02.10.09
Perseguição e Expansão
“A grandeza da Igreja consiste no fato de sermos odiados por todo o mundo”.
Inácio de Antioquia
1. Introdução
No último encontro pudemos notar com clareza a ação de Deus contra o pecado. Por ser Santo, Deus não pode deixar de punir o pecado. Pudemos perceber que se Deus utilizasse a mesma sentença aplicada a todos os homens, poucos seriam os que ficariam vivo. Entretanto, Observamos que a exortação de Pedro e a disciplina ministrada diretamente por Deus tiveram um propósito bem definido, e vimos que ele foi cumprido cabalmente. Portanto, o cerne da disciplina não está na severidade em que foi ministrada, mas no resultado auferido (cf. At.5.5, 11, 13). Por um lado, a disciplina resultou em temor dos cristãos. Por outro, demonstrou a seriedade da Igreja, como instituição de Deus na terra.
Deve-se a esse fato disciplinador de Deus a reação do povo assim exposta em Atos: “Dos demais, ninguém ousava juntar-se a eles, embora o povo os tivesse em alto conceito[1]” (At.5.13). Ou seja, embora a Igreja fosse digna de respeito e admiração, o mesmo sentimento dos cristãos era compartilhado pelo povo: TEMOR. Sendo assim, vemos que Deus em sua administração histórica demonstrou a seriedade da Igreja bem como a severidade da Sua disciplina. Concluímos então que “de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear isso também ceifará“.
No estudo de hoje veremos mais uma página da história do poder de Deus manifesto por meio dos apóstolos. Alguns detalhes iniciais devem ser ressaltados aqui, antes da progressão com o estudo. Em primeiro lugar, deve-se dizer que os primeiros versículos do estudo de hoje (At.5.12-17) fazem parte de um resumo tópico da história feito por Lucas. Ou seja, não se trata de um fato isolado, mas de mais uma informação sobre a vida da Igreja Primitiva. Isso significa que Deus estava manifestando seu poder por meio dos apóstolos com sinais e prodígios, como Lucas já havia dito (cf. At.2.43; 4.30). Em segundo lugar, o texto não está afirmando que a missão da Igreja eram os sinais e prodígios, mas afirma que eles acompanharam a progressão da expansão da verdade a respeito de Cristo. Como se trata de um resumo tópico da história, Lucas separa, por temas, fatos para expor a história da Igreja. Ou seja, os versos em pauta dizem respeito a um arranjo literário, um resumo temático, daquilo que era feito no seio da Igreja.
2. Sinais e Crescimento
Como já foi dito, os versículos lidos aqui fazem parte de um arranjo literário, um resumo temático. Ou seja, trata-se de um grupo de informações colocadas juntas para exemplificar fatos concernentes a Igreja Primitiva. Sobre isso Howard Marshall diz que Lucas “narra em termos gerais como as atividades da Igreja estavam aumentando a tal ponto que as autoridades sentiam que deviam, mais uma vez, empreender ações contra ela[2]” (Grifo do autor). Por outro lado, são informações fidedignas que expressam a verdade sobre a Igreja.
Antes de progredirmos com o estudo, é importante nos lembrarmos que a atuação miraculosa de Deus havia sido solicitada pelos próprios apóstolos na oração feita no capítulo 4: “…agora Senhor, olha para as ameaças, e concede aos teus servos que anunciem com toda intrepidez a tua Palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios, por intermédio do nome de teu Santo Servo Jesus” (v.29-30).
Como vimos em poucos versículos atrás, a severidade de Deus em disciplinar produziu um misto de temor e admiração no povo que observava o crescimento e desenvolvimento da Igreja em meio suas dificuldades. A popularidade da Igreja, entre o povo, “crescia mais e mais“. Já não era inumeráveis as pessoas que se agregavam à Igreja, sendo mais uma vez chamada de multidão.
É provável que tal crescimento tenha ocorrido em função da atuação especial de Deus por meio de Pedro e João, no caso do paralítico. Por isso, talvez, é que “afluía muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém, levando doentes e atormentados de espíritos imundos” (v.16). A mão de Deus deve ser reconhecida aqui, visto que Lucas nos instrui que “todos eram curados“.
3. Perseguição dos Apóstolos
Neste tópico merece nossa atenção a frase de Inácio de Antioquia, ressaltada no alto da página: “A grandeza da Igreja consiste no fato de sermos odiados por todo o mundo“. Inácio foi bispo em Antioquia durante sua vida, e foi um dos sucessores dos apóstolos, sendo considerado pela história da Igreja como um dos “pais da Igreja“. Inácio de Antioquia foi martirizado, em decorrência a grande perseguição da Igreja, no ano de 107 d.C. Ou seja, a frase dita por ele sobre a realidade da igreja é influenciada pela sua experiência de sofre uma perseguição na pele. Vale lembrar que tal experiência reflete poucos anos à frente daquilo que temos visto em Atos. A perseguição a que Inácio refere-se é a Grande Perseguição da Igreja realizada pelo Império Romano. Contudo, a perseguição nascera em ambiente judaico e com o tempo cresceu e se estendeu pelo mundo conhecido.
A Igreja nunca tinha sido bem vista pela religião judaica, pois seus líderes a consideravam uma perversão das verdades de Deus. Por esta razão os líderes judeus sempre procuraram uma forma de abafar os movimentos de evangelismo e testemunho. Os motivos para isso eram religiosos, mas maculados por sentimentos completamente pecaminosos. Note o que Lucas fala a respeito da motivação da atitude dos líderes religiosos dos judeus: “tomaram-se de inveja[3]“. David Williams diz que “a inveja (gr. Zelós) foi um ataque de partidarismo fanático (…) contra os que tinham opinião contrária[4]“. A menção dos saduceus aqui é importante ser ressaltada, pois deixa claro o motivo religioso da perseguição visto não acreditarem na ressurreição do corpo. A inveja, por certo, é fundamentada nas obras realizadas por Deus por intermédio dos apóstolos que escolhera. Como vimos a pouco, muitos sinais e prodígios eram feitos pelos apóstolos. Diante dos fatos observados, a impossibilidades de se reproduzi-los, sendo ainda, tomados pela inveja, o sumo-sacerdote e os saduceus prenderam os apóstolos em prisão pública.
A partir desse ponto, podemos dizer que Lucas considera os fatos com uma certa dose de humor, pois relata a forma sobrenatural que os apóstolos foram libertos, ao mesmo tempo em que afirma o ajuntamento solene do Sinédrio e sua espera pelos apóstolos que já estavam no templo novamente pregando. O relato oferecido pelos guardas ao Sinédrio merece nossa atenção: “Mas os guardas, indo, não os acharam no cárcere; e, tendo voltado, relataram, dizendo: Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e as sentinelas nos seus postos junto às portas; mas, abrindo-as, a ninguém encontramos dentro“. Como o texto nos informa, tudo estava nos seus devidos lugares, da mesma forma que deveriam estar, a exceção dos apóstolos.
No v.25 o Sinédrio é informado sobre o paradeiro dos apóstolos, que estavam ensinando no templo. Por certo, os apóstolos falavam sobre “todas as palavras desta Vida” (v.20). Ao tomar conhecimento desse fato, o capitão do templo e os guardas foram buscar os apóstolos, mas “sem uso de força“, pois temiam ser apedrejados pelo povo. O grande objetivo da reunião do Sinédrio era a confrontação dos apóstolos, por dois motivos: (1) Os apóstolos já tinham sido avisados para não ensinarem a respeito de Cristo (At.4.18, cf. 5.28a); (2) Os apóstolos colocavam sobre os judeus a culpa pela morte de Jesus (At.2.23, 40; 3.13, 14, 17; 4.10; cf. 5.28b).
Era de se esperar que Pedro, em nome dos apóstolos, na sua defesa excluísse os termos a acusação, mas isso seria negar, não somente a verdade a respeito de Cristo, como o próprio Cristo. Sua introdução é a resposta para a pergunta que ele pessoalmente tinha feito para os líderes judaicos em sua oportunidade anterior (“Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que mais a Deus?“ – At.4.19): “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At.5.29). O cerne da mensagem é o mesmo, mesmo sendo advertido para não fazê-lo. Pedro executa aquilo que cria ser o importante: Obedecer a Deus; e assim, não cessaram de falar sobre Cristo (v.30-32).
A reação dos líderes judaicos não poderiam ter outra atitude senão: “se enfureceram e queriam matá-los“. As infrações dos apóstolos tinham chegado a um limite: não uma, nem duas vezes, mas era a terceira vez que eles infringiam a mesma ordem, e agora diante das autoridades. Era um desacato à autoridade digna de severa punição, por isso queriam matá-los.
Entretanto, alguém com um pouco de bom senso resolveu dar uma nova perspectiva na história. Gamalieu “mestre da lei, respeitado por todo povo“, com sua experiência e visão de vida observa que os resultados dependem da fonte (V.39). O argumento de Gamalieu é muito bem fundamentado na história recente[5] do povo judeu. Gamalieu pode lembrar-se de Teudas, um homem que achou que era alguém, mas depois de morto seus seguidores se dispersaram. Fato semelhante acontece com Judas. Ou seja, se os apóstolos não estivessem falando em nome de Deus eles não dariam em nada. Por isso a conclusão do Sinédrio foi: “Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele” (At.5.38-39). Historicamente, podemos dizer que Gamaliel estava certo na segunda premissa.
Qual o resultado obtido nesse conflito todo: “E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome. E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo”.
[1]Sobre a segunda sentença da oração, a tradução da revista e atualizada diz: “porém o povo lhes tributava grande admiração“. As idéias expostas pelas traduções da NVI e ARA completam o sentido do termo grego utilizado, que diz respeito a “engrandecer“, mas é utilizado aqui com sentido figurado tendo a seguinte conotação: “ter grande respeito” ou “reconhecer importância“. Assim, a idéia é ter admiração e considerar importante.
[2]MARSHALL, Howard. Atos Introdução e Comentário. pp.112
[3]O termo grego utilizado para expressar a idéia de “inveja” é “zelós”. Tal verbete pode ser traduzido como zelo no sentido religioso, ressaltando o valor religioso da perseguição. Howard Marshall levanta essa possibilidade na pp. 114 considerando a passagem de At.13.45. Contudo, opta pela tradução de “inveja”, explicando a idéia como “irritação diante do sucesso da Igreja” (idem, ibid).
[4]WILLIAMS, David. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. pp.126.
[5]Recente para o momento histórico em questão.
Vida e Disciplina na Igreja Primitiva
“A Igreja existe, não para oferecer entretenimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas, para adorar a Deus”.
Philip Yancey
1. Introdução
No estudo anterior pudemos acompanhar a atividade apostólica no que tange ao evangelismo e a defesa da fé que havia sido ensinada pelo Senhor. Vemos que em todas as oportunidades que Pedro teve não hesitou em testemunhar sobre a verdade de Cristo. Pudemos perceber que nem mesmo a perseguição conseguiu inibir o ardor evangelístico de Pedro, mesmo diante das principais autoridades do povo de Israel Pedro não se sentiu intimidado.
Isso pode ser claramente atribuído à atividade do Espírito Santo na vida do apóstolo, e não às suas virtudes pessoais, visto que quando esteve por sua própria força acabou por falhar (cf. Mt.26.33-35; 51; 69-75; vt. Lc.22.61). No texto estudado no encontro anterior podemos ler: “Então Pedro, cheio do Espírito Santo disse…“. A intrepidez de Pedro ao defender o evangelho enquanto evangeliza é Obra do Espírito Santo em sua vida. Mas podemos ver também que isso é igualmente atribuído a todos os participantes da Igreja Primitiva: “…todos ficaram cheios do Espírito Santo, e, com intrepidez, anunciavam a palavra da Deus” (At.4.31). Portanto, devemos concluir que cada cristão em particular é capaz de evangelizar com intrepidez, desde que esteja cheio do Espírito Santo.
Deve-se lembrar que para estar cheio do Espírito Santo é necessário esvaziar-se de si mesmo e das vontades e paixões da carne e dos pensamentos. Ou seja, é necessária uma vida de total dedicação e exclusividade a Deus, o que é um sinal claro de maturidade espiritual e crescimento na verdade. Portanto, a Plenitude do Espírito pode ser experimentada por todos aqueles que buscam ardentemente a Deus e sua Palavra. No estudo de hoje poderemos observar alguns dos resultados obtidos por uma comunidade que, mediante as situações que estava passando, resolveu em comum acordo buscar a Deus e sua Palavra de modo ardente.
2. A vida social da Igreja Primitiva
“Por que a Igreja é importante? Que diferença ela faz? Em primeiro lugar, podemos dizer que a igreja é extremamente importante neste mundo porque fornece o contexto em que ocorre a cura substancial nas relações interpessoais. É na igreja local que pessoas de diferentes idades, origens, etnias, culturas, formações e níveis sociais são convidadas a viver em plena harmonia, formando uma verdadeira família”.
Marcos Mendes Granconato
Ao observar essa sentença podemos ainda afirmar que neste sentido nenhuma outra instituição pode se comparar a Igreja. A Igreja é única por sua essência e pela prática dela. A vida da Igreja consiste em um organismo organizado que visa cada um dos seus integrantes e por meio deles busca glorificar a Deus em todas as suas atividades. Por essa razão a Igreja mantinha-se unidade e compartilhava seus bens e realizava ação social.
A unidade descrita por Lucas em um possível hebraísmo “era só um o coração e a alma“, significa acordo total (1Cr.12.38). A comunidade Cristã era exemplo para a sociedade em que estava inserida, o cuidado dos mais necessitados era prioritário na igreja, mas não obrigatória. Ao que tudo indica, a Unidade da Igreja Primitiva, o cuidado com o necessitado era voluntário. Note que “ninguém considerava exclusivamente seu nem uma das cousas que possuía“. Apesar de não considerar como sendo seu, ainda estava sob seu domínio. O que o texto sugere senão que o cristão “era ‘dono’ de seus bens, até o momento em que sentisse ser mais apropriado abrir mão deles[1]“. Isso se chama cuidado social e é parte das atividades da Igreja Primitiva e deve inspirar a prática da Igreja Contemporânea, no que tange os próprios irmãos em Cristo. Sendo assim, podemos nos lembrar do texto de Tiago que nos instrui da seguinte maneira: “A religião pura e sem mácula, para com nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tg.1.27a; cf. Dt.14.29; Jó.31.32; Is.58.7;Ez.18.5-9; Mt.25.35-40; Hb.13.2; Tg.2.15).
O sistema adotado pela igreja Primitiva era o seguinte: O cristão que observasse a necessidade de um irmão, venderia algo seu e concederia o valor aos apóstolos para que distribuíssem o produto entre os necessitados. Ou seja, a liderança da Igreja era responsável por administrar o produto das ofertas dos cristãos e assim conceder aos irmãos que padeciam necessidades. Dessa forma, os primeiros cristãos conseguiram com que não houvesse nenhum necessitado entre eles (v.34). Portanto podemos concluir que aos cristãos cabe o papel de ofertar em conformidade com aquilo que tem observado, mas tal contribuição deve ser administrada pela liderança da Igreja de forma que ela distribua o produto entre os necessitados.
Os versos 36 e 37 são importantíssimos aqui, pois eles ilustram tudo o que havia sido dito anteriormente sobre a vida da igreja. Ou seja, Em Barnabé Lucas comprova as atividades sociais da Igreja Primitiva. Contudo, em termo de literatura lucana, o exemplo de Barnabé é colocado como um padrão a ser contrastado. A intenção de Lucas com essa colocação de Barnabé é ressaltar a imprudência de Ananias e Safira, que tem sua história relatada pouco à frente.
3. A Disciplina de Deus na Igreja Primitiva
“A busca pela glória, o sórdido amor pela auto-imagem e, a cobiça pelo ouro fundamentadas na mentira e no perjúrio são demonstrações claras da falta de temor. Sua conseqüência não poderia ser menos severa, seu resultado não poderia ser melhor”.
Marcelo Berti
A disciplina bíblica, conforme apresentada em Mt.18 e 1Co.5, deve ser ministradas pela Igreja. Normalmente aplica-se a disciplina por meio da Igreja quando se refere a questões que podem ser julgadas, ou seja, quando é possível avaliar diante da comunidade aquilo que foi realizado em público. Vemos base para isso em 1Co.5 quando Paulo exige que aquele que pratica o incesto publicamente seja “entregue a Satanás para a destruição da carne” (1Co.5.5). Vale a ressalva, aqui, que esta disciplina aplica-se somente em “casos de pecado obstinado, quando todas as alternativas de recuperar o ofensor foram infrutíferas[2]“. Por outro lado, não estamos dizendo que a disciplina efetuada pela Igreja exclui a participação e Deus, mas que Deus está disciplinando por meio da Igreja, segundo estipulações dadas por Ele mesmo nas escrituras.
Contudo, disciplina não se restringe a isso, pois ela pode ser ministrada diretamente por Deus. Em 1Co.11.30 podemos observar que alguns (“não poucos”) dos cristãos haviam sido participantes da disciplina eliminatória do Senhor. O que se entende por disciplina eliminatória do Senhor, senão que Ele mesmo deu cabo de cristãos que estavam em desconformidade com seus valores morais e religiosos? Ou seja, no que tange a pecados secretos, que não são conhecidos, que foram realizados sem o consentimento dos membros corpo de Cristo e líderes da Igreja, o próprio Deus se incube de ministrar sua disciplina.
Há, porém um terceiro conceito disciplinar que parecer ser o caso em que se incluem Ananias e Safira, que são pecados cometidos em secreto com objetivo de iludir e enganar a Igreja de Cristo, que eventualmente chegam ao conhecimento da liderança da Igreja. Neste caso vemos a as duras colocações de Pedro o líder da Igreja acompanhadas da severa punição de Deus. Talvez alguém possa questionar tal severidade e notar que se Deus tratasse com mesma intensidade todos os cristãos, boa parte deles já haveria sido dizimada.
Neste caso em especial não podemos ir além da “observação de que só Deus sabe por que Ele decidiu purificar sua família na terra deste modo naquela ocasião[3]“. Por outro lado, podemos nos lembrar do efeito produzido: “E, sobreveio grande temor a toda igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos” (At.5.11); e ainda “Mas do restante, ninguém ousava ajuntar-se a eles” (v.14). Com a Igreja Primitiva aprendemos que não devemos desprezar o pecado pessoal cometido às escondidas, pois “de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl.6.7). Para concluir, vamos observar as colocações do Dr. Shedd:
“Em princípio a morte dupla de Ananias e Safira nos mostra que não cabe à igreja procurar saber os pensamentos secretos de seus membros. Deus cuidará do que fica escondido nas mentes dos homens. Nenhuma hipocrisia pode ser encoberta dos santos olhos de Deus (Ef.5.13)[4]”
Lições aprendidas com a história de Ananias e Safira:
- 1. Todo sacrifício pessoal é recomendável, desde que seja proceda de uma intenção genuína e voluntária, e não para a vanglória;
- 2. A hipocrisia é detestável e odiosa, como Jesus já havia cansado de enfatiza no seu ministério terreno;
- 3. O amor ao dinheiro é um grande e perniciosos mal. (cf. Judas Iscariotes);
- 4. Nenhum ato religioso, consagração ou ofertas são aceitáveis se tiverem a hipocrisia como ponto de partida;
- 5. O ludíbrio é um mal tremendo e deve ser evitado;
- 6. A generosidade é muito recomendável, como no caso de Barnabé, contudo deve ser livre da hipocrisia.
- 7. Que a disciplina de Deus é severa tão quanto necessária (cf. Hb.12.4-12);
- 8. Os pecados cometidos por qualquer integrante da Igreja são muito sérios por que envolvem de alguma forma toda a comunidade e os resultados são sentidos por todos.
[1]WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. pp.112
[2]GRANCONATO, Marcos Mendes. Prática da Igreja de Deus. pp.26
[3]SHEDD, Russel. Disciplina na Igreja. pp.57
[4]Idem pp.58.
Primeira Perseguição
“Os sábios que disseram que só existe um Deus foram perseguidos, os judeus odiados, e os cristãos ainda mais”.
Blaise Pascal
1. Introdução
No estudo anterior pudemos observar mais uma mensagem evangelística dada por Pedro e comparar com a primeira mensagem dada por ele. Pudemos notar muitas semmelhanças, que acabaram por ressaltar as grandes diferenças existentes entre os dois disursos. Vimos como a mensagem dada em ocasião diferente, voltada para pessoas diferentes, em uma situação diferente para o pregador, utilizando-se textos diferentes manteve a essência clara: A morte e ressurreição de Jesus Cristo. Assim, pudemos concluir que as situações, público, pregador podem influenciar, mas nunca devem diminuir a a essência, nem mesmo influenciá-la, muito menos alterá-la. Não importa que reação o público venha a ter, o nome de Cristo deve ser pregado com clareza.
No estudo de hoje vamos ter a oportunidade de observar a reação das autoridades judaicas diante da pregação “provovante” ministrada por Pedro dentro das dependencias do Templo. Vamos observar a severidade das autoridades com relação ao zelo por sua crença, suas ameaças e o resultado que isso trouxe para a igreja. Diante desses fatos vamos concluir que as dificuldades e perseguições que vieram contra a Igreja auxiliaram no seu crescimento e expansão. Portanto podemos concluir que Deus em sua Soberania conduziu a hisória para benefício da Igreja, mesmo que nesse processo fosse necessário a perseguição da Igreja.
2. Primeiro conflito com as autoridades Judaicas
Como pudemos perceb er na semana passada, acabamos a nossa leitura de maneira abrupta. Não pudemos perceber quantos pessoas aderiram a fé, nem mesmo percebemos o que aconteceu com Pedro e João, muito menos com o aleijado que havia sido curado por intermédio dos apóstolos. Na leitura de hoje podemos perceber nitidamente a continuidade da historia: “Falavem eles ainda ao povo quando sobrevieram os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus, ressentiudos por ensinarem eles o povo e anunciarem em Jesus a ressureição dentre os mortes”.
2.1 Autoridades Envolvidas
Algumas palavras nos chamam a atenção neste trecho, tais como sacerdotes, capitão do templo e saduceus. Esses são representantes das autoridades judaicas. Os saduceus são os participantes de uma das duas mais proeminentes seitas judaicas nos dias de Jesus e da Igreja Primitiva. A segunda seria o farisaísmo. Alguns representantes de ambas seitas formavam o Sinédrio, que era uma espécie de tribunal superior civil e religioso que exerciam autoriadde quase absoluta em Israel. Normalmente os saduceus provinham das classes mais abastadas de Israel. Para os saduceus a questão doutrinária não era prioritaria, mas eram conservadores e pragmaticos na política. Contudo, não acreditavam na ressurrieção dos mortos (cf. At.23.8), por isso se inflamaram contra a pregação dos apóstolos. (sobre a relação deles com Jesus ver Jo.11.48 e Lc.19.45-48). É possível que essea opção teológica fosse em função da utilização da torá, pois apenas aderiram uso do Pentateuco.
O termo sacerdote parece comum pois seu uso vem desde os tempos antigos na religião de Israel. Contudo, capitão do templo parece algo novo. Na hierarquia judaica é provável que esse fosse aquele que ocupava a posição logo após o sumo-sacerdote., como seu principal oficial executivo. Na antiga literatura judaica esse homem era conhecido como “o homem do mente da casa” (casa no sentido de templo) e era responsável por todos os guardas[1]. Assim, podemos perceber que as autoridades judaicas, em peso, estavam descontentes com a atitude dos apóstolos. Também, pudera, imagine que os Apóstolos estão no lugar mais sagrado do judaísmo ensinado sobre o Messias, que para os judeus não tinha vinda e não poderia ser Jesus.
Considerando que a religião judaica era intolerante com relação a suas convicções e ensinamentos não poderia permitir que o ensino, considerado por eles como falso, continuasse a ser exposto no Templo. Por isso “os prenderam, reconlhendo-os ao cárcere até o dia seguinte, pois já era tarde[2]“. Uma questão deve ser considerada aqui: “Por que as autoridades judaicas, que são são tão severas quanto a sua doutrina, esperaram até o dia seguinte para tomar uma providência?“. Note o v.5: “No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém as autoridades“. A resposta para essa pergunta é simples, o sinédrio não poderia reunir-se com legitimidade durante a madrugada, como aconteceu com Jesus. Sendo assim, não importa quem será julgado, o valor deste julgamento está condicionado a observação das leis que regem o sistema.
Aqui podemos perceber mais alguns nomes importantes dentro do judaísmo, sendo que dois deles já nos são conhecidos: Anás e Caifás[3]. Anás é apresentado neste trecho como sumo sacerdote, que nos deixa um pouco confusos, visto que Caifás é apresentado como sumo sacerdote no evangelhos. Por outo lado, Lc.3.2 nos deixa evidente que ambos exerciam o sumo sacerdócio simultaneamente Observe o que Russel Norman Champlin diz sobre ele: “A princípio Anás for a feito sumo sacerdote; entretanto for a deposto pelos romanos, tendo sido substituido por seu próprio genro Caifás[4]“. O que podemos concluir é que, embora o reconhecimento externo de Jerusalém considerasse apenas Caifás como sumo sacerdote, os judeus, que criam que o cargo de sumo sacerdote é vitalício, ainda reconheciam a autoridade inconteste de Anás.
Os “anciãos“ eram os oficiais do sinédrio que não pertenciam a qualquer dessas duas classificações. Assim pode-se afirmar que o termo ancião é genérico, mas refere-se a uma importante classe no judaísmo. O mesmo diz-se do termo “autoridades” utilizado no mesmo versículo. Contudo, podemos observar a existência de mais uma referência no v.5, os escribas, que faziam parte do partido dos fariseus.
Diante das informações supracitadas podemos perceber que os discípulos estavam em uma situação de risco, pois os mais importantes nomes e autoridades de Jerusalém os levaram a cadeia e procuravam os interrogar. Contudo, existia um trunfo nas mãos dos apóstolos, pois tais autoridades não poderiam negar o milagre que foi feito por intermédio dos apóstolos, sem contar no fato de que estavam ainda perplexos pelo que acontecera. Isso pode ser percebido na pergunta: “Com que poder ou em nome de quem fizeste isso?” (v.7).
2.2 Pregação e Defesa de Pedro
O primeiro ponto que deve ser levado em consideração nesse treco é que Pedro está “cheio do Espírito Santo“. Embora não seja a intenção deste estudo esgotar as informações sobre esse fato, podemos afirmar sem chances de estarmos errados, que isso implica em dizer que a Profecia mencionada por Jesus e registrada por Lucas (Lc.21.14-15) havia cumprido-se. O teor da profecia diz respeito exatamente a essa situação, observe: “Quando vos levarem às sinagogas e perante os governadores e as autoridades, não vos preocupeis quanto ao modo por que respondereis, nem quanto às coisas que tiverdes de falar. Por que o Espírito Santo vos ensinará, naquela mesma hora, as coisas que deveis dizer” (Lc.12.11-12). Ou seja, Pedro estava sendo capacitado pelo Espirito Santo de maneira sobrenatural a responder exatamente o que deveria ser respondido. Isso também nos faz lembrar de At.1.8. Ao ouvir a resposta de Pedro perante as autoridades de Jerusalém não conseguimos esquecer a cena da traição dele, quando intimidou-se com a a voz de uma mulher. Pedro só poderia ter essa atitude diante de tal situação se estivesse revestido do poder de Deus. Isso é exatamente o que consideramos aqui estar “cheios do Espírito Santo“.
A defesa de Pedro nasce de forma jurídica, visto que a argumentação sugere que eles estão sendo acusados por fazrem o bem a um enfermo e ao modo que ele foi curado. Se as autoridades de Jerusalém estivessem imaginando poderiam tecer alguma conspiração contra eles, não passariam pela primeira barreira, a aprovação do povo. Sem contar que ninguém poderia ser julgado por curar um enfermo, como no caso deles (cf. v.14).
O ponto alto dessa mensagem são os vs.10-12. Note novamente que Pedro não perde a oportunidade de anunciar o evangelho. O cerne de seu defesa está intimamente ligado à mensagem sobre Jesus, que morreu e ressuscitou. Podemos ver de novo o dualismo aqui entre “vós o crucificastes, a quem Deus ressiscitou” (Isso será melhor exposto na oração feita pela igreja primitiva relatada em At.4.26-28), bem como o termo “em seu nome” referindo-se a Jesus. Vale ser dito que essa expressão sugere que o milagre foi operado pela autoridade e poder de Jesus.
Contudo um ponto merece nossa atenção visto ser ter sido mencionado anteriormente: “E não há salvaçã em nenhum outro homem; por que abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pel qual importa ser salvo” (v.12). Note que aqui Pedro parece lembrar-se das palavras de Jesus, quando disso que “é o caminho a verdade e a vida” (Jo.14.6). Ou seja, não existe salvação fora da obra redentora de Jesus Cristo, pois Ele é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm.2.5). Não importa quanto o mundo nos critique sobre nossa atitude em relação a multideiversidade de idéias sobre a vida, a salvação é dada exclusivamente por meio da Obra Redentora de Jesus, e não há nenhum outro meio, modo oe pessoa. Que nos odeiem os pluralistas. Talvez isso faça parte da vitalidade da Igreja, pois não poderíamos concordar com as milhares de vozes do mundo sem nos contaminarmos com ele. É possível que seja essa a opinião da Igreja Primitiva, exposta por Inácio de Antioquia que dizia: “A grandeza da igreja consiste em sermos odiados pleo mundo“.
2.3 Atitude das Autoridades Judaicas
Em primeiro lugar, podemos dizer que as autoridades judaicas estavam espantadas com a intrepidez de Pedro e João, pois eles eram homens iletrados e incultos. Logo não poderiam esperar tamanha coragem para proclamar acerca do que criam, como fizeram. A conclusão deles parece clara: “reconheceram que haviam andado com Jesus” (v.13). Contudo, devemos dizer que iletrados e incultos não significa analfabeto, mas sim que tanto Pedro como João não haviam sido instruídos mas escolas rabínicas, que não eram eruditos profissionais ou professores ordenados.
Como as autoridades não tinham como argumentar contra as colocações de Pedro e não podiam negar o fato ocorrido acabaram os deixando ir. Assim que eles saíram, reuníram-se e questionavam: “Que faremos com estes homens?” Diante do que havia sido feito nada mais poderiam fazer senão os advertir para não mais ensinarem a respeito de Jesus, nem em nome dele. Pedro não deixou barato denovo: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus, pois nós não podemos deixar de falar das cousas que vimos e ouvimos” (v.19, 20).
3. Oração
A oração dos apóstolos, reunidos juntament com os outros irmãos da Igreja Primitiva, é um insentivo para a prática da nossa fé hoje. Note que o reconhecimento que envonve toda essa oração Soberania de Deus: “Tú Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há“. Dizer que Deus é Soberano significa dizer que ele é supremo no universo bem como seu poder. Ou seja, nada lhje escapa do contole. O Deus anunciado pelos apóstolos é esse que “faz todas as coisas conforme o conselho de Sua Vontade” (Ef.1.11). Sobre esse o Conselho de Deus Brancroft diz que ele “abrange não só os efeitos, mas também as causas; não apenas os fins que devam ser obtidos, mas igualmente os meios necessários para sua obtenção[5]“.
Isso é o que é expresso por essa oração, pois note que enfatiza aquilo que Deus disse ao profeta (v.25-26) e de fato isso aconteceu (v.27-28). Ou seja, Deus é Soberano para pré-estabelecer o que irá acontecer, Pessoal para comunicar o que irá acontecer, e Fiel para cumprir o que estabeleceu e comunicou. Portanto, se este Deus é tão grande como temos visto, por certo pode nos ajudar. E essa é a segunda autitude encontrada na oração do apóstolos: “concede aos teus servos que anunciem com toda intrepidez a tua palavra”.E isso é exatamente o que acontece. Deus é Fiel!!
[1]2Macabeus 3.4 fala um pouco sobre esse “homem do monte de casa”, que era escolhido da casa de Benjamin. Mishnah Middot diz o seguinte sobre ele: “…o homem do monte da casa vai atrás de todos os postos, como tochas acesas à sua frente; e todo o posto em que o guarda não estiver de pé, alí o homem do monte da casa diz: Paz contigo. Porém se observar que está dormindo, bate-lhe com o cajado, e tem a autoridade para queimar suas vestes (Cap.1.2).
[2]Como o texto diz já era tarde. Isso implica em dizer que os discípulos tiveram um bom tempo de exposição da verdade a respeito de Cristo.
[3]Anás e Caifas são responsáveis pelo julgamento cheio de irregularidades de Jesus (Jo.18.12-23; Mt.26.57-68). Enfase especial deve ser dada a Mt.26.65, outra irregularidade gritante no julgamento.
[4]CHAMPLIN, Russel Norman, Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol.3, pp.93
[5]BANCROFT, E.H. Teologia Elementar. pp.81.
Milagre e Mensagem
“A cura do aleijado, por intermédio de Simão Pedro, e o provocativo discurso que ele fez na ocasião, provocou um primeiro choque entre cristãos e as autoridades dos judeus Isso assinalou o início do declínio da popularidade da comunidade cristã, o que é descrito em At.2.47. Esse choque era verdadeiramente inevitável, como também doi a oposiçã ocontra o Senhor Jesus”.
Russel Norman Champlin
1. Introdução
O estudo do livro de Atos tem nos levado a conclusões importantes sobre a vida e a essencia da Igreja de Cristo e da realidade da pregação do Evangelho. No último estudo, em particular, pudemos observar a forma em que Pedro expõe o evangelho pela primeira vez e retirar de sua exposição informações que nos auxiliam na pregação autêntica do evangelho verdadeiro. No estudo de hoje poderemos fazer o mesmo e retirarmos ainda mais informações sobre a exposição do evangelho.
Contudo, é importante ressaltarmos que estamos presenciando um momento especial da história: Os cristãos ainda não tinham compreendido a necessiade de levar o evangelho além de Jerusalém (Note isso na pregação de Pedro – 2.14, 22, 36 – pois ele ainda tem um foco judaico na exposição do evangelho). Vale a pena relembrar que a expectativa dos discípulos, que eram judeus, antes da ascesão de Cristo estava intimamente ligada ao reestabelecimento do Reino de Israel (cf. 1.6).
No estudo de hoje veremos um dos “muitos sinais e prodígios feitos por intermédio dos apóstolos“, como Lucas havia mencionado pouco antes. Não podemos afirmar com certeza a distância de tempo entre a pregação no dia de Pentecostes, e este fato mencionado no capítulo seguinte. O que é certo é que o resumo da vida da Igreja Primitiva é um apêndice entre as duas histórias e realça aquilo que acontecia de importante na Igreja. Sendo assim, vamos observar um pouco mais de perto mais uma parte dessa história do poder de Deus manifesto entre os apóstolos.
2. Milagre (At.3.1-11)
A História para Lucas parece ser o registro das ações dos homens. Como historiador, Lucas preocupa-se em enfatizar aquilo que é realizado pelos personagens que compoem a história que está sendo contada. Mas, uma análise um pouco mais ampla da narrativa de Atos vai nos mostrar como alguns acontecimento, como esse, tem paralelos semelhantes em outros lugares no mesmo livro (cf. 5.12-42; v.t.14.8-10). Assim questiona-se que tal história possa ser a mesma narrada em no capítulo 5, embora com outros detalhes. Porém, tal sugestão descredita os inúmeros detalhes em desconformidade entre os textos. Portanto, não pode-se julgar de maneira inadequada o texto porduzido por Lucas, que até aqui parece ter-nos conduzido com maestria pela históiria. O que pode-se concluir, entretanto, é que a história é organizada previamente por Lucas e exposta de forma padrão. Sobre isso David Williams diz que Lucas “narra sua história mediante pessoas e eventos que funcionam como exemplos ou padrões[1]“. Ou seja, Lucas mostra-se um excelente historiador, que tem o plano mestre bem defindo e expõe a historia da perspectiva dos personagens envolvidos.
Nesta narrativa podemos observar que João e Pedro subiam ao templo para a oração da hora nona (3.00h da tarde considerando que o dia judaico começava às 6.00h da manhã), que era a o momento do sacrifício da tarde que era acompanhado com orações pela congregação.Nesse texto podemos notar que os discípulos “subiam ao templo“, o que parece ser normativo na experiência da Igreja Primitiva visto não ser feito nenhuma nota sobre a singularidade desse episódio. Outro detalhe é a especificidade que é dada por Lucas para a atividade: “para a oração da hora nona“. Ou seja, os discípulos não estavam subindo ao templo para fazer qualquer oração, mas “para observarem o costume judaico de orações em horas determinadas[2]” Essa situação apenas ilustara qual deveria ser a condição da Igreja Primitiva, que ainda não tinha desvenciliado das tradições da religião judaica. É bem possível que os cerimoniais e festas religiosas ainda fossem observadas pelos primeiros cirstãos. Até aqui não havia sido delimitado que era judaísmo e o que era cristianismo, por isso tal prática. Vale a penas ser dito que os cristãos não eram judeus por religião, eram cristãos que ainda participavam parcialmente das práticas da religião judaica.
Segundo a narrativa, era carragado diariamente para a porta do Templo um coxo de nascença, com o objetivo de esmolar. Na cultura e religião judaica da esmolas é um ato religiosamente meritório, sendo assim, nada mais apropriado que colocá-lo na porta do Templo. Sendo isso verdadeiro, podemos dizer que a expectativa do paralítico descrita no v.5 era de receber algo que teria muito valor. Contudo, tal expectaiva vai por água abaixo quando Pedro completa: “Não possuo nem prata nem ouro[3], mas o que tenho isto te dou” (v.6). O interesse do paralítico não era outra coisa senão dinheiro, por isso é possível que ele tenha desanimado não crendo no que seria dito[4]. Contudo Pedro não deixa dúvidas do que ele está querendo enfatizar: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!“.
Note que o destaque nesta oração, dita por Pedro, é o nome de Jesus. Isso não significa que a sentença “Em nome de Jesus” seja uma fórmula mágica que deve ser dita antes da execução do milagre almejado. Não trata-se de uma regra para obtenção de um fim específico, mas “o ponto principal desta história, porém, é que o nome de Jesus continua com poder para operar os mesmos graciosos milagres de cura que, nos Evangelhos, eram sinais da chegada do reino ou domínio de Deus[5]“. O que Pedro diz com tal sentaça é “pela autoridade e poder de Jesus” o homem pode ser curado. Deve-se lembrar que o próprio Jesus tinha falado sobre isso, como relatado nos evangelhos (cf. Jo.5.20; 14.12), e demonstrado em At.1.8: “recebereis poder“. Por certo o poder necessário para executar tal milagre não veio de Pedro ou João, antes este poder foi outorgado por Cristo mediante a obra do Espírito Santo na vida deles. Isso era observado pela Igreja Primitiva e não pode ser esquecido aqui (cf.43).
Contudo, o mais importante deve ser ressaltado aqui: o resultado empreendido nessa ocasião. Como é bem dito por Lucas muitos eram os sinais feitos por intermédio dos apóstolos, e um sinal tem o claro propósito de evidenciar algo. Isso não seria diferente com este sinal miraculoso. O objetivo desse milagre é claramente percebido: despertar o interesse sobre a realidade de Jesus e testumnhar a cerca de seu poder manifesto por meio de Pedro e João. Observe o que diz o texto sobre o paralítico: “entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus” (v.8). Mas esse não é único observável, note: “Viu-o todo o povo a andar e a louvar a Deus e reconheceram ser ele o mesmo que esmolava (…) e se encheram de admiração e assombro”.
É importante observar que admiração e assombro não significa “necessariamente a mesma coisa que a fé nAquele que operou o milagre; uma pessoa pode impressionar-se com o espetacular sem corresponder àquilo que significa: o poder e a graça de Deus“. Por isso era necessário uma explicação sobre o incidente. E isso é exatamente o que Pedro faz.
3. Mensagem (At.3.12-26)
A mensagem dita por Pedro e redigida por Lucas, segue um padrão interessante aqui, pois é deveras semelhante ao encontrado no capítulo anterior: Um evento incomum, seguido de uma mensagem de Pedro à uma multidão ainda atônita, sendo que, o início desta corresponde a explicação de tal evento (sobre a redação de Lucas veja o primeiro parágrafo do tópico anterior). Outros detalhes semelhantes são também observados: (1) As mensagens têem teor messiânico, ou seja, enfatizam a Jesus Cristo como messias prometido aos judeus; (2) Ambas dão testemunho da rejeição judaica de Jesus Cristo (cristoj [cristós]= messias); (3) Ambas destacam a ressurreição de Cristo; (4) apresentam o arrependimento como atitude necessária; e finalmente (5) Ambas alicerçadas nas profecias do Velho Testamento, o que evidencia o caráter mêssiânico da mensagem.
“A cura sobrenatural homem aleijado realizada por Deus por intermédio de Pedro e João (v. 7), junto com a resposta exuberante dele (v. 8), atraiu uma multidão pasmada (cheios admiração e assombro) ao que tinha acontecido. Eles correram e ajuntaram-se à Colunata de Solomão, um pórtico de colunas que correm o comprimento do lado oriental do tribunal exterior (cf. 5:12)[6]“. Pode-se, à luz da história, imaginar a euforia das pessoas ao presenciarem um aleijado de nascença pulando nas dependencias do Templo. A grande pergunta que poderia ter permeado parte dos presentes pode ser expressa da seguinte maneira: “Que quer isto dizer?” (At.2.12). É provável que os presentes imaginassem que Pedro ou João tivessem poderes especiais para a realização de fatos como esses. Deve ser por essa media que Pedro inicia assim o seu discurso: “Israelitas, por que vos maravilhais disto ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” (v.12).
Nessa mensagem podemos observar que Pedro explica o fato ocorrido ressaltando que não era por causa de seu poder ou piedade que tal fato se consolidou, mas que pela autoridade e poder de Jesus é que o milagre pode ser realizado (v.16). Mas o cerne dessa explicação se encontra no fato de que Jesus foi glorificado por Deus, morto pelos judeus e ressuscitado por Deus. Ou seja, a explicação de Pedro é claramente evangelística. Ele não poderia perder a oportunidade de expor o evangelho em uma situação como essa.
Ainda alguns pontos imporantes podem ser bem colocados aqui. O v.17 demonstra que a atitude dos judeus diante do messias foi fundamentada em sua ignorância. Por ignorância Pedro não está enfatizando o caráter agressivo ou desejoso de morte dos judeus, mas a falta de conhecimento adequado da parte deles. O mesmo aconteceu com as autoridades do povo. Por outro lado, isso não significa que Deus não estivesse a par do que estava acontecendo. Isso não significa que isso aconteceu sem o conhecimento de Deus ou contra Seu desejo, mas fez parte de sua vontade e planejamento, visto que isto fora anunciado anteriormente aos profetas. Se Deus disse por intermédio dos prefetas que seu Cristo haveria de padecer, e isso aconteceu, Deus é Fiel na administração e execução do Seu Plano.
Esse ponto desta pregação petrina é muito semelhante a anterior. Veja que em At.2.23 Pedro utiliza a expressão “sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus“. As palavras destacadas podem ser assim entendidas: visto que desígnio é sinônimo de propósito e determinado tem significado muito claro, podemos concluir que Jesus foi entregue pelo Propósito Determinado de Deus. Potanto, Deus tem papel ativo na morte de Cristo. O segundo termo afirma que Deus Sabia Antes que isso aconteceria. Logo, Deus tem pleno conhecimento da morte de Cristo. Sendo assim, Deus é Soberano sobre a morte de Cristo. Diante das informações aqui recolhidas, podemos dizer que a Morte de Cristo demonsta que Deus é Fiel e Soberano.
O v.19 amplia a idéia colocada sobre o arrependimento exposta em At.2.38. Nós vimos no estudo anterior que o verdadeiro arrependimento vem necessariamente acompanhado por mudança de idéia (de mente), em relação a situação anterior ao conhecimento de tal mensagem. No verso em questão, Pedro apregoa a seguinte expressão: “Arrependei-vos, poi, e convertei-vos”. A idéia de converter nada mais é do que mudar de direção, retornar ou voltar atrás. Assim, podemos izer que arrependimento deve ser seguido uma mudança de vida. O propósito disto é o cancelamento dos vossos pecados. O termo “cancelar” pode ser também entendido como aniquilar ou destruir.
Diante dessas colocações podemos dizer que os dois primeiros sermões de Pedro são relativamente parecidos, mas não podemos deixar de ressaltar as diefenças. Entretanto, apenas uma será aqui exposta: o caráter moral do evangelho. Observe o o v.26: “Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente a vós outros para vos abençoar, no sentido de que cada um se aparte das suas perversidades“. O ato abençoador de Deus é colocado aqui como afastar o pecador do pecado, entretanto essa é uma tarefa confiada a cada um que, arrependendo volte-se ao Seu Senhor e Criador. Dessa forma, o evangelho tem papel imprescindível na correção moral do ser humano. O padrão moral é por certo o caráter de Deus, conforme exposto pelas Escrituras. Portanto, o evangelho tem o caráter moral em alta.
[1]WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Atos. pp.80
[2]CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamente Interpretado versículo por versículo. Vol.3, pp. 76
[3]Considere At.2.45 e 4.34-35 e questione se era uma situação momentânea ou uma decisão do apóstolos para aquela ocasião em especial.
[4]Sobre a possibilidade de um milagre ser executado sem a expressão de fé daquele que o recebe, ver Jo.11, onde Jesus ressucistou a Lázaro.
[5]MARSHALL, Howard, Atos Introdução e Comentário. pp.86
[6]WALVOORD, Jonh F., ZUCK, Roy B. The Bible Knowledge Commentary. Parsons Tecnology, INC.
Pregação e Congregação Inicial
“Igreja primitiva nos brinda com a simplicidade do evangelho, que inibe as preocupações com questões que não dizem respeito à verdadeira expressão de fé na comunidade cristã, que destrói o partidarismo e o egoísmo e que, sobretudo, apaga a infante idéia de buscar agradar o público”.
Marcelo Berti
1. Introdução
Em nosso último encontro pudemos estudar um pouco sobre a necessidade de se estudar Atos, o seu propósito e observar como se deu à preparação para o início de toda uma história que paulatinamente estaremos estudando. Como foi bem evidenciado no último estudo, Lucas nos demonstrou a realidade da Soberania de Deus, mesmo nos fatos mais simples. Note que o foco do primeiro trecho estudado reflete a Soberania de Deus demonstrada no ministério de Cristo após a ressurreição, na ascensão de Cristo, na proposta de Pedro e na escolha de Matias.
O que vamos observar hoje é a continuidade dessa história, também debaixo da Soberania de Deus, mas marcada por intensa atividade apostólica. Nesse estudo veremos não somente o Pentecostes como cumprimento das profecias de Cristo, mas os primeiros fatos relacionados com ele, tais como a primeira pregação e a congregação inicial fruto dessa pregação. Que comece a história!
2. O Pentecostes (At.2.1-13)
O derramamento do Espírito Santo é narrado de forma impressionante, “acompanhada de sinais sobrenaturais e fazendo com que [os discípulos] irrompessem em louvores a Deus em línguas diferentes das suas próprias. Na medida em que os discípulos saíam para as ruas, a sua atividade estranha atraía a atenção das pessoas que ficavam atônitas com aquilo que ouviram[1]“.
Neste ponto é mais que necessário dizer que os fenômenos que acompanharam o derramamento do Espírito Santo são evidências da veracidade do poder de Deus derramado. Observe que tais fenômenos acompanham o derramamento do Espírito Santo em Jerusalém, Judéia e Samaria, e nos confins da terra. Portanto, Lucas não ensina que todo cristão que o recebe fala em línguas, mas afirma que todo cristão recebe o ES, e os fenômenos de caráter miraculosos são provas da validade da missão gentílica na salvação. George Eldon Ladd alude a G.W.Lampe quando diz que “podemos dizer que há um Pentecostes judaico, um Pentecostes samaritano e um Pentecostes gentílico[2]“.
“Pentecostes” é o nome dado no Novo Testamento à Festa das Semanas, quando a ceifa do trigo era celebrada por uma festa de um dia, durante a qual se oferecia sacrifícios especiais (Ex.23.16; Lv.23.15-21; Dt.16.9-12). Assim como outras festas se associavam com eventos na história de Israel (cf. Páscoa com o Êxodo do Egito), assim também no judaísmo a festa se associava com a renovação da aliança feita com Noé e depois com Moisés.
3. A primeira pregação (At.2.14-41)
Pedro inicia sua pregação defendendo a integridade dos seus companheiros, pois não estavam bêbados apesar de ser essa uma opção para os que estavam observando. O que acontecia ilustrava a verdade exposta pelo profeta Joel. Depois, Pedro enfatizou Cristo, como centro de sua pregação, fundamentando em Salmos suas colocações enquanto procurava explica os fatos referentes a Ele, também fundamentos no livro de Salmos. Depois de feito isso, Pedro conclama os ouvintes a se arrependerem. Essa pregação tem grande marca na história do cristianismo por que ilustra o conteúdo correto a ser exposto na evangelização; por que é completamente fundamentada na Palavra de Deus; e por causa do resultado: 3.000 pessoas entenderam a verdade e foram incorporados à comunidade cristã que tinha aproximadamente 120 pessoas.
Vamos observar mais detalhadamente essa pregação:
3.1 Defesa dos cristãos com fundamento profético (v.14-21)
O primeiro ponto da homilia de Pedro é a defesa de seus companheiros. “Atentai para as minhas palavras“. O povo que observava atônito estava demasiadamente preocupado com a atitude desses que falavam em outras línguas. A acusação era: “Estão embriagados“. Mas Pedro deixa claro um fato: “Estes homens não estão bêbados como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia“. O que Pedro está dizendo com isso é que ninguém, às 9.00h[3], estaria bêbado[4].
O fundamento de Pedro aqui diz respeito ao acontecimento no dia de Pentecostes, e baseado em Joel, quando este anuncia um evento que faz parte da escatologia do Velho Testamento. A citação não confere ao cumprimento pleno, mas o apóstolo fez referência à semelhante situação[5].
3.2 Exposição de Cristo com fundamento profético (v.22-28)
A pregação de Pedro é muito bem arranjada. As colocações iniciais são claras: “Jesus, esse homem que vocês bem conhecem, foi entregue por Deus e vocês o mataram, mas ele ressuscitou por que não poderia ser retido pela morte“. Essa mensagem demonstra que Pedro tinha em mente a última recomendação de Cristo: “…sereis minhas testemunhas…”. Diante dessa mensagem podemos mencionar três elementos básicos da pregação apostólica:
- (1) O Jesus Histórico – aquele que viveu e conviveu entre os homens (2.22);
- (2) O Cristo crucificado – as colocações sobre a crucificação são diretamente relacionadas com a culpa dos ouvintes (v.23);
- (3) O Cristo ressureto – a ressurreição não pode ser deixada de lado, pois ela é a confirmação da veracidade da obra messiânica de Cristo.
Exposição
Note que Pedro apresenta a Jesus como Nazareno, ou seja, como aquele que vem de Nazaré. Embora Jesus não tenha nascido em Nazaré, durante o período do seu ministério foi por muitas vezes chamado de Nazareno. Quando os soldados o procuravam a fim de prendê-lo, o identificaram dessa maneira (Jo.18.5, 7) e em diversas outras situações (cf. Mt.26.71; Lc.18.37; Jo.19.19). Mas segundo Mt.2.23 isso se refere ao cumprimento de uma profecia do Antigo Testamento.
Deve ser destacado que Cristo é apresentado como Varão Aprovado. A palavra grega que se refere a “aprovado” tem o sentido de uma demonstração pública de clara provação, de modo que veio a ser considerado verdadeiro. Ou seja, Jesus é um homem que em provações públicas foi considerado sem falta. É importante ressaltar que essa aprovação foi diante de Deus e dos homens, onde os milagres, milagres e sinais são a clara demonstração dessa aprovação.
Outro detalhe que deve ser observado é que a Morte de Cristo estava em consonância com o “determinado desígnio e presciência de Deus“, mas a responsabilidade e culpa pelo acontecido está posta sobre os homens: “vós o matastes“. Embora Deus assim quisesse, o homem é plenamente responsável pelos seus atos.
Fundamentação
Pedro, de forma muito inteligente, utiliza um salmo messiânico de Davi (Sl.16.8-11), que muito provavelmente era conhecido pelos ouvintes, para dar base a sua explicação da Ressurreição. Em Salmos Davi mostra sua certeza em que não ficaria na sepultura, mas fala que Deus não permitirá que Seu Santo veja a corrupção. Entretanto, Pedro afirma que isso não se aplica a Davi pelo fato de que até os dias dele, o túmulo de Davi estava lá. Assim ele aplicou o conceito de Cristo. É muito provável que o texto já tivesse essa conotação messiânica.
3.3 Explicação sobre Cristo com fundamento profético (v.29-36)
Pedro começa com a explicação do texto que utilizou para fundamentar a exposição de Cristo. Ao citar o trecho “não permitirás que Seu Santo veja corrupção“, Pedro quis enfatizar o caráter messiânico do trecho, ou seja, Davi não se referia a si mesmo, mas ao messias que viria: “prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção“.
O ponto alto das afirmações feitas até aqui se encontra nessas palavras: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis“. Isto pode ser observado pela clara conexão de idéias que Pedro faz, pois no VT Deus prometeu que o messias não seria deixado na morte; contudo, Jesus já havia ressuscitado, logo Jesus é o Cristo (Messias). Ou seja, depois de tanta exposição Pedro declara, muito bem fundamentado, que “este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor (=Deus) e Cristo (=Messias)“.
O texto usado nesse trecho da pregação encontra-se em Salmos 110.1, onde Davi demonstra a existência do Seu Senhor. Provavelmente Pedro teria aprendido esse argumento com o próprio Senhor (Mt.22.41-46). O texto usado por Pedro faz menção à expectativa messiânica da nação de Israel: O Messias seria descendente de Davi (cf. 2Sm.7.12-16; Sl.89.3-4, 34-37). Mas segundo mesmo texto, esse descendente era chamado por Davi de “meu Senhor“. Essa identificação faz menção a Cristo sentado à destra de Deus, provando sua ascensão.
3.4 Apelo e resultado (2.37-41)
Ao ouvirem o que Pedro tinha a dizer a reação foi geral: “E agora, o que devemos fazer?“. Note que a reação do povo, ante a colocação clara do evangelho, é de arrependimento. Para um arrependimento sincero acontecer é necessário ao menos um passo anterior: Reconhecer o erro. Certamente os que ouviam a palavra de Pedro poderiam se lembrar de Jesus e a forma com que Ele foi morto, e por isso não podiam crer que esse que morreu era de fato o Messias tão esperado. Mas Pedro, de forma nenhuma, anuncia que isso ocorreu à parte da Soberania de Deus, mas que Ele não só sabia previamente como também determinou assim (v.23).
Assim, Pedro declara: “Arrependei-vos, e cada um seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo“. Muitos dos presentes compreenderam a verdade sobre Cristo, sua pecaminosidade[6] e a necessidade do perdão de Deus, e naquele dia 3.000 pessoas passaram a fazer parte da Igreja.
4. A primeira congregação (At.2.42-47)
“Uma das características de Lucas é separar os vários incidentes da primeira parte de Atos por meio de pequenos parágrafos ou versículos que dão resumos da situação da igreja nas várias etapas do seu progresso[7]“. Esse fato ressaltado por Howard Marshall acontece claramente aqui, e é a primeira vez que acontece em referência ao livro de Atos, mas é um recurso literário de Lucas já conhecido e evidenciado no prólogo, quando se referiu ao Evangelho (At.1.1-3). O grande valor desse resumo de Lucas é que podemos observar como a Igreja Primitiva mantinha-se fiel a exigências de Cristo ante a propagação da mensagem do evangelho e do crescimento numérico que a acompanhava. Vamos observar isso mais de perto:
4.1 A Igreja Primitiva mantinha-se simples (2.42 e 47)
Ao afirmarmos que a Igreja mantinha-se simples não estamos dizendo que a igreja primitiva era uma igreja pobre, ou uma igreja não sofisticada, mas uma igreja que vivia em conformidade com a essência da fé cristã. Note que existem seis declarações nesse versículo que expressam as atividades da Igreja Primitiva:
Doutrina dos Apóstolos
O primeiro ponto a ser ressaltado é a Doutrina dos Apóstolos. O que Lucas quer dizer com “perseveravam na doutrina dos apóstolos” é que a Igreja Primitiva mantinha-se firmada na instrução dos apóstolos. A idéia expressa pelo verbete “perseverar” é dar constante atenção a alguma coisa. Ou seja, a Igreja Primitiva mantinha-se constantemente alicerçada pelo ensino apostólico.
É importante ressaltar que até este ponto da história a doutrina da igreja primitiva podia ser resumida pelo v.36 do mesmo capítulo: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo“. Contudo, é digno de nota que todos os apóstolos tinham sido instruídos por Cristo, e por certo podiam repassar aquilo que haviam aprendido. Aliás, a expressão grega referente a “doutrina dos apóstolos” sugere que tal instrução seja procedente dos apóstolos. Ou seja, o ensino da igreja é mantido por aqueles que tem autoridade e capacidade para tal tarefa.
Comunhão
Lucas não poderia estar equivocado quando utilizou o vocábulo “comunhão” quando se referiu à Igreja Primitiva. A descrição subseqüente, esplanada no tópico sobre unidade da igreja, expõe de forma muito clara as considerações dessa igreja. Assim, deve-se ressaltar que os primeiros cristãos “eram perseverantes (…) na comunhão“. E como foi anteriormente ressaltado, isso implica em dizer que eles eram fundamentados na experiência comum do corpo. Assim, como os outros pontos ressaltados por Lucas, a comunhão era essência da vitalidade da Igreja.
Partir do Pão
A expressão “partir do pão” não diz respeito a uma refeição típica da época, e que os cristãos mantinham-se comendo apenas pão, mas a expressão diz respeito à prática da Ceia do Senhor. O termo grego equivalente a partir em português é apenas utilizado no NT em referência à ceia. Alias. É digno de nota que o termo (the klasei tou artou) é apenas utilizado duas vezes no NT, ambas feitas por Lucas, e é de uso restrito à ceia. O uso da expressão é quase que um pleonasmo, visto que klasei (partir) só é aplicado a artou (pão). Segue-se que, com absoluta certeza, a igreja primitiva mantinha-se firmada constantemente no memorial da morte de Cristo.
Orações
As orações tinham um papel fundamental na vida da Igreja Primitiva. Isso pode ser claramente percebido pelo relado deixado por Lucas, que diversas vezes considera as orações dos primeiros cristãos. Em Atos podemos ver que a oração foi a atitude dos cristãos diante das decisões a serem tomadas (1.14), a atitude da liderança da igreja em situação de crescimento (6.4) e a prática da igreja quando estava em situação de perigo e perseguição (12.5).
Louvor
Esta é uma das poucas referências encontradas em Atos que descreve essa atitude dos cristãos. Isso, no entanto, não quer dizer que os primeiros cristãos não adoravam a Deus, mas que suas reuniões estavam mais voltadas para a instrução, a oração e a comunhão. Contudo, devemos notar que todos os outros fatos ocorriam enquanto os cristãos louvavam a Deus[8] . Ou seja, embora sejam poucas as referências era uma atividade que estava intimamente ligada a expressão de adoração da igreja. Entretanto, não podemos afirmar com certeza se isso acontecia por meio da música, embora possa ser muito bem expressa por ela.
Evangelismo
No mesmo versículo podemos perceber, ainda que um pouco escondido, a atividade evangelizadora da Igreja Primitiva. Note: “e dia-a-dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos“. Por mais que a atividade esteja centralizada na atividade divina na salvação, sabe-se que “aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1Co.1.21). Portanto, não se pode negar que o evangelismo era parte integral da vida da igreja primitiva, sendo que isto acontecia diariamente. Segue-se, então, que a proclamação da verdade, o kerigma na Igreja Primitiva era parte essencial da vitalidade da Igreja de Cristo, assim como todos os elementos já mencionados.
A conclusão que devemos chegar aqui é que estes quatro elementos são essenciais na prática e na experiência da Igreja de Cristo. Portanto, a igreja local que não viabiliza a execução desses quatro pontos não pode ser considerada uma igreja saudável. Em alguns casos é possível que nem possa ser considerada como parte da Igreja de Cristo.
4.2 A Igreja Primitiva mantinha-se unida (2.43-47)
Na introdução deste estudo foi utilizado uma frase que expressa um pouco daquilo que encontramos neste trecho, pois aqui vemos o aspecto mais forte, ou o mais enfatizado por Lucas em suas descrições da Igreja Primitiva: A Unidade, que destrói idéias contrárias, a preferência, o egoísmo e principalmente o fermento que toma conta das igrejas atuais, o partidarismo.
Provavelmente isto se deve à necessidade bíblica da Unidade que é muito bem exposta por Cristo antes de se morrer e ser elevado às alturas. Note algumas considerações de Cristo sobre a unidade na Igreja: “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo.17.11). Jesus em sua oração pede a Deus que aqueles que são seus mantenham-se unidos, ou melhor que seja “um” como Ele o é com Deus Pai (cf. 17.22); “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim, a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo.17.20-21). Note que a unidade do Corpo de Cristo é a Vontade de Cristo para sua Igreja e um pré-requisito para o testemunho na comunidade, portanto não deve estar em falta na comunidade cristã. Assim, é importante compreender o que é Unidade na Igreja Primitiva. Para tanto podemos considerar os seguintes pontos:
Auxílio Social
Auxílio Social é uma marca muito bem delineada da Igreja Primitiva. Observe no v.45 a consideração da dos participantes da igreja: “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade“. Os primeiros cristãos tem vívida a idéia de unidade na comunidade a ponto de que entre eles ninguém tenha problemas com o essencial para a vida física.
O meio pelo qual isso era feito é estampado pelo trecho em negrito no supracitado versículo, entretanto resguardado pela premissa sublinhada no mesmo. Assim, os cristãos preservavam a integridade física uns dos outros por meio da prática da ação social. Isso reflete a forma como estavam unidos os irmãos da Igreja Primitiva.
Em At.4.34-5 a declaração é ainda mais clara: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade“. A preocupação da comunidade cristã primitiva era levar a cabo as exigências de Cristo e assim ser testemunho ao mundo da Graça de Deus.
A conclusão que se chega ao ler esse trecho é que a Igreja Primitiva é exemplo de uma comunidade que sabe como investir seu dinheiro, pois investe em pessoas.
Comunhão
A comunhão tem papel fundamental na vitalidade da Igreja, e isso é claramente percebido na experiência da Igreja Primitiva. Esta é a idéia é exposta pelo termo “estavam juntos” que literalmente significa “eram próximos uns dos outros“. Ou seja, viviam uma vida comunitária em unidade. Veja essa descrição: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração“. Mas é importante dizer que a Igreja Primitiva vive em unidade e não em uniformidade.
Mesmo Sentimento
Dentre todos os pontos destacados até aqui, nenhum me chama tanto a atenção como este. Note que algumas vezes na nossa leitura observamos a seguinte expressão “perseveravam unânimes” (cf. 1.14; 2.46). A idéia de perseverar já foi bem exposta, entretanto nada foi dito sobre essa “unanimidade“. O termo grego utilizado é “omotumadón” que é um advérbio. Tal advérbio é utilizado dez vezes no livro Atos sendo que são apenas onze em todo o NT. Seguindo essa sugestão, pode-s afirmar que o termo é de grande importância para Lucas e merece ser bem observada.
O termo em pauta pode ser traduzido pelas seguintes sentenças: “comum acordo” (At.12.20); “pleno acordo” (At.15.25); “concordemente” (At.18.12, cf. Rm.15.6); “à uma” (At.19.29), sendo encontrado na literatura grega antiga como “comum consenso“, “com uma mente“, “com um propósito“. Todas as opções encontradas nos levam a uma conclusão interessante, pois os discípulos mantinham-se firmes em comum acordo. Isso é apenas possível se os participantes possuírem o mesmo propósito, estarem em comum consenso com o mesmo modo de sentir e pensar. Contudo, não se deve confundir isto com uniformidade ideológica, mas unidade em termos de propósito, modo de pensar, agir e sentir.
O mesmo sentido é exposto por Paulo, por outros termos, quando diz: “completai minha alegria, de modo que penseis a mesma cousa¸ tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento” (Fl.2.2; cf. Rm.12.16; 2Co.13.11). Mas é importante dizer que é provável que essa unidade seja uma tentativa de um viver em conformidade com Cristo que é padrão da vida cristã: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fl.2.5; cf. Rm.15.5; Cl.3.2).
Sendo assim, podemos dizer que unidade na Igreja Primitiva significava ter o mesmo sentimento, tendo o mesmo propósito, pensar, agir e sentir. Isso pode ser claramente percebido pela expressão feito por Lucas, pouco depois: “Da multidão dos que creram era só um o coração e a alma” (At.4.32).
4.3 A Igreja Primitiva era madura (2.42-47)
Um detalhe que parece antagônico é que a Jovem Igreja Primitiva era Madura e procedia em Maturidade. Maturidade esta que apaga a infante idéia de agradar o público, mas, ao contrário disto, busca agradar somente aquele que é digno de Glória. Essa idéia é importante ser ressaltada pois está em falta em boa parte das comunidades cristãs hoje. Isso pode ser percebido em três pequenos detalhes:
Temor
Na vida de cada cristão havia temor : “Em cada alma havia temor” (v.43). O temor é um ponto primordial para a vida da igreja e parece ser uma exigência em Hb.12.28-29. O sentido expresso pelo termo “temor” está além de medo, embora o inclua. O termo sugere devota reverencia em relação a Deus. Na Igreja Primitiva, tal medo reverente existia em cada um dos cristãos (cf. At.5.1-11).
Líderes como Instrumento
Na Igreja Primitiva os líderes são instrumentos e não Senhores da Igreja (v.43: “…e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos“). Na Igreja Primitiva os líderes não eram os “milagreiros“, mas homens que nas mãos de Deus eram instrumentos de sua graça.
Reconhecimento da Atuação de Deus
O reconhecimento do crescimento como obra divina (v.47 “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos“) A Igreja Primitiva tinha o conceito correto de que crescimento é competência divina.
[1]MARSHALL, M. Howard, Atos – Introdução e Comentário. pp.67
[2]LADD, Geroge Eldon. Teologia do Novo Testamento. pp.326.
[3]Provavelmente às 9.00h da manhã era da oração matinal em Israel. Compare essa idéia com 1Ts.5.17.
[4]Veja a condenação de Deus para esse tipo de atitude em Ec.10.16 e Is.5.11.
[5]Há grande debate teológico sobre essa citação de Pedro, mas o que é inquestionável é que alguns detalhes do que foi dito na profecia não foram cumpridos, tais como “O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue“. Por esses fatos crê-se que Pedro ilustra a situação com o trecho mencionado.
[6]Não é apenas o pecado praticado, intencionado, a culpa pelo pecado ou sua natureza pecaminosa, mas a plena capacidade e habilidade para pecar.
[7]MARSHALL, M. Howard, Atos – Introdução e Comentário. pp.83
[8] É importante ressaltar que o gerúndio “louvando“ refere-se a um verbo no presente do particípio ativo grego e é melhor traduzido pelo uso adverbial temporal. Ou seja, “enquanto louvavam“.
A Disciplina de Deus na Igreja (At.5.1-11)
“A busca pela glória, o sórdido amor pela auto-imagem e, a cobiça pelo ouro fundamentadas na mentira e no perjúrio são demonstrações claras da falta de temor. Sua conseqüência não poderia ser menos severa, seu resultado não poderia ser melhor”.
Marcelo Berti
A disciplina bíblica, conforme apresentada em Mt.18 e 1Co.5, deve ser ministradas pela Igreja. Normalmente aplica-se a disciplina por meio da Igreja quando se refere a questões que podem ser julgadas, ou seja, quando é possível avaliar diante da comunidade aquilo que foi realizado em público. Vemos base para isso em 1Co.5 quando Paulo exige que aquele que pratica o incesto publicamente seja “entregue a Satanás para a destruição da carne” (1Co.5.5). Vale a ressalva, aqui, que esta disciplina aplica-se somente em “casos de pecado obstinado, quando todas as alternativas de recuperar o ofensor foram infrutíferas[1]“.
Por outro lado, não estamos dizendo que a disciplina efetuada pela Igreja exclui a participação e Deus, mas que Deus está disciplinando por meio da Igreja, segundo estipulações dadas por Ele mesmo nas escrituras.
Contudo, disciplina não se restringe a isso, pois ela pode ser ministrada diretamente por Deus. Em 1Co.11.30 podemos observar que alguns (“não poucos”) dos cristãos haviam sido participantes da disciplina eliminatória do Senhor. O que se entende por disciplina eliminatória do Senhor, senão que Ele mesmo deu cabo de cristãos que estavam em desconformidade com seus valores morais e religiosos?
Há, porém um terceiro conceito disciplinar que parecer ser o caso em que se incluem Ananias e Safira, que são pecados cometidos em secreto com objetivo de iludir e enganar a Igreja de Cristo, que eventualmente chegam ao conhecimento da liderança da Igreja. Neste caso vemos a as duras colocações de Pedro o líder da Igreja acompanhadas da severa punição de Deus. Talvez alguém possa questionar tal severidade e notar que se Deus tratasse com mesma intensidade todos os cristãos, boa parte deles já haveria sido dizimada.
- At.5.11
- At.5.14:
- Gl.6.7:
“Em princípio a morte dupla de Ananias e Safira nos mostra que não cabe à igreja procurar saber os pensamentos secretos de seus membros. Deus cuidará do que fica escondido nas mentes dos homens. Nenhuma hipocrisia pode ser encoberta dos santos olhos de Deus (Ef.5.13)”. Shedd
Lições aprendidas com a história de Ananias e Safira:
- 1. Todo sacrifício pessoal é recomendável, desde que seja proceda de uma intenção genuína e voluntária, e não para a vanglória;
- 2. A hipocrisia é detestável e odiosa, como Jesus já havia cansado de enfatiza no seu ministério terreno;
- 3. O amor ao dinheiro é um grande e pernicioso mal. (cf. Judas Iscariotes);
- 4. Nenhum ato religioso, consagração ou ofertas são aceitáveis se tiverem a hipocrisia como ponto de partida;
- 5. O ludíbrio é um mal tremendo e deve ser evitado;
- 6. A generosidade é muito recomendável, como no caso de Barnabé, contudo deve ser livre da hipocrisia.
- 7. Que a disciplina de Deus é severa tão quanto necessária (cf. Hb.12.4-12);
Os pecados cometidos por qualquer integrante da Igreja são muito sérios por que envolvem de alguma forma toda a comunidade e os resultados são sentidos por todos.
[1] GRANCONATO, Marcos Mendes. Prática da Igreja de Deus. pp.26
A Igreja de Cristo como Comunidade (At.4.32-35)
A Igreja de Cristo como Comunidade (At.4.32-35):
“Por que a Igreja é importante? Que diferença ela faz? Em primeiro lugar, podemos dizer que a igreja é extremamente importante neste mundo porque fornece o contexto em que ocorre a cura substancial nas relações interpessoais. É na igreja local que pessoas de diferentes idades, origens, etnias, culturas, formações e níveis sociais são convidadas a viver em plena harmonia, formando uma verdadeira família”.
Marcos Mendes Granconato
Ao observar essa sentença podemos ainda afirmar que neste sentido nenhuma outra instituição pode se comparar a Igreja. A Igreja é única por sua essência e pela práica dela. A vida da Igreja consiste em um organismo organizado que visa cada um dos seus integrantes e por meio deles busca glorificar a Deus em todas as suas atividades. Por essa razão a Igreja mantinha-se unidada e compartilhava seus bens e realizava ação social.
A unidade descrita por Lucas em um possível hebraísmo “era só um o coração e a alma“, significa acordo total (1Cr.12.38). A comunidade Cristã era exemplo para a sociedade em que estavam inseridos, o cuidado dos mais necessitados era prioritário na igreja, mas não obrigatória. Ao que tudo indica, a Unidade da Igreja Primitiva, o cuidado com o necessitado era voluntário. Note que “ninguém considerava exclusivamente seu nem uma das cousas que possuía“. Apesar de não considerar como sendo seu, ainda estava sob seu domínio. O que o texto sugere senão que o cristão “era ‘dono’ de seus bens, até o momento em que sentisse ser mais apropriado abrir mão deles[1]“. Isso chama-se cuidado social e é parte das ativiades da Igreja Primitiva e deve inspirar a prática da Igreja Contemporânea, no que tange os próprios irmãos em Cristo. Sendo assim, podemos nos lembrar do texto de Tiago que nos instrui da seguinte maneira: “A religião pura e sem mácula, para com nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tg.1.27a; cf. Dt.14.29; Jó.31.32; Is.58.7;Ez.18.5-9; Mt.25.35-40; Hb.13.2; Tg.2.15).
O sistema adotado pela igreja Primitiva era o seguinte: O cristão que observasse a necessidade de um irmão, venderia algo seu e consederia o valor aos apóstolos para que distribuissem o produto entre os necessitados. Ou seja, a liderança da Igreja era responsável por administrar o produto das ofertas dos cristãos e assim conceder aos irmãos que padeciam necessidades. Dessa forma, os primeiros cristãos conseguiram com que não houvesse nenhum necessitado entre eles (v.34). Portanto podemos concluir que aos cristãos cabe o papel de ofertar em conformidade com aquilo que tem observado, mas tal contribuição deve ser administrada pela liderança da Igreja de forma que ela distribua o produto entre os necessitados.
Os versos 36 e 37 são importantíssimos aqui, pois eles ilustram tudo o que havia sido dito anteriormente sobre a vida da igreja. Ou seja, Em Barnabé Lucas comprova as atividades sociais da Igreja Primitiva. Contudo, em termo de literatura lucana, o exemplo de Barnabé é colocado como um padrão a ser contrastado. A inteção de Lucas com essa colocação de Barnabé é ressaltar a imprudência de Ananias e Safira, que tem sua história relatada pouco a frente.
[1]WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. pp.112
A vida da Igreja de Cristo em Atos (At.2.42-47)
O livro de Atos não é um livro doutrinário, como já vimos, mas é um livro repleto de informações doutrinárias. As ênfases sobre a doutrina da Igreja são feitas a partir da história, e consequentemente pela prática. Lucos não intenciona em seu relato julgar se a prática da Igreja de Deus é correta ou não, mas a coloca a prática da igreja primitiva como padrão a ser seguido. Portanto, o que vemos em Atos não é um guia para a doutrina da Igreja, mas para o exercício efetivo da vontade de Deus por meio da igreja. Isso está em acordo com Ef.3.10 que o objetivo da Igreja é fazer a multiforme sabedoria de Deus conhecida em todos os lugares segundo o eterno propósito de Deus que estabeleceu em Cristo Jesus.
Para não cometermos erro na prática da Igreja, precisamos entender a forma como Lucas escreve o Livro de Atos, pois para ele a história é narrada a partir de personagens e eventos que são utilizados com padrão para a redação. Por isso encontramos em Atos situações semelhantes entre a vida de Paulo e Pedro, entre a Igreja em Jerusalém e a Igreja gentílica, no derramamento do Espírito Santo. Isso não significa que os fatos são aterados por Lucas, mas arranjados em conformidade com seu estilo literário. Da mesma foram, não significa que são irrerais as informações, mas trata-se de um recurso literário, de enfatizar o que considera importante, da mesma maneira que é superficial com acontecimentos considerados menos importantes.
No fim do segundo capítulo de Atos vemos que existe um arranjo literário muito interessante, pois trata-se de um resumo informativo sobre a vida da Igreja. “Uma das características de Lucas é separar os vários incidentes da primeira parte de Atos por meio de pequenos parágrafos ou versículos que dão resumos da situação da igreja nas várias etapas do seu progresso[1]“. Esse fato ressaltado por Howard Marshall acontece claramente aqui, e é a primeira vez que acontece em referência ao livro de Atos, mas é um recurso literário de Lucas já conhecido e evidenciado no prólogo, quando se referiu ao Evangelho (At.1.1-3).
O grande valor desse resumo de Lucas é que podemos observar como a Igreja Primitiva mantinha-se fiel a exigências de Cristo ante a propagação da mensagem do evangelho e do crescimento numérico que a acompanhava. Diante da história da Igreja do primeiro século, podemos retirar as seguintes princípios para hoje:
A Igreja precisa manter-se Simples
Tal princípio não tem sido absorvido como deveria na maior parte das Igreja. A simplicidade da igreja diz respeito a vida de sua essência. Atos nos ensina que não existe um forma absoluta e engessada para a vitalidade da igreja. Contudo, nos mostra exatamente quais são os elementos essenciais para seu funcionamento. Neste ponto vemos sua vitalidade.
Observe que os discípulos são apresentados por Lucas como aqueles que ensinavam e pregavam. Tal colocação diz respeito a função exercida pelos apóstolos de Cristo. Contudo, diversas pregações e ensinos são apresentados em Atos, e muitas diferenças são vistas os ensinos de Paulo e Pedro. Com isso não estamos afirmando que um está certo e o outro errado, mas observando um princípio vital para a Igreja: O Exercício efetivo da função é necessário, da mesma forma que a liberdade para a sua execução. Existe apenas uma restrição necessáruia nesse processo: A forma nunca pode manipular a função, mas, antes, viabilizar.
Para facilitar a absorção deste princípio, vamos resumir da seguinte maneira:
- Atos nos mostra funções e princípio a serem seguidos;
- Atos, às vezes, nos mostra a forma que devem ser executados, mas é parcial e incompleta;
- Em Atos, normalmente, a forma varia de acordo com o contexto;
- Portanto, a Essência é Vital, a Forma secundária.
Seguindo essas colocações só podemos concluir que a Essência da Igreja restringe-se a execução de suas funções vitais. Como isso vai acontecer, cada líder deve avaliar a partir do contexto em que vive. Não existe um manual absoluto de crescimento e expansão da Igreja pronto para ser utilizado em todas as culturas. Por isso, cada líder deve avaliar a forma de executar as funções vitais do Corpo de Cristo, sem ferir, manipular, destruir, desconsiderar, sua essência. Por esta razão afirmamos que a Igreja deve manter-se simples!
Entretanto, ao afirmarmos que a Igreja mantinha-se simples não estamos dizendo que a igreja primitiva era uma igreja pobre, ou uma igreja não sofisticada, mas uma igreja que vivia em conformidade com a essência da fé cristã. Note que existem seis declarações nesses versículos que expressam as atividades da Igreja Primitiva:
Doutrina dos Apóstolos
O primeiro ponto a ser ressaltado é a Doutrina dos Apóstolos. O que Lucas quer dizer com “perseveravam na doutrina dos apóstolos” é que a Igreja Primitiva mantinha-se firmada na instrução dos apóstolos. A idéia expressa pelo verbete “perseverar” é dar constante atenção a alguma coisa. Ou seja, a Igreja Primitiva mantinha-se constantemente alicerçada pelo ensino apostólico. É importante ressaltar que até este ponto da história a doutrina da igreja primitiva podia ser resumida pelo v.36 do mesmo capítulo: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo“. Em favor desta idéia vamos nos lembrar daquilo que Paulo nos informa em 1Co15.3-4: “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras“. A intenção de Paulo era de deixar aos Coríntios aquilo que é essencial para sua vida. Essa é a doutrina deixada que deve ser ensinada na Igreja hoje. Tudo o que não é concernente a doutrina dos apóstolos deve ser deixada de lado.
Contudo, é digno de nota que todos os apóstolos tinham sido instruídos por Cristo, e por certo podiam repassar aquilo que haviam aprendido. Aliás, a expressão grega referente a “doutrina dos apóstolos” sugere que tal instrução seja procedente dos apóstolos. Ou seja,
O ensino da igreja é mantido por aqueles que tem autoridade e capacidade para tal tarefa
Dois requisitos básico devem ter os que transmitem o ensino dos apóstolos: Autoridade e Capacidade. Sobre capacidade, podemos dizer que tal princípio não é um critério exigido pela Instituição da Igreja, nem mesmo pela liderança local de cada núcleo da Igreja. Mas é um requisito das Escrituras. Observe que duas passagem exigem isso de maneira irrevogável: 1Tm.3.2 e 2Tm.2.24.
Qual é o papel da liderança da Igreja hoje? Certamente o mesmo desempenhado pelos apóstolos no início da História. Sobre eles estava a responsabilidade de instruir e governar a igreja de Cristo, não como senhores, mas como servos. O serviço do líder deve estar em conformidade coformidade com o serviço de seu Senhor. Cristo, como exemplo de liderança, foi o discipulador dos apóstolos, mas manteve-se sempre humilde diante deles. O Serviço do líder deve ser o Serviço a Seu Senhor, nos moldes ensinados por ele.
De acordo com tal conclusão, podemos dizer que o líder deve promover a Instrução dos membros do Corpo de Cristo. Mas qual deve ser o conteúdo do seu ensino? Certamente o mesmo conteúdo exposto pelos apóstolos. Tudo o que os apóstolos ensinaram que merece ser lembrado historicamente, foi preservado pelo Espírito Santo até os dias de hoje, e todo esse material encontra-se nas Escrituras. Diante desse fato, o papel do líder da Igreja é promover o governo da comunidade cristã que dirige, nos moldes da Liderança de Cristo, da mesma forma que promove o ensino nos moldes do ministério dos apóstolos.
Comunhão
Lucas não poderia estar equivocado quando utilizou o vocábulo “comunhão” quando se referiu à Igreja Primitiva. A descrição subseqüente, esplanada no tópico sobre unidade da igreja, expõe de forma muito clara as considerações dessa igreja. Assim, deve-se ressaltar que os primeiros cristãos “eram perseverantes (…) na comunhão“. E como foi anteriormente ressaltado, isso implica em dizer que eles eram fundamentados na experiência comum do corpo. Assim, como os outros pontos ressaltados por Lucas, a comunhão era essência da vitalidade da Igreja.
Contudo, antes de proseguirmos para outros tópicos, devemos compreender a idéia de “Comunhão“. O termo grego utilizado é “koinonia“. Em suas diversas formas o termo não é usado mais que 19 vezes no Novo Testamento. Contudo, sua idéia é visível em várias de suas partes. Um exemplo disso é At.20.36-38:
“Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio“
Nenhuma vez neste texto nós encontramos o termo Comunhão, mas não podemos negá-la aqui. É evidente que a intimidade e comunhão entre Paulo e os cristãos de éfeso, que por razão da partida de Paulo, houve choro e tristeza. A vida de mutualidade entre Paulo e os cristãos de éfeso demonstra a Comunhão que existia entre eles.
Em At.4.32-35 vemos outro exemplo fantástico e marcante:
“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum“
Embora vamos comentar com mais detalhes esse versículo pouco adiante, vale a pena observar que a vida da Igreja primitiva estava alicerçada na Comunhão, também. Os cristãos estavam tão próximos uns dos outros que não ousavam considerar seu o que possuía, mas easstava pronto a dividir com seus irmãos conforme havia necessidade. Isto é a demonstração da Comunhão que a Igreja deveria ter hoje.
Diante desses fatos, qual é o papel da liderança nesse ponto? A liderança da Igreja deve promover a Comunhão da Igreja. Suas atividades devem viabilizar a Comunhão do Corpo de Cristo. Isso deve ser estudado e planjado de acordo com as reais disponibilidades da Igreja e de seus participantes.
De fato, a comunhão na Igreja primitiva era espontânea, por causa da experiência que cada um dos membros tinham com Cristo. Mesmo correndo o risco de ser redundante, digo:
“A comunhão da Igreja depende da vida de Comunhão com Deus que cada membro do corpo de Cristo desfruta“
Tal verdade é bem colocada por João em sua primeira epístola, observe: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros” (1Jo.1.7a). Aqui está o segredo da Comunhão entre os participantes da Igreja de Cristo. Não há separação entre os que estão na Luz, como Deus é: “Deus é luz e nele não existe trevas nenhuma” (1Jo.1.5). Todo o que participa de uma vida de intimidade com Deus, desfruta da intimidade dos que procuram intimidade com Deus. Quanto mais perto de Deus os participantes da igreja estão, mas próximos uns dos outros.
Portanto, se o papel do líder da igreja é promover a Comunhão entre os irmãos, e tal comunhão só é possível quando eles estão desfrutando de intimidade com Deus, o líder deve auxiliá-los a buscar intimidade com Deus. O papel do líder não é ser um “dono-da-igreja”, mas ser um “servo-facilitador” da busca das virtudes bíblicas por parte dos seus liderados. Portanto, o líder deve dar sua vida pela santificação da Igreja que dirige. Se isto é buscado e efetivamente executado, a Comunhão é o resultado. Tal idéia é muito semelhante a colocação de Paulo em 2Co.11.2: “Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo“.
Partir do Pão
A expressão “partir do pão” não diz respeito a uma refeição típica da época, e que os cristãos mantinham-se comendo apenas pão, mas a expressão diz respeito à prática da Ceia do Senhor. O termo grego equivalente a “partir” em português é apenas utilizado no NT em referência à ceia. Alias, é digno de nota que o termo (te klasei tou artou) é apenas utilizado duas vezes no NT, ambas feitas por Lucas, e é de uso restrito à ceia. O uso da expressão é quase que um pleonasmo, visto que klasei (partir) só é aplicado a artou (pão). Segue-se que, com absoluta certeza, a igreja primitiva mantinha-se firmada constantemente no memorial da morte de Cristo.
A Ceia do Senhor foi estabelecida pelo próprio Senhor Jesus, pouco antes de dar Sua Vida em nosso favor:
Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados (Mt.26.26-28)
Naquela ocasião Jesus estava estabelecendo o que seria considerado posteriormente, o memorial mais significante do cristianismo. A “Ceia do Senhor” não é uma prática institucional da Igreja, mas a recordação vívida do Sacrifício de Cristo em nosso favor, para redenção dos nossos pecados. É a memória da efetivação da Nova Aliança. Por ser tão grande importância para a Vitalidade do Corpo de Cristo, Paulo faz a seguinte colocação:
“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co.11.23-26).
Aqui está claro e evidente que a “Ceia do Senhor“ trata-se e um memoral. O pão continua a ser pão, e o vinho continua a ser vinho, mas ambos simbolizam e representam o corpo e o sangue de Cristo, entregue para nossa redenção. E uma advertência deve ser feita: A CEIA É O ANUNCIO DA MORTE DE CRISTO, e deve ser realizado até que o Cristo volte. Não existe um cronograma para sua execução, mas deve ser executado. Pode ser uma vez por mês, por semana, a cada dois meses. A frequência não é o importante. O importante é que seja frequente.
Contudo, devemos evitar o erro de considerar a “Ceia do Senhor” como uma mera lembrança, ou ceriminial, como alguém que, com sudades, observa fotos de seus entes queridos. Não é esse o sentido da Ceia. Trata-se, sim, de um memorial, mas não é esta sua razão exclusiva. Vamos observar outro texto importante:
“Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (1Co.10.16-17)
Aqui nós vemos que a Ceia é vista como a “participação” do sangue e do corpo de Cristo. Ou seja, o cristão quando participa do memorial da morte de Cristo é também participante de sua morte. Isso não significa que o cristão morra, mas que participa das bênçãos oferecidas por essa morte. A conclusão disto, é que os cristãos são feitos um só corpo. A conclusão do argumento de Paulo sobre a ceia é que ela é a união espiritual entre Cristo e os cristãos. Isso é visto em 1Co.10.21: “Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios“. Se realizarmos a ceia deste modo estaremos suscitando o Senhor a Ira contra nós, como se pudéssemos contender com Ele (1Co.10.22).
Por esta razão é que Paulo faz sérias advertências sobre participação indevida da “Ceia do Senhor“:
“Porque o que come e bebe indignamente come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disso, há entre vós muitos fracos e doentes e muitos que dormem” (1Co.11.29-30)
Note que a participação indevida da Ceia torna o participante desatento passível da disciplina de Deus. Tal disciplina pode ser uma doença física, ou até mesmo a morte. Portanto, nota-se a seriedade deste memorial participativo. Portanto, não podemos deixar de observar esse mandamento, com cautela e perseverança. Doi contrário seremos negligentes e passíveis da disciplina de Deus, sem contar que deixaremos de lado mais um ponto importante para a Vitalidade da igreja de Cristo.
Orações
A Igreja Primitiva viva em constante oração, quer comunitária como individual. As orações tinham um papel fundamental na vida da Igreja Primitiva. Isso pode ser claramente percebido pelo relado deixado por Lucas, que diversas vezes considera as orações dos primeiros cristãos. Em Atos podemos ver que a oração foi:
- a atitude dos cristãos diante das decisões a serem tomadas (1.14);
- a atitude da liderança da igreja em situação de crescimento (6.4);
- a prática da igreja quando os apóstolos foram libertos da prisão (4.24-30);
- a prática da igreja quando estava em situação de perigo e perseguição (12.5);
Como podemos notar, a Igreja orava junto diante de situações positivas e negativas. Lucas nos mostra que em situações diferentes das habituais, “havia incessante” oração por parte da Igreja. A prática do Corpo de Cristo eaxige a Oração, ela é a respiração de sua fé. A oração deve ser a genuína expressão do nosso coração e reflexo de nossa autêntica fé. A comunidade que isenta-se dessa prática pública pode deixar de participar efetivamente. Apenas um ponto merece nosso destaque aqui: “quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (At.6.5). Embora o texto seja trabalhado pouco mais a frente, aqui fica a nota de que o ministério do líder da Igreja deve ser cheio de oração. Sua vida deve ser uma vida de oração (cf. O exemplo de Paulo nos seguinte versos: Rm.1.10; Ef.1.16; Cl.4.12; 1Ts.1.2; Fm.14), e nas tribulações, sua oração deve ser perseverante (Rm.12.12; Cl.4.2).
Louvor
Esta é uma das poucas referências encontradas em Atos que descreve essa atitude dos cristãos. Isso, no entanto, não quer dizer que os primeiros cristãos não adoravam a Deus, mas que suas reuniões estavam mais voltadas para a instrução, a oração e a comunhão. Contudo, devemos notar que todos os outros fatos ocorriam enquanto os cristãos louvavam a Deus[2] . Ou seja, embora sejam poucas as referências era uma atividade que estava intimamente ligada a expressão de adoração da igreja. Entretanto, não podemos afirmar com certeza se isso acontecia por meio da música, embora possa ser muito bem expressa por ela.
Contudo uma pergunta merece ser feita: Qual a ligação do louvor com a música? Será que os primeiros cristãos musicavam seu louvor? De fato não é possível responder definitivamente esta pergunta. Contudo, podemos considerar que a situação dos cristãos nesse momento histórico não era favorável a cultos musicais.
O que podemo dizer é que o louvor da igreja não era definitivamente ligado a música, como, na verdade, não deveria ser. Hoje estamos acostumados a ter um “louvor” com músicas no culto público, e nos esquecemos da essência do louvor na vida pessoal. Segundo a definição de Hebreus, o louvor é resultado de lábios que confessam o nome de Cristo (Hb.13.15). Por outro lado, não podemos nos esquecer das colocações encontras nos Salmos (Sl.6:5; 22:25; 34:1; 35:28; 40:3; 42:4; 48:10; 65:1; 66:2, 8; 71:8; 100:4; 102:21; 106:12, 47; 109:1; 111:10; 119:171; 147:1; 148:14; 149:1), que apresentam louvores musicados.
Para melhor entendermos essa questão vamos chamar esse louvor da igreja primitiva de adoração, que em sua essência é deveras semelhante ao louvor. Diante dessa colocação devemos reconhecer que a missão central da Igreja é adorar e glorificar a Deus, portanto deve fazer parte da vida da Igreja. Observe que isso deve ser feito “com salmos, hinos e cânticos espirituais” (Cl.3.16), por que fomos escolhidos “para sermos para louvor de sua glória” (Ef.1.12).
Evangelismo
No mesmo versículo podemos perceber, ainda que um pouco escondido, a atividade evangelizadora da Igreja Primitiva. Note: “e dia-a-dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos“. Por mais que a atividade esteja centralizada na atividade divina na salvação, sabe-se que “aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1Co.1.21). Portanto, não se pode negar que o evangelismo era parte integral da vida da igreja primitiva, sendo que isto acontecia diariamente. Segue-se, então, que a proclamação da verdade, o kerigma na Igreja Primitiva era parte essencial da vitalidade da Igreja de Cristo, assim como todos os elementos já mencionados.
A conclusão que devemos chegar aqui é que estes seis elementos são essenciais na prática e na experiência da Igreja de Cristo. Portanto, a igreja local que não viabiliza a execução desses seis pontos não pode ser considerada uma igreja saudável. Em alguns casos é possível que nem possa ser considerada como parte da Igreja de Cristo.
A Igreja precisa manter-se Unida
Na introdução deste estudo foi utilizado uma frase que expressa um pouco daquilo que encontramos neste trecho, pois aqui vemos o aspecto mais forte, ou o mais enfatizado por Lucas em suas descrições da Igreja Primitiva: A Unidade, que destrói idéias contrárias, a preferência, o egoísmo e principalmente o fermento que toma conta das igrejas atuais, o partidarismo. Provavelmente isto se deve à necessidade bíblica da Unidade que é muito bem exposta por Cristo antes de se morrer e ser elevado às alturas. Note algumas considerações de Cristo sobre a unidade na Igreja: “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo.17.11). Jesus em sua oração pede a Deus que aqueles que são seus mantenham-se unidos, ou melhor que seja “um” como Ele o é com Deus Pai (cf. 17.22); “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim, a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo.17.20-21). Note que a unidade do Corpo de Cristo é a Vontade de Cristo para sua Igreja e um pré-requisito para o testemunho na comunidade, portanto não deve estar em falta na comunidade cristã. Assim, é importante compreender o que é Unidade na Igreja Primitiva. Para tanto podemos considerar os seguintes pontos:
Auxílio Social
Auxílio Social é uma marca muito bem delineada da Igreja Primitiva. Observe no v.45 a consideração da dos participantes da igreja: “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade“. Os primeiros cristãos tem vívida a idéia de unidade na comunidade a ponto de que entre eles ninguém tenha problemas com o essencial para a vida física.
O meio pelo qual isso era feito é estampado pelo trecho em negrito no supracitado versículo, entretanto resguardado pela premissa sublinhada no mesmo. Assim, os cristãos preservavam a integridade física uns dos outros por meio da prática da ação social. Isso reflete a forma como estavam unidos os irmãos da Igreja Primitiva.
Em At.4.34-35 a declaração é ainda mais clara: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade“. A preocupação da comunidade cristã primitiva era levar a cabo as exigências de Cristo e assim ser testemunho ao mundo da Graça de Deus.
A conclusão que se chega ao ler esse trecho é que a Igreja Primitiva é exemplo de uma comunidade que sabe como investir seu dinheiro, pois investe em pessoas.
Comunhão
A comunhão tem papel fundamental na vitalidade da Igreja, e isso é claramente percebido na experiência da Igreja Primitiva. Esta é a idéia é exposta pelo termo “estavam juntos” que literalmente significa “eram próximos uns dos outros“. Ou seja, viviam uma vida comunitária em unidade. Veja essa descrição: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração“. Mas é importante dizer que a Igreja Primitiva vive em unidade e não em uniformidade.
Mesmo Sentimento
Dentre todos os pontos destacados até aqui, nenhum me chama tanto a atenção como este. Note que algumas vezes na nossa leitura observamos a seguinte expressão “perseveravam unânimes” (cf. 1.14; 2.46). A idéia de perseverar já foi bem exposta, entretanto nada foi dito sobre essa “unanimidade“. O termo grego utilizado é “omotumadón” que é um advérbio. Tal advérbio é utilizado dez vezes no livro Atos sendo que são apenas onze em todo o NT. Seguindo essa sugestão, pode-s afirmar que o termo é de grande importância para Lucas e merece ser bem observada. O termo em pauta pode ser traduzido pelas seguintes sentenças: “comum acordo” (At.12.20); “pleno acordo” (At.15.25); “concordemente” (At.18.12, cf. Rm.15.6); “à uma” (At.19.29), sendo encontrado na literatura grega antiga como “comum consenso“, “com uma mente“, “com um propósito“. Todas as opções encontradas nos levam a uma conclusão interessante, pois os discípulos mantinham-se firmes em comum acordo. Isso é apenas possível se os participantes possuírem o mesmo propósito, estarem em comum consenso com o mesmo modo de sentir e pensar. Contudo, não se deve confundir isto com uniformidade ideológica, mas unidade em termos de propósito, modo de pensar, agir e sentir.
O mesmo sentido é exposto por Paulo, por outros termos, quando diz: “completai minha alegria, de modo que penseis a mesma cousa¸ tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento” (Fl.2.2; cf. Rm.12.16; 2Co.13.11). Mas é importante dizer que é provável que essa unidade seja uma tentativa de um viver em conformidade com Cristo que é padrão da vida cristã: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fl.2.5; cf. Rm.15.5; Cl.3.2).
Sendo assim, podemos dizer que unidade na Igreja Primitiva significava ter o mesmo sentimento, tendo o mesmo propósito, pensar, agir e sentir. Isso pode ser claramente percebido pela expressão feito por Lucas, pouco depois: “Da multidão dos que creram era só um o coração e a alma” (At.4.32).
A Igreja precisa ter Maturidade
Um detalhe que parece antagônico é que a Jovem Igreja Primitiva era Madura e procedia em Maturidade. Maturidade esta que apaga a infante idéia de agradar o público, mas, ao contrário disto, busca agradar somente aquele que é digno de Glória. Essa idéia é importante ser ressaltada pois está em falta em boa parte das comunidades cristãs hoje. Isso pode ser percebido em três pequenos detalhes:
Temor
Na vida de cada cristão havia temor : “Em cada alma havia temor” (v.43). O temor é um ponto primordial para a vida da igreja e parece ser uma exigência em Hb.12.28-29. O sentido expresso pelo termo “temor” está além de medo, embora o inclua. O termo sugere devota reverencia em relação a Deus. Na Igreja Primitiva, tal medo reverente existia em cada um dos cristãos (cf. At.5.1-11).
Líderes como Instrumento
Na Igreja Primitiva os líderes são instrumentos e não Senhores da Igreja (v.43: “…e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos“). Na Igreja Primitiva os líderes não eram os “milagreiros“, mas homens que nas mãos de Deus eram instrumentos de sua graça.
Reconhecimento da Atuação de Deus
O reconhecimento do crescimento como obra divina (v.47 “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos“) A Igreja Primitiva tinha o conceito correto de que crescimento é competência divina.
[1]MARSHALL, M. Howard, Atos – Introdução e Comentário. pp.83
[2] É importante ressaltar que o gerúndio “louvando“ refere-se a um verbo no presente do particípio ativo grego e é melhor traduzido pelo uso adverbial temporal. Ou seja, “enquanto louvavam“.
Análise de Atos dos Apóstolos
I. Nome:
O título deste documento é visto em Aleph, Orígenes, Tertuliano, Dídiomo, Hilário, Eusébio e Epifânio como simplemente Atos (Praxeis). Mas é também encontrado como Atos dos Apóstolos (Praxeis ton apostolon) em B, D, Atanásio, Cipriano, Eusébio, Ciril, Teodoret, Orígenes, Tertuliano e Hilário. De outra forma, podemos considerar o livro como Atos dos Santos Apóstolos (Praxeis ton hagion apostolon), conforme encontramos em A2, E, G, H, A, K e Crisóstomo. Sobre o assunto Archibald Thomas Robertson afirma que “é possível qu Lucas não tenha atribuido nenhum título ao livro, por isso o uso variou muito até nos mesmos escritores. O título longo, como é encontrado no Textus Receptus (Versão Autorizada) está indubitavelmente incorreta como o adjetivo ’santo’. A leitura de B e D, ‘Atos dos Apóstolos’ , pode ser aceita como correta[1]“.
Russell Norman Champlin, ainda sobre o assunto, diz que “o título original, Atos dos Apóstolos, dificilmente teria sido conferido pelo seu autor original, embora tenha sido aqule que geralmente veio a ser-lhe atribuído[2]“. O fato mencionado por Champlin é importante aqui pelo fato de que não se trata realmente da narrativa de “Atos dos Apótolos”, mas de dois deles, Pedro e Paulo.
Diante desses fatos, podemos concordar que as propostas para nomear o documento não alteram seu conteúdo, antes o refletem. Desse forma, poderíamos concordar com Champlin quando sugere que um título apropriado para o texto seria “História do poder de Deus entre os Apóstolos“. Contudo, em consoância com Archibald, aqui consideramos o título da obra como Atos dos Apóstolos, visto considerarmos como a melhor opção.
II. Autor:
O Livro de Atos não é claramente atribuido a ninguém. Podemos observar uma breve introdução no início do texto, mas sem saber quem o está escrevendo. Nesta breve introdução, é possível notar claramente que o texto não está sendo iniciado aqui, mas é a continuação de um outro documento já escrito. Ou seja, Atos não é um livro completo por si mesmo. Ao que tudo indica, Atos é a continuação do terceito evangelho, visto ser dirigido ao mesmo personagem (At.1.1-2; Lc.1.1-3). Isso é um fato importantíssimo a ser ressaltado na busca pela autoria do documento, pois sabe-se ao certo que o mesmo autor é responsável por dois documentos importantes.
Contudo, um ponto relevante pode ser colocado aqui em relação a esse link entre o terceiro evangelho e Atos, pois em nenhum dos documentos os autor revela-se claramente. Ou seja, esse link existente entre um livro e outro, nada mais prova senão que ambos documentos tem o mesmo autor, mas nada acrescenta-se sobre quem ele de fato é. Sobre isso, Carlos Osvaldo Pinto diz que, mesmo “embora Atos tenha permanecido como obra anônima, a evidência externa e interna aponta fortemente para Lucas como seu autor[3]“. Segundo este autor, há duas formas de se confirmar a autoria do texto:
- (1) A análise de outros documentos, sobre o que eles falam a respeito de Atos, e, obviamente,
- (2) O que Atos deixa exposto sobre seu autor.
Sendo assim, vamos observar o que essas evidências nos dizem:
Evidência Externa
A tradição uniforme da igreja primitiva atribui o livro a Lucas, sem quais quer outras alternativas. O documento fragmentário chamado Canon Muratoriano (180d.C) atribui os “Atos de todos os apóstolos” a Lucas. A validade dessa afirmação pode ser questionada pelo próprio documento, pois ele sugere que o livro foi escrito após a morte de Pedro, e que a partida de Paulo de Roma for a posterior a esse evento. Contudo, não é este o único documento que faz menção a Atos como sendo de Lucas. Irineu de Lion, em seu escrito “Adversus Heresiae“, indicava sua aceitação de Lucas como autor de Atos. O mesmo fez Clemente de Alexandria (155-215d.C.), em Stromata, e Tertuliano (150-220d.C.), em Do Jejum. Contudo, o mais explícito dos testemunhos é feito por Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica), que parece ser o argumento final para as declarações externas a própria escritura.
Evidência Interna
Antes de qualquer colocação sobre a autoria de Atos, devemos considerar os fatores que sugerem a unicidade entre o terceiro evangelho e Atos. Em primeiro lugar podemos citar o destinatário comum. Após isso, podemos considerar o estilo literário. Unindo os dois fatos mencionados, somado ainda à explícita declaração de que Atos é um segundo volume, a continuidade de um anterior, podemos sugerir que o mesmo autor o está escrevendo. Por conseguinte, podemos retirar de ambos documentos informação sobre o autor.
Seguindo o raciocínio acima lançado, podemos dizer que o autor de ambos documentos é alguém de estimada a cultura e bom nível literário. Isso pode ser observado pelo conhecimento claro, da parte do autor, em relação a versão grega do Velho Testamente, a Septuaginta. Sem contar no seu conhecimentos sobre as condições políticas e sociais vigentes na época em que escreve. Outro detalhe importante é que tal personagem histórico não pode ser um dos discípulos de Cristo, visto que ele escreve a respeito das coisas que foram transmitidas a ele pelas testemunhas oculares e ministros da palavra (Lc.1.1-3). Por outro lado, não é alguém alheio aos acontecimentos narrados, pois existe a indicação de que o autor esteve presente em alguns deles. Note a mudança na forma de narração no trecho de At.16.8-10; 20.5-15; 21.1-18 e 27.1-28.16. Observe que a narrativa normal acontece sempre na terceira pessoa do plural, a exceção dos quatro trechos mencionados. Isso sugere que o narrador participou eventualmente de acontecimentos narrados no próprio livro. Ou seja, o autor acompanhou Paulo nesses acontecimentos. Logo, não pode ser nenhum dos personagens citadados nesses trechos. Assim, como nem Lucas nem Tito são mencionados especificamente entre os companheiro de Paulo em Atos, presume-se que um dos dois tenha sido aquele que, anonimamente, se incluiu entre esse “nós”. Contudo, Tito jamais fora defendido como autor do documento. Sendo assim, é mais sensato não levá-lo em conta como autor do documento em pauta.
Portanto, se os argumentos anteriores são corretos não podemos ter outra opção senão considerar que Lucas, o “amado médico” (Cl.1.14) como o autor de tal documento. Aliás, é digno de nota que a autoria lucana não teria sido contestada até o advento das abordagens críticas do Novo Testamento no fim do século XVIII. Ou seja, se as evidências internas apontam para a autoria lucana, as evidências externas da época o confirmam, não há porque dar crédito aos intentos da teologia liberal, fundamentada na alta crítica textual.
III. Data:
Algumas considerações devem ser avaliadas:
- (1) Não é mencionada nenhum material paulino em Atos. Portanto Atos foi escrito antes da circulação universal das carta de Paulo. Portanto Atos foi escrito antes do segundo século.
- (2) Não é mencionada a Queda de Jerusalém. Isso aconteceu no ano 70d.C com General Tito. Portanto, Atos foi escrito em data anterior a esta.
- (3) Não é mencionada a morte de Paulo. Isso sugere que Paulo ainda estava vivo enquanto Lucas coletava informações sobre os fatos mencionados. Se a tradição está correta, Paulo morreu debaixo do governo de Nero, que findou por volta do ano 68 d.C. Portanto, Atos foi escrito antes dessa data.
- (4) Não é mencionada a perseguição de Nero contra os cristãos. Segundo a história, a perseguição de Nero, iniciada no ano de 64d.C., foi a mais cruel. Portanto, Lucas escreveu Atos antes de 64d.C.
À luz dessas considerações podemos concluir que Atos foi escrito antes de 64d.C. Alguns comentaristas tem sugerido que Lucas tenha escrito o livro durante os eventos narrados no fim dele, o que sugere uma data entre 61d.C e 63d.C.
IV. Características:
Lucas é um livro que combina uma multiplicidade de intenções, todas elas envolvidos com aspectos característicos da narrativa. Podemos dizer que existem três grandes pilares em Atos: Didático, Teológico e Apologético.
Atos é um livro Didático:
Atos é o segundo volume de uma obra com intenções claramente didáticas (cf. Lc 1.1-4). Lucas intenta fortalecer e edificar Teófilo em sua fé por meio de um relato ordenado. No evangelho Lucas narra o ensino e a obra de Jesus, o Messias; em Atos, ele narra as obras do Cristo ressurreto por meio de Seus apóstolos, no poder do Espírito.
Atos é um livro Teológico:
Além disso, Lucas tem intenções claramente teológicas. O tema do reino de Deus permeia os dois livros. Assim é que Atos começa com uma pergunta escatológica (1.6) e termina com vocabulário escatológico (28.31).
Outra ênfase teológica é o relacionamento da Igreja com o reino de Deus, ou seja, como a mensagem do reino, soberanamente, deixou de ser um fenômeno predominantemente judeu e se tornou um movimento predominantemente gentílico, com seu centro se deslocando de Jerusalém para Roma. Ele demonstrou ao(s) seu(s) leitor(es) como Deus tencionava incluir em Seu reino um povo formado por judeus e gentios durante esta era.[4]
Assim como fizera no evangelho, Lucas vindicou esta mudança na operação divina em Atos narrando a oferta autorizada da mensagem cristã aos judeus, e sua rejeição por Israel, de Jerusalém a Roma, escancarando assim a porta aos Gentios. Assim, as palavras de Paulo e Barnabé aos judeus em Antioquia da Pisídia são significativas: “Era necessário que a Palavra de Deus fosse proclamada primeiramente a vós; visto que a repudiais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios” (13.46). Para os judeus incrédulos em Roma, Paulo citou Isaías 6.9-10, a passagem clássica de endurecimento e condenação nos quatro evangelhos, e disse: “Fique sabido, portanto, que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios: eles a ouvirão” (28.28).
Outra ênfase é o papel preponderante do Espírito Santo como o fator motivador no progresso da mensagem do reino. Não foi o esforço humano, e sim o cumprimento da promessa de Jesus que possibilitou o dramático avanço do cristianismo até os confins da terra. Essa ênfase no Espírito Santo é vista ainda na continuidade dos ensinos proféticos de Jesus no livro de Atos:
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TEMAS DO ENSINO DE JESUS CONTINUADOS EM ATOS
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| A profecia do crescimento da Igreja, que seria vitoriosa contra Satanás (Mt 16.18) | Lucas registrou o nascimento e o crescimento da nova entidade chamada igreja e a conquista dos domínios das trevas e do mal. |
| Jesus afirmou aos líderes religiosos que apenas um sinal seria dado a Israel, a Sua ressurreição (Mt 12.38-40; cf. Jo 2.19). | A morte, ressurreição, e o ministério continuado de Jesus Cristo formam o contexto e a base do livro de Atos, sendo o centro da pregação dos apostolos. |
| Jesus declarou que a cidade de Jerusalém seria destruída, porque aquela geração de israelitas estava sob julgamento divino pelo pecado nacional de haver rejeitado o Messias (Lc 21.23-24). | Os apóstolos instaram com os judeus a que se arrependessem e se salvassem daquela “geração perversa” (At 2.40). |
| Jesus declarou que o reino seria tirado de Israel (aquela geração) e dado a outro povo (os gentios/Igreja), até o cumprimento futuro de suas alianças com Abraão e Davi (Mt 21.43). |
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Assim, a historiografia de Lucas é teologicamente baseada e orientada. Enquanto registrava acuradamente a disseminação do evangelho de Jerusalém para Judéia e Samaria e até os confins da terra, Lucas ligou a história com o propósito divino para o povo de Israel e para o mundo, que o acesso ao reino e o desfrute de suas bênçãos espirituais fosse partilhado por judeus e gentios em pé de igualdade até o tempo da restauração de Israel (cf. 1.6).
Atos é um Livro Apologético
A última, mas não menos importante, das intenções de Lucas era a apologética. Ele tencionava defender o apostolado e a missão de Paulo, complementando assim, com base histórica, as defesas que o próprio Paulo fizera nas cartas de Gálatas e 2 Coríntios.
Lucas retrata o poder e a autoridade de Paulo como plenamente comparáveis aos de Pedro, conforme sintetiza o quadro abaixo:
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As obras poderosas de Pedro
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As obras poderosas de Paulo |
| 3.1-11 Curou um paralítico de nascença | 14.8-18 Curou um paralítico de nascença |
| 5.15-16 Cria-se que sua sombra curava pessoas. | 19.11-12 Cria-se que seus lenços e aventais curavam pessoas. |
| 8.9-24 Repreendeu Simão, um ilusionista | 13.6-11 Repreendeu Elimas, um feiticeiro |
| 9.32-35 Curou Enéias de paralisia | 28.7-9 Curou o pai de Públio e outros (Malta) |
| 9.36-41 Ressuscitou a Dorcas | 20.9-12 Ressuscitou a Êutico |
A conversão de Paulo é narrada três vezes (caps. 9, 22, 26), e em cada uma delas se enfatiza sua condição de “caso escolhido”, o que dá a nítida impressão de que Lucas considerava tal evento como crucial no desenvolvimento da mensagem do reino. Esta defesa de Paulo, todavia, não pode ser o único ângulo da intenção apologética de Lucas, pois muito material em Atos em nada contribui para ela (e.g. relatos sobre outros líderes como Estêvão e Filipe).
A possibilidade de que Lucas tenha escrito para demonstrar que o cristianismo não era religião nociva à pax romana pode-se depreender da afirmação dos judeus romanos sobre a fé cristã de que “em toda parte se fala contra ela” (28.22). O cristianismo já havia sido difamado em Roma antes de Paulo ali chegar.
Assim, Lucas indica cuidadosamente que as perseguições em Atos eram de origem religiosa, não política. Que haviam nascido da intolerância e incredulidade dos judeus, exceto em Éfeso e Filipos, onde os motivos foram puramente econômicos, embora relacionados a práticas religiosas.
Se levarmos em conta os dois volumes escritos por Lucas, descobrimos a declaração de inocência de Jesus por Pilatos foi registrada nada menos de três vezes (Lc 23.4, 14, 22). Em Pafos, o procônsul de Chipre, um homem de bom senso, abraçou a fé cristã (At 13.6-12). Em Filipos os magistrados se desculparam diante de Paulo e Silas por abuso de poder e violação de seus direitos de cidadania romana. Em Corinto, o procônsul da Acaia, Gálio, julgou Paulo e Silas inocentes de qualquer ofensa contra a lei romana (18.12-17). Em Éfeso, alguns dos oficiais da província eram amigos de Paulo e o escrivão da cidade o absolveu da acusação de sacrilégio (19.31, 35-41). Na Palestina os governadores Félix e Festo consideraram Paulo inocente das acusações contra ele levantadas, e o rei Agripa II concordou que Paulo “poderia ser libertado, se não houvesse apelado a César” (24.1-26.32).
V. Ênfases Teológicas em Atos:
Não é difícil de ser perceber uma ontinuidade na ênfase teológica central do Evangelho de Lucas no Livro de Atos. Em Atos, Lucas mantêm seu interesse no tema da Salvação ainda que que sua abordagem seja, obviamente, distinta da abordagem de seu primeiro livro. Em Atos, Lucas procura demonstrar como a Igreja, constituída de Judeus e gentios, formam uma comunidade com o Judaísmo, ao mesmo tempo em que é no propósito de Deus uma entidade nova e distinta (mesma idéia de “novo mandamento vos dou“).
Continuidade com o Judaísmo
É evidente desde o começo de Atos que Lucas pretende estabelecer uma relação bem estreita entre a Igreja incipiente e o judaísmo (cf. 2.46, 3.1). Por muito tempo a Igreja de Jerusalém teve a posição de “Igreja Mãe” em relação às comunidades cristãs que foram estabelecidas no início: 8.14; 11.2-3, 22; 15.2, 6, 22-29.
Descontinuidade com o Judaísmo
Atos não apresenta um ruptura definitiva entre Igreja e Judaísmo. No entanto, verifica-se, principalmente na segunda metade do livro, um distanciamento gradativo entre Igreja e Judaísmo. O concílio em Atos 15 já demonstra que Jerusalém fez conceções às igrejas gentias (15.28ss). É significativo que o último acontecimento narrado em Atos seja justamente a rejeição da mensagem do evangelho por parte das autoridades Judaicas em Roma (28.17, 28).
Missão da Igreja
Enquanto que Lucas dedica não mais de sete capítulos à igreja em Jerusalém, o restante (outros vinte e um capítulos) relata a expansão do Cristianismo até a cidade mais importante da época, Roma. A ênfase, portanto, é na missão aos Gentios – ainda que Paulo procure sempre os judeus em primeiro lugar (Rm.1.16). Lucas narra a conversão de Paulo três vezes (9.1ss; 22.3ss; 26.2ss); como o evangelho chegou aos gentios duas vezes (10.1ss; 11.4ss); o decreto de Jerusalém sobre os Gentios três vezes (15.20, 29; 21.25). É interessante observar também que a missão da igreja foi essencialmente urbana (Jerusalém, Éfeso, Antioquia, Roma)
O Espírito Santo
A direção do Espírito Santo se faz presente no desenrolar da história que Lucas conta em At.2.1-4; 6.3; 11. 28; 13.2; 15.28; 16.7; 21.11.
A Igreja
Apesar de toda a sua concentração na Igreja, Lucas não tem por objetiavo explicar uma doutrina sobre a Igreja, como se já estivesse desenvolvida. Segundo Lucas, a igreja começou seguindo o esquema da sinagoga Judaica (presbíteros: 14.23; episcopos: 20.18). Contuno, é inegável que Lucas tenha selecionado eventos da Prática da Igreja Primitiva que irrovogavelmente devem fazer parte da praxis eclesiológica hoje. Portanto, neste aspecto, muito estima-se o Livro de Atos.
VI. Contexto Histórico:
A Igreja Primitiva estava sendo perseguida e assolada pelos judeus e pelo Império Romano, acusada de ser religião ilegal. Ao mesmo tempo, divisões e facções internas, junto com a presença de falsos mestres ameaçavam a saúde da igreja. A Igreja ainda estava em desenvolvimento, com menos de 30 anos, mas sua obra missionária era “invejável“, ainda que tenha se iniciado com perseguição. O livro encoraja os crentes pelos relatórios do pregresso inevitável do evangelho através da Obra do Espírito Santo. Incentiva a continuação da obra missionária iniciada por Pedro, Paulo e outros.
[1]ROBERTSON, Archibald Thomas. Word Pictures in New Testament. Parsons Tecnology. Vol.3: Atcs
[2]CHAMPLIN, Russell Norman. Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. SRVBB: São Paulo. Vol.3 pp.1
[3]PINTO, Carlos Osvaldo, Apostila de Teologia Bíblica do Novo Testamento 1. Material não publicado. pp.??
[4]Stanley D. Toussaint, “Acts” em The Bible Knowledge Commentary: New Testament Edition, p. 351.
Introdução ao Estudo de Atos
“O livro de Atos é a continuação do esforço literário histórico-doutrinário-apologético que Lucas enviou a fim de explicar a vida e a significação do ministério de Jesus, o Cristo, como o seus propósitos, a sua vida e as suas atividades foram continuadas por meio do Espírito Santo, nas pessoas dos apóstolos do Senhor Jesus, e depois através dos seus convertidos, na igreja cristã primitiva”
Russell Norman Champlin
Não existe no cristianismo nada mais fascinante que a vida de Cristo. Ele é a figura central do cristianismo. Contudo, não podemos negar que a história da expansão da verdade a respeito de Cristo é também muito interessante, senão, igualmente fascinante. Nós podemos encontrar essa história registrada no livro de ATOS DOS APÓSTOLOS, onde lemos vinte e oito capítulos emocionantes. Alguns cristãos consideram como um dos textos mais fabulosos, dentre todos os escritos existentes. Dentre eles podemos citar o Pastor J. Sidlow Baxter que diz que “pena alguma jamais escreveu um registro mais irresistível. Se esses acontecimentos memoráveis não provocarem a imaginação e nem despertarem as emoções de qualquer leitor realmente interessado, nenhum outro o fará[1]“. De forma pouco diferente os autores Carson, Douglas Moo e Leon Morris afirmam que o livro de Atos é uma fascinante viagem, embora muito rápida, “ao longo de três decênios de história da igreja[2]“. Ou seja, Atos é um livro incrível, que merece nossa atenção e estudo.
Todo esse fascínio provocado pelo texto de Atos dá-se em função da redação da carta, que juntamente com o Evangelho de Lucas e a Epístola de Hebreus “contém a redação grega mais culta de todo o Novo Testamento[3]“. Não podemos negar que os fatos narrados nesse livro são categoricamente bem arranjados. É impossível lê-lo sem notar a mente do autor por trás da forma clínica de avaliação da história. É bem certo que alguns estudiosos afirmam que os discursos são implementados pelo autor, por vezes modificados, ou ainda, que os discursos encontrados em Atos são na verdade são citações literárias improvisadas. Contudo, não existe como fazer tal afirmação, do mesmo modo que não podemos assegurar que o autor deixe no texto exatamente as palavras de todos os discursos encontrados. O que é certo é que o autor “nos brinda com o cerne acurado do que for a dito[4]“.
Atos é o único livro do Novo Testamento que dá continuidade aos acontecimentos narrados nos quatro evangelhos canônicos. Nenhuma outra escritura do NT é tão rica em detalhes a respeito da continuidade histórica da obra de Cristo. Podemos até considerar que o Livro de Atos é o pano de fundo histórico sobre o qual podemos compreender os escritos posteriores, tais como as epístolas, sobretudo as paulinas. Sobre isso, John Walvoord e Roy Zuck citam F.F. Bruce que diz: “É a Lucas que devemos agradecer pelo coerente relato da atividade apostólica de Paulo. Sem Atos, nós seríamos incalculavelmente pobres [em relação ao entendimento do empenho de Paulo][5]“
O que podemos dizer, a princípio, é que no livro de Atos podemos encontrar “um esboço da história da igreja, começando nos seus dias mais primitivos, em Jerusalém, até a chegada de seu maior herói – Paulo – na principal cidade do império romano[6]“. Contudo, o mais importante é que podemos notar como era estabelecida a vida cotidiana dos cristãos, sua importância dedicada à convivência comunitária, à pregação do evangelho, ao aprendizado das doutrinas cristãs, entre outros fatos. Sem contar que podemos, de uma perspectiva mais abrangente, notar a oikonomia de Deus na história do seu povo, bem como os grandes feitos realizados por Deus por meio deles. Isso é, sem sombras de dúvidas, o maior benefício encontrado neste livro.
Por que estudar o livro de Atos?
Mas, talvez você esteja se perguntando: “Qual é a necessidade de estudar Atos, um livro tão grande?“. A resposta para essa pergunta vai nos orientar e nos ajudar a compreender a importância que esse livro tem para a vida dos cristãos de hoje. Devemos nos lembrar sempre que o aproveitamento deste livro está intimamente ligado às expectativas que temos dele. Por isso, podemos responder a pergunta em pauta da seguinte maneira:
Porque é o único documento histórico sobre a expansão do evangelho escrito antes do III século:
Bastaria esse fato isolado para darmos devida atenção a que Atos nos conta. Sem o registro de Lucas, os cristãos de todos os tempos estariam virtualmente desprovidos de qualquer informação a respeito do desenvolvimento inicial e a propagação do cristianismo primitivo.
Porque nos fornece padrões para a vida da igreja:
Não podemos esquecer que Atos nos demonstra aquilo que é essencial e vital para a experiência comunitária da igreja. Atos nos brinda com os pontos mais importantes da vida comum dos participantes da igreja, que está além de sua organização, mas antes, focalizada no seu organismo.
Porque nos fornece princípios para o trabalho missionário
O livro de Atos é também marcante, pelo fato de que boa parte de seu conteúdo é focado no empenho missionário do Apóstolo Paulo. Assim, podemos retirar, das experiências registradas, princípios que vão nos orientar a respeito da tarefa missionária da Igreja.
Porque nos oferece o pano de fundo histórico para boa parte das epístolas:
Também é obra de grande valia na ajuda que nos presta para melhor entendermos as epístolas paulinas, que constituem um porção avantajada do volume do Novo Testamento, posto que lhes provê valiosas informações de pano de fundo histórico.
[1]BAXTER, J. Sidlow. Examinai as escrituras. Vida Nova:São Paulo. Vol 6, pp.9.
[2]CARSON, D.A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon, Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo. pp.204
[3]GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo. pp.238
[4]Idem, ibid.
[5]WALVOORD, John; ZUCK, Roy, The Bilble Knowledge Commentary. Parsons Tecnology
[6]LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro. pp.295