A necessidade do homem


Além de a evangelização iniciar em Deus e de Seu claro interesse por todos os homens, temos que considerar que existe no homem a completa ausência de mérito para alcançar a salvação. Em outras palavras estamos dizendo que o homem não é capaz de salvar-se, ou de produzir a salvação de alguém ou para alguém. Entretanto, é fundamental notar que tal necessidade é apenas real após a Queda, pois, o homem não foi criado assim.

A.    O Homem foi Criado por Deus:

O homem é criado por Deus (cf. Mt.19.4; Rm.5.12-19; 1Co.15.45-49; 1Tm.2.13). Somente Deus seria a causa suficiente e razoável para explicar a complexidade da vida humana. Somente na palavra de Deus pode-se encontrar uma revelação especial das atividades de Deus na CRIAÇÃO do universo e de tudo o que nele existe.

a. Diretamente por Deus: Ao observar o primeiro relato bíblico da criação, não se pode chegar à outra conclusão senão que o homem é resultado da intervenção direta de Deus. Observe o versículo: “Criou Deus, pois, o homem…” (Gn.1.27).

b.    Distinto de outras Criaturas: Na descrição de Gênesis, Deus cria o reino vegetal distinto do animal, e o homem distinto de ambos. (Gn.1.11). Essa identificação exata de Deus em relação ao reino vegetal inclui até mesmo a condição da semente do fruto das árvores. Mas não se encontra aqui nenhuma referência ou semelhança com os animais ou o homem, mas declara que sua reprodução é única e exclusiva segundo a sua espécie, ou como declara o próximo versículo “conforme a sua espécie”. Fato similar acontece com os animais marinhos e as aves (Gn.1.21). Note que cada ser criado por Deus é criado segundo a sua espécie. E o mesmo acontece com os animais selváticos (Gn.1.25). Assim, cada categoria de animal foi criada em conformidade com sua própria espécie, bem como a sua reprodução de acordo com essa conformidade.

c.    Em Posição Exaltada: O fato de que o homem não pertence à categoria dos animais pode ser percebido em função da criação distinta dos outros seres vivos, como uma espécie distinta de ser vivo e pela posição distinta que tem das demais criaturas (Gn.1.26). Essa identificação demonstra que existe algo especial, não somente na criação, mas na formação. Além da intervenção especial, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Isso faz toda diferença entre o homem e os outros seres vivos. Mas é ainda reforçado por sua posição exaltada, pois é criado para ter domínio sobre todos os outros seres vivos. Portanto, o homem está colocado numa posição privilegiada em relação a demais criaturas.Essa posição exaltada é ainda demonstrada de forma poética em Salmos, quando Davi escreve uma exaltação das obras de Deus dizendo: “Quando contemplo os teus céus, obra de teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras de tua mão, e sob teus pés tudo lhe puseste” (Sl.8.3-6). Portanto, o homem é considerado como ápice da criação, a coroa da criação, e por isso tem sua distinção de todas as outras criações e criaturas e está acima de todas elas.  Outro fator que evidencia essa verdade é que como a criação do homem a Obra Criativa de Deus chegou ao fim. Isso pode ser observado pela frase dita pelo próprio Deus após a criação do homem: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn.1.31).

d.    Imagem de Deus: Ser criado a imagem de Deus significa que tudo o que torna possível um ser autoconsciente, incluindo os aspectos materiais e imateriais do homem, indica que o arquétipo do homem é o Deus trino e que nossos atributos refletem, ainda que imperfeitamente, o caráter de Deus. A imagem de Deus influencia os seguintes aspectos do ser humano:

i.    Justiça Original: Esse termo diz respeito a condição do homem, que foi criado sem pecado. Em Gn.1.31, após a criação do homem fala que tudo o que Deus fizera eram muito bom. Salomão também faz uma boa observação do homem com criatura especial de Deus quando diz : “Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias”. (Ec.7.29). O Novo Testamento testemunha de maneira semelhante, mas o faz retratando a condição do salvo como uma volta a um estado anterior. Paulo, em sua epístola aos Colossensses faz a seguinte observação: “Não mintais uns aos outros,, uma vez que vos despistes do velho homem com seus feitos, e vos revestistes do novo homem que se refaz  para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl.3.10; cf.Ef.4.24). O uso do termo “refaz” que traz a idéia de realizar novamente algo anteriormente pronto ou de fazer novo novamente, como sugere a forma grega da palavra em pauta. Portanto “a criação do homem segundo esta imagem moral implica que a condição original do homem era de santidade positiva, e não um estado de inocência ou de neutralidade moral ” (Louis Berkhoff, 189)

ii.    Constituição Natural do Homem: Por ser criado a Imagem de Deus o homem dispõe de uma capacidade moral e racional. Essas capacidades asseguram a condição de homem ao ser humano, e é impossível que participe dessa condição sem a presença dessas dádivas. Ou seja, embora o homem hoje esteja em um estado de pecado, não perdeu completamente essas características, mas é impossível que elas sejam exatamente como foram outrora. Portanto, é importante evidenciar que, ainda que o homem tenha a capacidade moral e intelectual, ela foi maculada pelo pecado. Entretanto, é válido demonstrar que mesmo após a queda o homem é apresentado como sendo imagem de Deus (Gn.9.6; 1Co.11.7; Tg.3.9). Segue-se que é impossível afirmar que o homem perdeu totalmente a Imagem de Deus, da mesma forma que é impossível afirmar que ela seja identicamente a mesma.

iii.    Condição Espiritual do Homem: É natural esperar que o homem sendo criado a imagem de Deus desfrute de uma condição espiritual, pois “Deus é espírito” (Jo.4.24). E não é difícil observar esse fato, pois mesmo na narrativa da criação podemos encontrar dados referentes a esse fato: “…lhes soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn.2.7). Dois fatos podem ser ressaltados e considerados importantes nesta questão:

1.    A vida do homem só foi possível após o sopro de vida da parte de Deus, sendo considerado como o princípio da vida do homem;

2.    A expressão “alma vivente” é considerada condição de sua vida.

iv.    Vida Infinita: Ao ser criado a Imagem de Deus, o homem participa da vida como dádiva de Deus, não de maneira completa e perfeita como o próprio Deus (que é eterno por definição). O sopro divino foi a doação de uma vida interminável, ainda que a punição pelo pecado incluísse a morte do corpo (física), a vida não finda nela. Ou seja, apesar da morte física ser real, a alma do homem é dotada de uma existência interminável. Note que Jesus ensinou que aquele que crê tem vida eterna (Jo.11.26). Entretanto, Ele também ensinou que os que não crêem e não guardam sua palavra podem sofrer a morte eternamente (Jo.8.51-52). É por isso que Ele afirma que o fogo esperado para os infiéis é um fogo eterno (Mt.18.8; 25.41; Mc.9.4; 9.45; cf. Jd.1.7). Assim, todo o que não tem o seu nome escrito no livro da vida será lançado no lago de fogo (Ap.20.15) eternamente.

e.    Com desejo à eternidade: Essa vida interminável doada por Deus ao homem é também razão pela qual o homem nunca se satisfaz em sua vida. Sobre isso, Salomão, o pregador, atesta: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec.3.11).

B.    Após a Queda o Homem muda de posição:

Antes o homem desfrutava da comunhão com Deus e plena liberdade. Contudo, após a queda o homem sofre da ausência de Deus, da perda da liberdade e da escravidão do pecado.

a.    O Homem é Totalmente Depravado: isso não significa que o homem fará todo o mal que é capaz de fazer, mas que todas as faculdades do homem foram complemente corrompidas. Assim, isso implica que [1]:

i.    Não há absolutamente no pecador bem espiritual algum com relação a Deus, mas somente perversão. (Rm.7.18; 2Tm.3.2-4).

ii.    É totalmente destituído de amor a Deus (Jo.5.42).

iii.    É carregado de desejo pecaminoso que ultrapassa a consideração por Deus e sua Lei (2Tm.3.4).

iv.    É supremamente determinado em sua preferência do “eu” (egoísta) em relação a Deus, interna ou externamente (2Tm.3.2).

v.    É possuído de aversão a Deus (Rm.8.7).

vi.    É desordenado e corrompido em cada faculdade (Ef.4.18; Tt.1.15; 2Co.7.1; Hb.3.12).

b.    Que é totalmente incapaz de Agradar a Deus: Além de totalmente corrompido, o homem natural, não regenerado, é incapaz de agradar a Deus. Nada que, porventura, ele venha a fazer seja suficiente para conseguir a aprovação de Deus. A inconformidade do homem com as exigências morais da Lei de Deus faz com que ele seja impossibilitado de agradar a Deus (Rm.8.8; Hb.11.6). Quando falamos da corrupção do homem em termos de incapacidade total, queremos dizer três coisas:

i.    Que o pecador não regenerado não pode praticar nenhum ato, por insignificante que seja, que fundamentalmente obtenha a aprovação de Deus e corresponda às exigências da lei Santa de Deus (Is.64.6)

ii.    Que ele não pode mudar sua preferência fundamental pelo pecado e por si mesmo, trocando-a pelo amor a Deus; não pode sequer fazer algo que se aproxime de tal mudança. Numa palavra, ele é incapaz de fazer qualquer bem espiritual. Há abundante suporte bíblico para essa doutrina: Jo.1.13; 3.5; 6.44; 8.34; 15.5; Rm.7.18, 24; 8.7,8; 1Co.2.14; 2Co.3.5; Ef.2.1, 8-10; Hb.11.6.

iii.    Que a incapacidade do homem não tange apenas à sua moralidade, mas à sua insuficiência e insignificância diante da Majestade e Soberania de Deus. Qualquer atividade que tenha por foco distinto da Glória de Deus, não agrada a Deus (1Co.10.31). Não interessa qual seja essa atividade. Por mais que se reconheça a possibilidade da realização de um bem natural, cívico, sem fé é impossível agradar a Deus (Hb.11.6).

iv.    Que tal incapacidade inclui a impossibilidade de receber o ES (Jo.17.14) ou a palavra de Cristo (Jo.8.43-45). Essa incapacidade está diretamente ligada à completa falta de vontade (Rm.3.11), perversão (Rm.1.18-23) e designação divina (Rm.1.24, 26, 28, 32).

c.    Que o homem não tem Livre Arbítrio: A expressão Livre Arbítrio fala sobre a capacidade do ser humano em julgar o que é certo e errado, moral e imoral e optar por realizar livremente, ou seja, sem outra influência, o que desejar.  Entretanto, todas as faculdades do ser humano foram corrompidas e por isso, sua vontade está atrelada a prática pecaminosa (Ef.2.1-3). Ou seja, não é possível para o homem julgar o que fazer sem a influência do pecado, que permeia toda sua constituição. É por isso que Jesus atesta que quem pratica o pecado é escravo do pecado (Jo.8.34). Escravidão é o estado oposto à Liberdade, e a verdadeira liberdade exige o conhecimento da verdade (Jo.8.32; 14.6; 17.17) e a presença do Espírito Santo (2Co.3.17). É por isso que as escrituras usam de forma recorrente a idéia de que na Salvação fomos chamados à liberdade (Gl.5.1, 13) e à mudança de senhorio, do pecado para Deus (Rm.6.18.22).

d.    Que o homem tem Livre Agência: Apesar de não ser capaz de realiza qualquer bem que alcance de Deus favor, as escrituras demonstram que o homem é livre para realizar o que bem intentar. Normalmente suas ações seguem sua natureza (Rm.1.19-30; Ef.2.1-3; 4.17-19).

e.    Que o homem depende da Ação Divina para se converter: Uma vez que o homem é escravo do pecado, não é capaz de salvar-se, é incapaz de agradar a Deus ou de lhe comprar o favor, o homem é complemente dependente da ação do ES no convencimento do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16.8-11). A idéia de “convencer” implica na ação do ES de apresentar o evangelho de modo tão claro que o pecador tenha diante de si a possibilidade de aceitá-lo. Somente por intermédio da ação do Espírito Santo é que o pecador pode receber o evangelho. É ministério do ES guiar o homem à verdade (Jo.16.13; 8.32; 14.6; 17.17) conforme a orientação de Jesus Cristo (Jo.16.14).

f.    Que o homem é complemente responsável por sua condição: A Bíblia nunca coloca sobre Deus a responsabilidade da prática ou da culpa do pecado, mas antes, sobre aqueles que praticam o mal é que sobrevém a culpa, a punição e o peso dessa infração da lei moral de Deus. Isso se chama responsabilidade. Assim, o homem natural, não regenerado, além de desprovido da Graça, de ser incapaz de agradar a Deus, escravo do pecado, é responsável por cada uma de suas ofensas a Deus.

g.    Conceito: Sobre isso a Confissão de Westminster diz: “O homem, devido à sua queda num estado de pecado, perdeu completamente toda capacidade para querer algum bem espiritual que acompanhe a salvação. É assim que, como homem natural que está inteiramente oposto ao bem e morto no pecado, não pode, por sua própria força converter-se ou preparar-se para isso”. Ou seja, não é possível para o homem alcançar a sua própria salvação. Por isso, depende exclusivamente da graça de Deus para ser resgatado. Por isso, Deus estabeleceu um plano, um modo pelo qual o homem pode ser salvo, liberto, redimido e retornar ao estado original no qual fora criado”.


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[1] Informações retiradas e adaptadas de BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Campinas: Luz Para o Caminho, p.229-30.

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