Primitiva elaborada a partir de um pronunciamento feito pelo Cristo ressurreto. Entretanto, tal teoria não tem como ser provada, a não ser pelas colocações do próprio texto. Ainda seguindo essa vertente ideológica, W. Bousset acredita que a expressão seria influência do cristianismo helenístico. Outros, como J Jeremias e E. Lohse, acreditam em um fundo histórico palestiniano. Tal argumento pode ser melhor demonstrado, por duas razões: (1) O uso da expressão “Filho do Homem” (Dn.7.13); e (2) pela forma de expressão claramente semítica “muitos” (heb. Rabbtm). O segundo ponto seria claramente uma identificação com o Servo Sofredor: “foi contado entre os transgressores, contudo, levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu”. Aqui vemos um fundo histórico judaico claramente evidenciado. Segundo W.L. Lane, “muitos”, “é um termo técnico para a comunidade eleita, o povo escatológico de Deus”. Seguindo semelhante raciocínio, Brown afirma que “Mc. 10. 45 parece combinar a redenção substitutiva do único em prol dos muitos com a idéia de que os muitos são a comunidade eleita”. Deve ter em mente que tal colocação não contradiz 1Tm.2.ó, mas a restringe. Segundo a Teologia Sistemátic aCristã Reformada, a oferta de Cristo pelo pecado é suficiente para todos os homens, como Paulo nos mostra em 1Tm.2.ó, mas é aplicada somente aos eleitos, como Cristo enfatiza em Mc.10.45 e Mt 20.28.
Entretanto, a Teologia Bíblica e Exegética pode oferecer uma colocação muito mais plausível.. Observe que o vocábulo “todos” é utilizado várias vezes dentro do contexto do capítulo. João Calvino, ao comentar 1Tm.2.4, faz a seguinte colocação: “Que seria mais razoável do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino?”. A oração é que tem grande foco aqui no argumento de Paulo, pois ela deve ser feita em favor de todos os homens, dos reis e de todos que se acham investidos de autoridade. Dessa forma, Paulo demonstra que dentro desse “todos os homens” incluem-se as autoridades responsáveis pela perseguição dos cristãos. Dessa forma, insurge a idéia de que a expressão totalitária de Paulo esta mais ligada a não acepção de pessoas da parte dos cristãos, inclusive em suas orações, como alinhada ao desejo do próprio Deus. “Pois se o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, então é justo que todos aqueles a quem o evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida enterna” (CALVINO, João, As Pastorais. pp.59-60). Nem mesmo João Calvino se detem a tratar da eficácia da oferta de Cristo, visto não ser o foco da discussão aqui. Mas, o que se pode dizer é que a Salvação oferecida por Cristo é indiscriminada, ou seja, atinge todas as nações, etnias, camadas sociais, pois Deus oferece o evangelho sem acepção de pessoas (Rm.2.11). Essa conclusão é evidente a partir da descrição de reis e autoridades, feitas anteriormente. Com esse contexto em mente, vemos que o resgate oferecido por Cristo, como anunciado por Paulo em 1Tm.2.6 está em conformidade com os textos de Mc e Mt. A diferença é que Paulo evidencia a não acepção de Deus para com o homem. Assim, qualquer homem pode ser alvo da salvação oferecida por Deus.
[30] Em 1Tm.2.6, Paulo faz uso de antilytron, termo que não é encontrado na LXX, e em nenhum outro lugar no NT o que provavelmente é um neologismo criado por Paulo para enfatizar o caráter da redenção. Tanto Mateus como Marcos utilizam a preposição anti após o termo lytron conceituando uma “resgate para”. A colocação de Paulo é agrupar ambos sentidos em um só termo para expressar um resgate que foi levado a efeito. Alias, muitos comentaristas tem visto no termo uma indicação de “substituição”, como sugere Charles Caldwell Ryrie em sua obra Teologia Básica (pp.332-335). D Gunthrie acredita que “o acréscimo de preposição anti, ‘em lugar de’ é significante, tendo em vista a preposição hyper,’em prol de’ que se emprega depois dela. Pensa-se em Cristo como o ‘preço de troca’ em prol de todos e no lugar deles, por motivo do qual se concede a liberdade” (The Pastoral Ephistles, IN: BROWN, Collin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.100; grifo do autor)
[31] BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[32] O termo grego para salvação ainda será estudado, mas como percebe-se pelo contexto, tanto ele quanto a profetiza Ana tem a mesma expectativa em relação ao futuro do menino.
[33] CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Comentado Versrculo por Versículo. Vol.3, pp.720.
[34] KASH, W. Theological Dictionary of New Testament, Vol.VI, pp.1000 IN: BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.105
[35] IRONSIDE, H.A. Os grandes vocábulos do Evangelho. pp.14
[36] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, pp.717
[37] PASCAL, Blaise, Pensamentos.
[38] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, pp.718
O Conceito de Redenção no Novo Testamento
O Novo Testamento, ao contrário do Antigo, tráz conceitos mais claros para os cristãos mas, não perde de vista seu significado original. Como sabemos, o Novo Testamento aplica eficazmente o conceito vétero-testamentário à Jesus Cristo, como o Redentor do homem. Sobre isso, Ray Summers diz que “o Novo Testamento centra a redenção em Jesus Cristo. Ele comprou a Igreja com seu póprio sangue (At.20.28), deu-se pela vida do mundo (Jo.6.51), como Bom Pastor deu sua Vida por suas ovelhas (Jo.10.11) e demonstrou seu grande amor dando sua vida por seus amigos (Jo.15.13). O propósito de Jesus na terra foi realizar um sacrificío de Si mesmo para libertação do homem do pecado[1]“. Isso parece estar em concordancia com Merril C. Tenney, quando diz que “o coração da mensagem bíblica da redenção é a libertação do povo de Deus do domínio do pecado por meio do sacrifício substitutivo de Jesus Cristo e a sua consequente reconciliação com Deus e Seu Reino Celeste[2]“.
Diante das colocações neo-testamentárias, não podemos nos esquecer que tal sacrifício de Cristo em favor do homem é a maior prova da incapacidade do homem de libertar-se, por seu mérito ou capacidade, do pecado. Ironside, concorda com essa colocação, e diz que “não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humano[3]“. Ao tratarmos o assunto de Redenção no Novo Testamento temos que resgatar o sentido de deficiência humana perante Deus, em função do seu pecado. Não existem méritos no homem que o façam merecer o Sacrifício de Cristo. Não podemos retirar os perfeitos méritos de Cristo da questão. Sobre isso o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, organizado por Colin Brown, nos informa que:
“Sempre que os homens, por sua própria culpa ou através de algum poder superior ficam submetidos ao controle de outra pessoa, e perdem sua liberdade para implementar a vontade e as suas decisões, e quando seus próprios recursos são inadequados para enfrentar aquele outro poder, podem obter de novo sua liberdade somente mediante intervenção de um terceiro. No NT, conforme o aspecto encarado, o grupo de palavras gregas associado com lyo, sozo, rhyomai, é empregado para expressar semehante intervenção (…) No NT, estes termos se empregam de modo preeminente para a obra redentora de Cristo[4]” (grifo do autor).
J.D. Douglas acrescenta muito ao nosso estudo ao nos demonstrar uma outra perspectiva sobre a Redenção, ao dizer que “a redenção não somente lança os olhos de volta para o calvário, mas também comptempla a liberdade na qual se encontram os redimidos. [5]“. A idéia de liberdade após pagamento não deve ser deixada aqui. Aliás, tal conceito é necessário ser compreendido de maneira correta para que a Salvação oferecida por Jesus Cristo não seja mal interpretada. Lembre-se: quando Jesus disse, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo.8.32), os que o ouviram ficaram indignados por não conhecerem sua real situação diante de Deus, por isso Jesus acrescentou: “em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo.8.34). Apenas a verdade pode libertar o homem das amarras do pecado, e Jesus Cristo é a Verdade (Jo.14.6).
Para um compreensão maisq adequada da Redenção, vamos observar os termo envonvidos com esse conceito na Literatura do Novo Testamento:
lyo:
NT: Matt. 5:19; 16:19; 18:18; 21:2; Mk. 1:7; 7:35; 11:2, 4; Lk. 3:16; 13:15f; 19:30f, 33; Jn. 1:27; 2:19; 5:18; 7:23; 10:35; 11:44; Acts 2:24; 7:33; 13:25, 43; 22:30; 27:41; 1 Co. 7:27; Eph. 2:14; 2 Pet. 3:10ff; 1 Jn. 3:8; Rev. 1:5; 5:2; 9:14f; 20:3, 7; LXX: Gen. 42:27; Exod. 3:5; Jos. 5:15; Ps. 101:21; 104:20; 145:7; Job 5:20; 39:2, 5; 42:9; Isa. 5:27; 14:17; 40:2; 58:6; Jer. 47:4; Dan. 3:92; Apócrifos: 1 Es. 1:52; 9:13, 46; Jdt. 6:14; 9:2; Tbs. 3:17; 3 Ma. 1:4; 6:27, 29; 4 ma. 3:11; 7:13; 12:8f; Sir. 28:2; Dat. 3:92; 5:12
To termo Iyo significa basicamente “soltar, desligar, livrar, libertar, anular, abolir”, e como verbo denominativo dá origem a Iysis (soltura, divórcio), katalyo (quarto de visitas), akatalytos (indestrutível), eklyo (ficar solto, ficar cansado, ficar fraco), apolyo (livrar, libertar, soltar, perdoar, deixar ir, mandar embora, demitir, divorciar). Cada um dos termos derivados de Iyo é encontrado na LXX, o que atribui grande valor etimológico-conceitual ao termo em pauta no que tange ao conceito de Redenção.
Antes de observar como esse termo foi utilizado na LXX, é válido observar seu uso anterior à tradução da Torá para o grego, ou seja, é preciso ressaltar os usos do Grego Clássico. Na Odisséia, Homero utiliza o vocábulo com sentido da salvação oferecida pelos deuses aos homens, contudo sem nenhuma ligação com o conceito de pecado, demérito, ou inabilidade do homem em alcançá-la (Od.5, 397; 13, 321). Em outros autores, o conceito mais encontrado é “soltar” ou “libertar”. Portanto, a conclusão que pode-se auferir aqui é que a Etimologia de Iyo é vista fora da literatura bíblica está em harmonia com os usos bíblicos.
Na tradução da LXX o termo é visto algumas, mas em tradução a 7 diferentes termos hebraicos carregando sempre alguma idéia de “soltar” (cf. Ex.3 5; Js.5. 15 – referente a sandálias; Dn.3.9; 5.12 – resolver dificuldades; entre várias outras ocorrências). Entretanto, um texto deve ser vislumbrado aqui: Is.40.2: “Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pesados”. Aqui vemo o uso mais claro no VT referente a redenção. A idéia de perdão do termo Iyo é percebida pela tradução de rasah (heb), que significa ser favorável, perdoar, favorecer. A LXX faz a aplicação conceito do termo no sentido de libertar ou deixar ir a culpa pela iniquidade. Ou seja, o conceito do termo carrega a idéia de iniquidade como dívida ou débito, e que para que ela seja quitada é necessário ser liberto ou perdoado, como vemos no texto acima.
Outro texto que merece nossa atenção aqui é Jó. 19.25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”[6]. A idéia primária do texto está posta sobre Deus como Vindicador, visto não apresentar claramente a idéia de libertação do Sheol, mas da ajuda durante sua vida e resgate da justiça perdida. Neste ponto é clara a utilização de Iyo para traduzir go’el, com a intenção de apresentar o Resgate efetuado por Deus. Isso efetivamente acontece conforma exposto pelo cap.41 do livro de Jó.
Em Salmos vemos um texto que deve ser também analisado aqui: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu” (Sl.19.14). Aqui vemos a clara identificação de Deus como Redentor, ou seja, aquele que liberta. Novamente a idéia de Remidor parente está conceituada por Iyo na LXX.
No NT vemos o termo sendo aplicado em diversas ocasiões, tais como desatar a sandália (Mc.1.7; Lc.3.16; Jo.1.27; At.13.25; At.7.33 em relação a Ex.3.5), soltar o filhote da jumenta (Mt.21.2; Mc.11.2, 4-5; Lc.19.30-31, 33), soltar as cadeias de Paulo (At.22.30), desatar as ataduras de Lázaro (Jo. 1 1 .44), entre outros. Na verdade, o termo em paute é utilizado com quatro sentidos básico: (1) Libertar, Desligar, e é aplicado a Anjos (Ap.9. 14-15) e a Satanás (Ap.20.3, 7); (2) Em Lc.13 15-16 Jesus apresenta o conceito de libertar alguém de um problema espiritual (doença), que neste caso trata-se de um espírito de enfermidade. Sentido semelhante é visto em Mc.7 35; (3) Quebrar, desfazer (At.13.43), destruir (At.27.41); (4) Soltar, livrar da morte e do pecado (At.2.24; Ap.1.5) Em At.2.24 vemos que a ressurreição de Jesus rompeu os grilhões da morte, e em Ap.1.5 que o seus sangue nos libertou dos nossos pecados (cf.Ap.5.9; 7.14).
lytron:
NT: Mt. 20:28; Mc. 10:45; Lc. 24:21; Tt. 2:14; 1 Pe.1:18; LXX: Aparições como Verbo: Ex. 6:6; 13:13, 15; 15:13; 34:20; Lv. 19:20; 25:25, 30, 33, 48, 54; 27:13, 15, 19, 27, 31, 33; Nm. 18:15, 17; Dt. 7:8; 9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18; 2 Sm. 4:9; 7:23; 1 Re. 1:29; 1 Cr. 17:21; Ne. 1:10; Et. 4:17; Sl. 7:3; 24:22; 25:11; 30:6; 31:7; 33:23; 43:27; 48:8, 16; 54:19; 58:2; 68:19; 70:23; 71:14; 73:2; 76:16; 77:42; 102:4; 105:10; 106:2; 118:134, 154; 129:8; 135:24; 143:10; Pv. 23:11; Os. 7:13; 13:14; Mq. 4:10; 6:4; Sf. 3:15; Zc. 10:8; Is. 35:9; 41:14; 43:1, 14; 44:22ss; 51:11; 52:3; 62:12; 63:9; Jr. 15:21; 27:34; 38:11; Lm. 3:58; 5:8; Dn. 3:88; 4:27; 6:28; Apraições como substantivo: Ex. 21:30; 30:12; Lv. 19:20; 25:24, 26, 51; 27:31; Nm. 3:12, 46, 48, 51; 18:15; 35:31s; Pv. 6:35; 13:8; Is. 45:13; Apócrifos: 1 Macabeus. 4:11; As Odes de Salomão 1:13; Siraque. 48:20; 49:10; 50:24; 51:2; Salmos de Salomão 8:11, 30; 9:1; Adições a História de Daniel. 4:27
O termo tem grande significação na sua conceituação por sua imensa aparição na Versão Grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX). De fato, no Novo Testamento não faz mais que 5 manifestações sobre o termo[7], tanto na forma substantiva como verbal. A grande maioria das aparições de “lutron” são efetuadas na LXX, conforme podemos constatar acima. Nos livros apócrifos, que fazem parte da LXX, podemos notar o uso na forma verbal, o que evidencia que tipo de significado o termo carregava na época do seu uso. Um detalhe interessante é que apenas três vezes aparece no singular (Lv.27.31; Pv.6.35; 13.8), o resto está sempre no plural. Segundo o DITNT o sufixo tron traz a idéia de “instrumento ou meio mediante o qual se leva a efeito a ação do verbo, isto é, por meio da soltura, ou o pagamento[8].
Na Literatura Grega fora do NT, chamado Grego Clássico, encontramos comum uso de lytron em Platão, Xenofontes, Pindar e outros, com o sentido de “liberar alguém da miséria e da penalidade dos seus erros[9]“. Segundo Brown, o termo em pauta é utilizado fora da literatura bíblica desde o século V, as sua variante antilytron é apenas pós-bíblico. Os termos lytrosis e apolytrosis são raros e achados pela primeira vez no século primeiro. Contudo, a idéia de lytotes, redentor, não é encontrado fora da literatura bíblica. Portanto, notamos o valor do termo dentro da perspectiva teológica dos escritores neotestamentários e dos tradutores da LXX. Por certo tal termo tem significado importantíssimo para o conceito de redenção dentro da expectativa messiânica.
Na LXX[10] lytron traduz o termo hebraico kopper (cobir) em Ex.21.30; 30.12; Nm.31, 32; Pv.6.35; 13.8, com o sentido de oferta em troca por uma vida que está condenada ou está sujeita a castido divino. Traduz também alguns termos variantes de padâ (resgatar, redimir) como podemos observar em Nm.3.46-51. Em Lv.19.20 e Nm.18.35, onde vemos claramente o sentido da ação da redenção, bem como seu preço que deve ser pago aos primogênitos dos homens e dos animais que pertencem a Deus (sacrifício de um animal: Ex.13.13, 15; 34.20; pagamento em dinheiro: Ex.30. 13-16; Nm.18.15-16). Também traduz ga’al no caso do parente que tinha o direito e a obrigação de agir como redentor-parente (Lv.25.24, 26, 51-52). O sentido mais comum do termo pode ser percebido em Jr 32.7: “Eis que Hananel, filho de teu tio Salum, virá a ti, dizendo: Compra o meu campo que está em Anatote, pois a ti, a quem pertence o direito de resgate, compete comprá-lo” A princípio, o termo não tem aplicação religiosa, mas legal e civil.
No NT as declarações são mais claras e diretas, observe: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos[11]” (Mt.20.28; Mc.10.45; cf 1Tm.2.6[12]). A declaração de Jesus é feita em um contexto de liderança, quando Jesus apresenta o conceito de que veio para servir (cf. Lc.22.27). Aliás o foco é o serviço, mas Ele complemento com a expressão “dar sua vida em resgate de muitos”. Ao que tudo indica, parte de serviço de Cristo foi oferecer-se a Deus como pagamento efetivo da divida do homem perante Deus.
Neste texto vemos que o papel de Cristo em grego é desempenhado pelo vocábulo lytron, que seria um correspondente direto do grupo hebraico kipper. Assim concluímos que a morte de Cristo como resgate tem um aspecto propiciatório, bem como libertador. “Os muitos são livrados não somente da culpa, como também, ao mesmo tempo, das suas conseqüências, a morte e o julgamentos[13]“. Tal aspecto libertador acha paralelo na ocasião da Páscoa, em que o Povo de Deus foi liberto pelo sacrifício de um Cordeiro sem mácula. Assim, a conclusão levantada na Páscoa sobre o sacrifício ser anterior a liberdade, acha aqui seu ápice.
A pergunta feita por Cristo em Mc.8.37 (“Que daria um homem em troca de sua alma?”)parece ser satisfatoriamente respondida em Mc.10.45. Alias, é um contraste marcante com o texto apócrifo de Enoque 98.10: “E agora, sabei que fostes preparados para o dia da destruiição: portanto, ó pecadores, não tende esperança de viverdes, pois partireis e morrereis; pois não conheceis resgate algum; pois fostes preparados para o dia do grande julgamento, para a grande tribulação e grande vergonha para os vossos espíritos”.
A expectativa judaica para os pecadores, tal como ressaltado pelo texto de Enoque, é que sem resgate eles não tem outra alternativa. Por certo o argumento do texto apócrifo não expressa o reconhecimento de um Messias que redimiria o homem do seu débito com Deus, do seu pecado. É muito mais provável que esperassem no Messias um libertador, tal como Moiséis o fora. Observe que Estevão em seu discurso perante as autoridades judaicas apresenta a Moiséis como “chefe e libertador”(At.7.35). O termo que define Moisés como “libertador” é lytrotes, uma variante de lytron utilizada uma única vez em todo NT. Essa expectativa é vista em Simão, que segundo Lucas nos informa “esperava a consolação de Israel” (Lc.2.25) que em outras palavras significa esperava o Messias. A ele havia sido profetizado que morreria sem antes ter visto o Messias, e ao pegá-lo no colo, com oito dias de vida, ele declarou: “Agora Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra; por que meus olhos já viram a tua salvação[14]“(Lc.2.29-30). Fato semelhante acontece com Ana, uma profetiza vivua a oitenta e quatro anos que “falava a respeito do menino a todos que esperavam a redenção de Israel”(Lc.2.38). Há clara conexão entre as duas idéias aqui: Salvação e Redenção. O termo para salvação ainda será estudado (sotérios), mas redenção é exatamente lytrosis, outra variante de lytron. Ou seja, a expectativa judaica do Messias é que Ele seria o libertador, aquele que liberta (no sentido clássico de salvador), ou aquele que redimi seu povo. isso acompanhou o ministério terreno de Cristo, pois até mesmo após a sua morte tal expectativa ainda é encontrada. Isto é visto com os discípulos de Emaús, que em conversa com o próprio Cristo não o reconheceram e disseram: “O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc.24.19-21). A idéia do texto é que o Messias fosse aquele que libertaria Israel. O termo utilizado para “redimir” é a forma verbal de lytron, lytroö. Portanto conclue-se que a Liberdade oferecida por Cristo está além das expectativas dos primários discípulos (At. 1 6) e de todo Israel, como vimos nos textos mencionados.
Assim, Cristo é aquele que resgata o homem perdido (Mt 20 28; cf. Lc. 19. 10), por meio de sua Morte em favor deles, obtendo assim nossa “eterna redenção” (Hb.9.12). A colocação de “eterna” junto a “lytrosis” atribui infalibilidade e infinitude a esse resgate. Dessa forma conclui-se que aquele que é resgatado por Cristo, para Eternidade é resgatado.
Entrementes, ainda temos que observar dois textos que são importantíssimos para a conceituação de lytron da perspectiva da conduta cristã. 1 Pe. 1 .18 diz: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” Pedro tem a clara visão de que o sangue de Cristo é o preço oferecido pela liberdade desfrutada pelos cristãos. Mas, segundo a perspectiva de Pedro, tal resgate diz respeito ao fútil procedimento do homem. Assim, Cristo se propõe não apenas a conceder a Redenção eterna para eternidade, mas para a presente vida do cristão, a ponto de que ele não precisa mais viver;como antes, pois foi resgatado de lá. Sentido semelhante é demonstrado por Paulo em Tt.2. 14: “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. Portanto, conclui-se que Cristo não apenas efetuou pleno resgate no que diz respeito à nossa culpa perante Deus, mas Ele mesmo nos libertou do pecado e da Iniquidade, afim de nos purificar a ponto de sermos feitos um povo exclusivo Seu.
Com apolytrosis, podemos ver mais algumas colocações importantes para o conceito de redenção. Em Hb.9.12 vemos o conceito do sangue de Cristo como pagamento para redenção eterna. Em Ef 1.7 a idéia de Resgate, Libertação, Redenção é colocada lado a lado com a idéia de Remissão: “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” O Conceito de “no qual” é visto no verso anterior como “o Amado”, que é uma referência direta a Cristo. Assim, em Cristo temos a redenção, ou melhor, por meio do seu sangue temos a remissão dos pecados. Nesse texto temos a clara visão do pagamento efetivo da nossa divida a ponto de que nossos pecados são apagados, ou cancelados (cf. Rm.3.24; Cl.1.14; Hb.9.15).
Mas, ainda podemos encontrar um outro uso do termo apolytrosis, que é apenas visto em dois texto no NT. Em Rm.8.23 e Ef 1.14. Oserve: “E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso intimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8 23). O uso aqui dessa variante de lytron é claramente escatológica. Paulo em seu argumento no capítulo oito de Romanos deixa evidente sua expectativa sobre o futuro. Segundo Champlin, a redenção do corpo da perspectiva de Paulo, exige necessariamente a idéia, ainda que ausente neste trecho, a redenção, que é o cumprimento da adoção “Assim, pois, sob o titulo de ‘redenção do corpo: Paulo aponta, mais uma vez, para aquele exaltadíssimo conceito da glorificação em Cristo[15]“. Em contraste com as filosofias e ideologias não cristãs, que pregam a imortalidade da alma, até mesmo como o judaísmo pregou, o cristianismo apresenta com conceito além: A redenção do Corpo, ou, a Glorificação. Essa expectativa pode ser norteada pela experiência do próprio Senhor. Semelhantemente, Ef. 1 .14 nos diz: “qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (cf. Ef.4.30). O selo do ES no cristão é a garantia do resgate da propriedade de Deus. Ou seja, o cristão como propriedade particular de Deus, será aproximado junto a Ele no futuro, sendo que isso é garantido pelo selo do ES. Portanto, em linguagem claramente judaica, Paulo nos informa sobre o valor futuro da Redenção.
Em Sentido e Linguagem similar Lucas apresenta um discurso apocalíptico de Jesus, onde ele apresenta o conceito futuro da redenção: “exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima”. A idéia da proximidade da Redenção é introduzida pela expressão: “Então virá o Filho do Homem” em uma auto-referência. Assim, o estágio final dessa redenção levado a efeito em um futuro próximo, tal é nossa esperança e expectativa.
rýomai:
NT: Mt. 6:13; 27:43; Lc. 1:74; Rm. 7:24; 11:26; 15:31; 2 Co. 1:10; Cl. 1:13; 1Ts. 1:10; 2Ts. 3:2; 2Tm. 3:11; 4:17f; 2 Pt. 2:7, 9; LXX:Gn. 48:16; Ex. 2:17, 19; 5:23; 6:6; 12:27; 14:30; Js. 22:22, 31; Jz. 6:9; 8:34; 9:17; 11:26; 18:28; 2Sm. 12:7; 14:16; 19:10; 22:18, 44, 49; 2Re. 18:32f; 19:11; 23:18; Ed. 8:31; Ne. 9:28; Es. 4:8, 17; 10:3; Sl. 6:5; 7:2; 16:13; 17:1, 18, 20, 30, 44, 49; 21:5, 9, 21; 24:20; 30:2, 16; 32:19; 33:5, 8, 18, 20; 34:10; 36:40; 38:9; 39:14; 40:2; 42:1; 49:22; 50:16; 53:9; 55:14; 56:5; 58:3; 59:7; 68:15, 19; 70:2, 4, 11; 71:12; 78:9; 80:8; 81:4; 85:13; 88:49; 90:3, 14; 96:10; 105:43; 106:6, 20; 107:7; 108:22; 114:4; 118:170; 119:2; 123:7; 139:2; 141:7; 143:7, 11; Prov. 2:12; 6:31; 10:2; 11:6; 12:6; 13:17; 14:25; 22:23; 23:14; 24:11; Jo 5:20; 6:23; 22:30; 33:17, 30; Os. 13:14; Me. 4:10; 5:5; is. 1:17; 5:29; 25:4; 36:14f, 18; 37:12; 44:6; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5, 16; Ez. 3:19, 21; 13:21, 23; 14:18, 20; 37:23; Dan. 3:88; 8:4, 7, 11; Apócrifos: Apócrifo de Julzes 8:34; 11:26; 1 Esdras. 8:60; Judite. 6:2; Tobias. 4:10; 12:9; 14:11; Tobias. 12:9; 1 Macabeus. 2:60; 5:17; 12:15; 16:2; 2 Macabeus. 8:14; 3 Macabeus. 2:12, 32; 5:8; 6:6, 10, 39; Odes 9:74; Sabedoria de Salomão. 2:18; 10:6, 9, 13, 15; 16:8; 19:9; Sir. 29:16; 40:24; Salmos de Salomão. 4:23; 12:1; 13:4; 17:45; Epistola de Jeremias. 1:35, 53; Adições a história de Daniel. 3:17, 88, 96; 6:28; 8:11; 11:45;
O verbete ryomai é um verbo defectivo médio, por isso a terminação mai, e apesar de sua grande aparição nos escritos bíblicos, especialmente na LXX, o termo ryomai não tem termos cognatos. O termo significa basicamente “socorrer”, “livrar”, “preservar”, “salvar”. Nesse sentido é um sinônimo de sozo, termo não estudo que significa basicamente “salvar” e dá origem aos termos soteria (Salvação) e soter (Salvador).
No Grego Clássico aparece apenas a partir de Homero com sentido básico de “livramento” ou Preservação”, executado normalmente pelos deuses. Na oração de Ajax ao “Pai Zeus”, ele pede que os livre dos acáios da noite escura (Ilíada, 17,645). Semelhante colocação foi feita por Aquiles a Enéias: “Somente Zeus e os demais deuses te salvaram’ (Ilíada, 20,194). Tal livremente não era efetuado apenas em situações de guerra, mas a qualquer perigo ou aflição, bem como a proteção de bens (Ilíada. 15., 257,290; Heródoto 1, 87 [livrar do mal]; 5,49; 9,76, 184; 6, 7; 7, 217). Fato interessante é que da perspectiva do pensamento politeomítico, alguns casos não poderiam ser salvos ou libertos (Ilíada, 15.141; Odisséia 12,107). Em outra forma encontrada na literatura grega secular, pode ser aplicada à ação humana, principalmente às autoridades. Os príncipes libertavam cidades e países (Ilíada 9, 396), mulheres e crianças (Ilíada 17,224), os póscritos (Sóf. OC 285). Também é aplicado a objetos inanimados, tais como muro, capacete, armadura.
Na LXX o termo em pauta traduz nasal no sentido de “libertar”, “livrar, e “salvar-se” (cerca de 90x). De forma interessante, também traduz ga’al em passagens de Isaías, e em especial o texto de Gn,48.16, com a idéia de redimir, comprar de volta, libertar. A correlação entre esses vocábulos nos levam a crer que a gama original de significados aplicados a ryomai é de fundamental importância para a Teologia da Redenção, emoldurar pelo estudo etimológico. Segundo o DITNT, W. Kash percebeu que o uso que a LXX faz do termo pode ser equiparado ao uso do Grego Clássico, principalmente no que refere-se a YHWH como libertador. Por outro lado, é impossível deixar de reconhecer o lada plenamente particular em que a LXX aplica o termo para conceitos explicitamente hebraicos. Assim, temos dois grandes grupos de uso de ryomai.
Em Salmos a ação de YHWH como libertador do aflito é facilmente observável. Os salmistas cantam sobre o livramento dos perseguidores (Sl.7.1), de vizinhos ímpios (Sl.33.4), de homens falsos e maldosos (Sl.42.1), da morte e da fome (Sl32. 19; 55. 13). do Sheol (Sl.85. 13) entre várias outras colocações. Contudo, um outro uso que deve ser observado é que em alguns momentos em especial o termo é aplicado a grandes atos salvíficos de Deus, tal como o Êxodo (Ex.6.6 14.30) e a povoação de Canaã (Jz.ó.9; 8.34) entre outros exemplos (2Re.18.32; Is.36.15; Mq.4.10 5.5; 2Sm.12.7; 22.18- 3Ma.ó.10). Neste ponto o uso equipara-se ao uso do grego clássico, o que ressalta o bom uso feito do termo dentro do seu campo semântico ma LXX.
Como vimos, além de plausível tal tradução em conformidade com o sentido exposto pelo grego clássico, temos que ressaltar o sentido mais judaico aplicado ao termo na tradução da LXX. O que significa retirar o sentido mais antropocêntrico do conceito secular para abordar um sentido mais teocêntrico, como expressa todo o VT ao referir-se à Obra de Deus. W. Kash observa que a libertação não é determinada pelo acaso, ou pelas leis vigoradas pelos deuses ou homens, mas “mediante a palavra criadora e sustentadora de Javé, para Quem a salvação do povo e do individuo faz parte da Sua ação criadora da história da salvação começada por Ele[16]“.
Nesse aspecto um texto merece nossa atenção: Acaso, os deuses das nações puderam livrar, cada um a sua terra, das mãos do rei da Assíria?” (2Re.18.33). A declaração feita por Rabsaqué em afronta a YHWH é a clara demonstração da perspectiva antropocêntrica do povo assírio. Ele equipara YHWH com outros deuses de outros povos, mostrando a supremacia da Assíria (v.34; cf. 19.11-13). Certamente era verdadeira a afirmação de que a Assíria tinha subjugado outras nações, mas um fato estava equivocado na perspectiva dos assírios: YHWH não é como os deuses dos outros povos, feitos por mão humanas, Ele é O SENHOR. Observe a oração de Ezequias: “Ó SENHOR, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinas da terra; tu fizeste os céus e a terra” (19.15). A realidade de YHWH como Soberano Deus está além da compreensão ordinária dos gentios, por isso não podem entender Seu Caráter “Libertador”: Agora, pois, Ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinas da terra saibam que só tu és o SENHOR Deus” (v.19). A verdade sobre YHWH é exposta por Isaías da seguinte maneira: Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade” (Is.63.16). Deus é o Libertador, o Redentor, Resgatador (cf.4:ó; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5).
Em alguns textos vemos que a ação redentora de Deus é aplicada àquele que crêem positivamente na capacidade de YHWH de salvar. Observe Sl.21.4: Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste”; Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer” (v.8; cf. Sl.32.18-19; 33.7). YHWH é o que providência a salvação, a libertação do seu povo, e Ele ouve o clamor do justo e o livra de suas aflições (Sl.34.17); Ele livra os que o temem e confiam em sua misericórdia (Sl.33.18-19; Ez.14.20).
Portanto, diante das evidências acima lançadas, podemos notar que a consideração teocêntrica do judaísmo atribuiu uma nova perspectiva ao campo semântico do termo ryomai a ponto de ser aplicado condicionalmente ao homem, ao mesmo tempo que representa a ação do Soberano Senhor, que é poderoso para livrar seu povo (Dn.3.96 LXX- 3.29).
O termo ryomai aparece 15x em todo o NT, sendo que 7x refere-se a citações do VT, mas ele todos os casos Deus é o Libertador. Algumas vezes o termo é utilizado em situações de escárnio, tal como na crucifixão de Cristo, pois os zombadores entendiam os sofrimentos de Jesus e o não salvamento de Deus como prova absoluta da sua falsidade. Observe: Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt.27.43; cf. Sl.21.9). De fato, Deus não o livrou da morte, como esperavam seus zombadores, mas de modo especial o livrou na ressurreição.
Um fato interessante é que o uso neotestamentário do termo em pauta não traz a idéia de Salvação, tal como entendida pelo conceito cristão. O termo que desempenha esse papel é “sozo”. ryomai ocupa-se com a verdade da libertação oferecida por Deus ao Seu povo. Observe a declaração de Jesus, na famosa oração do Pai nosso: te não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre” (Mt.6. 13). Nesse sentido apresentado pro Cristo, é impossível que seja aplicado a incrédulos. O que é apresentado é a idéia da ação continua de Deus em livrar os eleitos do mal moral. Ao homem não foi dada a plena capacidade, em sua própria condição natural, para resistir ou escapar do mal que o assedia. Dessa forma, em sua oração deve reconhecer sua insuficiência diante da tentação e pedir que Ele nos livre do mal. Nesse mesmo sentido, a obra de Deus em livrar é apresentada por Paulo aos corintos da seguinte forma: “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos, o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos”.
Uma única vez o termo faz referência a Obra de Deus na Salvação, conforme apresentada por Paulo em sua Epístola aos Colossensses: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13). De qualquer forma, a ênfase é sobre a libertação moral do homem, por que “Império das Trevas” ilustra a situação de pecado que o homem vivia antes da libertação efetuada por Deus, por meio de Jesus Cristo. Contudo, podemos nos lembrar de Rm.11.26 e 1Ts.1.10 como textos que expressão a expectativa escatológica do cristão.
agorázo:
NT: Mt.13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; 1Co. 6:20; 7:23, 30; 2Pt. 2:1; Ap. 3:18; ~:9; 13:17; 14:3f; 18:11; LXX: Gn. 41:57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; is. 24:2; 55:1; Je. 44:12; Apócrifos: Tobias. 1:13f; 1 Macabeus. 12:36; 13:49; Siraque. 20:12; 37:11; Baruque. 1:10; Eplstola de Jeremias.1 :24;
O termo agorazo tem significação estrita, sendo normalmente encontrado com o sentido de compra. José foi comprado (Gn.41.57), os filhos de Israel foram para o egito comprar mantimentos (Gn.42.5, 7; 43.4; 43.42). Normalmente essa é a idéia exposta pelo termo, conforme expresso na LXX (cf. Gn. 41 :57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; Is. 24:2; 55:1; Je. 44:12).
No NT esse uso parece majoritário (cf. Mt. 13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; Ap. 3:18). Entretanto, alguns texto merecem nossa atenção: “Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens” (1Co 7.23; cf. 6.20). A idéia é que estávamos vendidos a escravidão, mas Deus nos comprou para si. A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2 1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1 Co.6. 19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “ex”, formando o vocábulo “exagorazo”. Em Gl 3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “ex” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra (Gl.3.13).
[1]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[2]TENNEY, Merril C. The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Biblei. Vol.5, pp 49.
[3]IRONSIDE, Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[4]BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[5]DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vol.3, pp.1373
[6] Muita discussão tem sido feita sobre o conceito apresentado neste texto. Como vimos anteriormente, é certo que o texto faça referência ao remidor partente de Jó, embora tenha grande significância sobre a Obra Redentora efetuada por Cristo. Como já foi afirmado, é mais coeso crer que Jó faça menção a Deus como seu Remidor (cf. 16.19). Um detalhe que não pode passar desapercebido aqui é a continuação do texto: “Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus”. Jó parece esperar ver a Deus em sua carne, ou seja, em sua vida, o que seria uma infração de Ex.33.20, 23. Outro detalhe é que segundo a História de Jó, ele foi Vindicado por Deus no cap. 41, mas não chegou a ver a Deus literalmente. Portanto, pode-se concluir que ele vislumbra uma vida ressurreta. Assim, fica mais evidente o link entre esse texto e a expectativa messiânica posteriormente elaborada.
[7] Na forma não preposicionada. Existem outras variantes do termo encontradas em todo o NT, como anfflytron, Iytroo, lytrosis e apolytrosis.
[8] BROWN, Colin, Dicionário internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.93
[9] Thayer’s Greek Lexicon, BibleWorks Software Inc.
[10] Um detalhe importante é que a LXX diluiu o sentido de lytron ao adotar o termo anchisteus (lit. parente, cf. Rt.3.9, 12; 4.1, 3, 6, 8) e o verbo anchisteuo (ser o parente próximo, agir como parente próximo, fazer o dever de parente próximo, cf. Rt.2.20; 3.13; 4.4, 6-7). A idéia de redenção ainda é exposta pelos termos Hebraicos, embora o mesmo seja absorvido pelas expressões gregas na LXX.
[11] Ponto importante deste texto é que o resgate é aplicado a “muitos”. Tal colocação tem produzido intenso debate. Rudolff Bultmann acredita que tal colocação seja produto da Igreja Primitiva elaborada a partir de um pronunciamento feito pelo Cristo ressurreto. Entretanto, tal teoria não tem como ser provada, a não ser pelas colocações do próprio texto. Ainda seguindo essa vertente ideológica, W. Bousset acredita que a expressão seria influência do cristianismo helenístico. Outros, como J Jeremias e E. Lohse, acreditam em um fundo histórico palestiniano. Tal argumento pode ser melhor demonstrado, por duas razões: (1) O uso da expressão “Filho do Homem” (Dn.7.13); e (2) pela forma de expressão claramente semítica “muitos” (heb. Rabbtm). O segundo ponto seria claramente uma identificação com o Servo Sofredor: “foi contado entre os transgressores, contudo, levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu”. Aqui vemos um fundo histórico judaico claramente evidenciado. Segundo W.L. Lane, “muitos”, “é um termo técnico para a comunidade eleita, o povo escatológico de Deus”. Seguindo semelhante raciocínio, Brown afirma que “Mc. 10. 45 parece combinar a redenção substitutiva do único em prol dos muitos com a idéia de que os muitos são a comunidade eleita”. Deve ter em mente que tal colocação não contradiz 1Tm.2.ó, mas a restringe. Segundo a Teologia Sistemátic aCristã Reformada, a oferta de Cristo pelo pecado é suficiente para todos os homens, como Paulo nos mostra em 1Tm.2.ó, mas é aplicada somente aos eleitos, como Cristo enfatiza em Mc.10.45 e Mt 20.28.
Entretanto, a Teologia Bíblica e Exegética pode oferecer uma colocação muito mais plausível.. Observe que o vocábulo “todos” é utilizado várias vezes dentro do contexto do capítulo. João Calvino, ao comentar 1Tm.2.4, faz a seguinte colocação: “Que seria mais razoável do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino?”. A oração é que tem grande foco aqui no argumento de Paulo, pois ela deve ser feita em favor de todos os homens, dos reis e de todos que se acham investidos de autoridade. Dessa forma, Paulo demonstra que dentro desse “todos os homens” incluem-se as autoridades responsáveis pela perseguição dos cristãos. Dessa forma, insurge a idéia de que a expressão totalitária de Paulo esta mais ligada a não acepção de pessoas da parte dos cristãos, inclusive em suas orações, como alinhada ao desejo do próprio Deus. “Pois se o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, então é justo que todos aqueles a quem o evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida enterna” (CALVINO, João, As Pastorais. pp.59-60). Nem mesmo João Calvino se detem a tratar da eficácia da oferta de Cristo, visto não ser o foco da discussão aqui. Mas, o que se pode dizer é que a Salvação oferecida por Cristo é indiscriminada, ou seja, atinge todas as nações, etnias, camadas sociais, pois Deus oferece o evangelho sem acepção de pessoas (Rm.2.11). Essa conclusão é evidente a partir da descrição de reis e autoridades, feitas anteriormente. Com esse contexto em mente, vemos que o resgate oferecido por Cristo, como anunciado por Paulo em 1Tm.2.6 está em conformidade com os textos de Mc e Mt. A diferença é que Paulo evidencia a não acepção de Deus para com o homem. Assim, qualquer homem pode ser alvo da salvação oferecida por Deus.
[12] Em 1Tm.2.6, Paulo faz uso de antilytron, termo que não é encontrado na LXX, e em nenhum outro lugar no NT o que provavelmente é um neologismo criado por Paulo para enfatizar o caráter da redenção. Tanto Mateus como Marcos utilizam a preposição anti após o termo lytron conceituando uma “resgate para”. A colocação de Paulo é agrupar ambos sentidos em um só termo para expressar um resgate que foi levado a efeito. Alias, muitos comentaristas tem visto no termo uma indicação de “substituição”, como sugere Charles Caldwell Ryrie em sua obra Teologia Básica (pp.332-335). D Gunthrie acredita que “o acréscimo de preposição anti, ‘em lugar de’ é significante, tendo em vista a preposição hyper,’em prol de’ que se emprega depois dela. Pensa-se em Cristo como o ‘preço de troca’ em prol de todos e no lugar deles, por motivo do qual se concede a liberdade” (The Pastoral Ephistles, IN: BROWN, Collin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.100; grifo do autor)
[13] BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[14] O termo grego para salvação ainda será estudado, mas como percebe-se pelo contexto, tanto ele quanto a profetiza Ana tem a mesma expectativa em relação ao futuro do menino.
[15] CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Comentado Versrculo por Versículo. Vol.3, pp.720.
[16] KASH, W. Theological Dictionary of New Testament, Vol.VI, pp.1000 IN: BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.105
04.27.09
Por que o Cristianismo escolheu a Cruz?
É bem verdade que os símbolos não tem um significado único, mas conforme o tempo e a época, carregam um significado particular. Um exemplo disto é a flor de Lótus, que é normalmente associadoa ao budismo, mas já foi usada por chineses, egípcios e hindus antigos. Contudo apesar de sua variedade de significados, os símbolos sempre representam uma idéia central de determinado pensamento. E o cristianismo histórico não foi uma exceção a esse fato.
Nos primeiros momentos da história do cristianismo, os cristãos adotaram o peixe como símbolo do cristianismo. Atualmente, alguns adesivos colados em carros, casas ainda levam esse símbolo. Mas qual é a razão da escolha desse símbolo?
Quando criança era muito curioso, como a maioria das crianças, mas o meu desenvolvimento lógico era um pouco mais que o normal, e eu não conseguia entender a razão do peixe simbolizar a Jesus, como eu tinha ouvido falar em uma escola dominical. Certo dia ouvindo sobre a história da multiplicação dos pães feita por Jesus eu tive uma conclusão interessante: “Aqui está a resposta! O peixe representa Jesus vem da multiplicação dos pães! O menino trouxe 2 peixes e 5 pães. E é lógico que o Peixe representa Jesus“.
Por certo essa não foram as minhas palavras naquele dia, mas essa foi a conclusão que carreguei durante anos. Há pouco tempo atrás eu compreendi o símbolo por trás do peixe escolhido pelos primeiros cristãos. Trata-se de um acróstico: “ICHTHUS”, que é a palavra grega para peixe foi assim demonstrada: “Iesus Christou Theou Uios Soter”, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A idéia é excelente, mas poucas pessoas poderiam compreende facilmente essa idéia.
Deve ser por isso que os símbolo mais conhecido do cristianismo e que o representa facilmente é a CRUZ. Contudo, “a escolha que os cristãos fizeram da cruz como símbolo de sua fé é tanto mais supreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo[1]“. A crucificação sempre foi vista com horror pelo mundo antigo. Os gregos e romanos adotaram a crucificação, como pena capital, dos bárbaros que eram caprichosamente cruéis em suas formas de execução. Para os romanos, a crucificação era aplicada somente a criminosos extremamente desumanos, para que pudessem sofrer muito antes de sua morte. Com a crucificação, era possível fazer com que o criminoso sofresse durante dias, e isso servia de ilustração para outros que tentassem trilhar mesmo caminho. Então,
Por que razão o cristianismo escolheu a cruz?
Como já foi dito anteriormente, o símbolo é a expressão gráfica do cerne de uma idéia. E dessa forma, não haveria para o cristianismo outro símbolo tão apropriado quanto a cruz. A cruz em si, como acontecimento comum no antigo mundo romano, era deveras cruel. Era um símbolo de repulsa, medo, sofrimento, e desprezo. Mas para o cristianismo é símbolo de vida e liberdade, pois representa a morte de Cristo. Com isso não negamos a crueldade com que foi executada, mas afirmamos o resultado obtido por essa morte.
A Cruz, como evento histórico necessário, marco o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus:
- É na morte que a Obra Messiânica é encerrada (Jo.19.30)
- É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3)
- A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como de suas obras (Tt.2.14)
- É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para o perdão dos pecados (Hb.9.15; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14
- É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12)
- É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24)
- Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)
De acordo com as colocações supracitadas, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e na expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se à Cruz de Cristo. As lias, cristianismo sem cruz é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pos esta é o cerne de suas ideologia e fé. Se o que foi deito é verdadeiro, e o símbolo que deveria representar tal idéia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal par o Cristianismo.
E o que significa essa cruz senão nossa liberdade?! Nossa redenção?! A remissão dos nossos pecados?! Comunhão com Deus?! É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de jesus Cristo.
[1] STOTT, John, A Cruz de Cristo. Pp.17
[2] A ressurreição é a confirmação da divina verdade exposta sobre o Cristo anunciado aos antigos (Is.53.10-11), a garantia da justificação (Rm.4.25) e da ressurreição dos cristãos (1Co.15.20, 23), da libertação do pecado (1Co.15.17), perfeição e imortalidade (1.Com.15.33) entre diversas outras questões. Por isso não pode nem deve ser minimizada.
Conceito de Redenção no Velho Testamento
O Livro International Standard Bible Encyclopedia, organizado por James Orr, diz que “a idéia de redenção no Antigo Testamento tem início a partir do conceito de propriedade (Lv.25.26; Rt.4.4)[1]“. Um preço era pago em dinheiro, em conformidade com a Lei, para comprar novamente uma propriedade que necessitasse ser liberta ou resgatada (Nm.3.51; Ne.5.8). E a partir deste uso, o termo no Antigo Testamento foi usado normalmente com um senso de libertação, embora a idéia de pagamente sempre estivesse presente.
Nesse mesmo sentido levantado, Deus é visto como o Redentor de Israel, pois é aquele que provê Libertação para seu povo. Em Dt.9.26 temos uma bela demonstração desse fato: “Ó Soberano Senhor, não destruas o teu povo, tua própria herança! Tu o redimiste com tua grandeza e tiraste da terra do Egito com mão poderosa‘. Como podemos observar, Deus é visto por Moisés como “Aquele que Liberta“. Redenção aquilo é vista exatamente neste sentido, e a história da saída do povo do Egito é a prova definitiva desse fato. Observe:
E quem é como Israel, o teu povo, a única nação da terra que tu, ó Deus, resgatastes para dela fazerdes um povo para ti mesmo, e assim tornaste o teu nome famoso, realizaste grandes maravilhas ao expulsar nações e seus deuses de diante desta mesma nação libertaste do Egito? (2Sm.7.23)
Os dois termos em destaque reportam-se ao mesmo vocábulo hebraico (padâ; cf. abaixo) que traduz o conceito em português para redenção. Portanto, não podemos negar que o conceito de Redenção no Velho Testamento denota o sentido de libertação. Tal ação é comumente vista em benefício do povo de Deus (1Cr.17.21; Is.52.3). A idéia de “Redenção” inclui a libertação de todas as formas de mal (Is.52.9; 63.9; cf. Lc.2.38), ou pragas (Sl.78.35, 52) ou qualquer tipo de calamidade (Gn.48.16; Nm.25.4, 9).
O VT também apresenta a figura do homem endividado que poderia hipotecar seus bens para conseguir pagar o que estava devendo. Se porventura, ainda não fosse suficiente ele poderia hipotecar suas forças, suas habilidades como um escravo até que sua dívida fosse paga: “Depois de haver-se vendido, haverá ainda resgate para ele” (Lv.25.48). Um irmão poderia, se tivesse condições, redimi-lo, mas não era o que normalmente acontecia. Outra maneira de redimir esse homem seria se ele herdasse subitamente uma propriedade para então, pagar sua dívida. Contudo, existe ainda outra possibilidade, e essa merece nossa atenção: É a figura do Redentor-Parente. O Redentor-Parente seria alguém com capacidade para remi-lo, e que “se preocupasse suficientemente por ele, a ponto de responsabilizar-se pelas dívidas e as solvesse, então poderia ser libertado[2]“.
O Velho Testamento emprega os seguintes vocábulos para conceitura o que o Latim chamou de “redemptio“, o inglês de “redemption” e o português de “redenção[3]“:
Ga’al
Gn.48.16; Ex. 6.6; 15.13; Lv.25.25ss, 30, 33, 38, 48, 54; 27.13, 15, 19, 27, 31, 33: Nm.5.8; 35.12, 19, 21, 24, 27: Dt.19.6, 12; Js.20.3, 5, 9; Rt.2.20; 3.9, 12; 4.1, 3, 6, 8, 14; 2Sm.14.11; 1Re.16.11; Ed.2.62; Ne.7.64; Jó.3.5; 19.25; Sl.19.15; 69.19; 72.14; 74.2; 77.16; 78.35; 103.4; 106.10; 107.2; 119.154; Pv.23.11; Is.35.9; 41.14; 43.1, 14; 44.6, 22; 47.4; 48.17, 20; 49.7, 26; 51.10; 52.3, 9; 54.5, 8; 59.3, 20; 60.16; 62.12; 63.3, 9, 16; Jr.31.11; 50.34; Lm.3.58; 4.14; Dn.1.8; Os.13.14; Mc.4.10; Zc.3.1; Ml.1.7, 12
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, o termo significa basicamente: “Redimir, vingar, resgatar, livrar, cumprir o papel de resgatador[4]“. Este verbete é o verbo denominativo, que dá origem a outros termo, tais como “geûllay” (apenas em Is.63.4 – redenção), “geûlla” (direito de redenção, preço de redenção) e “go’el” (redentor).
O Velho Testamento utilza o termo em quatro situações distintas:
- É usada na legislação do Pentateuco para se referir ao resgate de um campo que fora vendido em tempo de necessidade (Lv.25.25), ou o escravo que se vendera em tempos de miséria (Lv.25.48).
- Diz respeito a propriedades e animais, que não eram dedicados ao sacrifício ao Senhor ou eram primogênitos de animais impuros (Lv.27.11ss) que poderiam ser resgatados por um homem que pudesse dar algo equivalente em troca, embora o preço do resgate fosse maior, para evitar torças desonestas;
- Refere-se, também, ao “Vingador de Sangue“, que era o parente mais próximo de um homem assassinando (Nm.35.12ss). Como nas relações comerciais, era necessário um valor equivalente para que uma propriedade ou escravo fossem resgatados, no caso de vida retirada, com a vida do assassino seria paga. Por esta razão denomina-se tal pessoa de “Vingador de Sangue“. Neste caso, o “redentor” é um executor da pena capital, mas sem culpa para receber mesma punição;
- Um outro uso muito comum nos Salmos e nos profetas, é a identificação de Deus como Redentor de Israel. Neste caso, o preço da redenção não é citado, embora a idéia de julgamento sobre os inimigos de Israel seja citado em Is.43.1-3.
Um uso interessante do termo está lançado em Pv.23.10-11: “Não removas os marcos antigos, nem entres nos campos dos órfãos, porque o seu Vingador é forte e lhes pleiteará a causa contra ti“. Como é evidente pelo uso de letra maiúscula na tradução da ARA, o Vingador referido é Deus. A NVI traz a idéia de “aquele que defende“, de maneira um pouco mais superficial, embora a declaração seja aceitável do ponto de vista léxico. A versão em inglês, a NIV, traz a idéia de defensor, enquanto a KJV traz “Redentor“. Segundo Girdlestone “Deus assume o lugar do redentor-parente e também de Vingador do pobre e necessitado“. Todas as traduções expostas levantam um aspecto do termo “go’el“, sendo que é possível, diante de fartas opções, compreender seu significado. Portanto, o que vemos neste texto é que existe uma combinação de sentidos de “go’el“, que expõe de maneira clara seu significado[5].
O texto clássico sobre a redenção está em Jó.19.25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra“. Alguns cristãos do passado o assinalaram como uma referência à vinda de Cristo em sua Obra Messiânica, o que seria uma grande colocação. Contudo, considerando o argumento do próprio livro, e a situação de Jó, seria mais correto crer que faça referência a Deus, que, como amigo e parente-resgatador, por meio da fé, por fim redimiria Jó do pó da terra. Por outro lado, não podemos negar que exista uma relação profética neste texto relacionada com a Obra Messiânica realizada por Cristo.
Padâ[6]
Exod. 13:13, 15; 21:8; 34:20; Lev. 19:20; 27:27, 29; Num. 18:15ff; Deut. 7:8; 9:26; 13:5; 15:15; 21:8; 24:18; 1 Sam. 14:45; 2 Sam. 4:9; 7:23; 1 Ki. 1:29; 1 Chr. 17:21; Neh. 1:10; Job 5:20; 6:23; 33:28; Ps. 25:22; 26:11; 31:5; 34:22; 44:26; 49:7, 15; 55:18; 69:18; 71:23; 78:42; 119:134; 130:8; Isa. 1:27; 29:22; 35:10; 51:11; Jer. 15:21; 31:11; Hos. 7:13; 13:14; Mic. 6:4; Zech. 10:8
O Dicionário Internacional de Teologia traz a seguinte colocçaão de termo “padâ”: “O Sentido básico de padâ é o de conseguir a transferência de propriedade de uma pessoa para outra mediante pagamento apropriado de uam quantia ou de um substituto equivalente. A raiz ocorre em assírio como o sentido de ‘poupar’, e em ugarítico é mais usado com o significado de ‘resgatar’. A raiz e seus derivados aparecem 69 vezes no AT[7]“.
O termo em pauta é um dos termos mais significativos para a idéia de Redenção do ponto de vista cristão, porque recebe influências históricas. No Êxodo o termo é utilizado em relação a redenção dos primogênitos de Israel, que são poupados por substituição, enquanto os primogênitos do Egito são mortos (Ex.13.13, 15). Naquela ocasião, Deus livrou a Israel da servidão pelo preço da morte de todos os primogênitos do egito, sejam eles humanos ou animais (Ex.4.23; 12.29). O Termo é também utilizado em relação aos levitas e seus animais, que deveriam ser separados para Deus, em lugar do povo e de seus animais (Nm.3.4ss), que não eram dedicados ao Senhor (Ex.13.11-16; 34.19-20; Nm.18.8-32). “Aquele que era santo para o Senhor, i.e, o primogênito de vaca, ovelha e cabra, não seria resgatado[8]“.
Um texto que merece nossa atenção aqui é Dt.15.15: “Lembrar-te-ás de que fostes servo na terra do Egito e de que o SENHOR, teu Deus, te remiu; pelo que, hoje, isto te ordeno“. Israel também é visto como receptor da libertação proposta e executada por Deus. Portanto, o termo não trata exclusivamente da questão legal ou religiosa do povo de Israel, mas é aplicado à Obra de Deus em relação ao Seu povo. Tal idéia, ainda será exposta em outras épocas.
Em Sm.7.23 vemos uma colocação importantíssima: “Quem há como o teu povo, como Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo? E para fazer a ti mesmo um nome e fazer a teu povo estas grandes e tremendas coisas, para a tua terra, diante do teu povo, que tu resgataste do Egito, desterrando as nações e seus deuses“. O reconhecimento sobre o privilégio da nação de Israel é vista historicamente como conseqüência da Redenção de Deus, ou seja, a libertação do povo.
Inclusive, Isaías parece interpretar o chamado de Abraão como um ato remidor da parte de Deus: “Portanto, acerca da casa de Jacó, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão: Jacó já não será envergonhado, nem mais se empalidecerá o seu rosto” (Is29.22). Com a mesma visão, anteviu aquilo que Deus lhe revelara sobro o futuro de Sião: “Os resgatados do SENHOR voltarão e virão a Sião com cânticos de júbilo; alegria eterna coroará a sua cabeça; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido“. (Is.35.10; cf. 50.2; 51.11; Zc.10.8).
Como “ga’al”, “padâ” é aplicado a diversas situações, principalmente nos Salmos. Deus é apresentado como aquele que liberta/redime os homens do perigo (Sl.26.11; 31.5; 34.22-23; 44.26; 71.23) ou da mão de opressores (Sl.55.18-19; 69.18-19). Nesse contexto vemos que os Salmos ensinam a insuficiência do homem diante da morte, visto não poder fazer nada perante ela (Sl.49.8-9), mas demonstra que o poder redentor de Deus não está limitado a ela (v.15-16).
O mais interessante no uso deste termo é que uma única vez ele é utilizado em referência ao pecado: “Espere Israel no SENHOR, porque no SENHOR há misericórdia, e nele há abundante redenção. É ele quem redime a Israel de todas as suas iniqüidades” (Sl.130.7-8).
Kapar
Gen. 6:14; 32:21; Exod. 21:30; 29:33, 36f; 30:10, 12, 15f; 32:30; Lev. 1:4; 4:20, 26, 31, 35; 5:6, 10, 13, 16, 18, 26; 6:23; 7:7; 8:15, 34; 9:7; 10:17; 12:7f; 14:18ff, 29, 31, 53; 15:15, 30; 16:6, 10f, 16ff, 20, 24, 27, 30, 32ff; 17:11; 19:22; 23:28; Num. 5:8; 6:11; 8:12, 19, 21; 15:25, 28; 17:11f; 25:13; 28:22, 30; 29:5; 31:50; 35:31ff; Deut. 21:8; 32:43; 1 Sam. 3:14; 6:18; 12:3; 2 Sam. 21:3; 1 Chr. 6:34; 27:25; 2 Chr. 29:24; 30:18; Neh. 10:34; Job 33:24; 36:18; Ps. 49:8; 65:4; 78:38; 79:9; Prov. 6:35; 13:8; 16:6, 14; 21:18; Cant. 1:14; 4:13; 7:12; Isa. 6:7; 22:14; 27:9; 28:18; 43:3; 47:11; Jer. 18:23; Ezek. 16:63; 43:20, 26; 45:15, 17, 20; Dan. 9:24; Amos 5:12
Este é o verbo denominativo que dá origem a termo como “koper” (resgate, dádiva para obter favor), “kippur” (expiação) e “kapporet” (propiciatório, local da expiação). Embora exista muita discussão sobre a raiz desse termo, alguns comentários devem ser elaborados. Harris, no DITAT, dia que a “raiz kapar é usada cerca de 150 vezes. Tem sido objeto de intensos debates. Existe uma raiz árabe equivalente que significa ‘cobrir’ ou ‘ocultar’[9]“. Girdlestone nos informa que o termo árabe, mencionado pelo DITAT é “kephr”[10], e que o sentido original é de ser coberto ou protegido. Nos diz também que o termo tem 3 usos distintos no sentido original em hebraico:
- 1. Pode significar um povoado, vila, aldeia (Kapernaum = Cafarnaum = Vila de Naum; cf. 1Cr.27.25; Ct.7.12)
- 2. Pode referir-se a uma planta (Ct.1.14; 4.13);
- 3. Pode significar calafetar com betume (Gn.6.14)
O Conceito de “pecado coberto” é normalmente abordado por estudiosos da Teologia Sistemática, tal como Chafer, que diz que “a economia divina com respeito à disposição de tais pecados, representados nos sacrifícios de animais durante o extenso período entre Abel e Cristo, foi a de cobrir, como mostra a raiz hebraica kaphar, traduzida como expiação[11]“. Pouco a frente, ele ainda afirma que o termo em pauta expressa com exatidão divina o conceito de cobrir. O International Standard Bible Encyclopedia complementa, ainda, que o termo significa não apenas cobrir, mas também “cancelar, aplacar, oferecer ou receber uma oferta pelo pecado[12]“. O Holman Bible Dictionary contribui ao afirmar que “kapar” é usado em conceitos e práticas estritamente religiosas. É da palavra “kippur” que se origina “Yom Kippur, dia da expiação, ou o ‘dia de cobrir’, talvez o mais sagrado dos dias santos no Judaísmo. A forma verbal no Velho Testamento sempre é usada com um senso religioso de cobrir o pecado ou efetuar pagamento pelo pecado. Porém, a forma substantiva às vezes é usada no sentido secular de um suborno (Am.5.12) ou resgate (Ex.21.30). Com ‘padâ’, é usado no senso de resgate[13]“.
De fato, não podemos negar o que a escritura nos ensina sobre a morte expiatória de Cristo (sobre a morte de Cristo ser eficiente aos pecados cometidos antes de sua vinda ver At.17.30; Rm.3.26; Hb.9.15). Segue-se que o termo pode auxiliar na compreensão do conceito de “expiação”, como é visto por todo o velho Testamento. Portanto, concluímos que, apesar da dificuldade de identificação da aplicação do termo para a teologia do Velho Testamento, o termo é utilizado teologicamente como o conceito de “cobrir” os pecados (sobre essa conclusão ver ISBE no tópico “The English Word). Enfim, após algumas consideração etimológicas de aplicação teológica, vamos considerar o que o termo “Kapar” e suas variantes podem auxiliar na compreensão de Redenção no Antigo Testamento.
Em Gn.32.20 vemos um uso interessante do termo “kapar”, pois a ARA traduziu como “aplacar”, a NVI como “apaziguar” e a versão Alfalit Brasil, como “perdoar” (A simples observação deste caso já nos ilustra a dificuldade de se ter um termo definitivo para a tradução conceitual acontecer. Por outro lado, é sempre importante ter em mente que não existe tradução perfeita). O Contexto é a reconciliação entre Jacó e Esaú, e um presente foi enviado adiante de Jacó, pois pensava que fazendo o presente chegar antes dele, seu irmão o perdoaria. O termo é utilizado nesse contexto, e sua aplicação em português é bem vista com qualquer uma das possibilidades ressaltadas pelas diferentes versões bíblicas.
Das Sete ocorrências do termo em Êxodo, seis são utilizadas na ARA como sentido de expiação e uma como “propiciação” (Ex.32.30). Em Levítico a maioria dos casos é traduzido como “expiação”. Em Nm 5.8 vemos outro uso que merece nossa atenção. A ARA traz a seguinte tradução: “Mas, se esse homem não tiver parente chegado, a quem possa fazer restituição pela culpa, então, o que se restitui ao SENHOR pela culpa será do sacerdote, além do carneiro expiatório com que se fizer expiação pelo culpado“. O termo “Kapar” é traduzido pelo termo sublinhado no texto, mas o seu conceito é expresso pela colocação em negrito. Ou seja, o bode expiatório, que era oferecido para morrer, tinha a função de “fazer restituição pela culpa”. Portanto, podemos notar que o sentido mais clássico do termo em relação com a Teologia do Velho Testamento diz respeito a preço pago em favor de um débito. Deve-se lembrar que tal conceito aplica-se, não a dívida financiara, mas religiosas. Note os versos anteriores: “Dize aos filhos de Israel: Quando homem ou mulher cometer algum dos pecados em que caem os homens, ofendendo ao SENHOR, tal pessoa é culpada. Confessará o pecado que cometer; e, pela culpa, fará plena restituição, e lhe acrescentará a sua quinta parte, e dará tudo àquele contra quem se fez culpado” (v.6, 7).
Dos termos do Velho Testamento, o mais significativo em termos religiosos é “kapar”. Sem sombras de dúvidas, o conceito de expiação é inexoravelmente ligado ao pecado. Uma simples abordagem de Levíticos deixará isso mais que evidente. A Idéia de débito acompanhado pelo perdão é claramente observada na literatura vétero-testamentária. Observe a chamada de Isaías: “Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado” (Is.6.7; cf. Nm.15.28; Sl.65.3; 78.38; 2Cr.30.18, 19).
Como pudemos ver, a idéia de Redenção exposta no Velho Testamento é concentrada em conceitos concretos e aplicada a práticas civis e religiosas. Entretanto, a idéia de preço adequado pago em função de um débito sempre será bem presente, bem como a idéia de substituição para essa reconstituição. Sobre o assunto, o Holman Bible Dictionary diz que a “doutrina da redenção no Velho Testamento não é derivada do pensamento filosófico abstrato , mas do pensamento concreto hebreu“. E isto foi bem observado em nossa exposição.
[1] ORR, James (org). International Standard Bible Encyclopedia. Parsons Tecnology Inc.
[2] IRONSIDE, H.A. Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[3] Sobre colocações mais profundas e completas sobre o termo hebraico em pauta, ver Robert B. Girdlestone: Synonyms of the Old testament, pp.117-120. Girdlestone, faz a aplicação do conceito de “ga’al” exposto no VT no NT, evidenciando os termos gregos relativos.
[4] HARRIS, R. Laiid, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionáio Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Pp.235
[5] Sobre Pv.23.10-11 é válido observar que a tradução da Septuaginta oferece para “por que seu Vingado é forte“: “o’ ga.r lutrou,menoj auvtou.j ku,rioj krataio,j evstin”. O uso de “kúrios” associado com “lutroö” no presente do particípio médio, nominativo, masculino, singular nos dá a clara identificação de Deus como Redentor-Parente Vingador.
[6] É ponto pacífico entre muitos comentaristas que ga’al e padâ sejam sinônimos, embora tenham suas particularidades. Observe o que Willian Coker diz sobre o termo no DITAT:
“O emprego de padâ e seus derivados ocorre, às vezes, em paralelo com outras raízes. Deve-se destacar particularmente que ga’al é usado como sinônimo. As duas raízes dizem respeito à redenção mediante o pagamento de um resgate, embora seja sugerido que ga’al está basicamente associado a situações familiares e, dessa forma, dá a idéia da ação de um parente consangüíneo. No entanto, o uso de padâ e de ga’al em paralelismos encontrados em OS.13.14 e Jr.31.11 e o seu emprego como sinônimos em Lv.27.27 exemplificam sobre aposição de idéias entre as duas palavras. Além disso, das 99 vezes que a LXX utiliza o verbo lutroö, em 45 esse verbo está traduzindo a raiz ga’al e 43 a raiz padâ“
[7] HARRIS, R. Laiid, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionáio Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Pp.1200.
[8] Idem. pp.1201.
[9] HARRIS, R. Laiid, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionáio Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Pp.743
[10] GIRLESTONE, Robert, B. Synonyms of the Old Testament. Pp.127.
[11] CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. Vol.3 pp.107
[12] ORR, James (org). International Standard Bible Encyclopedia. Parsons Tecnology Inc.
[13] BUTTLER, Trent C (org). Holman Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
Declaração de Fé
1. Bibliologia
Creio que a Bíblia é a Palavra de Deus (Rm.3.2: “de Deus” é um genitivo de origem), a manifestação especial do Ser, dos Propósitos e das Obras de Deus de forma proposicional, sendo eficaz em promover a redenção (Rm.1.16-l7), inspirada verbal e totalmente por Ele (2Tm.3.16; Mt.5.17-18; Mt.22.42-44, IIPe.1.20-21), que utilizou homens (Mt.1.22, 2.15; IIPe.1.20-21) em plena posse de suas faculdades (ICo.1.14-16), movidos pelo Espírito (IPe.1.10-11; IIPe.1.20-21) proporcionando um texto fidedigno e sem erros nas palavras dos escritos originais, o qual salvaguardou durante séculos, como autoridade inegociável.
2. Teologia Própria
Creio que Deus é Vivo (Jr.10.10; Jo.5.26; Rm.8.11; ITs.1.9), Espírito (Dt.4.15; Jo.4.24; ITm.1.17), Eterno (Sl.90.2; Hb.10.1-12), Pessoal (Rm.8.28; Rm.11.33-36), Soberano (Ex.15.18; Ex.18.11; Dt.4.39; Sl.24.1, 93.1, 95.3, 96.10; Dn.6.26; Mt.6.10; Rm14.11; Ap.19.6) Auto-existente (Ex.3.14; Jo.5.26), subsistindo em três pessoas distintas (Pai, Filho e Espírito; Gn.1:1,2; 1:26,27; Mt. 3:16; Mt.28:19,20; Jo.14:16; IICo.13:13), Criador (Gn.1.1, 26, 27; Ne.9.6; Sl.24.1; Mt.19.4) Atemporal e Imutável (Sl.102.27; Jó.42.2; Hb.6.17; Tg.1.17), Onisciente (Is.40.28; Rm.11.33; Hb.4.13), Onipotente (Jr.32.17; Sl.115.3; Mt.19.26) Onipresente (Sl.39.7-10; Jr.22.23-24), Santo (Ex.15.11; Lv.19.2; Is.6.3; Hc.1.13; IJo.1.15; Ap.4.8), Justo (Ed.9.15; Ne.9.3; Sl.11.4-7, 119.137, 145.17; Jr12.1; Jo17.25; IITm.4.8; IJo.2.29), Reto (Sl.25.8), Amor (Is.54.10; Jo3.16; Jo17.23; Rm8.31-32, 38), Misericordioso (IPe.1.3, 2.10) e Gracioso (Gn.6.8; Sl.51.1; Jo.1.16; Rm.3.24, 5.2, 11.5; Ef.2.8; IICo.12.9; IIPe.3.18). Este Deus revela-se ao homem de duas formas, proposicional (cf. Bibliologia) e não proposicional, sendo que a segunda se subdivide em três, a provisão divina (At.14.15-17; At.17.24-27), a natureza (Sl.19.1-6; Rm.1.19-20) e a consciência humana (Rm2.14-15), sendo assim acessível (Sl.145.18; Jo.14.6; Hb.4.16; Tg.4.8). Este, por sua Soberania, é plenamente Hábil a exercer decretos com propósitos, executando Sua Vontade em toda Sua Criação em conformidade com Seu Plano preestabelecido (Ef.1.11).
3. Cristologia
Creio que Jesus é o Cristo prometido em todo o Velho Testamento (Gn.3.15; Sl.16.8, 22.1, 7; Is.52.3-12), Preexistente com Deus desde a Eternidade passada (Jo.1.1-2, 8.58, 17.5), Co-participante ativo na Criação do Mundo (Jo.1.3, 10; ICo.8.6; Cl.1.16; Hb1.1-3), Filho de Deus (Mt.4.3, 16.16-17; Jo.5.17, 22, 17.1, 20.28; Gl.4.4; Fp.2.6), acima de Tudo e Todos (Ef.1.21; Hb.1.4), nascido em sua encarnação (Mt 26:12; 8:24; 21:18; Lc 22:44; 1 Co 15:3; Jo 4:6), virginalmente (Is.7.14; Mt 1:18; Lc.1.27) de Maria (Mt 2:11, 12:47; Lc.1.27) e concebido pelo Espírito Santo (Mt.1.18), como homem (Mt.1.1; Jo.8.40; At.2.22; Rm5.15; ICo.15.21; ITm.2.5) sem detratar sua Divindade (Mt.1.17, 3.17, 8.29; Jo.1.1, 10: 28, 30, 17.21; Hb.1.8, 13.8; Ap.1.8), esvaziando-se de Sua Glória e do exercício pleno de Sua Soberania assumindo forma de Servo (Jo.17.1, 5; Fp.2.5-7; Hb.12.2) sem cometer qualquer pecado (Is.53.9; Jo.4.34, 8.12, 46; Lc.1.35; At 3:14; Hb.4.15; IPe2.22, 3.18; IJo.3:5), e realizou a expiação pelos pecados do mundo (IJo1.22) através de sua morte (Jo 10:17,18; ICo 5:7; IPe 3:18), ressuscitou (Mt 28:5,8,9; Lc 24:34; Jo 20:16; 20:26,29; IITm 2:8) subiu aos céus (At.1.8, Ef.4.8-10) e voltará (At.1.11; ITs.4.13-18; Ap.21.1-8; 22.1-5).
4. Pneumatologia
Creio no Espírito Santo como Pessoa (Jo.14.26; Rm8.14, 16) Inteligente (Rm 8:27; ICo.2.10-11), possuindo Emoções (Ef.4.20; Rm 15:30; Is 63:10) e Volição (ICo.12.11). Creio ainda Nele como Deus (Jo.14.16; At 5:34; Rm.8.15; ICo.6.11; IICo.3.17), fato demonstrado pelas perfeições que lhe são Atribuídas, como Onisciência (ICo.2.10-11), Onipresença (Sl.139.7-10), Onipotência (Gn.1.2; Lc.1:35), Verdade (IJo.5.6), Santidade (Lc.11.13), Vida (Rm8.2) e Sabedoria (Is.40.13) e testemunhada por suas obras, tais como a Criação (Gn.1.2), Inspiração (IIPe.1.21), Convencer o homem do juízo, justiça e pecado (Jo.16.8-11), Regenerar o homem (Jo.3.5-6; IICo.5.17; Tt.3.5), Consolar (Jo.14.16), Interceder (Rm.8.26-27) e Santificar (IITs.2.13), Habitação no homem (Jo.14.16-17; ICo.6.19; Ef.2.21-22) Batismo (1Co 12:12,13).
5. Satanalogia
Creio que Satanás seja um ser espiritual (Ef.6.11-12), criado (Ez.28.14), pertencente a classe dos anjos e querubins (Ez.28.14) e que era a mais exaltada das criaturas angelicais (Ez.28.12), possuindo Intelecto (IICo.11.3), Emoções (Ap.12.17) e Vontade (IITm.2.26). Creio que este seja homicida (Jo.8.44), mentiroso (Jo.8.44), acusador (Ap.12.10) e adversário (IPe.5.8), de grande poder (Is.14.15-20), embora possua limitações em termo de ação, pelo fato de ser criatura, não podendo atuar nos cristãos (Tg.4.7) e sendo limitado pelo próprio Deus (Jó.1.12). Contudo, atua diretamente na história, cegando entendimento dos homens (IICo.4.4), retirando a semente lançada em seus corações (Lc.8.12), para que cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Também atua na vida do crente o tentando a mentir (At.5.3), acusando e difamando (Ap.12.10), dificultando seu trabalho (ITs.2.18), tentando à imoralidade (ICo.7.5) e levanta perseguições contra os crentes (Ap.2.10).
6. Angelologia
Creio nos anjos como criação divina (Cl.1.16), antes da criação do mundo (Jó.38.6-7) e em santidade (Jd.6), possuindo Intelecto (IPe.1.12), Emoções (Lc.2.13) e vontade (Jd.6), como seres espirituais (Hb.1.14) que não se reproduzem (Mc.12.25), não morrem (Lc.20.36), são distintos dos seres humanos (Sl.8.4-5) e inferiores a Cristo (Hb.1.4, 6), mesmo possuindo grande poder (IIPe.2.11). Creio que estes ministram aos crentes os ajudando (Hb.1.14), envolvidos com as respostas às suas orações (At.12.7), encorajando nas horas do perigo (At.27..23-24). Creio que ministram aos descrentes anunciando (Gn.19.13; Ap.14.6-7) e aplicando o juízo divino (At.12.23).
7. Antropologia
Creio no homem como Criado por Deus (Gn.1.27; 2., 21-23; Is.17.7; 43.7, 45.9,12; Jr.1.5; Sl 100.3; 139.13-16) à Sua Imagem e semelhança (Gn.1.27) e por culpa da queda e do pecado (Gn.3.1-7; Rm.3) sofre em sua fragilidade (Gn.3.16-19, 6.3; Sl.9.20; 39.5, 6, 11; 49.12,20; 62.9; 90.5; 103.14-16; 144.4), finitude (Gn.6.3; Gn.20.3), depravação total (Jo.5.42; Rm.7.18. 8.7; Ef.4.’8; IITm.3.2-4; Tt.1.15; Hb.3.12) e incapacidade total em agradar a Deus (Jo.3.5, 8.34; Rm.7.18, 24, 8.7, 8; ICo.2.14), necessitando de redenção por estar debaixo do pecado (Rm.3.1-10, 21-23) e a justificação por meio da fé (Rm.3.28, 5.1-2), para ser reconciliado com Deus (Rm.5.10-11).
8. Eclesiologia
Creio na Igreja como Corpo vivo de Cristo (Ef.1.22-23, 4.4, 12, 15-16; Cl.1.18), distinta de Israel (Rm.3.20, 28; 11.11-24; Ef.2.15-16), embora participe de suas bênçãos (Rm.11.11-24). Creio que, no Corpo de Cristo todos os cristãos devem realizar sua vocação (Mt.28.19-20; Ef.4.1-3, 6) no exercício dos distintos dons (ICo.12.28-30; Ef.4.10-16) preservando a unidade do Corpo “único” no Espírito (Ef.4.3-4). Creio que este Corpo tem ordenanças claras, como o batismo (Mt.28.20; At.2.41, 8.38, 10.47, 16.33, Rm.6 Hb.9.10) e a Ceia do Senhor (Mt 26:26-29; Mc 14:22-25; Lc 22:15-20; At.20.7; 1 Co 11:23-25), e propósito de Glorificar a Deus.
9. Soteriologia
Creio que o homem, por causa da queda (Gn.3) necessita ser redimido. Por isso Deus ao permitir a possibilidade de queda, pelo fato de ter criado a árvore do conhecimento do bem e do mal, toma sobre si a responsabilidade da redenção, anunciada desde a queda (Gn.3.15). Assim inicia-se a história da redenção, onde Deus estabelece os meios a fim de que o homem possa ser reconciliado com Deus. Creio que Deus em Sua Soberania estabelece propósitos os quais se propõe a cumprir (Ef.1.11; Jó.42.2; Sl.115.3), tais como a eleição de Israel como povo pactual (Gn.12.1-3), e a rejeição deste (Is.1.9, 10.22-23; Os.1.9-10; Rm 9.30-31). Creio ainda que Deus decretou livre (Is.14.24, 27; Jó.23.13; Is.46.9-10) eterna (Ef.3.10-11; 1Tm.1.9; Tt.1.2) sabiamente (Ef.1.11; 2Tm.2.13; Rm.11.33-34) com o objetivo sendo sua Glória (Rm.11.36; Rm.16.27; Ap.1.6) a Cruz como sendo parte de seus propósitos anunciados desde Velho Testamento (Gn.3.15; 12.1-3; 15; 17; Dt.10.15; Ex.19.4-6; Dt.17.15-15; Ex.12; 15; 2Sm.7; Is.52.13-53.12; Mq.5.2-3; Sl.85.28-37; Sl. 123.11-12; Sl.2.6; Sl.45.6-7; Sl.89.27-29; Dn.7.13-14; Is.9.6; Jr.23.3-6; Sl.45.5; Sl.110.3.4; Zc.3.8; Zc.6.12). Creio que Cristo morreu em substituição pelo pecador (Lv.1.2-4; 16.20-22; 17.11; Is.53.6, 12; Mt.20.28; Mc.10.45; Jo.1.29; 11.50; Rm.5.6-8; 8.32; 2Co.5.14, 15, 21; Gl.2.20; 3.13; 1Tm.2.6; Hb.9.28; 1Pe.2.24), promovendo redenção (conceito de redenção: terra – Lv.25.25, 47, 48; parente – Rt.3.9; cf. Os.3.15; Is.43.3, 10-14; escravo Ex.21-1-6; Dt.15.15-17; informações gerais: Ex.13.12; 21.28; 30.12; Nm.18.15-17; Sl.130.8; Is.59.20; sangue: Hb.9.22 cf. Lv.17.11; Ap.5.9, 10; idéia de compra: Mt.13.44, 46; 14.15; Mc.6.36; Lc.9.13; Gn.41.57, 42.5, 7; Dt.2.6; 1Co.6.20; 1Co.7.23; Gl.3.13; mediante alto-preço 2Pe.2.1), efetuando plena libertação (Mt.20.28) e reconciliação (Rm.5.10; 11.15; 2Co.5.18-21; Ef.2.16; Cl.1.20-21)sendo entregue por Deus como propiciação (Jo.3.36; Rm.1.18-32; Ef.2.3; 1Ts.2.16; Ap.6.16; 14.10, 19; 15.1, 7; 16.1; 19.15; 1Jo.2.1-2; Rm.3.25; 1Jo.4.10; Ex.25.17-22; Lv.16.14.15;) pelos pecados do mundo inteiro (IJo.1.22). Assim, creio que o sacrifício de Cristo é suficiente para todo o homem (IITm.2.6), sendo eficiente a muitos que crêem (Rm.5.19). Creio na eleição incondicional (Gn.12.1-3; Lv.8; Dt.7.6, 14.2; 1Sm.17.1-12; Sl.33.12; Is.8.14 (cf.1Pe.2.8); 41.8, 9; 42.1; 43.20, 21; 65.9, 22; Mt.22.14; 24.22; 24.24; Mc.3.13-19; 13.27; Lc.18.7; Jo.1.13; 6.37, 44, 65; 10.29; 15.16, 19; 17.2, 6, 9, 12, 24; At.2.39; 13.48; 18.27; Rm.8.28-30; Cap.9; Cap.11; 16.13; 1Co.1.27-30; Gl.1.5-16; Ef.1.3-6, 11; 2.8-10; Cl.3.12; 1Ts.1.4; 2Ts.2.13; 3.2; Tt.1.1; 1Tm.1.9; 2Tm.2.10; Tg.1.18; 1Pe.1.2-5; 5.13; 2Pe.1.10; Ap.17.14), para salvação (1Ts.5.9; 2Ts.2.13); restrita em seu alcance (Mt.22.14; At.13.48), independente da vontade do homem (Jo.1.13; Rm.9.16), precedente a obediência, a santificação e ao exercício da fé (Ef.1.3; Rm.8.29; 1Pe.1.2; Rm.9.11-12) realizada em amor (Ef.1.4-5), fundamentada na graça não meritória (Ef.2.8; Ef.1.5-7), e na Soberania (1Co.1.26-29; Tg.1.18; Rm.9.20, 21)e implica no chamamento eficaz (Rm.8.28; Rm.9.23-24; 1Co.1.24) e na preterição (Rm.9.18; Rm.9.22; Rm.11.7-8; Jo.12.39; 1Pe.2.8; Pv.16.4; 2Pe.2.12; Jd.4; Jo.8.43-44; Rm.9.17). Creio piamente na responsabilidade humana (Ef.1.13) não como autonomia mas como liberdade restringida (Rm.6). Creio que Deus, em Sua Soberania salva aos que crêem (ICo.1.21).
10. Escatologia
Creio que haverá o Arrebatamento (ITs.4.13-18; cf. At..1.11; Ap.21.1-8; 22.1-5), onde os que em Cristo morreram serão ressuscitados (ITs.4.16), ou seja, cristãos, em um evento único, indivisível (ICo.15.52) e que haverá um encontro com Cristo nos ares (ITs.4.17). Creio que após esse evento se iniciará a Grande Tribulação, sendo esta a Septuagésima semana de Daniel (Dn.9). Esse período será de 7 anos (Mt. 24.14; Mc.13.14,19; Dn.9.27; Ap.11.2-3, 12.6,14, 13.5). Durante esse tempo o Anticristo atuará de maneira devastadora sobre a terra (Dn.7.8; IITs.2.3-4), haverá, ainda, um levantamento militar contra Israel, antecedendo a Batalha do Armagedom. Por outro lado, a igreja, que foi assunta aos céus, passará por um tempo de julgamento (Rm.14.10; Ico.3.10-15; IICo.5.10), e festa (Ap.19.7,9). Creio que a segunda volta de Cristo será pessoal, visível e corpórea (Zc.14.1-5; Mt.16.27; At.1.11; Ap.1.7), tendo por objetivo instaurar o Reino já iniciado anteriormente. Neste tempo, o Anticristo e o Falso Profeta, serão jogados no lago de fogo (IITs.2.8; Ap.19.19-20) e Satanás será preso por Mil Anos (Ap.20.1-3). Creio que, é nesse momento que os santos de todas as eras ressuscitarão para reinar com Cristo, durante o período de prisão de Satanás (Jó.19-25-27; Is.26.19; Dn.12.2-3; Ap.20.4). Então se dará início o Milênio (IISm.7.10-16; Is. 2.1-5, 32.1-5; Zc.14.9; Ap.20.1-4). Ao fim do Milênio, Satanás será solto (Ap.20.7-10). Neste tempo ele sairá ao derredor da terra com o propósito de encontrar e seduzir pessoas a se rebelarem contra o Rei. Todo o exercito, porém, será destruído, e Satanás finalmente será lançado no Lago de Fogo e Enxofre. Creio que após esse evento, haverá O Grande Trono Branco (Ap.20.11-15) que será o julgamento das pessoas que morreram sem Cristo, a fim de serem condenadas a passar a eternidade no lago de fogo (Ap.20.11-15). Após sua realização, tomará lugar a eternidade com bênçãos infindas para os salvos e tormento para os perdidos (Ap.21.1-8; 22.1-5).
Fé e Obediência
“De início pode-se dizer simplesmente que a pistis é a condição para o recebimento da dikaiosyne, que vem a substituir os erga nos quais, segundo a compreensão judaica, consiste aquela condição. De início também deve ser dito simplesmente que essa pistis, de acordo com o uso lingüístico do cristianismo helenista formado na missão, é a aceitação da mensagem cristã. A compreensão dessa aceitação ou o conceito da pistis, desenvolvido múltiplas vezes também nas demais passagens além de por Paulo, foi cunhada por ele de modo decisivo” – Rudolf Bultman, Teologia do Novo Testamento, pp.383.
A compreensão de Paulo do conceito de fé passa pelo conceito de obediência. É provável que existe um ponto de partida para Paulo, no quesito de fé, que é apoiado primariamente pelo conceito de obediência. Deve ser daí que o paralelo entre Rm.1.8 e Rm.16.19 pode ser traçado. Isso seria suficiente para compreender a expressão “hypakoè pistéos” de Rm.1.5. Esse sentido é visto claramente em Rm.15.18: “Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em ação, a fim de levar os gentios a obedecerem a Deus“. Aqui é evidente a consideração de Paulo sobre o início da fé como obediência a Deus.
Essa co-relação é também exposta em sentido negativo, pois Paulo quando refere-se a judeus não convertidos ele diz: “Porquanto, ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se submeteram à justiça de Deus“. A não sujeição, ou desobediência à Justiça que vem de Deus (dikaousyne theou) os judeus estão fora da participação da fé salvadora. De modo semelhante, Paulo diz em Rm.10.16: “No entanto, Mas nem todos obedeceram ao evangelho“.
Esse conceito é bem visto na conhecida declaração de Paulo sobre os gentios e judeus, antes e depois da fé, em Rm.11.30-32: “Assim como vocês, que antes eram desobedientes a Deus mas agora receberam misericórdia, graças à desobediência deles, assim também agora eles se tornaram desobedientes, a fim de que também recebam agora misericórdia, graças à misericórdia de Deus para com vocês. Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos”.
Em 2Co.9.13 a fé é vista como a submissão da confissão do evangelho de Cristo: “glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo”. Nesse texto a NVI traduziu a obediência que acompanha a confissão, o que segmenta o conceito de “obediência como demonstração de fé” em “obediência que segue a confissão“. Caso seja isso verdadeiro, a fé acontece antes da obediência, o que nos soa muito mais sensato.
O que isso nos instrui é que, para Paulo, a aceitação da mensagem aparece com um ato de obediência, pois a mensagem do evangelho está centrada no reconhecimento de Cristo morto e ressurreto como Senhor além de exigir a renúncia da autocompreensão antes da fé, e a inversão da direção volitiva. (RB, TNT pp.384).
Essa obediência da fé é de fato a obediência verdadeira, aquela que a lei havia exigido, mas pelo mau uso da lei os judeus a reprimiram e instituíram a hidia dikaiosyne (justiça própria) como meio para se gloriarem nas érgon nomôu (obras da lei). Contudo, a atitude do homem debaixo da fé é radicalmente antagônica a do judeu, observe: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Co.4.7). Isso por que a Salvação oferecida por Deus tem por objetivo “que ninguém se glorie” (1Co.1.29; Ef.2.8-9), mas “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Co.1.31; 2Co.10.10), como o fez Abraão (Rm.4.20).
“A pístis como a renúncia radical à obra, como a obediente sujeição ao caminho da salvação determinada por Deus, como a aceitação da cruz de Cristo, é o livre ato da obediência, no qual se constitui o novo eu no lugar do velho. Como tal decisão, ela é um ato no verdadeiro sentido, no qual o ser humano aparece como ele próprio, enquanto no ergon ele se contra ao lado aquilo que faz” (RB, TNT, pp.385).
Vale a pena ser dito que a OBEDIÊNCIA a que se refere aqui não é uma obediência às ordens de Deus em si, ou a prática de suas delimitações, mas a submissão a Deus como condição para recebimento da fé. Ou seja, não é uma conquista, como a hidia dikaousyne como motivo para kauxastai (gloriar-se), mas é a completa e plena submissão a Cristo como Senhor. Esse aspecto da fé, pode ser considerado o primeiro ponto da verdadeira fé.
A implicação dessa submissão a Cristo como Senhor para participação da fé, não significa que a salvação vem pelo reconhecimento do senhorio de Cristo, mas implica na inabilidade da ergon autou para a salvação. É o reconhecimento humilde da impossibilidade de auto-salvação, e a plena dependência aos méritos de Cristo como único mediador entre Deus e os homens. Em outras palavras, crer é obedecer, ou submeter-se-á. Com essa compreensão em mente, podemos compreender o que Paulo que dizer quando chamou os judeus de rebeldes em Rm.15.31.
Nesse sentido, a concepção de Paulo afirma que a fé não acontece primariamente com arrependimento e conversão (demonstrado pelo pouco uso que essas palavras tem na literatura paulina), mas com a obediência que renuncia a justiça própria.
Ataques a Teoria de Westcott e Hort
O texto que segue é resuldado da leitura do autor nos textos de Wilbur Pickering (Qual o texto original do Novo Testemano) publicado em pdf e disponível na internet. Também fez parte da pesquisa o texto do Paulo Anglada (A Teoria de Westcott e Hort e o texto do Novo Testamento) publicado pela revista teológica Fides Reformata. Esse artigo também pode ser encontrado na internet.
O objetetivo primeiro desse material ser disponibilizado no Teologando não é a defesa de uma ou outra opção de Crítica Textual, mas fomentar o conhecimento da teoria e estimular sua análise de modo respeitoso e proveitoso para o reino. Se sua opinião não é compatível com a dos dois autores supracitados, por favor, traga sua contribuição ao Teologando. Deixo evidente aqui que, a opinião do autor deste artigo não está em total acordo com Pickering ou Anglada.
Tendo dito isso, vamos analisar os pontos fundamentais da teoria.
Pressuposição fundamental
1. O texto do NT deve ser tratado com um texto normal:
“Longe de se tratar de um texto ordinário, o texto bíblico é especial, no sentido em que tanto Deus como Satanás têm um especial interesse por ele – Deus em preservá-lo e Satanás em destruí-lo. Não são poucos os críticos textuais modernos que reconhecem a improcedência desta proposição fundamental da teoria de WH” (Anglada, pp.7)
“O fato de existirem alterações deliberadas e aparentemente numerosas ocorridas durante os primeiros anos da história textual é uma considerável inconveniência para a teoria de Hort por duas razões: isto induz uma variável imprevisível que os cânones de evidência interna não podem manusear, e coloca o restabelecimento do original além da capacidade do método genealógico” (H.H. Oliver; IN: Anglada, pp.7).
2. Não houve alteração maliciosa no texto do NT
“Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Eusébio e muitos outros pais da Igreja acusaram os heréticos de corromper as Escrituras a fim de ter suporte para seus pontos de vista especiais. Na metade do século II Marcião expurgou de suas cópias do Evangelho de Lucas todas as referências ao background judaico de Jesus. A Harmonia dos Evangelhos preparada por Taciano contém várias alterações que forneceram apoio a pontos de vista ascéticos” (Metzger, The Text f the New Testament, pp.201)
“As diferenças entre os manuscritos se tornaram gritantes, ou pela negligência de algum copista ou pela audácia perversa de outros; ou eles descuidam de verificar o que transcreveram ou, no processo de verificação, acrescentam ou apagam trechos, como mais lhes agrada” (Orígenes, IN: Bart Ehrman, OQJDOQJND, pp.62)
“Mutilou as epístolas de Paulo, eliminando tudo o que o apóstolo dissera acerca de Deus que criou o mundo, no sentido de que ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e ainda as passagens dos escritos proféticos citadas pelo apóstolo com vistas a nos ensinar aquilo que eles anunciaram antes da vinda do Senhor” (Irineu, Contra Heresias, 1.27.2; IN: Bart Ehrman, OQJDOQJND, pp.63)
“Um exemplo bastante expressivo da mudança intencional de um texto pode ser encontrado em um de nossos mais excelentes manuscritos antigos, o Códice Vaticano (assim intitulado porque foi encontrado na Biblioteca Vaticana), feito no século IV. Na abertura do livro de Hebreus, há uma passagem na qual, de acordo com a maioria dos manuscritos, é nos dito que ‘Cristo sustém [grego: pheron] todas as coisas pela palavra de seu poder’(Hebreus 1,3). Contudo, no Códice Vaticano, o copista original produziu um texto ligeriamente diferente, com um verbo que soa parecido em grego; ali, o texto diz, por sua vez: ‘Cristo manifesta [grego: phaneron] todas as coisas pela palavra de seu poder’. Alguns séculos mais tarde, um segundo copista leu essa passagem no manuscrito e decidiu mudar a palavra manifesta, um tanto incomum, por uma leitura mais comum, sustém – apagando uma palavra e escrevendo a outra. Posteriormente, alguns séculos mais tarde um terceiro copista leu o manuscrito e se deu conta da alteração que seu predecessor perpetrara. Ele, então, por sua vez apagou a palavra sustém e reescreveu a palavra manifesta. E depois acrescentou uma nota de copista à margem para indicar o que ele achava do primeiro e do segundo copista. Diz a nota: ‘Insensato e desonesto, deixe o texto antigo, não o altere!‘ (Bart Ehrman, OQJDOQJND, pp.66)
“Quanto aos tipos de erros, as cópias do Novo Testamento diferem extremamente das cópias que temos dos clássicos literários. A percentagem de variantes devido aos erros involuntários nas cópias dos clássicos é grande. Mas a maioria das variantes nos manuscritos no Novo Testamento, creio eu, foram feitas deliberadamente” (Colwell, What is the Best New Testament?, pp.58; IN: Pickering, pp.21)
“A maioria das variantes textuais do Novo Testamento foi criada por motivos teológicos ou doutrinários. A maioria dos manuais e livros textos atualmente circulando dirão que estas variantes foram fruto de descaso que foi possível porque os livros do Novo Testamento ainda não haviam alcançado um status forte de Bíblia. O caso é o inverso. Foi porque o tesouro religioso da igreja que eles foram adulterados” (Pickering, pp.20).
Genealogia
“Que Westcott e Hort não aplicaram este método aos manuscritos do Novo Testamento é óbvio. Onde estão os diagramas que começam com a maioria dos manuscritos mais recentes e que ascendem às gerações de ancestrais de número cada vez menor até os textos Neutro e Ocidental? A resposta é que não estão em lugar nenhum. Olhe nova-mente para o primeiro diagrama, e verá que a, b, c, etc. não são manuscritos reais do Novo Testamento, mas são manuscritos hipotéticos. As demonstrações ou ilustrações do método genealógico, como aplicado aos manuscritos do Novo Testamento pelos seguidores de Hort (os “Horticuli”, como eram chamados por Lake) da mesma forma usam manuscritos hipotéticos, e não códices verdadeiros. Note, por exemplo, os diagramas e discussões na obra de crítica textual mais popular de Kenyon, incluindo a edição mais recente. Todos os manuscritos referidos são na realidade manuscritos imaginários, e o último destes diagramas foi impresso sessenta anos depois de Hort” (Colwell, Genealogical Method, pp.111-12; IN: Pickering).
A Teoria de Westcott e Hort
O texto que segue é resuldado da leitura do autor nos textos de Wilbur Pickering (Qual o texto original do Novo Testemano) publicado em pdf e disponível na internet. Também fez parte da pesquisa o texto do Paulo Anglada (A Teoria de Westcott e Hort e o texto do Novo Testamento) publicado pela revista teológica Fides Reformata. Esse artigo também pode ser encontrado na internet.
O objetetivo primeiro desse material ser disponibilizado no Teologando não é a defesa de uma ou outra opção de Crítica Textual, mas fomentar o conhecimento da teoria e estimular sua análise de modo respeitoso e proveitoso para o reino. Se sua opinião não é compatível com a dos dois autores supracitados, por favor, traga sua contribuição ao Teologando. Deixo evidente aqui que, a opinião do autor deste artigo não está em total acordo com Pickering ou Anglada.
Tendo dito isso, vamos analisar os pontos fundamentais da teoria.
Pressuposição fundamental
1. O texto do NT deve ser tratado como um texto normal:
“Os princípios de crítica explanados na seção anterior valem para todos os textos antigos, preservados em uma pluralidade de documentos. Ao lidar com o texto do Novo Testamento, nenhum novo princípio é necessário ou legítimo” (WH, PP.73; IN: Pickering, pp.14)
2. Não houve falsificação maliciosa no texto do NT:
“Não será inapropriado adicionar aqui uma distinta expressão de que cremos que, mesmo entre as numerosas leituras inquestionavelmente espúrias do Novo Testamento, não há nenhum sinal de falsificação deliberada do texto em favor de propósitos dogmáticos” (WH, 282; IN: Pickering, pp.14)
“Cremos que a ausência [no texto moderno] de fraudes perceptíveis, que deram origem a qualquer das várias leituras agora existentes, também se aplica par ao texto que antecedeu mesmo as mais antigas variantes existentes…” (WH, pp.283; IN: Anglada, pp.3)
Método das Evidências Internas
1. Probabilidade Intrínseca:
O que o autor parece ter escrito?
Qual das variantes faz maior sentido?
“O primeiro impulso ao tratar com uma variante é usualmente seguir a probabilidade intrínseca, isto é, considerar qual das leituras faz o melhor sentido e, de acordo com isso, decidir entre elas. A decisão pode ser feita tanto por um julgamento imediato, e portanto intuitivo, ou pesando cautelosamente vários elementos que irão definir o que é chamado de sentido, de conformidade com a gramática e congruência com o estilo usual do autor e com o assunto em outras passagens” (WH, pp. 20; IN: Anglada, pp.4)
2. Probabilidade de Transcrição
O que os copistas parecem ter feito o autor parecer escrever?
Qual das variantes parece ser responsável pelas outras?
“Se uma variante aparenta dar-nos um sentido melhor ou sobrepujar a outra variante, essa aparente superioridade deve ter sido a causa da introdução da referida variante do texto. Disparates [textos difíceis] à parte, nenhum motivo pode ser pensado que viesse a levar um escriba a introduzir conscientemente uma leitura pior no lugar de uma leitura melhor” (WH, pp.22; IN: Anglada, pp.4)
Regras Básicas
1. Brevior lectio potior: a menor leitura deve ser preferida, pois é mais provável que um copista acrescente algo que exclua;
2. Proclivi lectioni praestat ardua: a leitura mais difícil deve ser a preferida, pois é mais provável que um copista simplifique um texto que o complique;
Conflação:
É a característica de misturas e que apenas o texto Sírio as apresenta, o que o torna secundário.
“A mais clara evidência para rastrear os fatores antecedentes de mistura em textos é provido por leituras que são elas próprias misturadas ou, como elas são algumas vezes chamadas, ‘confladas’, isto é, não simples substituições da leitura de um documento pela de outro, mas combinações das leituras de ambos documentos, formando uma totalidade complexa, algumas vezes por mera adição com ou sem uma conjunção, outras vezes com maior ou menor [proporção de] fusão” (WH, pp.49; IN: Pickering, pp.15).
“Ao melhor da nossa crença, as relações assim provisoriamente traçadas não são jamais invertidas. Não conhecemos nenhum local onde o grupo α [Neutro] de documentos dê apoio a leituras aparentemente confladas das leituras dos grupos β [Ocidental] e δ [Sírio], respectivamen-te, ou onde o grupo β de documentos dê apoio a leituras aparentemente confladas das leituras dos grupos α e δ, respectivamente” (WH, 106; IN: Anglada, pp.4-5).
“Em si próprias, as leituras Sírias quase nunca ofendem à primeira vista. Com raras exceções, elas fluem agradável e facilmente quanto à forma e imediatamente oferecem, mesmo a um leitor descuidado, um sentido razoável, livre de surpresas e aparentemente comparadas uma após outra com suas variantes rivais, a pretensão delas a serem consideradas como as leituras originais gradualmente diminui até, finalmente desaparecer” (WH, pp.115-16; IN: Pickering, pp.17).
Genealogia
“O acurado método de Genealogia consiste … na recuperação mais ou menos completa dos textos de ancestrais sucessivos, pela análise e comparação dos textos variantes dos seus descendentes respectivos, cada texto ancestral assim recuperado sendo por sua vez usado, em conjunção com outros textos similares, para a recuperação do texto de um ancestral comum e ainda mais antigo” (WH. pp.57; IN: Pickering, pp.14).
“Até onde as relações genealógicas forem descobertas com certeza absoluta, os resultados textuais que as seguem também são absolutamente certos, estando diretamente envolvidos nos fatos históricos; e quaisquer suposições aparentes sugeridas contra elas por outros métodos são meras conjecturas contra o que se conhece como fato” (WH, pp63; IN: Pickering, pp.24)
Inexistência de variantes Sírias anteriores a Crisóstomo
Leituras típicas do TR não teriam sido encontradas antes de 350
Antes de Crisóstomo encontra-se apenas leituras Neutras ou Ocidentais.
Vale o lembrete que Hort não presenciou a descoberta dos papiros, e portanto, fala apenas das citações dos Pais da Igreja.
A Recensão de Luciano
Para explicar a harmonia dos manuscritos Bizantinos, Hort explica que houve uma operação de crítica textual que reuniu os testemunhos antigos, executado por editores e não meros escribas.
“O texto Sírio tem, de fato, que ser resultado de uma ‘recensão’ no sentido próprio da palavra, uma tentativa de criticismo, deliberadamente realizado por redatores e não meramente escribas“. (WH, pp.133; IN: Pickering, pp.17).
Essa recensão teria sido levada à efeito por Luciano, morto em 311, martirizado pelas perseguições romanas a cristãos.
O objetivo dessa editoração foi providenciar um texto oficial do NT para as Igrejas Gregas, que teria começado em Antioquia por volta de 250d.C. e concluída em 350d.C.
“Uma revisão autoritativa em Antioquia… foi ela própria submetida a uma segunda Revisão autoritativa que alcançou mais completamente os propósitos da primeira. Em que data entre 250 e 350d.C. o primeiro processo ocorreu, é impossível se dizer com confiança. O processo final foi aparentemente completado em 350d.C. ou ao redor disto” (WH, pp.137; IN: Pickering, pp.17).
Esse texto teria sido o texto-base do TR, segundo Hort. Por essa razão é eventualmente denominado Texto Antioquino ou Texto Sírio.
Conclusão:
“É nossa crença (1) que as leituras de אB devem ser aceitas como a verdadeira leitura até que forte evidência interna seja encontrada ao contrário; e (2) que nenhuma leitura de אB pode ser rejeitada de forma absoluta, seguramente” (WH, pp.225; IN: Pickering, pp.18).
“A mais completa comparação [de אB] não faz senão aumentar a convicção que a preeminente pureza relativa deles em, da mesma forma, aproximadamente absoluta, uma reprodução verdadeiramente aproximada do texto dos autógrafos” (WH, pp. 276; IN: Pickering, pp.18).
As regras de Crítica Textual de Johann Albrecht Bengel
No seu ensaio Prodromus Novi Testamenti recte cauteque ordinandi [Forerunner of a New Testament to be settled rightly and carefully], (Denkendorf, 1725), Johann Albrecht Bengel, um acadêmico luterano, publicou uma nova perspectiva para edição do Novo Testamento Grego, que já havia iniciado a preparar (publicado em 1734). Nesse material ele detalhou seus princípios de crítica textual que incluía uma nova classificação dos manuscrito em dois grupos primitivos: Asiático e Africano (em referência a Alexandria). O primeiro grupo ele supôs ser de origem Bizantina, e a esse grupo pertencia a maioria de manuscritos modernos e a Siríaca; o segundo grupo, de origem Egípcia, era representado pelo Códice Alexandrino e os manuscritos das mais antigas versões em Latim e Copta. No seu trabalho, Bengel, também apresentou uma das mais influentes regras de criticismo: a preferência por leituras mais difíceis. A regra foi expressa em quatro palavras: “proclivi scriptioni praestat árdua” [antes da leitura simples está a leitura difícil]
Entretanto, foi no prefácio de sua obra intitulada Gnomon Novi Testamenti (Tubingen, 1742) que Bengel alistou suas 27 “sugestões” (Monita) que devem ser tomadas como um sumário de seus princípios de crítica. Abaixo seguem as 17 primeiras sugestões de Bengel[1]:
“1. É digno de nota que a maioria das Sagradas Escrituras (graças a Deus) é laborada em nenhuma leitura variante;
2. Nessas porções é encontrado todo o esquema de salvação e estabelecido todos os particulares por todos os testes da verdade;
3. Todas as leituras variantes devem e podem se referir a essas porções, e decididas por elas como procedimento padrão.
4. O texto e as leituras variantes do Novo Testamento são encontrados em manuscritos e em livros impressos desses manuscritos, seja em Grego, Latim, Graeco-Latim, Siríaco, Grego Latinizado, ou em outra língua, as claras citações de Irineu, etc., de acordo com o dispensar generoso da Provisão Divina a cada geração. Nós incluímos todas essas ocorrências sob o nome de Códices, que às vezes tem compreensiva significação.
5. Esses códices, entretanto, foram difundidos através das igrejas de todas as eras e países, e approach so near to the original autographs, que, quando tomados juntos, em toda multidão de variantes, eles exibem o texto genuíno.
6. Nenhuma conjectura é sempre uma consideração a ser ouvida. É mais seguro colocar colchetes em uma porção de texto, que pode por sorte parecer trabalhada sob dificuldades inescapáveis (inextricable).
7. Os códices tomados com um todo, devem formar o modelo padrão, pelo qual se decide cada caso separadamente (All the codices taken together, should form the normal standard, by which to decide in the case of each taken separately);
8. Os códices gregos, que possuem maior antiguidade, que ultrapasse toda a variedade de leituras, são poucas em número: o resto é muito numeroso.
9. Embora as versões e as citações dos Pais da Igreja são menores em autoridade quando diferem dos manuscritos gregos do Novo Testamento, ainda assim, quando os manuscritos gregos do Novo Testamento diferem um dos outros, tem a maior autoridade aquele com o qual as versões e citações dos Pais da Igreja concordam;
10. O texto da Vulgata Latina, onde ela é suportada pelo consenso dos Pais Latinos, ou por outra testemunha competente, merece a última consideração, no que se refere a sua singular antiguidade.
11. O número de testemunhas que suportam cada leitura em cada passagem deve ser cuidadosamente examinada: e para esse fim, ao fazê-lo, nós devemos separar os códices entre os que contem apenas os Evangelho, daqueles que contem Atos e as Epístolas, com ou sem Apocalipse, ou aqueles que contém aquele livro apenas; aqueles que inteiros, daqueles que foram mutilados; aqueles que foram colados na edição de Stephanus, daqueles que foram colados na Complutense, ou na versão de Elzevirian, ou qualquer outra edição obscura; aqueles que são conhecidos por terem sido bem colados, como por exemplo o texto Alexandrino, daqueles que não são reconhecidos por terem sido cuidadosamente colados, ou que é conhecido por ter sido colado descuidadamente, como por exemplo o Vaticanus, “wich otherwise would be almost no equal”
12. E também, detalhadamente, mais testemunhas são preferidas que poucas, e, o que é mais importante, as testemunhas que diferem em pais, ano e linguagem são preferidas daquelas que são proximamente conectadas entre si; e o mais importante de tudo, testemunhas antigas são preferidas a testemunhas modernas. Pois, uma vez que apenas o autógrafo original (e eles foram escritos em grego) pode clamar ser o well-spring, o valor da autoridade de um códice deve ser traçado a partir de fontes primitivas, Latinas, Gregas, etc., dependendo de sua proximidade dessa fonte.
13. A leitura, que não engoda por sua grande facilidade, mas brilha com sua própria dignidade da verdade, é sempre preferida a aquelas que podem, de modo justo, ter sua origem atribuída ao descuido de um copista
14. Portanto, um texto corrompido é freqüentemente traído pela aliteração, paralelismo, ou conveniência de um Ensino Eclesiástico, especialmente no início ou conclusão disso; pela ocorrência de mesmas palavras, nós somos levados a suspeitar de uma omissão; da grande facilidade, uma adaptação. Onde as passagens laboram sob diversa variedade de leituras, a leitura intermediária (middle reading) é a melhor.
15. Por isso existem cinco critérios principais que devem ser utilizados para determinar um texto disputado: A antiguidade da testemunha, a diversidade de sua origem e sua torrente; a aparente origem de uma leitura corrompida e a cor original da leitura genuína.
16. Quando todas esses critérios concordarem, nenhuma dúvida deve existir, exceto na mente do cético
17. Quanto, entretanto, acontecer que alguns dos critérios apontarem a favor de uma leitura, e outros em favor de outra, o crítico eventualmente preferirá uma, ou outra direção, se ele decidir, outros podem não serem habilitados a aceitar sua decisão. Quando um homem excede outro em poder de visão, seja mental ou fisicamente, a discussão é vã. Nesse caso, um homem não pode impor sua convicção em outro, ou destruir a convicção de outro, a não ser que, certamente, o autógrafo das Escrituras deva sempre vir a luz
Após essas sugestões existem mais 10 parágrafos que não pertencem à avaliação de leituras variantes, mas ao contrário, contém diversos lembretes relativos ao objetivo e uso de sua edição crítica do Novo Testamento. As 17 “monita” citadas acima podem ser referidas formalmente como o Cannon de criticismo de Bengel.
[1] BENGEL, Johann Albrecht, Gnomon Novi Testanti, pp.13-20
04.24.09
Crítica Textual 1Jo.1.7
Evidências
[Iησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: א (IV) B (V) C (V) P(XI) Ψ (VIII/IX) 323 (XI) 1241 (XII) copsa (III/IV) copbo(ms) (III/IV) Ocid: 630 1505 itl vgst Biz: pc syrp Ind: 945 1739 Clement VM: WH TIS8 ARA NVI
[Ἰησοῦ Χριστοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: A (V) 33 (IX) copbo (III/IV) Ocid: itt (XI) itw (XI) itz (VIII) vgcl (IV) vgww(IV) Biz: Byz syrh* (616)VM: TR Scrivener, Stephanus TMRobertson-Pierpont ARC ARF
[Ἰησοῦ Χριστοῦ] Biz: pc Cassiodorus (580)
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA EXTERNA:
Antes de analisarmos as evidências, é válido demonstrar a razão pela qual Clemente de Alexandria não consta como testemunho do texto alexandrino. Em primeiro lugar, Clemente em seus escritos sobre os evangelhos é reconhecido como favorável a leituras Ocidentais. Em segundo lugar, é verdade que em Atos ele é largamente reconhecido como favorável a leituras Alexandrinas, mas não sabe-se ao certo suas influências nas epístolas católicas. Portanto, aqui considero-o, por zelo, como testemunho não definido no que refere-se a família texto que representa.
As leituras ficam assim divididas: (1) e o sangue de Jesus, seu Filho; (2) e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho; (3) e o sangue de Jesus Cristo.
1. Data:
A. A evidência encontrada aponta para o III século (cf. versões coptas). É válido dizer que é possível que a citação de Clemente favoreça uma leitura até pouco mais antiga, vista já no II século.
B. As versões coptas atestam uma data até no III século.
C. A mais posterior das três é vista a partir do IV século.
D. PARECER: A primeira evidência é favorecida no quesito data.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א) e do Vaticanus (B) em favor da primeira variante reforça sua qualidade.
B. A leitura do Alexandrinus (A) e a vasta maioria de minúsculos bizantinos, parecem favorecer a segunda leitura.
C. Sem credibilidade.
D. PARECER: A primeira leitura aqui parece mais favorável, apesar que o voto da maioria favoreça a segunda.
3. Distribuição Geográfica:
A. A primeira é vista na tradição Alexandrina, Ocidental e Bizantina.
B. O mesmo acontece aqui.
C. Sem distribuição significativa.
D. PARECER: Nesse quesito as duas primeiras são favorecidas.
4. Solidariedade Genealógica:
A. Não há solidariedade..
B. Não há solidariedade, apesar que a maioria Bizantina favoreça essa leitura.
C. Não há solidariedade.
D. PARECER: Nenhuma conclusão pode ser auferida aqui além do descrédito da terceira variante.
5. Parecer Pessoal:
A primeira evidência parece favorável, uma vez que é atestada possivelmente já no segundo século e tem o testemunho do Sinaítico e do Vaticanus em seu favor.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua 1:
A. τOαIμαΙησουτουυIουαυτουκαθαρIζειHμAς
B. τOαIμαΙησουΧριστουτουυIουαυτουκαθαρIζειHμAς
C. τOαIμαΙησουΧριστου( )καθαρIζειHμAς
2. Scripto Contínua 2:
A. τOαIμαΙστουυσαυτουκαθαρIζειHμAς
B. τOαIμαΙσΧστουυσαυτουκαθαρIζειHμAς
C. τOαIμαΙσΧσ( )καθαρIζειHμAς
3. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. A terceira variante pode ter sido causada por uma questão de memória, considerando que Cassiodorus é representante da variante.
4. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
5. Cânones
A. Que leitura explica as demais?
i. É bem possível esperar que “Iησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ” fosse a leitura que originou todas as outras. Assim é possível que alguém acrescesse Χριστοῦ para evidenciar também a messianidade de Cristo, ou alguém pudesse ter retirado τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ para evitar uma redução a compreensão da pessoa de Cristo.
ii. Se a versão com acréscimo de Χριστοῦ é a original, qual seria a razão para excluir o termo do texto? Se o zelo do copista por versões mais azeitadas é verdadeiro, é mais possível que tenha inserido o termo que excluído.
iii. A terceira variante não pode ser a original.
iv. PARECER: É possível que a primeira leitura seja a responsável pelas demais.
B. Qual é a leitura mais difícil? A primeira, pois enfatiza a filiação de Cristo e não sua messianidade. Isso poderia abrir portas para uma interpretação mais minimalista da pessoa de Cristo que as demais, onde a messianidade é explícita e a filiação excluída.
C. Qual é a leitura mais curta? A última.
6. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
A segunda. No verso três vemos a expressão escrita quase da mesma forma que essa variante. No cap.2 verso 1 a leitura com Cristo é presente no texto. Isso sugere que é possível que um copista intencionasse acertar uma leitura onde uma informação supostamente estaria faltando.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
Todas são possíveis por esse critério.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Todas são possíveis.
PARECER FINAL:
Uma vez que o contexto anterior (v.3) e posterior (2.1) usam a nomenclatura completa de Cristo (Ἰησοῦ Χριστοῦ) e o verso (v.3) usa a expressão “τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ ᾿Ιησοῦ” é mais provável que um copista ousasse acrescer (Χριστοῦ) ao verso em pauta do que retirar dele tal informação. A terceira variante é provavelmente resultado de uma citação de memória. É válido dizer que a primeira variante é melhor atestada pela análise das evidências externas.
NOTA CONCEITO: {A}
Crítica Textual 1Jo.1.5
Evidências
[ἀγγελία] Alex: (א*) (IV) א2 (VII) A (V) B (IV) Biz: Byz VM: WH TIS8 TR Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF NVI
[ἐπαγγελία] Alex: C (V) P (XI )33 (IX) 81 (1044) 323 (XI) 1241 (XII) copsa(ms) (III/IV) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 630 (XIV) 1505 (XII) Biz: mss Ind: 69 945 1739 VM: TR Stephanus
[ἀγάπη τῆς ἐπαγγελίας] Alex: א1 (VI/V)Ψ (VIII/IX)
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA EXTERNA:
As leituras ficam assim divididas: (1) essa é a mensagem que da parte dele ouvimos; (2) essa é a promessa que da parte dele ouvimos; (3) esse é o amor da promessa que da parte dele ouvimos. Assim sendo, vamos analisar as evidências que dispomos.
1. Data:
A. A evidência encontrada aponta para o IV século.
B. As versões coptas atestam uma data até no III século.
C. A mais posterior das três é vista a partir do IV século.
D. PARECER: A segunda evidência é favorecida no quesito data.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א), Alexandrino (A) e do Vaticanus (B) em favor da primeira variante reforça sua qualidade. Vale ser dito que a vasta maioria de manuscritos minúsculos bizantinmos favorecem essa leitura
B. A leitura (mista) de C e uma parte dos manuscritos minúsculos bizantinos não parece superar a primeira evidência.
C. A leitura corrigido do Sinaítico aqui, ao invés de acrescer valor a essa variante, desfavorece a primeira..
D. PARECER: A primeira evidência é favorecida, ainda que a leitura do Sinaítico fique dividida..
3. Distribuição Geográfica:
A. A falta de evidências aqui é algo a considerar. O que temos disponível aponta para um texto não muito diverso, contemplando apenas Alexandria e a região Bizantina.
B. A segunda leitura além do alcance da primeira tem evidências no texto Ocidental.
C. Exclusivamente Alexandrina..
D. PARECER: Não é muito sólida a definição nesse quesito, pois as evidências são escassa. Entretanto, há vantagem para a segunda leitura aqui.
4. Solidariedade Genealógica:
A. Não há solidariedade. Entretanto, a maioria Bizantina está favorecida aqui e as consideradas melhores leituras Alexandrinas favorecem essa leitura.
B. O texto Ocidental é sólido em favor da segunda evidência.
C. Não há solidariedade.
D. PARECER: Nenhum conclusão pode ser auferida aqui além do descrédito da terceira variante.
5. Parecer Pessoal:
Até aqui a segunda leitura parece ser a leitura mais favorável, muito embora essa decisão não possa ser auferida com facilidade ou grande grau de certeza até aqui.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua :
A. ΚαIαUτηEστIνHαγγελIαHνAκηκoαμενAπαUτοU
B. ΚαIαUτηEστIνHEπαγγελίαHνAκηκoαμενAπαUτοU
C. ΚαIαuτηEστIνHAγAπητHςEπαγγελIαςHνAκηκoαμενAπαUτοU
2. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. Não parece a ocasião em que a memória poderia ser responsável pela variante.
3. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
4. Cânones
A. Que leitura explica as demais?
i. Se ἀγγελία era a leitura original, é possível que alguém procurasse acertar o substantivo com o uso verbal no contexto anterior (ἀπαγγέλλομεν – 2x) acrescendo uma preposição ao mesmo.
ii. O mesmo não poderia ser dito dessa variante, pois a remoção da preposição parece não ser necessária aqui, até por que pouco à frente o mesmo termo é utilizado (2.25).
iii. O acréscimo de ἀγάπη aqui não parece nada natural ao texto, e provavelmente uma adaptação da segunda variante.
iv. PARECER: É possível que a primeira leitura seja a responsável pelas demais.
B. Qual é a leitura mais difícil? A terceira.
C. Qual é a leitura mais curta? A primeira.
5. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
A primeira.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
As duas primeiras são possíveis, mas considerando a ocasião em que aparece, a primeira é favorecida.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Indiferente
PARECER FINAL:
A terceira leitura é certamente a menos provável. Já a disputa entre ἀγγελία e ἐπαγγελία é bem acirrada. Entretanto, considerando o contexto, onde o foco está sobre o que foi ouvido e ao anúncio dessa verdade, tendo a preferir a leitura ἀγγελία.
NOTA CONCEITO: {B}
Crítica Textual 1Jo.1.4b
Evidências
[ἡμῶν] Alex: א (IV) B (IV) Ψ (VIII/IX) 181 (XI) 322 (XV) 326 (XII) 1175 (XI) 1241 (XII) 1409 (XIV) copsa (III/IV) Ocid: itar (XI) itp (VII) itt(pt) (XI) itz (VIII) vgww (IV) vgst (IV) Cæs: geo (V) Biz: L (IX) 049 (IX) 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) pm (V) Lect (IX) Ps-Oecumeniuscomm (VI) Theophylactcomm(1077) Ind: 69 VM: TRStephanus TMRobertson-Pierpont TIS8 WH UBS4 NA27 ARA NVI
[ὑμῶν] Alex: A (V) C (V) P (IX) 6 (XIII) 33 (IX) 81 (1044) 104 (1087) 323 (XI) 330 (XII) 442 (XIII) 451 (XI) 1241 (XII) 1735 (XI/XII) 2298 (XI) 2344 (XI) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (1072) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (XI) itc (XII/XIII) itdem (XIII) itdiv (XII) itt(pt) (XI) vgcl (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) Biz: K (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 5 (XIV) 468 (XIII) 1844 (XV) 1877 (XIV) l422 (XIV) l598 (XI) l938 (XIII) l1021(XII) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumeniustext (VI) Theophylacttext (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRScrivener ARC ARF
[ἡμῶν ἐν ὑμῖν] Biz: syrp (V)
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA EXTERNA:
As evidências textuais nessa disputa mostram que ainda que exista uma alteração, nesse caso ela não é significativa. As leituras ficam assim divididas: (1) vos escrevemos para que nossa alegria seja completa; (2) vos escrevemos para que vossa alegria seja completa; (3) vos escrevemos para que nossa alegria em vós seja completa. Assim sendo, vamos analisar as evidências que dispomos.
1. Data:
A. A primeira variante tem testemunhos antigos (IV), como a versão Copta Sahídica datada entre o III e IV século, o que exige uma leitura existente no século III.
B. A segunda variante em geral é atestada a partir do quinto século, entretanto a versão Copta Bohahírica do III e IV século exige uma leitura já no terceiro século.
C. A terceira variante é do quinto século, e encontrada apenas nessa época.
D. PARECER: No quesito data, as duas primeiras as evidências são atestadas entre o III e IV século em versões egípcias o que sugere que ambas as leituras podem ser datadas com alguma segurança no terceiro século. Já a terceira é largamente desfavorecida.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א) e do Vaticanus (B) em favor da primeira variante reforça sua qualidade.
B. A leitura do Alexandrino (A) e (C) também atestam alguma qualidade a essa leitura.
C. Apesar da Peshita favorecer essa leitura, ela não pode ser considerada como válida por ser única.
D. PARECER: As duas primeiras têm representações significativas, entretanto a presença do Sinaítico e do Vaticanus credita valor a primeira leitura.
3. Distribuição Geográfica:
A. A primeira variante é conhecida na Tradição Alexandrina e Bizantina e algumas aparições no Texto Ocidental. A versão Georgiana do século V atesta que essa versão de texto esteve presente anteriormente na região e sua presença aqui atesta sua credibilidade.
B. A segunda variante é geograficamente atestada em todas as regiões. Da mesma forma que a versão Georgiana, a Armena parece significativa aqui.
C. A terceira variante é única no texto Bizantino.
D. PARECER: Há empate técnico entre as duas primeiras.
4. Solidariedade Genealógica:
A. Não há solidariedade.
B. Não há solidariedade.
C. Não há solidariedade.
D. PARECER: Nenhum conclusão pode ser auferida aqui além do descrédito da terceira variante.
5. Parecer Pessoal:
Considerando que data e geografia parecem favorecer em igualdade as duas primeiras variantes e a solidariedade a nenhuma favorece, no quesito qualidade a primeira parece ser a mais favorável.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua:
A. γρλφομενYμIνIνλHχλρλHμωνHπεπληρωμEνη
B. γρλφομενYμIνIνλHχλρλYμωνHπεπληρωμEνη
C. γρλφομενYμIνIνλHχλρλHμωνENYμIνHπεπληρωμEνη
2. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. Não parece a ocasião em que a memória poderia ser responsável pela variante.
3. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
4. Cânones
A. Que leitura explica as demais? Considerando as duas primeiras, o movimento pode ter ocorrido de ambos os lados.
i. Se a primeira leitura fosse a original, ela poderia ter sido adaptada para a segundo por influência de Jo.16.24.
ii. Se a segunda leitura fosse a original, ela poderia ter sido adaptada para a primeira por influência de 3Jo.1.4.
iii. A terceira é certamente a tentativa de harmonizar ambas as leituras e por isso não merecer qualquer crédito.
iv. PARECER: Aqui não é possível chegar a uma definição entre as duas primeiras.
B. Qual é a leitura mais difícil? Nesse caso essa regra não se aplica.
C. Qual é a leitura mais curta? Nesse caso essa regra não se aplica.
5. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
Indiferente.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
As duas primeiras são possíveis.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Indiferente
PARECER FINAL:
A disputa entre as duas primeiras variantes (ἡμῶν: nossa/ὑμῶν: vossa) é bem acirrada, muito embora que a primeira tenha alguma primazia. Em primeiro lugar por que a segunda variante pode ter sido tomada de Jo.16.24 pela similaridade entre os dois versos. Em segundo lugar, a unanimidade de testemunho do Sinaítico e do Vaticano favorece a primeira variante. Em terceiro lugar a disputa copta, embora ateste a existência das duas leituras em períodos próximos ou até anteriores ao do Sinaítico e Vaticano, não pode definir a questão, pois tratam-se de versões. E finalmente, é digno de nota que essa é a leitura adotada pelo NA27 e o UBS4, com largo apoio dos dois comitês. Assim, reconheço a primazia da primeira leitura sobre a segunda.
NOTA CONCEITO: {B}
Crítica Textual 1Jo.1.4a
Evidências
[ὑμῖν] Alex: Ac (V) 048 (V) 81 (XI) 104 (XI) 181 (XI) 322 (XV) 323 (XI) 326 (XII) 330 (XII) 451 (XI) 1175 (XI) 1241 (XII) 1243 (XI) 1409 (XIV) 1735 (XI/XII) 2298 (IX) 2344 (XI) copsa(ms) (III/IV) copbo(III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (XI) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (IX) itc (XII/XIII)itdem (XIII) itdiv (XII) itp (VII) itt (XI) vg (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) geo (V) Biz: K (IX) L (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) 1844 (XV)1877 (XIV) Lect (IX) syrp (V) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumenius (VI) Theophylact (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRStephanus, Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF
[ἡμεῖς] Alex: א (IV) A*vid (V) 0042 (IV) C (V) P (IX) Ψ (VIII/IX) 33 (IX) copsa(mss) (III/IV) Ocid: itz VM: TIS8 WH UBS4 NA27 NVI
Análise da Evidência Externa
As evidências textuais nessa disputa mostram que ainda que exista uma alteração, nesse caso ela não é significativa. As leituras ficam assim divididas: (1) Essas coisas nós escrevemos para que… (2) Essas coisas vos escrevemos para que… Assim sendo, vamos analisar as evidências que dispomos.
1. Data:
A. A primeira variante tem testemunhos antigos, como a versão Copta Sahídica datada entre o III e IV século.
B. A segunda variante em geral é posterior, entretanto tem dois testemunhos que atestam sua antiguidade: a versão copta Sahídica e a Bohahírica, ambas do III e IV século.
C. PARECER: No quesito data, ambas as evidências são atestadas entre o III e IV século, muito embora esse testemunho divide o tipo texto alexandrino na versões.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א) em favor da primeira variante reforça sua qualidade.
B. Já a leitura dividida do Alexandrino (A) atesta a divisão de leitura no tipo Alexandrino. Outro detalhe é que a vasta maioria de manuscritos posteriores acompanha essa leitura.
C. PARECER: Uma vez mais a leitura Alexandrina mostra-se dividida, e portanto sua credibilidade qualitativa é abalada. Se a alteração de A é uma correção ou corrupção não pode-se afirmar com certeza por ora, entretanto nota-se a maioria favorável à segunda variante.
3. Distribuição Geográfica:
A. A primeira variante é limitada aos testemunhos Alexandrinos, com uma leitura considerada Ocidental, entretanto tardia.
B. A segunda variante é geograficamente atestada em todas as regiões, exceto as escassas evidências no tipo Cesareano que atestam sua antiguidade em outras regiões.
C. PARECER: A segunda variante em distribuição é favorecida.
4. Solidariedade Genealógica:
A. A primeira evidência é vista de modo mais forte no tipo texto alexandrino, mas tal tipo está dividido entre as duas leituras.
B. A segunda evidência tem solidariedade no tipo texto Bizantino e Ocidental (exceto por uma versão).
C. PARECER: A segunda variante é largamente favorável.
5. Parecer Pessoal:
A análise de evidência externa suporta com facilidade a segunda leitura, visto que à exceção da disputa de data, todas as outros análises atestam o favorecimento da segunda. Por ora, a segunda variante parece mais atestada.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua:
A. ΚλIΤλUΤλΓΡλΦΟΜΕΝHΜEIΣIΝλHΧλΡλ
B. ΚλIΤλUΤλΓΡλΦΟΜΕΝYΜIΝIΝλHΧλΡλ
2. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. Não parece a ocasião em que a memória poderia ser responsável pela variante.
3. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática, embora é possível que a alteração da primeira para a segunda fosse justificada textualmente, pois seria a leitura esperada do texto.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
4. Cânones
A. Que leitura explica as demais?
i. A primeira leitura não parece necessária, pois o verbo a quem está associada já faria sua parte.
ii. A segunda leitura parece um complemento necessário ao verbo, uma vez que o sujeito está implícito.
iii. PARECER: Uma vez que julga-se normal o procedimento do copista em tornar o texto mais polido e que o tipo Bizantino carrega tal característica, pode-se esperar que a segunda leitura seja uma adaptação ao texto. Entretanto, deve-se perguntar por que razão o autor não poderia ter escrito de modo mais polido que a alteração de um copista descuidado?
B. Qual é a leitura mais difícil?
i. Como já mencionado a leitura mais difícil é a primeira leitura.
C. Qual é a leitura mais curta? Nesse caso essa regra não se aplica.
5. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
A segunda.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
No contexto imediato, a segunda.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Indiferente
PARECER FINAL:
Ao que tudo indica a leitura ὑμῖν é mais amplamente suportada pela evidência externa ao passo que a análise de evidência interna pareça favorecer ἡμεῖς, ainda que com alguma disputa nas evidências intrínsecas. O comitê do UBS da quarta edição favorece a leitura ἡμεῖς por acreditar que o texto esperado seria γράφομεν ὑμῖν como acontece com outros verbos no contexto (ἐφανερώθη ἡμῖν; ἀπαγγέλλομεν ὑμῖν) (cf. METZGER, Bruce, A Textual Commentary on the Greek New Testament). Entretanto, considerando o contexto imediato, tendo a aceitar ὑμῖν como a leitura mais acertada, ainda que com grande dificuldade de definição.
NOTA CONCEITO: {C}
1João 1.5-2.2 – Tradução e Crítica Textual
Certeza Obtida pelo Caminhar na Luz
5 Καὶ αὕτη ἐστὶν ἡ ἀγγελία[a] ἣν ἀκηκόαμεν ἀπ᾿ αὐτοῦ καὶ ἀναγγέλλομεν ὑμῖν, ὅτι ὁ Θεὸς φῶς ἐστι καὶ σκοτία ἐν αὐτῷ οὐκ ἔστιν οὐδεμία.
5 Esta é a mensagem que da parte dele ouvimos e anunciamos a vocês: Deus é luz e nele não existe escuridão nenhuma.
6 ἐὰν εἴπωμεν ὅτι κοινωνίαν ἔχομεν μετ᾿ αὐτοῦ καὶ ἐν τῷ σκότει περιπατῶμεν, ψευδόμεθα καὶ οὐ ποιοῦμεν τὴν ἀλήθείαν·
6 Se dissermos: Temos comunhão com Ele e andarmos no pecado, mentimos e não praticamos a verdade.
7 ἐὰν δὲ ἐν τῷ φωτὶ περιπατῶμεν, ὡς αὐτός ἐστιν ἐν τῷ φωτί, κοινωνίαν ἔχομεν μετ᾿ ἀλλήλων, καὶ τὸ αἷμα b᾿Ιησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ[b] καθαρίζει ἡμᾶς ἀπὸ πάσης ἁμαρτίας.
7 Porém, se andarmos na luz como Ele está na luz, temos comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado.
8 ἐὰν εἴπωμεν ὅτι ἁμαρτίαν οὐκ ἔχομεν, ἑαυτοὺς πλανῶμεν καὶ ἡ ἀλήθεια οὐκ ἔστιν ἐν ἡμῖν.
8 Se dissermos: Não temos pecado, a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós.
9 ἐὰν ὁμολογῶμεν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν, πιστός ἐστι καὶ δίκαιος, ἵνα ἀφῇ cἡμῖν τὰς ἁμαρτίας[c] καὶ καθαρίσῃ ἡμᾶς ἀπὸ πάσης ἀδικίας.
9 Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.
10 ἐὰν εἴπωμεν ὅτι οὐχ ἡμαρτήκαμεν, ψεύστην ποιοῦμεν αὐτόν, καὶ ὁ λόγος αὐτοῦ οὐκ ἔστιν ἐν ἡμῖν.
10 Se dissermos: não temos praticado pecado, fazemos Dele um mentiroso e sua palavra não está em nós.
2 Τεκνία μου, ταῦτα γράφω ὑμῖν ἵνα μὴ ἁμάρτητε· καὶ ἐάν τις ἁμάρτῃ, παράκλητον ἔχομεν πρὸς τὸν πατέρα, ᾿Ιησοῦν Χριστὸν δίκαιον·
2 Meus filhinhos, escrevo-lhes essas coisas para que vocês não pequem, mas se alguém pecar temos [Aquele que auxilia] ante ao Pai, Jesus Cristo Justo.
2 καὶ αὐτὸς ἱλασμός ἐστι περὶ τῶν ἁμαρτιῶν ἡμῶν, οὐ περὶ τῶν ἡμετέρων δὲ μόνον, ἀλλὰ καὶ περὶ ὅλου τοῦ κόσμου.
2 e Ele é a propiciação dos nossos pecados, e não apenas dos nossos, mas também de todo o mundo.
[a] {B}[ἀγγελία] Alex: (א*) (IV) א2 (VII) A (V) B (IV) Biz: Byz VM: WH TIS8 TR Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF NVI || [ἐπαγγελία] Alex: C (V) P (XI )33 (IX) 81 (1044) 323 (XI) 1241 (XII) copsa(ms) (III/IV) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 630 (XIV) 1505 (XII) Biz: mss Ind: 69 945 1739 VM: TR Stephanus || [ἀγάπη τῆς ἐπαγγελίας] Alex: א1 (VI/V)Ψ (VIII/IX)
[b] {A}[Iησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: א (IV) B (V) C (V) P(XI) Ψ (VIII/IX) 323 (XI) 1241 (XII) copsa (III/IV) copbo(ms) (III/IV) Ocid: 630 1505 itl vgst Biz: pc syrp Ind: 945 1739 Clement VM: WH TIS8 ARA NVI || [Ἰησοῦ Χριστοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: A (V) 33 (IX) copbo (III/IV) Ocid: itt (XI) itw (XI) itz (VIII) vgcl (IV) vgww(IV) Biz: Byz syrh* (616)VM: TR Scrivener, Stephanus TMRobertson-Pierpont ARC ARF|| [Ἰησοῦ Χριστοῦ] Biz: pc Cassiodorus (580)
[c] {A}[ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας] Biz: Byz VM: WH TIS8 TR Scrivener TR Stephanus TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF NVI || [ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν] Alex: א C Ψ 81 Ocid: 614 630 1505 1852 vgcl vgww Biz: 623 al Ind: 2464 syr
1João 1.1-4 – Tradução e Crítica Textual
Prólogo
1 ῝Ο ἦν ἀπ᾿ ἀρχῆς, ὃ ἀκηκόαμεν, ὃ ἑωράκαμεν τοῖς ὀφθαλμοῖς ἡμῶν, ὃ ἐθεασάμεθα καὶ αἱ χεῖρες ἡμῶν ἐψηλάφησαν, περὶ τοῦ λόγου τῆς ζωῆς·
1 O que era desde o princípio, o que nós ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam, com respeito ao verbo da vida
2 – καὶ ἡ ζωὴ ἐφανερώθη, καὶ ἑωράκαμεν καὶ μαρτυροῦμεν καὶ ἀπαγγέλλομεν ὑμῖν τὴν ζωὴν τὴν αἰώνιον, ἥτις ἦν πρὸς τὸν πατέρα καὶ ἐφανερώθη ἡμῖν· -
2 – e a vida foi manifestada, nós vimos, testemunhamos e anunciamos a vocês a vida eterna que estava com Deus e foi manifestada a nós -
3 ὃ ἑωράκαμεν καὶ ἀκηκόαμεν, ἀπαγγέλλομεν ὑμῖν, ἵνα καὶ ὑμεῖς κοινωνίαν ἔχητε μεθ᾿ ἡμῶν καὶ ἡ κοινωνία δὲ ἡ ἡμετέρα μετὰ τοῦ πατρὸς καὶ μετὰ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ.
3 o que vimos e ouvimos anunciamos a vocês, a fim de que tenham comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo.
4 καὶ ταῦτα γράφομεν ὑμῖν[i], ἵνα ἡ χαρὰ ἡμῶν[ii] ᾖ πεπληρωμένη.
4 Essas coisas escrevemos a vocês para que nossa alegria seja completa.
[i] {C} [ὑμῖν] Alex: Ac (V) 048 (V) 81 (XI) 104 (XI) 181 (XI) 322 (XV) 323 (XI) 326 (XII) 330 (XII) 451 (XI) 1175 (XI) 1241 (XII) 1243 (XI) 1409 (XIV) 1735 (XI/XII) 2298 (IX) 2344 (XI) copsa(ms) (III/IV) copbo(III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (XI) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (IX) itc (XII/XIII)itdem (XIII) itdiv (XII) itp (VII) itt (XI) vg (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) geo (V) Biz: K (IX) L (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) 1844 (XV)1877 (XIV) Lect (IX) syrp (V) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumenius (VI) Theophylact (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRStephanus, Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF|| [ἡμεῖς] Alex: א (IV) A*vid (V) 0042 (IV) C (V) P (IX) Ψ (VIII/IX) 33 (IX) copsa(mss) (III/IV) Ocid: itz VM: TIS8 WH UBS4 NA27 NVI
[ii] {B} [ἡμῶν] Alex: א (IV) B (IV) Ψ (VIII/IX) 181 (XI) 322 (XV) 326 (XII) 1175 (XI) 1241 (XII) 1409 (XIV) copsa (III/IV) Ocid: itar (XI) itp (VII) itt(pt) (XI) itz (VIII) vgww (IV) vgst (IV) Cæs: geo (V) Biz: L (IX) 049 (IX) 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) pm (V) Lect (IX) Ps-Oecumeniuscomm (VI) Theophylactcomm(1077) Ind: 69 VM: TRStephanus TMRobertson-Pierpont TIS8 WH UBS4 NA27 ARA NVI|| [ὑμῶν] Alex: A (V) C (V) P (IX) 6 (XIII) 33 (IX) 81 (1044) 104 (1087) 323 (XI) 330 (XII) 442 (XIII) 451 (XI) 1241 (XII) 1735 (XI/XII) 2298 (XI) 2344 (XI) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (1072) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (XI) itc (XII/XIII) itdem (XIII) itdiv (XII) itt(pt) (XI) vgcl (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) Biz: K (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 5 (XIV) 468 (XIII) 1844 (XV) 1877 (XIV) l422 (XIV) l598 (XI) l938 (XIII) l1021(XII) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumeniustext (VI) Theophylacttext (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRScrivener ARC ARF || [ἡμῶν ἐν ὑμῖν] Biz: syrp (V)
A Mensagem dos Apóstolos (1Jo.1.1-4)
O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida. A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada. Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa
1João 1.1-4
Nos primeiros versos dessa epistolo podemos encontrar o cerne da mensagem apostólica, e com ela nos ocupamos nesse estudo. Mesmo em uma leitura superficial podemos perceber um pouco as intenções de João ao escrever o que escreve. Em primeiro lugar podemos notar que o teor da escrita carrega uma alta dose de defesa da fé. A pessoa de Cristo tem lugar central nessa mensagem e sua adequada compreensão tem fundamental importância para João.
É possível que algumas das teorias sobre Cristo bem conhecidas no segundo século já fossem incipientes no fim do primeiro. A julgar pelo que João escreve aqui, acreditamos que ele expõe a compreensão correta de Cristo em oposição aos ensinos de Cerinto, um herege, que ensinou que Jesus era humano, mas ao ser batizado, o “Cristo” na forma de pomba, desceu sobre ele. Na cruz, o “Cristo” o deixou, e ele morreu sozinho, como homem. Entretanto, o que vemos nessa introdução está bem longe de conformar-se com essa idéia. Sobre Cerinto Stott disse:
“Demonstra-se ao seguidores de Cerinto que ‘a Palavra da Vida’ o evangelho de Cristo, tem que ver com a encarnação história do Filho Eterno. Aquele que é desde o princípio é Aquele a quem os apóstolos ouviram, viram e tocaram. É impossível distinguir entre Jesus e o Cristo, entre o histórico e o eterno” (Introdução e Comentário de 1João, pp.53).
É bem possível também que nessa introdução, João também combatesse aquilo que tem-se chamado proto-gnosticismo. Essa nomenclatura é devida ao fato de que o gnosticismo como religião/filosofia é bem conhecida a partir da segunda metade do segundo século. Entretanto, a forma como os autores neotestamentários atacaram idéias, que posteriormente foram identificadas com o gnosticismo, faz com que alguns acadêmicos acreditem que o gnosticismo já estava em formação no fim do primeiro século. De qualquer forma, o gnosticismo quando falou sobre Cristo o fez de vários modos: (1) seja na separação do Cristo (espiritual) e do Jesus (físico); (2) seja no não reconhecimento de sua humanidade, eles apresentavam um Cristo que não estava de acordo com a verdade. E parece que João dedica sua introdução epistolar para apresentar a perfeita harmonia que existe na pessoa de Cristo.
Outro grupo que poderia ser foco dessa introdução-apologética seriam os docéticos, movimento que margeou o cristianismo e defendia que Cristo não era humano, apenas parecia humano. O nome docético, provém do termo grego “dokéö” que significa parecer. Nessa breve introdução vemos que João claramente diz ter tocado em Cristo, o que confronta diretamente com a idéia docética de Cristo.
O ponto comum entre todas essas visões alternativas de Cristo era sua resistência ao conceito da encarnação do Verbo, tema importantíssimo na teologia de João. Influenciados pela mentalidade grega de que a matéria é má, eles não poderiam aceitar que o Logos, Cristo pudesse encarnar-se. Assim, rejeitavam o verdadeiro Cristo. Outro ponto de similaridade entre eles é que todos eles não eram testemunhas oculares da pessoa de Cristo, apenas haviam recebido a informação de terceiros. É bem possível que a partir desse ponto aproximaram suas crenças a novas informações e construíram sua própria versão de Cristo.
Deve ser por isso que João chama para os apóstolos a missão de proclamar a verdade sobre quem esse Cristo de fato é. Observe que em sua introdução João fala na primeira pessoa do plural o que nos faz pensar que ele não fala exclusivamente de si mesmo, mas do corpo de apóstolos autorizados da parte de Cristo para carregarem a verdade sobre quem Ele é. Observe que segundo essa introdução João diz que a vida manifestou-se, o que sugere que Ele fale do voluntariado de Cristo em tornar-se conhecido em forma humana. Mas, pouco a frente ele completa: “a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada“. Essa manifestação teve um alvo particular segundo João, e os apóstolos é que foram os receptores dessa manifestação em primeira mão. Eles são os que tinham convivido com Cristo; eles que haviam ouvido seus ensinamentos; e parece que João quer transparecer um pouco desse fato para combater visões erradas sobre quem Cristo é.
Contudo, mais interessante que isso é saber que agora esses apóstolos enviados da parte de Cristo são comissionados para transmitir essa verdade a nós: “nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês“. É bem verdade que a expressão em negrito nesse verso trata-se dos leitores primários da carta, mas a manutenção histórica da mesma preserva seu testemunho e agora nós podemos desfrutar do relato de uma testemunha ocular de Cristo, que certamente pode dar um testemunho muito mais acurado sobre a verdade.
Corrobora com essa idéia os verbos empregados por João para descrever a ação apostólica: “nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês“. O termo grego para testemunhar é “marturéö” que expressa a idéia de (1) um testemunho que tem autoridade proveniente de experiência pessoal que é (2) próprio daquele que presencia algo (por isso os termos ver, ouvir e apalpar) e (3) por isso o que fala é de primeira mão. Ele não é um intermediária da verdade, ele mesmo foi um expectador dos fatos e testemunha do que experimentou (viu, ouviu).
Com idéia complementar a essa, o termo grego para “proclamar” é “apaggaléö”. Esse termo tem uma conotação um pouco mais formal que o anterior pois carrega a idéia de (1) autoridade proveniente de uma comissão, que é próprio daquele que foi (2) selecionado, autorizado e enviado para levar uma mensagem ou notícia. Isso implica que o mensageiro não fala daquilo que lhe é próprio, mas daquilo que recebeu do Seu Senhor. Quando João faz uso desse termo, ao mesmo tempo que confirma sua autoridade no assunto transfere o peso da veracidade do conteúdo ao Seu Senhor, pois sua mensagem não é propriamente sua, mas do próprio Cristo a quem ele anuncia.
Ou seja, essa introdução epistolar apresenta um João que tem apresso pelo conceito correto de Cristo, O testemunha por tê-lo conhecido pessoalmente e o proclama por ter sido comissionado pelo próprio Senhora a fazer isso.
Feitas nossas considerações preliminares, podemos então observar o texto com um pouco mais de atenção e confiança, pois sabemos que o que chega em nossas mãos é impregnada pela autoridade do apóstolo, cujo foco é bem definido e seu objetivo é claro.
A. Autoridade: Baseado em Experiência Pessoal com Cristo
Uma das acusações que é sempre feita sobre o testemunhos dos apóstolos é sobre sua confiabilidade. Como podemos receber essas informações como verdadeiras se os apóstolos podem ter sido desonestos em sua transmissão? Será que ele mesmo esteve por perto de Cristo? Seriam eles testemunhas oculares de fato?
Esse é um tipo comum de ataque aos relatos dos apóstolos nos nossos dias, mas não é restrito a ele de modo nenhum. Já nos primeiros séculos da EC (era comum) os que se opunha a fé atacam esse ponto. Veja a acusação feita por Porfírio:
“Os evangelistas eram escritores de ficção – não observadores oculares da vida de Jesus. Cada um dos quatro contradiz o outro ao escrever o próprio relato dos acontecimentos de seu sofrimento e crucificação”
Isso não era incomum, mesmo na era apostólica. Vemos que Paulo teve que defender seu apostolado algumas vezes em seus escritos. Há ainda quem diga que o próprio livro de Atos tem um propósito de defesa do apostolado de Paulo ao investir tanto tempo em contar suas histórias e apresentar situações que são tão similares a que Pedro vivencia.
Mas, o que é certo é que o próprio Paulo fez isso na introdução a sua carta aos gálatas: “Paulo, apóstolo enviado, não da parte de homens nem por meio de pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos“. (Gl.1.1).
João de modo similar em sua introdução diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1Jo.1.1). Mas, que será que João teria ouvido, visto, contemplado e apalpado que merecia tanta atenção no início de sua carta? Há certo debate teológico sobre o assunto, mas entendo que trata-se da Palavra da Vida, que é uma referência a Cristo. Considerando isso, vamos lançar mão dos testemunho sobre Cristo que João já havia escrito sobre Cristo e vamos observar o que ele poderia ter presenciando diretamente do Verbo da vida.
1. Ouvimos
Dentre tantas coisas que João poderia ter ouvido de Cristo, vamos ressaltar nesse tópico algumas dessas que tiveram direta ligação com sua carta:
- 1. Amor: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (Jo.13.34). Mensagem que foi retransmitida a seus leitores e a nós: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros” (1Jo.3.11).
- 2. Exclusividade de Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo.14.6). “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1Jo.5.1).
- § Unidade entre o Pai e o Filho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). “Todo aquele que nega o filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai” (1Jo.2.23)
2. Vimos
João também presenciou fatos na vida de Jesus, não apenas o ouvir falar sobre a vida, mas viu a Vida manifesta. Abaixo ressaltamos apenas alguns para exemplificar:
- § Milagres: João teria presenciado pessoalmente os milagres que Jesus efetuou: “Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar” (Jo.5.8-9)
- § Quebra de Paradigmas: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?” (Jo.4.9). É bem verdade que João não estava no exato momento em que essa frase foi dita, mas ele presencia o que Cristo teria feito ao insistir na conversa com uma mulher samaritana de baixa reputação.
- § Salvação de Samaritanos: “E por causa da sua palavra, muitos outros creram. E disseram à mulher: “Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo” (Jo.4.41-42; cf. 1Jo.4.14).
- § Morte: “Tendo-o provado, Jesus disse: “Está consumado!” Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (Jo.19.30; cf. 1Jo.4.10).
3. Contemplaram
- § Manifestação da Vida: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1.14)
- § Amor: “Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo.13.1)
- § Serviço do Líder: “assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura” (Jo.13.4-5).
4. Apalparam
A expressão de João ao falar que teria apalpado a Cristo é significativa nessa introdução pois é exatamente a mesma palavra que Lucas usa para descrever Cristo ressurreto: “Vejam as minhas mãos e os meus pés. Sou eu mesmo! Toquem-me e vejam; um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho” (Lc. 24.39).
A proximidade em que João estava de Cristo o permitiu aprender direto da fonte da Vida, princípios fundamentais para a fé Cristã, que ele fez questão de retransmitir. Entretanto, isso só nos mostra que João estava por perto, mas não nos dá indicativos de quão perto ele teria estado de Cristo. Por isso é importante ressaltar duas informações que resgatamos do evangelho de João:
- 1. O modo como João era reconhecido por Cristo: João era conhecido como “o discípulo a quem Cristo amava“. Isso supõe que sua proximidade com Cristo era tamanha que, entre os escolhidos para estar com Cristo, João parecia ter uma proximidade ainda maior.
- 2. Responsabilidade familiar assumida por João: “Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: “Aí está o seu filho”, e ao discípulo: “Aí está a sua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua família” (Jo.19.26-27). João estava próximo de Cristo até mesmo na hora de sua morte, e sua proximidade era tal que Jesus confia sua família a ele.
O que percebemos aqui é que João não era alguém que andava ao redor de Cristo, era alguém de Seu relacionamento íntimo e pessoal. Ou seja, o testemunho dele é regado por autoridade. E mais importante, o que ouviu transmitiu.
Outro ponto interessantíssimo é que João também apresenta o modo como essas informações sofram transmitidas: “Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo.1.3) Além de ter visto e ouvido o que transmite, essa transmissão também atinge um novo estágio, pois foi também redigida: “Escrevemos estas coisas para que a vossa alegria seja completa”. Essa é uma consideração importante, pois a autoridade que João tem para falar sobre Cristo, por ter estado tão próximo Dele, atinge agora um novo modo de transmissão: a escrita. Da mesma forma como esse autor é autorizado por Cristo para transmitir, anunciar e proclamar a Sua mensagem, ele também é autorizado a deixar seu relato escrito sobre a verdade, debaixo da mesma autorização. Portanto, a autoridade de João como Testemunha e Anunciador é vista na sua participação pessoal com Cristo e na comissão de Cristo para sua tarefa.
B. Foco: Centrado na Pessoa de Cristo
Dentre tantas coisas que o apóstolo poderia incumbir-se por anunciar, ele tem a intenção de transmitir o que é mais importante: Cristo. Uma importante observação deve ser feita aqui: Considerando que o autor escreve já na sua velhice (2Jo.1; 3Jo.1), que ele é o último apóstolo vivo e que as visões divergentes sobre Cristo já haviam surgido com alguma intensidade era necessário que alguém deixasse instruções autorizadas sobre a verdadeira concepção da pessoa de Cristo. É opinião de alguns teólogos que Deus teria permitido a João ter chegado tão perto do início do segundo século para ser um mensageiro confiável da verdade sobre Cristo a fim de purificar a igreja da ação dos hereges.
Tal foco na mensagem apostólica é visto já no início na carta de João: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito do Verbo da vida” (1Jo.1.1).
Tal foco pode ser bem observado por toda sua carta: As implicações sobre a vida cristã estão fundamentadas em Cristo (2.4-6), a exortação contra os falsos mestres é centrada na concepção correta da pessoa de Cristo (2.18-23; 5.6, 9), a prática do amor entre os cristão está fundamentado na Obra de Cristo a nosso favor (3.16), a centralidade da fé cristã está em Cristo (3.23; 4.2-3; 4.14-15; 5.1, 5; 5.11-12; 5.20), a manifestação do amor de Deus é reconhecida na auto-doação de Cristo em nosso benefício (4.9-10) entre outras considerações sobre Cristo.
O que podemos perceber com clarividência nas colocações de João nos primeiros versos de sua carta é que ele está interessado em apresentar a manifestação histórica de Cristo, bem como sua Pessoa tal como expressa pela verdade.
A expressão Verbo da Vida usada no fim do primeiro verso tem sido entendida de várias formas: (1) Um grupo significativo de comentaristas tem visto aqui uma indicação das escrituras (Palavra viva); (2) outros tem visto como uma descrição de Cristo (Verbo vivo). Particularmente, tendo a crer que João aqui faz menção a Cristo, e portanto, o uso de “logou tes zoes” acresce uma descrição a Cristo já conhecida no evangelho de João. Essa opção é corroborada pelo uso dos verbos ver, ouvir, contemplar e apalpar encontrados no mesmo verso.
É bem verdade que João quando fala sobre o “Logos” ele não usa em relação com a palavra “zoe“, muito embora esse conceito seja conhecido no evangelho: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo.1.4). Em sua introdução ao evangelho o autor reconhece que o “Logos“, Cristo é o portador da vida. Mas, é fundamental reconhecer aqui que essa idéia é expressa pelo próprio Cristo: “Disse-lhes Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra viverá” (Jo.11.25). Em outro lugar também lemos: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo.14.6). Desse modo, não seria um desvio interpretativo considerar que João em sua epístola sintetize duas informações teológicas comuns em seu evangelho na introdução de sua primeira epístola.
Entretanto, a ênfases de João aqui é sobre a manifestação da vida: “e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo.1.2). Considerando que o foco aqui repousa sobre Cristo, entendemos que João fala da manifestação histórica da Logos Eterno, aspecto fundamental para a Teologia Joanina.
O verbo que descreve essa “manifestação” é o verbo “faneroö” que pode significar tornar público, revelar, vir a ser conhecido. Ou seja, é preocupação primária de João demonstrar que o Eterno foi presente, o divino encontrado em forma humana, que Jesus é o Cristo, forte ênfase da carta como um todo: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (1Jo.4.2; cf. 2Jo.1.7).
Tal idéia na mentalidade gentílica do primeiro século era um abuso: O logos, santo e eterno encarnado: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo.1.14). Rudolf Bultmann chega a chamar esse aspecto da teologia de João de “o escândalo da encarnação“. Entretanto, esse conceito a princípio controvertido é o cerne da mensagem joanina: “e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo.1.2). Muito embora fosse Deus, estivesse com Deus (Jo.1.1) Ele estivera pessoalmente com os apóstolos que viram, ouviram, contemplaram e apalparam o Verbo da Vida manifesto ante eles.
C. Objetivo: Promover Comunhão e Alegria
Uma vez que o conteúdo da mensagem torna-se evidente, João o velho (presbíteros) passa a demonstrar seu Objetivo com essa introdução: “o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco” (1Jo.1.3). A idéia da verdade sobre Cristo é capaz de promover comunhão entre aqueles que sua fé professam. Mas, essa comunhão depende em grande parte da mensagem já apresentada, pois tal comunhão “é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo.1.3). É bem sabido que para João, não existe relacionamento com o Pai sem o Filho: “Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai” (1Jo.2.23), pois não existe proximidade com o Pai senão pelo Filho: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo.14.6).
Ou seja, João intenciona demonstrar o fundamento correto para a comunhão com o Pai através da verdade sobre o Logos para que, seus filhos na fé possam desfrutar da comunhão com os apóstolos, entre si e com Deus.
Deve ser por isso que ele também quer que seus filhinhos tenham alegria: “Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo.1.4), sentimento que provavelmente adotou do próprio mestre: “Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (Jo.15.11).
04.01.09
Como entender Filipenses 3.11?
“Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo, ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”
Paulo de Tarso, Carta aos Filipenses. 3.8-11
O versículo em negrito no texto acima tem sido entendido das mais diversas formas, seja pela exegese aprofundada ou pelo comentário superficial, teólogos tem divido sua opinião sobre esse texto. B.W. Johnson, por exemplo, sobre o texto apenas diz: “This great consummation of a glorious resurrection to a heavenly life is worth attaining by every sacrifice, and by every possible means[1]“. Embora aponte para a ressurreição final como foco do texto nada fala sobre a salvação ou a possibilidade de perder-la. Já B.H. Carrol diz que o significado do texto está sobre a ressurreição dentre os mortos e não meramente no levantamento da morte, pois para ele é nessa ocasião que a salvação é completa e a santificação perfeita[2].
Seja como for, a interpretação desse verso tem levado comentaristas a navegar em duas doutrinas fundamentais da Fé Cristã: A soteriologia e a escatologia. No que refere-se à salvação, alguns comentaristas acreditam que a expressão “de algum modo alcançar a ressurreição” explicita dúvidas da parte do apóstolo sobre sua posição futura. Há quem diga que Paulo aqui põe em cheque sua própria convicção sotereiológica. Já no que tange à escatologia, comentaristas tem interpretado a expressão “ressurreição dentre os mortos” com indicativo de uma certeza futura, entretanto sob diferentes ênfases. No caso da opinião de Carrol já citada, nota-se que sua preocupação está na expressão “dentre” os mortos, ao passo que Jonhson apenas aponta para o estágio final da fé, sem qualquer consideração sobre quando isso poderia acontecer.
O que se sabe com certeza é que Paulo é o campeão das doutrinas da graça. No que se refere à salvação sua convicção é estampada com clarividência em seus escritos (Ef.1). É também verdade que para Paulo a ressurreição dos mortos é uma verdade inegociável, tema que discorre com alguma freqüência em seus escritos (1Co.15). Entretanto, em Romanos capítulo 8 as duas convicções são estampadas lado a lado: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm.8.29-30). Aqui a segurança da salvação é assegurada pela inscrição dos verbos no passado, como se o estado futuro já estivesse entregue ao cristão, embora ainda não desfrutasse dele. Em complementação, o estágio futuro é uma realidade inegociável aqui: Existe um estágio de glorificação que a Teologia de Paulo relaciona com a ressurreição dos mortos: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” (1Co.15.51-52).
A relação de interdependência da salvação e o estágio futuro é tão grande que se a primeira for derruba a segunda é desnecessária, e vice-versa. Portanto, uma compreensão sadia do dilema de Filipenses 3.11 é fundamental para a saúde da compreensão soteriológica e escatológica do Novo Testamento. Por isso, passo abaixo a considerar as implicações soteriológicas e escatológicas desse verso, segundo entendo ser saudável.
A. Implicações Soteriológicas
A interpretação da expressão “para, de algum modo alcançar” tem sido interpretada de três formas diferentes. Alguns comentaristas acreditam que o texto enfatiza o desfrute presente de uma bênção divina, ou seja, a ressurreição efetuada na salvação (Ef.2.4-6). Por outro lado, outros acreditam que Paulo expressa humildade e esperança com essa frase e não dúvida. Há ainda um terceiro grupo que entende a dúvida que Paulo apresenta nesse texto não repousa sobre a ação de Deus mas à sua própria pessoa. É bem verdade que esse grupo pode ser identificado em duas possibilidades, mas sobre isso falaremos mais à frente. Por ora, passo a descrever tais opções e a apresentar os comentaristas que parecem favoráveis a cada uma delas.
Expressão de humildade/esperança/maravilhamento e não dúvida
Em tentativa de compreender a expressão grega “ei pos”, comentaristas tem chegado à conclusão de que o sentido da mesma está relacionado esperança de apóstolo e não a sua dúvida[3]. Lightfoot, por exemplo, diz sobre o “apóstolo atesta não uma promessa positiva, mas uma modesta esperança[4]“. De modo similar Kent diz: “É possível considerar que a clausula expressa mais expectativa que dúvida”. Para esse modo de interpretar, a conclusão é certa: há ressurreição, e a sentença “para de algum modo” expressa sua expectativa nesse fato.
Por outro lado, outros comentaristas têm visto nisso uma manifestação da humildade de Paulo. Champlin parece advogar essa opinião: “Trata-se de uma expressão de humildade; mas é errado vermos aqui qualquer idéia de dúvida no espírito de Paulo[5]“. MacArthur sobre a expressão de qualquer modo diz que ela “não expressa dúvida da parte de Paulo, mas humildade (…) pois Paulo está confiante que irá alcançar a ressurreição dos mortos e desfrutar da Glória de Cristo[6]“. De modo similar, Lawrence O. Richards diz: “a frase ‘para de algum modo’ expressa não dúvida, mas maravilhamento[7]“. Já Calvino afirma: “A frase ‘para de algum modo’ não indica dúvida, mas expressa dificuldade[8]“. Seja como for, parece evidente que não trata-se de dúvida de Paulo, o que seria contraposto ao conhecimento paulino expresso em outras epístolas e na própria epistola de Filipenses.
Implicações Presentes de uma Benção Futura
Outro modo de interpretar a questão está na aplicação presente de uma bem-aventurança futura. Essa perspectiva é advogada por aqueles que compreendem a aplicação da eternidade já na vida presente: a vida escatológica. Paulo nesse trecho apresenta sua perspectiva de vida presente quando diz: “para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte” (v.10). Essa expectativa não é uma expressão de confiança para o futuro, muito pelo contrário, o conformar-se com Cristo em Sua morte não se trata de passar pela experiência da morte física, mas por meio da morte de Cristo sermos habilitados a morrermos para nosso velho homem, tal como o mesmo autor teria ensinado em Romanos: “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado” (6.4-7). Muito embora a expectativa para o futuro esteja presente, o olhar está sobre o presente, na novidade de vida.
Sobre isso, Robert Gundry menciona que Paulo havia considerado como refugo sua ascendência religiosa para que “pudesse experimentar uma crescente experiência de união com Cristo, nos sofrimentos, na morte e na ressurreição[9]“. Já Howard Marshal, parece acreditar que o texto fala da ressurreição futura quando diz: “Nessa espécie de resumo de Romanos 6, Paulo diz que a fé é uma atitude na qual as pessoas estão de tal modo unidas a Cristo que elas participam em sua morte e ressurreição e podem esperar para experimentar uma ressurreição final dos mortos[10]“. Entretanto, continua por dar a entender que trata-se da vida presente: “A morte é uma experiência complexa de morrer para o pecado, para as razões egoístas e as ações decorrentes. A ressurreição leva a uma nova vida de obediência a Deus pelo poder do Espírito que ressuscitou Jesus dos mortos[11]“.
Essa visão do “já” mas “ainda não” vista na visão de Marshal é compartilhada Rudolf Bultmann. Para ele, tais descrições apresentam “o paradoxo dos cristãos, (…) ou seja, como situação entre um ‘não mais’ e um ‘ainda não’[12]“. Para explicar sua visão desse paradoxo “Não Mais” e um “Ainda não”, ele adiciona: “Não mais: a decisão de fé eliminou o passado; no entanto, como decisão autêntica, é preciso sustentá-la, isto é, tem que ser tomada de novo constantemente. No caráter do superado, o passado está sempre presente, e a lembrança dele como a constate ameaça justamente faz parte da fé. O ‘esquecer’ não é um tirar da cabeça, mas sim um reprimir constante, um não deixar-se prender por ele. ‘Ainda não’: a renúncia ao antigo como uma posse que pretensamente oferece garantia, exclui justamente a troca por nova posse. Com vistas ao ser humano, não se pode falar de um ter obtido; não obstante um ‘já agora’ com vistas ao ser obtido por Cristo Jesus[13]“. E sua conclusão sobre o assunto é que “a morte e ressurreição de Cristo são fenômenos cósmicos e não acontecimentos únicos que pertencem ao passado. Por meio dele, o velho éon e seus poderes foram, em princípio, privados de seu poder; eles já foram desfeitos (1Co.2.6), embora no presente a vida dos crentes ainda não seja visível, e sim oculta sob a máscara da morte (2Co.4.7-12)[14]“.
Desconfiança Pessoal
Willian Hendriksen também parece acreditar nessa possibilidade, mas estende uma nova compreensão quando diz: “Ele escreveu no espírito de profunda humildade e de louvável desconfiança de si mesmo[15]“. Essa idéia apresentada por Hendriksen não lhe é exclusiva e a opinião dos comentaristas nesse assunto varia em dois modos distintos:
- O primeiro grupo acredita que Paulo tem dúvida sobre sua postura de santidade. Champlim sobre isso diz: “A dúvida girava em torno de si mesmo, embora tivesse plena confiança em Deus”. Kennedy expressa sentimento similar ao dizer que a aparente incerteza de Paulo “não indica que ele desconfiava de Deus, antes, desconfiava de si mesmo. Isso enfatiza a necessidade que sentia de vigiar, de esforçar-se constantemente, a fim de que, tendo pregado a outros, não viesse a ser desqualificado”. Muito embora seja frágil tal posição, ela tem respaldo na experiência do apóstolos. É bem provável (na opinião do autor desse artigo) que tal possibilidade é tão remota que beira a impossibilidade.
- O segundo grupo tem dúvidas sobre sua compreensão da própria morte. Ralph P. Martin parece advogar essa possibilidade quando diz: “O elemento de dúvida na frase para de algum modo não se refere à realidade da sua ressurreição, como se Paulo ficasse imaginando se ele poderia, um dia, obtê-la, mas refere-se à maneira pela qual a ressurreição lhe pertencerá, isto é, se pelo martírio, ou em época mais distante”. Para esse caso há alguma consistência, veja por exemplo Fp.1.20-26. Essa visão parece bem mais plausível, pois é certo que Paulo em Filipenses expressa seu desejo por partir e estar com Cristo, o que evidencia nenhuma dúvida soteriológica.
Parecer Pessoal
Diante das opções listadas, posso dizer que, à exceção da primeira opção do grupo da desconfiança pessoal, as outras alternativas são plausíveis e não são necessariamente auto-excludentes. Por outro lado, é bem possível que todas as possibilidades não estivessem na mente de Paulo quando escreveu o que escreveu. Muito embora tenha certo apresso pela opinião de Bultmann e Gundry, não entendo que o verso em paute testemunhe exatamente o que eles observaram ali. Na interpretação do verso 10, até posso assimilar com tranqüilidade suas conclusões, mas tenho dificuldades sobre toda a conclusão auferida por eles.
Já à opinião que refere-se à humildade ou esperança, a não ser que uma evidência lingüística esteja submersa na sentença grega de tal modo que não a possa encontrar, acredito que seja uma fuga da realidade da dúvida do apóstolo. Não posso afirmar com propriedade qual a intenção dos seus defensores em apresentarem suas opiniões desse modo, mas a mim me parece que trata-se de um medo de encontrar no apóstolo alguma espécie de dúvida.
Isso me leva a concluir que a dúvida[16], que está estampada no texto no meu modo de ver, fala mais sobre sua condição ante a morte do que sua própria santidade. Parece plausível que Paulo tivesse alguma dúvida sobre o “como” seria sua morte (visto que isso é inerente a humanidade) e por isso apresenta sua dúvida sobre o como passaria por ela.
B. Implicações Escatológicas
Para analisarmos as implicações escatológicas desse texto, precisaremos passar por duas considerações iniciais: (1) uma do ponto de vista lingüística, para buscar averiguar os termos que Paulo emprega; (2) e outra do ponto de vista da crítica textual, pois detectamos uma variante textual em ponto importante do texto.
Para nossa avaliação lingüística temos que considerar que, quando Paulo fala do arrebatamento ele usa uma palavra não utilizada em nenhum outro lugar na literatura do Novo Testamento[17] (hapax legomena). O verbo mais usado por Paulo para descrever o ressuscitar é o verbo “egeirö” (Rm.4.24;, 25; 6.4, 9; 7.4; 8.11, 34; 10.9; 1Co.6.14; 15.4, 12-17; 20, 29, 32, 35, 42, 43, 44, 52, 2Co.1.9; 4.14, 5.15; Gl.1.1; Ef.1.20; 5.14; 2.12; 1Ts.1.10; 2Tm.2.8), e pode significar ser levantado, despertar, ressuscitar. Já o substantivo mais comum na literatura paulina para ressurreição é “anástesis” (Rm.1.4; 6.5; 1Co.15.12, 13, 21, 42; Fl.3.10; 2Tm.2.18), e é sobre esse termo que Paulo cria o termo que usa em Filipenses 3.11: “exanástesis“. A adição da preposição “ek” no termo tem sido interpretada não apenas como ênfase, mas como a descrição de um evento escatológico distinto. Sobre isso falaremos abaixo.
A segunda observação que devemos fazer sobre esse texto é sobre sua leitura mais provável: quando o texto fala sobre a ressurreição dos mortos duas leituras são possíveis: “para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (ARA); “para ver se, de alguma maneira, eu possa chegar à ressurreição dos mortos” (ARC). A distinção entre as duas traduções não é apenas uma questão de opção idiomática, na verdade trata-se da inclusão ou não da preposição “ek” (dentre) antes de “nekron” (mortos). O Textus Receptus traz o texto sem a preposição em pauta, e por isso a ARC não inclui “dentre” na sua tradução. Já o texto crítico traz a inclusão e usa influência é vista nas traduções mais modernas (ARA, NVI). Na edição que Scriviner e Stephanus fizeram do texto, ambos mantiveram a leitura do texto recebido aqui, mas Tischendorf (na oitava edição) já trazia a inclusão da preposição por julgar ser a leitura original[18]. Por considerar que a leitura é verdadeira as edições críticas modernas (Nestlé; UBS) incluem a preposição sem necessitar qualquer discussão sobre sua inclusão. O que parece verdadeiro é que diante das evidências a inclusão da preposição é mais acertada que sua ausência.
Feitas essas duas considerações, podemos apresentar as duas categorias maiores de interpretação desse verso, sendo ambas são referentes ao problema crítico e a observação lingüística.
Ressurreição Futura da Humanidade
A primeira interpretação para esse texto é que Paulo fala sobre a ressurreição dos mortos. Se a preposição “ek” não for encontrada no texto, essa é a tradução literal do texto, e assim é que deve ser entendida. Provavelmente essa deve ter sido a leitura que Marvin Vincent teve acesso, ou considerou como verdadeira, pois sobre o texto ele diz: “A ressurreição dos mortos é uma frase genérica, denotando a ressurreição geral dos mortos, sejam bons ou maus[19]“. Essa expectativa é comum em Paulo e não seria anormal encontrá-la aqui, desde que, essa fosse a leitura original do texto.
Entretanto, tal interpretação não é exclusiva dos que lêem o texto sem a preposição em pauta. Lightfoot, discípulo de Westtcot, em sua edição de revisão do texto crítico com comentários incluía a preposição, mas sobre a interpretação do texto diz: “A ressurreição dentre os mortos é a ressurreição final para uma nova e glorificada vida” Sobre o problema crítico diz: “A leitura oferecida ‘tön nekron‘ para ‘ten ek nekron‘ apesar de ser fragilmente suportada, ignora qualquer distinção[20]“.
Ressureição dos Cristão – Arrebatamento
Para os comentaristas que favorecem a inclusão da preposição “ek” no texto[21], a leitura esperada seria: “dentre os mortos“. A primeira obsevação é que Paulo falaria de uma ressurreição futura, física, de um grupo dentre a totalidade de mortos. Ou seja, após essa ressurreição, ainda haveiram mortos após essa ressurreição. Isso fez comentaristas avaliarem essa descrição de Paulo como a ressurreição dos cristãos. Sobre isso A.T. Roberston diz: “Aparentemente Paulo está pensando aqui apenas na ressurreição dos cristãos dentre os mortos[22]“.
Que é verdadeiro que Paulo expressa essa esperança em suas epístolas, não podemos negar. E por isso, tantos comentaristas tem visto nesse verso a expectativa de Paulo de participar do Arrebatamento do cristãos, seja em vida, seja após sua morte (1Co.15.51). Sobre isso Lawrence O. Richards diz: “Provavelmente Paulo esta usando essa palavra para se referir ao Arrebatamento, por expressar sua esperança de que o Senhor vai voltar durante sua vida[23]“.
Jonh MacArthur parece expressar mesma convicção quando diz: “Os cristãos serão retirados dentre os outros mortos, que não serão ressurretos até o fim do Reino Milenar, e na transformação na imagem de Cristo[24]“. Pouco antes, teria dito: “O cristãos irão alcançar a ressurreição no Arrebatamento, quando ‘nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade’ (1Co.15.51-53)”
Parecer Pessoal
Ao que tudo indica, a preposição “ek” faz parte do texto e por isso, a interpretação do arrebatamento dos cristãos parece mais plausível. É válido dizer que a inclusão da mesma preposição no substantivo “anástasis” favorece tal interpretação, pois por ela entendemos que a expectativa de Paulo é de uma ressurreição para fora dentre os mortos. Essa é a opinião de Carlos Osvaldo Pinto sobre esse verso, e sobre ele comenta: “Esta palavra incomum (hapax legonema) sugere que Paulo tinha em mente um evento especial no qual sua participação não era certa, não por causa de mérito insuficiente, mas devido ao seu tempo de vida insuficiente. A esta altura na vida de sua vida, Paulo ainda esperava estar vivo para segunda vinda de Cristo (1Ts.4.15; 1Co.15.52) embora tenha percebido posteriormente (2Tm.4.6-8) que sua morte chegaria primeiro[25]“
[1] JONHSON, B.W., The People’s New Testament. Pp.218
[2] CARROL, B.H., Una Interpretación de la Biblia. Pp.286.
[3] ROBERTSON, A.T., Words Pictures in the New Testament. Quick Verse.
[4] LIGHTFOOT, J.B., St. Paul’s Epistle to the Philippians. Pp.151.
[5] CHAMPLIM, Russel Norman, Novo Testamente Interpretado Versículo por Versículo. Vol.5 pp. 51.
[6] MACARTHUR, Jonh. Philippians. Libronix.
[7] RICAHRDS, Lawrence O., The Vitctor Bible Background Commentary – New Testament. Quick Verse.
[8] CALVIN, Jonh, Commentary on Philippeans. Calvin College PDF. Pp.68
[9] GUNDRY, Robert, Panorama do Novo Testamento. Pp.356.
[10] MARSHAL, I. Howard, Teologia do Novo Testamento. Pp.303.
[11] Idem.
[12] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Pp.147.
[13] Idem, pp.393
[14] Idem, pp.365.
[15] HENDRIKSEN, Willian, Comentário do Novo Testamento – Filipenses. Pp.220.
[16] Observe que o uso da expressão grega “ei pös” em outros textos no NT expressa claramente o sentimento de dúvida: At.27.17; Rm.1.10; 11.14.
[17] Esse termo também é encontrado em escassez na literatura extra NT. Sobre o assunto, ver BDAG, Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature.
[18] Em seu aparato crítico, Tischendorf alega ter encontrado a preposição em a01 A02 B03 D06 E06abs1 P025 17.33. 31.104. 71.1912. 73.441. 442. 80.436. 137.263. 213.1952. d e f g vg go syrutr Basspir sa 28 Chr Euthalcod Dam Irint 309 Orint 4,459 Tertres carn 23 Leif198 etc. Praeterea Fgr010 Ggr012. Champlin também apresenta uma lista, veja noVol.5, pp.51.
[19] VINCENT, Marvin, The Epistles of Paul. Quick Verse.
[20] LIGHTFOOT, J.B., St. Paul’s Epistle to the Philippians. Pp.151.
[21] Outros Versículos com a expressão ressurreição ek nekron: Ressurreição Espiritual (Rm.6.4, 13; Cl.2.12; Ef.2.5); Ressurreição Física (Rm.11.15; 1Co.15.12, 20; e Ressurreição de Cristo (Rm.4.24; 6.9; 7.4; 8.11; 8.34; 10.7; 10.9; 1Co.15.12, 20; Gl.1.1; Ef.1.20; 2Tm.2.8)
[22] ROBERTSON, A.T., Words Pictures in the New Testament. Quick Verse.
[23] RICAHRDS, Lawrence O., The Vitctor Bible Background Commentary – New Testament. Quick Verse.
[24] MACARTHUR, Jonh. Philippians. Libronix.
[25] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Novo Testamento. Pp.365.