07.23.09
Ebionitas Primitivos
Por meio das sobreviventes fontes do cristianismo primitivo temos conhecimento de um grupo de “cristãos[1]” que eram denominados Ebionitas. A origem do nome não é certa, pois duas teorias são conhecidas: (1) o grupo teria esse nome por causa do seu fundador Ebion; (2) em função da característica de pobreza do grupo, herdando do hebraico a palavra “ebyon” como descrição da identidade do grupo.
A primeira teoria teria nascido com Tertuliano, que supunha que “que toda heresia começa com um herege que pode ser nomeado” (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.152). No décimo quarto capítulo do documento chamado On The Flesh of Christ, Tertuliano fala sobre a possibilidade de inferioridade de Cristo, por ter sido ele feito inferior aos anjos no texto de Hebreus. Nesse contexto, enquanto ainda considera as possibilidades, Tertuliano diz: “Essa opinião seria bem confortável para Ebion, que defende que Jesus é um mero homem, e nada mais que um descendente de Davi” (On The Flesh of Christ, cap.14; cf. cap.18 e 24 – Tertuliano também faz descrições sobre Ebion no terceiro capítulo da sua obra Aginst all Heresies).
Já a segunda parece ter sido endossada por Orígenes, que fala que os Ebionitas “derivam a apelação de pobres para o próprio nome deles (uma vez que Ebion significa pobre em hebraico)” (De Principiis, Livro 4, Cap.1). Entretanto, Orígenes também apresenta sua opinião com certo sarcasmo, pois sabendo do significado da palavra hebraica ele os satiriza por dizer ou que seu nome deriva da pobreza da lei (Against Celsus, Livro 2, Cap.1) ou que deriva da pobreza do seu intelecto (De Principiis, Livro 4, Cap.1). Essa descrição ofensiva também foi adotada por Eusébio de Cesaréia, que no encerramento do capítulo que trata dos Ebionitas diz: “Assim, em conseqüência geral de tal curso, também receberam seu nome, o nome de ebionitas, manifestando a pobreza do seu intelecto. Pois é assim que os hebreus chamam ao pobre” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. Livro 5, cap. 27).
Muito embora a segunda possibilidade tem sido normalmente aceita como a que representa a verdade sobre o grupo, a razão certamente não é pela pobreza da lei ou do intelecto dos seus adeptos, mas à sua postura de simplicidade ante a vida.
QUEM ERAM OS EBIONITAS?
Os ebionitas eram um grupo de judeus que se entendiam seguidores de Cristo (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.153). No cristianismo primitivo dois grupos de judeus cristãos são claramente identificados: os que eram praticamente ortodoxos, mas do ponto de vista prático falhavam na busca por seguir toda a lei, e aqueles que adotavam uma cristologia deturpada. Os ebionitas normalmente são incluídos no segundo grupo (EHRMAN, Bart, The Ortodox Corruption of the Scripitures. PP.50), mas sabe-se que, como judeus que eram (ou até mesmo adeptos do judaísmo), também buscavam guardar toda a lei.
Eusébio de Cesaréia reconhece a categorização dos ebionitas no segundo grupo de judeus cristãos primitivos, e sobre eles fala: “O espírito de perversão, porém, sendo incapaz de mover alguns em seu amor a Cristo, mais ainda os considerando suscetíveis a suas impressões em outros aspectos, persuadiu-os para seus próprios propósitos. Esses são devidamente chamados ebionistas pelos antigos, como os que abrigavam opiniões inferiores e simplórias a respeito de Cristo” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. Livro 5, cap. 27)
Os ebionitas tinham duas características marcantes: se diziam pobres (no aspecto financeiro) e eram vegetarianos. Como defesa do seu voto de pobreza, o evangelho que eles usavam dizia: “[Jesus] lamentava a atitude daqueles que, vivendo nas riquezas e nos prazeres, não davam coisa algum aos pobres. Recriminava-os dizendo que haveriam de dar contas por não terem compadecido daqueles a quem deviam amar como a si mesmos, nem sequer quando os viam mergulhados na miséria” (Recognitiones 2, 29 – Documento Pseudoclementido do inídio do terceiro século). O que se destaca nesse texto é que:
(1) Em primeiro lugar essa sentença não é encontrada nos evangelho canônicos e parece um adendo ebionita ao evangelho que dispunham
(2) Em segundo lugar, há claras influências interpretativas sobre quem é o próximo que Jesus teria ensinado a amar como a si mesmos. Não temos evidências nos evangelho canônicos de que o próximo, para Cristo, eram apenas os pobres.
Para defender seu vegetarianismo, os ebionitas alteraram os evangelhos canônicos em duas ocasiões:
(1) Quando eles descrevem João Batista como alguém que se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. No Evangelho dos Ebionitas lê-se: “Seu alimento, diz ele, era mel silvestre, de gosto semelhante ao do maná, como se fosse bolo preparado em azeite” (Epifânio, Heresias, 30.13).
(2) E na ocasião em que os discípulos pergunta a Cristo onde ele teria interesse em comer o Cordeiro Pascal: “Onde queres que preparemos para comeres a Páscoa? E que Ele, da sua parte, respondeu: Por acaso, desejei comer carne convosco nessa Páscoa?” (Epifânio, Heresias, 30.22)
Entretanto, também sabemos que os Ebionitas eram judeus zelosos com a prática da lei, como judeus que eram, ou se diziam. Por outro lado, mantinham o domingo como dia central da fé, como os cristãos primitivos também entendiam. O mesmo Eusébio reconhece isso: “Também observavam os sábado e outras disciplina dos judeus, exatamente como eles, mas por outro lado também celebravam o Dia do Senhor como nós, para comemorar a ressurreição” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. Livro 5, cap. 27).
O mais interessante sobre esse grupo é que eles clamavam para si mesmo o serem representantes da fé primitiva dos apóstolos originais de Cristo (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.153) e que como os primeiros seguidores de Cristo, ele trabalhavam para preservar não apenas a identidade e os costumes judaicos (EHRMAN, Bart, The Ortodox Corruption of the Scripitures. PP.51), mas a verdade que Cristo teria a defender, pois Ele veio para cumprir a lei e os profetas (Qual o texto autêntico do Evangelho de Mateus? – cf. Mt.5.17).
COMO ELES ENTENDIAM A SALVAÇÃO?
Em uma forma de cristianismo similar a dos judaizantes combatidos por Paulo em Gálatas, os ebionitas “pregavam que, para seguir Jesus, era necessário ser judeu” (EHRMAN, Bart, O que Jesus disse? O que Jesus não disse?. pp.166), até por que, para os ebionitas, o segredo de Cristo era para ele e para os seus, isto é, para os judeus. Isso significava que o homem deveria ser circuncidado, e que todos deveriam respeitar o Sabá a dieta de kosher (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.153). De alguma forma, apregoavam a salvação pela identificação prática dos princípios judaicos, ou seja, a salvação era conquistada pessoalmente pela obediência. Eusébio de Cesaréia defende exatamente isso: “Entre eles a observância da lei era totalmente necessário, como se não pudessem ser salvos só pela fé em Cristo” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. Livro 5, cap. 27).
Quando observamos a partir desse ponto de vista, precisamos nos perguntar qual a validade da morte de Cristo então? Para os ebionitas, a morte de Cristo era o cumprimento final de sua obra messiânica recebida da parte de Deus, mas ela era apenas relacionada ao cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Não há valor redentor, pois a verdadeira fé (segundo eles) era a identificação com a prática judaica.
Entretanto, eles não acreditavam que eram necessários os sacrifícios de animais, pois o sacrifício de Cristo teria sido perfeito nesse sentido. Epifânio, de quem herdamos grande parte do texto do Evangelho dos Ebionitas, cita uma frase supostamente dita por Cristo, não encontrada em nenhum dos evangelhos canônicos, no qual demonstra a necessidade de se encerrar os sacrifícios de animais: “Vim abolir os sacrifícios e se não deixardes de oferecer sacrifícios, não se afastará de vós a minha ira” (Heresias, 30, 16).
Dessa forma, podemos compreender que, no que se refere a salvação, não eram necessários os sacrifícios rituais do judaísmo exigidos pela Lei, pois o sacrifício de Cristo teria sido suficiente. Por outro lado, a salvação pessoal dependida da identificação com os costumes judaicos e da obediência da Lei, como exigidos pela Lei. Assim, a salvação é uma aquisição pessoal exemplificada por Cristo.
COMO ELES ENTENDIAM A CRISTO?
A essa pergunta Eusébio responde: “Eles o consideravam homem simples e comum, justificado apenas por seus progressos na virtude e seu nascimento de Maria por geração natural” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. Livro 5, cap. 27). Luis Berkhof, quando fala sobre os ebionitas diz que eles “o [Cristo] consideravam como simples homem, filho de José e Maria” (BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática, pp.281). Ou seja, ele era “um ser humano real, de carne e osso como todos nós, que nasceu como o filho mais velho da união sexual de seus pais” (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.154).
Muito embora fosse um homem como qualquer outro, ele teria sido “qualificado em seu batismo para ser o Messias, pela descida do Espírito Santo sobre ele” (BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática, pp.281). Esse é o aspecto central da doutrina ebionita: Cristo como adotado filho de Deus em seu batismo. Para que isso ficasse evidente, no evangelho que dispunham encontra-se o seguinte relato do batismo:
“Veio também Jesus e foi batizado por João. E quando saiu da água, abriram-se os céus e João viu o Espírito Santo, em forma de Pomba, baixar e penetrar nele. Veio uma voz do céu e disse: ‘Tu és o meu filho, o amado; em ti encontro minha alegria’. E de novo: ‘Eu hoje te gerei’. No mesmo instante uma grande luz iluminou o lugar. E como está escrito, João, ao ver Jesus, lhe pergunta: ‘Quem és tu?’ Ouviu-se de novo uma voz do céu que lhe disse: ‘Este é o meu filho, o amado; nele me regozijo” (Epifânio, Heresias, 30.13)
Nesse trecho temos clara evidência da doutrina ebionita: Jesus como adotado como Filho na ocasião do batismo. Alguns fatos interessante poderiam ser demonstrados:
(1) João viu o espírito penetrar em Jesus em forma de pomba. Talvez essa seja uma forma a aludir o que de fato as escrituras ensinam sobre o assunto, mas a descrição parece sugerir que o texto que dispunham era composto com os olhos em algum texto canônico;
(2) A repetição da identificação de Jesus como filho nesse texto, sugere que a preferência ebionita para a ocasião da adoção de Jesus como Filho de Deus é de fato o batismo;
(3) A expressão “Eu hoje te gerei” nesse contexto confirma as duas suposições anteriores: seja quem for o autor, ele tem em mãos mais de um evangelho canônico e defende o adocionismo exatamente nessa ocasião. A razão para se defender isso é que a expressão em referência é a leitura variante encontrada em Lucas 3.22, adotada a parir de Salmos.2.7, texto usado para a coroação de um Rei.
Os ebionitas não adotavam a noção da preexistência de Cristo, mas o consideravam como “o Messias judeu, enviado pelo Deus judeu para o povo judeu, em cumprimento das escrituras judaicas” (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.153). E como ser humano normal que era o que o distinguia de todas as outras pessoas “foi o fato de que ele guardou a Lei de Deus perfeitamente, e por isso foi o homem mais íntegro sobre a face da terra. Assim, Deus o escolheu para ser seu filho e confiou a ele uma missão especial: sacrificar-se pelo bem de outros. Jesus foi, então, para a cruz, não como punição pelos seus próprios pecados, mas pelos pecados do mundo, um sacrifício perfeito em cumprimento de todas as promessas de Deus para seu povo, os judeus, nas Escrituras Sagradas. Como sinal de aceitação do sacrifício de Jesus, Deus o ressuscitou dentre os mortos e o glorificou, elevando-o ao Paraíso” (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.154).
Sobre a origem de Jesus, Epifânio diz que eles o entendiam não como “gerado de Deus Pai, mas criado como um dos arcanjos, sendo, contudo, superior a eles. Declaram que ele tem domínio sobre os anjos e sobre tudo o que foi criado pelo Todo-Poderoso” (Heresias, 30.16).
Essa declaração de Epifânio nos auxilia a compreender que mesmo os ebionitas, como adocionistas, também tinha suas divergências, uma vez que não é possível que um homem comum também fosse criado como um arcanjo. De alguma forma, é bem provável que as heresias primitivas exercessem influência umas às outras. Assim, a noção mais ariana de Cristo também parece ter passado por algum grupo ebionita do período de Epifânio.
O QUE ELES CONSIDERAVAM ESCRITURA?
No período do surgimento do ebionismo não se tinham definido o Canon das escrituras e debates para a busca da validade de documentos cristãos estavam fluindo por todo o mundo antigo. Os ebionitas não eram exceção a esse fato: Eles também alegavam serem representantes da verdade, por que entendiam que as escrituras, como fonte para a verdade, de modo diferente da ortodoxia cristão nos primeiros séculos.
Como os ebionitas eram judeus ou judaizados, era óbvio que “consideravam a Bíblia hebraica (o Velho Testamento) como a Escritura por excelência” (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.155). É por isso que eram reconhecidos pela pregação da obediência irrestrita da Lei. Mas, além disso, para os ebionitas o VT era compreendido como a fonte correta para conhecer as intenções de Deus para seu povo.
Talvez, por essa razão, os ebionitas consideravam Paulo como um herege, um inimigo da fé. Ele representava um auto-proclamado apóstolo que teria vindo ao mundo para deturpar a fé, até por que, Paulo insistia que a circuncisão não era necessária para os cristãos. Ehrman, sobre a relação entre Paulo e os ebionitas, diz: “Na verdade, para eles Paulo estava errado não apenas com relação a alguns detalhes menores: ele era o arquiinimigo, o herege que desviou muitos ao insistir que uma pessoa pode ser correta com Deus em guardar a Leu e ao proibir a circuncisão, o ‘sinal do pacto’, para os seguidores” (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.155). Entretanto, Eusébio parece ter conhecimento mais abrangente desse assunto, pois segundo o seu relato sobre os ebionitas, todas as epístolas dos apóstolos deviam ser rejeitadas: “Esses, de fato, por um lado pensavam que todas as epístolas dos apóstolos deviam ser rejeitadas, chamando-os de apóstata da lei, mas por outro lado, usando apenas o evangelho segundo os Hebreus, consideravam os outros de pouco valor” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. Livro 5, cap. 27).
Sobre que parte do NT os ebionitas aceitavam há relativa divergência: Eusébio chama o documento aceito por eles de Evangelho segundo os Hebreus; Epifânio diz que eles o chamavam de Evangelho dos Ebionitas, dos Doze, ou Evangelho Hebraico, mas acredita que era uma versão do Evangelho de Mateus (Heresias, 30.3); o que se sabe com relativa certeza é que o documento utilizado pelos ebionitas não era o atualmente conhecido Evangelho dos Hebreus, embora tivesse semelhanças com ele. Seja qual for o documento, é bem provável que Epifânio esteja correto em sua defesa, uma vez que todos os evangelhos mencionados se parecem com alguma forma deturpada dos evangelhos canônicos. (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.156)
Para compreender esse dilema, recorremos às declarações de Epifânio sobre o texto ebionita, que segundo ele teria sido adquirido de um grupo de ebionitas. Sobre o documento, ele diz: “No evangelho usado pelos ebionitas, denominado ‘segundo Mateus’ – que, no entanto, não é íntegro e completo, mas adulterado e mutilado” (Heresias, 30.13).
No que se refere a mutilação, os ebionitas não possuíam os dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus. Epifânio diz que o evangelho deles tinha início com a história de João Batista. Ehrman entende que isso acontecia por que eles rejeitavam, tanto a preexistência como a idéia do nascimento virginal. (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.155). Entretanto, mesmo o início desse suposto evangelho tem suas divergências com os evangelhos canônicos: “Aconteceu que nos dias de Herodes, rei da Judéia, João começou a batizar com um batismo de penitência no rio Jordão. Dizia-se que ele era descendente do sacerdote Aarão e filho de Zacarias e de Isabel” (Heresias, 30, 13). A noção do tempo parece em conformidade com os evangelhos canônicos, contudo, é claramente um acréscimo interpretativo o tipo de batismo usado por João Batista e sua ascendência.
No que se refere à adulteração, já temos citado alguns exemplos: A questão de quem é o próximo, a alimentação de João Batista, a rejeição de Jesus em comer o cordeiro pascal e a cena do Batismo. Porém, para que fique evidente, gostaria de observar a cena do batismo novamente:
“Veio também Jesus e foi batizado por João. E quando saiu da água, abriram-se os céus e João viu o Espírito Santo, em forma de Pomba, baixar e penetrar nele. Veio uma voz do céu e disse: ‘Tu és o meu filho, o amado; em ti encontro minha alegria’. E de novo: ‘Eu hoje te gerei’. No mesmo instante uma grande luz iluminou o lugar. E como está escrito, João, ao ver Jesus, lhe pergunta: ‘Quem és tu?’ Ouviu-se de novo uma voz do céu que lhe disse: ‘Este é o meu filho, o amado; nele me regozijo” (Epifânio, Heresias, 30.13)
Os evangelho canônicos apresentam que a voz vinda do alto teria se pronunciado apenas uma única vez, mas, em cada um dos relatos essa voz teria dito algo diferente: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.17); “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Mc.1.11); “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc.3.22). Observe que em Mateus a voz fala com a multidão (Este é), enquanto os dois outros registros se dirigem ao Filho (Tu és). O que me deixa um pouco espantado é o fato de que a voz também tenha dito “Eu hoje te gerei”, leitura variante para o final do verso 22 de Lucas 3 (D, ita, (itb), itc, itd, itff2, itl, itr1, Diogeneto, Justino, (Clemente σύ ἀγαπητός), Methodius, Orígenes, Juvencus, (Ambrosiaster), Faustus-Milevis, Hilario, Constituição Apostólica, Tyconius, Mss LatinosAugustinho).
Ou seja, na tentativa de tentar compreender o que de fato a voz teria dito, o evangelho dos ebionitas teria inserido cada uma versões canônicas em um só relato. Como a tentativa de harmonizar os evangelhos é relativamente antiga (cf. Diassetaron), não é de se estranhar que algo desse tipo houvesse acontecido aqui. O que é surpreendente é que, quem quer que tenha sido o autor, teve acesso aos documentos canônicos e não apenas os rejeitou, mas os adaptou à suas convicções.
OS EBIONITAS ERAM UM GRUPO EXPRESSIVO?
No que se refere ao alcance da doutrina ebionita nos primeiros séculos não podemos afirmar com certeza sua expansão geográfica ou expressão ideológica. O fato de que autores Latinos e Gregos os terem confrontado sugere que não estavam limitados à região da Palestina. Já o fato de que não são pouco os pais da igreja (Inácio, Irineu, Eusébio, Tertuliano, Hipólito, Orígenes, Epifânio) que desprendem energia para confrontá-lo sugere que os ebionitas eram hereges que mereciam confrontação. Entretanto, como a quantidade de informação nos pais da igreja é bem pequena, sugere que eles era um grupo ideológico de pouca expressão. Já, a não sobrevivência de nenhum dos seus documentos sugere que o ebionismo foi uma deturpação do cristianismo que não sobreviveu ao tempo (muito embora exista um ebionismo moderno sobrevivente – sobre esse falaremos mais em um outro artigo).
Ou seja, o ebionimo, ainda que pudesse ser encontrado em outras regiões e ter sido acessível a judaizados que liam grego, não representa um grande grupo do cristianismo primitivo. Ao que as evidências indicam, é bem provável que fossem pequenos grupos espalhados em algumas regiões do mundo e ainda assim, um grupo de pouca expressão.
[1] Passo a apresentar os ebionitas como “cristãos” entre aspas por razões óbvias: ainda que se considerem como tal, ou que alguns dos comentaristas citados nesse texto os considere como tal, não os entendo como cristãos.
07.17.09
Xiitismo Textual
O título desse artigo é um trocadilho com o termo Criticismo Textual. A razão pela qual eu faço esse trocadilho é que fiquei impressionado com a o modo como alguns cristãos tratam as escrituras. São tão fundamentalistas em postura com sua fé, que a defendem de modo xiita. Quando uso a expressão xiita tenho em mente a percepção popular sobre o xiita: Alguém agressivo e irracional, que está disposto a explodir outras pessoas para defender sua fé.
Essa é a postura encontrada em alguns dos defensores do Texto Recebido: Com esses, não há diálogo, apenas ataques irracionais. Para que isso fique evidente, procure na internet sobre a versão Almeida Revista e Corrigida, e você mesmo poderá ver como eles defendem as escrituras.
Como exemplo disso, gostaria de deixar algumas frases desses defensores:
- “O texto grego usado no Novo Testamento da NVI é uma mistura estranha de 2 manuscritos provenientes de Alexandria, Egito. Note que essa cidade, que era o berço do Gnosticismo, foi o local das mais perversas heresias da igreja cristã, sendo de lá os hereges Orígenes e Árius. Os manuscritos usados para compor esse texto grego são parte de uma pequena minoria, compondo menos de 1 por cento dos manuscritos gregos existentes” – Expondo os erros da Sociedade Bíblica Internacional.
- “As Sociedades Bíblicas Unidas são uma espécie de “associação” que em 1948 entraram no Brasil e fundaram a Sociedade Bíblica do Brasil. Essa organização ecumênica, entretanto, reúne o que há de pior em termos teológicos e ortodoxos. São eles os produtores das águas poluídas que muitos crentes estão a beber hoje!” – Dream Team.
- “Quem são os pais das versões bíblicas modernas? Esses dois homens mencionados no artigo abaixo, são os verdadeiros mentores intelectuais das seguintes Bíblias vendidas aos milhões nos dias atuais (ARA, BLH, NTLH, NVI). Seria possível que estejam todas essas Bíblias corrompidas? Prossiga e veja por si próprio quem as produziu ou se existe um grande Plano Satânico para produzir a Bíblia da nova era aceita por todas as denominações religiosas” – Expondo os erros da Dupla Dinâmica.
- “A Bíblia Almeida Revista e Corrigida (ARC) na grafia simplificada, é 99% bem traduzida do Textus Receptus, porém possui alguma mistura de ingredientes do Texto Crítico (O FERMENTO DOS FARISEUS MODERNOS), que infelizmente a contamina em passagens muito importantes tornando-a desqualificada e não confiável. Isso certamente afeta DOUTRINA, por isso não deve ser recomendada. A única Bíblia pura para os crentes de língua portuguesa é a ACF – Almeida Corrigida e Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil” – Por que há diferença entre a ARC e ACF?
Aos olhos e conceitos desses autores, não existe senão um texto sagrado: O TEXTO RECEBIDO – tudo o que for diferente desse texto deverá ser desconsiderado. O que se descobriu após o texto recebido não tem valor e deve ser descartado.
Esse tipo de xiitismo textual somado ao apego ao velho e ao descrédito do moderno, tem produzido um tipo de cristianismo cegado pelas convicções. Um exemplo disso é o famoso texto Expondo os Erros do Professor Carlos Osvaldo, onde o professor é chacoteado como se fosse algum herege deturpador da fé. Em conversa particular com o mesmo, ouvi: “Não é possível conversar com eles. Nós temos mais coisas em comum do que eles pensam, mas não é possível conversar com eles”. Conhecendo algumas de suas convicções, posso confirmar sua declaração.
Pensando nisso, gostaria de fazer levantar algumas conceituações sobre o texto de Jo.1.18 e refletir sobre o artigo Quem está mentindo em Jo.1.18?.
1. Compreendendo o Dilema
Para os defensores do Texto Recebido (TR) o que está em jogo é sua compreensão da verdade, pois eles sabem que não é possível que todas as leituras variantes em um texto não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Por isso, a pergunta que fazem é: Quem está mentindo?
Vou reforçar o que disse acima: o que está em jogo é a compreensão da verdade e não a verdade em si. O que quero dizer com isso é que, para eles o TR é a verdade. Considerando isso, já sabemos quem está mentindo na opinião deles: as demais variantes são falsas e corrompidas.
Entretanto, considere por um momento o contrário: Se o Texto Recebido está incorreto nessa leitura a verdade (nesse caso) acompanharia o difamado Texto Crítico (TC). Na verdade, os defensores do TR não estão buscando a verdade, mas a confirmação de sua própria crença.
Vamos avaliar o que vem junto com a defesa irrestrita do TR: Se o TR é a verdade absoluta de Deus temos que admitir que nele não há erro algum. Em outras palavras, todos os outros manuscritos disponíveis estão cheios de erros e corrupções humanas. Com isso, estamos falando de mais de 300.000 leituras variantes equivocadas, enquanto o TR manteve-se 100% fiel. Ou seja, o TR é tão infalível quanto os autógrafos (fato que não se pode comprovar, pois não temos os autógrafos). Não é à toa que o autor do artigo o chama de Supremo Livro, observe:
“Alguns irresponsáveis defensores das perversões modernas da Bíblia (como a corrupta NVI, Atualizada, Bíblia na Linguagem de Hoje, Nova Tradução na Linguagem de Hoje e outra obras diabólicas do mesmo tipo) insistindo na sua tola, insana e perdida batalha contra o Supremo Livro, não desistem de suas declarações ridículas para tentar justificar sua teimosia fanática, mesmo que para isso seus argumentos sejam um sinal de nada mais do que seus fanatismos religiosos contra as Palavras Preservadas por Deus”
Na verdade, não há nada de herético em pensar assim, é apenas uma clara desconsideração com o que se tem descoberto sobre a tradição manuscrita do Novo Testamento. Do ponto de vista deles, isso é defesa da fé genuína. Entretanto, se Deus está trazendo à tona novas evidências de como sua Palavra foi de fato escrita, não poderemos ao menos considerar essa possibilidade?
Outro fator que normalmente se exclui desse diálogo é que todas as antigas versões do Novo Testamento tem leituras divergentes entre si: mesmo as antigas itálicas (mais usadas no período medieval) tem suas discordâncias entre si. O mesmo acontece com as versões copta e síria. Por que razão o mesmo não aconteceria com os manuscritos gregos? De fato, aconteceu o mesmo e não é a toa que temos tantas leituras divergentes.
Então, por que razão eles alegam que o TR é a reprodução exata dos autógrafos? Honestamente, ainda não entendo a razão pelo qual eles fazem isso. Até poderia arriscar dizer que assim o fazem, pois tem menos trabalho, ou por que o trabalho já está pronto e não preciso pensar a respeito, mas não acho que seja essa a razão.
O que é certo é que em diferentes localidades e em diferentes épocas, os cristãos se ocuparam em transcrever as sagradas letras para manter o texto disponível para próximas gerações. E com tantas pessoas transcrevendo durante muito tempo um texto, não era de se estranhar que algumas leituras variantes viessem a existir. Isso não significa necessariamente em heresias, muito embora em alguns lugares isso possa ter acontecido. Significa apenas que era inevitável que as variantes viessem a existir com o método de transmissão do texto antes da imprensa.
Como não podemos saber como eram os autógrafos, temos diante de nós uma tarefa muito nobre: Exercer a Crítica Textual para compreender o que Deus quis comunicar a nós. Essa tarefa, longe de ser uma tarefa para liberais, é um dever para cristãos verdadeiros que tem apreço pelas Escrituras e que acreditam em sua Inspiração verbal e plenária; longe de ser uma tarefa enfadonha, é ao contrário um tarefa digna de valor espiritual.
Esse é o trabalho que vamos desempenhar nesse artigo com relação a Jo.1.18. Em todo nosso processo desse ponto em diante seguirá o texto “Quem está mentindo em Jo.1.18?”. Sugiro que você o tenha aberto em outra janela para percebemos como funciona a mente que defende de modo cego o TR.
2. Evidência dos Manuscritos
Para iniciar nossa interação com a interpretação das evidências disponíveis, gostaria de citar nosso artigo primeiro:
“Dos cerca de 5.300 (cinco mil e trezentos) manuscritos Gregos apenas os listados a seguir trazem a corrupção “Deus Unigênito”: P66, P75, Aleph*, Aleph-1, Vaticanus, C*, and L. Inacreditável! Apenas um total de 7 (sete), de um universo de 5.300, trazem essa estranha leitura. Isso é 0.1% da evidência. Que manobra mirabolante é essa, que joga fora 99.9% da evidência para justificar essa corrupção do “Deus Unigênito”?”
Vamos observar cautelosamente as afirmações encontradas nessa frase:
- A leitura variante “Deus Unigênito” é chamada de corrupção, antes de qualquer verificação de sua autenticidade. A razão para tanto já foi demonstrada: O que não é TR é corrupção.
- O autor lista sete manuscritos gregos que atestam a leitura variante “Deus Unigênito”. Uma vez que estamos falando em fatos, é necessário que se diga que dos listados, faltou ser mencionado o minúsculo 33 que também traz essa leitura. Entretanto, além dos manuscritos gregos temos outras fontes que atestam essa leitura:
- As versões georginas, sírias e a versão copta boaírica.
- Os pais da Igreja Irineu, Clemente, Orígenes, Basílio, Eusébio, Cirilo, Didimus, Heracleto, Ptolomeu, Epfânio, Theodotus, além do Diassetaron, a Constituição Apostólica.
- O autor demonstra que numericamente as evidências favoráveis à leitura variante atestam menos de 0,1%. É válido lembrar que ainda com todas as informações citadas acima esse número não seria diferente, e não podemos descartar esse dado. A questão é a validade desse número, mas em breve voltaremos a falar sobre isso.
- O autor se pergunta: “Que manobra é essa?”. De fato, imagino que o autor realmente se pergunta por que não sabe como processar essa informação. É bom ser dito que, para os xiitas textuais, que são aqueles fundamentalistas desnecessários, não são favoráveis à maioria e se posicionam biblicamente. Mas, em questões de crítica parecem ter-se convencido muito facilmente.
De todas as declarações feitas, a mais importante é essa: Que manobra é essa? Eu imagino que à essa altura você também esteja se perguntando a mesma coisa. Espero poder trazer luz à essa questão abaixo.
É importante que se diga que não são apenas duas as variantes para esse texto, mas cinco:
- monogenes théos: lit. Deus Unigênito
- ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
- ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
- monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
- ho monogenes: lit. o Unigênito
É claramente observado que as duas primeiras podem ser agrupadas como se apontassem para a mesma leitura, uma vez que apenas o artigo é acrescido à segunda. A quarta leitura é obviamente uma junção das primeiras leituras. É interessante que tal leitura só tenha sido encontrada em duas versões: copta saídica (III/IV) e a itálica (q) (VI/VII). Essa leitura também é encontrada uma vez (de três) em Irineu e outra vez em Ambrósio (de onze). O fato de que essa leitura traz as duas variantes principais em uma mesmo leitura nos faz pensar que alguém, tentando harmonizar diferentes manuscritos, acresceu uma das duas palavras (uiós, theós) ao que texto que dispunha. Isso certamente evidencia que tal leitura não pode ser a original. O mesmo pode ser dito da quinta leitura. O uso absoluto de monogenes não é incomum em João, alias, no verso 14 João já o teria utilizado. Entretanto, apenas uns pouquíssimos manuscritos da vulgata trazem essa leitura, e poucos pais latinos. Tendo dito isso, entendemos por que a questão volta-se apenas às três primeiras leituras.
Tendo considerado isso, vamos cautelosamente avançar. O próximo passo é identificar algumas características dos manuscritos que temos disponíveis. O que normalmente se faz é verificar a data da leitura.
No que se refere à data, a leitura “Deus Unigênito” pode-se dizer com certeza que é atestada desde o fim do segundo século. O fato de P66 e P75 atestarem essa leitura já seria suficiente para supor que tal leitura pudesse ser inclusive anterior a essa data. Entretanto, a leitura “Filho Unigênito” é apenas atestada em manuscritos posteriores ao quinto século[1]. Das muitas evidências que atestam essa leitura, a grande maioria está entre o VI e X século. Ou seja, existe a possibilidade de que essa versão seja historicamente posterior a outra.
Essa conclusão só não pode ser levada à cabo pelo fato de que Tertuliano já havia citado a leitura “Filho Unigênito” antes de 220. Considerando esse quesito, é importante lembrar que Clemente (215), Herácleto e Ptolomeu também citam “Deus Unigênito” no segundo século. Assim, podemos dizer que, diante das evidências que temos, no que se refere à data, a leitura “Deus unigênito” é favorecida em sua antiguidade. O próximo passo seria avaliar a qualidade das variantes.
Essa questão é bem difícil de ser avaliada, pois o conceito de melhor e pior é sempre bem diferente de pessoa pra pessoa. Entretanto, vamos considerar alguns pontos simples: A leitura “Filho Unigênito” não tem suporte de nenhum papiro e os unciais que atestam essa leitura são em geral posteriores ao V século. O mais antigo representante é o Alexandrinus, um problema para aqueles que não gostam da influência Alexandrina no texto do NT. Entretanto é válido dizer que essa leitura acompanha a grande maioria das evidências que dispomos.
A leitura “Deus Unigênito” é atestada por dois papiros e cinco unciais: Sinaítico, Vaticanos, L, C e 33. O grande problema dessas evidências é que elas são todas Alexandrinas. Normalmente, os defensores do TR são opostos aos manuscritos e leituras alexandrinas. Por isso, nesse caso, eles não aceitariam nenhum desses testemunhos como válidos. Contudo, isso não é necessariamente verdade.
Apesar do repúdio que alguns defensores do TR tem pelo Códice Sinaítico e o Vaticano, gostaria de demonstrar algumas razões pelas quais eles deveria representar algum valor. Com isso espero que o leitor me entenda: Há grande valor em ambos os códices, mas isso não os faz regula da crítica textual.
O Códice Sinaítico, além de ser um dos mais antigos testemunhos da tradição manuscrita do NT, é o único códice que o contém completamente. Ele também tem grande parte da Septuaginta (LXX), incluindo alguns dos livros apócrifos, como: 2 Esdras, Tobias, Judite, 1 e 4 Macabeus, Sabedoria, Siraque, Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. O fato de ser completo e antigo deveria ter algum valor para o crítico textual. É bem verdade que tal manuscrito tem suas alterações, e é provável que tenha passado por três revisores e corretores, o que faz desse testemunho um motivo de cautela, não rejeição.
Já o Códice Vaticano é mais antigo que o Sinaítico e sua qualidade tem sido atestada desde sua descoberta. Esse códice contém quase todo no NT, à exceção de 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemon e Apocalipse. Interessantemente, esses livros faltantes foram substituídos por outro manuscrito cursivo normalmente datado do XV século. Quanto fala-se sobre a origem desse texto, os defensores do TR já ficam abrasados, pois seu nome sugere sua origem. E isso é em parte verdade, pois esse documento consta em uma lista antiga (1475 e 1481) da biblioteca do Vaticano fundada em 1448. Mas, isso não necessariamente implica que tal documento tenha sido produzido lá, inclusive TC Skeat chegou a sugerir que, pela data, esse códice seria um dos 50 exemplares que Constantino teria solicitado que Eusébio produzisse. Muito embora, pouco apoio exista para essa possibilidade, o que configura tal texto como Alexandrino é sua similaridade com as versões coptas.
Outro passo para compreender a validade das leituras variantes é reconhecer a distribuição geográfica de cada leitura. Isso nos auxilia a perceber como tal leitura era vista no mundo antigo. Sobre isso, a conclusão é simples: A leitura “Filho Unigênito” é largamente mais atestada nas diferentes regiões do mundo do que a outra leitura. Devido à grande quantidade de manuscritos com essa leitura não era de se esperar algo diferente.
Assim, podemos traçar a seguinte conclusão para essa análise: Enquanto a data favorece ambas as leituras, a qualidade da primeira leitura (theós) parece mais apurada enquanto a distribuição geográfica parece favorecer a segunda (uiós). Assim, do ponto de vista da análise da evidência externa tendo a crer que, tal análise não pode ser definitiva para aceitação de uma leitura e rejeição de outra.
Eu sei que essa conclusão não é unânime entre críticos, entretanto, é exatamente essa a sensação que tenho ao analisar as evidências disponíveis. Para os que estão preocupados apenas com a quantidade, a decisão está tomada. Entretanto, se quisermos compreender a situação deveríamos continuar com a análise interna das variantes. Esse processo será realizado em breve. Por ora, vamos prestar à atenção a uma afirmação ainda não comentada do nosso polêmico autor:
“Ah… vamos pedir uma “ajudinha” de duas pessoas que odiavam a Bíblia King James e que também eram espíritas, descrentes, heréticos, comunistas, idólatras, universalistas, Romanistas, sacerdotalistas, racistas e evolutionistas: Westcott and Hort”
Um dos comuns ataques ao texto crítico tem sido em função dos eruditos por traz da produção desse material. Nesse caso, o autor resolveu atacar a moral dos mesmos, fato que já explorado ao máximo no artigo Vasos de Desonra. A tentativa aqui é desmerecer o conhecimento técnico por enegrecer o caráter dos autores. Ainda que concorde com algumas das classificações da dupla, não posso assumir que eram incompetentes tecnicamente, até por que, o material produzido por ambos é de alta qualidade. Além de trabalharem com a edição crítica do NT, ambos escreveram comentários críticos e teológicos ao NT. A grande questão não é a opinião que tem sobre determinado assunto, mas onde essas opiniões os forçaram a alterar as escrituras. Diante de tantas acusações, não vemos nem se quer uma que tenha significativa diferença no texto do NT. Por isso perguntamos: Onde WH alteraram o texto para aprovar a doutrina espírita? Ou o comunismo? Ou a idolatria? Ou o Universalismo? Ou o Catolicismo? Ou o Racismo? Ou a Evolução?
Na verdade, os defensores do TR não podem atribuir nenhuma alteração em um dilema textual que tenha sido motivada por qualquer um desses defeitos de WH. Aliás, se lido com atenção, o artigo Vasos de Desonra demonstra claramente que o autor confunde as opiniões dos autores e suas interpretações com capacidade crítica que eles tinham. Desacreditar um trabalho por atacar a moral, não é apenas um golpe baixo, é uma forma desonesta crítica malfadada.
3. Evidência Histórica
Para iniciarmos essa seção, vamos a mais uma citação:
“Esses manuscritos vieram da cidade de Alexandria, Egito, o berço dos heréticos Gnósticos. Quem eram eles? Eles eram “eruditos” (podemos confiar neles?) que estavam contaminados com as muitas heresias dessa cidade pagã. Alexandria, Egito, era uma das muitas cidades nomeadas em homenagem a Alexandre, O grande, no quarto século AC. Ela era pesadamente influenciada pelo pensamento Grego e como conseqüência, as falsas filosofias de Platão eram altamente estimadas. O Cristianismo chegou em Alexandria logo no primeiro século e cedo já foi sendo corrompido pelos heréticos Gnósticos, que queriam acomodar a Bíblia com essa pecaminosa filosofia Grega. A heresia de negar a divindade de Cristo propagada por Arius (256 – 336 AD) foi de lá. Orígenes (185-254 AD), o mais famoso herético do terceiro século era de lá. Essas pessoas falsificavam as Escrituras e corrompiam algumas cópias. Você confiaria num manuscrito copiado nesse lugar nessa época e por essa gente?”
Em uma citação tão marcada pelo repúdio, é possível imaginar que o autor tem os que pensam diferente dele como inimigos da fé. Uma das afirmações que esse autor faz é que Alexandria é o berço dos heréticos gnósticos. Essa é uma informação é apresentada de modo preconceituoso. O leitor que não tem outra informação irá pensar que o gnosticimos era restrito à essa região, mas isso não é verdade. O NT está repleto de referências anti-gnósticas e nenhuma das cartas neotestamentárias teriam sido enviadas à região. Até Paulo quando escreve a Timóteo o adverte a não se envolver com debates sem sentido (1Tm.1.4) que provavelmente são influenciados por pensamentos gnósticos. Nessa ocasião, Timóteo está em Éfeso, bem longe do norte do Egito. O apóstolo João também escreve com advertências ao gnosticismo, seja em seu evangelho ou sua grande carta, e embora esse material tenha chegado à região do norte do Egito, não havia sido escrito para aquela região.
É verdade que o gnosticismo tem forte influência Alexandrina, mas será que isso faz com que todos os moradores dessa cidade gnósticos, ou tendenciosos ao gnosticismo? Essa é uma afirmação que sofre da comprovação da amostragem. Em outras palavras, é como se dissesse: As universidades são laicas e tendenciosas ao ateísmo, e por isso toda produção religiosa de alguém de dentro da universidade é marcada pelo ateísmo, pois na universidade são todos ateus. Isso é a construção de uma mentira a partir de algumas informações verdadeiras. É verdade que as universidades são laicas e tendenciosas ao ateísmo, mas isso não significa que cristãos genuínos pudessem estar na universidade e produzir materiais genuinamente cristãos de qualidade e com isso demonstrariam que não são ateus.
Acusar Alexandria de berço do gnosticimo como evidência de que um cristão genuíno não pudesse estar naquela cidade é o mesmo que dizer que não existem cristãos verdadeiros e comprometidos com as escrituras na cidade de Aparecida do Norte, pois lá existe o maior templo de idolatria do país. Isso é irracional.
Tendo dito isso, vamos considerar outra acusação: “O Cristianismo chegou em Alexandria logo no primeiro século e cedo já foi sendo corrompido pelos heréticos Gnósticos, que queriam acomodar a Bíblia com essa pecaminosa filosofia Grega”. Se chegou cedo, não sei; se foi logo corrompida, também não sei, mas sei que essa iniciativa de aproximar as escrituras da filosofia grega realmente aconteceu. Orígenes nos deixa claras evidências desse fato. Mas, aqui cabe mais uma pergunta: Até que se prove que tal pensamento chegou ao Sinaítico e Vaticanos, essa é uma informação sem valor algum. Mais uma vez o autor quer desacreditar o valor histórico da tradição manuscrita alexandrina por atacar o contexto intelectual da cidade.
Agora vamos acrescer à esse debate algumas informações textuais. Até aqui se disse que os gnósticos teriam influenciado o processo de cópia das escrituras em Alexandria, e com um pouco de informação sabemos que a leitura “Deus Unigênito” era usada por eles (Valentinianos e Ário). Mas, é importante lembrar que Vitorino e Serapião, que atestam influência gnóstica e heréticas eram defensores da leitura “Filho Unigênito”. Isso nos faz pensar que o problema aqui não é como o gnosticismo alterou o texto, mas de como os gnósticos, ou pessoas influenciadas pela mentalidade gnóstica, teriam compreendido o texto das escrituras. A questão, nesse verso, não é sobre a transmissão do texto, mas da interpretação do texto: Não é uma questão de CRÍTICA TEXTUAL, mas de HERMENEUTICA.
Mas, há ainda outras pérolas nesse texto, veja:
“Os “antigos unciais” (palavras Gregas em caixa alta) e os papiros corruptos (P66, P75) referidos no item 1 acima, eram um mero produto desses heréticos. Eles são imprestáveis! Os “eruditos” modernos apenas “se esquecem” de nos dizer que o Textus Receptus estava também em circulação (é óbvio, pois eram cópias exatas dos originais) quando os corrompidos “velhos manuscritos” foram produzidos”
Se os antigos unciais são produtos desses hereges, e com isso ele faz referência a Ário, temos um problema cronológico, pois ele é posterior aos códices Sinaíticos e Vaticanos. Se esses heréticos inclui Orígenes, esse autor sobre de um problema geográfico, pois uma boa parte da vida de Orígenes foi em Cesaréia. Mas, se a expressão “desses hereges” fala sobre as pessoas que viviam em Alexandria, vemos a recorrência de um problema marcante nesse autor: a generalização.
Muito embora entraremos no campo da teologia por um momento, é necessário demonstrar que o autor está equivocado em uma de suas conclusões:
“Por não crerem na pre-existência do Filho, eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)”
Com as convicções gnósticas apresentadas nesse texto, não me ocuparei. Gostaria apenas de demonstrar como o autor em sua cega defesa do TR não foi capaz de executar uma simples leitura na leitura variante que acusa de heresia. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.
Se eu fosse um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras (se é que existiu um de fato) e quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbo nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Será que essa acusação passa perto da verdade?
Se eu fosse um gnóstico escriba e quisesse negar a encarnação do Verbo, eu teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Será que essa acusação, nesse verso é realmente válida?
Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Vamos apenas ler o texto com a variante: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). Será que esse essa leitura realmente desacredita a divindade de Cristo? A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Com isso me pergunto se o autor chegou a ler essa variante.
Diante dessas considerações passo a acreditar que o (cego) zelo desse autor o fez temporariamente analfabeto.
4. Evidências Internas
O autor passa agora a demonstra sua concepção de evidências internas. Vamos observá-las uma a uma:
1. “O apóstolo João, quem escreveu seu evangelho, bem como quatro outros livros (1 João, 2 João, 3 João e Apocalipse) jamais usou a expressão “Deus unigênito”, mas apenas “Filho unigênito” (Jo. 3:16, 3:18; 1Jo. 4:9)”
Aqui nós temos uma descrição interessante, pois se desconsiderada a leitura variante de Jo.1.18, é verdade que João jamais a teria usado a expressão “Deus Unigênito”. Mas, isso nos levanta uma questão interessante: Sabendo disso, não seria exatamente essa a razão pela qual alguém teria se interessado por alterar um manuscrito com Theós para Uiós para acomodar o texto ao autor? Uma das convicções que as evidencias textuais tem nos dado é que os escribas eram mais eram mais tendenciosos a facilitar uma leitura que dificultá-la. Se isso é verdade, não seria possível que nesse caso alguém tenha feito exatamente isso?
Outro detalhe é que o argumento de que João jamais teria usado a expressão em outros lugares não é evidência que testemunha de que ele nunca o faria. Isso é interpretação de um silencio obscuro.
Por outro lado, se João tivesse escrito “Deus Unigênito” nesse verso, que problema teológico se encontraria aqui? Tenho a impressão que nenhum.
2. “Algumas pessoas nem ao menos prestam a atenção ao versículo propriamente dito! A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação. Apenas esta evidência seria suficiente para encerrar o assunto! O relacionamento Pai-Filho é mostrado no verso e ponto final”
Essa afirmação é interessante e não discordo dela, apenas acredito que o Cristo como Deus que é, também está no seio do Pai, e portanto, nenhuma heresia é referida nesse texto.
Sobre o fato de que isso é evidência suficiente para encerrar o assunto, o autor está supervalorizando sua opinião em detrimento de outras possibilidades. Erro que parece repetir nesse pequeno texto.
3. Apenas 4 versos antes, João já tinha explicado que Jesus foi gerado do Pai (1:14)
Essa afirmação é provavelmente proveniente da conceituação errônea que o autor tem da palavra Unigênito. Como é comum, os cristãos confundem o conceito de monogenes (a palavra grega comumente traduzida por unigênito), com a do termo que a traduz. Unigênito significa único gerado, mas monogenes não necessariamente. Veja como o autor de Hebreus usa o termo: “Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado, sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” (Hb.11.17). É interessante que Isaque não era o único Filho Gerado de Abraão, mas aquele que era amado de modo especial, como a LXX apresenta em Gênesis: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas [agapetós], e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (Gn.22.2; cf. v.12 e 16).
A tradução de monogenes como unigênito surgiu quando Jerônimo, durante a produção da Vulgata Latina, substituiu os termos “unicius” da Antiga Latina para “unigenitus” no Evangelho de João. Sua intenção era combater os ensinos de Ário. Hoje, a tradição cristã adotou unigênito como a tradução comum do termo grego monogenes, e isso passou a dificultar a compreensão do texto. Entretanto, a Antiga Latina, bem como outras versões antigas já traziam o conceito mais próximo da palavra grega monogenes. Unicius significa exatamente único em tipo, classe, amado de modo especial. Considerando isso o texto ficaria assim: “Ninguém jamais viu a Deus, o Deus único [em sua classe e amado de modo especial] que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Se lido assim, acho que a acusação de que esse texto desacredita a divindade de Cristo cai por terra.
4. O escritor de Hebreus (fortíssimas e irrefutáveis evidências para o apóstolo Paulo) usou a palavra unigênito apenas 3 vezes (Heb. 1:5; 5:5 11:7). As primeiras duas referem-se claramente a o Filho. A terceira, refere-se a Isaque o qual também é um filho!
Nesse pequeno parágrafo, quase todas as evidências estão equivocadas:
- Em primeiro lugar, Hebreus usa apenas uma vez o termo monogenes (unigênito) e a ARC usa apenas uma vez o termo unigênito.
- Em Hb.1.5 e 5.5 temos uma citação de Sl.2.7 e o termo usado é “gerar” do verbo grego “gennao”. Essa é mais uma evidência de que o autor confunde o conceito de monogenes, uma vez que entende que monogenes é formado da junção de monos com gennao. Mas, se esse fosse o caso, o termo deveria ter sido escrito monogennes com o acréscimo de um um “n”, o que não acontece.
- Em Hb.11.7 nada se fala de Isaque, mas em Hb.11.17, tanto o termo grego monogenes como o termo em português são usados.
Em outras palavras, esse parágrafo não auxilia em nada o autor.
As duas outras argumentações do autor devem ser descartadas, pois são repetições conceituais da primeira. Ou seja, no que se refere a análise de evidências, à exceção do primeiro ponto, o autor não conseguiu defender sua tese.
5. Evidências Teológicas
Muito embora as acusações desse parágrafo já tenham sido tratadas, vamos ao menos lê-la:
“A expressão “unigênito” (monogenes) quando aplicada a Jesus Cristo, se refere a Sua encarnação! O ensino Bíblico é um só: O Filho é o “unigênito”. Veja em 1Jo. 5:1 como a expressão “é nascido de Deus”, referindo-se a crentes está ligada com a expressão “o que dele é nascido”! O Filho foi gerado. Esse é o tema unificado sobre esse assunto. Esse precioso verso o qual fala da encarnação, está ligado com o relacionamento Pai-Filho “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo. 1:14). Deus não foi gerado, o Filho é quem foi gerado. Sim, Jesus Cristo é Deus (Jo. 1:1; 1Tm 3:16), mas remover o Filho de Jo. 1:18 é errado teologicamente e não há qualquer suporte Bíblico. Se alguém nega que o Filho foi gerado, removendo-o do verso 18, estaria enfraquecendo a doutrina da divindade de Cristo: É exatamente isso que os Gnósticos queriam, redefinindo “theos” (Deus) como “um deus” ( deuses intermediários)”
Tenho por certo que o autor realmente não compreende como o termo gr. monogenes é utilizado. Vamos olhar os textos em que ele ocorre:
- “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1.14 – além da encarnação do Verbo, a ênfase do uso de monogenes repousa no fato de que Cristo é o Único, Especial que pertence a Deus, e que como Ele, é cheio de graça, verdade.
- “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16 – o foco está na doação do Filho Amado de modo Especial e na Salvação)
- “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18 – o foco está sobre a Salvação e Condenação. O conteúdo da fé também é apresentado: Jesus Cristo, o Filho Amado de modo Especial)
- “Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1Jo.4.9 – o foco está na ação salvadora de Deus em enviar seu filho ao Mundo. A encarnação está presente, mas é sobre o preço da salvação que João fala aqui: a minha salvação custou a vida do Filho mais Amado de Deus.
O termo na literatura joanina pode ter três conotações interessantes:
1. Monogenes auxilia a compreensão da grandiosidade do amor de Deus:
O primeiro ponto a ser percebido é que o termo “monogenes” como sinônimo de “agapetós” pode ser compreendido como a expressão do amor de Deus quando observado dentro do escopo soteriológico de João. Observe o que diz 1Jo.4.9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele“. O envio de Deus de seu Filho que é “monogenes” ao mundo é manifestação do amor de Deus. Ou seja, esse Filho que é de modo especial amado, que é único em sua classe, que é Filho como ninguém mais é habilitado a ser, que tem relacionamento especial com Deus Pai, é ofertado como pagamento propiciatório para o mundo. Da mesma forma que Abraão oferece seu único filho (amado de modo especial) Cristo é ofertado. Esse Filho (huiós) é agora o modelo de vida para todos os filhos (tékna) de Deus recebidos adotados pela fé no sacrifício vicário de Cristo. Deve ser por isso que Lutero chega a dizer: “Deus tem muitos filhos, mas apenas um ‘monogenes’, por meio de quem são feitas todas as coisas e todos os outros filhos[2]“. O Filho unigênito é a maior prova do amor de Deus, e o termo “monogenes” o ressalta de modo especial, como fica evidente nesse verso: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Esse é o único verso em toda literatura joanina que apresenta objetivamente, com termos declarados, que Deus amou ao mundo. Vemos afirmações nas escrituras sobre o amor de Deus ao mundo, mas esse é a única vez que encontramos o verbo amar ligado ao substantivo mundo. O elo nessa ligação é certamente o Filho Único, amado de modo especial. F.F. Bruce fala sobre esse verso: “O amor de Deus não tem limites; ele engloba toda a humanidade. Nenhum sacrifício foi grande demais para trazer sua intensidade sem medidas a homens e a mulheres: o melhor que Deus tinha para dar, ele deu – seu único Filho, tão amado[3]” A compreensão da pessoa de Cristo, qualificada nesse verso como “monogenes”, nos habilita a entender a grandiosidade do amor de Deus em sua disposição de ofertar seu Filho Amado de modo especial. É por essa razão que fica evidente que o termo “monogenes” nos auxilia a compreender a grandiosidade do amor de Deus em João.
2. Monogenes expressa parte do carater soteriológico de Cristo:
Monogenes como caracterização de Cristo é visto em João de modo claramente soteriológico: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Nesse texto fica evidente a conexão entre “pistis” (fé) e a “zoen aionion” (vida eterna) como antítese de “apóllumi” (perecer). Pouco a frente na literatura joanina lemos: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). Mais uma vez o termo aparece em um contexto de definições soteriológicas para João, e estabelece-se outro termo importante no contexto da fé salvífica, pois quem cre não é “krino” (julgado), outro termo bem soteriológico em João. Ou seja, alvo da fé salvífica deve ser centrada no Filho que é “monogenes”. Deve, portanto, existir uma singularidade especial nesse Filho por sua Obra e caracterização. Como já foi mencionado por Marshall, que Jesus é o “único Revelador e Salvador“. Ou seja, no que se refere a Soteriologia joanina, o termo monogenes enfatiza a singularidade de Cristo, talvez da mesma forma que Paulo o faz em 1Tm.2.5
3. Monogenes expressa a divindade de Cristo:
Aqui talvez esteja o ponto mais interessante do uso de “monogenes” em João. Dois textos poderiam ser utilizados como paralelo para essa informação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14) e “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo.1.18). Rudolf Bultmann diz o seguinte sobre o primeiro verso: “O monogenes absoluto de Jo.1.14 deve provir da mitologia gnóstica[4]“. É provável que essa opinião aconteça pois Bultmann não vê o uso do termo de modo absoluto em nenhum outro lugar na literatura religiosa judaica ou cristã. Entretanto, esse uso absoluto faz uma referência interessante se considerar como a influência de João na compreensão de Cristo, e não na influência gnóstica na visão de João, pois, embora único uso pareça bem respaldado pelo contexto a referência que faz nesse verso: O verbo é chamado de unigênito. Essa relação reforça o conceito da divindade de Cristo já esboçada nos primeiros versos do capítulo. Essa relação de proximidade entre “logos” e “monogenes” parecem reforçar a divindade do Filho, conclusão antagônica a retirada desse texto pelos arianos modernos (TJ). Em reforço à essa idéia, vemos o debate textual sobre o verso 18. Onde se leu “Filho unigênito”, é possível que seja lido “Deus unigênito”, o que levaria às últimas conseqüências o conceito da proximidade entre “monogenes” e “logos” no verso 14. Em seu comentário aos dilemas textuais, Bruce Metzger afirma: “Com a aquisição de P66 e P75, onde ambos lêem theos, o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecido[5]“. Robertson afirma que a leitura de “monogenes theos é indubitavelmente a leitura verdadeira do texto[6]“. Vincent, mesmo que aponte para a dificuldade de definição do texto, afirma: “Muitos dos principais manuscritos e um grande grupo de evidencias antigas suportam a leitura monogenes theos[7]” F.F. Bruce textifica: “O peso da evidência textual favorece aqui a versão ‘monogenes theos’, Deus unigênito[8]“. Essa leitura foi considerada como “quase certa” pelos editores da quarta edição do texto grego da UBS. Aliás, essa é a opção do Nestle-Aland. Por ser tão bem aceita, é vista na ARA, NVI, NIV, que traduziu a expressão mo o único Deus. Considerando o verso 14 com sua conexão com o logos, o termo monogenes no verso 18 reafirma categoriamente a divindade de Cristo.
[1] A completa falta de evidências textuais anteriores ao V século pode ser explicada de ao menos duas formas: (1) ou ela é uma leitura criada posteriormente; (2) ou é uma leitura que pelo por seu uso substituiu suas anteriores de tal forma que, pelo uso, acabaram destruídas. Nesse caso a segunda é mais provável, visto que a leitura de Tertuliano atesta essa forma de texto como anterior a 220.
[2] LUTERO, Martinho IN: CHAMPLIN, Russel Norman, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Voz Bíblica, Vol. 2, pp.274
[3] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.87.
[4] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.
[5] METZGER, Bruce, Textual Commentary on the Greek New Testament. UBS:1971, pp.198.
[6] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.5
[7] VINCENT, Marvin R., Vincent`s Word Studies. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.2
[8] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.50
07.16.09
Fundamentalismo Desnecessário
Não é incomum encontrar na internet textos escritos por cristão expondo suas convicções de modo intenso, áspero e com o tom de dono da verdade. Como blogueiro ainda não obtive expressão no mundo da internet (e com os tipos de textos que me identifico e escrevo, é bem provável que isso não venha a acontecer) a ponto de sofrer desse tipo de crítica. À exceção de alguns arianos modernos, não tenho sido alvo de ferrenhas críticas.
Entretanto, me espanta o quanto se critica na internet, sem qualquer pudor ou mesmo razão. Aparentemente cristãos verdadeiros, mas tão cegados por suas próprias convicções que chegam a afirmar e defender alguns absurdos desnecessários. Com acusação de perversão da verdade, falsidade, heresia e desvio da fé, tais cristãos condenam quase tudo o que se crê, pratica e ensina nas igrejas cristãs dos nossos dias.
Deixe-me clarificar o que quero dizer com isso: Não estou a defender a libertinagem, nem mesmo a heresia, ou o que for contrário ao ensino das escrituras: Com isso me ocupo e isso procuro defender. Nesse artigo, gostaria de me referir àquele tipo de cristianismo que tem o dogma antes do cérebro: O FUNDAMENTALISMO de postura não de fé.
A palavra fundamentalismo já foi definida teologicamente, e com seu conceito me identifico: nesse sentido, fundamentalista é aquele que acredita e confia na Bíblia, considera a divindade de Jesus Cristo, crê no nascimento virginal de Jesus, crê em sua morte e ressurreição a favor da humanidade e que espera seu retorno pessoal no futuro (Nesse grupo eu me enquadro). Entretanto, esse termo também é usado fora da fé para definir um grupo de pessoas extremistas em diversas áreas da vida. Há quem diga que o fundamentalista é aquele que “acredita em seus dogmas como verdade absoluta, indiscutível, sem abrir-se, portanto, à premissa do diálogo” (Wikipédia). Nesse sentido, o conceito não se trata não do conteúdo da fé, mas da postura que se tem com acredita e defende. Assim, um ateu pode ser fundamentalista, ou até quem sabe alguém de posições políticas fortes.
É com esse sentido que digo que existe um Fundamentalismo de Postura entre os cristãos, que os faz pensar que são a regula da fé, instrumentos separados por Deus para proteger o seu povo (até por que já estou fora do povo deles), responsáveis pela manutenção da verdade. Do alto de suas torres de marfim de santidade e visão correta da fé (ortodoxos por definição e essência) criticam a ponto de descer o sarrafo nos cristãos paganizados dos nossos dias.
Há poucos dias encontrei na internet um grupo de cristãos, que por (cego) zelo pela verdade escrevem ferrenhamente contra práticas encontradas na grande maioria das igrejas, mesmo as mais inofensivas para as quais as escrituras não trazem prescrição definida. Esse é o caso do uso de determinados instrumentos musicais nas igrejas.
Ainda me impressiona como se pode manipular as escrituras para se defender tolices. Me impressiona ainda mais como algumas pessoas são incapazes de refletir antes de condenar. Um desses defensores de que a bateria deveria ser retiradas das igrejas, defende que a percussão origina-se no Diabo. ISSO MESMO! A bateria não poderia ter lugar na igreja pois o primeiro percussionista do mundo foi Satanás:
“A seguinte pergunta se faz necessária: Quem foi o primeiro a usar os instrumentos de percussão? A primeira pessoa registrada na Bíblia a usar instrumento de percussão foi justamente Lúcifer: Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardónia, topázio, diamante, turquesa, ónix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados (Ez.28.13)”
Impressionante como a falta de reflexão faz com que cristãos defendam absurdos desnecessários e condenem outros com suas ideologias. Fico pasmo, com esse tipo de defesa ideológica, é como se fôssemos adoradores do Diabo por usarmos um INSTRUMENTO.
Para esse mesmo autor, o segundo ponto para se retirar das igrejas as baterias é o fato de que a percussão é o tipo de instrumento utilizado pelos cultos pagãos e rituais satânicos. Se isso fosse levado à sério, também deveriam ser proibidas igrejas com sistema de som, pois os shows, os trios-elétricos estão abarrotados desse material. Microfone, nem pensar: O Chacrinha, o Faustão, o Gugu, o Silvio Santos, a Madonna, e várias outras celebridades pagãs o utilizam. Também acho melhor retirar dos cultos os termos e gravatas, afinal, políticos malfadados também os usam. Aqui está o exemplo mais clássico de fundamentalismo de postura: Não trata-se do conteúdo da fé, mas da postura em relação à sua defesa. A irracionalidade é o fator predominante seguido da condenação.
Outro ponto para se retirar das igrejas as baterias é que grandes nomes (na conceituação do autor) da música defendem a percussão com um poder sobrenatural, sensual ou de conexão com o lado negro da força. Ou seja, por que alguém disse que a percussão abre portas para uma outra dimensão espiritual, todo toque da percussão deve fazer isso. Na defesa de suas convicções, esse autor sacraliza a opinião de pagãos: O que eles disseram é verdadeiro, portanto, devo tirar a bateria da igreja.
É triste, mas é verdade. Existe um Fundamentalismo de Postura entre os cristãos que condenam outros cristãos: que chama a bateria de Diana dos Evangélicos, como se ela fosse alvo de culto na igreja. Quem os constituiu juiz e partidor entre nós?
Esse é o tipo de Fundamentalismo Desnecessário. Não contribui, apenas atrapalha. A esses cristãos apenas dedico meu pesar, e torço para que suas vozes sejam silenciadas pelo som bom senso.
Antes de terminar esse breve artigo, dou-me o direito de citar um texto das escrituras: “Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos. Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes” (Sl.150.4-5).