Clemente de Roma e sua visão de Jesus Cristo


O primeiro Pai Apostólico a ser observado é Clemente, considerado pela Igreja Católica como o primeiro dos sucessores de Pedro (The Catholic Enciclopedia). É também conhecido pela história da igreja por ter sido discípulo de Pedro e por ter escrito uma grande carta a igreja em Corinto, conhecida como a Primeira Epístola de Clemente. Acadêmicos da área do Novo Testamento e Cristianismo Primitivo, em geral, entendem que essa é a única carta genuinamente de Clemente, e que as outras cartas mencionadas em seu nome são na verdade falsificações.

Considerando esse fato, em nossa análise nos atemos à Primeira Carta de Clemente à igreja de Corinto, que é considerado o mais antigo documento cristão fora do Novo Testamento tendo sido escrita próximo ao livro canônico de João, o Apocalipse (por volta de 96dC).

Entretanto, antes de iniciar nossa análise a essa carta, é importante ressaltar que ela não foi escrita para comprovar a existência de Cristo, mas na verdade, como todo documento cristão, o ponto de partida é a existência física e pessoal de Cristo. É importante reconhecer isso antes de qualquer análise em função do tipo de informação que encontraremos nos documentos cristãos fora do Novo Testamento são claramente marcadas pelo kerigma cristão antigo, ou seja, o ponto de vista difere radicalmente dos exemplo anteriormente apresentados.

As declarações de Clemente são diretas e sua visão de Cristo é altamente marcada pela mensagem do Novo Testamento, por isso não é incomum que ele faça referências a Cristo como Cristo (36x) e Senhor (21x), observe algumas dessas citações:

“A igreja de Deus que se reúne em Roma para a igreja de Deus em Corinto, aos que são chamados e santificados pela vontade de Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo: Graça e paz a vocês do altíssimo Deus por meio de Cristo” – (I Clemente 1.1)

“Vamos olhar fixamente para o sangue de Cristo, e ver como que o sangue é precioso para Deus, sangue que foi derramado para nossa salvação, e estabeleceu a graça do arrependimento diante do mundo inteiro” (1 Clemente 7.4)

“Todos estes o grande Criador e Senhor de todas nomeou a existir em paz e harmonia, enquanto ele faz bem a todos, mas o mais abundante para nós, que fugiram para o refúgio para as suas misericórdias, através de Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem seja glória e majestade para sempre e sempre. Amém” (1 Clemente 20.11-12)

A visão de Clemente inclui não apenas o Senhorio de Cristo e sua visão como Messias prometido. Também é claro o papel mediador e salvador de Cristo. Um dos textos que deixa isso evidente é 1Clemente 49.6:

“Em amor o Senhor deu a si mesmo por nós. Por conta do amor que ele nos deu à luz, Jesus Cristo nosso Senhor deu seu sangue por nós pela vontade de Deus; Sua carne por nossa carne; Sua alma por nossas almas” (1 Clemente 49.6)

Outro texto que merece nossa atenção é a declaração histórica da pregação do evangelho, observe:

“Os apóstolos pregaram o evangelho a nós da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo o fez da parte de Deus. Por isso, Jesus Cristo foi enviado por Deus, e os apóstolos por Cristo. Ambas as designações, portanto, foram feitas ordenadamente, de acordo com a vontade de Deus. Tendo recebido suas ordens, e sendo plenamente assegurados pela ressurreição do Nosso Senhor Jesus Cristo, e estabelecidos na palavra de Deus, com toda segurança no Espírito Santo, ele saíram proclamando que o Reino de Deus estava próximo. E assim pregando em países e cidades eles viram os primeiros frutos do seu trabalho, tendo primeiramente os provado pelo espírito, para serem bispos e diáconos daqueles que posteriormente viessem a crer. Mas isso não era nada novo, desde que de fato muitos anos atrás foi escrito em relação aos bispos e diáconos” (1 Clemente 42.1-5)

Segundo Clemente, a mensagem do evangelho pregado pelos apóstolos fora apresentada pelo próprio Cristo e Este, do próprio Deus. Ele também atesta que Jesus Cristo veio de Deus de acordo com a ordenada vontade do Deus Pai e que o Reino de Deus estava próximo, como a mensagem apresentada nos evangelho por Jesus Cristo. Clemente afirma claramente a ressurreição de Cristo baseada no testemunho dos apóstolos que estavam consolidados nas escrituras e resguardados pelo Espírito Santo, e que através da ação apostólica pessoas de diferentes regiões no mundo vieram a crer e pelo ministério dos apóstolos foram designados bispos e diáconos, pensando naqueles que viriam a crer.

Como podemos observar, a clara visão cristão de Clemente já nos coloca em um ambiente mais conhecido e familiar, relembrando muitos dos ensinamentos das escrituras. De modo mais sumário, podemos dizer que a opinião de Clemente sobre Cristo é: Ele é Senhor, o Cristo, prometido pelas escrituras (32.2), foi reconhecido em figura humana (32.2) e um grande professor (13.1; 46.7), que morreu em nosso lugar para nossa libertação (21.6; 49.6) e por isso é nosso salvador (36.1; 58.2), que derramou seu sangue para nos redimir (7.4; 12.7; 21.6; 49.6; 55.1), e ressuscitou verdadeiramente (24.1; 43.3). Ele também é o grande Sumo-Sacerdote (36.1; 61.3; 64.1), defensor dos cristãos (36.1-2), auxiliador (36.1); preservador (38.1; 61.3; 64.1) e responsável pelo chamamento dos cristãos (32.4; 50.7; 59.2), sendo Ele mesmo a origem do evangelho (42.1; 44.1) e o verdadeiro Filho de Deus (59.4).

O testemunho de Clemente nos oferece um claro relato proveniente do Novo Testamento sobre a vida de Cristo, além de apresentar um fato histórico interessantíssimo: Os evangelho e algumas das cartas neotestamentárias já eram conhecidas por Clemente antes do início do segundo século. Norman Geisler apresenta um quadro de obras citadas por Clemente, e essas obras incluem: Evangelho de Mateus, Marcos e Lucas, as cartas paulinas de 1Coríntios, Efésios, 1Timóteo e Tito além das cartas gerais de Hebreus Tiago e 1Pedro (GEISLER, Norman, Eu não tenho fé suficiente para ser ateu. Vida, 2004, pp.242). Com isso, não temos apenas um testemunho antigo de Cristo, mas também do Novo Testamento.

O que se pode concluir das citações de Clemente é que a visão cristã no fim do primeiro século já havia apresentado claras evidências de consolidação. Para os céticos, esse testemunho parece tendencioso demais, entretanto, é tão antigo que sugere que a mensagem sobre Cristo já havia se alastrado de tal modo pelo mundo antigo que não se pode dizer que Jesus não tenha existido como os próprios documentos não cristãos já atestam.

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