Um menino nos nasceu, Cristo, Deus Forte


por Marcelo Castro

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.(Isaías 9.6)

1. Extraindo as doutrinas

Do texto base, podemos extrair as seguintes doutrinas:
Doutrina 1: a humanidade de Cristo – um menino nos nasceu, um filho se nos deu;
Doutrina 2: o governo de Cristo – o principado está sobre seus ombros;
Doutrina 3: as características divinas de Cristo – e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.

Logo no primeiro século, ainda no embrião da era cristã, já surgia dentro das próprias comunidades cristãs o ensino de que Jesus não veio em carne, que não veio ao mundo em uma forma humana, com as características, feições e afeições, desejos e sentimentos humanos. E um dos motivos para isto pode parecer óbvio: a era cristã havia se iniciado há alguns anos e mesmo assim, com a maioria dos apóstolos e testemunhas oculares falecidos e com a dispersão dos crentes devido à perseguição que ocorreu no início da era Cristã, este ensino começou a ser ministrado nas comunidades cristãs onde cada vez menos testemunhas oculares estavam presentes. Neste cenário, surge as cartas do apóstolo João e em sua primeira carta já alertava sobre este falso ensino. Ele, João, testemunha ocular da vida e obra de Jesus, disse: E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo (1 Jo 4.3). Reconhecer que Jesus, o Filho de Deus, veio plenamente em carne e desviar desta doutrina um milímetro sequer, nos coloca em grande perigo. A humanidade de Jesus era essencial em 4 aspectos:

Aspecto 1. Para o cumprimento da profecia: “porque um menino nos nasceu”, extraído do texto de Isaías 9.6. Um menino nos nasceu, implica diretamente que haveria um nascimento físico do Messias por meio de uma mulher. Ele não seria um espírito ou um fantasma. A promessa era: “e um menino nos nasceu, um, filho se nos deu”. O Messias era prometido na forma humana e se manifestou na forma humana. Se Cristo não veio na forma humana, tampouco poderia ser nascido de mulher. Se Cristo não nasceu de mulher, tampouco poderia ter nascido de qualquer outra maneira e ser ao mesmo tempo homem. Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei (Gl 4.4). “Nascido de mulher”, diz o apóstolo. O Messias, Jesus, fora prometido na forma humana e se manifestou na forma humana. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (Jo 1.14). E o Verbo, a Palavra, Jesus, se fez carne e não só isso: ele habitou entre nós; o que na verdade significa que ele viveu entre nós, os que habitam nesta terra, conviveu com os que habitam nela e pelos que habitam nela foi reconhecido como homem.

Aspecto 2. Como disse João, Cristo veio e isto é significativo. Somente alguém que já existe pode vir. Antes de sua manifestação em carne, Cristo já existia e por isso “veio em carne”. Além disso, como mencionado, Paulo nos diz que “Deus enviou seu Filho”. Isto também é significativo e está em perfeita convergência com o que disse João. Neste caso, Deus enviou a Jesus o que implica a pre-existência de Jesus antes de sua vinda. Somente alguém que existe pode ser enviado. Cristo veio em carne porque Deus o enviou. No verso 14 do Evangelho de João, capítulo 1, o apóstolo nos fala sobre a natureza física do Messias, já não mais oculta, mas ao invés disso, visivelmente revelada. Ele nos diz que este Verbo, o Logos em grego, a Palavra, que já existia no princípio da criação de todas as coisas, como também estava no princípio com Deus e além disso, que era próprio Deus; este que estava no princípio e que era Deus e que fez todas coisas (Jo 1.1-3), ele “se fez carne”. E a palavra grega traduzida para o português como “se fez”, no grego, tem um sentido mais esclarecedor, a saber: “foi manifestado” em carne. Este termo também é utilizado por Paulo em Romanos 10.20, citando Isaías.

E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, fui manifestado [mesma palavra usada em João 1.14 para descrever que o Verbo "se fez" carne] aos que por mim não perguntavam. (Rm 10.20)

Cristo não passou a existir depois de sua manifestação em carne. Ele já existia porque somente aquilo que existe pode ser manifestado, tornar-se visível. O que não existe, jamais poderá ser manifestado antes de ser criado primeiro e mantido em oculto até o dia de sua manifestação. Este não é o caso do Senhor Jesus. A Bíblia nos diz que ele “foi manifestado”, a Palavra eterna de Deus tomou a forma humana. Aqui temos outro ensino: Cristo não deixou de ser o que sempre foi; Ele sempre foi e sempre será o Filho de Deus e sempre foi e sempre será também o próprio Deus; seja na sua forma antes da primeira vinda, seja na sua forma humana atual. A forma que o Filho se manifestava na eternidade passada antes da primeira vinda mudou. A forma mudou, o ser é o mesmo.

Aspecto 3. Era nacessário um cordeiro puro e perfeito para expiar o pecado. Com as leis cerimoniais do Antigo Testamento, com todos os seus sacrifícios, Deus nos mostrava que era necessário derramamento de sangue para perdão de pecados e purificação. E isso era necessário para qualquer indivíduo se aproximar de Deus. Nosso Deus é um Deus santo e ele mesmo conclama: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 20.26, 1Pe 1.16), ou ainda, “anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17.1). Mas, uma vez que tais sacrifícios, constantes e repetitivos, não perdoavam realmente os pecados (Hb 10.4), Deus enviou seu filho em forma humana, cordeiro perfeito e sem mancha, de uma vez por todas para perdão dos pecados e o cordeiro derradeiro foi Jesus. Porque Jesus era necessário para perdão de pecados e purificação e não a morte pessoal de cada homem pelo seu próprio pecado? A dignidade do ofendido é o que importa aqui. Quando alguém mata um animal como um pássaro (com ou sem propósito), por exemplo, qual é a pena que deve ser aplicada? Mesmo em nossos dias onde as leis de proteção aos animais estão cada vez mais severas, possivelmente o ofensor não será punido pela morte do pássaro. Mas se alguém mata uma criança, certamente será punido pelo seu ato. Porque essa diferença? A diferença se encontra na dignidade entre os dois: uma criança possui uma dignidade muito maior do que um animal. Como homem e criança pertencem a mesma esfera e compartilham da mesma essência e ambos são qualificados como o mesmo ser em termos de gênero, então o homem é capaz de pagar pelo crime de uma criança porque possui uma dignidade igual a da criança. O homem também pode ser condenado a pagar pelo crime feito a um animal, porque possui uma dignidade superior a do animal. Mas pode o homem, ao cometer um pecado e ofender a Deus, sendo o pecado o mal maior e sendo Deus eterno e santo, ser apto a pagar pelo que cometeu e sair livre após o pagamento? De modo nenhum! Por isso a morte do homem natural não o salva nem o liberta, antes o escraviza eternamente. Deus é eterno, maravilhoso, conselheiro e soberano. Ele possui uma dignidade superior a do homem de tal modo que o homem, mesmo morrendo pelos seus pecados, não pode ser absolvido deles. Somente alguém com a mesma dignidade da parte ofendida, que é Deus, é capaz de pagar a pena. Como no mundo não há um justo, nem um sequer (Rm 3.10), Deus enviou seu Filho, o Filho tão digno quanto o Pai, para morrer no lugar de pecadores injustos, o justo pelos injustos (1 Pe 3.16), para que houvesse perdão de pecados e purificação. A pena pela ofensa à dignidade de Deus é totalmente satisfeita através da condenação, morte e ressurreição de Jesus.

Aspecto 4. O aspeto profético. Deus prometeu que a decendência da mulher, a semente da mulher, iria esmagar o domínio de satanás e de suas influências mortais e pecaminosas na vida do homem. Os profetas do Antigo Testamento já falavam da manifestação física de Jesus. Textos como Isaías 7.14 nos dizem claramente sobre o aspecto humano de Jesus: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel [que significa Deus Conosco].” No mesmo texto, uma referência ao aspecto humano (“e a virgem conceberá e dará luz a um filho”) e ao aspecto divino do Messias (“e chamará o seu nome Emanuel”). O profeta Miquéias também fala do aspecto humano e eterno de Cristo: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Mq 5.2)”. Neste trecho, Miquéias nos diz que não é qualquer rei que sairá de Belém. Este rei possui uma característica peculiar: sua eternidade. Aqui, Miquéias está falando a respeito de Cristo, que veio de Belém, e Isaías nos diz que ele nasceu de uma virgem. Que outro rei de Israel ou no mundo inteiro veio de Belém e nasceu de uma virgem? Estas duas professias, por si só, são eliminatórias e no Antigo Testamento existem outras dezenas de professias que testificam vários aspectos a respeito do Messias. Ainda antes de entrar na terra que Deus havia prometido, Moisés, nas campinas de Moabe, declara ao povo que o “SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis;” (Dt 18.15). Quando Jesus fez a multiplicação dos pães, os Judeus maravilhados com o que acabaram de ver, declararam: “Vendo, pois, aqueles homens o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo” (Jo 6.14). Este texto revela que os Judeus esperavam um profeta distinto dos demais. Eles aguardavam um profeta como Moisés. Deus levantou vários profetas durante o governo dos reis para exortar ao povo. A presença de profetas no meio do povo judeu não era algo novo. Houveram vários mas o judeus aguardavam o profeta, aquele mesmo profeta que Moisés havia profetizado. Assim, observe que os judeus não estão se referindo a qualquer profeta neste texto, mas sim a “o profeta”, como alusão à profecia feita por Moisés nas campinas de Moabe.

2. Explanando as doutrinas

2.1 Doutrina 1: A humanidade de Cristo

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. (Isaías 9.6)

Esta doutrina extraída do texto identifica o aspecto humano do Messias. Podemos sistematizar esta doutrina da seguinte forma:

a. Um menino nos nasceu

Em primeiro lugar, o menino sobre quem Isaías profetiza é o Messias, como o Targum interpreta. Muitos judeus afirmam que esta profecia se referia a Ezequias, o que é um erro, pois Ezequias não poderia ser apresentado como uma criança recém-nascida pois já possuía cerca de 12 anos de idade quando esta profecia foi proferidade e cerca de 29 anos quanto Senaqueribe se levantou com seu exército contra ele, como observa Aben Ezra. Tampouco, como afirma John Gill, Ezequias não pode ser considerado o filho referido nesta passagem de maneira tão peculiar e incomum.

Em segundo lugar, continua Gill, nem se pode dizer que Ezequias era a grande luz que brilhou sobre os habitantes da Galiléia, nem que seu nascimento foi de alegria tão grande como o nascimento do filho mencionado no texto, nem pode ser dito que o aumento do seu governo e a paz não teve fim (Is 9.7), vendo que o governo de Ezequias só contemplava as tribos de Benjamim e Judá, e seu reinado foi de vinte e nove anos, em grande parte com aflição, opressão e guerra.

Em terceiro lugar, O filho retratado aqui e ainda no verso 7 do mesmo capítulo está em pleno acordo com o Messias e lhe é aplicado mesmo entre judeus. Esta profecia já cumprida respeita a humanidade, encarnação e nascimento que, mesmo usando tempos verbais no passado (“nasceu” e “deu”), se refere a um evento futuro. Isto foi dito cerca de 700 anos antes da vinda de Cristo, mas para Deus um dia é como mil anos e o uso do tempo passado não desqualifica pois a visão profética não é de cunho pessoal do profeta; antes, vem de Deus para ele e assim foi descrito.

b. Um filho se nos deu

Não é só um menino. É um filho. Mesmo sendo seu Filho, seu próprio Filho, seu único Filho, seu amado Filho, Deus não O censurou, antes O enviou (Gl 4.4), nos deu (Jo 3.16). Como disse o apóstolo João, “porque Deus amou o mundo de tal maneira que nos deu seu Filho” para que por meio dele, única e exclusivamente pela graça e por meio da fé em Jesus, o homem alcançasse a vida eterna. Graças a Deus por nos ter dado seu filho. Não foi qualquer menino que nasceu, foi o Filho de Deus quem nos foi dado por meio de um nascimento virginal. E tamanho amor da parte de Deus por nós em nos dar seu Filho é incomparável, indescritível, imutável e irreversível.

2.2 Doutrina 2: O governo de Cristo

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. (Isaías 9.6)

Esta doutrina se refere ao governo de Cristo e serve como ligação entre o aspecto humano e o aspecto divino de Jesus. Em primeiro lugar, este governo possui um aspecto geral e um aspecto particular. O aspecto particular se refere ao governo de Cristo em seu reino, constituído pelos santos, eleitos de Deus, salvos por sua vida, ministério, morte e ressurreição. Digo vida porque o trabalho de Jesus em adquirir redenção para nós não se iniciou quando foi capturado, preso e levado ao Sumo Sacerdote onde foi escarnecido. Pelo contrário, começou desde seu nascimento e sua vida perfeita, sem pecado (Hb 4.15), possibilitou tão grande salvação. O aspecto geral se refere ao governo abrangente de Cristo que indica que ele tem poder para governar e sustentar todas as coisas. Ele é o Deus criador (Jo 1.1-3) e sustenta todas as coisas com seu poder (Hb 1.3). Ele tem poder para criar e para sustentar e nada foge ao seu controle.

Em segundo lugar, o governo não somente está sobre os ombros de Cristo como ele também sustenta este governo. Cristo tem direitos inconstestáveis de governo e não há dúvida de que ele governa com sabedoria e que os frutos de seu governo são evidentes. Seu governo será de paz (v.7) e esta não terá fim. Ele tem poder para suportar e sustentar o governo e não é vulnerável às dificuldades como foi Moisés. Para o povo judeu, ninguém foi superior a Moisés, mas diversas vezes vemos Moisés reclamar do fardo que lhe é dado diante de Deus. Cristo, pelo contrário, “quando ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” (Is 53.7). Cristo suportou a cruz diante da alegria que lhe estava proposta (Hb 12.2). Moisés, diante da alegria que lhe estava proposta de levar o povo a uma terra abençoada que mana leite e mel, se queixa a Deus pelo fardo que lhe foi dado (Nm 11.11,14). Cristo, ao contrário, se compadece de nossas fraquezas (Hb 4.15).

2.3 Doutrina 3: As características divinas de Cristo

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. (Isaías 9.6)

Existe um caráter progressivo na profecia descrita nesta texto, com uma conclusão perfeita exaltando a magnitude do Messias. Ela começa falando do nascimento de um menino. Em seguida, segue dizendo que não é só um menino, mas sim um filho nos será dado. Não somente um filho, como se fosse qualquer filho, mas O Filho, qualificando o menino como alguém realmente especial, o único Filho de Deus. Não seria um menino como todos os filhos dos homens. Em seguida, sobre este filho, o texto nos diz que ele será rei e governará e será poderoso para sustentar seu governo e isso pode-se entender através da expressão “sobre seus ombros” dando a entender que o Messias tem poder para sustentar tal governo. Além disso, Ele não usuará do medo, crueldade, desonestidade, injustiça, aflição e perseguição para governar pois seu governo será de paz e será firmado em justiça para sempre (v.7).

Para aqueles que questionam que este “um filho” é realmente “o filho”, é nítido que o texto não poderia estar se referindo a qualquer filho, haja vista o caráter eterno do reinado. No verso 7, como continuidade da profecia do verso 6, lemos que “do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre.” Será um governo eterno e sem fim e isso não pode ser contemplado por nenhum homem, pois todos os homens morrem, sem exceção alguma. Essa característica do reino de Cristo é conclusiva e eliminatória. Ela é conclusiva no sentido que define o reinado como divino devido à sua eternidade e eliminatório pois todos os homens morrem, o reinando finda e é transferido para outro herdeiro.

Para entender melhor esta doutrina sobre as características divinas de Jesus, é importante analisar em que aspectos esses nomes aqui atribuídos também se relacionam a Deus de forma especial e única, colocando Deus Pai e Deus Filho, Jesus Cristo, no mesmo patamar de igualdade em termos de divindade:

Em primeiro lugar, Isaías diz algo mais sobre este menino, Filho e Rei. Ele nos diz como ele será chamado de uma forma especial e diferenciada dos outros meninos, filhos e reis. Entramos aqui na esfera da divindade deste menino, deste Filho e deste Rei. O seu nome também será chamado, Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz. O seu “nome”, não como um nome qualquer, mas como um nome de alguém que possui uma posição de honra. Por isso também é apropriada a tradução de “se chamará” como “será proclamado” dando força à posição de honra do seu nome.

Em segundo lugar, eis as formas como ele será chamado ou proclamado:

a. Maravilhoso, Conselheiro (ou Maravilhoso Conselheiro). Alguns comentários fazem referência a Maravilhoso e Conselheiro como uma atribuição única, ou seja, Maravilhoso Conselheiro. O Targum, por exemplo, comenta no sentido de “maravilhoso em conselho” o que está em perfeito acordo com Isaías 28.29. Neste caso, comparando Isaías 9.6 com Isaías 28.29, vemos que o profeta classifica o Messias no capítulo 9 verso 6 da mesma maneira que classifica o Deus Jeová no capítulo 28 verso 29, nivelando Jesus, o Messias, e Deus Jeová, o Deus Pai, no mesmo patamar. Deus Jeová é maravilhoso em conselho, ou maravilhoso conselheiro, e assim também é Jesus, o Messias, sem qualquer distinção neste aspecto. E este é um aspecto interessante pois ninguém jamais deu conselhos a Deus como também não encontramos, no Novo Testamento, ninguém aconselhando a Jesus.

Cristo, Deus Filho, e Jeová, Deus Pai, estavam juntos no princípio e por eles foram criadas todas as coisas (Jo 1.1-3). Eles, em conselho, decidiram criar o homem (Gn 1.26) como também estavam juntos em questões da providência (Gn 11.7). Além disso, este título de Maravilhoso Conselheiro também se aplica no relacionamento entre Cristo e seu povo, os crentes em todas as nações. A função de Maravilhoso Conselheiro está em harmonia com sua função sacerdotal e sendo nosso Sumo Sacerdote, Cristo olha para nossas fraquezas, se compadece delas e nos orienta sempre que precisamos. Por isso, diz o autor de Hebreus, que devemos chegar com confiança ao trono da graça (onde Jesus, o Rei está) para que possamos ser orientados por Jesus, o Sumo Sacerdote, e achar graça e misericórdia em momento oportuno (Hb 4.15,16) através de seu maravilhoso conselho. Observe os dois ofícios de Jesus operando em harmonia como profetizado em Zacarias 6.13.

b. Deus Forte. Esta atribuição é chave na confirmação da divindade do Messias, divindade tal como a do Deus Jeová, qualitativamente. A palavra hebraica usada aqui é אל (lê-se ‘el) que é atribuída a Deus Jeová no Antigo Testamento dezenas de vezes.

Por exemplo, quando Abrãao sai para libertar Ló e retorna, Melquisedeque, rei de Salém, vai ao encontro dele e o abençoa dizendo: “E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo(אל), o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo(אל), que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (Gn 14.19,20). A palavra usada por Melquisedeque aqui se referindo ao Deus Altíssimo é a mesma palavra usada por Isaías para dizer que o Messias, Jesus, é Deus Forte. E isso tem grande significado pois classifica o Messias da mesma forma que Jeová é classificado: Deus Altíssimo. Na perspectiva do profeta na há distinção e na perspectiva do Espírito de Deus, que guiou o profeta, também não há distinção. E isso é teologicamente conclusivo porque nenhum profeta das Escrituras produziu sua própria profecia através de sua própria observação e racionalização, como disse o apóstolo em 2 Pedro 1.20,21, “(…) nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”. Como embaixadores de Deus os profetas transmitiram fielmente o que Deus havia lhes ordenado para transmitir. E, como disse o apóstolo, foram “inspirados pelo Espírito Santo” e isso se aplica ao texto em questão. Para o Espírito de Deus, o Deus Filho e tão Deus quando Jeová, Deus Pai; o Espírito chama o Filho de Deus Forte, Deus Altíssimo.

Em outra ocasião, no Salmo 22, um salmo tipicamente messiânico, no verso 1 lemos: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Estas foram uma das frases de Jesus na cruz. O que está acontecendo aqui? Jesus se volta para Deus, o Pai, carregando o fardo dos pecados daqueles que Deus Pai o deu, e diz: “Deus meu, porque me desamparaste”? E quando Isaías usa o mesmo termo para se referir ao Messias, ele está dizendo que o Messias, o Filho, é tão Deus Altíssimo quanto Jeová, o Pai. O Espírito de Deus, por meio de Isaías, atribuiu ao Messias em Isaías 9.6 o mesmo nome que Jesus chamaria o Deus Pai (e chamou) enquanto agonizava na cruz antes de morrer.

Além desses dois exemplos, vários textos podem ser relatados usando a mesma palavra se referindo ao Deus Jeová, mostrando que a forma que Isaías usa para qualificar o Messias como Deus é a mesma forma que vários outros autores usaram para qualificar o Deus Jeová, e o livro de Salmos é rico no uso desta palavra:

“Porque tu não és um Deus(אל) que tenha prazer na iniqüidade, nem contigo habitará o mal.” Salmos 5.4
“Diz em seu coração: Deus(אל) esqueceu-se, cobriu o seu rosto, e nunca isto verá. Levanta-te, SENHOR. O Deus(אל), levanta a tua mão; não te esqueças dos humildes.” Salmos 10.11,12
“Guarda-me, ó Deus(אל), porque em ti confio.” Salmos 16.1
“A voz do SENHOR ouve-se sobre as suas águas; o Deus(אל)da glória troveja; o SENHOR está sobre as muitas águas.” Salmos 29.3
“Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, SENHOR Deus(אל) da verdade.” Salmos 31.5

Deste modo, por mais que na mente de alguns pensadores, tal equivalência não exista, para uma mente judaica do Antigo Testamento, para o Espírito de Deus e para as Escrituras como um todo, tal equivalência é tão clara quanto o sol do meio-dia.

c. Pai da Eternidade. O texto em Hebraico não traz consigo a palavra “Pai”. Literalmente, a tradução deveria ser “Eterno”. Este atributo reforça o anterior; lhe da mais vigor, apesar do anterior ser suficiente. Assim como Deus Jeová, Jesus também é eterno. Não houve um ponto na história em que foi criado. Novamente, Cristo não passou a existir depois de sua manifestação em carne. Somente algo que já existe pode ser manifestado e Cristo é tão eterno como Deus Jeová. Tanto Deus Jeová (o Pai), quanto Jesus (o Filho) e o Espírito são eternos e não há início para nenhum deles. Sempre existiram. Esta não é uma questão fácil para aqueles que ainda estão mortos em seus delitos e pecados porque na verdade é uma questão de fé e este tipo de fé, que leva o homem a olhar para Deus e crer que ele existe, crer em seu Filho, não é inerente ao próprio homem. Antes, ela possui um autor e um consumador, como diz o autor de Hebreus: “Jesus, o autor e consumador da nossa fé.” A fé salvadora possui um autor e um consumador. Ela não nasce com o homem e portanto não é inerente ao próprio homem nem pode ser desenvolvida pelo homem natural.

O texto também nos diz que Jesus é Pai. Jesus é Pai da Eternidade, mas não é Deus, o Pai, em pessoa. Este ponto demanda esclarecimento. O filho é como o Pai, em termos de divindade, mas não é o Pai como pessoa. Seu o Filho fosse o Pai, isso geraria um sério problema teológico com as palavras de Jesus na crucificação pois Ele clama pelo Deus Pai como se estivesse sozinho ali no Gólgota, e estava. Dizer que Cristo é o Deus Pai seria o mesmo que dizer que Deus Pai foi crucificado com Cristo, o que é um absurdo e as Escrituras nos dizem que foi Cristo quem foi crucificado e não Deus, o Pai (Fp 2.8). Cristo clama pelo Pai (Mt 26.46, Mc 15.34), logo o Pai não pode estar com Cristo ali. Só existe um pai na divindade. Cristo e o Pai são um (Jo 10.30), mas mesmo assim são distintos. São um em termos de divindade, mas são pessoas diferentes com atribuições diferentes dentro da mesma divindade. Cristo, durante sua vida terrena, várias vezes chamou pelo Pai, orou com ele, é nosso advogado, nosso Sumo Sacerdote e intercede a Deus Pai por nós.

O auto de Hebreus nos diz que Cristo é a expressão exata do ser de Deus (Hb 1.3) e como disse William Hendriksen com indiscutível clareza, “o Filho é a perfeita representação do ser de Deus, isto é, Deus imprimiu em seu Filho a forma divina de seu ser. A palavra traduzida como “expressão exata” refere-se a moedas cunhadas que levam a imagem de um soberano ou presidente. Refere-se a uma reprodução precisa do original. O Filho, então, é completamente o mesmo em seu ser como o Pai. No entanto, ainda que uma impressão seja o mesmo que o tipo que faz a impressão, ambos existem separadamente. O Filho, que tem “a mesma marca” da natureza de Deus, não é o Pai, mas procede do Pai e tem uma existência separada. Mas, aquele que vê o Filho, vê o Pai, como Jesus explicou a Felipe (Jo 14.9).”

d. Príncipe da paz. Um governo de paz, este é um dos aspectos do governo de Cristo. Como diz Isaías no verso 7, “do aumento deste principado e da paz não haverá fim”. Um governo eterno e de paz eterna. Ele é chamado de Príncipe em outras partes das Escrituras como em Atos 3.15, “e matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas”, se referindo a Jesus. Príncipe da vida porque é autor da vida. Algumas traduções trazem Atos 3.15 como “Autor da vida”. Ser príncipe se refere não somente a uma posição de governo e poder, como também à posição de autor. Príncipe da paz, autor da Paz. Príncipe da vida, autor da vida. À parte de Jesus, não há vida, pois ele é a vida (Jo 14.6). À parte de Cristo, homens, mulheres e crianças estão mortos, como disse alguém certa vez, “os homens nascem mortos”.

Cristo é Príncipe da paz em dois sentidos. O primeiro e mais importante é que ele sela paz entre o homem pecador e Deus. As Escrituras nos dizem que do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens (Rm 1.18) como também nos diz que a inclinação da carne é inimizade contra Deus (Rm 8.5). Nós, que um dia andávamos segundo o curso deste mundo, fazendo a vontade da carne e andando em desobediência plena e contínua diante de Deus (Ef 2.1-3), hoje temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 5.1)! Cristo é nossa paz (Ef 2.14)!

Em segundo lugar, Cristo é o Príncipe da paz pois ele remove a barreira de inimizade entre judeus e gentios. Paulo diz aos Efésios que eles, gentios, andavam longe, mas em Cristo Jesus, chegaram perto; e isso também se aplica a nós. Não há mais barreira de separação e em Cristo não há judeu nem grego (Ef 2.14, Gl 3.28). Ambos encerrados na mesma graça salvadora, no mesmo Evangelho, pertencentes ao mesmo Senhor, possuindo um só Espírito, participantes de uma só fé e um só batismo (Ef 4.4,5). Ele é a nossa paz (Ef 2.14)! Não há mais lei cerimonial para perdão e purificação de pecados restringida a um único povo e nação. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho e por meio dele a salvação e purificação de pecados alcança judeus e gentios, não porque Cristo anula a lei cerimonial (como diz o apóstolo em Rm 3.31, “anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei”), pelo contrário, Cristo cumpre a lei cerimonial de forma perfeita e final, de uma vez por todas, alcançando para judeus e gentios, para todos aqueles que crêem, eterna redenção, fazendo de todos os crentes, independente de raça, cultura ou nação, um só povo. Ele é capaz de fazer um descendente de Ismael e um descendente de Isaque amigos e irmãos. Ele faz com que Pedro se achegue a Cornélio, um gentio. E é Pedro quem, nesta ocasião, reconhece “que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo. A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos)” (At 10.34-36). Deus selou a paz conosco por meio de Cristo, que é capaz de trazer para dentro do mesmo aprisco, judeus e gentios. Cristo é o verdadeiro Príncipe da paz e isto é diariamente provado por todos aqueles que participam do seu reino, a saber, todos aqueles que crêem no seu nome.

3. Aplicação da doutrina

3.1. Do consolo

A humanidade de Cristo deve nos consolar. Nosso Deus é um fogo consumidor (Ex 24.17, Dt 4.24, Dt 9.3, HB 12.29) e não há criatura que não seja manifesta em sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas (Hb 4.13). Vivemos em um século mau (Gl 1.4) e em um mundo que caminha em uma direção contrária aos caminhos de Deus. E o fato é que muitas vezes, nos sentimos arrasados diante de nossa incapacidade de buscar a Deus e obedecê-lo.

Alguém poderia dizer: “Cristo penetrou nos céus, como está escrito em Hebreus 4.14, e está bem longe das nossas lutas e labutas diárias e por isso seu sacerdócio é de pequena influência em nossa vida”. Mas, com um tom pastoral, o autor de Hebreus nos exorta a conservar firmes a nossa confissão (Hb 4.14). Porque? Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hb 4.15). Cristo se compadece de nós e, sabendo de nossas fraquezas, intercede por nós (Rm 8.34). Ele sabe que os dardos do inimigo são inflamados e Ele foi tentado duramente durante toda sua vida. Ele sabe e conhece nossas fraquezas e como é vil nosso coração. Mas ele também sabe que somos suas ovelhas (Jo 10.14) e que ouviremos a sua voz. Nós conhecemos a voz do nosso Pastor (Jo 10.27) e nele devemos confiar pois ele é nosso guia e sem ele nada podemos fazer (Jo 15.5). Como nosso pastor, Ele nos levará mansamente às águas tranquilas onde podemos refrigerar nossa alma (Sl 23.2,3). Assim, segue dizendo o autor de Hebreus, cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno (Hb 4.16). Que palavras encorajadoras! Podemos encontrar exortações pastorais ao longo de toda carta aos Hebreus, mas este encorajamento aqui é uma palavra de grande consolo pra nós. E ele nos diz que devemos nos achegar com confiança ao trono da graça, isto é, com ousadia, não temerosos do julgamento, mas “em total confiança e sinceridade”.

3.2. Da confiança

Sabendo que temos consolo em Cristo, ouçamos pois às orientações do autor de Hebreus: cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno (Hb 4.16). Porque devemos prosseguir com confiança? Como diz Isaías: “o principado está sobre os seus ombros”. Cristo sustenta todas as coisas com a palavra do seu poder. E todo o principado está sobre seus ombros. Como diz William Hendriksen, “o Filho não é somente o Criador do universo (Hb 1.2); ele é também o sustentador de todas as coisas também (1.3)”. Tanto a profecia de Isaías quanto as passagens de Hebreus 1.2,3 se completam mutamente e revelam o poder divino do Filho. E segue dizendo William Hendriksen, “por usa palavra todas as coisas são sustentadas, preservadas e suportadas”. E Cristo, sozinho e eternamente, é capaz de sustentar todas as coisas sobre seus ombros e ninguem dos que estão sobre seus ombros poderão cair. Poderá alguém nos acusar de alguma coisa para roubar nossa confiança? De modo nenhum, é Deus quem nos justifica em Cristo (Rm 8.33, Rm 3.24). Poderá alguém nos condenar? De modo nenhum, pois é Cristo quem morreu e ressucitou dentre os mortos e hoje está diante de Deus, de modo que para os que estão em Cristo, nenhuma condenação há (Rm 8.1,34). Pode alguém, por fim, nos separar do amor de Cristo? De modo nenhum, pois nele somos mais do que vencedores (Rm 8.37). E em que somos vencedores? Somos vencedores na luta contra o pecado hoje, somos vencedores na nossa luta contra o mundo (1Jo 5.4) e seremos vencedores contra a consequência do pecado (a morte) no porvir, pois ó morte, onde está o teu aguilhão (1Co 15.55,56)? Podemos ser levados como ovelhas ao matadouro e ali permanecer calados como nosso Senhor, mas levantemos nosso louvor a Deus a uma só voz: em Cristo somos mais do que vencedores. Faço das minhas palavras as mesmas palavras do autor de Hebreus, “prossigamos com confiança”, pois o nosso Senhor Jesus sustenta seu principado de paz sobre seus ombros e estejamos bem certos de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor (Rm 8.38,39). Por fim,

“tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa, retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu.” (Hb 10.19-23)

Em Cristo,
Marcelo Castro

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