Cornélio Tácito e a Historicidade de Cristo


Cornélio Tácito é reconhecido pela história como governador da Ásia e historiador. Robert E. Van Voorst o considera como o maior historiador Romano, embora não se saiba muito sobre sua família, cidade de nascimento e ocasião da morte. (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.39). Ele escreveu um livro chamado Histórias no qual trata dos eventos e acontecimentos romanos entre 69-96dC, e é fonte de muitos dos acontecimentos de Galba, Otho, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciniano. Esse livro teria sido escrito em 20 diferentes volumes dos quais apenas os quatro primeiros sobreviveram juntamente com fragmentos do quinto volume.

Seu trabalho que nos chama a atenção é chamado Anais, seu último e incompleto trabalho de registro histórico. Originalmente esse livro foi escrito em trinta diferentes livros, e embora tenha sido escrito após o livro Histórias, trata de assuntos históricos anteriores a ele. Pouquíssimas cópias desse livro subsistiram até nossos dias, sendo que uma cópia encontra-se no monastério beneditino da Abadia de Corvey e uma segunda cópia encontra-se em outro mosteiro beneditino em Monte Cassino.

Nesse mesmo livro encontramos uma citação interessante de Tácito sobre os cristãos:

“Mas nem todo o socorro que um pessoa poderia ter prestado, nem todas as recompensas que um príncipe poderia ter dado, nem todos os sacrifícios que puderam ser feitos aos deuses, permitiram que Nero se visse livre da infâmia da suspeita de ter ordenado o grande incêndio, o incêndio de Roma. De modo que, para acabar com os rumores, acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Christus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à extrema punição [i.e crucificação] por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também em toda a cidade de Roma” – (TACITUS, Cornelius, Annales ab excesso div August. Charles Dennis Fisher, Clarendon Press, Oxford, 1906)

Dois detalhes são importantes de serem reconhecidos: (1) o termo que Tácito usa para se referir aos cristãos, provavelmente foi mal escrito, pois em latim o texto traz a expressão “chrestianos” e que posteriormente tenha sido alterado para “cristianos”, ou seja cristãos. (2) O nome Christus é foi vertido em latim apenas para demonstrar que Tácito tinha uma informação clara sobre o grupo de cristãos, sobre quem escrevia.

Como acontece com todas as referências históricas diretas a respeito de Cristo, os críticos questionam a autenticidade dessa citação, afinal, é por demais similar as informações que encontramos nos evangelho canônicos. Voorst atesta alguns trabalhos críticos sobre o texto de Tácito, que questionam a veracidade dessa expressão: P. Corneli Tacit, Annalim Libri de F. Romer; Cornelios Tacitus, Annales de K. Wellesley e Tacite, Annales livres de P Wuilleumier. Entre as declarações encontramos a afirmação de que existe um problema textual na descrição da morte que Jesus sofreu, se foi apenas uma condenação, ou se foi crucificação. O texto de Charles Dennis Fisher que usamos aqui, expressa apenas a punição extrema, o que sugere a condenação à morte romana, que normalmente seria por crucificação, entretanto, é possível que o próprio termo não tenha sido empregado por Tácito, como procuramos demonstrar acima.

Entretanto, independente desse problema textual, o conceito claro da morte de Cristo por Pilatos no período de Tibério ainda é compatível com a descrição das escrituras. Vale a pena ainda ser lembrado que ele se refere a Cristo como um nome pessoal, o que confirma a tendência iniciada no Novo Testamento de referir-se a Jesus Cristo, por Cristo.

É ainda importante demonstrar que na visão de Tácito, Cristo é o originador de um grupo de pessoas chamadas cristãos, ou seja, Ele é o fundador do movimento religiosos que leva o seu nome. Mais uma declaração compatível com aquilo que conhecemos nas escrituras.

Porém, precisamos fazer uma pergunta interessante nesse ponto: Não seria essa descrição de Tácito, uma alteração textual tardia promovida por cristãos, como aconteceu com Flávio Josefo? Essa é uma pergunta feita pelos críticos das fontes históricas de Jesus Cristo e merece nossa atenção.

A resposta que damos a essa pergunta é não, por dois motivos: (1) Se um cristão fosse adulterar um texto, certamente suprimiria as expressões sobre o ódio romano contra eles, ou o fato de que são considerados como um superstição perniciosa; (2) Os pais da igreja não fizeram uso desse material de Tácito em nenhum lugar, o que sugere que não era um material de interesse cristão, especialmente nos primeiro séculos do cristianismo, que não enfrentavam dificuldades com o tema da historicidade de Cristo. Ou seja, é bem provável que o conteúdo dessa citação fornecida por Tácito não fazia parte da agenda apologética dos cristãos primitivos e portanto, não estaria a sua disposição para adulteração.

Falando da importância dessa citação Yamouchi atesta:

“Trata-se de um depoimento importante da parte de uma testemunha que não simpatiza com o sucesso e com a difusão do cristianismo, baseado em uma personagem histórica, Jesus, cruficicado por ordem de Pôncio Pilatos” – (STROBEL, Lee, Em defesa de Cristo,  Vida, 1998, 108)

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