04.24.09
Crítica Textual 1Jo.1.7
Evidências
[Iησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: א (IV) B (V) C (V) P(XI) Ψ (VIII/IX) 323 (XI) 1241 (XII) copsa (III/IV) copbo(ms) (III/IV) Ocid: 630 1505 itl vgst Biz: pc syrp Ind: 945 1739 Clement VM: WH TIS8 ARA NVI
[Ἰησοῦ Χριστοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: A (V) 33 (IX) copbo (III/IV) Ocid: itt (XI) itw (XI) itz (VIII) vgcl (IV) vgww(IV) Biz: Byz syrh* (616)VM: TR Scrivener, Stephanus TMRobertson-Pierpont ARC ARF
[Ἰησοῦ Χριστοῦ] Biz: pc Cassiodorus (580)
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA EXTERNA:
Antes de analisarmos as evidências, é válido demonstrar a razão pela qual Clemente de Alexandria não consta como testemunho do texto alexandrino. Em primeiro lugar, Clemente em seus escritos sobre os evangelhos é reconhecido como favorável a leituras Ocidentais. Em segundo lugar, é verdade que em Atos ele é largamente reconhecido como favorável a leituras Alexandrinas, mas não sabe-se ao certo suas influências nas epístolas católicas. Portanto, aqui considero-o, por zelo, como testemunho não definido no que refere-se a família texto que representa.
As leituras ficam assim divididas: (1) e o sangue de Jesus, seu Filho; (2) e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho; (3) e o sangue de Jesus Cristo.
1. Data:
A. A evidência encontrada aponta para o III século (cf. versões coptas). É válido dizer que é possível que a citação de Clemente favoreça uma leitura até pouco mais antiga, vista já no II século.
B. As versões coptas atestam uma data até no III século.
C. A mais posterior das três é vista a partir do IV século.
D. PARECER: A primeira evidência é favorecida no quesito data.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א) e do Vaticanus (B) em favor da primeira variante reforça sua qualidade.
B. A leitura do Alexandrinus (A) e a vasta maioria de minúsculos bizantinos, parecem favorecer a segunda leitura.
C. Sem credibilidade.
D. PARECER: A primeira leitura aqui parece mais favorável, apesar que o voto da maioria favoreça a segunda.
3. Distribuição Geográfica:
A. A primeira é vista na tradição Alexandrina, Ocidental e Bizantina.
B. O mesmo acontece aqui.
C. Sem distribuição significativa.
D. PARECER: Nesse quesito as duas primeiras são favorecidas.
4. Solidariedade Genealógica:
A. Não há solidariedade..
B. Não há solidariedade, apesar que a maioria Bizantina favoreça essa leitura.
C. Não há solidariedade.
D. PARECER: Nenhuma conclusão pode ser auferida aqui além do descrédito da terceira variante.
5. Parecer Pessoal:
A primeira evidência parece favorável, uma vez que é atestada possivelmente já no segundo século e tem o testemunho do Sinaítico e do Vaticanus em seu favor.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua 1:
A. τOαIμαΙησουτουυIουαυτουκαθαρIζειHμAς
B. τOαIμαΙησουΧριστουτουυIουαυτουκαθαρIζειHμAς
C. τOαIμαΙησουΧριστου( )καθαρIζειHμAς
2. Scripto Contínua 2:
A. τOαIμαΙστουυσαυτουκαθαρIζειHμAς
B. τOαIμαΙσΧστουυσαυτουκαθαρIζειHμAς
C. τOαIμαΙσΧσ( )καθαρIζειHμAς
3. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. A terceira variante pode ter sido causada por uma questão de memória, considerando que Cassiodorus é representante da variante.
4. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
5. Cânones
A. Que leitura explica as demais?
i. É bem possível esperar que “Iησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ” fosse a leitura que originou todas as outras. Assim é possível que alguém acrescesse Χριστοῦ para evidenciar também a messianidade de Cristo, ou alguém pudesse ter retirado τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ para evitar uma redução a compreensão da pessoa de Cristo.
ii. Se a versão com acréscimo de Χριστοῦ é a original, qual seria a razão para excluir o termo do texto? Se o zelo do copista por versões mais azeitadas é verdadeiro, é mais possível que tenha inserido o termo que excluído.
iii. A terceira variante não pode ser a original.
iv. PARECER: É possível que a primeira leitura seja a responsável pelas demais.
B. Qual é a leitura mais difícil? A primeira, pois enfatiza a filiação de Cristo e não sua messianidade. Isso poderia abrir portas para uma interpretação mais minimalista da pessoa de Cristo que as demais, onde a messianidade é explícita e a filiação excluída.
C. Qual é a leitura mais curta? A última.
6. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
A segunda. No verso três vemos a expressão escrita quase da mesma forma que essa variante. No cap.2 verso 1 a leitura com Cristo é presente no texto. Isso sugere que é possível que um copista intencionasse acertar uma leitura onde uma informação supostamente estaria faltando.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
Todas são possíveis por esse critério.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Todas são possíveis.
PARECER FINAL:
Uma vez que o contexto anterior (v.3) e posterior (2.1) usam a nomenclatura completa de Cristo (Ἰησοῦ Χριστοῦ) e o verso (v.3) usa a expressão “τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ ᾿Ιησοῦ” é mais provável que um copista ousasse acrescer (Χριστοῦ) ao verso em pauta do que retirar dele tal informação. A terceira variante é provavelmente resultado de uma citação de memória. É válido dizer que a primeira variante é melhor atestada pela análise das evidências externas.
NOTA CONCEITO: {A}
Crítica Textual 1Jo.1.5
Evidências
[ἀγγελία] Alex: (א*) (IV) א2 (VII) A (V) B (IV) Biz: Byz VM: WH TIS8 TR Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF NVI
[ἐπαγγελία] Alex: C (V) P (XI )33 (IX) 81 (1044) 323 (XI) 1241 (XII) copsa(ms) (III/IV) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 630 (XIV) 1505 (XII) Biz: mss Ind: 69 945 1739 VM: TR Stephanus
[ἀγάπη τῆς ἐπαγγελίας] Alex: א1 (VI/V)Ψ (VIII/IX)
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA EXTERNA:
As leituras ficam assim divididas: (1) essa é a mensagem que da parte dele ouvimos; (2) essa é a promessa que da parte dele ouvimos; (3) esse é o amor da promessa que da parte dele ouvimos. Assim sendo, vamos analisar as evidências que dispomos.
1. Data:
A. A evidência encontrada aponta para o IV século.
B. As versões coptas atestam uma data até no III século.
C. A mais posterior das três é vista a partir do IV século.
D. PARECER: A segunda evidência é favorecida no quesito data.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א), Alexandrino (A) e do Vaticanus (B) em favor da primeira variante reforça sua qualidade. Vale ser dito que a vasta maioria de manuscritos minúsculos bizantinmos favorecem essa leitura
B. A leitura (mista) de C e uma parte dos manuscritos minúsculos bizantinos não parece superar a primeira evidência.
C. A leitura corrigido do Sinaítico aqui, ao invés de acrescer valor a essa variante, desfavorece a primeira..
D. PARECER: A primeira evidência é favorecida, ainda que a leitura do Sinaítico fique dividida..
3. Distribuição Geográfica:
A. A falta de evidências aqui é algo a considerar. O que temos disponível aponta para um texto não muito diverso, contemplando apenas Alexandria e a região Bizantina.
B. A segunda leitura além do alcance da primeira tem evidências no texto Ocidental.
C. Exclusivamente Alexandrina..
D. PARECER: Não é muito sólida a definição nesse quesito, pois as evidências são escassa. Entretanto, há vantagem para a segunda leitura aqui.
4. Solidariedade Genealógica:
A. Não há solidariedade. Entretanto, a maioria Bizantina está favorecida aqui e as consideradas melhores leituras Alexandrinas favorecem essa leitura.
B. O texto Ocidental é sólido em favor da segunda evidência.
C. Não há solidariedade.
D. PARECER: Nenhum conclusão pode ser auferida aqui além do descrédito da terceira variante.
5. Parecer Pessoal:
Até aqui a segunda leitura parece ser a leitura mais favorável, muito embora essa decisão não possa ser auferida com facilidade ou grande grau de certeza até aqui.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua :
A. ΚαIαUτηEστIνHαγγελIαHνAκηκoαμενAπαUτοU
B. ΚαIαUτηEστIνHEπαγγελίαHνAκηκoαμενAπαUτοU
C. ΚαIαuτηEστIνHAγAπητHςEπαγγελIαςHνAκηκoαμενAπαUτοU
2. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. Não parece a ocasião em que a memória poderia ser responsável pela variante.
3. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
4. Cânones
A. Que leitura explica as demais?
i. Se ἀγγελία era a leitura original, é possível que alguém procurasse acertar o substantivo com o uso verbal no contexto anterior (ἀπαγγέλλομεν – 2x) acrescendo uma preposição ao mesmo.
ii. O mesmo não poderia ser dito dessa variante, pois a remoção da preposição parece não ser necessária aqui, até por que pouco à frente o mesmo termo é utilizado (2.25).
iii. O acréscimo de ἀγάπη aqui não parece nada natural ao texto, e provavelmente uma adaptação da segunda variante.
iv. PARECER: É possível que a primeira leitura seja a responsável pelas demais.
B. Qual é a leitura mais difícil? A terceira.
C. Qual é a leitura mais curta? A primeira.
5. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
A primeira.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
As duas primeiras são possíveis, mas considerando a ocasião em que aparece, a primeira é favorecida.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Indiferente
PARECER FINAL:
A terceira leitura é certamente a menos provável. Já a disputa entre ἀγγελία e ἐπαγγελία é bem acirrada. Entretanto, considerando o contexto, onde o foco está sobre o que foi ouvido e ao anúncio dessa verdade, tendo a preferir a leitura ἀγγελία.
NOTA CONCEITO: {B}
Crítica Textual 1Jo.1.4b
Evidências
[ἡμῶν] Alex: א (IV) B (IV) Ψ (VIII/IX) 181 (XI) 322 (XV) 326 (XII) 1175 (XI) 1241 (XII) 1409 (XIV) copsa (III/IV) Ocid: itar (XI) itp (VII) itt(pt) (XI) itz (VIII) vgww (IV) vgst (IV) Cæs: geo (V) Biz: L (IX) 049 (IX) 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) pm (V) Lect (IX) Ps-Oecumeniuscomm (VI) Theophylactcomm(1077) Ind: 69 VM: TRStephanus TMRobertson-Pierpont TIS8 WH UBS4 NA27 ARA NVI
[ὑμῶν] Alex: A (V) C (V) P (IX) 6 (XIII) 33 (IX) 81 (1044) 104 (1087) 323 (XI) 330 (XII) 442 (XIII) 451 (XI) 1241 (XII) 1735 (XI/XII) 2298 (XI) 2344 (XI) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (1072) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (XI) itc (XII/XIII) itdem (XIII) itdiv (XII) itt(pt) (XI) vgcl (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) Biz: K (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 5 (XIV) 468 (XIII) 1844 (XV) 1877 (XIV) l422 (XIV) l598 (XI) l938 (XIII) l1021(XII) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumeniustext (VI) Theophylacttext (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRScrivener ARC ARF
[ἡμῶν ἐν ὑμῖν] Biz: syrp (V)
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA EXTERNA:
As evidências textuais nessa disputa mostram que ainda que exista uma alteração, nesse caso ela não é significativa. As leituras ficam assim divididas: (1) vos escrevemos para que nossa alegria seja completa; (2) vos escrevemos para que vossa alegria seja completa; (3) vos escrevemos para que nossa alegria em vós seja completa. Assim sendo, vamos analisar as evidências que dispomos.
1. Data:
A. A primeira variante tem testemunhos antigos (IV), como a versão Copta Sahídica datada entre o III e IV século, o que exige uma leitura existente no século III.
B. A segunda variante em geral é atestada a partir do quinto século, entretanto a versão Copta Bohahírica do III e IV século exige uma leitura já no terceiro século.
C. A terceira variante é do quinto século, e encontrada apenas nessa época.
D. PARECER: No quesito data, as duas primeiras as evidências são atestadas entre o III e IV século em versões egípcias o que sugere que ambas as leituras podem ser datadas com alguma segurança no terceiro século. Já a terceira é largamente desfavorecida.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א) e do Vaticanus (B) em favor da primeira variante reforça sua qualidade.
B. A leitura do Alexandrino (A) e (C) também atestam alguma qualidade a essa leitura.
C. Apesar da Peshita favorecer essa leitura, ela não pode ser considerada como válida por ser única.
D. PARECER: As duas primeiras têm representações significativas, entretanto a presença do Sinaítico e do Vaticanus credita valor a primeira leitura.
3. Distribuição Geográfica:
A. A primeira variante é conhecida na Tradição Alexandrina e Bizantina e algumas aparições no Texto Ocidental. A versão Georgiana do século V atesta que essa versão de texto esteve presente anteriormente na região e sua presença aqui atesta sua credibilidade.
B. A segunda variante é geograficamente atestada em todas as regiões. Da mesma forma que a versão Georgiana, a Armena parece significativa aqui.
C. A terceira variante é única no texto Bizantino.
D. PARECER: Há empate técnico entre as duas primeiras.
4. Solidariedade Genealógica:
A. Não há solidariedade.
B. Não há solidariedade.
C. Não há solidariedade.
D. PARECER: Nenhum conclusão pode ser auferida aqui além do descrédito da terceira variante.
5. Parecer Pessoal:
Considerando que data e geografia parecem favorecer em igualdade as duas primeiras variantes e a solidariedade a nenhuma favorece, no quesito qualidade a primeira parece ser a mais favorável.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua:
A. γρλφομενYμIνIνλHχλρλHμωνHπεπληρωμEνη
B. γρλφομενYμIνIνλHχλρλYμωνHπεπληρωμEνη
C. γρλφομενYμIνIνλHχλρλHμωνENYμIνHπεπληρωμEνη
2. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. Não parece a ocasião em que a memória poderia ser responsável pela variante.
3. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
4. Cânones
A. Que leitura explica as demais? Considerando as duas primeiras, o movimento pode ter ocorrido de ambos os lados.
i. Se a primeira leitura fosse a original, ela poderia ter sido adaptada para a segundo por influência de Jo.16.24.
ii. Se a segunda leitura fosse a original, ela poderia ter sido adaptada para a primeira por influência de 3Jo.1.4.
iii. A terceira é certamente a tentativa de harmonizar ambas as leituras e por isso não merecer qualquer crédito.
iv. PARECER: Aqui não é possível chegar a uma definição entre as duas primeiras.
B. Qual é a leitura mais difícil? Nesse caso essa regra não se aplica.
C. Qual é a leitura mais curta? Nesse caso essa regra não se aplica.
5. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
Indiferente.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
As duas primeiras são possíveis.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Indiferente
PARECER FINAL:
A disputa entre as duas primeiras variantes (ἡμῶν: nossa/ὑμῶν: vossa) é bem acirrada, muito embora que a primeira tenha alguma primazia. Em primeiro lugar por que a segunda variante pode ter sido tomada de Jo.16.24 pela similaridade entre os dois versos. Em segundo lugar, a unanimidade de testemunho do Sinaítico e do Vaticano favorece a primeira variante. Em terceiro lugar a disputa copta, embora ateste a existência das duas leituras em períodos próximos ou até anteriores ao do Sinaítico e Vaticano, não pode definir a questão, pois tratam-se de versões. E finalmente, é digno de nota que essa é a leitura adotada pelo NA27 e o UBS4, com largo apoio dos dois comitês. Assim, reconheço a primazia da primeira leitura sobre a segunda.
NOTA CONCEITO: {B}
Crítica Textual 1Jo.1.4a
Evidências
[ὑμῖν] Alex: Ac (V) 048 (V) 81 (XI) 104 (XI) 181 (XI) 322 (XV) 323 (XI) 326 (XII) 330 (XII) 451 (XI) 1175 (XI) 1241 (XII) 1243 (XI) 1409 (XIV) 1735 (XI/XII) 2298 (IX) 2344 (XI) copsa(ms) (III/IV) copbo(III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (XI) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (IX) itc (XII/XIII)itdem (XIII) itdiv (XII) itp (VII) itt (XI) vg (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) geo (V) Biz: K (IX) L (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) 1844 (XV)1877 (XIV) Lect (IX) syrp (V) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumenius (VI) Theophylact (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRStephanus, Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF
[ἡμεῖς] Alex: א (IV) A*vid (V) 0042 (IV) C (V) P (IX) Ψ (VIII/IX) 33 (IX) copsa(mss) (III/IV) Ocid: itz VM: TIS8 WH UBS4 NA27 NVI
Análise da Evidência Externa
As evidências textuais nessa disputa mostram que ainda que exista uma alteração, nesse caso ela não é significativa. As leituras ficam assim divididas: (1) Essas coisas nós escrevemos para que… (2) Essas coisas vos escrevemos para que… Assim sendo, vamos analisar as evidências que dispomos.
1. Data:
A. A primeira variante tem testemunhos antigos, como a versão Copta Sahídica datada entre o III e IV século.
B. A segunda variante em geral é posterior, entretanto tem dois testemunhos que atestam sua antiguidade: a versão copta Sahídica e a Bohahírica, ambas do III e IV século.
C. PARECER: No quesito data, ambas as evidências são atestadas entre o III e IV século, muito embora esse testemunho divide o tipo texto alexandrino na versões.
2. Qualidade:
A. A presença da leitura do Sinaíticus (א) em favor da primeira variante reforça sua qualidade.
B. Já a leitura dividida do Alexandrino (A) atesta a divisão de leitura no tipo Alexandrino. Outro detalhe é que a vasta maioria de manuscritos posteriores acompanha essa leitura.
C. PARECER: Uma vez mais a leitura Alexandrina mostra-se dividida, e portanto sua credibilidade qualitativa é abalada. Se a alteração de A é uma correção ou corrupção não pode-se afirmar com certeza por ora, entretanto nota-se a maioria favorável à segunda variante.
3. Distribuição Geográfica:
A. A primeira variante é limitada aos testemunhos Alexandrinos, com uma leitura considerada Ocidental, entretanto tardia.
B. A segunda variante é geograficamente atestada em todas as regiões, exceto as escassas evidências no tipo Cesareano que atestam sua antiguidade em outras regiões.
C. PARECER: A segunda variante em distribuição é favorecida.
4. Solidariedade Genealógica:
A. A primeira evidência é vista de modo mais forte no tipo texto alexandrino, mas tal tipo está dividido entre as duas leituras.
B. A segunda evidência tem solidariedade no tipo texto Bizantino e Ocidental (exceto por uma versão).
C. PARECER: A segunda variante é largamente favorável.
5. Parecer Pessoal:
A análise de evidência externa suporta com facilidade a segunda leitura, visto que à exceção da disputa de data, todas as outros análises atestam o favorecimento da segunda. Por ora, a segunda variante parece mais atestada.
ANÁLISE DA EVIDÊNCIA INTERNA:
1. Scripto Contínua:
A. ΚλIΤλUΤλΓΡλΦΟΜΕΝHΜEIΣIΝλHΧλΡλ
B. ΚλIΤλUΤλΓΡλΦΟΜΕΝYΜIΝIΝλHΧλΡλ
2. Alterações não-intencionais:
A. Não se pode atribuir as variantes à scripto contínua.
B. Não parece ser um erro homoiarkon, homoioteuton, haplografia ou de ditografia.
C. Não parece ter sido um problema de audição/acústica.
D. Também não parece um erro de juízo.
E. Não parece a ocasião em que a memória poderia ser responsável pela variante.
3. Alterações intencionais:
A. Não parece um erro de gramática, embora é possível que a alteração da primeira para a segunda fosse justificada textualmente, pois seria a leitura esperada do texto.
B. Não parece um erro de ortografia.
C. Não parece um caso de geografia, história ou estilo.
D. Não é uma crase, glosa ou tentativa de harmonia com outra passagem na LXX ou de outro lugar no NT.
E. Certamente não é o caso de problema teológico.
4. Cânones
A. Que leitura explica as demais?
i. A primeira leitura não parece necessária, pois o verbo a quem está associada já faria sua parte.
ii. A segunda leitura parece um complemento necessário ao verbo, uma vez que o sujeito está implícito.
iii. PARECER: Uma vez que julga-se normal o procedimento do copista em tornar o texto mais polido e que o tipo Bizantino carrega tal característica, pode-se esperar que a segunda leitura seja uma adaptação ao texto. Entretanto, deve-se perguntar por que razão o autor não poderia ter escrito de modo mais polido que a alteração de um copista descuidado?
B. Qual é a leitura mais difícil?
i. Como já mencionado a leitura mais difícil é a primeira leitura.
C. Qual é a leitura mais curta? Nesse caso essa regra não se aplica.
5. Evidências Intrínsecas
A. Qual é a leitura mais coerente com o contexto imediato?
A segunda.
B. Qual é a leitura mais coerente com o estilo, vocabulário e o propósito do escritor?
No contexto imediato, a segunda.
C. Qual é a leitura mais coerente com a teologia do autor?
Indiferente
PARECER FINAL:
Ao que tudo indica a leitura ὑμῖν é mais amplamente suportada pela evidência externa ao passo que a análise de evidência interna pareça favorecer ἡμεῖς, ainda que com alguma disputa nas evidências intrínsecas. O comitê do UBS da quarta edição favorece a leitura ἡμεῖς por acreditar que o texto esperado seria γράφομεν ὑμῖν como acontece com outros verbos no contexto (ἐφανερώθη ἡμῖν; ἀπαγγέλλομεν ὑμῖν) (cf. METZGER, Bruce, A Textual Commentary on the Greek New Testament). Entretanto, considerando o contexto imediato, tendo a aceitar ὑμῖν como a leitura mais acertada, ainda que com grande dificuldade de definição.
NOTA CONCEITO: {C}
1João 1.5-2.2 – Tradução e Crítica Textual
Certeza Obtida pelo Caminhar na Luz
5 Καὶ αὕτη ἐστὶν ἡ ἀγγελία[a] ἣν ἀκηκόαμεν ἀπ᾿ αὐτοῦ καὶ ἀναγγέλλομεν ὑμῖν, ὅτι ὁ Θεὸς φῶς ἐστι καὶ σκοτία ἐν αὐτῷ οὐκ ἔστιν οὐδεμία.
5 Esta é a mensagem que da parte dele ouvimos e anunciamos a vocês: Deus é luz e nele não existe escuridão nenhuma.
6 ἐὰν εἴπωμεν ὅτι κοινωνίαν ἔχομεν μετ᾿ αὐτοῦ καὶ ἐν τῷ σκότει περιπατῶμεν, ψευδόμεθα καὶ οὐ ποιοῦμεν τὴν ἀλήθείαν·
6 Se dissermos: Temos comunhão com Ele e andarmos no pecado, mentimos e não praticamos a verdade.
7 ἐὰν δὲ ἐν τῷ φωτὶ περιπατῶμεν, ὡς αὐτός ἐστιν ἐν τῷ φωτί, κοινωνίαν ἔχομεν μετ᾿ ἀλλήλων, καὶ τὸ αἷμα b᾿Ιησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ[b] καθαρίζει ἡμᾶς ἀπὸ πάσης ἁμαρτίας.
7 Porém, se andarmos na luz como Ele está na luz, temos comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado.
8 ἐὰν εἴπωμεν ὅτι ἁμαρτίαν οὐκ ἔχομεν, ἑαυτοὺς πλανῶμεν καὶ ἡ ἀλήθεια οὐκ ἔστιν ἐν ἡμῖν.
8 Se dissermos: Não temos pecado, a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós.
9 ἐὰν ὁμολογῶμεν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν, πιστός ἐστι καὶ δίκαιος, ἵνα ἀφῇ cἡμῖν τὰς ἁμαρτίας[c] καὶ καθαρίσῃ ἡμᾶς ἀπὸ πάσης ἀδικίας.
9 Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.
10 ἐὰν εἴπωμεν ὅτι οὐχ ἡμαρτήκαμεν, ψεύστην ποιοῦμεν αὐτόν, καὶ ὁ λόγος αὐτοῦ οὐκ ἔστιν ἐν ἡμῖν.
10 Se dissermos: não temos praticado pecado, fazemos Dele um mentiroso e sua palavra não está em nós.
2 Τεκνία μου, ταῦτα γράφω ὑμῖν ἵνα μὴ ἁμάρτητε· καὶ ἐάν τις ἁμάρτῃ, παράκλητον ἔχομεν πρὸς τὸν πατέρα, ᾿Ιησοῦν Χριστὸν δίκαιον·
2 Meus filhinhos, escrevo-lhes essas coisas para que vocês não pequem, mas se alguém pecar temos [Aquele que auxilia] ante ao Pai, Jesus Cristo Justo.
2 καὶ αὐτὸς ἱλασμός ἐστι περὶ τῶν ἁμαρτιῶν ἡμῶν, οὐ περὶ τῶν ἡμετέρων δὲ μόνον, ἀλλὰ καὶ περὶ ὅλου τοῦ κόσμου.
2 e Ele é a propiciação dos nossos pecados, e não apenas dos nossos, mas também de todo o mundo.
[a] {B}[ἀγγελία] Alex: (א*) (IV) א2 (VII) A (V) B (IV) Biz: Byz VM: WH TIS8 TR Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF NVI || [ἐπαγγελία] Alex: C (V) P (XI )33 (IX) 81 (1044) 323 (XI) 1241 (XII) copsa(ms) (III/IV) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 630 (XIV) 1505 (XII) Biz: mss Ind: 69 945 1739 VM: TR Stephanus || [ἀγάπη τῆς ἐπαγγελίας] Alex: א1 (VI/V)Ψ (VIII/IX)
[b] {A}[Iησοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: א (IV) B (V) C (V) P(XI) Ψ (VIII/IX) 323 (XI) 1241 (XII) copsa (III/IV) copbo(ms) (III/IV) Ocid: 630 1505 itl vgst Biz: pc syrp Ind: 945 1739 Clement VM: WH TIS8 ARA NVI || [Ἰησοῦ Χριστοῦ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ] Alex: A (V) 33 (IX) copbo (III/IV) Ocid: itt (XI) itw (XI) itz (VIII) vgcl (IV) vgww(IV) Biz: Byz syrh* (616)VM: TR Scrivener, Stephanus TMRobertson-Pierpont ARC ARF|| [Ἰησοῦ Χριστοῦ] Biz: pc Cassiodorus (580)
[c] {A}[ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας] Biz: Byz VM: WH TIS8 TR Scrivener TR Stephanus TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF NVI || [ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν] Alex: א C Ψ 81 Ocid: 614 630 1505 1852 vgcl vgww Biz: 623 al Ind: 2464 syr
1João 1.1-4 – Tradução e Crítica Textual
Prólogo
1 ῝Ο ἦν ἀπ᾿ ἀρχῆς, ὃ ἀκηκόαμεν, ὃ ἑωράκαμεν τοῖς ὀφθαλμοῖς ἡμῶν, ὃ ἐθεασάμεθα καὶ αἱ χεῖρες ἡμῶν ἐψηλάφησαν, περὶ τοῦ λόγου τῆς ζωῆς·
1 O que era desde o princípio, o que nós ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam, com respeito ao verbo da vida
2 – καὶ ἡ ζωὴ ἐφανερώθη, καὶ ἑωράκαμεν καὶ μαρτυροῦμεν καὶ ἀπαγγέλλομεν ὑμῖν τὴν ζωὴν τὴν αἰώνιον, ἥτις ἦν πρὸς τὸν πατέρα καὶ ἐφανερώθη ἡμῖν· -
2 – e a vida foi manifestada, nós vimos, testemunhamos e anunciamos a vocês a vida eterna que estava com Deus e foi manifestada a nós -
3 ὃ ἑωράκαμεν καὶ ἀκηκόαμεν, ἀπαγγέλλομεν ὑμῖν, ἵνα καὶ ὑμεῖς κοινωνίαν ἔχητε μεθ᾿ ἡμῶν καὶ ἡ κοινωνία δὲ ἡ ἡμετέρα μετὰ τοῦ πατρὸς καὶ μετὰ τοῦ υἱοῦ αὐτοῦ ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ.
3 o que vimos e ouvimos anunciamos a vocês, a fim de que tenham comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo.
4 καὶ ταῦτα γράφομεν ὑμῖν[i], ἵνα ἡ χαρὰ ἡμῶν[ii] ᾖ πεπληρωμένη.
4 Essas coisas escrevemos a vocês para que nossa alegria seja completa.
[i] {C} [ὑμῖν] Alex: Ac (V) 048 (V) 81 (XI) 104 (XI) 181 (XI) 322 (XV) 323 (XI) 326 (XII) 330 (XII) 451 (XI) 1175 (XI) 1241 (XII) 1243 (XI) 1409 (XIV) 1735 (XI/XII) 2298 (IX) 2344 (XI) copsa(ms) (III/IV) copbo(III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (XI) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (IX) itc (XII/XIII)itdem (XIII) itdiv (XII) itp (VII) itt (XI) vg (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) geo (V) Biz: K (IX) L (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) 1844 (XV)1877 (XIV) Lect (IX) syrp (V) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumenius (VI) Theophylact (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRStephanus, Scrivener TMRobertson-Pierpont ARA ARC ARF|| [ἡμεῖς] Alex: א (IV) A*vid (V) 0042 (IV) C (V) P (IX) Ψ (VIII/IX) 33 (IX) copsa(mss) (III/IV) Ocid: itz VM: TIS8 WH UBS4 NA27 NVI
[ii] {B} [ἡμῶν] Alex: א (IV) B (IV) Ψ (VIII/IX) 181 (XI) 322 (XV) 326 (XII) 1175 (XI) 1241 (XII) 1409 (XIV) copsa (III/IV) Ocid: itar (XI) itp (VII) itt(pt) (XI) itz (VIII) vgww (IV) vgst (IV) Cæs: geo (V) Biz: L (IX) 049 (IX) 88 (XII) 436 (XI) 1067 (XIV) pm (V) Lect (IX) Ps-Oecumeniuscomm (VI) Theophylactcomm(1077) Ind: 69 VM: TRStephanus TMRobertson-Pierpont TIS8 WH UBS4 NA27 ARA NVI|| [ὑμῶν] Alex: A (V) C (V) P (IX) 6 (XIII) 33 (IX) 81 (1044) 104 (1087) 323 (XI) 330 (XII) 442 (XIII) 451 (XI) 1241 (XII) 1735 (XI/XII) 2298 (XI) 2344 (XI) copbo (III/IV) Ocid: 614 (XIII) 629 (XIV) 630 (XIV) 1292 (XIII) 1505 (XII) 1611 (XII) 1852 (XIII) 2138 (1072) 2412 (XII) 2495 (XIV/XV) itar (XI) itc (XII/XIII) itdem (XIII) itdiv (XII) itt(pt) (XI) vgcl (IV) Augustine (430) Cæs: arm (V) Biz: K (IX) 056 (X) 0142 (X) Byz 5 (XIV) 468 (XIII) 1844 (XV) 1877 (XIV) l422 (XIV) l598 (XI) l938 (XIII) l1021(XII) syrpal (VI) syrh (616) eth (VI) slav (IX) Bede (735) Ps-Oecumeniustext (VI) Theophylacttext (1077) Ind: 945 1739 1881 2464 VM: TRScrivener ARC ARF || [ἡμῶν ἐν ὑμῖν] Biz: syrp (V)
A Mensagem dos Apóstolos (1Jo.1.1-4)
O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida. A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada. Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa
1João 1.1-4
Nos primeiros versos dessa epistolo podemos encontrar o cerne da mensagem apostólica, e com ela nos ocupamos nesse estudo. Mesmo em uma leitura superficial podemos perceber um pouco as intenções de João ao escrever o que escreve. Em primeiro lugar podemos notar que o teor da escrita carrega uma alta dose de defesa da fé. A pessoa de Cristo tem lugar central nessa mensagem e sua adequada compreensão tem fundamental importância para João.
É possível que algumas das teorias sobre Cristo bem conhecidas no segundo século já fossem incipientes no fim do primeiro. A julgar pelo que João escreve aqui, acreditamos que ele expõe a compreensão correta de Cristo em oposição aos ensinos de Cerinto, um herege, que ensinou que Jesus era humano, mas ao ser batizado, o “Cristo” na forma de pomba, desceu sobre ele. Na cruz, o “Cristo” o deixou, e ele morreu sozinho, como homem. Entretanto, o que vemos nessa introdução está bem longe de conformar-se com essa idéia. Sobre Cerinto Stott disse:
“Demonstra-se ao seguidores de Cerinto que ‘a Palavra da Vida’ o evangelho de Cristo, tem que ver com a encarnação história do Filho Eterno. Aquele que é desde o princípio é Aquele a quem os apóstolos ouviram, viram e tocaram. É impossível distinguir entre Jesus e o Cristo, entre o histórico e o eterno” (Introdução e Comentário de 1João, pp.53).
É bem possível também que nessa introdução, João também combatesse aquilo que tem-se chamado proto-gnosticismo. Essa nomenclatura é devida ao fato de que o gnosticismo como religião/filosofia é bem conhecida a partir da segunda metade do segundo século. Entretanto, a forma como os autores neotestamentários atacaram idéias, que posteriormente foram identificadas com o gnosticismo, faz com que alguns acadêmicos acreditem que o gnosticismo já estava em formação no fim do primeiro século. De qualquer forma, o gnosticismo quando falou sobre Cristo o fez de vários modos: (1) seja na separação do Cristo (espiritual) e do Jesus (físico); (2) seja no não reconhecimento de sua humanidade, eles apresentavam um Cristo que não estava de acordo com a verdade. E parece que João dedica sua introdução epistolar para apresentar a perfeita harmonia que existe na pessoa de Cristo.
Outro grupo que poderia ser foco dessa introdução-apologética seriam os docéticos, movimento que margeou o cristianismo e defendia que Cristo não era humano, apenas parecia humano. O nome docético, provém do termo grego “dokéö” que significa parecer. Nessa breve introdução vemos que João claramente diz ter tocado em Cristo, o que confronta diretamente com a idéia docética de Cristo.
O ponto comum entre todas essas visões alternativas de Cristo era sua resistência ao conceito da encarnação do Verbo, tema importantíssimo na teologia de João. Influenciados pela mentalidade grega de que a matéria é má, eles não poderiam aceitar que o Logos, Cristo pudesse encarnar-se. Assim, rejeitavam o verdadeiro Cristo. Outro ponto de similaridade entre eles é que todos eles não eram testemunhas oculares da pessoa de Cristo, apenas haviam recebido a informação de terceiros. É bem possível que a partir desse ponto aproximaram suas crenças a novas informações e construíram sua própria versão de Cristo.
Deve ser por isso que João chama para os apóstolos a missão de proclamar a verdade sobre quem esse Cristo de fato é. Observe que em sua introdução João fala na primeira pessoa do plural o que nos faz pensar que ele não fala exclusivamente de si mesmo, mas do corpo de apóstolos autorizados da parte de Cristo para carregarem a verdade sobre quem Ele é. Observe que segundo essa introdução João diz que a vida manifestou-se, o que sugere que Ele fale do voluntariado de Cristo em tornar-se conhecido em forma humana. Mas, pouco a frente ele completa: “a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada“. Essa manifestação teve um alvo particular segundo João, e os apóstolos é que foram os receptores dessa manifestação em primeira mão. Eles são os que tinham convivido com Cristo; eles que haviam ouvido seus ensinamentos; e parece que João quer transparecer um pouco desse fato para combater visões erradas sobre quem Cristo é.
Contudo, mais interessante que isso é saber que agora esses apóstolos enviados da parte de Cristo são comissionados para transmitir essa verdade a nós: “nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês“. É bem verdade que a expressão em negrito nesse verso trata-se dos leitores primários da carta, mas a manutenção histórica da mesma preserva seu testemunho e agora nós podemos desfrutar do relato de uma testemunha ocular de Cristo, que certamente pode dar um testemunho muito mais acurado sobre a verdade.
Corrobora com essa idéia os verbos empregados por João para descrever a ação apostólica: “nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês“. O termo grego para testemunhar é “marturéö” que expressa a idéia de (1) um testemunho que tem autoridade proveniente de experiência pessoal que é (2) próprio daquele que presencia algo (por isso os termos ver, ouvir e apalpar) e (3) por isso o que fala é de primeira mão. Ele não é um intermediária da verdade, ele mesmo foi um expectador dos fatos e testemunha do que experimentou (viu, ouviu).
Com idéia complementar a essa, o termo grego para “proclamar” é “apaggaléö”. Esse termo tem uma conotação um pouco mais formal que o anterior pois carrega a idéia de (1) autoridade proveniente de uma comissão, que é próprio daquele que foi (2) selecionado, autorizado e enviado para levar uma mensagem ou notícia. Isso implica que o mensageiro não fala daquilo que lhe é próprio, mas daquilo que recebeu do Seu Senhor. Quando João faz uso desse termo, ao mesmo tempo que confirma sua autoridade no assunto transfere o peso da veracidade do conteúdo ao Seu Senhor, pois sua mensagem não é propriamente sua, mas do próprio Cristo a quem ele anuncia.
Ou seja, essa introdução epistolar apresenta um João que tem apresso pelo conceito correto de Cristo, O testemunha por tê-lo conhecido pessoalmente e o proclama por ter sido comissionado pelo próprio Senhora a fazer isso.
Feitas nossas considerações preliminares, podemos então observar o texto com um pouco mais de atenção e confiança, pois sabemos que o que chega em nossas mãos é impregnada pela autoridade do apóstolo, cujo foco é bem definido e seu objetivo é claro.
A. Autoridade: Baseado em Experiência Pessoal com Cristo
Uma das acusações que é sempre feita sobre o testemunhos dos apóstolos é sobre sua confiabilidade. Como podemos receber essas informações como verdadeiras se os apóstolos podem ter sido desonestos em sua transmissão? Será que ele mesmo esteve por perto de Cristo? Seriam eles testemunhas oculares de fato?
Esse é um tipo comum de ataque aos relatos dos apóstolos nos nossos dias, mas não é restrito a ele de modo nenhum. Já nos primeiros séculos da EC (era comum) os que se opunha a fé atacam esse ponto. Veja a acusação feita por Porfírio:
“Os evangelistas eram escritores de ficção – não observadores oculares da vida de Jesus. Cada um dos quatro contradiz o outro ao escrever o próprio relato dos acontecimentos de seu sofrimento e crucificação”
Isso não era incomum, mesmo na era apostólica. Vemos que Paulo teve que defender seu apostolado algumas vezes em seus escritos. Há ainda quem diga que o próprio livro de Atos tem um propósito de defesa do apostolado de Paulo ao investir tanto tempo em contar suas histórias e apresentar situações que são tão similares a que Pedro vivencia.
Mas, o que é certo é que o próprio Paulo fez isso na introdução a sua carta aos gálatas: “Paulo, apóstolo enviado, não da parte de homens nem por meio de pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos“. (Gl.1.1).
João de modo similar em sua introdução diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1Jo.1.1). Mas, que será que João teria ouvido, visto, contemplado e apalpado que merecia tanta atenção no início de sua carta? Há certo debate teológico sobre o assunto, mas entendo que trata-se da Palavra da Vida, que é uma referência a Cristo. Considerando isso, vamos lançar mão dos testemunho sobre Cristo que João já havia escrito sobre Cristo e vamos observar o que ele poderia ter presenciando diretamente do Verbo da vida.
1. Ouvimos
Dentre tantas coisas que João poderia ter ouvido de Cristo, vamos ressaltar nesse tópico algumas dessas que tiveram direta ligação com sua carta:
- 1. Amor: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (Jo.13.34). Mensagem que foi retransmitida a seus leitores e a nós: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros” (1Jo.3.11).
- 2. Exclusividade de Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo.14.6). “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1Jo.5.1).
- § Unidade entre o Pai e o Filho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). “Todo aquele que nega o filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai” (1Jo.2.23)
2. Vimos
João também presenciou fatos na vida de Jesus, não apenas o ouvir falar sobre a vida, mas viu a Vida manifesta. Abaixo ressaltamos apenas alguns para exemplificar:
- § Milagres: João teria presenciado pessoalmente os milagres que Jesus efetuou: “Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar” (Jo.5.8-9)
- § Quebra de Paradigmas: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?” (Jo.4.9). É bem verdade que João não estava no exato momento em que essa frase foi dita, mas ele presencia o que Cristo teria feito ao insistir na conversa com uma mulher samaritana de baixa reputação.
- § Salvação de Samaritanos: “E por causa da sua palavra, muitos outros creram. E disseram à mulher: “Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo” (Jo.4.41-42; cf. 1Jo.4.14).
- § Morte: “Tendo-o provado, Jesus disse: “Está consumado!” Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (Jo.19.30; cf. 1Jo.4.10).
3. Contemplaram
- § Manifestação da Vida: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1.14)
- § Amor: “Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo.13.1)
- § Serviço do Líder: “assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura” (Jo.13.4-5).
4. Apalparam
A expressão de João ao falar que teria apalpado a Cristo é significativa nessa introdução pois é exatamente a mesma palavra que Lucas usa para descrever Cristo ressurreto: “Vejam as minhas mãos e os meus pés. Sou eu mesmo! Toquem-me e vejam; um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho” (Lc. 24.39).
A proximidade em que João estava de Cristo o permitiu aprender direto da fonte da Vida, princípios fundamentais para a fé Cristã, que ele fez questão de retransmitir. Entretanto, isso só nos mostra que João estava por perto, mas não nos dá indicativos de quão perto ele teria estado de Cristo. Por isso é importante ressaltar duas informações que resgatamos do evangelho de João:
- 1. O modo como João era reconhecido por Cristo: João era conhecido como “o discípulo a quem Cristo amava“. Isso supõe que sua proximidade com Cristo era tamanha que, entre os escolhidos para estar com Cristo, João parecia ter uma proximidade ainda maior.
- 2. Responsabilidade familiar assumida por João: “Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: “Aí está o seu filho”, e ao discípulo: “Aí está a sua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua família” (Jo.19.26-27). João estava próximo de Cristo até mesmo na hora de sua morte, e sua proximidade era tal que Jesus confia sua família a ele.
O que percebemos aqui é que João não era alguém que andava ao redor de Cristo, era alguém de Seu relacionamento íntimo e pessoal. Ou seja, o testemunho dele é regado por autoridade. E mais importante, o que ouviu transmitiu.
Outro ponto interessantíssimo é que João também apresenta o modo como essas informações sofram transmitidas: “Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo.1.3) Além de ter visto e ouvido o que transmite, essa transmissão também atinge um novo estágio, pois foi também redigida: “Escrevemos estas coisas para que a vossa alegria seja completa”. Essa é uma consideração importante, pois a autoridade que João tem para falar sobre Cristo, por ter estado tão próximo Dele, atinge agora um novo modo de transmissão: a escrita. Da mesma forma como esse autor é autorizado por Cristo para transmitir, anunciar e proclamar a Sua mensagem, ele também é autorizado a deixar seu relato escrito sobre a verdade, debaixo da mesma autorização. Portanto, a autoridade de João como Testemunha e Anunciador é vista na sua participação pessoal com Cristo e na comissão de Cristo para sua tarefa.
B. Foco: Centrado na Pessoa de Cristo
Dentre tantas coisas que o apóstolo poderia incumbir-se por anunciar, ele tem a intenção de transmitir o que é mais importante: Cristo. Uma importante observação deve ser feita aqui: Considerando que o autor escreve já na sua velhice (2Jo.1; 3Jo.1), que ele é o último apóstolo vivo e que as visões divergentes sobre Cristo já haviam surgido com alguma intensidade era necessário que alguém deixasse instruções autorizadas sobre a verdadeira concepção da pessoa de Cristo. É opinião de alguns teólogos que Deus teria permitido a João ter chegado tão perto do início do segundo século para ser um mensageiro confiável da verdade sobre Cristo a fim de purificar a igreja da ação dos hereges.
Tal foco na mensagem apostólica é visto já no início na carta de João: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito do Verbo da vida” (1Jo.1.1).
Tal foco pode ser bem observado por toda sua carta: As implicações sobre a vida cristã estão fundamentadas em Cristo (2.4-6), a exortação contra os falsos mestres é centrada na concepção correta da pessoa de Cristo (2.18-23; 5.6, 9), a prática do amor entre os cristão está fundamentado na Obra de Cristo a nosso favor (3.16), a centralidade da fé cristã está em Cristo (3.23; 4.2-3; 4.14-15; 5.1, 5; 5.11-12; 5.20), a manifestação do amor de Deus é reconhecida na auto-doação de Cristo em nosso benefício (4.9-10) entre outras considerações sobre Cristo.
O que podemos perceber com clarividência nas colocações de João nos primeiros versos de sua carta é que ele está interessado em apresentar a manifestação histórica de Cristo, bem como sua Pessoa tal como expressa pela verdade.
A expressão Verbo da Vida usada no fim do primeiro verso tem sido entendida de várias formas: (1) Um grupo significativo de comentaristas tem visto aqui uma indicação das escrituras (Palavra viva); (2) outros tem visto como uma descrição de Cristo (Verbo vivo). Particularmente, tendo a crer que João aqui faz menção a Cristo, e portanto, o uso de “logou tes zoes” acresce uma descrição a Cristo já conhecida no evangelho de João. Essa opção é corroborada pelo uso dos verbos ver, ouvir, contemplar e apalpar encontrados no mesmo verso.
É bem verdade que João quando fala sobre o “Logos” ele não usa em relação com a palavra “zoe“, muito embora esse conceito seja conhecido no evangelho: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo.1.4). Em sua introdução ao evangelho o autor reconhece que o “Logos“, Cristo é o portador da vida. Mas, é fundamental reconhecer aqui que essa idéia é expressa pelo próprio Cristo: “Disse-lhes Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra viverá” (Jo.11.25). Em outro lugar também lemos: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo.14.6). Desse modo, não seria um desvio interpretativo considerar que João em sua epístola sintetize duas informações teológicas comuns em seu evangelho na introdução de sua primeira epístola.
Entretanto, a ênfases de João aqui é sobre a manifestação da vida: “e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo.1.2). Considerando que o foco aqui repousa sobre Cristo, entendemos que João fala da manifestação histórica da Logos Eterno, aspecto fundamental para a Teologia Joanina.
O verbo que descreve essa “manifestação” é o verbo “faneroö” que pode significar tornar público, revelar, vir a ser conhecido. Ou seja, é preocupação primária de João demonstrar que o Eterno foi presente, o divino encontrado em forma humana, que Jesus é o Cristo, forte ênfase da carta como um todo: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (1Jo.4.2; cf. 2Jo.1.7).
Tal idéia na mentalidade gentílica do primeiro século era um abuso: O logos, santo e eterno encarnado: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo.1.14). Rudolf Bultmann chega a chamar esse aspecto da teologia de João de “o escândalo da encarnação“. Entretanto, esse conceito a princípio controvertido é o cerne da mensagem joanina: “e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo.1.2). Muito embora fosse Deus, estivesse com Deus (Jo.1.1) Ele estivera pessoalmente com os apóstolos que viram, ouviram, contemplaram e apalparam o Verbo da Vida manifesto ante eles.
C. Objetivo: Promover Comunhão e Alegria
Uma vez que o conteúdo da mensagem torna-se evidente, João o velho (presbíteros) passa a demonstrar seu Objetivo com essa introdução: “o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco” (1Jo.1.3). A idéia da verdade sobre Cristo é capaz de promover comunhão entre aqueles que sua fé professam. Mas, essa comunhão depende em grande parte da mensagem já apresentada, pois tal comunhão “é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo.1.3). É bem sabido que para João, não existe relacionamento com o Pai sem o Filho: “Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai” (1Jo.2.23), pois não existe proximidade com o Pai senão pelo Filho: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo.14.6).
Ou seja, João intenciona demonstrar o fundamento correto para a comunhão com o Pai através da verdade sobre o Logos para que, seus filhos na fé possam desfrutar da comunhão com os apóstolos, entre si e com Deus.
Deve ser por isso que ele também quer que seus filhinhos tenham alegria: “Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo.1.4), sentimento que provavelmente adotou do próprio mestre: “Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (Jo.15.11).
08.04.08
Data e Ocasião
Material Extraído da Apostila de Teologia Bíblica do Novo Testamento de autoria de Carlos Osvaldo Pinto.
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1 João é um dos livros de mais difícil datação no Novo Testamento. A maioria dos comentaristas sugere uma data posterior à destruição de Jerusalém, aí por volta de A.D. 85, algum tempo depois do quarto evangelho, cuja linguagem e temas a epístola parece presumir.
Com base em 2.19, Hodges sugere que o livro foi escrito de Jerusalém, pouco antes da destruição da cidade, antes de João se estabelecer em Éfeso[1]. A evidência interna sugere, mais provavelmente, que a frase “saíram de nosso meio” em 2.19, se refere não a deixar o círculo apostólico de influência em Jerusalém, mas a igreja cristã estabelecida em Éfeso.
A carta foi escrita a uma igreja (ou a igrejas) em que falsos profetas e falsos ensinos haviam aparecido e feito progresso (4.1; 2.19). Esses indivíduos se inclinavam a uma forma antinomiana de docetismo incipiente, negando a encarnação de Cristo (2.22; 4.1), ao passo que reivindicavam íntima comunhão com o Pai (2.23). Tais heréticos também advogavam um estilo de vida moralmente frouxa (2.15-17), aparentemente alegando que seus atos não afetavam sua relação com Deus (1.5-10). A característica final de sua heresia era uma atitude de superioridade com base num conhecimento mais elevado (ou profundo), que os levava a uma atitude de desprezo para com os não-iniciados na confraria esotérica (4.7-21).
Os leitores eram antigos pagãos (5.21), já com algum tempo de experiência cristã (2.7, 18, 20; 3.11). À vista do ministério tradicionalmente aceito de João na província da Ásia, parece ser lógico localizar seus leitores na mesma região, que mais tarde receberia Apocalipse. Como resultado do ensino falso, os leitores estavam em condição espiritual sofrível. Demonstravam uma tendência ao pecado e ao mundanismo (1.5–2.6), falta de amor fraternal (2.7-11; 3.13-24), e perda da certeza da salvação (5.13).
Evidentemente os leitores ainda não estavam sob perseguição, o que leva a crer que a carta foi escrita no começo do reinado de Domiciano. Uma vez que Apocalipse refletia um Sitz im Leben de perseguição e é tradicionalmente datada da parte final do reinado de Domiciano, a data mais provável para 1 João é o meio da década de 80 no primeiro século.
[1] Zane C. Hodges, “1 John” em Bible Knowledge Commentary: New Testament Edition. pp.882
Caráter da Carta
Uma das características dessa epístola é que, embora seja considerada como tal, ela não é emoldurada em um formato específico de uma epístola. Carson, Moo e Moris afirmam: “À semelhança de Hebreus, 1 João não exibe nenhuma das características formais que normalmente acompanham as introduções de cartas em grego no século I[1]“. Como nota-se nos primeiros versos de 1 João, não encontramos a identificação do autor ou dos destinatários, como é esperado encontrar em uma carta. O término abrupto sem saudações também não parecem com o caráter esperado de uma epístola. Talvez seja por essa razão que alguns comentaristas chegam a considerar a possibilidade de que 1 João teria sido um sermão, ou quem sabe, até uma espécie de folheto dedicado às Igrejas do primeiro século. Entretanto, Robert Gundry nos lembra que o tom altamente pessoal do documento (Filinhos meus, Amados) não pode ser compatível com um material de distribuição, ou que as premissas “vos escrevo” e “Isto que vos acabo de escrever” (1.4; 2.1, 7, 8, 12-14, 21, 26) também não podem ser compatíveis com uma homilia[2].
O que se sabe com certeza é que o livro de 1 João é um livro peculiarmente difícil de se compreender a estrutura. À exceção da introdução, é difícil encontrar uma estrutura para o corpo do documento, e existem sérias divergências entre pesquisadores sobre como deveria ser sua estrutura. Segundo Carson, Moo e Morris, quem melhor identificou a estrutura do livro fora I. Howard Marshall no livro The Epistles of Jonh. Hale, que também sugere o mesmo autor como boa fonte para a compreensão da estrutura do livro, chega a afirmar: “A estrutura, naturalmente, é determinada pelo propósito do escritor, que parece ser para ajudar o cristão a permanecer firme em face de uma heresia insidiosa. O autor escreve uma carta pensando nestas coisas, e a forma não estruturada como se desejaria[3]“.
A estrutura adotada nesse estudo provém, não da exegese do texto, mas da perspectiva de que João escreve um documento para prover convicção soteriológica nos seus leitores. Merryl C. Tenney, que adota essa perspectiva, afirma: “O Evangelho foi escrito para despertar a fé. A primeira epístola joanina foi escrita para estabelecer a certeza[4]“. A forma como João escreve essa epístola parece confirmar a idéia de Tenney; em treze ocasiões podemos encontrar o uso dos verbos gregos[5] “saber” (oida) e “conhecer” (gnosko) para “indicar a certeza obtida através da experiência, o que faz parte da consciência espiritual normal (2.3, 5, 29; 3.14, 16, 19, 24; 4.13, 16; 5.15, 19, 20)[6]“.
Entretanto, é válido mencionar que Merryl encontra apenas três grandes divisões entre a introdução e a conclusão (1.5-2.29; 3.1-4.21 e 5.1-12), enquanto usamos neste estudo nove seções menores como claramente evidenciado na proposta de esboço[7]. Optou-se nesse estudo a divisão em pequenas seções em função da constante alteração de temas (eventualmente repetidos) no decorrer da carta. Com isso, nota-se claramente as tônicas exortativas e instrutivas de João, bem como os assuntos que careciam de mais atenção do apóstolo, observado pela repetição.
[1] CARSON, D.A., MOO, Douglas J., MORRIS, Leon, Introdução ao Novo Testamento, pp.493. Ver também: HALE, Broadus David, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, pp. 413
[2] GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento, pp.401
[3] HALE, Broadus David, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, pp. 415
[4] TENNEY, Merryl C., O Novo Testamento – Sua origem e análise. pp.398.
[5] Em semelhança a Tenney, Stott também apresenta sua percepção ao uso dos verbos “saber” e “conhecer”, mas acrescenta ainda um substantivo: “parresia”, que ele mesmo traduz como “atitude confiante” ou “ousadia no falar”, o que reforça a idéia de que o propósito de João era estabelecer a convicção soteriológica em seus leitores
[6] Idem, pp.402
[7] Sobre a estrutura do livro, ver PINTO, Carlos Osvaldo, Sinopse da Primeira Epístola de João. Em sua observação COP observa a existência de uma dupla seqüências de quiasmos entre a introdução e a conclusão da carta.
Autoria de 1João
A primeira epístola de João[1] e a epístola aos Hebreus são as únicas epístolas do Novo Testamento que não tem indicação de autoria no próprio texto, o que as torna bem particulares. Normalmente o local mais apropriado para se buscar informações sobre a autoria de uma epístola é na própria carta, pois espera-se que o autor identifique-se a quem escreve. Essa é uma característica recorrente em Paulo (cf. Rm.1.1; 1Co.1.1; 2Co.1.1 etc) e observada em Pedro (1Pe.1.1; 2Pe.1.1), Tiago (Tg1.1) e Judas (Jd.1). Entretanto, no caso de uma epístola sem identificação de autoria, temos que recorrer ao testemunho dos pais da igreja e da teologia cristã. Muito embora a epístola seja anônima, “há fortes evidências, contudo, de que João, o apóstolo, seja o autor[2]“.
A. Evidências Externas
Em primeiro lugar, vamos observar aquilo que alguns comentaristas têm denominado como alusão[3] aos escritos joaninos em escritos patrísticos. Clemente de Roma[4] teria utilizado uma expressão tipicamente joanina ao afirma que os eleitos de Deus são “aperfeiçoados no amor” (Cr. Co49). Na Epístola a Diogeneto[5] podemos encontrar diversas expressões compatíveis com a literatura e teologia de João. Sobre o amor de Deus vemos algumas aproximações da linguagem joanina (EpDg 10; cf. Jo.3.16). Já quando fala sobre Cristo vemos claras indicações de influências joaninas, pois nesta epístola Cristo é também denominado como Unigênito (EpDg 10; cf. 1Jo.5.9) e Logos (EpDg 11, 12; cf. Jo.1.14), além de afirmar de modo muito semelhante a manifestação de Cristo ao homens (EpDg 8; cf. Jo.1.18).
Sobre essas citações históricas, Stott diz: “Não há nenhuma citação formal ou exata, nem qualquer menção nominal de João ou das epístolas” e por essa razão devemos considerar essas citações apenas como “ecos da linguagem joanina, derivada tanto da primeira epístola como do evangelho ou da teologia joanina corrente[6]“
Entretanto podemos encontrar declarações mais explícitas da Primeira Epístola joanina em outros pais da igreja[7]. Policarpo de Esmirna, por exemplo, no sétimo capítulo de sua epístola aos Filipenses diz: “Aquele que não confessa que Jesus veio em carne é o anticristo” que parece uma conclusão tirada de 1Jo.4.2,3, com possível alusão a 1Jo.2.22 e 2Jo.7. Sobre Papias, Irineu disse: “Essas coisas são atestadas por Papias, que foi ouvinte de João e companheiro de Policarpo, um escritor antigo que os menciona no quarto livro de suas obras[8]“. Eusébio diz o seguinte sobre ele: “O mesmo autor [Papias] fez uso de testemunhos da primeira epístola de João e igualmente da de Pedro[9]“.
Entretanto, apenas a partir de Irineu é que encontramos claras declarações sobre a autoria joanina tanto do evangelho como da primeira epístola. No terceiro livro de Adversus Haereses, especificamente no capítulo 16, Irineu se dedica a demonstrar através dos escritos apostólicos que Jesus Cristo era Único e o Mesmo, o único Filho de Deus, perfeito Deus e perfeito homem. Nos versos 2-5 vemos claras interações com a epístola e com o evangelho, incluindo uma citação exata de Jo.20.31. Pouco à frente, vemos uma citação de 1Jo.2.1 referendada ao apóstolo João. Entretanto no verso 8 vemos claramente a identificação de autoria entre Evangelho e Epístola. Ao atacar aqueles que ensinavam erroneamente sobre a realidade de Deus e Cristo, Irineu diz:
A doutrina deles é homicida, pois criam inúmeros deuses, simulam vários pais, rebaixando e dividindo o Filho de Deus de várias formas. Contra essas pessoas é que o Senhor havia nos avisado anteriormente; e Seu discípulo em sua epístola já havia mencionado, nos mandando evitá-los, quando diz: “Muitos enganadores tem entrado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Esses são os enganadores e o anticristo. Acautelai-vos para que vocês não percam o que temos realizado com esforço” [2Jo.1.7-8]. E novamente diz em sua epistola: “Muitos falsos profetas tem saído ao mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo espírito que confessa que Jesus veio em carne é de Deus, e todo espírito que separa Jesus Cristo não é de Deus, mas é o anticristo” [1Jo.4.1-2]. Essas palavras concordam com as que disse no evangelho: “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Por isso é que exclama em sua epístola: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” [1Jo.5.1]“
Nesta lista poderiam ser lembrados, Clemente de Alexandria que “evidentemente conhecia mais de uma epístola joanina, desde que emprega a expressão, ‘a epístola maior’ e atribui aos ‘apóstolo João’”[10]; Tertuliano, que cita ao menos cinqüenta vezes a primeira epístola em seus escritos contra Marcião; Cipriano de Cartago e Eusébio, que alista a primeira epístola entre os livros aceitos.
B. Evidências Internas
Para demonstrar a autoria joanina da primeira carta de João, devemos observar a similaridade de vocabulário e conteúdo teológico entre a primeira epístola e o evangelho atribuído a João. Nesse exercício, não consideraremos a discussão sobre a autoria do quarto evangelho[11], pois a Ortodoxia tem-se mostrado suficiente clara na demonstração desse fato e tal discussão não faz-se necessária aqui. Por ora, assume-se que João é o autor do quarto evangelho.
Ainda que o princípio da comparação entre estilo, vocabulário e teologia entre os documentos seja o primeiro princípio para determinação das evidências internas em prol do reconhecimento do autor, alguns comentaristas têm levantado objeções consideráveis para essa proposta. C.H. Dodd é provavelmente o precursor dessa iniciativa, sendo freqüentemente relembrado em materiais de introdução ao documento que leva o nome de Primeira Epístola de João. Carlos Osvaldo Pinto chega a mencionar duas categorias levantadas por Dodd que impossibilitariam vislumbrar uma autoria mútua entre evangelho e primeira epístola: “(1) ausência de palavras como salvação e destruição, cima e baixo, enviar e buscar em 1 João; (2) diferenças teológicas entre as duas obras[12]“.
É válido lembrar que a ausência de características marcantes em um documento não são fatos absolutamente necessários a serem encontrados em outras obras do mesmo autor. Ainda que as antíteses entre salvação e destruição, cima e baixo ou enviar e buscar não sejam encontradas, o documento em pauta é forjado em antíteses marcantes como: luz e trevas, amor e ódio e vários outros[13]. Assim, vemos que a busca por compreensão de estilo literário é mal fundamentada pelo estrito uso de palavras entre dois documentos. É como disputar a autoria entre Romanos e 1 Coríntios, cartas assumidamente paulinas, onde termos teológicos marcantes em Romanos não são encontrados em 1 Coríntios. Aliás, diga-se de passagem, a espécie de literatura é claramente diferenciada entre um e outro, sem que ninguém duvide da autoria paulina por essa razão.
O que podemos perceber pelo exemplo de Paulo é que objetivo, público e época são suficientes para que um autor produza um texto com terminologia diferenciada em relação a outro escrito pessoal já escrito. Mas, para a consideração de Dodd, a pergunta que deve-se fazer é: O que fazer com a surpreendente similaridade entre ambos escritos? A título de ilustração desse ponto, cito abaixo a tabela compilada por Carlos Osvaldo sobre o uso de verbetes nos dois documentos:
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Palavras Importantes Comuns a Ambas as Obras
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Termo |
1 João |
Evangelho de João |
| Princípio | 1.1 | 1.1 |
| Verbo/Palavra | 1.1 | 1.1-14 |
| Consolador/Advogado | 2.1 | 14.16 |
| Crer | 5.1 | 3.16 |
| Permanecer | 2.6 | 15.7 |
| Guardar | 2.3-4 | 14.21 |
| Mandamento | 2.8 | 13.34-35 |
| Verdadeiro(a) | 5.20 | 7.28 |
| Conhecer/Saber | 3.24 | 10.15, 27 |
| Trevas/Escuridão | 2.11 | 12.35 |
| Testemunho | 5.9, 11 | 5.31-32 |
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Expressões Teológicas Comuns a Ambas as Obras
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| Filho unigênito | 4.9 | 3.16, 18 |
| Salvador do mundo | 4.14 | 4.42 |
| Espírito da verdade | 4.6 | 14.17; 15.26 |
| Praticar a verdade | 1.6 | 3.21 |
| Nascido de Deus | 3.9 | 1.13 |
| Filhos de Deus | 3.2 | 1.12; 11.52 |
| Vencer o mundo | 5.4 | 16.33 |
| Entregar a vida | 3.16 | 10.11 |
| Água e sangue | 5.6 | 19.34 |
| Filhos do diabo | 3.10 | 8.44 |
| Andar nas trevas | 2.11 | 8.12 |
| Ver a Deus | 4.12 | 1.18 |
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Características de Estilo Comuns a Ambas as Obras
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| Este é | 3.11 | 15.12 |
| Nisto | 2.3 | 13.35 |
| Todo aquele que … | passim | passim |
Sobre o vislumbre da similaridade entre ambos escritos, Berkhof diz: “Os dois escritos são tão similares que evidentemente foram escritos pela mesma mão“. Pouco a frente completa: “O veredicto quase geral é que quem quer que tenha escrito um escreveu o outro[14]“.
Considerado isto, podemos levantar algumas características presente no documento que nos permitem levantar o perfil do autor:
- 1. O autor declara-se como testemunha ocular: Nos primeiros versos da epístola, o autor apresenta-se como alguém que fora testemunha ocular da pessoa de Cristo, que esteve presente pessoalmente diante dele e que por isso teria recebido em primeira mão os ensinamentos de Cristo (1Jo.1-3; Jo.1.14; 19.35)
- 2. O autor era judeu: O fato de o autor escreveu em grego, não compromete sua identificação como judeu, pois suas construções literárias usam muitos paralelismos que denotam influência hebraica[15].
- 3. O autor é conhecido dos seus leitores: Em suas exortações, percebe-se um tom muito próximo e pessoal do autor em relação aos seus leitores imediatos. O fato de conhecer os problemas teológicos enfrentados pelo grupo a que escreve e nas exortações baseada em conhecimento do público reforçam essa idéia (1Jo.2.20). Uma possibilidade é que o autor fosse uma figura reconhecida por sua posição, ou familiaridade escriturística (1Jo.2.18-19).
- 4. O autor apresenta-se como alguém que tem autoridade: O modo como contesta o ensino dos falsos mestre/profetas, sugere que trata-se de alguém que exerce alguma autoridade. Carlos Osvaldo chega a sugerir que o modo como trata seus leitores (teknia – filhinhos) é uma evidência de que o autor era idoso e respeitado[16]. Mark Ellis acredita que o título de “presbítero” (lit. ancião) em 2 e 3João evidenciam esse fato. Dada a época em que é datado o documento, isso seria compatível com a idade de João na ocasião.
- 5. O autor tem familiaridade com a teologia do 4º. evangelho: A cristologia de 1 João é fortemente marcada pela compreensão joanina de Cristo evidenciada no evangelho. A similaridade de funções atribuídas a Cristo em ambos documentos é evidencia muita forte a favor da autoria joanina. O mesmo pode ser dito sobre a compreensão de Deus, Pai. Dada similaridade complementar encontrada na primeira epístola, há quem sugira que tal documento era um acréscimo pessoal com explicações específicas dirigiras a pessoas específicas anexada ao evangelho.
Fomentadas essas similaridades e perfil, pode-se afirmar, com uma grande porcentagem de certeza, que o autor desse documento é o autor do Evangelho atribuído a João, o discípulo amando.
[1] Apesar de levar esse nome, não deve-se concluir necessariamente que tenha sido escrita por João, o apóstolo de Cristo. A Autoria desse documento tem sido amplamente discutida, mas vale o lembrete que, ainda que não tenha sido o João, o discípulo amado, o autor do mesmo, os comentaristas estão certos de que a tradição joanina o produziu. Na discussão que se segue, a opinião do autor deste estudo fica evidente.
[2] PINTO, Carlos Osvaldo, Teologia Bíblica do Novo Testamento – 1 João. Material não publicado.
[3] Russel Norman Champlin, por exemplo, denomina esses fatos como “ecos” ou até mesmo “influências”.Vol. VI, pp.215.
[4] Clemente de Roma foi bispo em Roma de 92 a 101 d.C., segundo o site www. Catholicapologetics.Net (cf. www.bibliacatolica.com.br/historia_biblia/58.php), e durante esse período teria escrito sua epístola aos Corintios. Se esse dado é acurado, João ainda está vivo quando Clemente escreve sua epístola.
[5] Data-se essa epístola a cerca de 110 d.C. Entretanto, nada sabe-se com certeza sobre ela.
[6] STOTT, John. I, II, II João – Introdução e Comentário. pp.14
[7] Para ver mais referências histórias a confirmação da autoria joanina ver: CHAMPLIN, Russel Norman, O novo testamento interpretado versículo por versículo. Vol. VI, pp.215-6; STOTT, Jonh, I,II e III João – Introdução e Comentário. pp.13-15
[8] CESARÉIA, Eusébio de, História Eclesiástica, Livro 3, Capítulo 39. pp.116
[9] Idem, pp118.
[10] STOTT, John. I, II, II João – Introdução e Comentário. pp.14
[11] Sobre o assunto há muita discussão. Os favoráveis a autoria joanina do evangelho consultados são: Carson, Moo, Moris, Marshall, Gundry, Hale, Stott, Carlos Osvaldo, Berkhof. Os que contestam, ainda que alguns não neguem, são: Bultmann, Kümmel, Shereiner, Dautzenberg. Um bom estudo sobre o assunto é encontrado na obra de Ladd (Teologia do Novo Testamento) e de Goppelt.
[12] PINTO, Carlos Osvaldo, Teologia Bíblica do Novo Testamento. Material não publicado.
[13] Ver o 4o. ponto da Introdução ao Estudo de 1 João acima.
[14] BERKHOF, Louis, Introduction to the New Testament. pp.179 (http://www.ccel.org/ccel/berkhof/newtestament.html).
[15] Alguns teólogos têm sugerido que os paralelismos, construções literárias e declarações antitéticas são reflexos da influência gnóstica na literatura de tradição joanina. Rudolf Bultumann defende essa idéia fortemente (cf. BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. 430ss e 449ss). Por outro lado, Bultmann não presenciou a descoberta dos manuscritos de Qumran que demonstraram um forte movimento literário antitético de caráter judaico muito similar aos encontrados na literatura joanina. (cf. LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento. pp.217ss).
[16] PINTO, Carlos Osvaldo, Teologia Bíblica do Novo Testamento. Material não publicado.
06.18.08
Evidências da Humanidade de Cristo em 1João
Em primeira João percebemos claramente o grande foco colocado sobre Cristo. As exortações e ensinos de João nesse livro em grande parte estão fundamentados na pessoa, obra e caráter de Cristo: As implicações sobre a vida cristã estão fundamentadas em Cristo (2.4-6), a exortação contra os falsos mestres é centrada na concepção correta da pessoa de Cristo (2.18-23; 5.6, 9), a prática do amor entre os cristão está fundamentado na Obra de Cristo a nosso favor (3.16), a centralidade da fé cristã está em Cristo (3.23; 4.2-3; 4.14-15; 5.1, 5; 5.11-12; 5.20), a manifestação do amor de Deus é reconhecida na auto-doação de Cristo em nosso benefício (4.9-10) entre outras considerações sobre Cristo.
O que vemos nesse fato é que a Pessoa de Cristo estava sob ataque e consequentemente a fé cristã. Portanto, era necessário que João investisse seu tempo para escrever uma carta que pudesse auxiliar os cristãos a buscarem uma vida adequada diante de Deus e da correta compreensão da Pessoa de Cristo. Talvez seja por essa razão que encontramos tantas referências a Cristo, seja por sua Obra, Caráter ou Pessoa.
Como já foi dito, a concepção cristã sobre a Pessoa de Cristo não teve muitas dificuldades em apresentar Deus como divino, embora seja esse o alvo de maior ataque dos anti-cristãos. Mas, compreender a necessidade de sua humanidade era uma tarefa pouco realizada. João em sua primeira epístola o faz de modo claro e convincente. Observe a introdução de sua epístola: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida” (1.1). Eventualmente enfatizamos as características divinas de Cristo nesse verso, visto que o texto parece iniciar desse modo. Entretanto, os verbos de ação atribuídos a Cristo, o que era desde o princípio divino, sugerem participação ativa como humano entre homens.
Nesse verso temos uma seqüência interessante de verbos e informações sobre Cristo que atestam sua humanidade sem detratar sua divindade. Os dois primeiros verbos (ouvir: akouö – ver: opaö) estão no perfeito indicativo ativo ao passo que os dois próximos verbos (contemplar: theáomai – apalpar: pselafaö) estão no aoristo indicativo ativo. Essa construção sugere uma seqüência de ações decrescente, do atual ao antigo. Essa é uma declaração baseada no uso do verbos ouvir como um perfeito intensivo, do verbo ver como um perfeito consumativo e dos verbos contemplar e apalpar como aoristo constatativo. É por isso que os primeiros dois verbos trazem a sensação de ação realizada no presente, ao passo que os outros atestam claramente uma ação realizada indefinidamente no passado.
Ou seja, embora Cristo já não estivesse mais fisicamente próximo a João, ele ainda o podia ouvir. Três possibilidades podem ser vistas aqui: (1) Ou vemos nessa sentença parte do cumprimento da promessa de Cristo de estar com os cristãos até o fins dos tempos (Mt.28.20); (2) vemos que o impacto causado pelo ensino de Cristo ainda era presente na vida de João e sua memória o ainda o remetia à mensagem de Cristo ou (3) as duas possibilidades são verdadeiras ao mesmo tempo. De qualquer forma, na memória de João ainda era vívida a mensagem de Cristo, bem como sua pessoalidade humana e divina, como o primeiro verso dessa epístola testemunha muito bem.
A questão da visão com próprios olhos tem duplo objetivo na introdução dessa epístola: (1) ratificar sua posição como testemunha ocular de Cristo, diferente dos falsos mestres que surgiram ao redor dos cristãos e certamente (2) defender sua humanidade integral. Cristo não se parecia com um homem, era visto como tal perante aqueles que ante dele estiveram. O perfeito consumativo no verbo ver reforça a idéia de uma ação concluída e definida na mente daquele que escreve. Assim, a sentença “o que temos visto com os nossos próprios olhos” é uma declaração da presença física de Cristo entre os apóstolos (e certamente entre seus seguidores).
Já o verbo “contemplar” tem peso significativo nessa sentença. Se João intencionasse apenas apresentar a “visibilidade” de Cristo, o verbo “ver” teria sido suficiente, por que, então, anexar na mesma sentença outro verbo que diria o mesmo? O verbo grego “theáomai” que traduzimos por contemplar anexa em sua gama de significado o conceito de atenção. Ou seja, mais do que visto, Cristo foi contemplado atentamente por João pessoalmente. Isso é evidente quando somamos a esse testemunho de João seu evangelho. O tempo que teve disposto para estar com Cristo foi suficiente para que ele considerasse sua contemplação atenciosa como evidência de sua humanidade. O fato de que João usa esse verbo no aoristo constatativo contínuo no passado atesta a evidência histórica, pois sugere que essa ação não foi realizada em um único evento, mas durante em período de tempo não determinado no passado. Mesma conotação que encontramos com o verbo “apalpar” na seqüência.
Entretanto, o argumento em prol da humanidade de Cristo nesse verso ganha incrível força quando soma-se os argumentos já apresentados aos significado de verbo “pselafaö” (apalpar). Esse verbo é usado em referência a capacidade tátil do ser humano, uma de suas fontes de conhecimento e percepção. Ou seja, afirmar que Aquele que era desde o princípio é alguém que poderia ser tocado é uma afirmação definitiva sobre a correta compreensão da Pessoa de Cristo, Deus-Homem entre nós. Aqui fica evidente que Cristo, na percepção de João, era mais que um espírito desencarnado como alguns falsos mestres pareciam sugerir, era um ser humano real, que poderia ser visto, ouvido e contemplado atenciosamente[1].
Ou seja, para João a humanidade de Cristo era real e como testemunha ocular desse fato ele atesta e ensina essa verdade com o objetivo de instruir os cristãos e protegê-los dos ensinos falsos que rondavam seus leitores primários. Um dos exemplos desse tipo de ensinamento era que Jesus teria sido habitado temporariamente pelo Cristo (divino) no batismo e que ele havia o deixado na crucificação, ensino comumente encontrado nos escritos gnósticos. Entretanto, João confronta esse pensamento para defender a integralidade da pessoa de Cristo quando diz: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue” (5.6)[2]. Quando João fala em água e sangue tem em mente que Jesus Cristo era o mesmo no batismo e na morte. Não há possibilidade para João que Jesus, o ser humano, tivesse sido possuído pelo Cristo, o ser divino, no batismo e o deixado na morte. Para ele Jesus Cristo é o mesmo em ambas as situações.
Outro detalhe importante sobre a visão de João sobre a teologia cristã é que a humanidade de Cristo era uma necessidade real, por isso em sua epístola chega a afirmar: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus[3]” (4.2). Independente da referência que se faça nesse texto, é evidente que para João a humanidade de Cristo não era apenas central para a teologia cristã ou para a concepção correta da pessoa de Cristo, mas para a salvação. Aqueles que não aceitam a humanidade do Filho de Deus não podem pertencer a Deus, e aquele que não tem o Filho não tem o Pai. As implicações soteriologicas da verdade sobre Cristo são certamente o ponto mais importante da mensagem dos apóstolos e deve ser mantido por nós.
Ou seja, a humanidade de Cristo é uma necessidade soteriológica e qualquer que intencione retirar esse aspecto da mensagem do evangelho, não apenas o corrompe com suas vãs filosóficas, mas impede que aqueles que ouvem sua (a)versão do evangelho possam ser de Deus, como João instrui. É por isso que devemos manter fidelidade a Deus na entrega de sua mensagem, pois podemos ser considerados como os fariseus o foram: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando” (Mt.23.13).
[1] Apenas para elucidação do tema, esse é o mesmo verbo utilizado por Lucas para evidenciar que após a ressurreição, Cristo era um ser humano. Em sua narrativa Jesus diz: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc.23.39)
[2] Um detalhe interessante sobre esse verso é a designação do Filho como Jesus Cristo, expressão não freqüente na literatura joanina. João utiliza essa nominação apenas 10x para o Filho (Jo.1.17; 17.3; 1Jo.1.3; 2.1; 3.23; 4.2; 5.6; 5.20; 2Jo.1.3, 7)
[3] Nesse verso, alguns comentaristas têm achado uma indicação de entidades espirituais como testemunhas de fatos que não são coerentes com a doutrina ensinadas pelos apóstolos. Eu entendo particularmente que o uso de “pneuma” nos primeiros versos do capítulo 4 refere-se a outras pessoas e não a entidades espirituais, por algumas razões:
- § Confissão: no verso 2 João aponta para um problema similar ao apresentado no capítulo 2: Esses espíritos não confessam que Jesus teria vindo em carne;
- § Nominação: esse espírito é nominado como “espírito do anticristo” em consonância com a nomenclatura do capítulo 2 para os falsos mestres.
- § Identificação: No verso 4 fica explícito que sua intenção é falar sobre “falsos profetas”, que falam da parte do mundo.
- § Procedência: Esses falsos profetas, segundo o verso 5, procedem do mundo. Ora se a origem é natural não há por que esperar que sejam sobrenaturais esses espíritos.
- § Correlação: no verso 6 João associa pessoas que escutam a mensagem dos apóstolos com o espírito da verdade, de modo que fica evidente que o uso do termo espírito pode ser usado para pessoas. Deve-se acrescentar a esse ponto que em sua segunda carta João faz uma declaração muito semelhante e atribui claramente a pessoas: “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo“.
05.07.08
Deus é Luz
Na teologia joanina vemos a preocupação do apóstolo por apresentar traços do Seu caráter, que são conhecidos, em parte, na primeira epístola pela palavra luz (fôs): “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma“. (1.5; cf. 2.29). A idéia de luz é bem conhecida na literatura joanina, mas, o que nos faz pensar que essa declaração atesta sobre seu caráter e não sobre suas obras? Para responder a essa indagação precisamos conhecer o uso que João faz desse termo para avaliarmos qual a intenção de João por denominá-lo como tal.
Uso do termo “skotia” (trevas) em João
Em primeiro lugar vale o lembrete que João utiliza de um modo de escrever que transparece um dualismo muito forte, de modo que em muitas de suas declarações podemos encontrar antíteses aproximadas. Observe no verso mencionado a pouco que Deus é luz, e nele não há treva nenhuma. Dessa forma, podemos compreender o que Deus não é, pois não tem. Logo, trevas deve ser uma forma ou estado de oposição a Deus. Na literatura Joanina podemos perceber claramente que trevas é uma declaração de oposição a Deus, quer em estado como na prática:
- 1. Estado: No evangelho, Cristo atesta que Ele é a luz do mundo com o objetivo que “todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo.12.46). Nessa expressão podemos perceber que trevas pode ser o ESTADO que se encontra a pessoa que não depositou sua fé em Cristo. Com isso subentende-se que em estado, essa pessoa é oposta a Deus, visto que o mesmo é luz. Da declaração de trevas como estado, podemos notar que ela deve ser consoante de pecado do homem que precisa ser liberto por Cristo. Segue-se que trevas como estado é uma declaração de oposição a Deus que reflete sua falta de retidão, justiça e santidade posicional, logo deve ser parte do reflexo do caráter daquele que está nessa condição. Em Jo.8.12 lemos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida“. Mais uma vez nota-se o conceito do Estado de trevas em oposição aquele que segue a Cristo. Nesse texto vemos evidente o paralelo entre luz e salvação, de modo que trevas resume-se ao que não está relacionado a Salvação e a Deus.
- 2. Prática: No quinto verso da primeira epístola vemos que Deus é luz e não tem treva nenhuma. Logo na seqüência vemos a seguinte declaração: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (1.6). Nesse texto vemos que o andar em trevas é antitético com o praticar a verdade, o que deixa evidente que na prática são ações desconformes com a natureza de Deus. Outro detalhe é que “quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (Jo.12.35) por que “as trevas lhe cegaram os olhos” (2.11)[1]. Em reforço a essa conclusão, João diz o seguinte em Jo.3.19: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más“. A razão do repúdio da luz, oferecida em Cristo, segundo João eram as obras más dos homens. Assim, a rejeição da luz, o amor as trevas e a prática do mal são reflexos da prática pecaminosa do homem.
- 3. Insuficiência: Outro uso interessante do termo é visto em João é a supremacia da luz em relação às trevas: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo.1.5). Nesse verso vemos que o ambiente de iluminação da luz é as trevas (en te skotia), e que as trevas não podem ofuscar (lit. vencer) a luz. Nesse sentido, embora moral e posicionalmente prejudicial, as trevas não tem poder suficiente em relação à luz (Jo.8.12). Esse conceito é também visto em 1Jo.2.8: “Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha“. Provavelmente, o maior destaque nesse ponto está na Obra de Cristo, como a única capaz de destruir as trevas (Jo.12.42; 8.12).
Uso do termo “fôs” (luz) em João
Vale o lembre-te que o uso do termo fôs é antitético ao termo skotia, mas sua conceituação pode nos auxiliar a compreender o caráter de Deus em conformidade com a teologia de João. Em geral, o termo “fôs” na literatura joanina apresenta a Cristo (Jo.8.12; 9.5; 12.36, 46) como verdadeira luz (Jo.1.9) enviado da parte de Deus (Jo.3.19; 12.46) e foi testificada pelos apóstolos (Jo.1.7, 8; cf. 1Jo.1.1-3). Entretanto, alguns usos do termo podem nos ajudar a compreender melhor a visão de João ao denominar Deus como luz.
Um dos usos que nos chamam a atenção é a expressão “andar na luz” utilizada em 1Jo.1.7: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado“. O verbo andar em João é usado de modo normal, como o ato de mover-se, andar, caminhar (Jo.1.36; 5.8, 9, 11, 12; 6.19 entre outros) e como descrição de modo de vida. Esse é o caso desse verso: “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (1Jo.2.6). Ou seja, aquele que afirma ser cristão deve andar como Cristo andou, ou viver como Ele viveu. A partir desse ponto podemos estabelecer duas relações interessantes dessa expressão:
- 1. Sinonímia: Em João vemos que a expressão andar na Luz é similar a expressão “andar na verdade“: “Fiquei sobremodo alegre em ter encontrado dentre os teus filhos os que andam na verdade, de acordo com o mandamento que recebemos da parte do Pai” (2Jo.1.4; cf. 3Jo.1.3). Ou seja, essas pessoas que foram encontradas por João são pessoas que vivem suas vidas em conformidade com o ensino das escrituras, e por essa razão podem ser denominadas como pessoas que andam na verdade. Esse fato para João é motivo de grande alegria: “Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade” (3Jo.1.4). É ainda possível que essa relação inclua a expressão: “andar em amor”: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor” (2Jo.1.6). Outra relação de sinonímia interessante é a “prática da verdade“. Em 1Jo.1.6 vemos: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade“. A negativa para a expressão é muito significativa, pois do modo como foi redigida apresenta a idéia de sinonímia com “andar em trevas“. Se isso é verdadeiro, “praticar a verdade” não é um modo de andar na luz, mas o próprio ato. Talvez essa seja a conclusão em Jo.3.21: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus” Em todos os casos, as expressões apresentam o sentido de modo de vida em conformidade com Deus, logo, falam sobre a vida obediente do cristão. Assim, a vida na luz, está em equiparada com a esfera da manifestação de Deus em 1Jo.1.7: “andarmos na luz, como ele está na luz“.
- 2. Antagonia: Por outro lado, podemos perceber que João também estabelece uma relação de antagonia quando fala de “andar em trevas”: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade“. Assim, andar em trevas é oposta a comunhão com Deus, é relativa a mentira e referente a um modo de viver antagônico à verdade. Esse modo de vida é visto em cristãos: “Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo.2.6). Nesse caso vemos que a falta de demonstração de amor de um irmão evidencia que ele anda em trevas, e está em trevas. Nesse caso, nota-se que a mediocridade cristã é forte evidência da imaturidade e falta de Deus na vida de indivíduos. Note que as expressões que caracterizam esse cristão, são expressões que João usa para falar de não cristãos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo.8.12); “Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; e quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (Jo.12.35; cf. v.36).
Diante dessas observações podemos auferir que, a expressão “Deus é luz” acarreta nas seguintes conclusões:
- 1. Padrão: Deus é o padrão de Santidade, pois Ele é Luz e está na luz
- a. Posicionalmente significa que não existe alguém (fora da Trindade) que se equipare a Ele em termos de Santidade. Ele não tem treva alguma em seu Ser, Ele é plenamente santo em todos os aspectos.
- b. Praticamente significa que tudo o que faz é permeado por sua Santidade, sendo que não faz nada antagônico à sua posição de santidade. Suas obras são obras de verdade, amor e claridade, pois sabe o que faz e para onde vai.
- 2. Poder: Significa apresentar sua onipotência ante ao mal e o pecado, pois não pode ser vencido pelas trevas.
- 3. Comunhão: A comunhão com esse Deus exige santidade. Assim, qualquer forma de treva (prática isolada ou modo de vida) acarreta na impossibilidade de relacionamento entre o homem e Deus. É por essa razão que faz-se tão necessário o perdão Dele após conversão. O resultado da comunhão com Deus é a comunhão com os irmãos.
[1] Alguns teólogos ao lerem esse tipo de expressão nos escritos joaninos logo têm apontado para a possibilidade de que João utilizasse uma linguagem conceitualmente gnóstica para apresentar ao mundo helenista de sua época os conceitos sobre a teologia cristão, que era majoritariamente judaica (Assunto tratado com mais atenção no artigo “A relação de similaridade entre Paulo e João” e será melhor debatido em um artigo futuro sobre questões introdutórias a 1João).
Entretanto, ao realizarem essa afirmação ignoram a própria corrente ideológica vista dentro do judaísmo, que tratava do seu conhecimento de modo antitético, em uma linguagem similar as encontrada nos escritos proto-gnósticos da época de João. Exemplo disso vemos no manuscrito encontrado no Mar Morto (1QsIII) que apresenta o conceito antitético entre Luz e Trevas, onde Luz refere-se ao que é da parte de Deus, e trevas ao maligno. Da mesma forma que apresenta o conceito da verdade em antítese moral à falsidade. Colocações que parecem conceitualmente similares as que João apresenta em sua literatura. Se isso é verdadeiro, temos evidências que apontam para o fato de que não existe necessariamente uma tradução do conceito judaico para o mundo helenistico na apresentação de Deus como Luz. Desse modo, fica evidente que não temos aqui apenas uma declaração valiosa sobre nossa compreensão sobre Deus, que não tem, nem envolve-se com o pecado, ou seja, é Santo.
05.06.08
Necessidade da Humanidade de Cristo
Não existem dúvidas de que Cristo é divino. A Bíblia como um todo não deixa de evidenciar esse fato. Mesmo no Velho Testamento existem evidências de um Messias divino: Sl.2.6-12, 45.6-7, 110.2; Is.9.6; Jr.23.6; Dn.7.13; Mq.5.2; Zc.13.7; Ml.3.1. O Novo Testamento é muito mais enfático e claro nesse sentido. Os escritos joaninos expõem esse fato incansavelmente: Jo.1.1-3, 14,18; 2.2,25; 3.16-18, 35, 36; 4.14,15; 5.18, 2-22,25-27; 11.41-44; 20.28; 1Jo.1.3, 2.23; 4.14, 15; 5.5, 10-13, 20. Para Paulo a questão tem resposta clara, e por isso muitas evidências são declaradas em seus escritos: Rm.1.7; 9.5; 1Co.1.1-3; 2.8; 2Co.5.10; Gl.2.20; 4.4; Fp.2.6; Cl.2.9; 1Tm.3.16. O autor de Hebreus, além de ter por propósito demonstrar a supremacia de Cristo, evidencia esse fato: Hb.1.1-3, 4.14; 5.8 entre outros. Os evangelhos sinóticos são versados sobre essa idéia: Mt.5.17; 9.6; 11.1-6, 27; 14.33; 16.16, 17; 25.31-46; 28.18; Mc.8.38; 13.35-37; Lc.10.22 entre muitas outras.
Não existem duvidas de que Cristo é humano, e verdadeiramente humano, em diferença clara entre os conceitos do gnósticismo (realidade da humanidade), Docetismo (integralidade da humanidade) e Apolinarismo (integralidade da humanidade). Atualmente, o debate sobre Cristo envolve muito mais sua divindade que sua humanidade. Seitas, por todos os lados, crescem anunciando a humanidade de Cristo, ou apenas sua humanidade (Legião da Boa Vontade, Espíritas, Testemunhas de Jeová, Mulçumanos, entre outros). E, neste ponto o Novo Testamento é claro: Jo.8.40; At.2.22; Rm.5.15; 1Co.15.21; Jo.1.14; 1Tm.3.16; 1Jo.4.2; Mt.26.26,28, 38; Lc.23.46; 24.39; Jo.11.33; Hb.2.14; Lc.2.40, 52; Hb.2.10, 18; 5.8; Mt.4.2; 8.24; 9.24; 9.36; Mc.3.5; Lc.22.44; Jo.4.6; 11.35; 12.27; 19.28, 30; Hb.5.7.
Segue-se que é impossível negar que Cristo é integralmente homem e plenamente Deus diante de tantas evidências. A esse fato a Teologia Reformada denomina “União Hipostática”. União Hipostática é a expressão que descreve a existência de duas naturezas distintas, juntas e sem mistura, humana e divina, na pessoa única de Jesus Cristo, de forma que sua humanidade não diminuiu sua divindade, bem como sua divindade não detratou sua humanidade. E sobre isso Rm.9.5 afirma categoricamente: “e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre“.
Sobre essas questões a sã teologia contemporânea não apresenta dificuldades. Entretanto, os fatos evidenciados testemunham outro questionamento: “Qual é a razão para que os autores bíblicos defendessem a humanidade de Cristo?” ou “Por que era necessário que Cristo fosse homem?“.
a. A teoria de Anselmo de Cantuária[1] (Cur Deus Homo)
Anselmo de Cantuária desenvolveu uma teoria muito conhecida sobre a necessidade da humanidade de Cristo, de modo que tratou logicamente do assunto sem faltar com as escrituras no processo. Seu método foi muito interessante, pois além de defender a necessidade da humanidade de Cristo, defendeu sua divindade. Ou seja, a pessoa teantrópica de Cristo, tal como compreendida pelas escrituras foi plenamente defendida de modo lógico. Observe o que ele diz:
“Temos que investigar agora como Deus pode ser homem. As naturezas divina e humana não podem alternar-se mutuamente, de sorte que a divina torne-se humana ou a humana divina; nem elas podem ser tão misturadas como se uma terceira devesse se produzir das suas que não seria nem totalmente divina nem totalmente humana. Pois, se fosse possível que uma delas se transformasse ou se convertesse na outra, ou resultaria somente Deus e não homem, ou somente o homem e não Deus; e se da mistura e corrupção das duas resultasse uma terceira, do mesmo modo que de dois indivíduos animais de espécies diversas, macho e fêmea, nasce um terceiro que não reproduz integralmente nem a natureza do pai nem a da mãe, mas uma terceira, mistura de ambas, então nem seria Deus nem homem. Não pode, pois, o Deus-homem que buscamos ser o resultado da natureza divina e humana pela conversão de uma na outra ou pelo nascimento de uma terceira como resultante da decomposição de ambas, pois esta decomposição não cabe nelas, e, ainda que fosse possível, não diria respeito ao caso que aqui nos interessa. Também temos de descartar qualquer outra união destas duas naturezas em que permaneçam íntegras, de sorte que o homem seja um ser distinto de Deus, e Deus distinto do homem, pois neste caso é impossível que estas realizem o que se necessita, pois Deus não o fará, pois Ele não está obrigado, e o homem tampouco, pois este não poderá; e para que isto o torne Deus-homem, é necessário que aquele que tem de cumprir esta satisfação seja perfeito Deus e perfeito homem, pois não poderá cumpri-la se não for verdadeiro Deus, e nem estará obrigado a ela, se não for verdadeiro homem. E como é necessário que exista um Deus-homem com as duas naturezas bem distintas, também o é que estas duas naturezas bem distintas e perfeitas se reúnam em uma só pessoa, como o corpo e a alma racional se reúnem em um só homem, pois do contrário não pode ser perfeitamente Deus e perfeitamente homem[2]“
Abaixo, a teoria de Anselmo é apresentada de modo resumido, observe:
1. Se os homens sempre dessem a Deus o que lhe é devido, nunca pecariam, pois pecar nada mais é do que não conceder a Deus o que lhe é devido;
2. Se pecar é não dar a Deus o que lhe é devido, estamos desonrando a Deus, e tiramos-lhe o que lhe é devido. Segue-se que, enquanto não for restituído, a culpa permanece;
3. Se, porventura, resolvemos conceder tudo o que é devido a Deus, não estamos fazendo mais do que a nossa obrigação, e assim, não cancelamos a dívida lançada anteriormente;
4. Ou seja, a dívida que o homem tem diante de Deus é impagável por sua condição;
Nós, normalmente, não temos idéia da gravidade do pecado diante de Deus, pois temos convicção que a culpa dos nossos atos já foi removida. Entretanto, note o grau da gravidade da dívida do homem diante de Deus:
1. O grau da gravidade da ofensa depende do nível de dignidade do ofendido;
2. O Pecado é uma ofensa direta a infinitude da dignidade de Deus;
3. Logo, a culpa do homem é infinita, e para supri-la exige uma satisfação infinita;
4. Se isto é verdade, o homem nunca poderá supri-la, pois é finito;
5. Assim, apenas Deus pode sanar essa dívida. Mas a culpa não é de Deus, mas do homem. Logo, Deus não deve pagá-la.
6. Ou seja, o homem deveria pagar, mas não pode. Deus poderia, mas não deve. Segue-se que é necessário um Homem-Deus, pois como homem deve, e como Deus pode. Por que “o que não é assumido não é redimido[3]“.
b. O Testemunho das Escrituras:
O testemunho lógico lançado acima é bem demonstrado pela literatura bíblica. Pois, “desde que o homem pecou, era necessário que o homem sofresse a penalidade. Além, disso, o pagamento envolvia sofrimento de corpo e alma, sofrimento incabível ao homem, Jo.12.27; At.3.18; Hb.2.14, 9.22“. Assim, era necessário que Cristo assumisse a natureza humana, e como representante capital da raça, pagasse a dívida perante Deus, do gênero humano.
O fato de que Cristo assumiu a raça humana, não significa que Ele possuía pecado, ou natureza pecaminosa, pois o pecado não é inerente a natureza humana, é um acréscimo depreciador da realidade original desta natureza. Por isso, não se deve acoplar pecado com humanidade, nem Cristo com pecado, pois o pecado é acessório (não fundamental, não essencial) à natureza humana (Hb.2.14-18).
Assim, Cristo, isento de pecado, se fez pecado por nós para que pudéssemos ser feitos justiça de Deus (2Co.5.21). E, era necessário que não conhecesse o pecado, pois se possuísse pecado, estaria destituído de sua vida, o que conseqüentemente o privaria da possibilidade de prover redenção a si mesmo (Hb.7.26). Assim, “unicamente um Mediador verdadeiramente humano, que tivesse conhecimento experimental das misérias da humanidade e se mantivesse acima de todas as tentações, poderia identificar-se com todas as experiências, provações e tentações do homem, Hb.2.17, 18, 4.15-5.2, e ser um perfeito exemplo humano para Seus seguidores, Mt.11.29; Mc.10.39; Jo.13.13-15; Fp.2.5-8; Hb.12.2-4; 1Pe.2.21“.
[1] Anselmo de Aosta (1033-1109), arcebispo de Cantuária de 1093 a 1109, que é também conhecido pelo nome de Anselmo da Cantuária, é uma das personalidades mais importantes da história do pensamento cristão. O Cur Deus Homo (Por que Deus se fez Homem?), provavelmente a mais influente e conhecida de suas obras, é um clássico da teologia
[2] Por que Deus se fez Homem?, Santo Anselmo, Editora Novo Século, páginas 107 e 108
Material retirado do site: www.monergismo.com
[3] Marcos Mendes Granconato
04.11.08
Tradução comparada – 1João 1.1-3
Nesse artigo tenho a intenção de realizar uma comparação dos três primeiros versos da primeira epístola de João, entre o texto grego do novo testamento (WHO), minha tradução pessoal (TMB) e a versão das Testemunhas de Jeová, conhecida com Tradução do Novo Mundo (TNM). O objetivo para esse tipo de avaliação é apresentar a nítida alteração do texto grego para fins teológicos realizada pelos tradutores da TNM.
O texto grego utilizado nesse artigo é o texto de Westtcot e Hort[1], que segundo o prefácio da edição de 1963 das Escrituras Gregas Cristãs é o “famoso texto grego (…), que se harmoniza com os mais antigos manuscritos gregos“. Texto que também foi chamado de “texto autorizado” no mesmo prefácio. Como o objetivo não é uma discussão sobre crítica textual, vamos apenas ficar com a declaração da própria obra.
Sobre o texto da TNM, Ray C. Stedman diz o seguinte:
“Um exame detido, que vá além da aparência superficial de exegese, revela uma verdadeira trapalhada de fanatismo, preconceito e predisposição tendenciosa que viola todas as regras de criticismo bíblico e todos os padrões de integridade acadêmica“[2]
Anthony Hoekma atestou:
”A Tradução do Novo Mundo da Bíblia não é de modo nenhum uma tradução objetiva do texto sagrado para Inglês moderno, mas é em vez disso uma tradução tendenciosa na qual muitos dos ensinos peculiares da Watchtower Society são introduzidos sorrateiramente no texto da própria Bíblia[3]“
H.H. Rowley parece ser bem incisivo nesse assunto:
”A tradução é marcada por um literalismo empedernido que só vai exasperar qualquer leitor inteligente – se é que algum dos seus leitores é inteligente – e em vez de mostrar a reverência que os tradutores dizem ter pela Bíblia, é um insulto à palavra de Deus… este volume é um exemplo brilhante de como a Bíblia não deve ser traduzida[4]“
Vale lembrar que o texto em português da TNM é uma tradução do inglês, e por apenas essa condição não merece tanta credibilidade, como parece apresentar. Entretanto, como é grande o avanço dessa versão e da corrupção que ela promove, vale uma observação detalhada de sua sagacidade e entorpecimento mental que promove por ser explicitamente mal intencionada e malfadada em sua realização.
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1João 1.1

TMB O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam com respeito ao Verbo da Vida
TNM Aquilo que era desde [o] princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos observado atentamente e as nossas mãos têm apalpado, com respeito à palavra da vida
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Comentário
Nesse pequeno verso das escrituras podemos ver uma primeira distorção que poderia colocar em risco a concepção cristã da pré-existência de Cristo. Entretanto, a tradução é tão infeliz que não podemos ao certo compreender o que intencionavam os responsáveis por essa tradução.
Observe que o texto da TNM inicia com a seguinte declaração: “Aquilo que era desde [o] princípio“. Segundo essa leitura podemos supor que existe “algo” (não alguém) que existe desde o início. Na literatura joanina a expressão “ap`arxes” tanto pode apontar para a criação (Jo8.44; 1Jo.2.13) como para o início do cristianismo (Jo.15.27; 1Jo.2.7, 24). Assim, a versão TNM aponta para aquilo que existia desde o início do mundo (coexistente com Deus), ou do início do cristianismo. De qualquer modo, é preciso inferir que tal opção sugere que João teria ouvido, visto, observado e apalpado (observe o presente contínuo) algo que aponta para a palavra da vida.
Esse “objeto” que pode ser ouvido, visto, observado e apalpado é algo de tamanha importância que precisou ser apresentado como introdução de uma epístola. Que objeto seria esse que em nenhum outro lugar nas escrituras temos conhecimento? Seriam escritos do próprio Cristo?
O que vemos nesse texto é a inabilidade de um tradutor em adaptar um texto às suas convicções e produzir uma aberração. Por que não optou por descaracterizar a expressão “logôu tou zoês” (traduzido por palavra da vida) do fim da frase? Provavelmente por que seria explícito demais mexer com o texto dessa forma.
A verdade sobre a expressão “ho en ap` arxês” é que até poderia (em outro contexto) ter sido traduzida como “aquilo que era desde o princípio” visto que o pronome relativo “ho” pode ser traduzido como: aquilo, aquele, que, o que. Provavelmente, o tradutor mal intencionado, aproveita-se dessa brecha para inserir sua visão sobre o assunto na “tradução” que pretende realizar.
Entretanto, a regra geral do pronome relativo grego é que ele concorda em gênero e número com o substantivo ou pronome a que se refere. Eventualmente, é definido por um verbo, substantivo ou preposição que o governa (Mt.2.9; At.17.3; Rm.2.29). Se isso é verdadeiro, deveríamos esperar algum substantivo que fosse neutro e singular para que pudesse aceitar a opção neutra de “aquilo”. Entretanto, não encontramos no texto nehum substantivo neutro, o que torna infeliz a opção do débil tradutor desse texto. A grande pergunta, então, é: A que se refere o pronome relativo?
A sentença grega é montada com uma seqüência de mais três pronomes relativos acompanhados de verbos (no passado – perfeito e aoristo) que caracterizam o objeto de referência dos pronomes relativos. O que se pode esperar então é que, o pronome relativo que acompanha a expressão “que era desde o principio” faça referência ao “logôu tou zoês”, traduzido por Palavra da Vida pela TNM.
Se isto é verdadeiro, temos que considerar que a tradução TNM está equivocada, pois deveria ter sido traduzida do seguinte modo: “Aquela que era desde o princípio, a que temos ouvido, a que temos visto com os nossos olhos, a que temos observado atentamente e as nossas mãos têm apalpado, com respeito à palavra da vida“.
Desse modo, ao menos, a tradução teria mais coerência. Entretanto, qual é a razão para considerar a expressão “logôu tou zoês” como “Verbo da Vida”, ou em uma referência pessoal a Cristo?
A partir desse momento, temos que nos valer da literatura joanina[5]. No evangelho de João, vemos que o autor emprega uma expressão muito similar a encontrada em 1Jo.1.1 em referência ao Logos: “No princípio era o Verbo” (en arxê en hó lógos). Nessa expressão vemos que o mesmo verbo conjugado da mesma forma, o substantivo “princípio” no dativo no evangelho, e no genitivo na primeira epístola, detalhe que apresenta a única diferença entre as duas citações: a preposição. No evangelho João usa a preposição “en” ao passo que na primeira epístola utiliza a preposição “apó”[6].
Entretanto, nenhuma diferença significativa pode ser retirada dessa distinção, o que fortalece a opinião de que João faz uma referência pessoal ao nomear Cristo de Logos da Vida na introdução de sua carta. Por esta razão traduzi o termo como Verbo com letra maiúscula, pois dado o contexto literário do autor, não pode-se descartar sua terminologia.
Entretanto, essa não é a única razão que nos faz inferir na conceituação do Logos da Vida, como pessoal, pois os verbos, ouvir, ver, contemplar e apalpar parecem ser introdutórios aos problemas que serão abordados na epístola no que se refere a pessoa de Cristo. Um detalhe importe aqui é que o verbo apalpar (pselafáo) é mesmo verbo encontrado na narrativa de Lucas de uma das aparições de Cristo após a ressurreição (Lc.29.34).
A soma dessas observações parecem nos dar respaldo suficiente para compreendermos a expressão Logos da Vida como uma alusão a Cristo, o que tornaria todos os pronomes relativos masculinos e singular, diferente do que nota-se na versão TNM.
Portanto, conclui-se que a TNM é tendenciosa em sua pseudo-tradução nesse verso e suprime as evidências textuais e impõe ao texto suas convicções anti-cristãs.
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1João 1.2

TMB e a vida foi manifestada, nós vimos, testemunhamos e proclamamos a vós, a vida eterna que estava com Deus e foi manifestada a nós
TNM (sim, a vida foi manifestada, e nós temos visto, e estamos dando testemunho, e relatamos a vós a vida eterna que estava com o Pai e nos foi manifestada,)
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Comentário
Nesse verso não vemos uma tradução com evidências de alteração coordenadas pela teologia da igreja Testemunha de Jeová. Entretanto, temos uma observação a fazer:
- Verbos na sentença:
- Ver: O verbo para ver utilizado por João para ver é o verbo “oraö” no perfeito do indicativo ativo na primeira pessoa d plural. Isso significa que a ação relatada pelo autor não refere-se a algo que foi visto no passado e permanece sendo vista no presente, como sugere a expressão “temos visto” da TNM. Mas, refere-se a algo que aconteceu no passado, como a ARC, ACF, NVI e a BJ sugerem. Entretanto, é preciso lembrar que essa é a opção da ARA, também conceituada tradução.
- Dar Testemunho: O gerúndio da TNM não é uma opção agradável ao texto, até por que o verbo “marturéo” está no presente do indicativo ativo na primeira pessoa do plural, que traduzido literalmente fica “testemunhamos”. Não se pode dizer que a opção da TNM é uma afronta ao texto, mas que na sua busca ser idiomática, foi traduzida aos moldes dos atendentes de telemarketing.
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1João 1.3

TMB o que vimos e ouvimos vos anunciamos, a fim de que vós também tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo
TNM aquilo que temos visto e ouvido também vos estamos relatando, para que vós também possais ter parceria conosco. Além disso, esta parceria nossa é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo
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Comentário
Nesse verso vemos novamente o problema da identificação do pronome relativo. Nesse verso em especial, parece não haver necessidade para tornar novamente neutro o pronome relativo grego. Da mesma forma que não haveria necessidade para a tradução “temos visto” para o verbo “oraö” nem o gerúndio para o verbo anunciar (relatar).
Entretanto, esses mesmos detalhes já foram comentados e não há necessidade de fazê-los novamente. O que nos chama a atenção nesse verso em particular é o uso da palavra “parceria” no contexto relacionado a Deus a Jesus Cristo como tradução da palavra koinonia.
Não existe nada de errado em utilizar o termo “parceria” como tradução de koinonia. Aliás, o conceito de parceria faz parte do campo semântico da palavra em questão, como podemos perceber nesse verso: “fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações, pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora” (Fp.1.4-5 – ARA). O termo em destaque é o a tradução do substantivo grego koinonia. Para esse termo a BJ traduziu nesse texto como “participação“, tornando ainda mais próxima a tradução do conceito apresentado pela TNM.
A pergunta que é levantada é: “A palavra ‘parceria’ comporta o significado do relacionamento estabelecido entre Deus e o cristão?” ou “Será que existe equivalência entre o relacionamento de Paulo com os cristãos de Filipos com o relacionamento estabelecido por Deus com seus filhos?“.
A opinião do autor desse artigo é que o termo “parceria” não é suficiente para representar o que João pretende expor sobre o relacionamento entre Deus e o homem. Muito embora o conceito de parceria faça parte do campo semântico de koinonia, ele não comporta o que João intenciona apresentar nesse verso.
Parceria sugere co-agência, co-participação, cooperação, conceitos que não podem ser aplicados ao início do relacionamento entre Deus e os cristãos. Quando Deus propõe-se a relacionar-se com o homens ele o faz por meio de alianças monérgicas, iniciadas, mantidas e dirigidas exclusivamente por Ele.
Nesse sentido, o relacionamento entre Deus e os cristãos nada tem de parceria, mas de recebimento, graça. A partir do momento que somos salvos podemos ser “cooperadores” (sunergós) com Deus (1Co.3.9) a medida que realizamos com Ele nosso ministério.
Se a intenção de João fosse apresentar algum conceito semelhante a esse, teria utilizado um termo semelhante a esse. É por essa razão que existem termos diferentes para situações diferentes. Se João utilizou o termo “koinonia” que quis dizer?
O termo koinonia, de uso raro na literatura de João (3x. 1Jo.13, 6, 7), pode descrever um relacionamento de proximidade, íntimo e pessoal. Esse termo já foi utilizado na LXX em um contexto de casamento como mais íntimo relacionamento entre seres humanos (3Mc.4.6). Mesmo embora, não exista correlação apropriada entre o relacionamento entre Deus e os homens e casamento, é de comum acordo que o casamento não um contrato de parceria, mas de relacionamento de proximidade e comunhão. Nesse sentido, podemos achar alguma equivalência entre ambos relacionamentos.
De alguma forma, os tradutores da TNM tem certa dificuldade com o termo “koinonia”, visto que é comum alterarem o sentido do termo. Observe o caso de At.2.42: “Eles continuavam a devotar-se ao ensino dos apóstolos e a partilhar [uns com os outros], a tomar refeições e orações“. É evidente nesse trecho que os tradutores resolveram retirar o conceito de convívio ou relacionamento que aponta “koinonia” para apontar um auxílio mútuo, que é apresentado no verso 44 com o termo “koinós” (cf. At.4.32).
Talvez o repúdio por um termo que expresse algum tipo de relacionamento de proximidade, intimidade e pessoalidade ligado ao termo grego “koinonia” seja a relação que esse termo tem com o Espírito Santo, que os TJ insistem em afirmar sua impessoalidade. Por duas vezes (ao menos) no NT vemos essa relação apresentada, observe o que Paulo diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co.13.14 – ARA; cf. Fl.2.1)
[1] Nesse artigo não vamos considerar os problemas textuais da versão de WHO, visto que a intenção é mostrar como a TNM é maliciosa. Não é intenção do autor deste artigo defender a sacralidade do texto de WHO, mas apontar a desgraça da versão TNM.
[2] Stedman, R.C., “The New World Translation of the Christian Greek Scriptures,” Our Hope 50; Julho, 1953.
[3] Hoekema, A., The Four Major Cults (Exeter: Paternoster, 1963)
[4] Rowley, H.H., “Jehovah’s Witnesses’ Translation of the Bible,” The Expository Times, Janeiro 1956.
Todas as citações acima foram encontradas no site: http://corior.blogspot.com/2006/02/traduo-do-novo-mundo-e-os-seus-crticos.html#n22 no dia 27/02/2008
[5] Muitos teólogos tem debatido a questão do termo Logos na literatura joanina, de modo que muitos não atribuem o termo a Cristo. Alguns até acreditam que o primeiro capítulo do evangelho de João (onde a teologia do logos é fundamentada) é um adendo posterior ao livro. Dentre esses há ainda quem diga que tal capítulo é uma espécie de hino cristão antigo que foi introduzido no texto do evangelho. Em grande parte a rejeição de alguns teólogos sobre a Teologia do Logos dá-se pelo fato de que em nenhum outro lugar na literatura joanina, ou neotestamentária Cristo é denominado como Logos. Esse assunto será pormenorizado em um artigo sobre esse assunto na seção de teologia de João. Por ora, fica a opinião do autor deste artigo, de que o primeiro capítulo do evangelho é parte integrante do texto do quarto evangelho e que não há razões objetivas para desacreditar o texto desse modo. É ainda convicção do autor, que 1Jo.1.1 é um reflexo de Jo.1.3.
[6]Diante dessa distinção, alguns comentaristas atestam que o primeiro verso da epístola (assim como toda ela) é obra de um imitador, visto que João não poderia confundir as duas preposições. Tal opinião não passa de uma grande tolice, visto não ter respaldo histórico ou teológico para tal. Essa opção, também será discutida com mais atenção em um artigo sobre a autoria joanina comum entre evangelho e a primeira epístola
Cognocibilidade de Deus em 1João
O conhecimento de Deus é sempre visto nas escrituras e por essa razão cativa seus leitores a um envolvimento mais intenso e profundo com esse Deus. O estudo da teologia própria não é só fascinante por apresentar características de Deus, detalhá-las e apresentar efetivamente nas escrituras, mas por abrir portas para uma forma de conhecimento que não se dá em conceitos, mas em experiência pessoal.
Talvez esse seja um ponto alto da concepção joanina sobre Deus exposto em sua primeira epístola: Deus pode ser conhecido pessoalmente, pois é possível existir um relacionamento entre um ser humano regenerado e seu Redentor. Entretanto, mais importante do que essa observação, é que para João essa cognicibilidade em Deus pode ser verifica como certeza. Observe: “Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai” (2.14). Nesse texto, João apresenta de modo convicto que seus leitores primários já haviam estabelecido um relacionamento com Deus. O verbo que descreve essa certeza é “gnosko“, que pode contribuir em muito com nossa compreensão dessa afirmação joanina.
De modo geral, o termo em conceituação é visto nas escrituras como sinônimo de saber (oida) e normalmente traduzido como conhecer (Jo.8.32; 14.17; ), ou outros termos que representem o reconhecimento (1Jo.4.12; cf. Gl.4.9), ter conhecimento (Rm.2.18) ou entendimento (Jo.3.10; 8.43). Fora da literatura joanina, já foi utilizado (especialmente na LXX em tradução ao termo hebraico yadá) como um intercurso sexual (Mt.1.25; Lc.1.34), um uso particularmente incomum no novo testamento e estranho à literatura de João.
Na primeira epístola de João temos algumas indicações sobre o significado dessa expressão quando relacionada com Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (4.7). Na relação entre o amor de Deus é que podemos notar alguma relação com a certeza do conhecimento de Deus, pois aquele que demonstra o amor que do Pai recebeu evidencia que é Filho Dele e tem um relacionamento pessoal com Deus. De uma forma mais simples, a prática cristã segundo Cristo evidencia (não promove) esse relacionamento com o Pai.
É possível, ainda, que essa expressão de conhecimento do Pai tenha estrita relação com o recebimento do ensino dos apóstolos: “Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve[1]; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve” (4.6). Em sua discussão sobre o problema do surgimento das heresias sobre Cristo que assolavam a comunidade primitiva a quem João endereçara sua carta, ele transparece com intensidade que esses “anticristos” teriam saído de meio da comunidade cristã, mas evidenciam com seu ensino pernicioso que nunca fizeram parte dessa comunidade (2.19). João chega a identificá-los como pessoas que negam o Pai e o Filho (2.22), e ainda são apresentados como pessoas que não tem o Pai por negarem o Filho (2.23). Pouco a frente João ainda incentiva os cristãos a não darem ouvidos para outras pessoas[2] com ensinos contraditórios (4.1) ao que ouviram do próprio João (2.20).
Dessa forma, João afirma que as pessoas que tem inclinação ao ensino dos apóstolos são pessoas que apresentam um relacionamento pessoal com Deus. Assim, esse conhecimento não é mero acúmulo de informações teológicas, mas a prática cristã saudável da busca pela vida com Deus. Por isso que é evidente na visão de João que aquele que não demonstra amor, não pode conhecer a Deus: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8). Isso não significa que essas pessoas não tem acesso a salvação, mas que por sua imaturidade não tem um relacionamento consistente estabelecido com Deus, ou que por sua falta de relacionamento com Deus permanecem em sua imaturidade.
Portanto, a possibilidade de experimentar com Deus um relacionamento, está aberto a todos os que creem em Cristo, são considerados como filhos, amados de modo especial por Deus, mas apenas os cristãos crescentes em maturidade é que tem desfrutado Dele. Evidência para isso é que a prática cristão é colocada como realce desse conhecimento experiencial (4.6-7). Alías, como João poderia perceber que dentre as pessoas que ele escreve ele teria convicção do seu conhecimento de Deus, se não pudesse observar?
[1] A expressão “nos ouve” parece estar ligado ao conceito plural de redação visto na introdução da epístola, que parece não apontar necessariamente a uma autoria coletiva, mas refletir o envolvimento, ensino e influência apostólico na conceituação da teologia cristã.
[2] Eu entendo particularmente que o uso de “pneuma” nos primeiros versos do capítulo 4 refere-se a outras pessoas e não a entidades espirituais, por algumas razões:
- Confissão: no verso 2 João aponta para um problema similar ao apresentado no capítulo 2: Esses espíritos não confessam que Jesus teria vindo em carne;
- Nominação: esse espírito é nominado como “espírito do anticristo” em consonância com a nomenclatura do capítulo 2 para os falsos mestres.
- Identificação: No verso 4 fica explícito que sua intenção é falar sobre “falsos profetas“, que falam da parte do mundo.
- Procedência: Esses falsos profetas, segundo o verso 5, procedem do mundo. Ora se a origem é natural não há por que esperar que sejam sobrenaturais esses espíritos.
- Correlação: no verso 6 João associa pessoas que escutam a mensagem dos apóstolos com o espírito da verdade, de modo que fica evidente que o uso do termo espírito pode ser usado para pessoas.
Temas teológicos em 1João
Primeira Epístola de João
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Vs |
TEXTO |
TEMA TEOLÓGICO |
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Capítulo 1 |
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1 |
O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida | Cristologia
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2 |
A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada | Cristologia:
Kerigma apostólico
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3 |
Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo | Kerigma apostólico:
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4 |
Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa | Kerigma apostólico:
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5 |
Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma | Kerigma apostólico
Dualismo Joanino
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6 |
Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. | Dualismo Joanino
Vida Cristã:
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7 |
Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. | Teologia Própria
Vida Cristã
Cristologia
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8 |
Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. | Vida Cristã
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9 |
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. | Vida Cristã
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10 |
Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós | Vida Cristã
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Vs |
TEXTO |
TEMA TEOLÓGICO |
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Capítulo 2 |
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1 |
Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo | Destinatários
Objetivo da Escrita
Cristologia
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2 |
Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo | Cristologia
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3 |
Sabemos que o conhecemos, se obedecemos aos seus mandamentos | Vida Cristã
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4 |
Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele | Vida Cristã
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5 |
Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele | Vida Cristã
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6 |
aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou. | Vida Cristã
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7 |
Amados, não lhes escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que vocês têm desde o princípio: a mensagem que ouviram. | Advertência apostólica
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8 |
No entanto, o que lhes escrevo é um mandamento novo, o qual é verdadeiro nele e em vocês, pois as trevas estão se dissipando e já brilha a verdadeira luz. | Advertência apostólica
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9 |
Quem afirma estar na luz mas odeia seu irmão, continua nas trevas. | Vida Cristã
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10 |
Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço. | Vida Cristã
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11 |
Mas quem odeia seu irmão está nas trevas e anda nas trevas; não sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram | Vida Cristã
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12 |
Filhinhos, eu lhes escrevo porque os seus pecados foram perdoados, graças ao nome de Jesus. | Destinatários
Objetivo
Cristologia
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13 |
Pais, eu lhes escrevo porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu lhes escrevo porque venceram o Maligno | Destinatários
Cristologia
Satanologia
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14 |
Filhinhos, eu lhes escrevi porque vocês conhecem o Pai. Pais, eu lhes escrevi porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece e vocês venceram o Maligno. | |
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15 |
Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele | Vida Cristã
Dualismo
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16 |
Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo | Hamartiologia
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17 |
O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre | Dualismo
Vida cristã
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18 |
Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora | Escatologia
Eclesiologia
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19 |
Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos | Eclesiologia
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20 |
Mas vocês têm uma unção que procede do Santo, e todos vocês têm conhecimento | Vida Cristã
Teologia própria
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21 |
Não lhes escrevo porque não conhecem a verdade, mas porque vocês a conhecem e porque nenhuma mentira procede da verdade. | Eclesiologia
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22 |
Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo: aquele que nega o Pai e o Filho | Vida Cristã
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23 |
Todo o que nega o Filho também não tem o Pai; quem confessa publicamente o Filho tem também o Pai. | Vida Cristã
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24 |
Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai. | Vida Cristã
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25 |
E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna | Vida Crista
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26 |
Escrevo-lhes estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar | Objetivo da Escrita
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27 |
Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou | Vida Cristã
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28 |
Filhinhos, agora permaneçam nele para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dele na sua vinda | Advertência apostólica
Cristologia – Escatologia
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29 |
Se vocês sabem que ele é justo, saibam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele | Cristologia
Vida Cristã
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Vs |
TEXTO |
TEMA TEOLÓGICO |
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Capítulo 3 |
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1 |
Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu | Teologia Própria
Vida Cristã
Dualismo
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2 |
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é | Vida Cristã
Cristologia – Escatologia
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3 |
Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro | Vida Cristã
Cristologia
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4 |
Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei | Vida Cristã
Hamartiologia
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5 |
Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado | Cristologia
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6 |
Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu | Vida Cristã
Dualismo
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7 |
Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo | Vida Cristã
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8 |
Aquele que pratica o pecado é do Diabo, porque o Diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo | Vida Cristã
Dualismo
Satanologia
Cristologia
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9 |
Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus | Vida Cristã
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10 |
Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão | Vida Cristã
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11 |
Esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns aos outros | Vida Cristã
Kerigma Apostólico
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12 |
Não sejamos como Caim, que pertencia ao Maligno e matou seu irmão. E por que o matou? Porque suas obras eram más e as de seu irmão eram justas | Vida Cristã
Satanologia
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13 |
Meus irmãos, não se admirem se o mundo os odeia | Vida Cristã
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14 |
Sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte | Vida Cristã
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15 |
Quem odeia seu irmão é assassino, e vocês sabem que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo | Vida Cristã
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16 |
Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos | Cristologia
Vida Cristã
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17 |
Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? | Vida Cristã
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18 |
Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade | Vida Cristã
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19 |
Assim saberemos que somos da verdade; e tranqüilizaremos o nosso coração diante dele | Vida Cristã
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20 |
quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas | Vida Cristã
Teologia Própria
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21 |
Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus | Antropologia
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22 |
e recebemos dele tudo o que pedimos, porque obedecemos aos seus mandamentos e fazemos o que lhe agrada | Vida Cristã
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23 |
E este é o seu mandamento: Que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros, como ele nos ordenou. | Vida Cristã
Soteriologia
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24 |
Os que obedecem aos seus mandamentos nele permanecem, e ele neles. Do seguinte modo sabemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu. | Vida Cristã
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Vs |
TEXTO |
TEMA TEOLÓGICO |
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Capítulo 4 |
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1 |
Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo | Vida Cristã
Eclesiologia
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2 |
Vocês podem reconhecer o Espírito de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus | Vida Cristã
Cristologia
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3 |
mas todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo, acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo. | Kerigma Apostólico
Escatologia
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4 |
Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo | Vida Cristã
Teologia Própria
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5 |
Eles vêm do mundo. Por isso, o que falam procede do mundo, e o mundo os ouve | Dualismo
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6 |
Nós viemos de Deus, e todo aquele que conhece a Deus nos ouve; mas quem não vem de Deus não nos ouve. Dessa forma reconhecemos o Espírito da verdade e o espírito do erro | Dualismo
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7 |
Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus | Dualismo
Vida Cristã
Teologia Própria
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8 |
Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor | Teologia Própria
Vida Cristã
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9 |
Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. | Teologia Própria
Cristologia
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10 |
Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados | Teologia Própria
Cristologia
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11 |
Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros | Teologia Própria
Vida Cristã
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12 |
Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós | Teologia Própria
Vida Cristã
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13 |
Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito | Teologia Própria
Pneumatologia
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14 |
E vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo | Kerigma Apostólico
Cristologia
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15 |
Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus | Vida Cristã
Cristologia
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16 |
Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele | Teologia Própria
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17 |
Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. | Escatologia
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18 |
No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor | Vida Cristã
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19 |
Nós amamos porque ele nos amou primeiro | Vida Cristã
Teologia Própria
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20 |
Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. | Teologia Própria
Vida Cristã
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21 |
Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão | Vida Cristã
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Vs |
TEXTO |
TEMA TEOLÓGICO |
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Capítulo 5 |
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1 |
Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, e todo aquele que ama o Pai ama também o que dele foi gerado | Soteriologia
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2 |
Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus e obedecendo aos seus mandamentos | Vida Cristã
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3 |
Porque nisto consiste o amor a Deus: em obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados | Vida Cristã
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4 |
O que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé | Vida Cristã
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5 |
Quem é que vence o mundo? Somente aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus | Vida Cristã
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6 |
Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo: não somente por água, mas por água e sangue. E o Espírito é quem dá testemunho, porque o Espírito é a verdade | Cristologia
Pneumatologia
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7 |
Há três que dão testemunho | |
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8 |
o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes | |
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9 |
Nós aceitamos o testemunho dos homens, mas o testemunho de Deus tem maior valor, pois é o testemunho de Deus, que ele dá acerca de seu Filho. | Teologia Própria
Pneumatologia
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10 |
Quem crê no Filho de Deus tem em si mesmo esse testemunho. Quem não crê em Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca de seu Filho | Vida Cristã
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11 |
E este é o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho | Vida Cristã
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12 |
Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida | Vida Cristã
Cristologia
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13 |
Escrevi-lhes estas coisas, a vocês que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna | Objetivo da Escrita
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14 |
Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a vontade de Deus, ele nos ouvirá | Vida Cristã
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15 |
E se sabemos que ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que temos o que dele pedimos | Vida Cristã
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16 |
Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus dará vida ao que pecou. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este | Hamartiologia
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17 |
Toda injustiça é pecado, mas há pecado que não leva à morte | Hamartiologia
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18 |
Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge | Vida Crista
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19 |
Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno | Vida Cristã
Dualismo
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20 |
Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna | Cristologia
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21 |
Filhinhos, guardem-se dos ídolos | Vida Cristã
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Introdução à Cristologia em 1João
Nesse artigo, tenho apenas a intenção de apresentar as categorias do conhecimento teológico que são percebidas na primeira epístola de João no que se refere a Cristo. Posteriormente, cada tópico desse artigo será comentado apropriadamente.
Filho (uiós)
- 1.3: o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo
- 1.7: Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado
- 2.22: Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho
- 2.23: Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai
- 2.24: Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis vós no Filho e no Pai
- 3.23: Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.
- 4.10: Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados
- 4.14: E nós temos visto e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo
- 5.9: Se admitimos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior; ora, este é o testemunho de Deus, que ele dá acerca do seu Filho
- 5.11: E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho
Filho de Deus (uiós tou theou)
- 3.8: Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo
- 4.15: Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele, em Deus
- 5.5: Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?
- 5.10: Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho. Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho
- 5.12: Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida
- 5.13: Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus
- 5.20: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna
Filho Unigênito (uiós monogene)
- 4.9: Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele
Cristo (christós)
- 1.3: o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo
- 2.1: Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo
- 2.22: Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho
- 3.23: Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou
- 4.2: Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus
- 5.1: Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido
- 5.6: Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade
- 5.20: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna
Propiciação pelos pecados (hilasmos)
- 2.2: e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro
- 4.10: Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados
Humano
- 1.1: O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida
- 4.2: Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus
- 5.6: Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é verdade
Divino
- 1.1: O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida
- 1.2: e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada
- 2.13: Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno
- 4.3: e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo
- 5.11: E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho
- 5.20: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna
Caráter
- 2.1: Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo
- 2.29: Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele
- 3.5: Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado
04.09.08
A relação entre o amor agápe e Deus em 1João
Talvez o mais interessante conceito sobre Deus na Teologia joanina seria o amor de Deus. No quarto capítulo dessa epístola encontramos mais vezes o termo amor que em qualquer outro capítulo nas escrituras. Isso nos leva a concluir que sua visão sobre esse assunto é fundamental para a compreensão correta do cristianismo. Por essa razão vamos nos dedicar a observar esse assunto com atenção nessa epístola.
Deus é amor (agápe)
Talvez a mais importante descrição sobre Deus na Teologia de João seja a que Deus é agápe. Por duas vezes o autor faz isso: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8); “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (4.16).
Entretanto, mais que identificar a colocação da expressão dentro dos escritos joaninos é compreender o que de fato isso significa. Por isso, precisamos observar alguns fatos sobre o Amor de Deus para tentar compreender seu real significado prático e conceitual.
1. O amor de Deus é completo e independente da criação:
É fundamental compreender esse fato, visto que é comum que pessoas interpretem a criação como uma necessidade de Deus para expressão do Seu amor. Entretanto, a teologia joanina apresenta o fato que o amor de Deus já era ativo antes mesma da criação: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Dessa forma vemos que o amor de Deus era ativo em direção àquele que é o “Uiós tou Theou”. Outro detalhe é que embora indefinido no tempo, o verbo amou na sentença grega está completo no passado e ativo no presente, o que também sugere que esse amor está além do tempo, e permanece ativo: “Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor” (Jo.15.9); “O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo.3.35 cf. 10.17). E mais interessante que isso é que o Filho também tem amor ativo e presente pelo Pai: “contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou” (Jo.14.31). Dessa forma, podemos notar que o amor de Deus é independente da criação, completo e ativo.
2. O amor de Deus é perfeito:
Uma das declarações que soam interessantes quando falamos em perfeição é que Deus é o modelo último e máximo da perfeição, independente do campo ou ambiente do que se trata. Quando fala em unidade, Cristo pede a Deus que os cristãos sejam aperfeiçoados na unidade (Jo.17.23), e sempre remete ao padrão da perfeição da união da trindade (v.22). No que diz respeito ao amor, na teologia de João podemos encontrar indícios de que o amor de Deus é perfeito, no sentido que nada lhe falta, completo e final. Uma das evidências que temos para isso é que o amor de Deus pode ser aperfeiçoado no cristão, na medida que busca aproximar-se de Deus: “Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus” (2.5); “Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (4.12); “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança” (4.16-17). Se o amor que procede de Deus pode ser aperfeiçoado na vida do cristão, se ele pode chegar a ser completo em sua vida, deve supor que a fonte de onde ele sai carrega as mesmas características. Se isso é verdadeiro, logo o amor de Deus é completo.
3. O amor de Deus é imenso:
Quando falamos que o amor de Deus é imenso, estamos nos referindo ao fato de que Seu amor não tem como ser medido. Deve ser por essa razão que eventualmente João utiliza a idéia de que esse amor é grande: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai” (3.1). A palavra grega para grande (potapós) é sempre utilizada em contexto onde o maravilhar-se está presente, de forma que a expressão em si tem um ar de magnitude. Dessa forma, notamos que o amor que Deus tem é imenso. Outros textos contribuem para essa conclusão: “se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros” (4.11; cf.Jo.3.16). O modo com que Deus amou ao mundo é tão intenso e tão forte, que não foi descrito com uma forma ou quantidade definida, antes, João utiliza um termo que pressupõe a magnitude do mesmo.
4. O amor procede de Deus:
Na teologia joanina não existe outra fonte para o amor, se não de Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (4.7). A expressão grega deixa bem evidente que o amor vem, procede, sai, emana de Deus (ek tou Theou estin).
5. O amor de Deus é manifesto ao mundo:
Uma das verdades sobre o amor de Deus é que, apesar de completo, ativo e independente da criação, Deus decide fazê-lo conhecido ao mundo: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Dessa forma, todos os que são criaturas de Deus podem compreender e conhecer o amor de Deus, até por que o procedimento de Cristo visava testificar esse fato ao mundo (Jo.14.31) e sua história é prova viva desse interesse de Deus.
6. O amor de Deus é conhecido em Cristo:
Para João essa verdade é contundentemente clara: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9). Essa mensagem está em consonância com a verdade sobre o Filho e a Obra Redentora realizada por Deus por intermédio de Jesus Cristo. Além do mais: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos”
7. O amor de Deus é manifesto aos cristãos:
Uma importante observação à essa altura é que esse amor é apresentado de modo especial para aqueles que o Pai traz a Cristo (Jo.6.37, 44). Em sua oração, Jesus pede ao Pai que seus discípulos sejam unidos e cresçam na unidade com o objetivo que “o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo.17.23). A unidade entre os discípulos, o que incluí tanto os onze que estavam com Ele naquele momento e todos os que vieram após eles (Jo.17.20-21) seria o testemunho eficaz de que Cristo havia sido envidado da parte de Deus para esse mundo, e que Deus ama os seguidores de Cristo da mesma forma como ama a Cristo. Essa declaração parece fazer alguma distinção entre o amor que Deus atribui ao mundo e a Seus filhos.
8. O amor de Deus é primeiro:
Vale a pena ressaltar que o amor de Deus, que era presente desde a eternidade passada em Jesus Cristo, manifesto Nele e direcionado a Ele, é também direcionado aos que são cristãos: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (4.19). Não pode-se dizer, então, diante da teologia joanina que fomos considerados como filhos por termos sido escolhidos por Deus em função de uma pré-disposição, ou pré-visão de um amor para com Deus, mas sim que, Ele nos amou antes que pudéssemos esboçar qualquer tipo de amor. Aliás, diante da teologia de João fica evidente que não poderíamos esboçar amor a Deus sem que seu amor tivesse sido direcionado e efetivo em nós.
9. O amor de Deus é definido em Cristo:
Em alguns lugares na literatura joanina podemos encontrar algumas sentenças que parecem tecer partes da definição desse amor que Deus tem: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (4.10). O amor de Deus consiste em sua ação primeira manifesta completamente em Cristo. Embora não tenhamos uma informação de quando isso aconteceu com certeza, vemos pelo verbo amou que isso aconteceu em algum momento do passado (amou – aoristo). Por outro lado, esse amor é direcionado aos cristãos (nos) de modo que a ação de Cristo foi em favor desses que tem nEle a propiciação dos pecados (Vale o lembrete que essa ação da parte de Deus é estendida ao mundo inteiro - 1Jo.2.2). Outra afirmação que merece nossa observação é que João ainda complementa a idéia do amor de Deus da seguinte forma: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (3.16). O amor de Deus é definido pela auto-doação de Cristo pelos cristãos, que deveriam fazer o mesmo. A afirmação final desse verso parece estender em um pouco a concepção de que o amor de Deus é também definido pelo amor que os cristãos devem manifestar.
10. O amor de Deus é percebido pela prática cristã:
A literatura joanina apresenta em diversos lugares a preocupação de que aquele que crêem em Cristo como Salvador deveriam esboçar esse amor de Deus nos seus relacionamentos, e que isso seria evidência suficiente do amor de Deus (Jo.17.20-24). Entretanto, parece não ser essa a única preocupação de João, visto que o amor de Deus é que em parte é percebido pelos cristãos: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9). O fato de Deus ter enviado Seu Filho ao mundo é um fato conhecido na teologia joanina, mas a consistência do amor de Deus também está no objetivo a que Ele enviou Seu Filho: Para que os cristãos pudessem viver por meio Dele. Com esse adendo, notamos que o amor de Deus é, por um lado definido por seu envio do Filho, e por outro pelo reflexo deste na comunidade dos que crêem Nele. Contudo, podemos ainda inferir que essa não é toda a concepção que João tem sobre esse assunto: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos” (5.3). Nesse ponto notamos que parte da definição do amor de Deus está na obediência do cristão, sendo isso ainda verificado na segunda epístola de João: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor”. Nesse texto ainda temos a inclusão de que os cristãos deveriam andar nesse amor.
11. A questão da posse e da permanência:
Uma das verdades apresentadas com solidez pela teologia joanina é que o não cristão não possui o amor de Deus: “sei, entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus” (Jo.5.42). Essa definição apresenta um detalhe sobre o amor de Deus, que mesmo embora seja manifesto ao mundo, não seja efetivo em todos os seres humanos, pois existem aqueles que não tem o amor de Deus. Outro detalhe é que o amor com que Deus amou a Cristo parece ser direcionado de modo específico aos que crêem: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja” (Jo.17.26). Essa afirmação é direcionada para aqueles que compreenderam que Deus havia enviado a Cristo (v.25), que foram dados por Deus a Cristo (v.24) e estão nele (v.23), são objetos do amor de Deus (v.23) e que crêem em Cristo por meio da palavra de Deus (v.20). Portanto, confirma-se que o amor de Deus é manifesto de modo especial no cristão. Porém, deve-se ressaltar que esse amor pode não estar no cristão: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (3.17). De algum modo, o cristão pode deixar de ser aperfeiçoado no amor de Deus a ponto de não ter o amor de Deus presente em sua vida. É o que acontece com o cristão que ama ao mundo ou às coisas que estão no mundo: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (2.15). Por essa razão que espera-se que o cristão ame não apenas com palavras, mas “de fato e de verdade” (3.18). Assim, o cristão também deve persistir na permanência no amor de Deus, visto que essa prática é também a garantia da permanência em Deus (4.16).
Conclusão
Considerando as informações sobre o amor na literatura joanina, podemos assumir que ao referir-se a Deus como amor, tem todos esses conceitos em mente. Portanto, cremos que de alguma forma a definição de Deus inclui todos esses aspectos, não de forma a limitá-lo, mas na forma de compreendê-lo como Deus. Se isso é verdadeiro, concluímos que Deus é
1. É completo e independente da criação
2. É perfeito
3. É imenso
4. É auto-existente
5. Manifesta-se ao mundo
6. É conhecido por meio de Cristo
7. Manifesta-se de modo especial aos cristãos
8. É ativo e primeiro em sua ação
9. É visto em Cristo
10. É percebido pela prática cristã (madura)
11. Relaciona-se com mais intensidade com o cristão maduro
Dessa forma, podemos compreender um pouco sobre o que João intencionava ensinar ao falar que Deus é agápe.
Análise da Paternidade de Deus em 1João
Teologia Própria é a seção do estudo temático da teologia que se ocupa em discorrer sobre a Pessoa do Deus Pai. Na teologia sistemática, teólogos tentam agrupar tantas informações quanto possível sobre esse o conceito de Deus em todas as escrituras e então descrever o que as escrituras ensinam sobre esse Deus. Em nosso estudo, vamos nos deter ao estudo da concepção joanina sobre a teologia cristã.
Um aspecto importante na concepção joanina sobre Deus é a sua paternidade, visto que esse assunto percorre toda a primeira epístola. Sobre esse assunto podemos ver pelo menos 20 declarações apenas na primeira epístola.
Somos nascidos de Deus (Gennaö)
Um dos pontos mais importantes do conceito joanino a respeito da paternidade de Deus sobre os cristãos é que ele a apresenta como uma iniciativa da parte de Deus, sendo isso plenamente verificado por meio da expressão “nascidos de Deus” (usada cerca de 6x): O nascimento não é a realização de um ato de vontade daquele que nasce, mas daquele que o gerou. Esse sem dúvida é um conceito bem apresentado na teologia de João: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo.1.13; cf.Jo.3.3; 6, 8 – observe o verbo passivo). Observe que o verso aponta para o fato de que esse nascimento não ocorreu de modo natural (sangue), nem pela vontade da carne ou de um homem qualquer, mas ocorreu de Deus. O que vemos claramente é que esse nascimento veio de Deus e que somos nascidos dele, o que sugere que sua vontade estava ativa muito antes que eu mesmo pudesse crer, e só pude desfrutar dessa filiação a partir do momento em que minha vontade tornou-se compatível com a Vontade de Deus (Jo.6.40).
Para João, todo aquele que “crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (5.1), o que sugere que o ato de crer é um resultado da ação de Deus na vida do indivíduo que deposita sua fé em Cristo, visto que o verbo “gennao” é expresso na voz passiva. Ou seja, aquele que crê, sofre a ação de ser nascido da parte de Deus quando passa a crer em Jesus como Cristo. Diante o que sabemos sobre a teologia joanina não podemos atribuir o crer como uma obra natural, mas antes trabalhada por Deus no indivíduo por meio do seu Santo Espírito (Jo.16.8-11).
Outro detalhe que é interessantíssimo na expressão “nascido de Deus” (5.1) é que o verbo “gennao” além de estar na voz passiva, é conjugado na terceira pessoa do perfeito indicativo, o que sugere que a ação além de ser sofrida pelo que crê e realizada ativamente por Deus, sugere que essa ação está completa no passado. Isso está em acordo com o conceito de salvação exposto por Jesus no capítulo 6 do evangelho (Jo.6.37, 44, 65).
Na teologia joanina ainda, a Paternidade de Deus sobre o cristão também é a garantia da sua vitória sobre o mundo (kosmos): “porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo” (5.4; nikeo). Essa expressão de vitória deve ser entendida como uma benção estendida da vitória de Cristo sobre a cruz, e que todos que crêem (5.5) nesse fato são com Cristo habilitados por Deus a vencerem o mundo (cf. Jo.16.33). Como filhos de Deus, os cristãos também são habilitados a vencerem o Maligno (2.13, 14) e os falsos profetas (4.4).
A vitória (nike) do filho de Deus sobre o mundo é a fé: “e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (5.4). Da perspectiva de João, a vitória do filho de Deus, daquele que Dele é nascido, acontece também contra o Maligno, visto que “aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (5.18). Ou seja, através da filiação divina o cristão é guardado por Deus a ponto de inibir a ação maligna na sua vida . Isso implica que, positivamente o cristão vive na prática da justiça (2.29) e negativamente não pode viver na prática do pecado (3.9).
Como é perceptível. a visão de João é radical quanto a filiação a Deus, o que não exclui o que observamos em outros lugares no NT que falam sobre os cristãos que vivem em desacordo com esses valores ensinados por João, e sofrem as conseqüências de não desfrutarem de benefícios da graça como os apresentados por João nesses versos.
Por outro lado, para João aquele que é verdadeiramente nascido de Deus não vive na prática do pecado: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado” (5.18), e de fato, essa é uma impossibilidade para ele: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (3.9). Por essa razão dedica-se e vive pela prática da justiça: “Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele”
Esse nascimento da parte de Deus é o que pode garantir que o amor, que é uma expressão da essência de Deus, seja uma expressão real nos relacionamentos entre seus filhos: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus”. Para se demonstrar o amor segundo Deus, devemos desfrutar desse amor como filhos dele, e então sermos habilitados a amar (agápe).
Somos considerados como Filhos de Deus (Tékna tou Theou)
Uma vez que somos nascidos de Deus, passamos a ter o direito de sermos chamados filhos de Deus (Jo.1.12). Esse direito é adquirido pela fé em Jesus Cristo e resultado do amor ativo e primeiro de Deus: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus” (3.1).
Essa é uma importante expressão na teologia joanina, visto que faz uma propositada distinção entre a Paternidade de Deus sobre Cristo e a Paternidade que tem sobre os cristãos. Em nenhum lugar na teologia joanina vemos Cristo ser denominado “tékna tou Theou”, ao passo que os cristãos também não são denominados como “uiós tou Theou”. Essa distinção certamente tem o propósito de dos diferenciar dAquele que é desde o princípio (ap’ arxês) e aqueles que precisam permanecer nele (2.6).
Dessa forma vemos que somos considerados como que “tékna” de Deus. Mas, o que de fato significa ser considerado desse modo? A palavra “tékna” pode ser empregada de vários modos, e em geral, é traduzida para o português como “filho” (cf.Mt.7.11; 10.21; Mc.10.29; Lc.1.7; 1Co.4.14; entre vários outros textos). A palavra “tékna” pode fazer referência a pessoas que tem mesmo ancestral (Mt.2.8; 27.25; At.2.39; 13.33); ou a pessoas que estão próximas a outro ser humano e consideradas como filhos mesmo sem qualquer ligação biológica, mas por uma afeição, como de um mestre por um seguidor, de professor para um aluno (Mk.10.24; 1Co.4.17; 1Tm.1.2; 2Tm.1.2; Fm.10) além de poder denotar um grupo específico de pessoas que são caracterizadas por determinada qualidade (1Pe.1.14; Ef.5.8) ou desventura (2Pe.2.14; Ef.2.3).
Entretanto, nenhuma dessas colocações estão compatíveis com a descrição que João dá aos cristãos ao denominá-los como “filho de Deus”. Na literatura paulina, vemos que ele também emprega essa expressão afim de descrever pessoas que compartilham características com divindade (Fp.2.15; Ef.5.1) e são por isso consideradas como adotadas por Deus (Rm.8.16, 21; 9.7, 8; Ef.1.5). Essa visão sobre a terminologia parece compatível com a descrição joanina da filiação que o cristão tem em Deus. Resta-nos, então, observar como essa expressão pode ser entendida na teologia joanina.
Como é bem observável, esse compartilhar de características com a divindade, também é visto em outras entidades espirituais na teologia joanina: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (Jo.8.44). Mesmo que a expressão “tékna” não aconteça nesse texto, vemos que existem pessoas cuja filiação se dá com o diabo, o que na primeira epístola de João fica muito bem estampado: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” (3.10). Assim, deve-se considerar que a filiação ao diabo é diametralmente oposta a filiação a Deus e que as características daquele que é pai é visível naquele que lhe é considerado como filho: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo.8.44). Assim, aqueles que são filhos do diabo são vistos por praticarem o que é pertinente ao diabo: ” todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão” (3.10). Se essa oposição conceitual é verdadeira, aquele que é filho de Deus deve ter (desenvolver, buscar) as características daquele que é seu Pai, o que em grande parte é a admoestação de João em sua primeira epístola (1.5ss; 2.3-6; 2.9ss; 2.15-17; 3.7-10; 3.16-18 etc).
Portanto, na concepção joanina, Deus é pai daqueles que realizam sua vontade (Jo.6.40; cf. 5.1) e demonstram em sua vida uma busca por compatibilidade com o caráter Dele (3.10ss). Aquele não apresenta características de Deus em sua vida não pode ser considerado como filho (3.14) e é apresentado com características daquele que é o pai da mentira: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si ” (cf. Jo.8.44).
Há ainda uma declaração de esperança para aqueles que são verdadeiramente filhos de Deus, visto que eles não atingiram a estatura de Cristo enquanto filhos de Deus, mas vivem na expectativa do dia em que isso vai acontecer: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (3.2). Essa esperança e expectativa no futuro é certamente um norte para o proceder saudável do cristão enquanto filho de Deus no mundo.
Somos de Deus e pertencemos a ele (ek tou Theou)
O resultado de ter sido nascido de Deus e considerado como filho Dele é que nós somos considerados como que propriedade de Deus, ou seja, que nós pertencemos pessoalmente a esse Deus que nos demonstra Seu amor em Cristo Jesus.
A convicção joanina sobre o pertencer a Deus é estampada na declaração: “Sabemos que somos de Deus” (5.19). A expressão “somos de Deus” é a tradução para o fraseado grego “ek tou Theou”. O fato de ser identificada como uma expressão no genitivo nos faz considerar duas possibilidades sobre o significado dela. A primeira, que parece consistente com a teologia joanina, é que a declaração expressa o sentido de procedência de Deus. Esse tipo de uso acontece no evangelho de João: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo” (Jo.7.17). Aqui vemos que Jesus apresenta com a expressão “ek tou Theou” a possibilidade da doutrina que Ele apresenta vir da parte de Deus, como Jesus mesmo testifica (v.16). Tal conceito é visto também na primeira epístola de João, quando diz: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão” (3.10). A questão da procedência de Deus, ou a não procedência, está em pleno acordo com a teologia joanina (4.1-3, 7; cf. 3Jo.1.11), mas não abrange todas as ocorrências da expressão na primeira epístola.
Por isso, devemos considerar a segunda possibilidade para a expressão “ek tou Theou” em 5.19, a saber, que aqueles que são nascidos de Deus, são seus filhos e pertencem a Ele. A tradução “somos de Deus” da ARA é bem acurada, e representa o sentido apregoado pela expressão grega.
A equiparação entre o pertencer a Deus e Sua paternidade sobre o cristão também pode ser vista pelo resultado que promove: “Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (4.4). Assim como na declaração de Paternidade, o pertencer a Deus significa vencer os falsos profetas, visto que Aquele que nos possui é maior do que aquele que está no mundo.
Por essa razão é que devemos estar atentos com a questão da procedência dos espíritos, pois eles podem não proceder de Deus e, portanto, nunca poderiam ser pertencidos por Ele: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora; Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo” (4.1-3).
Além disso, aqueles que pertencem a Deus tem sua audição inclinada aos ensinos dos apóstolos e pode receber aquilo que dizem: “Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro” (4.6). Deve-se creditar isso à vitória concedida por Deus em função da filiação e pertencimento pessoal a Deus. E como resultado disso, estamos em uma situação oposta a situação desse mundo que está morto no maligno: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno” (5.19).
Essa é a grande razão pelo qual não somos amados (Jo.15.18) por esse mundo (Jo.15.19), pois ele pertence ao Maligno, e nós pertencemos a Deus. Estamos nesse mundo (Jo.17.15), mas não somos dele (Jo.17.14, 16); antes, fomos comprados dele por meio de Cristo para estarmos e pertencemos a Deus, pois éramos de Deus (Jo.17.6-8)
A permanência de Deus no cristão (menö)
No relacionamento efetivado com Deus como Pai, por meio da fé em Jesus Cristo, o último ponto a ser observado na teologia joanina é que Deus permanece no cristão: “Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele, em Deus” (4.15). A confissão que João parece estampar aqui é a mesma reação que foi observada nos samaritanos no período do ministério público de Jesus Cristo: “Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo.4.42; soter tou kosmou), visto que no contexto imediato do texto lemos: “E nós temos visto e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo” (4.14; sotera tou kosmou).
Entretanto, além da consciência de que Cristo é o Salvador do Mundo é necessário confessar que Jesus é o Filho de Deus, expressão que será estudada quando falarmos a respeito de Cristo, que apresenta o relacionamento entre o Pai e o Filho (uiós), que atesta para sua divindade. Isso uma vez realizado, pode efetivar a permanência de Deus no cristão.
Essa permanência de Deus no cristão é plenamente verificada pelo Espírito que outorgou aos que crêem em Cristo como Filho de Deus, Messias vindo em carne, como podemos verificar: “Nisto conhecemos que permanecemos nele, e ele, em nós: em que nos deu do seu Espírito” (4.13; cf. 3.24). O ato de Deus doar o Seu Espírito é a garantia da sua permanência no cristão.
Contudo, a permanência do cristão em Deus pode ser condicional ao seu comportamento diante dele, pois observe o que ensina João: “E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus, nele” (3.24a). Nesse trecho percebemos que a reciprocidade de permanência encontra-se na obediência do cristão aos mandamentos de Cristo. Não há permanência em Deus sem obediência, entretanto a garantida da permanência de Deus no cristão é garantida pela presença do Espírito que Deus nos deu, como João atesta na continuação de verso: “E nisto conhecemos que ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu” (3.24b).
Esse conceito é também observado com relação a manifestação do amor de Deus pelo cristão: “Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (4.12; cf. 4.16).
Portanto, concluímos que Deus permanece no cristão a partir do momento do depósito da fé, mas a permanência do cristão em Deus é condicional ao seu comportamento em relação a sua filiação (cf. Jo.15.1-5 – considere nos prejuízos do mau cristão).
Introdução à Primeira Epístola de João
Autor:
João, discípulo amado, irmão de Tiago, filho de Zebedeu.
Destinatários:
Cristãos (2.12-14, 21; 5.13).
É possível que João tenha alguma familiaridade com os cristãos a quem escreve:
2.1: A expressão “Meus filhinhos” parece bem paternal e expressa que existe alguma intimidade entre escritor e destinatário.
2.7,8: “Amados” também parece uma expressão de proximidade pessoal entre autor e destinatários
2.12-14: A definição de categorias de pessoas (Filhinhos, Pais, Jovens) parece sugerir que o autor tem em mente pessoas específicas
2.26: João estava familiarizado com problemas que os seus destinatários estavam sofrendo e escreve os alertando.
5.13: A clara identificação da categoria maior dos seus destinatários parece sugerir proximidade pessoal entre autor e destinatários.
Data:
90-95 d.C.
Situação:
Situação Externa: Os cristãos a quem João escreve estão enfrentando o assédio da heresia e presenciando o aparecimento de “anticristos” que pervertiam a fé e cristãos próximos aos leitores a quem João destina sua carta.
Situação Interna: Pelas advertências que João tece em sua primeira epístola, é possível que esses cristão haviam sofrido com o ataque dos “anticristos” e precisavam ter sua convicção soteriológica reafirmada. Por isso João gastou tanto de sua epístola apresentando de modo simples a possibilidade de ser convicto da própria fé.
Versículo Chave:
“E este é o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho. Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida. Escrevi-lhes estas coisas, a vocês que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna” 1João 5.11-13 (cf. 1.3, 4; 2,12-14; 1.9; 2.28)
Tema:
Amor, segurança da salvação, comunhão, heresia, obediência, fé.
Propósito:
Conduzir os crentes ao pleno desfrute da comunhão espiritual e da certeza de salvação pessoal, apresentando os critérios que definem a genuína comunhão cristã com um Deus santo e amoroso.
Mensagem:
A medida da comunhão de um indivíduo com Deus é sua experiência crescente do caráter divino em sua vida (Carlos Osvaldo Pinto, Telogia Bíblica do Novo Testamento. Materila não publicado).
Pontos Notáveis:
1. Em 1 João Deus é apresentado como Luz, Amor e Vida. Seu interesse é que seus leitores tenham comunhão com esse Deus evidenciada por um andar em Luz:
a. Santidade – 1.5-2.2
b. Obediência – 2.3-6
c. Amor – 2.7-11
2. Em sua primeira carta, João deixa três provas chaves para a realidade da minha fé/comunhão com Deus:
a. Vida Justa
b. Obediência
c. Amor
3. João deixa evidente suas razões ao escrever sua epístola:
a. 1.4: “Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa”
b. 2.1: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem”
c. 2.26: “Escrevo-lhes estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar”
d. 5.13: “Escrevi-lhes estas coisas, a vocês que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna”
4. Observe como João utiliza o contraste de idéias para se expressar:
a. Luz X trevas;
b. Verdade X mentira (falsidade)
c. Amor X ódio
d. Amor pelo Pai X amor pelo mundo
e. Cristo X anticristo
f. Filhos de Deus X filho do Diabo
g. Justiça X pecado
h. O Espírito de Deus X espírito do anticristo
i. Vida X morte
5. Na primeira epístola de João a Cristologia tem grande destaque:
a. Eterno (pré-existente) (1.1,2; 2.13)
b. Cristo veio em carne, foi humano (1.1; 4.2; 5.6)
c. Manifestação da Vida (1.2;)
d. Vida Eterna (1.2; 5.12)
e. Sangue purificador (1.7)
f. Intercessor junto ao Pai (2.1)
g. Justo (2.1, 29)
h. Propiciação pelos pecados (2.2; 4.10)
i. Nome de Cristo como responsável pelo perdão (2.12)
j. Cristo se manifestará no futuro; voltará, de modo visível e real (2.28; 3.2)
k. Objetivo na 1ª. vinda era para retirar os pecados e destruir as obras do Diabo (3.5, 8; 4.14)
l. Isento de pecado (3.5)
m. Exemplo final para o amor (3.16)
n. Manifestação do amor de Deus (4.9)
o. Filho unigênito de Deus (4.9; 15)
p. Verdadeiro Deus (5.20)
6. As heresias combatidas por João nessa epístola estavam relacionadas com a pessoa de Cristo
7. João parece ter deixado evidente as heresias que combate com essa epístola:
a. Docetismo: Idéia que defendeu que Cristo não era ser humano, ele apenas pareceu humano (verbo grego dokeo)
b. Cerintismo*: Acreditavam que o Cristo (messias, logos) desceu sobre o homem Jesus no dia do seu batismo e ficou até antes da crucificação; Jesus era resultado de Maria e José
c. Gnosticismo: Ideologia em desenvolvimento, também chamada de proto-gnosticismo. Segundo essa ideologia a matéria é má por essência e por essa razão Jesus tinha duas naturezas: humana e divina. A salvação para o gnóstico vem a partir do conhecimento.
Curiosidades:
1. 1 João não cita o AT, mas faz uma referência a Caim;
2. Não possui introdução, bênção ou conclusão;
3. É um livro com muita polêmica;
4. Um livro muito focado na vida cristã;
5. 1 João 4 usa mais a palavra amor do que qualquer outro capítulo do NT;
6. Tanto vocabulário quanto estilo são muito simples, mas seu conteúdo é muito profundo;
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* Cerinto, um herege, ensinou que Jesus era humano, mas ao ser batizado, o “Cristo” na forma de pomba, desceu sobre ele. Na cruz, o “Cristo” o deixou, e ele morreu sozinho, como homem. No texto de “Atos de João”, apócrifro do segundo ou terceiro século, “Jesus” revela a “João” o que realmente aconteceu com ele na crucificação:
“E assim eu o ví sofrer, e não esperei por seu sofrimento, mas parti para o Monte das Oliveiras e chorei sobre o que veio a se passar. E quando ele estava pendurado sobre a cruz na Sexta-feira, na sexta hora do dia, veio uma escuridão sobre toda a terra. E meu Senhor ficou no meio da caverna, iluminando-a disse: “João, para o povo lá em baixo em Jerusalem, Eu estou sendo crucificado e perspassado com lanças e espinhos, e estão me dando vinagre e bílis para beber. Mas para você Eu estou falando, escutai o que eu digo. Eu coloquei em tua mente para vires a esta montanha para que possais ouvir o que um discípulo deve aprender de seu mestre e homem de Deus”
“Esta cruz então é aquela que unificou todas as coisas pela palavra e que as separou do que é transitório e inferior, e que também compactou coisas dentro de mim. Mas esta não é aquela cruz de madeira que você deverá ver quando descer daqui; nem eu sou o homem que está sobre aquela cruz”