09.17.09
Pregar o Evangelho: O Plano A de Deus
Olhar para as escrituras sempre tem sido um grande prazer para mim, mas decobrir o que Deus espera de mim é certamente tem sido muito mais prazeroso. Saber que Deus não precisa de mim (Jó.42.2) para realizar sua obra é reconfortante (Jo.15.5), mas descobrir que Ele me quer e espera de mim um engajamento com seu propósito é maravilhoso (1Co.3.9).
Isso é o que aprendemos quando lemos 1Co.1.21: “Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem”. Embora o mundo não O possa conhecer por suas próprias forças, Deus resolveu usar seus filhos na proclamação do evangelho para salvar os que creêm. Esse é o plano A de Deus. Essa é nossa missão.
Em Ef.1.13 podemos perceber três princípios dessa missão que gostaria de deixar com vocês, na esperança de que esse aprendizado também possa ser significativo para você:
1. As pessoas precisam ouvir a palavra da verdade:
O texto nos diz: “tendo ouvido a palavra da verdade”. Isso é verdade em nossas vidas: Alguém anunciou a palavra da vida; alguém resolveu cooperar com Deus na proclamação do evangelho para que eu e você pudéssemos ter a possibilidade de reconciliação com Deus.
É Paulo quem nos ensina em Rm.10.14 que não é possível alguém chegar a salvação sem que ouça, por que “a fé vem pela pregação e a pregação pela palvra de Cristo” (Rm.10.17). Esse é o Plano A de Deus.
2. A mensagem deve ter um conteúdo específico:
O texto acrescenta: “o evangelho da vossa salvação”. Somente uma mensagem pode levar pessoas à salvação: O evangelho que é o poder de Deus para salvar todo o que crê (Rm.1.16). Somente através de Cristo pessoas podem se achegar a Deus (Jo.14.6) e somente através da pregação do evangelho é que elas podem conhecer a Cristo verdadeiramente (1Co.1.21; Rm.10.14). Esse é o Plano A de Deus.
3. É necessário uma resposta positiva para desfrutrar desse privilégio:
Em Efésios 1.13 ainda lemos: “tendo nele crido”. Nós sabemos que somente Deus pode operar sobrenaturalmente no homem para que ele chegue a salvação (At.16.14). Sabemos que isso acontece através da ação de convencimento do Espírito Santo (Jo.16.8), mas também sabemos que a salvação é por Graça POR MEIO da fé em Cristo Jesus (Ef.2.8-9).
É muito reconfortante perceber que tudo o que Deus espera de nós e um envolvimento com a proclamação do evangelho, pois a conversão e salvação daqueles que ouvem o evangelho depende exclusivamente de Deus (At.13.48; Ef.1.3-6). É isso que significa sermos “cooperadores com Deus” (1Co.3.9): Enquanto faço minha parte na proclamação do evangelho, Deus em Sua graça e misericórdia, usa seu Espírito para convencer o mundo do pecado da justiça e do juízo para que o homem possa depositar sua fé em Cristo (Ef.1.19).
Mais reconfortante ainda é descobrir que o Senhor que nos comissiona (Mt.29.19) é o mesmo que promete estar sempre conosco (Mt.29.20).
É João Calvino que nos ensina: “Todas as bênçãos de que gozamos são depósitos divinos que temos recebidos com a condição de distribuí-los aos demais” (Ef.2.7).
Proclame o Evangelho! Essa é a nossa parte. Esse é o Plano A de Deus.
:: Sola Gratia ::
06.19.09
Velho e Poderoso Marketing
Há uma máxima, muito bem conhecida, que diz: “A propaganda é a alma do negócio”. Mas não é qualquer propaganda que faz um bom negócio. Quantas propagandas você pode recordar que tinham um bom enredo, uma música marcante, boa cenografia, boa fotografia, mas sem lembrar do produto que era oferecido. Você poderia avaliar que o valor dessa propaganda é irrisório, pois não atinge o fim para que foi proposta.
Essa verdade é bem aplicada a cristãos, que tem cara, cheiro, conversa polida de cristãos, quando estão na igreja, mas quando estão fora dela tem vida distorcida e dissimulada. Com palavras afirmam a fé, e com as ações a contradiz. Vende um produto que não usa, encena muito bem entre os professos da mesma fé, canta com eles, mas vive na imundície do egoísmo, da sórdida ganância, da vaidade dos pensamentos. Qual é o valor dessa propaganda? É como o cão que volta ao seu próprio vômito, ou a porca lavada que volta a volver-se na lama (2Pe.2.22).
Nossa vida deve ser o palco para a ação de Deus na vida de outras pessoas, como uma boa propaganda que atinge o fim a que foi designada. Nós fomos separados por Deus para “anunciar as grandezas daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz” (1Pe.1.9). Essa é a nossa missão, sermos sal num mundo sensabor, luz em um mundo trevas, cor e calor em um mundo álgido e acromático degradado pelo devastador poder do pecado.
Pessoas comprometidas com Deus, certamente serão comprometidas com Sua Obra. Inflame-se de Deus e ponha fogo no mundo através da sua vida. Seja a viva propaganda da verdade. Viva em conformidade com a verdade que liberta: O Evangelho.
Pregue o evangelho. Se preciso, use palavras.
Marcelo Berti
Coordenador do Ministério Pesca
02.16.09
A Vida do Evangelista
É fato que ações falam mais que palavras. A fim de que a mensagem das Boas Novas seja proclamada e não negligenciada, é essencial que nós, como evangelistas, adotemos alguns padrões ou qualidades em nosso viver, pois estamos sendo observados a cada passo dado e a cada palavra falada. Mais do que ouvir o evangelho, os não-cristãos estão interessados em ver em nós o evangelho. Com certeza, o que mais proporcionou a eficiência dos grandes evangelistas foi o modo de vida.
1. O evangelista e a santidade
O evangelista precisa ter cuidado redobrado com sua vida de santidade, visto que esta é a área em que mais somos atacados. Diariamente somos bombardeados por conceitos que deturpam os padrões divino para a vida dos Seus filhos. Artistas renomados, programas assistidos por muitos cristãos e não-cristãos, jornais e revistas têm transmitido a idéia de que santidade é sinônimo de ultrapassado, o que importa hoje é deixar a imaginação correr solta e buscar satisfazer todos os prazeres da carne. Esses conceitos têm se infiltrado no meio cristãos e influenciado a muitos. Os não-cristãos já não nos olham mais como referenciais, eles quase não conseguem fazer distinção dos padrões de vida e, por isso, acham que estão bem onde estão e se saírem, não vai mudar muita coisa.
Ao lermos a Palavra de Deus vemos bem claro as instruções dadas para um viver santo. Em 1 Pedro 1.14-16, a orientação do apóstolo é para não nos deixarmos amoldar pelos desejos que tínhamos antes de nos tornarmos filho de Deus, e esses desejos são considerados por ele como maus. Pedro ainda nos instrui a sermos santos em tudo o que fizermos e faz alusão a uma citação de Levítico 11.45 em que Deus diz: “Sejam santos, porque eu sou santo”. Este é que deve ser o nosso referencial de santidade.
A santidade envolve o nosso pensar. Paulo diz que todas a coisas que forem nobres, corretas, amáveis, puras, todas as coisas que forem de boa fama, nestas devemos pensar, ou seja, estas devem ocupar nossos pensamentos (Fp 4.8). Lembro-me de ter visto a propaganda de um tênis em um outdoor que trazia os seguintes dizeres: “Garotas gostam de rapazes com tênis limpinho e uma mente poluída”. Isso reflete a mentalidade desta geração, enquanto somos exortados a mantermos uma mente pura, o mundo tenta induzir-nos a mantermos pensamentos impuros. O evangelista, pensando em todo cristão como um evangelista em potencial, deve zelar por manter uma mente pura, pensamentos que tragam edificação.
E o que falamos? Será que os não-cristãos observam isto também? Sem dúvida alguma, com já disse, estão observando tudo, e mesmo que não estivessem observando, as nossas palavras também devem edificar aos que as ouvem (Ef 4.29). Em nosso vocabulário não devem existir palavras torpes[1], pois para nada servirão, senão para escandalizar o nome de Cristo.
No texto de 1 Pd 2.12 somos chamados a viver de maneira exemplar, de modo que as pessoas nos observem e não encontrem falhas para nos acusar. Uma vez que fomos salvos, devemos nos considerar mortos para o pecado, e não permitirmos que domine sobre nossas vidas, pois fomos libertos da escravidão do pecado. Cada membro do nosso corpo deve ser oferecido a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.11-13).
Deus requer daqueles que estão anunciando a Sua mensagem de salvação uma vida de santidade, irrepreensibilidade, uma vida que reflita o Seu caráter santo.
2. O evangelista e a oração
A Igreja de Jerusalém crescia a cada dia, conforme o Senhor lhes acrescentava os que iam sendo salvos (At 2.47). Note que no verso 42 relata que os crentes daquela Igreja se dedicavam ao ensino e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Entendemos que a oração é fundamental na vida de cada cristão e por isso ela deve fazer parte da vida de um evangelista.
Charles H. Spurgeon dizia aos seus colegas pregadores:
Devemos ter por norma jamais ver a face dos homens antes de vermos a face de Deus…Quem sai correndo da cama para as ocupações sem primeiro passar tempo com Deus, é tão insensato quanto seria se não se lavasse nem se vestisse; é tão imprudente quanto o soldado que se lança na batalha sem armas nem armadura[2].
Jesus Cristo ensinou para os Seus discípulos que deveriam manter sempre uma vida de oração, e jamais se desanimar (Lc 18.1). Quando Paulo escreveu para o jovem Timóteo, disse: “Quero, pois, que os homens orem em todo lugar…” (1 Tm 2.8a), e aos tessalonicenses, Paulo falou: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). Podemos ver o quanto a oração é valiosa para a vida de qualquer um que queira viver uma vida de compromisso com Deus e queira empenhar-se na missão de anunciar a todo homem que Jesus Cristo é o único caminho para livrá-lo da perdição eterna.
É muito comum ouvir alguém dizer que já está cansado de falar de Jesus para determinada pessoa e parece que não está adiantando nada, mas é raro ouvir alguém dizer que já está cansado de orar por aquela pessoa para que ela compreenda o evangelho porque também não está adiantando nada. Muitas vezes queremos ganhar as pessoas para Cristo somente pelo falar, e a oração é deixada de lado ou para quando não nos resta mais nada a fazer. Precisamos aprender a começar a evangelização pela oração. Tiago disse que a oração de um justo é poderosa e eficaz (Tg 5.16b). Precisamos pedir que Deus intervenha na vida daquele para quem falaremos do evangelho e também na nossa vida, como instrumentos nas mão de Deus. Não podemos esperar influenciar os corações endurecidos e almas errantes da humanidade sem convidar Deus para que Ele nos dê poder e abençoe nossos esforços, por si mesmos estéreis, em favor de sua causa eterna.
3. O evangelista e as Escrituras
Muitos fracassam na evangelização por não conhecerem as Escrituras e indiscutivelmente só a conheceremos se nos dedicarmos a estudá-la. Não basta apenas transmitirmos a Palavra, é preciso também nos alimentarmos dela. Nós podemos querer ter sempre uma mensagem simples ao apresentarmos o evangelho, mas para sabermos comunicá-la bem, mesmo no plano mais simples, temos de conhecer mais do que meramente as verdades básicas. Pedro nos exorta a estarmos sempre preparados para respondermos a qualquer um que pedir a razão da esperança que há em nós se não a conhecermos, infelizmente teremos que nos calar (1 Pe 3.15),.
É evidente para todos que o conhecimento acerca da Palavra é fundamental para quem deseja viver uma vida cristã dinâmica, de acordo com os planos divinos para os homens. O salmista diz que bem-aventurado é o homem que medita na Palavra dia e noite; o homem que se dedica em estudar e compreender a lei do Senhor. Este homem é comparado a uma árvore que é plantada junto a ribeiros de águas, uma árvore cuja folhagem não murcha e cujo fruto dá no tempo certo (Sl 1.1-3). Tais árvores possuem suas raízes profundas, mesmo que venha uma tempestade e vento forte ela permanece firme. O servo do Senhor que medita na Palavra dia e noite não será facilmente abalado.
Estudar as Escrituras é importante. Tiago falando sobre o valor deste livro enfatiza que não é suficiente conhecê-lo nos mínimos detalhes se não permitirmos que ele nos mude. Diz ele que aquele que é apenas ouvinte da Palavra e não praticante, engana-se a si mesmo e é semelhante ao homem que contempla o próprio rosto no espelho e saindo logo se esquece como era sua aparência (Tg 1.22-24). Aquele, porém, que ouve e pratica será bem sucedido em tudo o que realizar (Tg1.25, Sl 1.3). Logo, se meditarmos e nos esmerarmos em praticar as Escrituras obteremos sucesso na proclamação do evangelho.
Como evangelistas precisamos ter em mente que Deus está mais interessado em nossa intimidade com Ele do que em nossa atividade para Ele. É lendo e meditando na Palavra que ouviremos a voz de Deus, que aprenderemos a como ter intimidade com Ele, pois Sua vontade, seus preceitos e instruções estão expressos nas Escrituras.
4. O evangelista e a paixão pelos perdidos
Um evangelista que tenha paixão pelos perdidos quando olha para o mundo e vê a situação em que se encontram, sem Deus, perdidos caminhando rumo ao inferno, ele sente compaixão e um profundo desejo em anunciar-lhes o caminho que os livra da perdição.
Ao observarmos a vida de Estevão, notamos um homem que amava os pecadores, tanto aos seus amigos quanto aos seus inimigos. Ao final de sua vida, enquanto alguns homens ímpios o apedrejavam por causa da mensagem que pregava a respeito de Jesus Cristo, ele orou a Deus dizendo: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Com estas palavras adormeceu”( At 7.59-60). Uma demonstração de amor incondicional, mesmo morrendo, sua preocupação estava voltada para aqueles que poderiam morrer sem compreender o evangelho, os seus próprios assassinos.
Vale a pena lembrarmos novamente os exemplos de Paulo, Filipe e do Senhor Jesus, que amaram os pecadores e gastaram suas vidas proclamando-lhes a mensagem de salvação. Através destes exemplos, precisamos aprender ou desenvolver a paixão pelos perdidos. Normalmente as pessoas desempenham melhor e com mais motivação, um trabalho pelo qual sentem amor. Se não amarmos o pecador não nos sentiremos motivados a falar-lhe a respeito do plano de Deus para sua vida. Nos exemplos que vimos, o amor pelo pecador é notório.
Deus não está em busca de profissionais de sucesso para desempenharem a tarefa de evangelização, Ele quer pessoas que tenham disposição, disponibilidade, vida, paixão. Pessoas que se coloquem em Suas mãos para serem usadas conforme o que Ele planejar e quiser, e não conforme o que elas planejarem e quiserem. Jesus chamou homens simples, provavelmente sem muita instrução; homens comuns (At 4.13). Não eram do tipo que alguém esperaria que conquistasse o mundo para Cristo. No entanto, naqueles homens simples, Jesus viu líderes em potencial do Seu reino. Eram homens capazes de ser ensinados, homens honestos, prontos a confessar a sua própria necessidade.
É imprescindível que o evangelista que deseja ver vidas sendo transformadas, tenha também sua própria vida transformada. Como poderemos impressionar a outros com a beleza da santidade, com a felicidade da harmonia e comunhão com Deus, com o valor infinito da crucificação e com a ternura de Jesus, sem que nós mesmos estejamos desfrutando de tais experiências?
O apóstolo Paulo viveu de tal forma que teve autoridade de vida para dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co 11.1). Paulo era um cristão que levava a mensagem da cruz, mas levava também as marcas da cruz consigo: uma vida de santidade, oração, dedicação ao estudo da Palavra e paixão pelos homens perdidos. Sendo seus imitadores, com certeza seremos evangelistas eficientes na tarefa de ganhar almas para Cristo.
[1] Segundo Aurélio, torpe pode ser: desonesto, impudico, infame, ignóbil, repugnante, nojento, obsceno, indecente e também maculado – Novo dicionário da língua portuguesa – p. 1692.
[2] SUMNER, Roberto L. Evangelização em chamas. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1965. p. 27.
Exemplos Bíblicos de Comunicadores do Evangelho
A Bíblia está repleta de exemplos de pessoas que alcançaram sucesso na proclamação das Boas Novas aos homens. Observaremos pelo menos três destes exemplos a fim de descobrirmos algumas de suas qualidades e táticas usadas para que fossem ouvidos: e exemplo de Paulo, Filipe e Jesus.
1. O exemplo do de Paulo
Vemos em Paulo o esforço e a dedicação em ganhar almas para Cristo. Em 1Co 9.19-23 ele afirma que fez de tudo para com todos a fim de ganhar alguns, e deixou bem claro que o seu interesse era ganhar o maior número possível. Paulo buscou ser semelhante socialmente, através do contato diário com as pessoas. Ele era diferente em questões éticas, nas quais mantinha-se firme, mas estabeleceu pontes para ser igual, pois havia em si uma consciência flexível em assuntos sem importância moral. Ele foi muito criticado por essas coisas, mas o que era importante para ele é que o nome de Cristo estava sendo anunciado. Quando Paulo afirma: “…ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Co 9.16b), percebemos que ele tinha plena consciência de sua missão. Ganhar almas para Cristo era mais importante que preocupar-se com o que os irmãos pensariam ou falariam. Isso não significa que Paulo não se preocupava com seus irmãos em Cristo, pelo contrário, ele tinha por eles respeito e zelo muito grandes (1Ts 2.7-12).
Jônatas Edwards, um dos grandes evangelistas do passado, ficou muito conhecido por sua eficácia em ganhar almas, escrevia seus sermões por extenso; lia-os em voz monótona, página por página, segurando o manuscrito perto dos olhos porque era míope; mesmo assim algumas vezes as pessoas do auditório agarravam-se aos bancos com medo de cair no inferno dos pecadores, pois seus sermões transmitiam palavra de fogo, verdades tão vívidas, que multidões foram conquistadas para Deus. Não era a personalidade do homem que os atraía, mas sim as verdades divinas que estavam sendo proclamadas[1]. Sua confiança não era em si mesmo, no que poderia ou não realizar, mas sim no que Deus era capaz de realizar através de Sua vida, e Paulo não devia pensar muito diferente deste homem, visto que o grande número de almas que Paulo ganhou para Cristo, não foi atraída por sua personalidade (1 Co 2.4,5) nem por sua presença corporal (2 Co 10.10), mas pela Palavra que pregava, pelo Espírito que nele habitava.
Vivemos em uma sociedade capaz de dar a própria vida na luta pelos seus direitos. Esta é uma mentalidade que tem entrado sorrateira no meio evangélico, onde as pessoas só pensam e si mesmas. O exemplo que temos em 1 Coríntios 9.1-15 é totalmente o oposto, o apóstolo Paulo abriu mão dos “seus direitos” para pregar o evangelho, ou seja, para beneficiar a outros. Havia nele a disposição de passar por necessidades se fosse necessário para que fosse eficiente na pregação do evangelho. Muitas vezes nós precisaremos abrir mão do nosso conforto, das nossas vontades a fim de anunciar o evangelho àqueles a quem ninguém está disposto a anunciar.
Enquanto prisioneiro, a preocupação do apóstolo não estava em como sair daquela prisão, ou em como provar sua inocência, mas ele se alegra com a situação em que se encontra porque como resultado dela muitos vieram a conhecer a Cristo, e ainda muitas pessoas se sentiram motivadas a anunciar com maior intrepidez a mensagem capaz transformar o homem por inteiro (Fp 1.12-14). Tudo uma questão de valores, para Paulo nada teria importância em sua vida se ele não cumprisse o propósito para o qual ele foi liberto da escravidão do pecado.
Notamos por fim que Paulo era um homem que tinha paixão pelas almas. Certa vez fez a seguinte declaração: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: que tenho grande tristeza e incessante dor no coração; porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne”( Rm 9.1-3). Disse mais: “Irmãos, os votos do meu coração e a minha oração a Deus são que eles se salvem ( Rm 10.1).
Paulo foi excelente comunicador da mensagem do evangelho, e isso graças a uma vida de compromisso com Deus, uma vida de temor e reverência àquele que tem todas as coisas sob o Seu controle.
2. O exemplo de Filipe
Filipe era um dos sete homens que foram escolhidos para servir na Igreja de Jerusalém, era um homem de boa reputação, cheio do Espírito e de sabedoria (At 6.1-7). Além de destacar-se em várias áreas de sua vida, encontramos evidências de que ter sido um grande evangelista. Em Atos 8.4-8, o encontramos como um pregador de grandes multidões; com toda coragem pregava a Palavra de Deus por onde quer que passasse. Um pouco mais adiante o encontramos praticando o evangelismo pessoal (At 8.26-36).
Como comunicador da mensagem do evangelho, Filipe tem muito o que nos ensinar com a sua forma de agir e de apresentar a mensagem. Observemos em Atos 8.26-35 algumas das virtudes deste grande evangelista.
No verso 26 diz que um anjo do Senhor disse a Filipe para onde ele deveria ir, e sem questionar nem retrucar ele obedeceu a orientação de Deus. Havia neste homem a sensibilidade para ouvir a voz de Deus, fruto de sua comunhão constante com o Pai, e também a disponibilidade para obedecer e atender ao chamado. Filipe não sabia qual o local exato para onde deveria ir e nem com quem se encontraria, mas uma coisa ele sabia: era Deus quem lhe estava falando e nEle ele poderia confiar e deveria atender ao chamado. Filipe tinha um coração disposto a ouvir e a atender à voz de Deus. O contrário aconteceu com o profeta Jonas, que diante do chamado de Deus para pregar o arrependimento a Nínive colocou-se à disposição, porém, para desobedecer a ordem divina (Jn 1.1-3).
No verso 29, percebemos mais uma vez a sensibilidade de Filipe em ouvir e atender à voz do Espírito de Deus, pois tendo obedecido desde o primeiro momento, encontrou no caminho um oficial, o Eunuco Etíope, que estava lendo o livro de Isaías. Filipe é orientado a aproximar-se da carruagem, mesmo sem conhecer o homem a quem mais adiante abordaria com a mensagem do evangelho.
Como evangelista, Filipe ficou atento ao que o Eunuco lia, e no momento certo fez a abordagem. A forma que usou para iniciar uma conversa foi perguntando ao homem se ele entendia o que estava lendo. O grande evangelista não precisou criar uma situação para falar do evangelho, ele aproveitou a oportunidade e a ocasião, e ficou atento para o momento certo de agir. Podemos deduzir também que Filipe conhecia bem as Escrituras, fator que muito contribuiu para facilitar sua abordagem, pois caso não a conhecesse, como responderia a dúvida do Eunuco?
Por fim, nos versos 34 e 35 vemos a objetividade de Filipe, que diante da pergunta do Eunuco, anunciou-lhe as boas novas de Jesus começando pela passagem onde estava aberta as Escrituras. Havia em sua mente um objetivo determinado, falar a respeito do sacrifício de Jesus. Portanto, ele manteve o assunto voltado para as Escrituras, pois aquela poderia ser a única oportunidade para aquele homem ouvir do evangelho. Naquele mesmo dia o Eunuco compreendeu o evangelho e foi batizado (vv. 38-39).
Filipe foi mais um homem que viveu para comunicar a mensagem do evangelho por onde quer que passasse e a quem quer que encontrasse (At 8.40).
3. O exemplo de Jesus
Por último, o exemplo do próprio Cristo, exemplo máximo e perfeito de evangelista. Para chamarmos a atenção dos não-cristãos como Jesus, devemos comunicar a verdade espiritual da mesma forma que Ele comunicou. Jesus não só falava sobre o amor, como também amou. Ele não só pregava sobre o perdão, ele perdoava; as pessoas pecadoras e atormentadas pela culpa caíam a Seus pés, perdoadas e limpas. Eles O consideravam seu amigo. Ele não só proclamava a necessidade de justiça e integridade como também atacou instituições iníquas de Seu tempo. Ele não começou um instituto bíblico nem estabeleceu uma cadeira de teologia em nome de Seu Pai; mas sim convidou homens para morarem com Ele vinte e quatro horas por dia. A Sua estratégia foi tornar-se carne e viver entre eles.[2]
Jesus ia de encontro às necessidades, feridas e interesses das a fim de construir uma ponte para evangelizá-las pessoas (Lc 4.18-19). Quando faltou vinho em um casamento, supriu uma necessidade – transformou água em vinho, e por intermédio deste milagre a glória do Senhor foi revelada a muitos (Jo 2.1-11). Em outra ocasião Jesus aproximou-se de uma mulher samaritana, mesmo sendo um judeu[3] e iniciou um diálogo com ela; note que para falar a respeito de salvação com aquela mulher, Jesus partiu de um ponto em comum, Ele estava com sede e aquela mulher estava buscando água, e lhe falou a respeito da água da vida (Jo 4.1-42). Para muitos, tal atitude seria um absurdo, como poderia Jesus um judeu conversando com uma mulher samaritana, e ainda mais, considerada de má fama na cidade. Entretanto, Ele não estava preocupado com o que as pessoas pensariam a seu respeito, sua preocupação era com a vida daquela mulher.
Os ensinamentos de Jesus eram claros, relevantes e aplicáveis, Ele procurava relacionar a verdade com a vida das pessoas. O Seu alvo era transformar vidas e não apenas informá-las. Não é suficiente simplesmente proclamarmos que “Cristo é a única resposta”, ou que “Jesus é a liberdade”, é necessário mostrar às pessoas que o que elas estão freneticamente buscando, somente em Cristo encontrarão: perdão, liberdade, segurança, alegria, propósito para a vida e amor verdadeiros. Jesus falava e também mostrava que Ele era o “caminho, e a verdade e a vida”.
Na comunicação da mensagem do evangelho Jesus falou às multidões num estilo interessante e prático, as pessoas gostavam de ouvi-lo, pois Ele ensinava verdades profundas de forma simples, sem ser simplista ou superficial e ainda, conseguia ser criativo usando ilustrações que auxiliassem na compreensão da mensagem transmitida(Mc 10.1, 12.37b).
Nos evangelhos nota-se que Jesus gostava mais de estar com o povo que com os líderes religiosos. Ele freqüentava as festas dos pagãos; foi até chamado de “amigo dos pecadores” (Lc 7.34). É importante ressaltarmos que há uma grande diferença entre ser amigo dos pecadores e amigo dos pecados. Jesus andou entre o povo, falou sua língua, observou seus costumes, cantou suas canções, porém, fez tudo isto sem comprometer Sua missão e mensagem, Ele sempre abominou o pecado e nunca deixou de amar os pecadores.
Jesus é o exemplo máximo de evangelista, pois estava disposto a sofrer dores, oposições, injustiças; estava disposto a quebrar preconceitos e paradigmas, a fim de que o homem pudesse ouvir as boas notícias de salvação, e acima de tudo, Ele amou o pecador até a morte.
[1] BOYER, Orlando. Esforça-te para ganhar almas. São Paulo: Vida, 1975. p. 23-24.
[2] ALDRICK, Joseph C. Op. cit. p. 29.
[3] Em João 4.9 diz que os judeus não se davam bem com os samaritanos.
Como entender os Descrentes?
As pessoas que são arredios ao evangelho (a Deus) são bem variados, tanto homens quanto mulheres, tanto jovens quanto adultos.
O que pensam estas pessoas, de nada nos adiantaria saber seu perfil sem entender o que se passa em sua cabeça. Baseado no livro “Como alcançar os que evitam a Deus e a Igreja”.
Cientes de que nem todos pensam da mesma forma a respeito de Deus e da Igreja, cada geração tem suas peculiaridades, eis aqui algumas observações gerais que poderão ser úteis na compreensão dos descrentes.
O fato de o não-cristão ter rejeitado a Igreja não significa que também rejeitou a Deus
São vários os motivos pelos quais alguma pessoa pode ter se afastado de uma igreja, pode variar desde decepções a desinteresse. Muitos julgam-na antiquada, ultrapassada, e preferem manter distância. Geralmente estas pessoas estão mais abertas para conversar sobre Deus do que imaginamos.
Uma pesquisa feita nos Estados Unidos constatou que cerca de 13% das pessoas são atéias ou agnósticas. Porém, apesar de a maior parte das pessoas dizerem que acreditam em Deus, constatou-se também que dentre os que acreditam havia algumas diferenças no que se refere a que espécie de divindade acreditavam. Alguns ao se referirem a um princípio do bem, referiam-se a Deus, e outros viam Deus como aquele que realizou o big-bang, ou aquele que criou o universo e deixou tudo correr livremente, sem intervenções. Penso que no Brasil não é tão diferente.
Muitos afirmam: Acredito em Deus mas não acredito na igreja. Consideram a igreja sem sentido, sem significado, incapaz de ajudá-lo em alguma coisa. Muitos destes são os que tiveram alguma experiência religiosa e se decepcionaram de alguma forma com igreja. Para trazer tais pessoas de volta faz necessário que as igreja superem tais objeções.
Tem sido interessante ver o quanto as pessoas tem demonstrado interesse em estudar a Bíblia, em aprender sobre Deus e o Seu plano, mas quando se fala de igreja muitos se assustam e até mesmo se distanciam, pois há algum tipo de preconceito, barreiras que precisam ser quebradas a todo custo.
O descrente opõe-se a regras, mas é sensível ao raciocínio
Os não-cristãos geralmente não gostam que lhe digam o que devem fazer.
O não-cristão é resistente à idéia de que a Bíblia determina os padrões para se viver. Ele acha que ele mesmo é capaz de determinar o que é bom ou não para ele, e o que deve ou não fazer.
Ao mesmo tempo que não gostam que lhe digam o que devem ou não fazer, estão prontos para ouvir e racionar. Se tentarmos mostrar-lhes o que Deus colocou como limite moral para nós e mostrá-lo os benefícios de sujeitar-se a eles, isto o torna mais pronto a segui-los.
Um exemplo específico disto é se encontrar-se com alguém que vive com a namorada. Certamente você poderia apresentar-lhe vários versículos bíblicos que mostram que sua atitude é reprovada por Deus. Provavelmente ele não lhe daria ouvidos, porém se você lhe explicasse os danos emocionais, psicológicos, e familiares que tal relacionamento pode causar, ele estaria mais pronto para ouvir, e então você apresentaria o que as Escrituras dizem a respeito do assunto, que é uma demonstração do amor de Deus querendo poupar-nos de tais problemas que podem surgir como fruto de um relacionamento íntimo sem a segurança de um casamento.
É importante mostrar-lhes os benefícios de se viver nos caminhos do Senhor. As pessoas afastadas de Deus estão sempre prontas a ouvir quando o assunto é ‘como podem se beneficiar’[1].
A maioria dos não-cristãos não compreendem o cristianismo e nem sabem exatamente em que acreditam
Embora muitos não-cristãos já tenham ouvido falar algo a respeitos dos cristãos, ou da Bíblia, embora muitos até tenham uma Bíblia em casa, eles não compreendem o que é o cristianismo, ou seja eles não sabem o que é ser cristão.
Não podemos partir do pressuposto que eles sabem alguma coisa, para alguns a rejeição ao cristianismo não está fundamentada em conhecimento algum, é simplesmente porque os amigos o fazem, ou a família, mas ele mesmo nem sabe o motivo.
Hoje em dia a sociedade tem sido bombardeada pelo misticismo, esoterismo e uma série de idéias erradas que geram uma confusão ainda maior na cabeça do não-cristão, que não conhece o verdadeiro cristianismo, e acaba colocando tudo no mesmo pacote.
A orientação dada por Lee Strobel é que ao conversarmos com algum não-cristão não devemos pressupor nada. O interessante é ouvir a sua visão do cristianismo e avaliar o nível do seu conhecimento. Neste processo pedir esclarecimento de termos usados, pois nem sempre por ele falar sobre salvação, pecado, graça, significa que para ele tem o mesmo significado que tem para você.
Além de não conhecer o cristianismo, a maioria dos não-cristãos nem sabem o que afirmam crer. São incapazes de enunciar e muito menos de defende suas crenças. Neste casos é interessante levá-los a avaliarem suas crenças e onde estão fundamentadas, se são fontes consideradas verdadeiras, se são fontes nas quais ele pode confiar sua vida. Finalmente ajudá-lo a ver a firme fundação sobre o qual o cristianismo se baseia.
“Temos uma fonte verdadeira que ser sustenta com base na história, na arqueologia, nos relatos de testemunhas oculares, em artigos de pessoas não relacionadas com o cristianismo. Uma fonte cuja sobrenaturalidade foi patenteada pelo cumprimento de profecias e por milhões de vidas transformadas por Jesus”[2].
Provavelmente o não-cristão se tornará mais receptivo para conversar sobre o cristianismo após perceber que suas crenças não tem aquelas bases que ele presumia ter.
O não-cristão não quer ser o projeto de alguém. Ele gostaria, porém, de ser amigo de alguém
É possível que você já teve um amigo interesseiro, ou você já foi um amigo interesseiro. Há aqueles que se aproximam para uma amizade com o interesse de obter informações sobre escola, trabalho, sobre alguém, outros mantêm uma amizade devido a quantidade de dinheiro que o outro possui, ou o carro que lhe serve de carona, e por aí vai. Este é o tipo de amizade que não dura muito.
Muitos não-cristãos sentem que os cristãos aproximam-se deles simplesmente com um interesse, o de convertê-los. Ninguém gosta de saber que está sendo estudado por alguém. Este é um dos principais motivos pelos quais há pouco amizade entre um descrente e um cristão.
O não-cristão está interessado em amizades verdadeiras, e precisamos demonstrar por eles, primeiramente, o amor incondicional de Cristo através de relacionamentos verdadeiros. Infelizmente nossas igrejas estão infestadas de pessoas que vivem sozinhas em uma comunidade. Precisamos aprender o valor de uma amizade profundam, sincera, onde há o interesse em “…levar as cargas uns dos outros” (Gl 6.2). No momento em que o não-cristão notar que seu amigos cristãos têm uma estreita comunhão uns com os outros e que ele também pode ter isso, ele se sentirá atraído pela igreja.
O descrente não segue denominações. É atraído a lugares onde possa satisfazer os anelos de sua alma
Nos dias atuais, o descrente compara preços e produtos até no campo espiritual. O fato de ter pertencido a uma determinada denominação talvez ainda possa exercer alguma influência quanto à escolha da igreja quando estiver disposto a voltar. A grande maioria, entretanto, irá onde encontrar qualidade, criatividade e conveniência.
O não-crente até está disposto a freqüentar diferentes denominações, a fim de tirar partido de programas específicos que o ajudem no seu viver diário.
É melhor não se falar em assuntos denominacionais com um não-cristão, visto que muitos vêem isso como uma divisão das igrejas, ou associam a igreja local com o Congresso, em que a local é controlada por uma sede distante. Não é esta uma associação muito boa.
Eis aqui alguma sugestões dadas por Lee Strobel para as igrejas denominacionais alcançarem os não-cristãos:
- Para traze-lo de volta à igreja, não tente interessá-lo na sua antiga denominação. Ele reagirá de maneira mais positiva ao convite para um programa específico que vá ao encontro de suas necessidades.
- As denominações devem evitar os modos tradicionais do ministério. Devem deixar que os seus membros abram um novo caminho que possa atingi-lo.
- As igrejas tradicionais devem procurar desenvolver laços de amizade nos seus cultos e promover acontecimentos fora da rotina, bem como reuniões especiais, para onde seus membros possam trazer os amigos não-cristãos.
- Não se devem enfatizar os laços existentes entre ministérios “profissionais” e de leigos, pois, para quem não pertence à igreja, isso pode parecer “elitismo” e manobra de organizações.
- Valores que atraem um descrente, como excelência, criatividade, autenticidade, conveniência, participação dos leigos e liderança disposta a servir, devem ser traçados e facilitados pela cúpula da estrutura denominacional.
- A atitude “Sempre fizemos assim” precisa se transformar em “Que podemos fazer para ajudar e alcançar mais pessoas com o evangelho?[3]
O descrente pode não demonstrar interesse espiritual na igreja, mas quer que os seus filhos recebam treinamento moral de alta qualidade
Há não cristãos que quando os filhos chegam a determinada idade concluem que já é hora de eles terem algum tipo de treinamento religioso. A partir de então começam a procurar uma igreja com o intuito de “simplesmente levar os filhos”.
A maioria acredita que a igreja exerce um papel relevante em promover um “código moral” para a sociedade e gostariam que seus filhos tivessem algum tipo de educação religiosa.
Em um estudo realizado, 55% de homens da geração pacifista disseram que não tinham de modo nenhum planos de se unir a uma igreja nos próximos cinco anos. Mas, 73% afirmaram que gostariam que os seus filhos tivessem treinamento religioso[4].
Este tipo de pensamento pode ser fruto de uma vida desregrada que deixaram marcas e agora os pais não querem que os filhos sigam o mesmo caminho, buscando a solução para os filhos em uma instrução religiosa.
Com esta tendência surge então a grande oportunidade de evangelizar as crianças ou jovens que levadas pelos pais, e há também a grande oportunidade de alcançar os pais com a mensagem do evangelho.
Há um casal que tem vindo à igreja, e já expressou que o motivo de virem é que desejam que suas filhas tenham uma instrução religiosa, mas enquanto isso, eles têm sido bombardeados com mensagens a respeito do plano de Deus para homem. A semente têm sido semeada tanto no terreno das crianças quanto no dos pais.
O mundo tem colocado um padrão muito alto de programas atrativos para crianças e jovens, logo, é importante que a igreja tenha um trabalho criativo e atrativo tanto para a criança quanto para o jovem, caso contrário, mesmo os pais queiram oferecer uma educação religiosa, provavelmente eles preferirão o que tem sido oferecido lá fora.
O descrente tem orgulho de ser tolerante com os diversos tipos de fé, mas acha que os cristãos têm mentalidade estreita
O não-cristão intelectualizado quer que os cristãos adoram a seu deus, os muçulmanos adorem Alá e os hindus adorem inúmeros deuses. Mas, quando os cristãos afirmam que o seu caminho é o único caminho para o céu (Jo 14.6), ele chama isso de fanatismo. É corrente o conceito de que todas as religiões levam até Deus. Para os não-cristãos é pura presunção do cristão afirmar que há somente um caminho que leva até Deus e que somente eles estão certos e todos os demais errados.
Estas são apenas algumas idéias gerais, com certeza não é regra que todo não tenha tais conceitos. O importante é conhecermos quem de fato queremos evangelização e o que pensam a respeito de Deus. Cada pessoa tem necessidades, personalidade e interesses diferentes umas das outras.
[1] Lee Strobel. Como alcançar os que evitam a Deus e a igreja. P.48
[2] Lee Strobel. Como alca… p. 51
[3] Lee Strobel. Como alcançar os que evitam a Deus e a igreja, p. 66-67.
[4] Lee Strobel cita “Here Come the Baby Boomers”, Emergin Trends, junho de 1991,5.
Como alcançar os que evitam a Deus e a Igreja?
Eis aqui alguns pensamentos de alguém que evitava a Deus:
- Alguém inteligente jamais acreditaria num Pai celestial, num Deus todo-poderoso e criador do universo.
- Darwin explicara que a vida era meramente um acidente da evolução
- Marx estabelecera que a religião era apenas um instrumento usado pelos poderosos para oprimir os pobres
- Freud demonstrara de maneira clara que as crenças religiosas eram simples ilusões provenientes “dos mais antigos, forte e urgentes desejos da humanidade”, um desejo de proteção contra os perigos da vida.[1]
Quem são os que evitam a igreja.
- O professor de ciências da escola secundária local cuja idéia é de que qualquer religião é para pessoas não-intelectuais.
- A vizinha extrovertida que está muito feliz sem Deus.
- O mestre de obras duma construção que somente usa o nme de jesus para praguejar.
- A empresária, sempre tão ocupada com o sucesso dos seus negócios, que não tem tempo para assuntos espirituais.
- O comerciante que se esquiva do cristianismo porque recia que a fé modifique sua maneira de conduzir os negócios.
- A estudante universitária cujas amargas experiências como o seun pai envenenaram a sua idéia de um pai celestial.
- O marido que considera a fé de sua esposa uma perda de tempo.
- A dentista que acredita que Jesus Cristo é o Filho de Deus, mas sempre adia um relacionamento pessoal com Ele.
- O mecânico de automóveis que vai à igreja religiosamente no Natal e Páscoa, numa atitude automática.
- A contadora que leva seu filhos à igreja para receberem um bom treinamento moral e, embora assista aos cultos, no fundo do seu ser é descrente.
- O advogado que passa as manhãs de domingo lendo o jornal ociosamente, ou jogando golfe no clube, e se irrita com a idéia de que deveria sentir-se culpado disso.
- A funcionária do governo que, por alguma experiência religiosa, afastou-se de Deus, convencendo-se de que o cristianismo é, na melhor das hipóteses, enfadonho e sem valor. Ou, o que é pior, algo para enganar os ingênuos.
Há pessoas que são avessas à igreja. Este pode ser um colega de trabalho, de escola, talvez o seu vizinho ou um parente. Pode ser que este seja o seu melhor amigo ou o seu cônjuge. Pessoa que você anseia que Deus o use para falar do Seu amor a estas pessoas de forma que eles venham compreender a mensagem. Diante de tudo isso, surge também o medo de afastar estas pessoas ao invés de alcançá-las.
Parte do receio de falar de Cristo a estas pessoas advém da falta de conhecimento sobre o que os não-cristãos pensam, por isso, é preciso entender os descrentes a fim de que o esforço evangelístico torne-se eficaz.
[1] Lee Strobel. Como alcançar os que evitam a Deus e a Igreja, p. 12
Fatores que Prejudicam a Evangelização
É importante que ao pararmos para analisar o empenho e resultado da ação evangelística dos apóstolos façamos a seguinte pergunta: Temos desempenhado a nossa missão de forma eficiente ou deficiente?
Se comparado ao empenho e resultados obtidos pelos apóstolos, os resultados nos levam a admitir que temos sido ineficientes na proclamação das Boas Novas. O que será que tem nos levado a resultado muitas vezes frustrantes? Joseph Aldrich fala um pouco a respeito de alguns fatores que nos levam a desempenhar um evangelismo deficiente[1], fatores esses que uma vez detectados, cabe a nós nos empenharmos para que sejam sanados.
Relacionamentos superficiais
A necessidade que temos em nos relacionar com um número de pessoas cada vez maior, o que tem influenciado grandemente para que sejamos ineficientes na proclamação do evangelho, ou seja, as exigências de mantermos relacionamentos excessivos mutilam a nossa capacidade de relacionamentos profundos; o contato diário com várias pessoas não passa de um mero contato superficial. Esta influência cria uma barreira para a apresentação das Boas Novas, visto que vivemos em uma sociedade carente de relacionamentos, e ao mesmo tempo “individualista”.
Disponibilidade
A “falta de tempo” tem nos levado a um ritmo de vida acelerado. Com tantas coisas para realizar durante a semana, agenda sempre lotada, acrescentar evangelização implicaria em mais uma tarefa a ser cumprida. Definitivamente, há pessoas precisando de ajuda, clamando por socorro, mas não temos tempo nem disposição para pararmos e gastarmos tempo com essas pessoas, pois há “coisas mais importantes” a serem feitas. Tais atitudes surgem de uma visão egoísta, onde as pessoas só pensam em si mesmas.
Modelos evangelísticos deficientes
Consideramos também que hoje geralmente somos ineficientes em nossa proclamação do evangelho devido aos nossos contatos com modelos evangelísticos defeituosos. Embora muitas práticas evangelísticas proporcionem o crescimento das igrejas, há também muitas que inibem o crescimento das mesmas. Ao mesmo tempo em que há igrejas que não crescem porque não estão evangelizando, há igrejas que não crescem justamente porque estão evangelizando de maneira errada.
Há muitos que imaginam que evangelização é o que o pastor faz domingo pela manhã ou à noite, pregando sermões evangelísticos e ao final de cada culto fazendo “o apelo”. A igreja fica dependente e acomodada, simplesmente trazendo os visitantes para ouvirem a mensagem. “Semana após semana, o pastor evangeliza os evangelizados. O seu povo se enfraquece numa dieta de sermões evangelísticos, incapazes de testemunhar com eficiência acerca da realidade do evangelho total em suas próprias vidas”[2]. Sem dúvida alguma há pessoas que se convertem nessas igrejas, porém os membros não se empenham em cumprir o que lhe fora designado por Deus, pregar o evangelho.
A “emboscada” é mais um desses modelos defeituosos. Um programa “evangelístico” é planejado e convidam-se as pessoas para participar, porém não explicam o que acontecerá no programa, e quando o não-cristão chega é surpreendido com a mensagem do evangelho. Isto causa na pessoa um sentimento de traição, sente-se enganada, como se fosse um “animal inocente” que caiu numa emboscada, e muitos sentem-se até envergonhados. A maioria das vezes este tipo de abordagem leva o não-cristão a sentir aversão por igreja, por crentes, e alguns até aversão a Deus.
Muitos cristãos pensam que evangelização é somente o que Billy Graham faz, e acham-se incapazes de realizar o mesmo que ele, pois não têm as aptidões necessárias. O resultado é que preferem então deixar para que Billy Graham, e outros “mais dotados de capacidade” desempenhem a difícil tarefa de falar para as pessoas do amor e obra do Senhor Jesus Cristo. De fato temos muito o que aprender com os grandes evangelistas que têm surgido, mas o problema está em tentarmos ser idênticos a eles.
Má compreensão de espiritualidade
Uma outra razão que nos leva a ser falhos na comunicação do evangelho é que a partir do momento em que uma pessoa se converte, ela adquire um novo estilo de vida e quase que automaticamente ele perde todo o contato que tinha com seus amigos não-cristãos, pois a velha natureza destes torna a separação uma “necessidade” para que o crescimento espiritual ocorra.
A má compreensão da espiritualidade nos leva a ver os não-cristãos como nossos inimigos e não enxergamos que eles, na verdade são como vítimas do “inimigo”. Colocamos na cabeça que é necessário sermos diferentes, mas no esquecemo que não há como ser totalmente diferente dos não-cristãos, pois há coisas que nos são comuns, tais como: o gosto pelo lazer, família, filhos a serem educados, dentre muitas outras coisas que são os meios de mantermos contato com eles. A má compreensão da verdadeira espiritualidade torna-se uma barreira para a propagação do evangelho.
Contradição entre o falar e o viver
Por fim, é necessário considerarmos o desequilíbrio que há entre o que ser fala e o que se vive. É muito fácil falar do evangelho, o difícil é mostrar o evangelho através do dia a dia. As pessoas estão muito mais atentas ao que nós, cristãos, fazemos do que para aquilo que dizemos. Infelizmente, muitos são os que têm pregado mas não têm vivido o evangelho puro e verdadeiro. Normalmente estas pessoas tornam-se pedras de tropeço, prejudicando a eficiência em comunicar o evangelho, e também a eficiência da Igreja como corpo, pois como todo membro é visto como sendo uma parte do corpo, todo cristão é visto como uma parte da Igreja.
[1] ALDRICH, Joseph. Op. cit. p. 14-19.
[2] Idem, p. 15.
Métodos para Evangelização
Atualmente existem muitos métodos usados para a proclamação do evangelho, alguns mais eficientes que outros. De um modo geral, todos têm o seu devido valor. As pessoas possuem qualidades, personalidades e habilidades diferentes, e o desejo de Deus é que cada um use daquilo que Ele deu para levar as Boas Novas. Na Bíblia encontraremos vários exemplos de personagens que foram usados por Deus para que muitos viessem a crer no Senhor Jesus, cada um usando o seu próprio estilo. Destacaremos apenas alguns dos métodos que podem ser usados tanto pelo cristão como membro, quanto pela igreja como corpo.
Lembre-se que a mensagem sempre será a mesma em qualquer época ou para qualquer pessoa, porém os métodos podem e devem variar.
1. Método de confrontação
A evangelização confrontadora é a forma pela qual os cristãos encontram uma pessoa ou mais, que geralmente não conhecem e aproveitam a oportunidade para apresentar-lhe o evangelho. Às vezes, o uso desta técnica ocorre com pessoas conhecidas pelo evangelizador, tais como colegas de trabalho ou vizinhos, com quem o cristão não tem um relacionamento particularmente forte ou longo. Uma característica bem forte deste método é que o cristão habitualmente determina quem está inclinado a ouvir o evangelho, quando e onde as condições são apropriadas, sendo a mensagem tipicamente dogmática para levar o ouvinte a tomar uma decisão no ato, ou arriscar-se à condenação eterna, ou seja, há proclamação das Boas Novas e uma chamada à decisão.
A evangelização confrontadora acontece nos mais variados ambientes: no lar do não-cristão, por exemplo: evangelização de porta-em-porta ou encontro combinado por telefone; em lugares de atividade de lazer ou de descanso, como em praias, em concertos; em lugares públicos, ônibus, aviões, estacionamentos e eventos esportivos; em qualquer lugar onde duas pessoas ou mais possam manter uma conversa.
Este é o método que é muitas vezes usado nas grandes cruzadas evangelísticas, onde um evangelista leva a mensagem de salvação a uma grande quantidade de pessoas. As pessoas que usam este método geralmente são mais ousadas agir como no falar. Na Bíblia encontramos o exemplo de Pedro, que tinha um temperamento muito forte, explosivo e que não hesitava em falar de Jesus independente das circunstâncias. Pedro também era incisivo em suas atitudes, tanto que quando os guardas foram prender a Jesus, Pedro não hesitou em cortar fora a orelha de um deles (Jo 18.10).
Em Atos 2.11-12, na ocasião da descida do Espírito, diante do que estava acontecendo, alguns ficaram atônitos e perplexos, mas outros zombavam e diziam que os discípulos estavam bêbados. Diante desta situação, Pedro começa o seu discurso (At 2.14-41) e neste deixa bem claro as Boas Novas de salvação para aquele povo, e no verso 41 diz que naquele dia houve cerca de três mil pessoas se rendendo aos pés de Cristo. Coragem, intrepidez, disposição e paixão pelos perdidos, isto é que Pedro possuía. Deus usou a Pedro com suas características pessoais, com sua personalidade própria e com suas imperfeições. Deus queria uma pessoa sem medo para assumir uma posição ali em Jerusalém – local em que Cristo fora crucificado.
Em nosso meio há pessoas que precisam ser confrontadas com as verdades do evangelho seja pessoalmente, através de um diálogo ou impessoalmente, através de uma grande cruzada evangelística.
2. Método socrático[1]
Este é o método pelo do qual argumenta-se com o não-cristão acerca da realidade, reflete-se sobre os argumentos que tem ouvido e tira conclusões para uma conversa, uma troca de idéias. É um método que leva a pessoa a pensar a raciocinar e até mesmo a questionar, a fim de que suas dúvidas quanto ao evangelho sejam tiradas. Este tipo de abordagem não requer uma aceitação calada de verdades impostas. Segundo George Barna este método “…diferencia conhecimento de opinião, fato de emoção”[2].
Este é o método pelo do qual argumenta-se com o não-cristão acerca da realidade, reflete-se sobre os argumentos que tem ouvido e tira conclusões para uma conversa, uma troca de idéias. É um método que leva a pessoa a pensar a raciocinar e até mesmo a questionar, a fim de que suas dúvidas quanto ao evangelho sejam tiradas. Este tipo de abordagem não requer uma aceitação calada de verdades impostas. Segundo George Barna este método “…diferencia conhecimento de opinião, fato de emoção”.
Normalmente as pessoas não têm muita confiança naqueles que alegam conhecer a verdade e, além do mais, afirmam saber como obtê-la, visto que fazemos parte de uma geração onde tudo é relativo, onde não “há mais” verdades absolutas.
Através da evangelização socrática, é menor o risco do não-cristão tomar uma decisão simplesmente por emoção, por pressão de um amigo ou parente, ou por estar passando por um período de dificuldades. A sua decisão virá após uma compreensão do significado do evangelho que está aceitando. Paulo usou muito este método, mesmo que ele usasse a confrontação, o seu método envolvia também uma apresentação lógica e racional da mensagem do evangelho, ele era expert em apresentar verdades centrais a respeito de Deus, o pecado, o homem e a solução para o problema do homem, haja visto a carta aos Romanos.
Certa ocasião, Paulo estava em Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus, e foi procurá-los a fim discutir sobre as Escrituras (At 17.1-4). É interessante que a Bíblia diz que este já era um costume de Paulo (v.2), e este “discutir” envolvia expor ou defender algum assunto alegando razões, envolvia muito o raciocínio, o intelecto. Paulo explicava-lhes porque foi necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos.
Um pouco mais adiante, Paulo encontra-se em Atenas enfurecido por causa da idolatria do povo, e não se cala e começa a anunciar as Boas Novas, e por isso foi levado ao Areópago, que era um Tribunal Ateniense onde eram realizadas assembléias de magistrados, sábios e literatos, e lá pôde falar mais ainda a respeito do seu Deus. Paulo usou de muita sabedoria para falar àqueles homens, pois ele partiu do conhecido; que eram as várias estátuas de deuses, para o desconhecido, que era uma estátua que havia entre as demais a qual Paulo chamou de “o Deus desconhecido”. Paulo falou com eles usando cultura e conhecimento do evangelho, e alguns creram e se agregaram a ele (At 17.16-34).
Há pessoas que são resistentes ao evangelho, não aceitam qualquer idéia que seja nova para elas. São pessoas que não aceitam respostas fáceis, quadradinhas, muitos querem ver a razão em tudo. Diante destas pessoas não há método melhor a ser usado que o socrático, pois este envolve o uso de uma argumentação racional, e para isto é necessário estar preparado “…para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15).
3. Método testemunhal
Este é o método em que a pessoa evangeliza falando da obra realizada por Deus em sua vida, é um testemunho do poder transformador do evangelho. Este método, como qualquer outro, exige muito mais do que falar, porque as pessoas vão querer ver o que de fato aconteceu, investigarão para ver se é verdade ou não.
As Escrituras falam a respeito de um cego de nascença que fora curado pelo Senhor Jesus (Jo 9), e este teve a oportunidade de testemunhar a respeito deste milagre, tanto para seus vizinhos (vv. 8-9) quanto para os fariseus (vv. 31-33), mesmo sem conhecer o autor do mesmo. Após conhecê-lo, o que era cego creu no Senhor Jesus e O adorou (v. 38). Mesmo a liderança não acreditando, questionando o seu testemunho, ele não cessou de falar a verdade ao ponto de ser expulso da sinagoga. Nem sempre as pessoas reagirão positivamente ante ao testemunho pessoal, muitos rejeitam o evangelho independente do método usado para anunciá-lo.
Outro exemplo do uso deste método é o testemunho da mulher samaritana (Jo 4.1-18) que, após compreender quem era Jesus saiu contanto a todos quem havia conhecido (Jo 4.39-42); por intermédio do seu testemunho, muitos vieram a crer no Senhor. Mesmo sendo uma mulher de má reputação ela não receou em ir até a cidade para falar a respeito de quem ela conhecera. É bem possível que tenha acontecido alguém tê-la rejeitado, mas muitos foram os que a ouviram.
A maioria das pessoas tem em mente o método testemunhal para ser usado somente por aqueles que possuem um testemunho dramático ou sensacionalista. Na realidade basta haver evidências de transformação de vida, para que um testemunho seja eficiente, e se algum cristão não consegue ver o que Deus fez e faz em sua vida, algum problema há.
4. Método assistencial
É aquele que leva as Boas Novas através de alguma obra de ação social, seja abrigando crianças de rua, distribuindo alimentos e roupas aos carentes. Este método busca infiltrar o evangelho na comunidade suprindo suas necessidades, tanto físicas quanto materiais e espirituais.
Vemos em Dorcas o exemplo de alguém que praticava este método de evangelização, um personagem pouco conhecido, mas que fez muita diferença na vida de algumas pessoas. Em Atos 9.36-42, diz que Dorcas era uma mulher notável pelas boas obras que praticava, pelos seus atos amorosos; tinha um ministério de assistência às viúvas, confeccionava roupas e lhes dava. Nesta passagem fica nítido o amor que os beneficiados sentiam por Dorcas, que havia falecido e fora ressuscitada pelo apóstolo Pedro, fato este, que tornou-se conhecido por toda Jope.
Geralmente as pessoas que gostam de servir aos demais são as que se identificam com este método. Elas tem a sensibilidade de perceber a necessidade dos outros e procuram empenhar-se ao máximo para ajudá-los sentem-se realizadas e felizes em exercer este ministério, mesmo que não haja o reconhecimento de muitos.
Este é um método que leva tempo até que a pessoa compreenda o evangelho, visto que muitos só estão interessados em suprir suas necessidades físicas e materiais. As pessoas que se empenham neste método de evangelismo são as que tocam naquelas pessoas que ninguém jamais tocaria, são geralmente aquelas consideradas “escória da sociedade”.
Certa vez ouvi uma ilustração que contava a história de um menino de rua que estava faminto em frente a uma padaria, observando pela janela de vidro os pãezinhos que iam saindo. Eis que chegou um senhor e vendo o menino perguntou-lhe se estava com fome, ao que este respondeu positivamente. Então, aquele senhor entrou na padaria e comprou vários daqueles pãezinhos e os entregou nas mãos do menino que olhou para ele e perguntou-lhe: – Moço, o senhor é Deus?
Há pessoas famintas não só de pão, mas de Deus, e nós somos instrumentos seus para suprir tais necessidades. As pessoas não estão tão interessadas no que pensamos ou falamos até estarem sensibilizadas pelo que somos e como nos interessamos por nelas, elas querem ver Jesus Cristo em nós.
5. Método Comportamental
Como o próprio nome diz, este método de evangelização baseia-se no relacionamento entre cristãos e não-cristãos. É desenvolvido através da amizade sincera e desinteressada do cristão. Consequentemente essa amizade desperta uma curiosidade no não-cristão quanto ao modo de viver, padrões, conduta, razões e motivações essenciais do estilo vida do cristão. Desta forma, não se corre o risco de fazer do não-cristão apenas o projeto evangelístico, é uma oportunidade para investir em um relacionamento autêntico de amor e amizade, o que os não-cristãos estão sempre a procura. Esse método tem crescido de modo significativo, e o que é melhor, tem crescido também a confiança mútua.
Joseph Aldrich, divide o evangelismo comportamental em três fases. A primeira fase é a presença, na qual o cristão se aproxima do não-cristão e antes que ele ouça a respeito do evangelho ele deve perceber através do modo de vida e do amor demonstrado pelo cristão, o evangelho no qual ele supostamente se baseia. A segunda fase é a proclamação, e nesta sim, o cristão falará do evangelho para o seu amigo. Viver o evangelho não é suficiente para que o não-cristão o compreenda, há também a necessidade de falar sobre a essência do evangelho, falar sobre os fundamentos ou em que está baseado este diferente estilo de vida. É fundamental, portanto, que se fale para o não-cristão as boas notícias de salvação. A terceira fase, Aldrich a chama de persuasão. É a fase em que a pessoa é chamada a tomar uma decisão por Cristo.
Algumas vantagens deste método é que é um método que não depende de muito conhecimento bíblico, visto que o não-cristão valoriza mais a pessoa do cristão do que o conhecimento dele. O fato de apresentar o evangelho a uma pessoa com a qual já exista um laço de amizade, facilita a proclamação da mensagem do evangelho. O conteúdo do evangelho ganha impacto adicional quando é comunicado com base no que se vive, e se a presença do espírito for de fato sentida e positiva, o não-cristão perguntará a respeito da razão da sua fé[3].
O cuidado que se deve tomar com este método de evangelismo é o de não acomodar-se a simplesmente viver o evangelho e se calar não buscando oportunidades para para compartilhar o evangelho. O “deixar que Deus fale aos corações dos pecadores” pode-se tornar desculpa para o cristão fugir de sua responsabilidade de proclamar as Boas Novas.
Deus escolhe pessoas diferentes para realizar Seus propósitos; “…deleita-se em usar pessoas comuns e simples de maneiras surpreendentes e emocionantes”[4]. O evangelho deve permanecer puro e inflexível, não importando que mecanismos são usados para apresentá-lo aos não-cristãos, porém, o mecanismo que escolhermos poderá influenciar na disposição, na capacidade de ouvir, ou até mesmo na compreensão da mensagem que está sendo pregada.
O próprio Cristo usou vários métodos para falar das Boas Novas do Reino, evangelizou através do Seu testemunho de vida, supriu as necessidades das pessoas, pregou para grandes multidões e falou individualmente com as pessoas, contudo, Ele diferenciou os método que usou para alcançar judeus, samaritanos e romanos, ricos e pobres. É preciso avaliarmos o provável sucesso de cada um desses métodos baseados no que sabemos a respeito de formas de pensamento, estilos de vida, visões e experiências religiosas, bem como das necessidades e interesses pessoais desta geração.
O incentivo do apóstolo Paulo aos cristãos é que usem de todos os meios que estiverem ao alcance para efetivamente e sem comprometimento da integridade da mensagem, apresentem o evangelho aos não-cristãos (Rm 11.13-14; 1 Co 9.19-23).
[1] Sócrates desenvolveu um método de instrução que tem a propriedade de envolver um estudante em um debate lógico que leva a uma conclusão sólida. A chave para o método socrático é que o professor tenha domínio sobre a questão que está sendo considerada, de modo que ele possa fazer perguntas investigativas, diretivas que não manipulem o estudante, antes ajudem a esclarecer a verdade conclusiva que o estudante procura. (George Barna. Evangelização Eficaz, p. 162).
[2] BARNA, George. Evangelização Eficaz. Campinas, SP: United Press, 1998. p.164.
[3] As fases do evangelismo como estilo de vida e suas vantagens encontram-se no livro de Joseph Aldrich. “Amizade a chave para a evangelização”, p. 73-78.
[4] HYBELS, Bill, MITTELBERG, Mark, BISPO, Armando. Cristão Contagiante, São Paulo: Vida, 1999. p. 141.
Uma perspectiva Bíblica da Evangelização
É fundamental que observemos o que as Escrituras dizem a respeito de tão importante tarefa: a evangelização. Muitos têm dúvidas a respeito do que deve ser proclamado para um não-cristão, e até mesmo como proclamar a mensagem; e o mais grave ainda, há aqueles que têm dúvidas quanto a quem foi dada a ordem de evangelizar.
Deus não queria que essas dúvidas atrapalhassem os Seus propósitos, e para que isso não acontecesse Ele deixou claro na Bíblia a quem foi dada a ordem, o que deve ser proclamado e vários exemplos de como proclamar a mensagem das Boas Novas.
Consciência da Missão[1]
Deus tem um propósito que foi expresso por todos os tempos. Em Salmo 57.5,11; 72.19; 102.15, notamos a presença de uma oração, onde a expectativa do salmista é: “que a glória do Senhor encha a terra”. Os salmos são expressões de louvor, de adoração e de exaltação. As orações dos salmistas eram baseadas em revelações. Tendo isso em mente, não podemos cometer o erro de interpretar os Salmos sem o contexto teológico do Antigo Testamento.
Os profetas tinham a certeza de que a Glória do Senhor encheria a terra (Hc2.14; 3.3; Is 2.12-21), e na condição de profetas eles estão falando de algo que com certeza acontecerá. Note que o homem do Pentateuco já ouvira que a glória do Senhor encheria toda a terra, pois em Números 14.20 encontra-se uma afirmação onde Deus diz que tão certo quanto Ele existe a Sua glória encherá a terra. Atentando para o Autor desta afirmação, não nos resta dúvidas de que é algo real, uma promessa que se cumprirá.
Voltando novamente para a oração do salmista, podemos afirmar que ele está clamando por algo que Deus havia prometido. O salmista tinha uma visão calcada na revelação de Deus: “a glória do Senhor encherá toda a terra”..
Neste trabalho que Deus está realizando para aquele dia, em que a Sua glória encherá a terra, todo cristão tem uma responsabilidade, que é fazer discípulos. Esta responsabilidade encontra-se registrada em Mateus 28. 16-20. Há alguns conceitos acerca desta nossa responsabilidade que precisamos considerar nesta passagem.
A prerrogativa de Jesus
No versículo 18 de Mateus 28 encontramos a prerrogativa de Jesus, que ao aproximar-se dos discípulos fez a seguinte declaração: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra“. Jesus é aquele que tem toda autoridade, e esta é uma autoridade sobre todo o universo, como Ele mesmo afirma.
Nos dias de hoje me parece que as pessoas querem ser discípulas de Cristo, mas não querem, ou pelo menos sentem alguma dificuldade em reconhecê-lO como Aquele a quem foi dado todo o poder e toda a autoridade. Estas palavras parecem ter perdido o seu sentido verdadeiro, as pessoas não compreendem o que é uma autoridade.
Quando se pensa em autoridade, vem à mente alguém que merece todo o respeito, alguém a quem se deve obediência, alguém que tem poder, que tem domínio. Aurélio definiu autoridade como “…um indivíduo de competência indiscutível em determinado assunto”[2]. Tendo isto em vista, não podemos ser indiferentes com uma autoridade, não podemos simplesmente ignorar o que ele nos diz. Feito um pedido é para ser atendido, dada uma ordem é para ser obedecida.
Dentro da responsabilidade que recebemos, temos que levar em consideração quem a designou, que no nosso caso foi Aquele que possui toda a autoridade. Como Aurélio mesmo definiu, Aquele que possui toda competência em todo e qualquer assunto, Jesus Cristo, de quem um pedido devemos considerar uma ordem, a quem devemos obediência incondicional.
A proposta de Jesus
Além da prerrogativa, Jesus faz uma proposta aos Seus discípulos, que na verdade é uma ordem. No versículo 19 de Mateus 28 Ele diz: “… ide e fazei discípulos de todas as nações…”. Jesus Cristo não deixou implícito e muito menos explícito que o testemunhar, o proclamar as Boas Novas poderia ser opcional. Ele não chegou para os discípulos e disse: no dia em que vocês estiverem animados, com vontade e tempo sobrando, por favor considerem a possibilidade de fazer alguns discípulos. O verbo usado neste versículo é um imperativo, maqhteuvsate (matheteusate) “… fazei discípulos…“, que expressa uma ordem, e como toda ordem dada é para ser obedecida sem restrições, esta com certeza também é, principalmente vindo de quem veio (Jesus Cristo).
Jesus Cristo com todo o Seu poder e autoridade, apresentou aos Seus discípulos, bem como a todo cristão, a Sua proposta: fazer testemunhas, ou testemunhar a todo indivíduo de todos os lugares. Desta forma inseriu a todo cristão em Seu programa de formar adoradores, fazendo com que deixem de ser meramente adoradores.
O programa apresentado por Jesus
A ordem foi dada, mas como cumpri-la? Como fazer discípulos? Jesus não deu a ordem e simplesmente deixou a todos sem orientação de como executá-la, Ele deixou em Mateus 28.19-20 um programa a ser seguido, que mostra como cada cristão pode fazer discípulos.
O primeiro passo apresentado é “ir”, ou seja, tomar atitude, movimentar-se, sair do local onde você se encontra e ir em busca de almas perdidas. Como pode um cristão testemunhar para alguém se não se mobilizar a aproximar-se dos perdidos para falar-lhes a respeito do caminho que os livra da perdição?
Nenhum cristão pode viver fechado em uma grande redoma onde há somente cristãos, em que para entrar nela o pré-requisito é ser cristão. Para se cumprir o mandamento de fazer discípulos o cristão não pode perder o contato com o mundo. Normalmente, depois de um ano de conversão, as pessoas perdem quase todo o contato com o mundo, e quando falo mundo me refiro não aos prazeres e valores do mundo, mas às pessoas que estão no mundo, vivendo deste mundo. O relacionamento com os amigos é abruptamente cortado e começa-se então a viver na grande redoma de cristãos. Fica aí uma grande questão: Como alcançar os não-cristãos se não sair desta grande redoma e ir ao encontro deles?
Jesus intercedendo junto ao Pai em favor dos Seus discípulos disse: “Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo 17.15). Jesus deixou claro aqui que não faz parte dos Seus planos tirar ou isolar os cristãos deste mundo. Com certeza é um desafio viver neste mundo, e Jesus também está ciente disto, tanto que Ele ainda pede pela santificação dos Seus (Jo 17.17). O desafio é viver neste mundo sem perder o contato com os não-cristãos, mas não abrir mão do padrão de vida que Deus requer dos Seus discípulos.
O segundo passo do processo apresentado por Jesus é “batizar”. O batismo não é simplesmente o ato de mergulhar nas águas. O batismo é a demonstração pública do reconhecimento de Jesus Cristo como sendo o único e suficiente salvador da alma perdida. O programa de fazer discípulos envolve o batismo.
E por fim, Jesus apresenta o terceiro passo que é “ensinar”. Jesus mostra aqui que o programa de fazer discípulos não se encerra no batismo, mas envolve também ensinar ao novo convertido todas as coisas que Ele nos ensinou, ensinar ao novo convertido o que as Escrituras dizem a respeito do andar de um cristão. Faz parte do programa orientar e instruir a pessoa como viver a vida cristã.
A promessa de Jesus
É muito comum as pessoas se sentirem sozinhas em seu empenho de proclamar as Boas Novas. Sentem-se incapazes diante do desafio, porém Jesus fez uma promessa aos Seus discípulos, que é a de nunca deixá-los na mão. Jesus prometeu estar com os Seus discípulos todos os dias, em qualquer lugar que estivessem, até a consumação dos séculos (Mt 28.20).
Problemas e dificuldades sempre surgirão, pessoas interessadas e pessoas desinteressadas em ouvir as Boas Novas, pessoas sensíveis e pessoas de coração endurecido. O problema é que o homem tem a habilidade de focalizar as dificuldades encontradas de tal forma que se esquece que não está sozinho nessa missão. Diante de tais situações Jesus manda ficar tranqüilo porque Ele está sempre ao lado e fará a Sua parte, jamais abandonará o barco em que se encontram os Seus pescadores.
Deus conferiu aos cristãos o ministério da reconciliação (2 Co 5.18-21). Ele é por natureza O Salvador, isto faz parte do Seu caráter, salvar. Foi Deus quem desenvolveu o plano de Salvação para a humanidade e comissionou a Igreja para espalhar essas boas notícias. O motivo maior de ainda haver cristãos neste mundo é para cumprir o propósito evangelístico de Deus. Nós cristãos, somos instrumentos de Deus para arrebanhar os Seus. Como o salmista afirmou, com toda certeza a glória do Senhor encherá a terra. É um grande privilégio fazermos parte deste projeto de Deus. Diante desta responsabilidade há a necessidade de nos empenharmos em proclamar Jesus Cristo a todas pessoas de todos os lugares e em todo e qualquer momento.
Cientes de que evangelizar é uma ordem e foi dada por Deus, cientes também do programa apresentado por Ele e que Ele está sempre presente capacitando e orientando a cada cristão, o mínimo que podemos fazer é gastar nossa vida para cumprir com excelência essa tarefa que é tão preciosa para Deus.
[1] Este tópico foi baseado em uma aula ministrada pelo Pr. Fernando G. Leite, em um curso sobre evangelismo, na Igreja Batista Cidade Universitária, em fevereiro de 1999.
[2] FERREIRA, Aurélio Buarque de Olanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Fronteira, 1986. p. 204.
A Mensagem do Evangelho
Material Extraído da Apostila “A prática da evangelização” de Fábio Grigório.
Bom Proveito!
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O homem tem a capacidade de complicar o que é simples, e esta realidade acontece com muitos cristãos que têm procurado cumprir sua missão. A mensagem do evangelho é tão simples, que muitos não a compreendem e até mesmo muitos cristãos não conseguem comunicá-la com clareza. Independente de qual for a mensagem a ser transmitida, sempre são encontradas barreiras no processo de comunicação, e sempre haverá onde melhorar neste processo.
Independente da situação, cabe a cada cristão empenhar-se na proclamação das Boas Novas de salvação para o homem. Para alcançar o sucesso nesta missão é importante identificar algumas das barreiras que geralmente são encontradas, bem como qual de fato é a mensagem a ser transmitida. Será de grande valor também buscarmos uma forma de aprimorarmos nossa comunicação da mensagem do evangelho.
1. Barreiras encontradas na proclamação da mensagem do evangelho
De um modo geral, os cristãos sentem alguma dificuldade em comunicar a mensagem do evangelho aos não-cristãos. Identificamos alguns dos motivos pelos quais os não-cristãos não compreendem, ou não dão ouvidos à mensagem do evangelho, que são considerados como barreiras encontradas na comunicação das Boas Novas.
Falta de clareza
Precisamos saber transmitir a mensagem de Deus aos homens de forma que eles a compreendam, tornando-se capazes de transmiti-la também a outros. A grande barreira é que simplesmente falamos a mensagem, o que é muito fácil, e o mais importante, comunicarmos a mensagem, não conseguimos, pois esta é a parte em que se encontra maior dificuldade na transmissão de uma mensagem.
O segredo da boa comunicação é expressar-se na linguagem dos ouvintes. Nós, os evangélicos, temos um talento todo especial para usar uma linguagem altamente obscura, tornando o simples em complexo. Esta característica é bem forte em nossa geração, século XX, que não nos esforçamos por transportar a linguagem espiritual para as situações da vida diária. Para que esta barreira seja quebrada precisamos adotar uma linguagem simples e clara que possa ser entendida por aqueles que ainda não compreenderam o evangelho. Muitas vezes somos parecidos com aquele médico que sorri e diz:
- Tenha coragem. Você está com gastrenterite.
- Está bem doutor, dizemos aflitos. Mas o que é mesmo que eu tenho?
– Dor de barriga[1].
Os não-cristãos são doentes espirituais, e entenderão melhor se usarmos termos simples para falar da sua doença e da cura para tal. Alguns termos são muito importantes para uma compreensão do evangelho, tais como: salvação, redenção, pecado, propiciação, regeneração, depravação total, vida com Deus; porém, eles precisam ser entendidos pelo não-cristão, pois, se falados sem alguma explicação, esses termos não fazem sentido algum para o não-cristão.
Este é um desafio na comunicação do evangelho, tornarmos clara a mensagem, usarmos termos simples de modo que o não-cristão compreenda o que queremos comunicar e não simplesmente falar.
Mensagem irrelevante
Um vendedor de aspirador de pó que chega para vender o seu produto e não sabe nem como mostrar a sua utilidade, ou mesmo que saiba, se não apresentá-la ao cliente, certamente não será bem sucedido na sua venda. Todo vendedor deve conhecer bem o seu produto, a fim de apresentá-lo como um bom produto a ser comprado e que de fato trará benefícios ao comprador.
Se todo consumidor for como eu, ele prefere conferir a utilidade do produto antes de adiquirí-lo. Não quero fazer aqui uma comparação barata do evangelho, com certeza ele não é um mero produto e muito menos está à venda. O que acontece é que apresentamos o evangelho e sua mensagem salvadora a fim de que o não-cristão a aceite, porém não mostramos para as pessoas a sua relevância, não falamos de como evangelho muda a vida do homem perdido, não falamos dos benefícios de se viver uma vida em comunhão com Deus, nos esquecemos de falar das bênçãos que Deus derrama sobre uma vida que foi por Ele transformada.
A mensagem com toda certeza é relevante, o que precisamos fazer é mostrar ao mundo a sua relevância, mostrar que o evangelho é transformador, restaura os feridos, traz a alegria que tantos procuram e não a encontram, traz a verdadeira paz que é a paz com Deus, a paz de Deus. Se fôssemos relacionar aqui toda a relevância, todos os benefícios que Deus concede aos Seus filhos, faríamos uma bela lista e ainda correríamos o risco de deixar muitos de fora. Isto é apenas para mostrar que o evangelho é relevante, e esta relevância deve ser proclamada e demonstrada para o mundo perdido.
Mensagem sem emoção
Sob a pressão de se cumprir uma ordem que foi dada, acabamos anunciando as Boas Novas somente por obrigação – Vou porque Deus mandou.
Para uma mensagem ser comunicada com sucesso, palavras não são o suficiente. A forma como falamos, como nos expressamos também comunica, e muitas vezes até mais do que nossas palavras. O não-cristão quer perceber o quanto essa mensagem de fato tem valor para nossas vidas, e não somente isto, ele quer ver o quanto estamos nos importando com ele. Quanto mais demonstrarmos o nosso amor pela alma perdida, maior será o impacto que a mensagem causará nela.
A mensagem proclamada somente para cumprir uma incumbência provavelmente apresentará suas deficiências. O desejo de ver vidas sendo transformadas pelo poder de Deus deve ser o objetivo de proclamarmos as Boas Novas.
Rebeldia do homem
Há ainda outra barreira que não podemos desconsiderar. O ser humano possui uma resistência natural a novas idéias, novos conceitos, e principalmente no que diz respeito a religião. Além desta resistência a novos conceitos, quando se trata das Boas Novas de salvação, temos que ter em mente que o homem sem Deus permanece sob a escravidão do pecado, e mantém-se rebelde contra Ele, portanto, este também é um dos motivos pelos quais o não-cristão não dá ouvidos à mensagem do evangelho. Ele insiste em sua desobediência e simplesmente ignora as Boas Novas, permanece com o seu coração endurecido e distante de Deus.
Estas são apenas algumas das dificuldades encontradas no processo de comunicação do evangelho, porém não devem ser motivos para que o cristão se cale ou se acomode, deixando assim de cumprir a ordem dada por Deus de anunciar as Boas Novas a todo homem.
2. A mensagem a ser proclamada
Alguns cristãos têm dúvidas sobre o que falar para o não-cristão, ou o que é necessário que ele saiba. Com certeza não precisamos inventar uma mensagem nova, pois Deus já deixou bem determinado em Sua Palavra qual é a mensagem a ser proclamada, e esta não muda, o que pode e deve variar, são os métodos e o estilo de comunicá-la.
Para se transmitir a mensagem do evangelho é fundamental que se conheça esta mensagem, pois, quanto melhor conhecermos, mais capacitados estaremos para transmiti-la. A fim de expressarmos aqui qual é a mensagem determinada nas Escrituras, faremos o uso de algumas idéias das quatro leis espirituais, que é um método simples e prático para se comunicar a mensagem do evangelho.
Deus tem um plano para o homem.
O homem foi criado por Deus para que O adorasse, para que O servisse e para que vivesse em perfeita harmonia com o Seu Criador. Infelizmente a desobediência do homem, o pecado, quebrou essa harmonia que havia, causando uma grande separação entre O Criador e Suas criaturas.
Em João 3.16 encontramos expresso o plano de Deus para o homem, plano este que envolve o Seu amor, um amor sem medidas, ao ponto de entregar o único Filho para morrer em uma cruz. Este amor tem um propósito, que é dar a vida eterna a todo aquele que crer em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador, um plano que envolve a restauração daquele relacionamento harmonioso que havia antes do pecado entrar no mundo.
Paulo, quando escreveu à Timóteo, também falou explicitamente acerca do plano de Deus para o homem. Ele disse que “…Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores…”(I Tm 1.15). Cristo veio ao mundo para trazer salvação ao perdido.
Jesus fez uma distinção bem clara entre qual é o Seu objetivo e qual é o de um ladrão (Jo 10.10). Disse Ele que o ladrão vem somente para roubar, matar e para trazer destruição à vida do homem, mas Ele veio para dar vida ao homem, uma vida abundante. O plano de Deus consiste em dar o melhor para o homem, a Salvação, a vida eterna.
Deus quer restaurar a comunhão com o homem, porém há um problema que precisa ser encarado.
É impossível ao homem chegar-se a Deus
É fundamental mostrar ao homem a situação em que ele se encontra, a fim de que possa mudar de atitude. Muita gente que está em pecado, não recorre ao Salvador porque não têm noção da situação em que se encontra. As pessoas não compreendem a necessidade de serem salvas, alguns até acham que não têm pecado. O pecado consiste em desobediência a Deus por não fazer o que foi ordenado ou por fazer o que foi proibido por Ele.
Por causa da desobediência do homem, a sua situação é de separação Deus (Rm 3.23). O homem encontra-se privado de desfrutar de um relacionamento com Deus. Uma das primeiras reações que Adão e Eva tiveram após comerem do fruto que Deus havia proibido que comessem, foi correr e se esconder de Deus entre as árvores do jardim, refletindo aqui uma imagem de culpa. E desde então o homem tem sempre procurado esconder-se de Deus. O homem tem fugido de Deus. Por causa do pecado ele encontra-se impedido de desfrutar do amor e da glória de Deus[3].
A Bíblia é bem clara quando diz que todo homem merece a morte por causa do pecado (Rm 6.23), este é o salário que lhe fora designado. A morte retratada aqui implica em separação de Deus nesta vida, pois o homem sem Deus encontra-se morto em seus pecados e delitos (Ef 2.1,5). Esta morte envolve também a separação de Deus por toda a eternidade (Ap 20.14), para aqueles que não crerem na eficiência do sacrifício de Cristo na cruz.
Através dos séculos o homem tem tentado de alguma maneira conquistar sua salvação por meio da prática de boas obras, por meio de alguma religião, filosofia ou outra fonte qualquer. Seja qual for o meio usado, o resultado é sempre o mesmo – frustração, decepção. Por mais que o homem faça o bem, para Deus é inútil. Em Romanos 3.11-12 encontra-se uma declaração da situação em que o homem se encontra: “Não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis, não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”.(grifo pessoal)
Alguns alegam que por serem mais bons do que ruins, ou por cumprirem a lei, isto lhes dá o direito de ir para o céu, porém não sabem nem para que serve a lei. Paulo falando ao romanos disse: “Sabemos que tudo o que a lei diz, o diz àqueles que estão debaixo dela, para que toda boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus. Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado“( Rm 3.19-20). (grifo pessoal)
Podemos comparar a lei com um prumo. O prumo é usado para verificar se uma parede encontra-se inclinada para algum lado; porém, o fato de o prumo acusar que uma parede encontra-se pendendo para um dos lados, ele não a concerta. Semelhantemente, a lei serve para mostra a condição do homem, de torto, inclinado, mas, a lei não pode concertá-lo em nada. Olhando para a lei, o homem só percebe que é incapaz de cumpri-la.
Poderia alguém chegar para Deus e falar que cumpriu 99% de toda a lei e por isso merece o céu? Deus na Sua sabedoria já declarou que aqueles que não praticam toda a lei são considerados malditos (Gl 3.10). Mesmo que o homem tivesse cumprido os 99% da lei, por causa do 1% que não cumpriu, segundo as Escrituras, ele se torna culpado de toda a lei (Tg 2.10). Para Deus é como se não tivesse cumprido nada. Não adianta cumpri-la parcialmente e é impossível cumpri-la totalmente. A lei nos diz: Não matarás, e Jesus nos diz que se nos irarmos contra um irmão nos tornamos sujeitos a juízo (Mt 5.21-22). A lei nos diz: Não adulterarás, e Jesus nos diz que se tão somente olharmos para uma mulher com intenção impura no coração, já cometemos adultério (Mt 5.27-28).
Todo homem está debaixo do juízo de Deus. O pecado causa separação entre Deus e o Homem e é para o homem impossível chegar-se novamente a Deus. Por mais que ele tente ou faça alguma coisa, sempre será frustrado, mas em Mateus 19.26, Jesus afirma que o que é impossível para o homem é possível para Deus.
Deus provê o meio para que Seu plano se cumpra
Vendo a situação do homem, Deus pelo seu amor e graça intervém na história da humanidade e abre um caminho onde não havia nenhum. Deus providenciou o meio para que o relacionamento que fora quebrado fosse restaurado, e o homem pudesse receber a vida eterna.
A providência de Deus foi enviar o Seu único filho, Jesus Cristo, para morrer numa cruz trazendo salvação a todo aquele que nEle crer (Jo 3.16). Esta foi a maior prova de amor demonstrada. Paulo afirmou que “…Deus prova o Seu amor por nós pelo fato de Cristo ter morrido em nosso favor quando ainda éramos pecadores”(Rm 5.8).
Muitas pessoas não compreendem o sacrifício de Cristo na cruz, não sabem o porquê dEle ter morrido e nem o que isso tem a ver com a salvação, com a vida eterna. Em Colossenses 2.13 e 14 encontramos uma explicação simples e clara do que foi o sacrifício de Cristo na cruz: o homem encontrava-se morto espiritualmente, perdido em seus pecados, e Deus o faz viver novamente, dando uma nova vida por meio de Jesus Cristo. O sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente para nos justificar de todos os nossos pecados, tanto os que já cometemos quanto os que ainda iremos cometer. Ele nos perdoou e cancelou o nosso escrito de dívida, ou seja, aquilo que era o motivo da separação entre Deus e o homem, Jesus removeu-o e cravou-o na cruz.
Todo homem estava debaixo da maldição da lei, porém Cristo nos resgatou, nos redimiu dessa maldição, pois Ele se tornou maldito em nosso lugar (Gl 3.13). O homem perdido precisa compreender que “…Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”(2 Co 5.21) . No momento em que Cristo foi cravado na cruz, Ele levou sobre si todos os nossos pecados, assumindo a nossa culpa e tornando-nos justos perante Deus (Rm 5.1). Esta foi a maneira de Deus religar o homem com Ele, visto que é impossível ao homem fazê-lo por si mesmo.
Ouvi uma história que pode ajudar-nos a compreender um pouco do que foi o sacrifício da substituição. Um senhor do Canadá passou por uma experiência em sua família que é considerado por ele como uma das que mais lhe marcaram a vida. Disse ele que em sua casa havia algumas regras que deveriam ser obedecidas, e caso algum de seus filhos desobedecesse, ou transgredisse alguma dessas regras, havia uma punição conforme o grau da transgressão. E aconteceu que o seu filho, que sempre fora exemplar, fez algo que o tornou digno da mais alta disciplina.
O pai, entristecido, chamou o filho e foram para o quarto juntamente com a mãe a fim de conversar sobre o ocorrido.
- Filho você está ciente do que você fez? – Perguntou o pai.
- Sim pai.
- Você sabe que será castigado conforme o erro que cometeu.
- Sim pai – responde o filho mais uma vez.
O pai então mandou que o filho se reclinasse no chão para que fosse disciplinado, contudo ele disse ao filho que quem bateria desta vez seria a sua mãe. Enquanto o filho tomava posição para ser castigado o pai disse-lhe que não suportaria vê-lo sofrer porque tamanho era o amor que tinha por ele, então ele mesmo (o pai) é quem sofreria o castigo no lugar do filho. O Pai colocou-se no lugar do filho e mandou que a mãe executasse a disciplina sobre ele.
No caso acima, por mais que houvesse amor, a disciplina não foi tirada. Semelhantemente aconteceu com o homem. Deus não poderia simplesmente perdoá-lo e não discipliná-lo, o que Ele fez então? Veio em forma de homem, sem pecado nem mancha alguma, e levou sobre si o castigo que cabia a nós. Tudo puramente por amor, bondade e misericórdia (Tt 3.4-5), a fim de trazer salvação ao homem.
A salvação é um presente
O sacrifício foi realizado, a salvação está diante do homem, mas o que me parece é que este insiste que precisa fazer alguma obra a fim de merecê-la ou a fim de conquistá-la.
Em Efésios 2.8 encontramos a seguinte declaração: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós é dom de Deus, não de obras para que ninguém se glorie”. Fica bem claro nesta passagem que a salvação é graça de Deus, ou seja, é um favor que homem algum merece, é um presente de Deus para o homem e por um presente não se paga. A Bíblia ainda nos diz que por mais que o homem fosse bom, fizesse grandes obras, de nada adiantaria, porque a salvação é um presente para que ninguém se glorie, para que ninguém se ache digno de recebê-la por algum mérito próprio.
Consideremos que você possua uma dívida que jamais conseguiria pagar, mesmo que trabalhasse por toda a sua vida. Surge então um amigo e lhe oferece um cheque em branco, assinado, lhe dizendo que a sua dívida já está paga, basta aceitar o cheque e cobrir o valor da dívida. Encontramos registrado nas Escrituras que Jesus veio para os que eram seus, porém estes não O receberam, porém a todos aqueles que O receberam deu-lhes o privilégio de serem feitos filhos de Deus (Jo 1.11-12) ou seja, todos aqueles que aceitaram o presente de Deus. O cheque já está assinado, a dívida já foi saudada, só é preciso crer nisso e aceitar o presente.
O homem quer complicar o que é tão simples e ao mesmo tempo tão valioso. Quando Deus fala que para ter a vida eterna é preciso somente crer no sacrifício de Jesus Cristo na cruz, confiar nEle como único e suficiente salvador (Jo 5.24), o homem fica a inventar meios para chegar-se a Deus, ou meios para se conquistar a vida eterna. Por mais que ele busque em outras fontes, o único meio de ter acesso a Deus é através do Seu Filho Jesus Cristo, “porque em nenhum outro há salvação senão em Jesus Cristo”(At 4.12).
Todo o homem que invocar o nome do Senhor, receberá dele o maior de todos os presentes, a vida eterna com Deus(Rm 10.13).
Deus é quem faz a obra
A ordem que foi dada a todo cristão é que anuncie estas Boas Novas, as boas notícias a respeito da salvação em Jesus Cristo. Muitos cristãos sentem-se frustrados ou desanimados por proclamar a mensagem e as pessoas permanecerem indiferentes. Sentem-se como se tivessem jogado o seu tempo fora.
É importante não nos esquecermos que a obra de convencer o pecador da sua condição e da sua necessidade, pertence ao Espírito Santo, pois é Ele quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16. 7-11). Não queiramos fazer o que não cabe a nós. Somos apenas instrumentos nas mãos de Deus, o autor da Salvação, e sem a Sua atuação o pecador não se converte.
3. Orientações práticas para melhorar na comunicação da mensagem do evangelho
No início deste capítulo falamos um pouco sobre algumas das razões pelas quais os não-cristãos não dão ouvidos à mensagem do evangelho, queremos agora dar algumas dicas para melhorarmos na comunicação desta mensagem, que é uma mensagem de vida ou morte.
Identifique onde você é falho
Sempre que você comunicar a mensagem para alguém, faça depois uma análise tentando identificar onde houve dificuldade na comunicação. Pode ser que encontre dificuldades em explicar alguns termos usados nas Escrituras (ex.: remissão, justificação, fé, etc.), ou então você fala rápido demais e a pessoa não consegue acompanhar a sua linha de raciocínio. Enfim, identificar as falhas ou dificuldades ajudarão a comunicar-se melhor e facilitar para que seja entendido. Muitas pessoas não melhoram sua comunicação porque vivem constantemente cometendo os mesmo erros.
Provoque perguntas
É importante que as pessoas expressem suas dúvidas através de perguntas. Quando estiver explicando algo e não ocorrem perguntas, ou você deve estar sendo um comunicador de primeira e a pessoa está compreendendo tudo o que diz; ou a pessoa não compreendeu nada por isso não faz perguntas; na verdade, ela até gostaria de fazer alguma, mas nem sabe o que perguntar. Ao expor o evangelho para alguém, sempre pergunte se ela está compreendendo, explique uma, duas, três ou quantas vezes for necessário. Incentive as pessoas a fazerem perguntas, a não guardarem suas dúvidas consigo.
Prepare-se bem para falar
Um dos grande motivos que não somos entendidos é porque não nos preparamos para falar. Achamos que a mensagem é tão simples que não precisamos investir tempo estudando a mensagem, e isto é a principal causa da falta de clareza na hora da comunicação. Se a mensagem não está clara para mim, como vou ser claro ao transmiti-la? Sendo assim, separe os versículos básicos e estude-os, escreva-os novamente usando suas próprias palavras (tendo o cuidado para não alterar o conteúdo da mensagem), use ilustrações que poderão ajudar na compreensão do que deseja falar. Quando alguém se prepara para falar já encontra dificuldades em ser entendido, imagine alguém que não se prepara para falar tentando comunicar algo.
Transmita com entusiasmo
Lembra-se da ilustração do vendedor que conhece bem o seu produto e mostra entusiasmo ao cliente? A mensagem deve ser transmitida com emoção, com sentimento, você está levando uma boa notícia para a pessoa, e uma boa notícia é transmitida com entusiasmo.
Todo cristão é um comunicador da mensagem de Jesus Cristo em potencial. A maioria só precisa ser instruída em como aprimorar a sua comunicação. Não existe um só comunicador que seja perfeito por natureza, exceto o próprio Cristo.
[1] Esta ilustração foi extraída do Livro “Comunique com amor“, de Howard G. Hendricks, página 29.
[2] WALKER, Luisa J. Evangelização Dinâmica. Deerfield, Flórida: Vida, 1991. p. 72.
[3] HENDRICKS, Howard G. Comunique com amor. Venda Nova, MG: Betânia, 1983. p.14.
Uma Breve Teologia da Evangelização
Material extraído da Apostila “A Prática da Evangelização” de Fábio Grigório.
Bom Proveito!
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Quando evangelizamos alguém, todos nós cristãos carregamos conosco alguns pressupostos teológicos que norteiam o conteúdo da nossa mensagem, ainda que não tenhamos parado para analisar. Pressupostos estes que influenciam na forma em que proclamamos e nas expectativas que alimentamos com relação ao que é proclamado.
Dentre estes pressupostos, alguns são mais evidentes que outros, vejamos a seguir alguns deles.
1. A inspiração e inerrância das Escrituras
Compreendemos a inspiração “como sendo a influência sobrenatural do Espírito Santo sobre os homens separados por Ele mesmo, a fim de registrarem de forma inerrante e suficiente toda a vontade revelada de Deus, constituindo este registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão (2 Tm 3.16; 2 Pe 1.20-21)”[1].
Infelizmente muitos problemas têm surgido pelo fato de pessoas proclamarem o evangelho com um conceito deturpado no que diz respeito às Escrituras e Sua autoridade. Estas deturpações têm dado margem ao surgimento de muitas heresias e seitas, que têm feito com que o cristianismo pareça uma grande farsa, ou simplesmente conceitos e princípios sem fundamentos uma vez que a sociedade não faz muita distinção dentro do cristianismo, consideram tudo e todos como “evangélicos”.
No momento em que uma pessoa é evangelizada, fala-se para ela da salvação eterna oferecida por Jesus Cristo conforme as Escrituras, fala-se do amor demonstrado por Jesus na Cruz conforme as Escrituras, fala-se também do alvo de todo regenerado durante a sua vida. A partir do momento em que não se acredita na inspiração das Escrituras, nem mesmo em sua inerrância, consequentemente a mensagem anunciada torna-se sem valor, sem fundamento, pois está baseada em fonte não confiável. Como pregaremos a Palavra se não confiamos no sentido exato do que estará sendo anunciado? Como evangelizaremos se não temos a certeza de que o que falamos procede de fato de Deus, ou se é meramente uma falácia dos homens?
O apóstolo Paulo mostra a sua convicção de que as Escrituras são de fato a Palavra de Deus e digna de toda aceitação (1 Tm 2.12; 4.9). A sua vida e mensagem estavam baseadas nas Escrituras. Note que em Romanos 1.16, Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para a salvação do pecador, este é o evangelho pregado pela Igreja, um evangelho que proclama a Palavra que transforma e não simplesmente opiniões dos homens a respeito da Palavra. “A Igreja por si só não produz vida, todavia ela recebeu a vida em Cristo (João 10.10), através da Sua Palavra vivificadora; desse modo, ela ensina a Palavra, para que pelo Espírito de Cristo, que atua mediante as Escrituras, os homens creiam e recebam vida abundante e eterna”[2].
Se proclamamos para as pessoas o conteúdo das Escrituras como a mais pura verdade, como uma mensagem que pode mudar vidas, uma mensagem sempre atual, é porque de fato cremos que a Palavra é viva e eficaz, é transformadora, e cremos que ela é inspirada por Deus. Logo, não contém erros porque o nosso Deus é perfeito e nEle não há falhas.
2. A Universalidade do Pecado
Ao falarmos para alguém das Boas Novas, não saímos a procurar onde estão os pecadores e nem mesmo a perguntar quem é pecador para que possa ouvir o que temos a dizer. Ao nos dirigirmos aos homens apresentando o plano de salvação de Deus para a humanidade, partimos do pressuposto de que todo homem é pecador, está debaixo da condenação e necessita da glória de Deus (Rm. 3.23). Uma das conseqüências mais óbvias do pecado é a morte. Essa verdade é destacada na declaração em que Deus proíbe Adão e Eva de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal: ‘porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás’ (Gn 2.17)[3].
A Palavra de Deus é bem clara quando nos diz que não há um justo se quer, não há quem busque a Deus (Rm 3.10-11). Desde a queda, o homem encontra-se sob o domínio do pecado, que corrompeu o seu intelecto, vontade e sua faculdade moral. A raça humana encontra-se morta espiritualmente, escrava do pecado (Gn 6.5; Is 59.2; Jo 8.34,43,44, Ef 2.1,5) e não há nada que ela possa fazer para restaurar a comunhão que fora quebrada (Rm 3.19-20).
Partindo deste pressuposto, temos em mente que devemos anunciar as Boas Novas a todo homem, cientes de que todos estão perdidos e todos necessitam da graça, do perdão, da salvação que só vem por meio de Cristo Jesus.
3. A Suficiência e eficácia da obra de Cristo
O apóstolo Paulo falando aos Coríntios, lembra-lhes do evangelho que lhes fora pregado por ele, por meio do qual muitos foram salvos. Paulo diz que a mensagem consistia em que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras relatam, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, e ainda apareceu a várias pessoas (1 Co 15.1-8). Paulo está afirmando que a obra de Jesus Cristo na cruz dá sentido genuíno à mensagem pregada pela Igreja, que se tudo fosse uma invenção humana, ou se o que Ele fez na cruz não foi o suficiente para a salvação do pecador, a nossa fé é vã, a nossa mensagem consiste em mentira, em enganação (1 Co 15.14).
Jesus Cristo, nosso mediador, cumpriu de forma cabal e vicária as demandas da Lei em favor do Seu povo. Se a obra de Cristo não fosse plenamente satisfeita, não haveria “bênção” alguma a ser aplicada (João 17.4; 19.30; Hb 9.23-28; 1 Pe 3.18).
Jesus Cristo veio para obter a salvação definitiva para o Seu povo (Mt 1.21; Jo 3.16; 2 Co 5.21), Ele mesmo afirma que dá a vida eterna, e aqueles a quem Ele a dá, jamais a perderão (Jo 10.27-28). Graças à eficácia da obra de Cristo na cruz, o homem tem paz com Deus, torna-se amigo de Deus (Cl 1.21-22), torna-se filho de Deus (Jo 1.12), mediante fé em Cristo Jesus como seu único e suficiente salvador. É amparada nesta certeza que a igreja evangeliza.
4. A Responsabilidade Humana
O ser humano foi criado por Deus como um ser pessoal que tem consciência e determinação própria. Diferentemente de todo e qualquer animal, o homem faz a distinção entre o eu, o mundo e Deus. O homem foi criado com capacidade de se relacionar com Deus (Gn 3.8-14; Jr 29.13; Mt 11.28-30) e com o seus semelhantes, podendo compreender racionalmente a vontade de Deus, fazer-se entender e avaliar todas as coisas (Gn 1.28-30; 2.18-19). Deus não tinha como propósito criar robôs que ao toque de algum dos comandos responderia sem qualquer sinal de raciocínio e, pior ainda, uma criação impessoal, que não tenha capacidade de se relacionar. Com certeza o homem não é perfeito como o Seu criador e mesmo que o pecado tenha comprometido de forma gravíssima todas as suas faculdades originais, ele não deixou de ser a imagem e semelhança de Deus.
As Escrituras apresentam o evangelho como uma mensagem que deve ser anunciada a todos os homens, a fim de que eles possam entendê-la e crer nela. A fé é um dom de Deus (Ef 2.8). Todavia, a proclamação compete a nós; é uma responsabilidade inalienável e essencial da Igreja. Por certo, não compreendemos exaustivamente a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana; contudo, a Bíblia ensina estas duas verdades: Deus é soberano e o homem é responsável diante de Deus por suas decisões (Rm 1.18-2.16).
Em nosso testemunho, cabe a nós anunciarmos o evangelho de forma inteligível, pois estaremos dirigindo-nos a seres racionais a fim de que entendam a mensagem e creiam; por isso, ao mesmo tempo que sabemos que é Deus quem converte o pecador, devemos usar todos os recursos que temos à disposição para atingir aos homens perdidos; desde que estes recursos não contrariem a Palavra de Deus. A nossa proclamação deve ser apaixonada, no sentido de que queremos alertar os homens para a realidade do evangelho, “persuadindo-os” pelo Espírito, a se arrependerem de seus pecados e a se voltarem para Deus ( Rm 11:13-14; 1 Co 9.19-22).
[1] COSTA, Hermisten M. P. Breve Teologia da Evangelização .São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996. p. 19-20.
[2] Idem, p. 23.
[3] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1992. p. 251.
Descrição da Ação Evangelística
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado
A conexão entre autoridade e mandamento autoritário é observada pela expressão “Portanto” (conjunção grega oun), como resultado da primeira declaração “Toda autoridade”. Ou seja, por que Cristo é o que é, Ele pode ordenar o que ordena; pelo fato de que tem todo “poder-autoridade“, seja pela concessão da parte do Pai (céu), seja pela sua execução ministerial (terra), Ele agora não apenas autoriza seus discípulos a fazer o mesmo, mas os comanda a exercer um ministério nos moldes daquele que Ele mesmo desempenhou.
A descrição da Ação Ministerial dos seguidores de Cristo é marcada pela presença de quatro termos que vamos analisar com atenção: Ir, Fazer, Batizar e Ensinar. Todos os termos ressaltados tem suas peculiaridades e vamos observá-las com cautela com o objetivo de ressaltar do texto aplicações para a prática ministerial relevante e em conformidade com a vontade do nosso Soberano Senhor que tem toda a autoridade.
1. Conceituando o “Ide”
Apesar do conhecimento que os cristãos tem decorado desse texto, é importante ressaltar que sua complexidade de compreensão tem dividido comentaristas e ministros do evangelho. Tal complexidade deve-se quase que exclusivamente da conceituação do verbo “ir” utilizado nesse verso. Aquilo que em nossa tradução é visto como uma ordem (Ide) também tem sido interpretada de dois modos distintos pelos comentaristas:
- 1. Modal: Muitos materiais de evangelização têm usado a expressão “indo” para traduzir o verbo grego “poreúomai“. Na bem da verdade, eles o fazem pois identificam corretamente o termo como um verbo particípio aoristo passivo (poruthéntes), que tomado à parte do contexto em que está inserido poderia ser traduzido exatamente assim.
- 2. Temporal: Outros materiais, por observarem o termo no particípio e pelo fato de não estar acompanhado de qualquer artigo, substantivo anartro ou locução verbal, poderia fazer referência ao uso adverbial do termo grego. Assim, a tradução ficaria “Enquanto vão“.
A conclusão que retira-se de qualquer uma das duas possibilidades é esta: (1) Cristo pressupunha que seus discípulos fariam o que era esperado e por essa razão (2) não ordenou que eles o fizessem, apenas sugeriu. Alguns expositores ao observarem esse quadro e chegarem a conclusões parecidas com essas lembram seus ouvintes que, muito embora não tenhamos uma ordem aqui ela pode ser encontrada em outros lugares, como por exemplo em Mc.16.15. Ou seja, a ordem continua sobre os cristãos, só não retira-se essa idéia desse texto.
Entretanto, uma pergunta precisa ser feita aqui: Por que, então, todas as traduções que dispomos continuam a interpretar essa sugestão como uma ordem? Essa é uma pergunta muito pertinente.
Eu, particularmente, não considero que qualquer uma dessas duas opções seja verdadeira. Também sei que muitos outros não adotam essa opinião pelo medo de retirar do texto o caráter de Ordem do Rei do Reino. Essa não é a razão pelo qual adoto a opinião de que vemos aqui uma ordem explícita. Por essa razão, gostaria de apresentar duas razões pelas quais adoto tal posição.
a. Conceituação sintática
Em primeiro lugar vamos observar como a frase grega nos é apresentada: “poreuthentes oun mathëteusate panta ta ethne”, que foi traduzida pela ARA como: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações“. O verbo principal dessa frase é o verbo fazer discípulos (matheteuo) que é identificado como um verbo aoristo imperativo ativo. Uma vez que esse verbo está bem identificado, entendemos que o verbo “ir” é um verbo secundário na oração.
Portanto, existem duas opções plausíveis de tradução dessa sentença: (1) Ou traduzimos individualmente cada termo (como já demonstrado) ou (2) traduzimos os verbos como parte de uma mesma expressão.
Vale lembrar que esse tipo de expressão grega (verbo participo + verbo no imperativo) é comum em narrativas de língua grega. Um exemplo interessante desse tipo é visto no mesmo capítulo do texto que estamos a estudar: “Ide, pois, depressa e dizei aos seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis” (Mt.28.7). Aqui notamos com clareza que a intenção de Jesus era dar duas ordens distintas: Ir e dizer. Outro exemplo pode ser visto no segundo capítulo do mesmo evangelho: “E, enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo” (Mt.2.8). Aqui a ordem é clara, vão e informem-se. À essa altura é válido dizer que esse tipo de uso grego é bem comum no evangelho de Mateus (Mt.2:8; 9:13; 11:4; 17:27; 21:6; 22:15; 25:16; 28:7; cf. Mc.16.15; Lc.7.22; 13.32; 17.14; 22.8).
Esse tipo de uso do particípio é conhecido como particípio circunstancial. O Particípio circunstancial pode ser: Antecedente, Simultâneo e Posterior. No caso de Mt.28.19, o seu uso é antecedente, ou seja, o particípio é traduzido como imperativo + uma conjunção aditiva + o verbo imperativo. Ou seja, IDE e FAZEI DISCÍPULOS. Como na frase em questão tem mais verbos, o uso de vírgulas em substituição da conjunção aditiva é uma condição da gramática portuguesa. Por isso lemos: “Portanto, Ide, fazei discípulos, batizando e ensinando“.
Sobre esse uso de particípio, Daniel Wallace diz: “O particípio circunstancial é utilizado para comunicar uma ação, que em determinado sentido, é coordenado pelo verbo no infinitivo. Nesse aspecto, não é dependente, por isso é traduzido como um verbo. Mas ele ainda se mantém dependente semanticamente, por que ele não pode existir sem o verbo principal. Ele é traduzido como um verbo no infinitivo conectado ao verbo principal pela expressão ‘e’. [1]” Stelio Rega completa: “O particípio não é o verbo principal de uma frase e poderá depender dele para expressar o seu significado, indicando, assim, se a sua forma é antecedente (precede), simultânea (coincide) ou subseqüente (sucede) à do verbo principal da frase[2]“.
Segue-se que, ainda que de modo separado o termo grego poderia ser traduzido como um gerúndio, ou com uma parcela de temporalidade, a expressão grega construída por um particípio + verbo no imperativo deve ser traduzida de acordo com as designações sintáticas exigidas pelo texto. Logo, o uso do particípio circunstancial é o melhor modo de traduzir a expressão em pauta.
b. O contexto histórico
Outro detalhe que deve ser observado aqui é o contexto histórico dos discípulos a quem é dada essa ordem: Eles são judeus, que por sua própria natureza tem dificuldades com nações do mundo (At.10.28). Como judeus, são centrados nos seus e demonstram que tem certo preconceito com aqueles que são de outras etnias, como por exemplo os samaritanos (Jo.4.9, 27). É válido lembrar ainda que esses discípulos estavam incluídos no grupo que Cristo teria enviado para pregar que o reino dos céus está próximo com a seguinte ordem: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos, mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10.5-6).
Entretanto, vemos que em Sua última ordem, o Senhor ordena explicitamente: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt.28.19). Considerando aqueles que ouviram essa mensagem, temos mais um indicativo para pensar que a ORDEM de IR a TODAS AS NAÇÕES era necessária.
Aliás, é digno de nota que o conceito da abrangência da missão é visto em outros textos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc.16.15). Nesse texto a abrangência é vista tanto do ponto de vista geográfico (mundo) como do ponto de vista étnico (criatura). Não importa onde essas pessoas estão, de que etnia são, que religião tem, eles precisam ser alcançados pelo o evangelho. Em Atos, vemos as etnias destacadas ainda com maior ênfase: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At.1.8).
Considerando a repetição de Cristo em informar seus discípulos que deveriam dirigir-se a todas as etnias nos faz considerar na razão pelo qual Ele faz isso. Eu entendo que Cristo assim procede por que SABIA que Seus discípulos não iriam por vontade própria às outras nações. Essa conclusão é completamente antagônica àquela retirada da interpretação do verbo ir (indo). Eu não entendo que Cristo pressupunha que seus discípulos iriam à outras nações, por isso sugeriu que eles fizessem discípulos enquanto passassem por outras etnias. Pelo contrário, Ele ordenou que seus discípulos fizessem aquilo que Ele sabia que, por vontade própria, eles não fariam.
Essa indisposição de sair da sua nacionalidade foi marca da Igreja Primitiva durante um bom tempo. As mensagens pregadas pelos discípulos eram centradas nos judeus, com citações extensas do Velho Testamento e realizadas da região de Jerusalém. Veja alguns exemplos: “Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras” (At.2.14; cf. v.22, 29); “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At.2.36; cf. At.2.46; 3.1, 6, 12-13, 24; 4.10).
Mas o fato mais interessante da História do Cristianismo em seus primeiros ano é que, por tanto fazerem discípulos em Jerusalém (At.2.41; 4.4; 5.14) isso começou a incomodar a liderança judaica (At.5.17) de tal modo que iniciaram a persegui-los. Já no quatro capítulo de Atos vemos a primeira prisão dos apóstolos por estarem no templo falando acerca de Cristo (At.4.1-3) ; no capítulo 5 são novamente presos (At.5.18; cf. v.26) sob a acusação de já terem sido notificados a não ensinar sobre Jesus Cristo (At.5.28). Observe que nessa ocasião a mensagem oferecida por Pedro e os demais apóstolos era tão centrada em sua própria etnia que o objetivo da morte e ressurreição de Jesus apresentado na ocasião parecia quase exclusivo para a nação de Israel: “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At.5.31). É válido lembrar que pela influência e crescimento do cristianismo em Jerusalém, “Afluía também muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém” (At.5.16) para serem curadas pelo poder de Deus usado por intermédio dos apóstolos (At.2.43)
Ainda após tal situação, o comportamento dos apóstolos e dos cristãos continuou do mesmo modo que vinha operando: “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo” (At.5.42) e o número de discípulos não cessava de crescer (At.6.1). É bem provável que a situação começou a tornar-se insuportável para a liderança judaica ver o crescimento desenfreado de uma “perversão” do judaísmo que partiram para uma atitude mais intensa: “Então, subornaram homens que dissessem: Temos ouvido este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Sublevaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo, o arrebataram, levando-o ao Sinédrio. Apresentaram testemunhas falsas, que depuseram: Este homem não cessa de falar contra o lugar santo e contra a lei ” (At.6.11-12).
Essa inquisição contra Estevão (At.6.8-9) foi provavelmente a gota d’água para os judeus que não aceitavam o ensino a respeito de Cristo. O fim da história de Estevão acaba por ser seu assassinado (At.7.54-6) e o nascimento de uma postura de perseguição dos judeus contra os cristãos: “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” (At.8.1).
A partir da morte de Estevão, parece que ficou entendido que os cristãos que permanecessem em Jerusalém corriam o mesmo risco de vida, até por que todos os cristãos foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria, EXCETO os apóstolos. Sob risco de vida, aqueles que tinham recebido a ORDEM de irem por todo mundo, permaneciam em sua teimosia e permaneciam em Jerusalém.
Entretanto, os que saíram de Jerusalém passaram a realizar aquela ordem que havia sido dada aos discípulos: “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At.8.4).
Para a situação mudar foi necessário que Pedro tivesse uma visão sobre o que era puro diante de Deus (At.10.9-16) associada a uma intervenção sobrenatural de Deus na vida de um centurião gentio da Cesaréia, Cornélio (At.10.1-2). Para demonstrar o tamanho desprezo que tinha por pessoas de outras etnias, cercados de fenômenos sobrenaturais, Pedro ainda tem a capacidade de dizer ao chegar na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo” (At.10.28). Para agravar a situação, após apresentar o evangelho à casa de Cornélio e eles aceitarem (At.10.44-48), Pedro ainda teve que se explicar perante os apóstolos em Jerusalém sobre sua ida aos gentios (At.11.1-3).
É importante lembrar que Pedro não hesitou em ir à casa de um gentio (At.10.29), mas tudo isso aconteceu para que os apóstolos iniciassem a realizar aquilo que já era esperado deles desde a ascensão de Cristo (At.1.8).
Quando olho para como a história aconteceu não posso supor que Cristo em suas últimas palavras pressupunha que Seus discípulos sairiam à outras etnias, mas o vejo como Senhor a ORDENAR algo que os discípulos se mostrariam falhos em realizar.
Bom, tendo considerado a sintaxe grega e a história dos discípulos, a conclusão que chego é que a tradução da ordem de Mt.28.19 como “Ide, fazei discípulos de todas as nações” é compatível com as exigências da gramática grega e adequada à realidade dos apóstolos e cristãos. Portanto, a ordem é de caráter centrífugo, onde os discípulos deveriam iniciar em pró-atividade a abordagem evangelística. Considerando esse fato com a realidade judaica que era etnocêntrica, uma missão ectocêntrica era um grande desafio.
2. Conceituando o “Fazei discípulos”
O termo grego por trás da expressão portuguesa é “matheteo” e pode ser compreendida transitivamente e intrasitivamente, onde a primeira aponta para o fato de ser discipulado por alguém, e a segunda para o ato de discipular alguém. Neste caso, o imperativo bem traduzido deixa clara a idéia da realização da ação. Portanto, a questão é que isso significa? O que Jesus quis dizer quando nos ordenou FAZER DISCÍPULOS?
Acredito que podemos começar essa investigação compreendendo o que de fato significa ser discípulo. O termo grego pode significar ser pupilo, aprendiz, adepto, discípulo e normalmente é anexado ao responsável pela tutoria. Por exemplo: discípulos de João (“mathetai Ioannou” – Mt.9.14), ou seja, aprendiz adepto, tutoriado, maestrado e pertencente a João.
Um discípulo é que aquela pessoas que está debaixo da supervisão e comando do seu mestre e de forma nenhuma lhe é superior: “O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo, acima do seu senhor” (Mt.10.24). Outro exemplo pode ser visto mais à frente: “E ele lhes respondeu: Ide à cidade ter com certo homem e dizei-lhe: O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos” (Mt.26.18).
Esse discípulo é alguém que busca seguir seu mestre, estar onde ele está e a fazer o que ele faz. Esse tipo de situação acontece várias vezes na vida de Cristo: “Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram” (Mt.8.23); “E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos” (Mt.9.19). Os discípulos de Cristo o acompanhavam, iam onde ele ia, estavam com Ele onde quer que Ele estivesse, à exceção de quando Ele quisesse estar sozinho (Mc.1.35). Ademais, o discípulo é aquele que, acima de tudo, quer ser como seu Mestre: “Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor” (Mt.10.25).
À acrescentar essa lista, é importantíssimo ressaltar que o discípulo é aquele que está debaixo do ensino de seu mestre. Aliás, pelo próprio conceito semântico do termo, o ensino é parte essencial do discipulado. Ou seja, se houver proximidade e não houver ensino não há discipulado. Observe que o ministério de Cristo é marcado pela presença do ensino aos seus discípulos: “Ora, tendo acabado Jesus de dar estas instruções a seus doze discípulos, partiu dali a ensinar e a pregar nas cidades deles” (Mt.11.1); “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo” (Mt.5.1-2; cf. Mt.12.1-2; 13.36; 15.1-2; 16.20-21; 24.3ss; 26.1; entre muitos outros).
Considerando essas colocações, o discípulo é muito mais do que um mero prosélito autônomo, é alguém cujo crescimento espiritual é dependente de alguém que o coordene, direcione, nutra e guie. Por outro lado, o discipulando é aquele que está disposto a ser tutoriado, submisso a autoridade e comando do mestre e é ensinável a ponto de aprender o que lhe é transmitido para oferecer para outros.
Entretanto, a pergunta que torna-se necessária aqui é: Onde esse discipulado inicia? Iniciaria ele na pregação do evangelho ou o texto nos ensina a discipular cristãos? A princípio não entendo o uso do termo como algo compartimentado, onde o discipulado é exclusivo ao salvo, mas que trata-se de um processo que inicia-se com a evangelização e estende-se ao crescimento espiritual deste salvo.
Um texto que nos auxiliar a compreender desse modo encontra-se em At.14.21: “E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia“. Nesse texto nós vemos duas idéias associadas: Evangelizar e Fazer Discípulos. A princípio considera-se a primeira anterior à segunda, seja pela natureza das atividades ou pela ordem da frase. Entretanto, as duas idéias aqui são colocadas como paralelas, como uma duplicação de idéias para reforçar o que se havia realizado. Caso o texto tivesse dito que Paulo teria apenas feito discípulos em Derbe ele seria compreendido integralmente, tal como observado em outros textos em Atos (cf. At.5.42; 8.4, 35, 40). Talvez o autor tenha tido interesse em apontar para o sucesso da pregação de Paulo ao falar que ele teria feito muitos discípulos. Mas, uma importante distinção aqui é válida: o discípulo de Cristo é aquele que já segue a Cristo, já está salvo, mas aquele que precisa ser feito discípulo ainda não segue a Cristo nem é salvo. Logo, na ordem “fazei discípulos” encontramos a idéia de evangelizar e nutrir.
Ou seja, não basta apenas anunciar o evangelho, pois é parte do trabalho do seguidor de Cristo fazer como ele fez. Nosso trabalho, norteado pelo ministério de Cristo deve ser desempenhado em excelência da proclamação do evangelho ao treinamento do novo na fé até que ele possa fazer o mesmo com outras pessoas. Portanto, é necessário viver e conviver com pessoas que precisam ser feitas discípulas de Cristo, e está debaixo da nossa responsabilidade treiná-lo para que venha a ser um discípulo maduro e pronto a realizar o mesmo.
Mas, nossa responsabilidade não acaba nesse ponto, pois existem mais duas responsabilidades do discipulador apresentadas nesse texto:
a. Batizar
Aqui está um acréscimo da ação ministerial dada por Cristo. E novamente nos deparamos com um verbo substantivado sem compreender o que exatamente o que ele quer dizer, visto não ser específico o gerúndio em português. Tanto em inglês como em português trazem a idéia de ação contínua (baptizing – batizando), como também parece demonstrar a versão latina (baptzantes). O termo grego, que é muito semelhante ao termo latino, baptizontes é mais um particípio.
Considerando a relação particípio aoristo e infinitivo aoristo, qual é a razão pelo qual não traduz-se esse termo como um imperativo? A explicação para essa pergunta é simples, pois não existe na sintaxe grega nenhuma construção para esse tipo de relação, onde um segundo particípio sofre influência de um particípio circunstancial que já fora influenciado pelo verbo principal. Portanto o que acontece aqui é um acréscimo da descrição da ação ministerial ordenada por Cristo.
Com isso em mente, como poderíamos compreender, então, a função desse verbo na frase? Muitas alternativas já foram oferecidas, e poucas conclusões foram levantadas. Em particular, acredito que trata-se de um particípio de uso adverbial temporal, que seria traduzido como “enquanto batizam“. A idéia do particípio de uso adverbial temporal é oferecer ao verbo principal da frase a resposta para a pergunta “quando?” de três formas: Antes, com ou após a ação do verbo principal. Nesse caso, poderíamos pensar em uma ação posterior ou simultânea, mas desacreditamos a primeira, visto não ser lógico interromper a ação ministerial em função do batismo dos novos adeptos. Ou seja, à medida que novos abraçam a fé, eles são batizados, em uma ação simultânea.
O termo é utilizado em três formas, basicamente. O primeiro modo diz respeito a uma lavar cerimonial com propósito de purificação. Esse é o caso da exortação dos fariseus contra os discípulos de Cristo: “E, vendo que alguns dos discípulos dele comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar (pois os fariseus e todos os judeus, observando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem; e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de metal e camas)” (Mc.7.2-4). No contexto de purificação Marcos utilizou o termo “batizar” para descrever o lavar de copos. Uso similar acontece na ocasião em Cristo é convidado por um fariseu a comer e não lava as mãos antes de fazê-lo: “O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara primeiro, antes de comer” (Lc.11.38).
Um segundo modo de se utilizar o termo seria uma comparação entre situações extraordinárias e o ato de batizar. Esse é o caso que encontramos na declaração de Paulo sobre o que aconteceu com Israel no deserto: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés” (1Co.10.1-2). Esse tipo de uso também aconteceu em referência ao Espírito Santo: “Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc.1.8; cf. Jo.1.33; At.1.5; 11.6; 1Co.12.13). O termo também foi utilizado em relação ao martírio dos apóstolos (Mc.10.38; Mt.20.22; Lc.12.50).
O termo também pode ser encontrado em um terceiro modo, que seria o ato de usar água em um ritual para renovar ou estabelecer um relacionamento com Deus. Esse é o uso que descreve a função de João Batista: “apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Mc.1.4). Esse tipo de ação ministerial fez parte do ministério público de Jesus: “Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judéia; ali permaneceu com eles e batizava” (Jo.3.22; cf. Jo.4.1-2). E, é com esse uso que vemos a descrição do ritual cristão: “Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” (At.8.36; cf. 8.12; 2.38; 41).
Consideradas essas questões, ainda perguntamos: Mas, o que é de fato o batismo? O batismo cristão é um sinal de Deus para significar purificação interior e remissão de pecado (At 22.16; 1Co 6.11; Ef 5.25-27), regeneração operada pelo Espírito e uma nova vida (Tt 3.5) e a permanente presença do Espírito Santo, como selo de Deus testificando e garantindo que aquele que o recebe está seguro em Cristo para sempre (1Co 12.13; Ef 1.13-14). Fundamentalmente, o batismo significa união com Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição (Rm 6.3-7; Cl 2.11-12), e essa união com Cristo é a base da vida do discípulo deste ponto em diante. Isso significa que aquele que foi batizado em nome de Jesus deve conformar sua vida à Dele e viver de acordo com o que Cristo espera de sua vida. Deve ser por essa razão que Ele nos adverte: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24).
b. Ensinar a obediência
O termo para “ensinando” é “didascontes”, um particípio que sofre de falta de definição tal como o “enquanto batizam“. Não podemos seguir a lógica anteriormente lançada para a tradução deste termo, em função da redundância que traria. Contudo, é bem possível que duas ações possam acontecer em paralelo à uma anterior sem qualquer problema. Gramaticalmente, podemos identificar o segundo verbo particípio como uma extensão do anterior. Assim a sentença inteira ficaria assim: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as etnias, enquanto [os] batizam em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo e [os] ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“.
Com esse acréscimo Jesus estabelece uma nova ação à ação do discipulado: o ensino. Como já vimos, a ação ministerial dos cristãos percebida nesse texto é descrita pela expressão: Ir e Fazer Discípulos. Como também já vimos, o ato de fazer discípulo inicia-se na evangelização e desenvolve-se no nutrir do novo convertido. Nesse contexto, ensinar parece ser algo bem apropriado.
Como é bem visto por nossas traduções, o objetivo do discipulado não trazer o neófito à profundidade do conhecimento teológico, mas ensiná-lo a obedecer. O tipo do ensino esperado por Cristo de seus discípulos é o que desenvolve a prática não o conhecimento. De modo nenhum subjugamos o conhecimento por isso auferirmos, mas demonstramos a prioridade que Cristo dava à prática. É bem visto na vida e no ministério público de Cristo que Ele teria dedicado grande parte do seu tempo ensinando pessoas. Seus discípulos na seqüência fizeram o mesmo. Mas, o caráter do ensino de Cristo era a vida prática.
Se considerarmos a ordem de Cristo nesse texto vemos que deveríamos ensinar todas as coisas que Ele mesmo nos teria ensinado: “ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“. Isso nos faz lembrar do exemplo de Paulo: “Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa” (At.20.18-20). Paulo era alguém comprometido com esse ensino segundo Cristo, que além de oferecer conteúdo adequado é focado no desenvolvimento cristão.
Pouco à frente, vemos algo mais: “Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos, porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (v.26-27). A quantidade de informações necessárias para que os efésios tivessem boa vida perante Deus havia sido fornecida por Paulo. Ou seja, a informação e a formação estavam lado-a-lado no ministério paulino.
Assim, percebemos que o nutrir e o instruir fazem parte da ministração cristã àqueles que chegam a Cristo. Mas, uma pergunta ainda nos falta: “Até quando devemos fazer isso”? Acredito que Jesus Cristo nos dá uma dica: “ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“. Como vemos no exemplo de Paulo, ele apenas considerou-se livre das pessoas de Éfeso quando compreendeu que havia ensinado todo o desígnio de Deus. Essa deveria ser nossa compreensão da missão cristã: Ensinar a obediência em todas as áreas da vida cristã que estão debaixo de direta coordenação de Cristo.
Por outro lado, existe uma continuidade na ação, pois uma vez que os neófito é discipulado, nutrido nas escrituras e treinado para uma vida cristã adequada ele fará o mesmo com outras pessoas, pois ele também deve aprender a levar o evangelho. Assim vemos que a ordem que Cristo deixa aqui é fundamento da continuidade e expansão da fé, que deveria ser disponível a todos através do ministério cristão.
[1] WALLACE, Daniel, Greek Grammar Beyond the Basics, pp.640.
[2] REGA, Lourenço Stelio, Noções do Grego Bíblico pp.102.
02.11.09
Delimitação Geográfica da Ação Evangelística
Talvez essa declaração seja uma das mais importantes nesses versos, e se mal compreendida pode produzir alguns problemas para prática ministerial da igreja local. Observe a frase: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações“. Como já observamos a descrição da ação evangelística, nos cabe, então, intuir sobre a abrangência de tal declaração.
A expressão grega que complementa a ordem de fazer discípulos é “pánta tà etne”. A expressão “panta” provém da mesma expressão que “passa”, que já foi demonstrada (Pâs, passa, pan), e tem uso similar nesse caso em particular. Ela descreve a abrangência total da expressão a que se refere, a saber nações. Ou seja, a ordem máxima de Cristo, sobre a missão dos discípulos, é realizar o que Ele mesmo realizou com absolutamente todas as nações.
Já a palavra para nações provém de “etnós” que nos deu a palavra “etnia”. Bom, aqui há significativa diferença na declaração da sentença, pois Cristo não está enfatizando regiões específicas do globo, mas pessoas de regiões específicas do globo. O termo “etnós” é observado em dois importantes usos:
- Como um conjunto de pessoas unidas por semelhança cultural e tradições comuns, um povo, uma nação (Jo.18.35; At.8.9)
- Um grupo de povo específico pertencente a uma determinada nação ou etnia (Ef.2.9; Hb.11.13; cf. Literatura Grega Clássica: uma expressão nacionalista para estrangeiros)
- Pode apontar para Gentios, Não cristãos e outras nações (Mt.10.18; At.11.1; 14.5; Rm.3.29; 9.24)
- Bem como a Cristãos não Judeus (Rm.16.4; Gl.2.12; Ef.3.1);
Considerando as possibilidades, podemos obviamente descartar a última possibilidade, visto ser completamente impossível que Cristo ordenasse que os discípulos fizessem outros discípulos a partir de cristãos convertidos espalhados pelo mundo. Outro detalhe importante é que não haviam outros cristãos espalhados pelo mundo. Por outro lado, não podemos considerar que a ordem de Cristo havia sido dada para que os discípulos alcançassem nações em geral, sem alguma especificação mais clara. Portanto, a ordem de Cristo é centrada no “fazei discípulos” a partir de não cristãos, gentios dentre todas as nações do mundo.
O que se conclui é que Cristo tem interesse em todas as culturas existentes no planeta, pois não faz acepção de pessoas (Rm.2.11) nem para salvação nem para preterição. Ou seja, não deveria haver racismo, bairrismo, exclusivismo, sentimento sectarista ou qualquer forma de preconceito entre os discípulos. Eles devem realizar tal tarefa baseados na própria missão de Cristo (Lc.19.10), que é a base e fundamento da ação evangelística.
Contudo, ainda nos restam algumas perguntas, já não mais de caráter lexicográfico nem exegético, mas especulativo. Segundo a abrangência descrita acima, tal missão:
- É para os indivíduos salvos por Deus executarem pessoalmente?
- É descritiva para a Igreja Local como executora específica de tal ordem?
- Ou, trata-se de uma ordem dada levando-se em conta a Igreja Universal?
Em resposta a primeira pergunta, não creio que cada indivíduo seja capaz de realizar por si mesmo tal missão na abrangência que é descrita por Cristo. Caso fosse responsabilidade de cada cristão ter ao menos um discípulo em cada uma das etnias do mundo, o cristão, além de demonstrar-se como servo infiel por ser incapaz de fazer, seria julgado mediante uma missão que jamais cumpriria. Não parece fazer sentido tal declaração.
Considerando a segunda possibilidade, podemos dizer que a Igreja Local pode nortear tal padrão para sua missão, mas ainda assim seria impossível que pudesse realizá-la a cabo. Alguns fatores podem ser demonstrados a favor dessa impossibilidade:
- O sistema denominacional que reina no pensamento protestante atual é uma barreira quase insuperável se considerarmos a missão para a igreja local, pois haveria grande discórdia entre as denominações na execução da tarefa, visto que onde faltasse uma “congregação” de tal denominação, caracterizaria um povo não alcançado (o que é uma mentira absurda).
- As igrejas locais variam de tamanho, capacidade e estratégia. Caso tal missão fosse obrigação de cada uma das comunidades cristãs, as menores seriam desfavorecidas, por não terem pessoas e recursos suficientes para executar um tarefa desse tamanho. Isso obrigaria as menores, subjugar-se a igreja maiores para então, como um parasita que desfruta da sua vitalidade, lucrar do benefício de ser fiel (o que não passa de uma tolice).
Bom, resta-nos apenas uma opção, a opção de que tal missão deve ser desenvolvida, a que é centrada no todo, na Igreja Universal. Se esta é a o aspecto em que Cristo tem em mente, podemos traçar alguma considerações importantes para a prática individual e da Igreja Local de tal missão.
Se, tal missão diz respeito à Igreja Universal, as igrejas locais, como componentes do todo, são responsáveis pela execução de tal tarefa à medida que lhe é possível. Ou seja, à medida que uma determinada comunidade tem pessoas e recursos deve empenhar-se, em fazendo parte do todo, cumprir tal missão.
Isso significa que os discípulos de Cristo, de todas as regiões e etnias do mundo, estão envolvidos pessoalmente, debaixo da supervisão de sua Igreja Local como parte do todo da Igreja Universal. Ou seja, é possível para a Igreja Universal cumprir tal missão, onde cada discípulo alcança alguém de diferente etnia no progresso do crescimento da fé cristã.
Se considerarmos a abrangência da missão, o tamanho do mundo e as diversas etnias espalhadas nele, bem como a abrangência da Igreja Universal hoje, que está em muitas das diversas etnias conhecidas no globo, é possível que tal missão seja levado à cabo. Contudo, para tanto, será necessário um regresso aos conceitos fundamentais da fé e da consciência de missão, descritas nesses versos. Portanto, o papel de cada discípulo maduro ser um representante onde se está, e alcançar os que em sua volta estão, contribuindo com sua Igreja Local e com a Igreja Universal.
Seguindo esse raciocínio, o que podemos dizer da Obra Missionária, torna-se não necessária? De modo algum, pois não é verdadeira a premissa que diz: “Alcance seu vizinho e o mundo será salvo“. Ainda permanecem muitas etnias que não foram alcançadas pelo Evangelho, e que carecem da graça de Deus. É portanto necessária a iniciativa missionária, especialmente para regiões de difícil acesso, onde poucos cristãos se atreveriam a ir. Contudo, fica explícito que isso é trabalho a ser realizado, como indivíduo ligado a uma Igreja Local enquanto pertencente a Igreja Universal.
O que ser conclui até aqui é que, se considerada as colocações anteriores, temos chance de produzirmos significativa diferença onde estamos para realizar tal missão na compreensão de sua geométrica abrangência e específica responsabilidade.
12.31.08
O Fundamento da Ação Ministerial
Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra
Mateus 28.18
O verso 18 é comumente excluído de considerações cristãs normais quando se fala em evangelização. É normal observar que os cristãos trabalham facilmente com a idéia do “IR” (mesmo quando não vão), mas poucos são os que enfatizam o fundamento de tal ordenança.
O texto que estamos a analisar inicia com a aproximação de Jesus ressurreto dos seus discípulos e lhes dando sua última ordem[1]. Tal ordem inicia-se de um modo interessante: “Toda a autoridade me foi dada“. Ao que parece, a ordem que norteou o trabalho dos discípulos após o Pentecostes fora dada por Aquele que tem toda a autoridade. Qual é o significado dessa expressão? Vamos observar com um pouco de atenção essa frase, para então compreendermos melhor quem é que nos ordena.
Conceituando Autoridade
A expressão grega para essa expressão portuguesa é “pasa exousia” e foi traduzida como “omnis potestas” em latim. O termo grego “pasa” associado a um substantivo sem artigo, como “exousia” está no verso, pode denotar a totalidade de algo em particular (O substantivo a que se refere). Ou seja, trata-se suprema e infinda autoridade total de Cristo sobre o ministério a ser realizado por seus discípulos. Já o termo para “Autoridade” foi traduzido por “potestade” no latim e por “poder” na KJV. O termo grego “exousia”, de onde originou-se todas essas possibilidades, pode ser visto de seis pontos de vista diferentes.
Observe o uso que João faz do termo quando nos conta sobre a vida de Cristo: “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo.10.18). Nesse texto vemos com clarividência que o conceito aqui exposto sugere que Cristo tem CONTROLE PLENO sobre sua vida, ainda que voluntariamente ele se ofereça.
Paulo também faz um uso interessante do termo quando escreveu aos Tessalonicensses: “não porque não tivéssemos esse direito, mas por termos em vista oferecer-vos exemplo em nós mesmos, para nos imitardes” (2Ts.3.9). O termo grego aqui foi traduzido pela ARA como “direito” e faz referência a situação de Paulo (e possivelmente Silvano e Timóteo – nomeados no início da carta) não serem pesados nos sustento. A razão pelo qual eles não se fizeram pesados era para deixar um bom modelo para que os tessalonissences pudessem seguir; um modo ordenado de viver. Entretanto, eles tinham o direito para serem sustentados pelos tessalonissences. Pela posição que ocupavam, eles poderiam usufruir de um direito que tinham. Há quem considere que isso demonstra o Estado de Controle que eles tinham não sobre a situação, mas sobre a igreja de Tessalônica.
No evangelho de Marcos podemos ver um outro modo como esse termo pode ser aplicado: “Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios“. Aqui vemos uma similaridade entre exercer autoridade e ter poder de exercício sobre algo. Quando Cristo designou que os Doze saíssem em missão ele concedeu recursos espirituais para que seus discípulos o exercessem. Ou seja, eles foram habilitados com potencial (recurso) para comandar, exercer controle.
Entretanto, não são esses os únicos exemplos significativos de uso do termo. Podemos lembrar também do uso que Lucas faz no seu evangelho: “Ao saber que era da jurisdição de Herodes, estando este, naqueles dias, em Jerusalém, lho remeteu” (Lc.23.7). Nesse uso vemos mais uma característica interessante do termo em pauta, ele pode ser aplicado à esfera do governo de determinada autoridade. Observe que Paulo também faz uso desse tipo de uso do termo: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13; cf. Ef.2.2).
Essa busca pela conceituação do termo “autoridade” nos auxilia a compreender a posição dAquele que nos ordena, bem como nos demonstra o por que sua ordem deve ser obedecida irrestritamente. Aquele que nos ordena é Aquele que tem Autoridade, poder, está em posição de comando e portanto tem direito para ordenar. Ou seja, Cristo é a Autoridade e que exerce autoridade por potencial e direito, visto ter a mais alta posição e privilégios no Reino do qual é o Rei.
Sendo isso verdadeiro, não podemos considerar a Evangelização, a Missão dos Discípulos, como algo pequeno ou de pouca importância para a vida da Igreja Local. A evangelização está debaixo da Ordenança do Rei do Reino.
Conceituando “céu e terra”
A observação sobre todo o verso, nos levanta um importante e interessante questão: Que quer dizer autoridade no céu e na terra? Uma vez que consideramos que a terminologia grega aponta para “autoridade” o conceito de governo, e posição do governante, o que podemos dizer é que Cristo é aquele que exerce governo no céu e na terra.
O termo usado por Mateus para descrever o céu é a palavra grega “ouranós” que pode ser utilizada no sentido mais normal em referência ao céu físico (Lc.16.17) ou até mesmo em uma referência indireta a Deus, como vemos no evangelho de Marcos: “O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondei!” (Mc.11.30).
Entretanto, o termo também era utilizado em um sentido mais metafísico (espiritual), especialmente nos escritos paulinos. Observe: “Senhores, tratai os servos com justiça e com eqüidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu” (Cl.4.1). Aqui vemos que Paulo faz referência ao lugar onde Deus está. O termo também é utilizado de modo preposicionado (uma preposição é associada ao termo principal afim de reforçar um idéia). Em Efésios vemos isso acontecer algumas vezes com a preposição “epi”: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef.1.3). Sobre esse termo, Loyd-Jones diz: “trata-se da esfera em que Deus, de maneira muito especial, manifesta sua presença e a Sua Glória[2]“.
O uso, contudo, mais elucidativo do termo é visto na primeira carta de Paulo aos cristãos de Corinto: “O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu” (1Co.15.47). Aqui Cristo é chamado de “aquele que é da parte do céu” (ex ouranou), como se fosse do céu; é ainda possível que Ele tenha sido identificado como “aquele que veio do céu” como se o céu fosse seu local de origem (cf. Jo.6.58).
Portanto, podemos concluir com segurança que o texto trata de um governo que autorizaddo da parte de Deus, um Reino dos Céus. Ou seja, Cristo é Aquele que na esfera da atuação mais direta de Deus, e a partir dela, exerce seu direito e habilidade de exercer autoridade como Senhor e Rei.
Mas, uma vez que Cristo é o que é (conforme demonstrado acima), Ele já não teria autoridade na terra? Por que razão Ele precisaria reforçar essa idéia? Por que Ele falou que tem autoridade no céu e na terra?
O termo grego para terra (gês) não tem muitos usos especiais. Ela pode fazer referência a terra (planeta), como vemos no Evangelho de Mateus: “Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (MT.5.18). Além do todo, ela pode representar uma parte: “Sai da tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te mostrarei” (At.7.3). Por metonímia, o termo pode fazer referência aos habitantes da terra: “Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lc.18.8). Isso sem contar outros usos, que para ocasião estamos considerando como de menor importância.
Um fato que temos que encarar aqui é o fato de que Cristo sempre teve sua posição exaltada como o eterno Filho de Deus. Ele é o logos que existe desde o princípio (Cl.1.17), que estava com Deus e que é Deus (Jo.1.1). Ele é o Supremo Sumo-Sacerdote (Hb.3.1) perfeito para sempre (Hb.7.28), superior a todos e a tudo (Hb.1.2), a imagem do Deus invisível (Cl.1.15), a expressão exata do Ser de Deus (Hb.1.3), criador de todas as coisas (Jo.1.2; Cl.1.16). Por que razão ele precisaria ter sua autoridade na terra, entre os homens?
A verdade é que Cristo tem sua autoridade reconhecida desde antes da fundação do mundo, mas na sua encarnação essa autoridade foi demonstrada à humanidade de forma irrevogável (Mt.7.29; 9.6; 10.1; Mc.1.27; 11.27-33; Lc.4.32; 36; Jo.5.26-27; 10.17-18; 17.1-2). O que eu entendo dessa expressão é que Cristo pode evidenciar tal autoridade entre os homens por meio do Seu ministério público, por Seus atos poderosos, por Sua morte e ressurreição. Ou seja, além do domínio e do governo de Cristo sobre toda a terra e céu (que é o fundamento da ordem evangelística) Ele ainda demonstrou tal autoridade como prova e corroboração em Seu ministério. Portanto, tal mandamento é visto pela “autoridade de posição e direito” e pela “autoridade demonstrada“, que ratifica ainda o mais importante grau da ordem anunciada.
A concessão da autoridade
Um detalhe importante ainda nos falta a observar: sendo quem é, por que Cristo recebeu essa autoridade? Quem lhe concedeu?
O termo por trás dessa expressão é “edóthe” de “dídomi” que basicamente significa “dar”. Esse ato pode acontecer por uma questão de generosidade, como no caso registrado em Atos: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At.20.35). Eventualmente traz a idéia de uma concessão, como no caso do divórcio: “Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio” (Mt.5.31). Um outro uso interessante do termo dar com uma expressão de devoção: “para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc.2.24; cf. Lc.17.18).
Dentre os muitos outros usos que esse termo pode ter, dois deles nos chamam a atenção. O primeiro é encontrado em 2Co.8.5: “E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus“. A idéia de dar sua vida além de ser literal nesse caso é também uma expressão de completa dedicação a uma causa ou propósito. Os cristãos da macedônia resolveram dedicar-se à assistência dos pobres de tal modo que superaram a expectativa de Paulo, e eles assim fizeram, pois deram-se primeiro ao Senhor. Entretanto, o que nos chama mais a atenção é que todas as outras vezes que esse tipo de uso acontece no NT é para descrever o sacrifício de Cristo em nosso favor, como vemos em Mt.20.28: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. Lc.22.19; Mc.10.45; 1Tm.2.6; Jo.10.15; Gl.1.4; Tt.2.14). Talvez essa sua voluntária dedicação a Salvação dos homens tenha de fato alguma ligação com sua autoridade.
E para nos ajudar a entender esse fato, um último uso desse termo pode ser destacado: O termo pode ser usado como um ato de concessão de responsabilidade e autoridade por meio de uma ação formal, como vemos em Mt.9.8: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens“. Nesse caso, as pessoas ficaram possuídas de temor ao presenciarem a cura de um paralítico. O texto ainda nos afirma que a conclusão é que Deus havia concedido tal autoridade (talvez até com um sentido de poder) aos homens. Mas, pouco antes, vemos que o próprio Jesus havia dito: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa“. De alguma forma, Jesus já tinha tal poder e autoridade, mas as pessoas apenas o puderam conhecer quando viram. Essa situação também parece muito elucidativa para nossa observação do texto de Mt.28.18.
Mas agora, devemos ter em mente a frase que nos incitou à essa investigação: “Toda autoridade me foi dada“. Tendo em mente que ela se refere a Cristo, sabemos que isso não trata-se de uma questão de generosidade, pois Cristo não estava em situação de miséria a ponto de Deus ter compaixão dele para dar-lhe algo. Certamente não trata-se de algo doxológico, como se isso houvesse sido dado como louvor da parte de Deus a Jesus Cristo. Segue-se que é razoável considerar a dedicação voluntária e pessoal de Cristo a causa da Salvação a ponto de dar sua vida, bem como a concessão de autoridade da parte de Deus e percebida por intermédio do seu ministério público como originárias da Autoridade que tem. Em outras palavras, o Cristo Eterno sempre teve autoridade e poder, porém esse poder e autoridade foram apenas percebidos através do seu ministério público (At.2.22-24).
Aplicação para hoje
Ao ponderar o exemplo de Cristo, não posso considerar que tenho melhores qualificações do que Ele para pensar seria diferente comigo. O cristão não está de forma nenhuma desprovido de autoridade para exercer seu ministério, e como aconteceu com Cristo, nossa autoridade ministerial provém da concessão divina oferecida em nossa conversão, como Jo.1.12 nos ensina muito bem: “Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que crêem no seu nome“. O termo para poder aqui, é exatamente o mesmo que utilizado em Mt.28.18, o que nos possibilita considerar o fato primeiro da concessão da autoridade ministerial sobre o mundo.
Contudo, vemos que, corroborando, confirmando e demonstrando esta, está a autoridade que provém da qualidade de execução ministerial à luz da palavra, vontade e caráter de Deus. Esse princípio é muito bem notado em 1Co.3.10: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica“. O fundamento já está posto e ninguém pode o alterar, mas o exercício ministerial pode edificar sobre tal fundamento. Por isso a exortação de Paulo é tão enfática: cada um veja COMO edifica. Ao que parece, a preocupação de Paulo aqui não é tão parecida com as indústrias de produção em escala, que depreciam a qualidade em favor da quantidade. Por outro lado, Paulo não nos ensina a nos desviar da quantidade em prol da qualidade. O que ele nos ensina aqui é que, independente da quantidade do que se faz para o Senhor, isso deve ser realizado com excelência ministerial.
Assim, tal como Cristo, teríamos autoridade concedida por Deus demonstrada em autoridade no ministério para Deus. Logo, a ação evangelística, como fundamentada na autoridade de Cristo, é uma demonstração do “poder-autoridade” de Deus por meio da construção da autoridade (moral) com o “poder-autoridade” concedida por Deus.
[1] Não é objetivo desse artigo fazer uma comparação entre as diferentes ordens observadas nos diferentes evangelhos e atos. Considera-se aqui apenas o fato observável no próprio texto de Mateus: Essa foi a última ordem de Cristo segundo essa narrativa. Por ora, ficamos com essa conclusão.
[2] LLOYD-JONES, D.Martin, O Supremo propósito de Deus. Publicações Evangélicas Selecionadas: São Paulo, 1996. pp. 68