06.22.09
Uma breve exposição das visões históricas do ensino de Cristo
Recentemente fui perguntado sobre a credibilidade das escrituras. A pessoa que me fez a pergunta gostaria de saber como as palavras de Jesus foram recebidas e apresentadas em diferentes períodos da história.
Como não tenho condições de responder a essa pergunta satisfatoriamente, resolvi fazer uma breve apresentação em diferentes períodos históricos sobre a credibilidade das palavras de Cristo.
Bom, vamos por partes:
1. No período de Jesus, muitos, apesar de ver os milagres que Ele operava, não acreditavam Nele. Até entre os que criam, Jesus não se confiava a eles (Jo.2.23-25)
2. No período apostólico, a credibilidade de Cristo continou a ser atacada pelos que não criam e defendida pelos apóstolos e pelos seus representantes. A carta de 1 João, úma das últimas cartas católicas (gerais, universais) apresenta uma defesa a opiniões sobre Cristo que não estavam em conformidade com o que Ele mesmo havia dito. Vale a pena ler Paulo, João e Hebreus e notar como a pessoa de Cristo foi defendida de opiniões divergentes.
3. No período pós-apostólico (aquele período após a morte dos apóstolos e anterior à instituição da Igreja Romana como o parâmetro para a verdade – 375 d.C.) a credibilidade dos ensinos de Cristo foi bem debatida. Por não haver um cannon definido, as literaturas que falavam sobre Cristo eram diversas e ainda não havia consenso sobre que escritos deveriam ser considerados. Nesse período alguns problemas surgiram:
a. Escritos pseudoepigráficos: Textos atribuídos a autores que não o redigiram. A intenção era buscar credibilidade para suas idéias com o nome de algum apóstolo ou personagem do passado com reconhecimento apostólico. Esse é o caso de livros como: Evangelho de Judas, Evangelho de Pedro, Apocalipse de Pedro, Atos de Tecla (que conta histórias sobre Paulo).
b. Falsos profetas influentes: Esse é o caso de Marcião que tentou liderar de Roma um novo cristianismo desassociado do judaísmo. Sua postura era tão forte que rejeitou o VT e retirou do NT citacões. Sua afeição por Paulo, fez com que ele apenas considerasse alguns textos de Paulo e alguns trechos de Lucas como textos confiáveis para a teologia. Sua iniciativa não teve sucesso nem entre os cristãos que flertavam com essas possibilidades. Marcião é um caso de adulteração textual motivado por teologia e de criação de uma regra (cannon) de livros aceitos.
c. Novas opções religiosas “cristãs”: Esse é o caso do gnosticismo “cristão”. Sob influência de ideologias pagãs (gregas), cultivaram novas visões sobre quem era Jesus e seus ensinamentos foram reconstruídos e adaptados à essas visões.
4. No período católico: Com a ascensão do cristianismo como religião oficial do império romano, a palavra da Igreja tornou-se (aos poucos) regra (cannon) para a compreensão de Cristo. Nesse período aconteceu o que você mencionou: as pessoas criam pois a igreja dizia. Isso não significa (em si mesmo) um erro. O erro nasceu na perversão da palavra de Cristo para fins teológicos e práticos (que ainda acontece nas igrejas pós-reforma e evangélicas).
5. Na reforma: Quinze séculos de domínio da Igreja Católica (como império e régula fides) os reformadores defenderam cinco pontos vitais para a fé cristã: Só a Graça (para salvação), Só pela fé (sem indulgências), Só as Escrituras (como regra de fé), Só Cristo (como salvador) e Glórias somente a Deus (e não a instituição). Aqui, o retorno às palavras de Jesus e dos ensinamentos apostólicos foi o norte, da prática e da fé. Entretanto, ainda aqui, perversões renasceram e se proliferaram. Pelágio havia introduzido no passado a idéia de que o homem nasce neutro e que o pecado passa a influenciá-lo a medida que vive sua vida. Influenciado por esse raciocínio e por rejeitar os ensinamentos dos reformadores Calvino, Zwinglio e Lutero, Jacob Armínio, afirmou uma teologia baseada na completa liberdade do ser humano em relação a salvação. Essa teologia foi rejeitada em três concílios históricos da igreja, chegou a ser banida da Holanda, mas aos poucos voltou e fixou-se em algumas regiões da Europa como a teologia fundamental. Tal teologia ainda é vista no círculo cristão dos nossos dias.
6. No séc. XIX e XX: O desenvolvimento da teologia natural (sem revelação) proporcionou o nascimento do que chamamos teologia liberal, que por essência, estuda a Teologia (conhecimento de Deus) a partir das escrituras, mas não apenas nelas. O conhecimento de Deus também é expresso e estudado do ponto de vista filosófico. A reunião da filosofia e da teologia permitiu o desenvolvimento de diversas áreas do conhecimento teológico. Entretanto, o desapreço pela Revelação de Deus, produziu grandes teólogos que afirmavam a não credibilidade das escrituras como texto da parte de Deus. Associado a isso, o desenvolvimento da alta-crítica textual permitiu a imposição de diversas dúvidas sobre o texto que temos em mãos. Sua confiabilidade e consequentemente sua utilidade foram abaladas.
7. Atualmente: a teologia é dividida em opinião se o que temos em mãos são de fato palavras de Cristo ou a imposição de terceiros para validarem suas próprias opiniões. Uma vez que Cristo não escreveu nada, e não temos nenhum escrito original em mãos para pesquisa (apenas cópias das cópias, das cópias….) a dúvida tem prevalecido em muito meios acadêmicos. Recentemente um ex-cristão, ex-pastor batista, ex-liberal e atualmente agnóstico com tendências a defender o gnosticísmo histórico escreveu diversos livros para por em cheque a credibilidade das palavras de Cristo. Seu esforço tem tido muito sucesso entre os não cristãos que já desprezavam a fé. Entretanto, os cristãos ortodoxos continuam onde sempre estiveram: Com Cristo e em Sua Palavra. Diversos escritores defensores da fé já saíram em defesa da fé, e também tem tido sucesso em suas empreitadas. Darel Bock, Daniel Wallace, Timothy Paul Jones, Craig Evans, Norman Geisler escreveram grandes livros sobre o assunto e merecem ser lidos.
Em resumo, a igreja tem e teve seu papel na referência ao valor da palavra de Cristo, mas a credibilidade vem de Cristo mesmo. Se Ele é quem diz que é, devemos ouví-lo.
Sugiro a leitura do livro: “Fabriating Jesus“, Craig Evans, pois nesse livro ele apresenta uma base sólida para a compreensão da distoção da pessoa de Cristo pelos academicos dos nossos dias e os refuta de modo lógico e louvável. Caso não possa ler em inglês, recomendo o livro “Eu não tenho fé suficiente para ser ateu” Normam Geisler. Do ponto de vista filosófico, Geisler defende a pessoa de Cristo e sua credibilidade.
Espero ter ajudado.
03.30.09
Lista dos Milagres de Cristo nos Evangelhos
Lista de Milagres no Evangelho de Mateus
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Milagres em Mateus |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura de um Leproso (Mt.8.1-4) Cura do Criado de um Centurião (Mt.8.5-13) Cura da Sogra de Pedro (Mt.8.14-17) Curou um paralítico (Mt.9.1-8) Cura de uma mulher com hemorragia (Mt.9.20-22) Cura da filha do Chefe (Jairo) (Mt.9.23-26) Cura dos Cegos (Mt.9.27-31) Cura do homem de mão ressequida (Mt.12.10-13) Cura do filho lunático (Mt.17.14-18) Cura de dois cegos (Mt.20.29-34)
Natureza Acalmou a Tempestade (Mt.8.23-27) Multiplicação dos pães (Mt.14.14-21) Andou sobre o mar (Mt.14.22-32) Multiplicação dos Pães (Mt.15.32-39) Dinheiro do Imposto (Mt.17.24-27) Maldição da Figueira (Mt.21.18-22)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Expulsou demônios (Mt.8.28-34) Libertação de um Endemoninhado (Mt.9.32-33) Libertação da Filha da Cananéia (Mt.15.21-28)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Thaumázo/ Exístemi – Admiração; Maravilhamento.
REAÇÕES ANTERIORES Adoração (Mt.8.1; 9.18) Implorar (Mt.8.5; 9.27; 15.22-27) Medo (Mt.8.24) Riam-se dele (Mt.9.24) Reconhecimento da Messianidade (Mt.9.27; 15.22; 20.30) Reconhecimento da Divindade (Mt.8.1; 9.18; 15.22, 25; 20.30)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Maravilharam-se (Mt.8.27; 15.31; 21.15) Temor (Mt.9.8) Glorificaram a Deus (Mt.9.8; 15.31) Fama espalhada (Mt.9.26; 31) Admiração (Mt.9.33, 12.23; 21.20) Adoração (Mt.14.22) Reconhecimento da Divindade (Mt.14.22)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Expulsão da Cidade (Mt.8.34) Acusado de Blasfêmia (Mt.9.3) Murmuração (Mt.9.34; 12.24) Conspiraram contra ele (Mt.12.14) Indignação (Mt.21.16) |
Lista de Milagres no Evangelho de Marcos
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Milagres em Marcos |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (1.29-31) Cura de um Leproso (1.40-45) Cura de um paralítico (2.3-12) Cura de um homem de mão ressequida (3.1-5) Cura da mulher com hemorragia (5.25-34) Ressurreição da Filha de Jairo (5.22-24; 35-43) Cura da mulher siro-fenícia (7.24.30) Cura do surdo-gago (7.31-37) Cura de um cego (8.22-26) Cura do cego Bartimeu (Mc.10.46-52)
Natureza Acalmou a tempestade (Mc.4.35-41) Multiplicação dos Pães (6.34-44) Caminhou sobre as Águas (6.45-52) Multiplicação dos Pães (8.1-9) Figueira Amaldiçoada (11.12-14)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na Sinagoga (1.23-28) Libertação dos demônios gadarenos (5.1-20) Libertação de um endemoninhado (9.14-29)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Exístemi/ Thaubémai/ Thaumázo/Ekpléssomai – Admiração Maravilhamento
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento da Divindade (1.24; 5.7) Reconhecimento da Messianidade (10.47, 48) Rogar/Suplicar (1.40; 5.23; 7.26; 8.22) Adoração (1.40; 5.6, 22; 7.25) Fé (2.5; 5.23, 28, 36; 9.24) Emboscada (3.2) Medo (4.38; 6.49, 50) Riam-se (5.40) Incredulidade (6.37; 8.4; 9.22)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (1.27; 2.12; 5.20; 5.42; 6.51; 7.37) Reconhecimento da Autoridade (1.27) Fama espalhada (1.28; 1.45; 5.20; 7.36) Passou a servi-los (1.31) Glória a Deus (2.12) Temor (4.41; 5.15, 33) Adoração (5.33)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (2.6-7) Conspiração de Assassinato (3.5) Expulso de Cafarnaum (5.17) |
Lista de Milagres no Evangelho de Lucas
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Milagres em Lucas |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (4.38-39) Cura de um leproso (5.12-16) Cura de um paralítico (5.18-26) Cura do homem de mão ressequida (6.6-10) Cura do servo do Centurião (7.1-10) Ressurreição do filho da viúva (7.11-15) Cura da mulher com fluxo de Sangue (8.43-48) Ressurreição da filha de Lázaro (8.41-42; 49-56) Cura de uma paralítica (13.10-17) Cura de homem hidrópico (14.1-6) Cura de 10 leprosos (17.11-19) Cura de um cego (18.35-43) Restauração da Orelha de Malco (22.49-51)
Natureza Primeira pesca maravilhosa (5.1-11) Acalmou a Tempestade (8.22-25) Multiplicação dos Pães (9.12-17)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na sinagoga (4.31-36) Libertação dos demônios gadarenos (8.26-27) Libertação de um endemoninhado (9.38-42) Cura de um endemoninhado cego e mudo (11.14)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento de Divindade (4.34; 7.6-7; 8.28) Reconhecimento de Messianidade (18.38-39) Adoração (5.12) Certeza (5.12) Fé (5.20; 8.48; 8.50; 17.19; 18.42) Emboscada (6.7) Medo (8.24) Súplica (8.41; 9.38) Risos (8.53)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (4.36; 5.9; 8.25; 9.43; 11.14) Alegria (13.17) Fama espalhada (4.37; 5.15; 7.17; 8.39) Servir (4.39; 5.11) Reconhecimento de Divindade (5.8) Glória a Deus (5.25-26; 7.16; 13.13; 17.15; 18.43) Temor (5.26; 7.16; 8.25; 8.35, 37; 8.47)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (5.21) Raiva (6.11; 13.14) Expulsão da Cidade (8.37) Incomodo (11.15; 13.14)
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Lista de Milagres no Evangelho de João
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Milagres em João |
Aspectos Envolvidos |
| Água em Vinho (2.1-11)
Cura do filho de um Oficial (4.46-54) Cura do Paralítico no Tanque de Betesda (5.1-9) Multiplicação dos Pães (6.5-13) Caminhar sobre as águas (6.16-21) Cura de um cego de nascença (9.1-7) Ressurreição de Lázaro (11.17-44) Restauração da orelha de Malco (18.10) Segunda pesca maravilhosa (21.1-11) |
PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Semeion – Sinais, sinais miraculosos; Faneróö – Manifestar; Pisteö – Ter fé; crer; acreditar;
REAÇÕES ANTERIORES Rogar (4.49) Dúvida (5.7; 9.2) Temor (6.19) Fé (11.22; 27) Desconfiança (11.37)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Crer Nele (2.11; 4.50; 9.38; 11.45) Reconhecimento da Messianidade (6.14-15; 9.38) Reconhecimento de Divindade (9.38)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATIVAS Perseguição (5.16) Procuravam matá-lo (5.18; 11.53) Dúvida (9.8-9) Inquisição (9.13-34) Incredulidade (9.18) Rejeição (9.24) Fofoca (11.46) Medo (11.48) |
Milagre de Cristo nos Evangélhos Sinóticos
Nos sinóticos, ainda que ênfases parecidas com a do quarto evangelho possam ser levantadas, é bem possível que o foco recaia sobre outros aspectos. O modo como são narrados os milagres nos sinóticos também apontam para um foco distinto em cada ocasião: ora os milagres são apenas mencionados genericamente sem descrição de detalhes (Mt.4.24; 8.16; 12.15; 14.14; 15.30; 21.14; Mc.1.34; 6.5; Lc.7.21; 9.42; 14.4; 22.51) , ora são completos e cheios de informação (Mt.9.32-39; Mc.2.3-12; 5.18-26). O que se pode concluir disto é que os autores arranjam os milagres para apresentação de propósitos específicos sem fazer demérito de uma ação em relação a outras, mas para fortalecer o que se pretende enfatizar.
Diante da grande diversidade de milagres operados por Cristo e narrados nos evangelhos sinóticos, faço aqui uma observação da linguagem de como se apresentam (de modo geral) os milagres de Cristo. O primeiro termo que destaco é dunamis[6], que eventualmente é traduzido como poder miraculoso (Mt.13.54; cf. 14.2). A idéia do termo é de algo que tem poder ou que o apresenta poderosamente, e comumente é relacionada com as atividades de Cristo. Essa demonstração de poder causa nas pessoas (não em todos os casos nem em todas as pessoas) um maravilhamento, admiração (gr. Exístemi/Thaubémai/Thaumázo/Ekpléssomai) pelo que tinham visto (Mt.8.27; 9.33; Mc.1.27; 5.42; Lc.4.36; 5.9). O termo mais usado para demonstrar essa admiração é thaumázo, que pode ser entendido como ser extraordinariamente impressionado ou perturbado por algo. Em alguns casos esse maravilhamento é seguido por um ato de glorificar a Deus (Mt.9.8; 15.31; Mc.2.12; Lc.5.25-26; 7.16). O ato de glorificar a Deus podia ser feito pela multidão que assistia o milagre ou pelo que recebera o milagre, mas de qualquer forma, era um modo de reconhecer a origem do ato milagroso que acontecera.
Entretanto, outro elemento decorrente do maravilhamento das multidões, e fundamental para a compreensão de Cristo nos sinóticos, é o Poder-Autoridade que é confirmado por meio de atos milagrosos. O termo grego que traduz essa idéia é exousia. Esse termo pode ser usado para descrever cargos de autoridade, o poder da pessoa que exerce tal cargo e a autoridade decorrida desse poder. Essa é uma marca muito interessante nos evangelhos sinóticos, pois não é incomum encontrarmos esse conceito. Quando os evangelistas registram o apreço das multidões pelo ensino de Cristo esse reconhecimento está invariavelmente presente (Mt.7.29; Mc.1.22; Lc.4.32). O mesmo reconhecimento é visto em relação aos atos milagrosos de Cristo.
Mateus quando narra a história da cura de um paralítico (Mt.9.1-8) afirma que Jesus o tendo visto teria dito: “Tende bom ânimo filho; estão perdoados os seus pecados” (v.2). Mas isso teria incitado nos fariseus um sentimento de rejeição sobre o que Cristo teria dito; na mentalidade deles isso era apenas possível de ser realizado por Deus, por isso o acusavam de blasfêmia. Sabendo disso, Jesus resolve evidenciar seu Poder-Autoridade (gr. exousia) ao curá-lo: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (v.6). O resultado obtido nessa ocasião foi: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens” (v.8).
Nessa caso[7] vemos quase todos os elementos encontrados nas narrativas dos sinóticos: O evento milagroso, o maravilhamento, a Glória dada a Deus e o reconhecimento do Poder-Autoridade que Cristo tinha. É bem verdade que alguns dos aspectos desse quadro eventualmente é faltoso em outros registros, muito embora, o reconhecimento ou a pergunta pelo reconhecimento do Poder-Autoridade de Cristo estivessem aparentes em quase todo ministério de Cristo: Os fariseus demonstram sua preocupação com a fonte do Poder-Autoridade de Cristo (Mt.21.23; Mc.11.28; Lc.20.2); as multidões ficavam, ora maravilhadas (Mt.9.8) ora temerosos ou com dúvidas (Mc.1.27; Lc.4.36). Mas, Cristo, sempre estava consciente de Sua Missão, Identidade e Seu Poder-Autoridade (Mt.28.19), e essa mesma missão delega a Seus discípulos, enquanto estava com eles (Mt.10.1; Mc.6.7; Lc.9.1). Após sua ressurreição além de delegar a Seus representantes que fizessem o mesmo Ele assegura que estará com Eles até o fim dos tempos (Mt.28.20).
Após essa breve introdução ao estudo dos milagres de Cristo nos sinóticos, passo abaixo a destacar duas categorias e duas características dos milagres narrados nos evangelhos sinóticos.
Poder-Autoridade sobre o Natural
Quando falo sobre o poder que Cristo tem sobre o que é natural tenho duas perspectivas distintas em mente: o poder que Ele tem sobre o homem (saúde, vida) e sobre a natureza (funcionamento).
- § Sobre o Homem[8]: Uma das grandes marcas do ministério milagroso de Cristo está focado nos sinóticos em sua capacidade de ter domínio, controle, autoridade, poder sobre a saúde do homem. A grande maioria dos milagres nos sinóticos refere-se a esse tema. No caso da cura de um leproso (Mt.8.1-4; Mc.1.40-45; Lc. 5.12-16) podemos notar na narração dos três evangelistas que mesmo o leproso tinha convicção do Poder-Autoridade que Cristo tem sobre a doença, pois na aproximação que faz Cristo ele transparece confiança no poder, mas sua questão põe-se sobre a vontade do Senhor, ante quem está prostrado. Sobre esse tema é interessante notar que Cristo também é apresentado como Aquele que pode tornar à vida aquele que já estava morto. Dois casos são registrados nos sinóticos: A ressurreição da filha de Jairo (Mc.5.22-24; 35-43; Lc.8.41-42; 49-56) e a ressurreição do filho de uma viúva (Lc.7.11-15). No caso da filha de Jairo, é bem interessante que Jairo aproxima-se de Cristo como se aproximaria de alguém que tem autoridade: “vendo-o, prostrou-se a seus pés” (Mc.5.22; Lc.8.41). No ato de prostrar-se perante alguém é um modo de reconhecimento de Autoridade ou Divindade. Seria um pouco precipitado dizer que Jairo tinha a perspectiva da divindade de Cristo, mas sua ação nos deixa pensar nessa possibilidade. Seja como for, o desenrolar da história é bem provável que a fé de Jairo estivesse abalada, pois Jesus mesmo sugere: “Não temas, crê somente” (Mc.5.36; Lc.8.50). Não é muito claro que tipo de fé Jesus exige de Jairo nessa ocasião, mas é certo que toda a confiança dele repousava sobre o Poder-Autoridade que Cristo tinha para realizar algo que está contrário ao curso da natureza: dar vida ao morto. Tal pedido parece uma antítese para as pessoas que estavam na casa de Jairo, pois já não podiam acreditar no que Cristo dizia (Mc.5.40; Lc.8.53), quanto mais no que poderia fazer. Com a cura da menina, o maravilhamento toma conta dos pais que são convidados por Cristo para manter o relato entre eles. Se tomarmos a história como um todo, podemos dizer que a fé de Jairo repousou em Cristo e com a confirmação do milagre tal fé fora confirmada. Considerados esses pontos, podemos dizer com certeza que a relação de Cristo com a operação de milagres sobre as doenças tem por propósito evidenciar Seu Poder-Autoridade da parte de Deus como ratificação de Sua pessoa (Messias, Deus).
- § Sobre a Natureza: Nos casos em que Cristo manifesta Seu Poder-Autoridade sobre a natureza certamente nos falam sobre Sua Pessoa. No caso da tempestade acalmada (Mt.8.23-27; Mc.4.35-41; Lc.8.22-25) vemos que a pergunta dos discípulos era exatamente sobre Sua Pessoa: “Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt.8.27; Mc.4.41; Lc.8.25). Embora nenhuma conclusão dos seus discípulos seja dada, a pergunta pode ser entendida como retórica, pois ficou evidente que entre os homens, ninguém teria tal poder. Entretanto, quando Cristo anda sobre as águas, segundo o relato de Mateus, fica evidente que os Seus discípulos o reconheceram como Deus: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt.14.33).
Poder-Autoridade sobre Sobrenatural
A relação de Cristo com o sobrenatural tem algumas características interessantes, especialmente no evangelho de Marcos. Segundo a narrativa das memórias petrinas, vemos que os reconhecimentos mais claros sobre a Pessoa de Cristo são oferecidos por demônios. No primeiro caso registrado no evangelho, lemos: “Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc.1.23-24). Situação similar é encontrada no caso dos demônios gadarenos: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc.5.7). É bem interessante que esse reconhecimento demorou a acontecer com os discípulos, a despeito de tudo o que testemunhavam.
É bem verdade que o Poder-Autoridade de Cristo não pode necessariamente apontar para sua Divindade, muito embora os demônios em Marcos assim o tenham feito, por que tal Poder-Autoridade da parte Cristo cedido aos discípulos resultou no mesmo efeito, exceto por uma vez (Mt.17.21; Mc.9.29). Entretanto, não podemos deixar de perguntar por essa possibilidade reconhecida pelos demônios. É bem verdade que a característica fundamental do Diabo e seus seguidores é a mentira e que no caso, nortear uma convicção sobre uma mensagem demoníaca seria um pouco frágil. Contudo, o contexto onde estão inseridas essas passagens demonstram um terrível pavor dos demônios na presença de Jesus e sua súplica para não serem atormentados por Sua Pessoa, nos leva a considerar que o Poder-Autoridade de Cristo no mundo sobrenatural é tão grande que nem mesmo as legiões podem com Ele. A própria submissão dos demônios à ordem de Cristo testificam Seu Poder-Autoridade.
Um dos aspectos que também é interessante é o tempo que Cristo investe nesses encontros. Salvo o caso dos demônios gadarenos, Cristo com apenas uma ordem simples resolve problemas que os tele-evangelistas gastariam dias: “Cala-te e sai desse homem” (Mc.1.25; Lc.4.35). E o resultado na vida do endemoninhado é impressionante: “O demônio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer mal” (Lc.4.35). Contudo, o foco parece ser centrado na mensagem que isso transmite às pessoas que o assistem. Ao testemunharem a ação de Cristo, eles ficam grandemente admirados, e se pergunta,: “Que palavra é esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc.4.36). Assim, o que se pode dizer é que, quando Cristo manifesta seu Poder-Autoridade sobre o sobrenatural Ele testifica sua pessoa como Deus e Senhor sobre tudo.
Milagres e Incredulidade
Outro aspecto que é digno de rápida apresentação é que à semelhança do quarto evangelho, os milagres também exerceram grande papel na rejeição da Pessoa de Cristo. Muito embora existia o forte elemento evangelístico nos atos milagrosos operados por Cristo, nos sinóticos eles também foram mal interpretados: “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt.11.20-24; cf. Lc.10.13-16).
Milagres e confirmação Messiânica
É ainda válido demonstrar que os milagres de Cristo tem grande valor apologético, pois quando perguntado sobre quem Ele era, pelos discípulos de João, Jesus aludiu à profecias messiânicas: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt.11.4-5; cf. Is.35.5; 61.1-2).
Milagres de Cristo no Evangelho de João
O uso quase exclusivo de “semeion” por João ao apresentar os milagres de Cristo evidencia que seu propósito está além do que relatar um caso miraculoso. Ele certamente o faz em caráter teológico, apologético e evangelístico: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Valor Teológico dos Milagres
No que se refere a teologia, João assegura que os milagres registrados atestam que Jesus é o Filho de Deus: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
A designação Filho de Deus, ao contrário do que os arianos modernos (TJ) afirmam atestam a divindade de Cristo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). O uso da expressão unigênito Filho de Deus (gr. tou monogenous uiou tou theou) é uma das formas pelas quais João apresenta Cristo como divino[5], e essa definição é uma exigência para salvação. Ou seja, ainda que as opiniões sobre Cristo fossem divergentes já nessa ocasião, é certo para João que Jesus é Deus. Aliás, a linguagem de João aqui parece trazer a tona uma referência ao gnosticismo incipiente e sua desconexão da pessoa de Cristo Deus Pai (1Tm.1.4).
A designação de Filho assumida por Cristo expressa uma relação familiar com o Deus Pai. Tal ênfase é explicitamente majoritária em João, pois enquanto os sinóticos atestam esse fato em aproximadamente 24 ocasiões, em João encontramos cento e seis vezes. Esse fato é visto desde o prólogo do evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14). João Batista também atesta o mesmo fato: “Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (Jo.1.34).
Uma situação que pode testificar a Pessoa de Cristo como Filho de Deus é encontrada no encontro de Natanael com Cristo (Jo.1.44-51). No exercício de sua onisciência, Jesus demonstra que o que Felipe disse a Seu respeito é verdadeiro, e Natanael afirma: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Ao ouvir isso, Jesus garante que Natanael veria sinais mais evidentes de que Ele o é (Jo.1.50). A cena que segue a esse diálogo nos conta seu primeiro milagre (sinal; gr. semeion), com o qual Ele manifestou sua Glória (Jo.2.11).
Ao ter conhecimento dos atos de Cristo, o próprio Nicodemos atesta: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo.3.2). Esse reconhecimento é fundamental para compreender alguns dos milagres de Cristo narrados em João, como por exemplo a cura do filho do oficial do Rei (Jo.4.46-54). Nessa ocasião, apenas o declara a cura do filho do oficial à distância foi suficiente para que ele fosse curado. O fato de que o texto narra a expressão de pontualidade da cura (v.53) demonstra que Aquele que realizara o Milagre é Filho de Deus. E esse teria sido apenas o seu segundo milagre (sinal; gr. semeion) narrado no evangelho.
Valor Apologético dos Milagres
No que se refere a apologética, João também atesta a Messianidade de Jesus quando o chama de Cristo (ungido, messias): “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Alias, essa ênfase é muito forte na literatura joanina: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo.2.22). A preocupação com a apresentação da Messianidade de Cristo também é vista na reação das pessoas que estavam próximas a Ele. O convite de Felipe a Natanael deixa isso transparecer, quando diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo.1.45). A resposta de Natanael também testifica isso: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (v.49).
Um ato milagroso de Jesus que testifica sua Messianidade é a ressurreição de Lázaro, narrado no capítulo onze do Evangelho de João. Após anunciar a morte de Lázaro (v.11-14), Jesus diz-se alegre de não estar lá na ocasião, pois assim seus discípulos poderiam crer, pois com Lázaro eles se encontrariam (v.15). Ao chegar na casa de Marta e Maria, uma multidão já havia chegado para consolar a família de Lázaro, pois ele já estava morto a quatro dias. Marta, chega a expressar seu lamento pela ausência de Jesus na ocasião, mas reconhece que se Ele pedir ao Pai, seu pedido seria atendido (v.21, 22). Ao ouvir isso, Jesus garante: “Teu irmão há de ressurgir” (v.23). Ainda que Marta não tenha entendido exatamente quando isso aconteceria (v.24), Jesus garante que Ele é a ressurreição e a vida, e que aquele que Nele deposita sua fé, ainda que morra viverá (v.25) e que se estiver vivo não morrerá (v.26). Ao ouvir isso, Marta afirma: “Sim, Senhor, respondeu ela, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (v.27). Quando o milagre ia ser realizado Jesus pronuncia-se ao Pai para que aqueles que o ouvem pudessem crer que Ele é o envidado da parte de Deus (v.42) e isso mesmo acontece com muitos deles (v.45) depois que testemunham o milagre.
Valor Evangelístico dos Milagres
A relação entre a fé e vida eterna é claramente exposta na teologia Joanina. No terceiro capítulo encontramos: “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (v.15); “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v.16); “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (v.36; cf. Jo.5.24; 6.35, 40, 47; 11.25). Essa característica também é bem encontrada na literatura joanina: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo.5.13).
É fundamental ressaltar que tal conceito também é testemunhado pelos milagres (sinais; gr. semeion) realizados por Cristo e registrados por João: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
As ações milagrosas de Cristo têm por motivo apresentar sua Real Pessoa para Seus expectadores; para que compreendam sua Divindade e Messianidade e para que possam depositar sua fé Nele. E isso é visto em vários dos seus milagres: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo.2.11); “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome” (Jo.2.23) “Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa” (4.53); “Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou” (9.38). “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele” (11.45)
Entretanto, assim como seus ensinos seus atos milagrosos estavam sujeitos a avaliação e rejeição. Já no início do seu ministério a incredulidade já estava anunciada: “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome, mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos” (Jo.2.23-24). Em outras ocasiões, o milagre promoveu completa rejeição. No caso da cura da aleijado do tanque de Betesda, por realizar no sábado o milagre, os fariseus passaram a perseguí-lo (Jo.5.16). Tal rejeição torna-se discussão e Jesus deixa clara a opinião dos fariseus a Seu respeito: “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo.5.46-47). No caso da cura do cego de nascença a incredulidade é clarividente, pois pesquisam para saber se aquele que se dizia cego o era de fato: “Não acreditaram [criam] os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais” (Jo.9.18). Outro exemplo interessante desse fato é visto entre os judeus descrentes: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo.12.37). A interpretação que João tem desses fatos é que eles são cumprimento profético: “para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados” (Jo.12.38-40).
Assim, ainda que os milagres tivessem claro papel evangelístico, também funcionaram como problema para a compreensão sobre a verdadeira pessoa de Cristo. Aliás, esse é um dos muito motivos pelos quais a pessoa de Cristo continua sob suspeita.
A Relevância dos Milagres de Cristo para Cristologia do NT
”Milagre é o ato especial de Deus que interrompe o curso natural dos eventos”
Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética. Pp.555
“O termo milagre, segundo ordinária definição, designa um acontecimento que contradiz as leis da natureza. Esta definição e as inúmeras histórias de milagre não verificadas em todas as religiões tornaram o termo enganador e perigoso para o uso teológico”
Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.102
“Faço uso da palavra milagre para indicar uma intervenção na natureza mediante poder sobrenatural. A não ser que exista, em adição à natureza, algo mais que possamos chamar de sobrenatural, não pode haver milagres”
C.S. Lewis, Milagres. Pp.6
“Milagre é um gênero menos comum da atividade divina, pela qual Deus desperta a admiração e o espanto das pessoas, dando testemunho de si mesmo”
Wayne Gruden, Teologia Sistemática. Pp.286
No que se referem ao cristianismo histórico, os milagres operados por Cristo são componentes importantes de sua crença, ainda que nos ambientes mais acadêmicos essa crença tenha sido rejeitada. Há, entre os acadêmicos quem creia que os milagres operados por Cristo nada testemunhem a seu respeito. Por exemplo, Kümmel, quando fala em ações sobrenaturais de Cristo nos evangelhos observa que, ora os relatos miraculosos nada falam sobre Cristo ou seu ensino, ora deixam evidências de sua pessoa e doutrina[1]. Isso o leva a concluir que os relatos narrados sobre Cristo são divergentes em caráter.
Entretanto, esse não é o parecer mais comum sobre eles. Até mesmo Bultmann, aquele que rejeita ‘mitologia‘ do Novo Testamento, confere significado aos atos miraculosos de Jesus quando estuda o quarto evangelho. Para ele os milagres de Cristo revelam sua glória (Jo.2.11), as obras de Deus (Jo.9.3) e sua autenticação como Filho de Deus (11.4). Muito embora ele os considere como figura ou símbolo, Bultmann diz que os milagres “revelam a glória de Jesus, não como a do milagreiro, e sim a daquele através do qual são concedidas a graça e a verdade[2]“.
Mas, o que podemos dizer sobre papel dos milagres de Cristo no entendimento da Cristologia do Novo Testamento? Se tomarmos por base que os milagres atestam Sua divindade, temos que elevar ao mesmo patamar os apóstolos após ele, por que também são registrados milagres operados por Deus mediados por eles. Por outro lado, não podemos descartar essa possibilidade, visto que em alguns dos registros que temos testemunha exatamente esse fato. Por isso, vamos observar as palavras que descrevem os atos milagrosos de Cristo, qualificá-los e então apontarmos sua contribuição.
A. Termos Neo-Testamentários para “Milagre”
São basicamente três os termos usados para descrever ações sobrenaturais no Novo Testamento:
- 1. Téras: O uso neo-testamentário segue a LXX, onde é usado como um sinal divino que admoesta ou encoraja (Ex.7.3; Dt.4.34). Poderia ser traduzido como milagre. No NT o termo é normalmente traduzido como “prodígio” e não é exclusivo à uma ação sobrenatural operada pelo próprio Deus. Esse termo também descreve a ação de falsos profetas que também realizariam obras miraculosas (Mt.24.24; Mc.13.22) e á própria obra de Satanás (2Ts.2.9). Entretanto, o uso mais normal do termo descreve uma ação realizada por Deus por meio de alguém (At.2.22; 4.30 – Cristo; 5.12; 6.8 – Apóstolos) que causa o maravilhamento dos expectadores. Eventualmente expressa uma confirmação da pessoa por meio de quem o milagre é realizado (At.14.3; 15.12; 2Co.12.12). É somente usada no plural no NT e normalmente acompanhada da palavra grega para sinais (gr. semeion).
- 2. Semeion: Na LXX o termo semeion é usado para descrever todo acontecimento que aponta para Deus e sua disposição de auxiliar (Ex.7.3; 10.2; Nm.14.11; Dt.6.22; Sl.86.17). Eventualmente descrevem uma ação de autenticação profética da parte do Deus Todo-Poderoso (Ex.4.8-9; Sl.74.9; Is.8.18). No NT o termo descreve um milagre de origem divina, executado por Deus mesmo (At.2.19), por Cristo (Jo.2.11) ou por um homem de Deus (At.2.43). É um sinal que normalmente aponta para Deus ou ao Seu Filho. É o termos empregado por João para descrever as ações sobrenaturais do Filho de Deus como comprovação de sua Divindade.
- 3. Dunamis: Esse termo é de uso bem variado. Na LXX encontramos o termo com os seguintes significados: habilidade, capacidade (Dt.8.17), força (Dt.6.5), realização (Gn.21.22), ato poderoso (Dt.3.24). De outro modo, também pode significar uma hoste, grupo de pessoas, exército (Ex.7.4; Nm1.3, 24). Esse mesmo termo é usado para descrever os milagres operados por Cristo nos sinóticos. É bem provável que o sentido esteja associado ao poder derivado do termo (Mt.24.30; 5.30; Mc.12.24) e autoridade dele decorrente (Lc.4.36). O exercício de poder de Cristo maravilhava as pessoas (Mt.13.54; Mc.6.2, 14; Lc.6.16) mas não era um modo de convencer as pessoas (Mt.13.58), pois, assim como seu ensino, suas ações estavam sujeitas ao entendimento das pessoas que, mesmo que testemunhassem o poder de Deus, não o entendiam como da parte de Deus (Mt.11.20-24).
Ao observarmos essas colocações podemos concordar com Goppelt quando diz: “Assim, os milagres são compreendidos como exteriorizações do poder de Deus, que provoca salvação na história e que conduz a salvação[3]“. Considerada a questão etimológica, passo a classificar os Milagres de Cristo.
B. Como podem ser Classificados os Milagres de Cristo?
“Os evangelhos registram 35 milagres feitos por Jesus. Mateus menciona 20 deles; Marcos 18; Lucas 20; e João 7. Estes não são, todavia, todos os milagres do Senhor”
Charles Ryrie, Bíblia Anotada. Pp.1663
São muitos os milagres de Jesus registrados nos evangelhos, eles podem ser observados sob focos distintos quando apresentados por autores distintos. Ao que parece, os milagres relatados no quarto evangelho, até pela terminologia que são apresentados, sugerem que os milagres são “sinais” que apontam para a Pessoa de Cristo e sua Relação com Deus. Por outro lado, nos sinóticos parece que os milagres são narrados em conformidade com um propósito particular em cada ocasião. Por isso, de modo sucinto, classifico aqui os milagres de Cristo entre os que são apresentados por João e aqueles que são apresentados nos evangelhos sinóticos[4].
1. Milagres no Quarto Evangelho
O uso quase exclusivo de “semeion” por João ao apresentar os milagres de Cristo evidencia que seu propósito está além do que relatar um caso miraculoso. Ele certamente o faz em caráter teológico, apologético e evangelístico: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Valor Teológico dos Milagres
No que se refere a teologia, João assegura que os milagres registrados atestam que Jesus é o Filho de Deus: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
A designação Filho de Deus, ao contrário do que os arianos modernos (TJ) afirmam atestam a divindade de Cristo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). O uso da expressão unigênito Filho de Deus (gr. tou monogenous uiou tou theou) é uma das formas pelas quais João apresenta Cristo como divino[5], e essa definição é uma exigência para salvação. Ou seja, ainda que as opiniões sobre Cristo fossem divergentes já nessa ocasião, é certo para João que Jesus é Deus. Aliás, a linguagem de João aqui parece trazer a tona uma referência ao gnosticismo incipiente e sua desconexão da pessoa de Cristo Deus Pai (1Tm.1.4).
A designação de Filho assumida por Cristo expressa uma relação familiar com o Deus Pai. Tal ênfase é explicitamente majoritária em João, pois enquanto os sinóticos atestam esse fato em aproximadamente 24 ocasiões, em João encontramos cento e seis vezes. Esse fato é visto desde o prólogo do evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14). João Batista também atesta o mesmo fato: “Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (Jo.1.34).
Uma situação que pode testificar a Pessoa de Cristo como Filho de Deus é encontrada no encontro de Natanael com Cristo (Jo.1.44-51). No exercício de sua onisciência, Jesus demonstra que o que Felipe disse a Seu respeito é verdadeiro, e Natanael afirma: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Ao ouvir isso, Jesus garante que Natanael veria sinais mais evidentes de que Ele o é (Jo.1.50). A cena que segue a esse diálogo nos conta seu primeiro milagre (sinal; gr. semeion), com o qual Ele manifestou sua Glória (Jo.2.11).
Ao ter conhecimento dos atos de Cristo, o próprio Nicodemos atesta: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo.3.2). Esse reconhecimento é fundamental para compreender alguns dos milagres de Cristo narrados em João, como por exemplo a cura do filho do oficial do Rei (Jo.4.46-54). Nessa ocasião, apenas o declara a cura do filho do oficial à distância foi suficiente para que ele fosse curado. O fato de que o texto narra a expressão de pontualidade da cura (v.53) demonstra que Aquele que realizara o Milagre é Filho de Deus. E esse teria sido apenas o seu segundo milagre (sinal; gr. semeion) narrado no evangelho.
Valor Apologético dos Milagres
No que se refere a apologética, João também atesta a Messianidade de Jesus quando o chama de Cristo (ungido, messias): “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Alias, essa ênfase é muito forte na literatura joanina: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo.2.22). A preocupação com a apresentação da Messianidade de Cristo também é vista na reação das pessoas que estavam próximas a Ele. O convite de Felipe a Natanael deixa isso transparecer, quando diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo.1.45). A resposta de Natanael também testifica isso: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (v.49).
Um ato milagroso de Jesus que testifica sua Messianidade é a ressurreição de Lázaro, narrado no capítulo onze do Evangelho de João. Após anunciar a morte de Lázaro (v.11-14), Jesus diz-se alegre de não estar lá na ocasião, pois assim seus discípulos poderiam crer, pois com Lázaro eles se encontrariam (v.15). Ao chegar na casa de Marta e Maria, uma multidão já havia chegado para consolar a família de Lázaro, pois ele já estava morto a quatro dias. Marta, chega a expressar seu lamento pela ausência de Jesus na ocasião, mas reconhece que se Ele pedir ao Pai, seu pedido seria atendido (v.21, 22). Ao ouvir isso, Jesus garante: “Teu irmão há de ressurgir” (v.23). Ainda que Marta não tenha entendido exatamente quando isso aconteceria (v.24), Jesus garante que Ele é a ressurreição e a vida, e que aquele que Nele deposita sua fé, ainda que morra viverá (v.25) e que se estiver vivo não morrerá (v.26). Ao ouvir isso, Marta afirma: “Sim, Senhor, respondeu ela, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (v.27). Quando o milagre ia ser realizado Jesus pronuncia-se ao Pai para que aqueles que o ouvem pudessem crer que Ele é o envidado da parte de Deus (v.42) e isso mesmo acontece com muitos deles (v.45) depois que testemunham o milagre.
Valor Evangelístico dos Milagres
A relação entre a fé e vida eterna é claramente exposta na teologia Joanina. No terceiro capítulo encontramos: “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (v.15); “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v.16); “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (v.36; cf. Jo.5.24; 6.35, 40, 47; 11.25). Essa característica também é bem encontrada na literatura joanina: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo.5.13).
É fundamental ressaltar que tal conceito também é testemunhado pelos milagres (sinais; gr. semeion) realizados por Cristo e registrados por João: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
As ações milagrosas de Cristo têm por motivo apresentar sua Real Pessoa para Seus expectadores; para que compreendam sua Divindade e Messianidade e para que possam depositar sua fé Nele. E isso é visto em vários dos seus milagres: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo.2.11); “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome” (Jo.2.23) “Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa” (4.53); “Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou” (9.38). “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele” (11.45)
Entretanto, assim como seus ensinos seus atos milagrosos estavam sujeitos a avaliação e rejeição. Já no início do seu ministério a incredulidade já estava anunciada: “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome, mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos” (Jo.2.23-24). Em outras ocasiões, o milagre promoveu completa rejeição. No caso da cura da aleijado do tanque de Betesda, por realizar no sábado o milagre, os fariseus passaram a perseguí-lo (Jo.5.16). Tal rejeição torna-se discussão e Jesus deixa clara a opinião dos fariseus a Seu respeito: “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo.5.46-47). No caso da cura do cego de nascença a incredulidade é clarividente, pois pesquisam para saber se aquele que se dizia cego o era de fato: “Não acreditaram [criam] os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais” (Jo.9.18). Outro exemplo interessante desse fato é visto entre os judeus descrentes: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo.12.37). A interpretação que João tem desses fatos é que eles são cumprimento profético: “para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados” (Jo.12.38-40).
Assim, ainda que os milagres tivessem claro papel evangelístico, também funcionaram como problema para a compreensão sobre a verdadeira pessoa de Cristo. Aliás, esse é um dos muito motivos pelos quais a pessoa de Cristo continua sob suspeita.
Lista de Milagres no Evangelho de João
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Milagres em João |
Aspectos Envolvidos |
| Água em Vinho (2.1-11)
Cura do filho de um Oficial (4.46-54) Cura do Paralítico no Tanque de Betesda (5.1-9) Multiplicação dos Pães (6.5-13) Caminhar sobre as águas (6.16-21) Cura de um cego de nascença (9.1-7) Ressurreição de Lázaro (11.17-44) Restauração da orelha de Malco (18.10) Segunda pesca maravilhosa (21.1-11) |
PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Semeion – Sinais, sinais miraculosos; Faneróö – Manifestar; Pisteö – Ter fé; crer; acreditar;
REAÇÕES ANTERIORES Rogar (4.49) Dúvida (5.7; 9.2) Temor (6.19) Fé (11.22; 27) Desconfiança (11.37)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Crer Nele (2.11; 4.50; 9.38; 11.45) Reconhecimento da Messianidade (6.14-15; 9.38) Reconhecimento de Divindade (9.38)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATIVAS Perseguição (5.16) Procuravam matá-lo (5.18; 11.53) Dúvida (9.8-9) Inquisição (9.13-34) Incredulidade (9.18) Rejeição (9.24) Fofoca (11.46) Medo (11.48) |
2. Milagres nos Evangelhos Sinóticos
Nos sinóticos, ainda que ênfases parecidas com a do quarto evangelho possam ser levantadas, é bem possível que o foco recaia sobre outros aspectos. O modo como são narrados os milagres nos sinóticos também apontam para um foco distinto em cada ocasião: ora os milagres são apenas mencionados genericamente sem descrição de detalhes (Mt.4.24; 8.16; 12.15; 14.14; 15.30; 21.14; Mc.1.34; 6.5; Lc.7.21; 9.42; 14.4; 22.51) , ora são completos e cheios de informação (Mt.9.32-39; Mc.2.3-12; 5.18-26). O que se pode concluir disto é que os autores arranjam os milagres para apresentação de propósitos específicos sem fazer demérito de uma ação em relação a outras, mas para fortalecer o que se pretende enfatizar.
Diante da grande diversidade de milagres operados por Cristo e narrados nos evangelhos sinóticos, faço aqui uma observação da linguagem de como se apresentam (de modo geral) os milagres de Cristo. O primeiro termo que destaco é dunamis[6], que eventualmente é traduzido como poder miraculoso (Mt.13.54; cf. 14.2). A idéia do termo é de algo que tem poder ou que o apresenta poderosamente, e comumente é relacionada com as atividades de Cristo. Essa demonstração de poder causa nas pessoas (não em todos os casos nem em todas as pessoas) um maravilhamento, admiração (gr. Exístemi/Thaubémai/Thaumázo/Ekpléssomai) pelo que tinham visto (Mt.8.27; 9.33; Mc.1.27; 5.42; Lc.4.36; 5.9). O termo mais usado para demonstrar essa admiração é thaumázo, que pode ser entendido como ser extraordinariamente impressionado ou perturbado por algo. Em alguns casos esse maravilhamento é seguido por um ato de glorificar a Deus (Mt.9.8; 15.31; Mc.2.12; Lc.5.25-26; 7.16). O ato de glorificar a Deus podia ser feito pela multidão que assistia o milagre ou pelo que recebera o milagre, mas de qualquer forma, era um modo de reconhecer a origem do ato milagroso que acontecera.
Entretanto, outro elemento decorrente do maravilhamento das multidões, e fundamental para a compreensão de Cristo nos sinóticos, é o Poder-Autoridade que é confirmado por meio de atos milagrosos. O termo grego que traduz essa idéia é exousia. Esse termo pode ser usado para descrever cargos de autoridade, o poder da pessoa que exerce tal cargo e a autoridade decorrida desse poder. Essa é uma marca muito interessante nos evangelhos sinóticos, pois não é incomum encontrarmos esse conceito. Quando os evangelistas registram o apreço das multidões pelo ensino de Cristo esse reconhecimento está invariavelmente presente (Mt.7.29; Mc.1.22; Lc.4.32). O mesmo reconhecimento é visto em relação aos atos milagrosos de Cristo.
Mateus quando narra a história da cura de um paralítico (Mt.9.1-8) afirma que Jesus o tendo visto teria dito: “Tende bom ânimo filho; estão perdoados os seus pecados” (v.2). Mas isso teria incitado nos fariseus um sentimento de rejeição sobre o que Cristo teria dito; na mentalidade deles isso era apenas possível de ser realizado por Deus, por isso o acusavam de blasfêmia. Sabendo disso, Jesus resolve evidenciar seu Poder-Autoridade (gr. exousia) ao curá-lo: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (v.6). O resultado obtido nessa ocasião foi: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens” (v.8).
Nessa caso[7] vemos quase todos os elementos encontrados nas narrativas dos sinóticos: O evento milagroso, o maravilhamento, a Glória dada a Deus e o reconhecimento do Poder-Autoridade que Cristo tinha. É bem verdade que alguns dos aspectos desse quadro eventualmente é faltoso em outros registros, muito embora, o reconhecimento ou a pergunta pelo reconhecimento do Poder-Autoridade de Cristo estivessem aparentes em quase todo ministério de Cristo: Os fariseus demonstram sua preocupação com a fonte do Poder-Autoridade de Cristo (Mt.21.23; Mc.11.28; Lc.20.2); as multidões ficavam, ora maravilhadas (Mt.9.8) ora temerosos ou com dúvidas (Mc.1.27; Lc.4.36). Mas, Cristo, sempre estava consciente de Sua Missão, Identidade e Seu Poder-Autoridade (Mt.28.19), e essa mesma missão delega a Seus discípulos, enquanto estava com eles (Mt.10.1; Mc.6.7; Lc.9.1). Após sua ressurreição além de delegar a Seus representantes que fizessem o mesmo Ele assegura que estará com Eles até o fim dos tempos (Mt.28.20).
Após essa breve introdução ao estudo dos milagres de Cristo nos sinóticos, passo abaixo a destacar duas categorias e duas características dos milagres narrados nos evangelhos sinóticos.
Poder-Autoridade sobre o Natural
Quando falo sobre o poder que Cristo tem sobre o que é natural tenho duas perspectivas distintas em mente: o poder que Ele tem sobre o homem (saúde, vida) e sobre a natureza (funcionamento).
- § Sobre o Homem[8]: Uma das grandes marcas do ministério milagroso de Cristo está focado nos sinóticos em sua capacidade de ter domínio, controle, autoridade, poder sobre a saúde do homem. A grande maioria dos milagres nos sinóticos refere-se a esse tema. No caso da cura de um leproso (Mt.8.1-4; Mc.1.40-45; Lc. 5.12-16) podemos notar na narração dos três evangelistas que mesmo o leproso tinha convicção do Poder-Autoridade que Cristo tem sobre a doença, pois na aproximação que faz Cristo ele transparece confiança no poder, mas sua questão põe-se sobre a vontade do Senhor, ante quem está prostrado. Sobre esse tema é interessante notar que Cristo também é apresentado como Aquele que pode tornar à vida aquele que já estava morto. Dois casos são registrados nos sinóticos: A ressurreição da filha de Jairo (Mc.5.22-24; 35-43; Lc.8.41-42; 49-56) e a ressurreição do filho de uma viúva (Lc.7.11-15). No caso da filha de Jairo, é bem interessante que Jairo aproxima-se de Cristo como se aproximaria de alguém que tem autoridade: “vendo-o, prostrou-se a seus pés” (Mc.5.22; Lc.8.41). No ato de prostrar-se perante alguém é um modo de reconhecimento de Autoridade ou Divindade. Seria um pouco precipitado dizer que Jairo tinha a perspectiva da divindade de Cristo, mas sua ação nos deixa pensar nessa possibilidade. Seja como for, o desenrolar da história é bem provável que a fé de Jairo estivesse abalada, pois Jesus mesmo sugere: “Não temas, crê somente” (Mc.5.36; Lc.8.50). Não é muito claro que tipo de fé Jesus exige de Jairo nessa ocasião, mas é certo que toda a confiança dele repousava sobre o Poder-Autoridade que Cristo tinha para realizar algo que está contrário ao curso da natureza: dar vida ao morto. Tal pedido parece uma antítese para as pessoas que estavam na casa de Jairo, pois já não podiam acreditar no que Cristo dizia (Mc.5.40; Lc.8.53), quanto mais no que poderia fazer. Com a cura da menina, o maravilhamento toma conta dos pais que são convidados por Cristo para manter o relato entre eles. Se tomarmos a história como um todo, podemos dizer que a fé de Jairo repousou em Cristo e com a confirmação do milagre tal fé fora confirmada. Considerados esses pontos, podemos dizer com certeza que a relação de Cristo com a operação de milagres sobre as doenças tem por propósito evidenciar Seu Poder-Autoridade da parte de Deus como ratificação de Sua pessoa (Messias, Deus).
- § Sobre a Natureza: Nos casos em que Cristo manifesta Seu Poder-Autoridade sobre a natureza certamente nos falam sobre Sua Pessoa. No caso da tempestade acalmada (Mt.8.23-27; Mc.4.35-41; Lc.8.22-25) vemos que a pergunta dos discípulos era exatamente sobre Sua Pessoa: “Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt.8.27; Mc.4.41; Lc.8.25). Embora nenhuma conclusão dos seus discípulos seja dada, a pergunta pode ser entendida como retórica, pois ficou evidente que entre os homens, ninguém teria tal poder. Entretanto, quando Cristo anda sobre as águas, segundo o relato de Mateus, fica evidente que os Seus discípulos o reconheceram como Deus: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt.14.33).
Poder-Autoridade sobre Sobrenatural
A relação de Cristo com o sobrenatural tem algumas características interessantes, especialmente no evangelho de Marcos. Segundo a narrativa das memórias petrinas, vemos que os reconhecimentos mais claros sobre a Pessoa de Cristo são oferecidos por demônios. No primeiro caso registrado no evangelho, lemos: “Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc.1.23-24). Situação similar é encontrada no caso dos demônios gadarenos: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc.5.7). É bem interessante que esse reconhecimento demorou a acontecer com os discípulos, a despeito de tudo o que testemunhavam.
É bem verdade que o Poder-Autoridade de Cristo não pode necessariamente apontar para sua Divindade, muito embora os demônios em Marcos assim o tenham feito, por que tal Poder-Autoridade da parte Cristo cedido aos discípulos resultou no mesmo efeito, exceto por uma vez (Mt.17.21; Mc.9.29). Entretanto, não podemos deixar de perguntar por essa possibilidade reconhecida pelos demônios. É bem verdade que a característica fundamental do Diabo e seus seguidores é a mentira e que no caso, nortear uma convicção sobre uma mensagem demoníaca seria um pouco frágil. Contudo, o contexto onde estão inseridas essas passagens demonstram um terrível pavor dos demônios na presença de Jesus e sua súplica para não serem atormentados por Sua Pessoa, nos leva a considerar que o Poder-Autoridade de Cristo no mundo sobrenatural é tão grande que nem mesmo as legiões podem com Ele. A própria submissão dos demônios à ordem de Cristo testificam Seu Poder-Autoridade.
Um dos aspectos que também é interessante é o tempo que Cristo investe nesses encontros. Salvo o caso dos demônios gadarenos, Cristo com apenas uma ordem simples resolve problemas que os tele-evangelistas gastariam dias: “Cala-te e sai desse homem” (Mc.1.25; Lc.4.35). E o resultado na vida do endemoninhado é impressionante: “O demônio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer mal” (Lc.4.35). Contudo, o foco parece ser centrado na mensagem que isso transmite às pessoas que o assistem. Ao testemunharem a ação de Cristo, eles ficam grandemente admirados, e se pergunta,: “Que palavra é esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc.4.36). Assim, o que se pode dizer é que, quando Cristo manifesta seu Poder-Autoridade sobre o sobrenatural Ele testifica sua pessoa como Deus e Senhor sobre tudo.
Milagres e Incredulidade
Outro aspecto que é digno de rápida apresentação é que à semelhança do quarto evangelho, os milagres também exerceram grande papel na rejeição da Pessoa de Cristo. Muito embora existia o forte elemento evangelístico nos atos milagrosos operados por Cristo, nos sinóticos eles também foram mal interpretados: “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt.11.20-24; cf. Lc.10.13-16).
Milagres e confirmação Messiânica
É ainda válido demonstrar que os milagres de Cristo tem grande valor apologético, pois quando perguntado sobre quem Ele era, pelos discípulos de João, Jesus aludiu à profecias messiânicas: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt.11.4-5; cf. Is.35.5; 61.1-2).
Lista de Milagres no Evangelho de Mateus
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Milagres em Mateus |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura de um Leproso (Mt.8.1-4) Cura do Criado de um Centurião (Mt.8.5-13) Cura da Sogra de Pedro (Mt.8.14-17) Curou um paralítico (Mt.9.1-8) Cura de uma mulher com hemorragia (Mt.9.20-22) Cura da filha do Chefe (Jairo) (Mt.9.23-26) Cura dos Cegos (Mt.9.27-31) Cura do homem de mão ressequida (Mt.12.10-13) Cura do filho lunático (Mt.17.14-18) Cura de dois cegos (Mt.20.29-34)
Natureza Acalmou a Tempestade (Mt.8.23-27) Multiplicação dos pães (Mt.14.14-21) Andou sobre o mar (Mt.14.22-32) Multiplicação dos Pães (Mt.15.32-39) Dinheiro do Imposto (Mt.17.24-27) Maldição da Figueira (Mt.21.18-22)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Expulsou demônios (Mt.8.28-34) Libertação de um Endemoninhado (Mt.9.32-33) Libertação da Filha da Cananéia (Mt.15.21-28)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Thaumázo/ Exístemi – Admiração; Maravilhamento.
REAÇÕES ANTERIORES Adoração (Mt.8.1; 9.18) Implorar (Mt.8.5; 9.27; 15.22-27) Medo (Mt.8.24) Riam-se dele (Mt.9.24) Reconhecimento da Messianidade (Mt.9.27; 15.22; 20.30) Reconhecimento da Divindade (Mt.8.1; 9.18; 15.22, 25; 20.30)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Maravilharam-se (Mt.8.27; 15.31; 21.15) Temor (Mt.9.8) Glorificaram a Deus (Mt.9.8; 15.31) Fama espalhada (Mt.9.26; 31) Admiração (Mt.9.33, 12.23; 21.20) Adoração (Mt.14.22) Reconhecimento da Divindade (Mt.14.22)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Expulsão da Cidade (Mt.8.34) Acusado de Blasfêmia (Mt.9.3) Murmuração (Mt.9.34; 12.24) Conspiraram contra ele (Mt.12.14) Indignação (Mt.21.16) |
Lista de Milagres no Evangelho de Marcos
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Milagres em Marcos |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (1.29-31) Cura de um Leproso (1.40-45) Cura de um paralítico (2.3-12) Cura de um homem de mão ressequida (3.1-5) Cura da mulher com hemorragia (5.25-34) Ressurreição da Filha de Jairo (5.22-24; 35-43) Cura da mulher siro-fenícia (7.24.30) Cura do surdo-gago (7.31-37) Cura de um cego (8.22-26) Cura do cego Bartimeu (Mc.10.46-52)
Natureza Acalmou a tempestade (Mc.4.35-41) Multiplicação dos Pães (6.34-44) Caminhou sobre as Águas (6.45-52) Multiplicação dos Pães (8.1-9) Figueira Amaldiçoada (11.12-14)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na Sinagoga (1.23-28) Libertação dos demônios gadarenos (5.1-20) Libertação de um endemoninhado (9.14-29)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre Exístemi/ Thaubémai/ Thaumázo/Ekpléssomai – Admiração Maravilhamento
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento da Divindade (1.24; 5.7) Reconhecimento da Messianidade (10.47, 48) Rogar/Suplicar (1.40; 5.23; 7.26; 8.22) Adoração (1.40; 5.6, 22; 7.25) Fé (2.5; 5.23, 28, 36; 9.24) Emboscada (3.2) Medo (4.38; 6.49, 50) Riam-se (5.40) Incredulidade (6.37; 8.4; 9.22)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (1.27; 2.12; 5.20; 5.42; 6.51; 7.37) Reconhecimento da Autoridade (1.27) Fama espalhada (1.28; 1.45; 5.20; 7.36) Passou a servi-los (1.31) Glória a Deus (2.12) Temor (4.41; 5.15, 33) Adoração (5.33)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (2.6-7) Conspiração de Assassinato (3.5) Expulso de Cafarnaum (5.17) |
Lista de Milagres no Evangelho de Lucas
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Milagres em Lucas |
Aspectos Envolvidos |
| PODER-AUTORIDADE SOBRE O NATURAL
Homem Cura da Sogra de Pedro (4.38-39) Cura de um leproso (5.12-16) Cura de um paralítico (5.18-26) Cura do homem de mão ressequida (6.6-10) Cura do servo do Centurião (7.1-10) Ressurreição do filho da viúva (7.11-15) Cura da mulher com fluxo de Sangue (8.43-48) Ressurreição da filha de Lázaro (8.41-42; 49-56) Cura de uma paralítica (13.10-17) Cura de homem hidrópico (14.1-6) Cura de 10 leprosos (17.11-19) Cura de um cego (18.35-43) Restauração da Orelha de Malco (22.49-51)
Natureza Primeira pesca maravilhosa (5.1-11) Acalmou a Tempestade (8.22-25) Multiplicação dos Pães (9.12-17)
PODER-AUTORIDADE SOBRE O SOBRENATURAL Libertação de um endemoninhado na sinagoga (4.31-36) Libertação dos demônios gadarenos (8.26-27) Libertação de um endemoninhado (9.38-42) Cura de um endemoninhado cego e mudo (11.14)
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PRINCIPAIS PALAVRAS ENVOLVIDAS
Exousia - Poder-autoridade Dunamis – Poder, Milagre
REAÇÕES ANTERIORES Reconhecimento de Divindade (4.34; 7.6-7; 8.28) Reconhecimento de Messianidade (18.38-39) Adoração (5.12) Certeza (5.12) Fé (5.20; 8.48; 8.50; 17.19; 18.42) Emboscada (6.7) Medo (8.24) Súplica (8.41; 9.38) Risos (8.53)
REAÇÕES POSTERIORES POSITIVAS Admiração (4.36; 5.9; 8.25; 9.43; 11.14) Alegria (13.17) Fama espalhada (4.37; 5.15; 7.17; 8.39) Servir (4.39; 5.11) Reconhecimento de Divindade (5.8) Glória a Deus (5.25-26; 7.16; 13.13; 17.15; 18.43) Temor (5.26; 7.16; 8.25; 8.35, 37; 8.47)
REAÇÕES POSTERIORES NEGATICAS Acusação de Blasfêmia (5.21) Raiva (6.11; 13.14) Expulsão da Cidade (8.37) Incomodo (11.15; 13.14)
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[1] KÜMMEL, Werner Georg, Síntese Teológica no Novo Testamento. Pp.85.
[2] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Pp.475-6.
[3] GOPPELT, Leonard, Teologia do Novo Testamento. Pp.168.
[4] Essa classificação não é comumente apresentada quando tratada nesse assunto, entretanto, para fins didáticos, deixo minha impressão de como podem ser classificados.
[5] Sobre o uso de “monogenes” na literatura joanina, ver: BERTI, Marcelo Mendes, O uso de monogenes em referência a Cristo. Em: http://marceloberti.wordpress.com/2008/04/28/o-uso-de-monogenes-em-referencia-a-cristo/
[6] Esse termo é utilizado cerca de 37x nos sinóticos
[7] O mesmo evento é narrado em Marcos (2.10) e Lucas (5.24)
[8] Para uma visão mais geral sobre os milagres operados por Cristo nos Sinóticos ver a tabela abaixo com o registro de todos eles classificados.
02.11.09
Cordeiro de Deus
Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Cordeiro de Deus do livro Deus estava em Cristo.
Bom Proveito
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“Santo Anselmo é, muitas vezes, acusado de iniciar o estudo da expiação a partir do final, por que seu primeiro passo consiste em mostrar, abstratamente, a urgência da situação que exigia semelhante expiação divina para, somente então, contemplar a provisão efetiva de Deus, em Jesus Cristo. Eu poderia ser acusado do mesmo erro. Mas, ainda que, neste caso, esteja muito bem acompanhado, parece-me que seria mais exato dizer que procurei mostrar a experiência cristã da reconciliação para daí reconsiderar aquilo que a tornou possível, a Cruz e a Paixão de Cristo” (pp.206).
Por que morreu Jesus?
“Se quisermos compreender a relação que há entre a Expiação divina e a Cruz de Cristo, devemos voltar nossa atenção ao relato evangélico e ao Jesus da história” (pp.206). Baillie, depois de expor a idéia de expiação quer fazer a ligação entre tal conceito e a Morte de Cristo. Para que isso seja evidente, ele procura demonstrar que é necessário compreender quem foi de fato este que morreu. Por isso, quer voltar sua atenção ao relato dos Evangelhos para buscar Jesus como personagem histórico. “Foram preservadas [as narrativas sobre Jesus], na tradição, por que o significado da Cruz não seria compreendido sem o conhecimento e a compreensão daquele que foi crucificado” (pp.206).
Algumas perguntas propostas por Baillie sobre a morte de Cristo: “Por que Jesus morreu? Por que foi condenado à morte pelo Procurador Romano? Por que as autoridades judaicas tramaram sua condenação? Qual o propósito final da morte de Jesus na economia divina, na providência de Deus? Em que sentido e por que razão Jesus ‘entregou-se’ ao destino da Cruz?” (pp.207). Sobre a voluntariedade de Jesus para a morte na concepção de Baillie implica em dizer que Ele o fez através da fé humana. Para ele é certo que Jesus aceitou a cruz como vontade e propósito de Deus. Quando ele afirma que Jesus fez isso mediante a fé humana ele quer enfatizar a humanidade de Cristo a ponto de não ser “guiado por um conhecimento sobre-humano que lhe faria discernir ‘o fim desde o começo’. Seria artificial pensar nele como tendo desde o início a consciência clara de que viera ao mundo para morrer de morte violenta pela salvação humana. Seria igualmente artificial concebe-lo em qualquer ponto de sua vida a formar a intenção de estar condenado a morte” (pp.207). Para Baillie, “os evangelhos foram escritos numa época em que os cristãos podiam olhar para trás e se gloriar da Cruz, aceitando-a como ordenada pelo propósito de Deus; mas não ocultaram o fato de que Jesus, ao contemplar o seu futuro e percebendo como haveria de ser, via-o como tragédia indescritível, aceitando-o contudo pela fé, e que até na última noite esperou e orou para que não chegasse” (pp.207-8).
É válido relembrar que, segundo Baillie, Jesus não morreu como vítima indefesa, “ele poderia ter escapado mas prosseguiu com olhos bem abertos” (pp.208). Segundo tal autor, se Jesus tivesse alterado o caráter de seus ensino, o número de confrontos com as autoridades judaicas, se tivesse mantido-se reservadamente com seus discípulo, por certo as autoridades judaicas o deixariam viver, e assim Ele teria salvo sua vida. “Mas mesmo quando os seus próprios discípulos tivessem desejado que tomasse o caminho menos perigoso – o que tornou muito mais difícil sua decisão (Mc.8.31-35) – ele não hesitou. ‘O que salvar a sua vida perde-la-á’ – havia ensinado. Poderia ter salvo a sua vida, mas seria a perda de tudo o que tinha sentido para a sua própria vida. E, assim, não haveria de voltar atrás no caminho que lhe conduzia ao sofrimento, à vergonha e à morte“. (pp.208).
Algumas perguntas interessantes são propostas por Baillie:
- Qual era o caminho que não podia abandonar embora tivesse que morrer?
- Para que morreu?
- Que objetivo levou-o a tal fim?
Provavelmente a respostas a todas essas perguntas sejam resumidas a um vocábulo: “AMOR”. Contudo, seria ainda necessário considerar a existência do objeto desse amor. Logo, “AMOR AOS PECADORES” seria a mais plausível das respostas. A pouco, discutimos sobre o amor incondicional de Deus, como deve ser ele compreendido de maneira correta. “Não há nada tão certo e tão autenticado no relato dos evangelhos do que o assombro que o Rabi de Nazaré causava, indispondo-se mesmo com as autoridades ao manter relações de amizade e simpatia com homens e mulheres de caráter duvidoso e pela atitude que demonstrava para com estas pessoas. Freqüentava suas casas e lhes falava com familiaridade. Demonstrava mais interesse nessas pessoas do que em outras e praticamente disse que Deus também fazia o mesmo. Disse que a sua própria missão não era para os ‘justos’ mas para os ‘pecadores’ (…) Não que considerasse os ‘justos’ – escribas e fariseus – sem pecado. Talvez fossem piores do que os ‘publicanos e pecadores’ aos olhos de Deus. Eram também pecadores e precisavam de arrependimento. E quando lhes falou com tanta severidade sobre os seus pecados não foi, em última análise, por que também os amava e desejava que se arrependessem?” (pp.209). “Mas à parte da profecia mencionada e de todas as interpretações teológicas, é verdade que ele morreu pelos pecadores no mais pleno sentido histórico: foi o seu amor pelos pecadores que o levou a morrer na Cruz” (pp.210).
A Cruz e o Amor de Deus
“A crucifixão de Jesus levou os homens à reflexão, mas do que qualquer outro acontecimento na vida da raça humana. E o fato mais notável na história do pensamento religiosos é que, quando os cristãos primitivos se reportavam ao que havia acontecido e consideravam os momentos terríveis do Calvário, eram levados a meditar no amor redentor de Deus” (pp.211). É interessante tal afirmação, pois para uma mente inquiridora e saudável, a morte trágica e sofrível, tal como a sofrida por Cristo, deveria ser encarada como a mais faltosa de amor, ou como atitude inescrupulosa de Deus. Talvez, ainda, considerada como a mais cruel de todas as atitudes, ou como afirma Baillie, “a crucifixão poderia ser vista como reductio ad absurdum” (pp.211). O ponto de vista de Baillie da presente argumentação sobre a Morte de Cristo é que, a princípio ela parece cruel demais para revelar um Deus amoroso por trás. O que ele reconhece facilmente é que Jesus demonstra claramente seu amor para com o homem. Mas o paradoxo da Morte de Cristo é reconhecer o amor de Deus por trás de tudo isso. “Se Deus era bom, como havia permitido que tal coisa acontecesse?” (pp.210). Isso é ainda pior quando notamos que os seguidores mais próximos de Cristo nunca inquiriram estas perguntas, ao contrário, consideravam a crucificação como ponto central na exposição do evangelho (ver pregações em Atos). É provável que tal atitude para com a crucifixão de Cristo tenha nascido a partir dos acontecimentos da manhã da Páscoa.
“Desde os primeiros dias da vida da Igreja diziam, aparentemente, que de alguma forma tudo acontecera pelos propósitos de Deus e, ainda mais, pelo propósito misericordiosos de Deus par ao perdão dos pecados – um perdão que poderia alcançar até os homens que haviam crucificado Jesus” (cf. At.2.23, 38; 3.17-19, 26; 4.27ss; 1Co.15.3).
Na verdade, não muitos problemas com a preocupação de Baillie em compreender o amor de Deus por trás da morte de Cristo, visto que há farto número de referências neo-testamentárias para esse fim (Rm.5.8; 8.32; Jo.3.16; 1Jo.4.10).
“Em resumo ‘tudo é de Deus’: o desejo de perdoar e reconciliar, os meios indicados, a provisão da vítima vindo do seu próprio seio, mediante preço infinito. Tudo acontece dentro da própria vida de Deus: pois se tomamos a Cristologia do Novo Testamento, temos de afirmar que ‘Deus estava em Cristo’ neste grande sacrifício expiatório, e que o Sacerdote e a Vítima eram o mesmo Deus“. (pp.215).
“Mas seja qual for o meio empregado no processo da salvação através da cruz, a atitude misericordiosa de Deus para com os pecadores nunca é vista como o resultado do processo, mas como sua causa e origem” (pp.215-6).
Por que a Expiação?
Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Por que a expiação? do livro Deus estava em Cristo.
Bom Proveito
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Baillie intenciona neste capítulo procurar a razão por traz da expiação, como parte da Obra de Cristo. A primeira pergunta que levanta já havia sido dita por Alselmo de Cantuária séculos antes, durante o período do Escolasticismo Católico. Contudo, a princípio Baillie levanta questões que provavelmente são ouvidas em sua época sobre a realidade da fé cristã. Uma pergunta que teria sido muito ouvida durante a história do Cristianismo é a seguinte: “Seria isto verdade?”. A profundidade deste questionamento demonstra que a preocupação dos antigos cristãos estava voltada para a veracidade da sua fé. Contudo, no tempo de Baillie, o questionamento parece muito mais superficial, pois diz-se “Tem importância?”. Ou seja, os cristãos estão se perguntando se existe valor ou importância na existência de Deus amoroso que revela-se ao homem. “Tem alguma importância, para mim, na vida real, a existência desse misteriosos ser chamado Deus? Importa que eu creia em sua existência mais do que saiba de existência de alguma estrela distante, invisível a olho nu?” (pp.179).
A conclusão que se chega é que “Se tais perguntas inquietantes são freqüentes, é por que, sem dúvida, a Cristandade anda muito afastada dos próprios conhecimentos elementares do ensino cristão. Sugere também que nós, cristãoas, não estamos fornecendo explicações e informações adequadas do que cremos” (pp.180). Certamente os problemas não estão nas perguntas, pois são adequadas, mas na falta de respostas.
Algumas questões a serem consideradas: “Por que Deus se fez homem? Com que propósito Cristo desceu do céu? Será que a encarnação fazia parte do plano original e terno de Deus para a humanidade, como o verdadeiro fim da coroa da criação? Ou se tornou necessária somente por causa da Queda do Homem e a conseqüente necessidade de redenção? Teria Cristo vindo, se Adão não tivesse pecado? Se o homem não tivesse caído, a Encarnação ocoreria de maneira talvez diferente e sob condições diversas? Foi somente para morrer na Cruz, pela salvação humana que Cristo se encarnou? Seria necessário que a salvação humana se verificasse através desse único método? Não poderia Deus ter salvo o homem de outra forma, talvez menos custosa, mediante simples Fiat de sua vontade?” (pp.180).
Tais perguntas históricas do cristianismo são, sem dúvida, cruciais para a consolidação da fé cristã. Contudo, não é possível responde-las satisfatoriamente sem que alguns conceitos anteriores sejam tais como o problema do pecado e do perdão, da expiação e da reconciliação (1Tm.1.5; Mc.10.45; 1Jo.4.10). Por isso, “devemos responder a estas perguntas e tentar compreender o significado do perdão dos pecados na vida cristã, expor a compreensão de modo real e vital, e daí voltar à quetãos da expiação e sua conexão com a Encarnação” (pp.180-1).
A Necessidade do Perdão de Deus
Normalmente se ouve que o homem moderno não se preocupa com o pecado e sua realidade. Aliás, há quem diga que o sentido do pecado e da necessidade de perdão é muito estranhos à mente moderna. Contudo, Dr. Reinhold Niebuhr, em 1939, não podia deixar de falar da consciência complacente do homem moderno: “A universalidade dessa consciência complacente, entre os modernos, é tanto mais surpreendente quanto mais se expressa, sem restrições, em uma época de decadência social bem semelhante ai apogeu da cultura burguesa dos séculos XVIII e XIX” (pp.183).
A indiferença com relação à existência do pecado e da preocupação com suas conseqüências foi normalmente aplicado ao medo do juízo e castigo deles, seja neste mundo como o vindouro. Para eles, mais importante é o erro que a penitência, pois o primeiro permanece inalterado e pertence ao passado e não pode ser desfeito nem mesmo com muitas lágrimas penitenciais. O importante é futuro. Portanto, deixando para trás os erros, procurando repara-los a medida do possível, sigo com minha auto-expiação e não me importo nem me perturbo com os meus pecados e com o perdão dele.
O pensamento moderno não pode subsistir a realidade. Como disse Niebuhr: “Sobre o perpétuo sorriso da modernidade há uma careta de desilusão e cinismo” (pp.186). Se considerarmos o homem simplesmente como tendo uma “mera moral”, um ser apenas consciente de seus erros, ser simplesmente um moralista. Para o moralismo moderno não existe solução, pois jamais poderia perdoar-se a si mesmo. Não existe auto-perdão, ou conceito de liberdade moral que supra as acusações de uma consciência normal. Portanto, aqui demonstra-se o fracasso da vã moralidade desprovida de vida de fé. “Este esforço não terá sucesso, por que se centraliza no eu em vez de ter Deus no centro, e esta á a verdadeira raiz do mal. E quanto mais ansioso, mais desesperado se torna, por que não há maneira alguma que sirva para tratar de suas próprias falhas. O pobre moralista é orgulhoso demais para perdoar a si mesmo, e deste modo a auto-retidão e o auto-desespero se encontram, impedindo a salvação da alma” (pp.187-8).
Contudo, quando nos orientamos para Deus, a situação muda de figura, pois a moralidade, não torna-se “mera moralidade”, mas constitui-se Moral absoluta, transformada e saudável, como parte integral da fé. Assim, não existe apenas a consciência do erro, mas a certeza de um mal orientado contra Deus, uma desobediência e violação completa da vontade de Deus, bem como a traição do seu amor incondicional. Ou seja, o homem moderno, em sua concepção da vida meramente moral e moralista não tem “o segredo salvado para enfrentar suas faltas morais” (pp.189). Portanto, sua tristeza é a tristeza do mundo que produz a morte, que deveria transformar-se em tristeza segundo Deus que produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar, por que leva ao perdão (2Co.7.10).
A conclusão que se chega é que não existe resposta suficientemente completa para a questão moral do homem sem que exista o padrão moral absoluto. Não existe solução para o homem, como ser moral, em suas próprias forças e limitações. Não existe quem escape da verdade, veracidade e realidade do pecado como degradador da humanidade do homem. Se, temos pecado em não o negamos, temos certeza de que a verdade está em nós e que, “se confessarmos os nosso pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo.1.8,9).
Perdão e Castigo?
A questão em pauta neste tópico é relacionada a existência do perdão na inevitabilidade de um castigo para o pecado. “Temos o caso de um homem que pela sua vida pecaminosa adquiriu doenças e incapacidade físicas, ou perdeu o emprego e as melhores perspectivas, caindo em séria privação. Ele deve considerar tudo isso como castigo de Deus. Contudo, quando sinceramente ele se arrepende e aceita o perdão de Deus, iniciando uma nova etapa de sua vida, as más conseqüências dos seus velhos pecados podem ainda acompanhá-lo em sua vida nova e mesmo permanecer com ele até o fim” (pp.191). “O castigo rela não está nos sofrimentos, mas na separação de Deus” (idem). “Martinho Lutero refere-se à regra da arte dramática proposta por Horácio, segundo a qual não se deve introduzir nenhum deus na ação e não ser que o argumento se haja complicado tanto, que somente um deus pudesse desenredar a trama. ‘Pois bem’, diz Lutero, ‘o pecado humano é esta complicação’. Somente Deus pode desenredar a trama dos nossos pecados” (pp.195).
Mas por que Expiação?
Portanto, a questão que insurge neste ponto é: “O perdão de Deus não é suficiente?“. O pressuposto dessa questão é visto pela própria argumentação de Baillie, pois demonstra o Amor de Deus como incondicional e seu Perdão como gratuito a todos que o aceitam. Então, por que elaborar uma Teologia de redenção, propiciação e reconciliação por meio do Sangue de Cristo? “Não é melhor crer, afinal de contas, no amor eterno de Deus que busca os pecadores para gratuitamente lhes dar o perdão?” (pp.197). Para responder a essa pergunta, Baillie procura demonstrar a diferença moral e espiritual entre um favor bem intencionado e uma reconciliação custosa.
A questão do amor incondicional de Deus tem que ser compreendida corretamente, pois é certo que o Amor de Deus continua a atuar sobre homem mesmo em situação de pecado. Contudo, isso não significa que Deus não se importa com a gravidade do nosso pecado, como se tudo fosse parte da vida do homem, uma rotina a qual Deus está habituado. Tal pensamento pode ser claramente estampado pelo pensamento de Heine[1] em seu leito de morte que disse: “Deus me perdoará: este é o seu ofício“.
A questão do pecado pode ser ilustrada como uma ação depreciativa de um amigo para outro. Suponhamos que um deles use de falsidade para com seu amigo e o coloque em situação de risco. A reação dele vai depender da intimidade que existe entre eles, pois se for uma amizade superficial, com leviandade será tratada a ofensa. Contudo, se for um bom amigo, será custosa a restauração desse relacionamento. Observe essa analogia da perspectiva do casamento. Traição é apenas perdoada com muito custo, pois o ofendido teve sua honra maculada, sua vergonha exposta. O ofendido é quem sofre mais, ele carrega a vergonha como se fosse dele, por causa do seu amor traído. A agonia do ofendido é muito maior que a do ofensor, pois é certo que seu amor é muito mais profundo. Portanto, se o perdão for concedido, é neste misto nobre de vergonha e agonia que advém o perdão, e por certo é deveras custoso. Mas, deve-se levar em conta a falibilidade da humanidade, pois o ofendido, na questão da traição no casamento, pode muito bem ser levado por seu amor próprio e desempenhar um julgamento unilateral, e não lhe atribuir o perdão.
No que tange ao pecado, o ofendido é Deus e o ofensor sou eu. “Se lhe fui desleal como acontece em todas as minhas más ações, a minha deslealdade é para com o Amor infinito que é o coração do universo, a fonte e o fim da minha existência e o próprio significado da ‘Lei Moral’ que eu quebrei. Não pode haver nada mais inexorável do que este amor. Se o traí a traição é definitiva. Esta é que deve ser apagada, e uma ‘expiação’ assim deve ser a mais difícil, a mais sobrenatural e custosa do mundo” (pp.199).
A questão do perdão não trata-se de um Tirano de boa índole conceder anistia com um simples mover de sua caneta. O perdão “provém do coração de um amor que carregou todos os nosso pecados e, por seu amor infinito, a paixão é também infinita. ‘ Quem sofre mais do que Deus?’ pergunta Piers Plowman. Existe no próprio coração de Deus uma expiação, um sacrifício,produzindo o perdão dos nossos pecados“.
Os termos “expiação”, “prociciação” e “reconciliação” vem do antigo sistema sacrificial de Israel, e encontra seu clímax no Cristianismo do Novo Testamento, mais especificamente, em Cristo, onde se entende que Deus é quem paga o preço pelo pecado.
[1] “Seu nome em alemão era Heinrich Heine. Assina a mensagem inserida em O Evangelho segundo o espiritismo, no item 3 do capítulo XX, intitulada “Os últimos serão os primeiros”. Nasceu em Düsseldorf em 13 de dezembro de 1797, de família judaica. Seu destino era o comércio e por isso foi encaminhado pelo pai a um tio banqueiro em Hamburgo. Logo verificou-se que ele não tinha dom para a atividade e o tio o remeteu a Bonn, a fim de estudar direito. Mas o jovem Harry como era chamado então, interessou-se pelos assuntos literários e abraçou os cursos de literatura. Berlim foi seu ambiente mais propício, permitindo-lhe freqüentar os salões literários e seguir a filosofia política de Hegel. Poeta e jornalista, ficou famoso pelos poemas e livros de viagens. Desgostoso pelo clima anti-semita do país, emigrou para Paris no ano de 1831. Ali se tornaria correspondente de grandes jornais alemães. Foi um dos mais inquietos e polêmicos jornalistas de seu tempo. Para o Jornal Geral de Augsburgo descrevia quadros da vida francesa, sendo seus temas constantes o parlamento, a imprensa, o mundo artístico, o teatro e a música. Sua influência foi enorme dentro e fora da Alemanha. Na segunda metade do século XIX todos os poetas alemães pareciam heinianos. Sua poesia é de um lirismo melancólico de início. Seus poemas sentimentais são cheios de infelicidade e lamentações amorosas. Alguns poemas de amor conquistaram fama universal, sendo depois musicados por Schubert , Schumann e muitos outros compositores. Escreveu poemas dedicados ao mar, em versos livres. E por fim, a poesia política, tangendo versos que retratavam situações da época como Os Tecelões, poema inspirado pela greve dos tecelões esfomeados da Silésia. Como prosador é considerado um dos mais ágeis da literatura de língua alemã, em qualquer tempo. Suas obras mais ambiciosas são A escola romântica e Sobre a história da religião e da filosofia na Alemanha. Nesse último, Heine parece querer completar o livro de Mme de Stäel sobre a Alemanha, tentando mostrar aos franceses o pensamento estético e filosófico do seu país. Nele está estampada a profecia de um despertar revolucionário da consciência alemã e, sobretudo, a crença do poeta na importância universal do pensamento de Hegel. Sofreu dificuldades financeiras, enfrentou conflitos políticos e a doença acabou por vitimá-lo. Sofreu uma paralisia que o conduziu à morte em 17 de fevereiro de 1856, em Paris. A mensagem que se encontra em O Evangelho segundo o espiritismo é datada de 1863, também em Paris”. (www.panoramaespirita.com.br).
Celebrando a Liberdade
Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanece, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão (Gl.5.1)
Hoje estamos reunidos aqui para celebrar nossa salvação com o memorial de sua morte. Hoje estamos aqui para, em comunhão com nossos irmãos, relembrarmos o sacrifício de Cristo, de reavaliarmos nossas vidas, de nos arrependermos por nossa intensa maldade que não apenas nos assedia como nos seduz a abandonarmos as instruções do nosso Deus. Hoje estamos aqui para celebrar nossa liberdade em Cristo Jesus, nosso acesso direto e pessoal a Deus. Hoje estamos aqui para nos colocarmos em sua presença em gratidão por tudo que ele já fez por nós, pelo que tem feito, e pela esperança que temos de que, conforme sua vontade ele continuará a fazer em nós e por nós.
Por isso, gostaria de convidar a você a celebrar nossa liberdade em Cristo, pois foi “para a liberdade que Cristo nos libertou“.
A. Libertos da escravidão
A situação dos gálatas a quem Paulo escreve era bem perigosa, pois estavam se deixando levar (5.7, 8) por algum tipo de teologia (1.9) que acaba por corromper a vida do cristão liberto por Cristo (5.1, 13). Seja o retorno a submissão à lei (5.3) seja pela vida licenciosa (5.13, 16), Cristo nos chamou para liberdade. Não importa onde você estava antes de conhecer a Cristo, você foi convidado para a liberdade.
No primeiro verso do quinto capítulo da sua carta aos gálatas, Paulo diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão“. A princípio, o que nos chama a atenção nesse verso é a aparente redundância que existe na frase: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou“. Mas, na verdade a linguagem aqui precisava ser forte, até mesmo repetitiva, pois Paulo intencionava ressaltar quão tolo seria ser liberto e voltar a submeter-se a uma nova espécie de escravidão. Guthrie chega a sugerir que, ser liberto e não desfrutar da liberdade oferecida seria uma ofensa Àquele que o teria liberto[1].
Evidentemente, era vontade de Deus que desfrutássemos de verdadeira liberdade com Ele, visto que teria enviado Seu Filho para oferecer completa liberdade aos que crêem Nele como o Salvador do Mundo (Jo.4.41-42).
É por essa razão que Paulo acresce: “Permanecei, pois firmes e não vos submetais novamente a jugo de escravidão“. A idéia é que os cristãos deveriam apegar-se à decisão de desfrutar dessa liberdade com intensidade, visto que, caso contrário, estariam deixando de continuar a obedecer à verdade (Gl.5.7). Talvez essa ordem fosse uma necessidade visto que falsos mestres estavam a assolar essa comunidade.
Mas, a que poderia o apóstolo referir-se ao “jugo de escravidão“? Pelo contexto, podemos perceber que isso faz referência à instrução deixada pelos judaizantes que procuravam justificar-se na lei (Gl.5.4). Ao que tudo indica, Paulo exorta seus leitores a rejeitar essa idéia e a desfrutarem da liberdade oferecida por Cristo (Gl.2.4), pela imposição da completa obediência do cerimonial judaico, o que de certa feita inclui a Lei.
Isso nos faz pensar que a Lei é má? De modo algum. Paulo mesmo já teria nos ensinado: “Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa” (Rm.7.16). Tiago também nos lembra que a lei é perfeita e que ela concede liberdade (Tg.1.25). O que então Paulo esta a ensinar?
Que aqueles que se justificam diante de Deus pelas obras da lei, decaíram da graça, de Cristo foram desligados (Gl.5.4), transformaram Jesus em algo desnecessário (Gl.5.2) e estão obrigados a cumpri-la por inteiro (Gl.5.3).
Essa conclusão é importante, visto que até mesmo os que são judeus por natureza precisam ser justificados pela fé, visto que ninguém será salvo por obras da lei (Gl.2.14, 15; cf. Rm.3.20, 28)
B. Libertos da licenciosidade
Pouco à frente, Paulo reforça: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor“. A forma como Paulo escreve (verbo no passado – aoristo grego) sugere que os gálatas não apenas conheciam essa tal liberdade, como dela já haviam desfrutado. Isso ainda reforça um pouco da mentalidade de Paulo sobre o posicionamento ilógico que os gálatas tinham tomado diante da situação.
Mas, Paulo relembra que liberdade e licenciosidade não são a mesma coisa: “porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne“. A impressão que alguém poderia ter ao ouvir da não necessidade de salvar-se diante de Deus por meio das obras da lei, ou da obediência irrestrita é que a vida poderia ser lavada de qualquer forma uma vez que o que se requer para ter vida com Deus é fé.
Nada mais longe da verdade! Paulo quer relembrar ao seus leitores que, muito embora a vida eterna não seja conquista por boas obras (Ef.2.8-9), ou por obras da lei (Rm.3.20), isso não significa que o cristão deve desobedecer as instruções morais de Deus. Muito pelo contrário, o desenvolvimento do relacionamento do cristão com Deus, depende do seu desenvolvimento espiritual e moral, sendo que um não vem sem o outro.
Na verdade é válido lembrar que antes de Cristo é que éramos licenciosos: “…entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais“. A licenciosidade na verdade é uma marca daqueles que ainda não conheceram a Cristo (Ef.4.17-19).
Por isso é que Paulo é enfático ao dizer fomos chamados para liberdade, o que inclui a vida moral acertada diante de Deus, pois não temos mais necessidade de vivermos entregues à devassidão.
C. Libertos para servir
Da mesma forma que fomos libertos do jugo da escravidão e da licenciosidade, fomos feitos homens livres para servirmos os nossos irmãos: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl.5.13).
Aqui temos um daqueles paradoxos interessantes: Como alguém que é liberto é convidado a agir como servo de alguém? Isso eventualmente não soa como algo aprazível nem desejável. Entretanto, o que percebemos aqui é que a atitude daquele que é salvo, não é mais buscar satisfazer-se, mas que agora, ele está liberto do seu egoísmo e pode de modo espontâneo prestar serviço aos seus irmãos em Cristo.
O cristão deve fazer isso por intermédio do amor de Deus que flui em sua vida. Ou seja, reflexo do seu serviço é o seu amor.
[1] GUTHRIE, Donald, Gálatas: Introdução e Comentário, pp.163
Cristo na Vida Cristã
Bom dia. Essa manhã é especial, não por ser a primeira do ano, ou por você poder lembrar o que aconteceu no último domingo do ano passado, mas por que podemos juntos relembrar o que Cristo fez por nós. Em manhãs como essas, temos a oportunidade de agradecermos a Deus por seu infinito amor, pela Sua Graça manifesta em Cristo e pela Redenção que nos ofereceu. Por essa razão gostaria de ler um texto com vocês que fala sobre esse assunto, não da perspectiva teológica, mas da aplicação dessa verdade em nossa vida e o resultado que isso provoca. Portanto, quero convidá-los a abrir suas bíblias em Gálatas capítulo 2 versículo 20:
“Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”
Gálatas 2.20
Nesse texto existem alguns paradoxos, tais como: “Eu fui crucificado” mas “agora vivo“. Na primeira premissa, vemos uma declaração de morte, a crucificação, e na segunda a explícita declaração de vida. Contudo, sabemos que isso é facilmente resolvido, é uma questão de compreender o assunto cronologicamente. Primeiro fomos crucificados com Cristo, e agora vivemos pela fé nEle. Entretanto, no mesmo verso lemos: “já não sou eu quem vive” e “agora vivo“. Ante a essas declarações não temos uma resposta tão conhecida quanto a anterior. O que Paulo quis dizer com essa expressão? Afinal de contas, eu vivo ou não?
Um paradoxo não é uma contradição, ele apenas soa com tal. Normalmente nesse tipo de paradoxo temos duas informações possívelmente verdadeiras, que, quando unidas para a formação de um conceito tornam-se aparentemente auto-excludentes. Para compreender o que Paulo está ensinando nesse verso precisaremos reunir outras informações importantes. Mas vamos por partes.
1. Fui Crucificado com Cristo
A primeira informação desse texto se refere a declaração de Paulo que fomos crucificados com Cristo. É interessante compreender esse sentido expressão de Paulo sobre a experiência do cristão. Algumas vezes Paulo faz referências sobre a vida cristão com a morte. Observe:
“Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?”
Romanos 6.2-3
O início da experiência cristã está na morte. Em Cristo nós morremos para o pecado e para tudo o que se depreende dele. Em Cristo nós morremos para o mundo. Em Cristo nós somos feitos novas criaturas:
“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”
2Co.5.17
Com essa convicção em mente, podemos compreender um pouco melhor o que Paulo quis apresentar nas expressões seguintes.
2. Cristo Vivem em Mim
A aparente contradição vista nesses versos começa ser melhor compreendida a partir da convicção de que somos novas criaturas em Cristo. Assim, como novas criaturas, temos uma nova forma de viver. A declaração de Paulo para sua vida após ter sido crucificado, é uma vida de Cristo nele. Ou seja, a vida cristã não é mais definida por nossas próprias características, mas pela presença de Cristo em nós.
As aplicações dessa verdade são importantíssimas para nossa vida hoje, pois podemos perceber Cristo em nós, de algumas formas. Observe:
“Posso todas as coisas naquele que me fortalece”
Fp.4.13
“Para isso eu me esforço, lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim“
Cl.1.29
Existe na vida cristão não apenas a presença de Cristo em nós, mas a percepção prática dessa presença em nossa vida. Nas questões ministeriais, Paulo sempre volta-se para a presença ativa de Cristo em sua vida, pois tem convicção que não é sua capacidade ou poder que realiza a Obra de Deus, por isso pode dizer:
“Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em ação”
Rm.15.18
Ou seja a vida cristã é vista como a morte para o pecado e a vida com Cristo habitando em nós e nos sustentando e fortalecendo para realizar o que Deus espera de nós.
3. Vivo Pela Fé
Aqui vemos o ponto mais alto desse verso sobre a vida cristã, pois a compreensão dos fatos anteriormente anunciados nos levam a uma única forma de vida hoje: “A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim“. Como vimos, o cristão morre para o pecado com Cristo e com Ele vive e na sua dependência prossegue. Contudo, como realizar isso? Aqui vemos a descrição mais clara: “pela fé“. Essa vida, tal como estamos vivendo, só pode ser completa a partir do momento que compreendemos essa verdade: “Cristo sofreu e morreu por mim, no meu lugar, por amor, para me habilitar a viver pela fé com Ele“.
De Deus não temos apenas exigências para uma vida correta que Lhe é agradável, mas toda a condição para isso pela vida de Cristo em mim. Hoje não somos mais escravos do pecado (Rm.6.6), fomos libertos para viver como servos de Cristo (Rm.6.18). O pecado não precisa mais nos dominar pois somos servos da justiça e vivemos debaixo da graça de Deus. Assim, a vida do cristão consciente da Obra de Cristo em seu Favor, é uma vida pela Fé em Cristo que me amou e se entregou voluntariamente por mim.
Quem é Jesus?
Texto extraído de uma mensagem de Páscoa feita pelo autor deste blog.
Bom Proveito
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Introdução
Após uma apresentação como essa certamente você está surpreso. Em primeiro lugar pelo belo programa que assistiu. Em segundo lugar, sobre algumas verdades a respeito de Jesus que provavelmente você não conhecia. Apesar de ser uma figura histórica muito conhecida, o grande foco da mídia sobre Sua pessoa está relacionado a possíveis controvérsias e aparentes contradições.
A figura de Jesus Cristo é conhecida sob diferentes primas, muitas vezes controversos e incompatíveis. Isso o torna pouco conhecido de fato. A verdade sobre sua pessoa e missão são praticamente esquecidas. O pouco que se conhece sobre Ele é suficiente para apresentá-lo como difuso. Mas, talvez isso tenha alguma explicação: Vivemos em um mudo diverso, plural étnica e religiosamente.
Pluralismo Étnico e Religioso
Se pudéssemos definir a realidade do mundo em que vivemos em poucas palavras, diríamos que ele é DIVERSO. A interação e integração de diferentes culturas têm produzido conceitos interessantes na nossa sociedade. O crescimento no conhecimento de outras culturas tem acrescentado a experiência humana. Vemos hoje a redução da discriminação ideológica e religiosa. Tem aberto portas para a identificação das razões por traz das práticas culturais distantes da nossa realidade. Tem nos permitido aceitar as diferentes visões de mundo produzidas pelas diversas culturas. Tem nos tornados aptos a compreender a relatividade de princípios sociais, educacionais, ideológicos, religiosos. Hoje, somos mais tolerantes com as diferentes opiniões que o fomos no passado. Isso nos possibilitou aceitarmos as pessoas com diferenças ideológicas com mais facilidade. Isso nos permitiu conviver com pessoas com menos barreiras. Isso é muito positivo.
Essa realidade abriu portas para que diferentes culturas apresentassem diferentes propostas religiosas (A definição que temos aqui para religião é: a incansável busca humana em retomar seu relacionamento com Deus ou alcançá-lo por esforço próprio ou mérito). Esse fato descortinou propostas infindáveis de busca da paz interior, do bem estar, de estar em paz consigo mesmo, do esteja bem com sua família, do tenha dinheiro no bolso e seja feliz, ame as vacas e adore 279 diferentes deuses e transcenda espiritualmente até Deus.
Várias Respostas para poucas perguntas
O resultado dessa pluralidade religiosa é que hoje nós temos mais respostas que perguntas sobre a realidade da nossa existência e possibilidade de relacionamento com Deus. As questões intrínsecas sobre a realidade da vida humana e da possibilidade de relacionamento com Deus são as mesmas, mas as respostas são mais diversas. Contudo, nossa capacidade de tolerar todas as opções de resposta nos impossibilitou de avaliarmos com profundidade as respostas oferecidas. Pois se o fizéssemos, perceberíamos não apenas as similaridades sociais, morais entre as diferentes religiões, mas as nítidas divergências entre uma e outra.
Ou seja, é impossível que todos estejam corretos ao mesmo tempo. As gritantes divergências nos remetem ao questionamento sincero sobre a verdade tal como ela é. Talvez seja exatamente isso o que te surpreende nesse programa: A verdade sobre Jesus Cristo exposta, sem maquiagem, sem tentativas de esconder a realidade. Mas diante da realidade do nosso mundo, por que Jesus seria diferente das outras opções?
Por que Jesus seria diferente?
Uma vez que somos tolerantes, reconhecemos as diversas respostas, por que aceitaríamos a verdade sobre Jesus Cristo? Por que deveríamos aceitar a verdade a respeito dele? Por que deveríamos conhecê-lo? Por que Ele é, definitivamente, a resposta certa para as questões mais importantes da humanidade e da possibilidade de Relacionamento entre Deus e o homem.
Quem é Jesus?
A pergunta a essa altura é pertinente. Como sabemos, existem muitas respostas para essa pergunta. Vamos conhecer algumas delas.
Pela “Voz do Povo”:
É comum encontramos alguns conceitos sobre Jesus na “Voz do Povo“. Mas, já é consenso que a voz do povo, não é a voz de Deus. Em entrevistas, documentários, vemos muitas afirmações sobre Jesus que auxiliam a construção de um pseudoconceito a seu respeito. E baseando-se nisto, muitas pessoas criam suas próprias visões sobre quem teria sido ele:
- Um homem sábio – Vox Populi;
- Fundador de uma grande religião – Vox Populi
- Um grande mestre moral – Espiritismo;
- Governador Espiritual da Terra – Espiritismo;
- Um Rabino Especial – Judeus Messiânicos;
- Um Profeta – Islâmicos;
- Um homem espiritualmente evoluído;
O que parece, diante dessas evidências, é que não há dúvidas quanto a sua existência ou sua humanidade. Parece consenso entre muitos que Jesus de fato viveu na Palestina durante as três primeiras décadas do nosso calendário. Que ele morreu em uma cruz, foi um grande professor, profeta, mestre moral.
Pelos Apóstolos:
Contudo, seria sábio começar essa pesquisa orientando-se para aquele que estiveram próximos a Jesus durante seu ministério público. Vamos observar algumas afirmações sobre Jesus:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” Jo.1.1-3
“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” Hb.1.1-4
“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” – Cl.1.15-17
“porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” – Cl.2.9
“aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” – Tt.2.13
Aqui as declarações são bem diferentes. A visão daqueles que viveram na mesma época que Jesus o vêem com outro olhos. Ao que se percebe, parece consenso entre eles que Jesus seja considerado como Deus. Cada escritor definiu com seus próprios termos, mas apontaram ao mesmo fato. O que torna Jesus diferente de qualquer outro “líder espiritual” é que Ele mesmo é Deus.
Por Ele mesmo:
Talvez você seja bem crítico e esteja pensado: “Muito bom. Mas todas as afirmações são de terceiro. Jesus nunca fez qualquer declaração sobre esse assunto. Ele jamais quis levar esse título”. A princípio posso concordar com você. Nenhuma das afirmações foram feitas por Ele, mas isso não garante a validade do argumento.Nenhum dos nossos políticos se autodenominam corruptos, embora muitos deles seja. Contudo, esse não é o caso com Jesus, pois Ele mesmo fez essas declarações. Observe:
“a fim de que todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou” – Jo.5.23
“Onde está teu Pai? Respondeu Jesus: Não me conheceis a mim nem a meu Pai; se conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai” – Jo.8.29
“E quem me vê a mim vê aquele que me enviou” – Jo.12.45
A identificação de Jesus, entre o Filho (ele mesmo) e o Pai (Deus) é muito clara. É baseado nessa unidade essencial que Ele afirma: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.31). Quem conhece a Jesus, conhece a Deus que o enviou. É muito claro e específico. Mas talvez isso não seja suficiente. Então observe suas Obras:
“Alguns foram ter com ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o eirado no ponto correspondente ao em que ele estava e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o doente. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão perdoados. Mas alguns dos escribas estavam assentados ali e arrazoavam em seu coração: Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Quem pode perdoar pecados, senão um, que é Deus? E Jesus, percebendo logo por seu espírito que eles assim arrazoavam, disse-lhes: Por que arrazoais sobre estas coisas em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados – disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.. Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus, dizendo: Jamais vimos coisa assim!” – Mc.2.3-12
Agora, se ainda assim você acredita que Jesus não declarou-se como Deus, observe:
“Ele, porém, guardou silêncio e nada respondeu. Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu” – Mc.14.61-62
Qual sua Missão?
É impossível ler as páginas do NT e não notar a Posição Exaltada de Jesus Cristo, é como andar às margens do mar em uma manhã ensolarada e não notar a existência do sol. É como tampar o sol com a peneira. Jesus Cristo é Senhor (Deus) Exaltado. Mas, qual seria o propósito de sua vida.
A vida de Cristo foi norteada objetivo que traçou para ela. Ele deixara sua Glória, esvaziando-se do exercício pleno de suas perfeições, fez-se homem, viveu as desventuras e falências da humanidade, mas sem nunca ter cometido uma afronta sequer Àquele que o enviou para simplesmente MORRRER. Observe:
”pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” – Fl.2.6-8
“Estando Jesus para subir a Jerusalém, chamou à parte os doze e, em caminho, lhes disse: Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte.” – Mt.20.18
“porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará” – Mc.9.31
“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” – Jo.12.32-33
“mas Deus, assim, cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer” – At.3.18
A Missão de Cristo é simples: DEIXAR SUA GLÓRIA PARA VIVER COMO HOMEM E MORRER COMO O PIOR DELES.
Qual a Razão de Sua Missão?
Mas, por que razão, Deus deixaria sua Glória para viver como homem e morrer como o mais vil deles? Qual seria a intenção de Deus ao enviar seu filho para morrer em uma cruz? Vamos observar.
Remover o Pecado como separação entre Deus e o homem
Pecado é uma palavra de significado simples, mas que tem sido ignorada por diversas causas, mas todas ligadas a suposta “liberdade” da religiosidade que inibe a vontade dos homens. Contudo, por maiores que sejam as frentes para acabar com o uso do termo “pecado”, isso não isenta sua realidade.
O que é pecado então? É tudo aquilo que você pensa, fala ou faz que esteja em desconformidade com o caráter de Deus. Ou seja, o pecado pode ser completo em um simples pensamento. Você pode estar se perguntando: “Espere aí. Até posso aceitar que um pensamento possa ser um pecado. Mas existe uma diferença entre um pensamento e uma ação, não existe?!?“. Quando pensamos em conseqüência, em uma relação de causa e efeito imediata, podemos dizer que sim. Um assassino é bem mais visível que alguém que tenha pensamentos de morte em relação a outra pessoa. Por esta razão, o assassino tem conseqüências diretas e imediatas a suas ações em relação a convivência com outros seres humanos. O mesmo não acontece socialmente com aquele que simplesmente pensou, ou por um lapso de controle gritou: “Vou te matar“. Contudo, quando pensamos em que ambas atitudes são orientados contra Deus, vemos por outro prisma. Em ambos os casos, o que vemos é um mal orientado contra Deus. Existe um princípio simples para compreender esse fato. Acompanhe comigo:
- 1. O grau da gravidade da ofensa depende do nível de dignidade do ofendido;
- 2. O Pecado é uma ofensa direta a infinitude da dignidade de Deus;
- 3. Logo, a culpa do homem é infinita, e para supri-la exige uma satisfação infinita;
Ou seja, não existe um pecado menor do que outros: Todos são dignos de eterna punição. Esse é o seu quadro em relação a Deus, devedor, passível de eterna punição, pecador separado do Deus eternamente Digno e Santo. Ou seja, não existe como nós suprirmos a esse débito que temos. Aqui temos o primeiro grande problema da vida humana:
- 4. Se isto é verdade, o homem nunca poderá supri-la, pois é finito;
- 5. Assim, apenas Deus pode sanar essa dívida. Mas a culpa não é de Deus, mas do homem. Logo, Deus não deve pagá-la.
- 6. Ou seja, o homem deveria pagar, mas não pode. Deus poderia, mas não deve. Segue-se que é necessário um Homem-Deus, pois como homem deve, e como Deus pode. Por que “o que não é assumido não é redimido“.
Cristo, Deus-Homem, é o único habilitado a remover o problema do pecado como separação entre o homem e Deus. Esta é a razão que torna Cristo tão peculiar, pois não há outra opção, não outro caminho. Observe:
“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” – 2Co.5.21
“Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também Cristo, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” – Hb.2.14-15
”Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” – Rm.5.7-8
“E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” – At.4.12
Conseqüências da Obra de Cristo
Diante dos principais significados da Obra de Cristo a nosso favor é necessário demonstrar que tal Obra tem conseqüências diretas àqueles que são beneficiados por ela.
Justificação
A Justificação não é apenas uma das conseqüências da Obra de Cristo a nosso favor, mas um tema doutrinário central na Salvação e fundamental para a essência do cristianismo. Tal importância é expressa pelo próprio vocábulo: “JUSTIFICAR”, que carrega o sentido de declara justo diante de Deus“. Isso não significa que uma pessoa, ao ser declarada justa, seja absolutamente sem falhas ou completamente justa no seu proceder, mas que a partir desse momento ela é Posicionalmente Justa, ou livre de culpa do pecado. “A justificação é o pronunciamento do juiz justo de que o homem em Cristo é justo; mas esta justiça é uma questão de relacionamento, e não de caráter ético[7]“.
A Justificação é um empreendimento do próprio Deus, e aparece como o complemento de Deus na obra da Salvação, é uma declaração de Deus a respeito do cristão de que foi feito para sempre justo e aceitável diante de Deus. Segundo a Confissão de Fé de Westminster “a Justificação é um ato da livre graça de Deus, pela qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos à sua vista, somente pela justiça de Cristo, imputada a nós, e recebida pela fé somente”.
Existe estreita ligação entre a Justificação e a Ressurreição de Cristo, pois a ressurreição de Cristo mostrou que a morte como resultado do pecado de Adão, teve seu poder neutralizado. Se a morte foi vencida, segue-se que a culpa foi removida. Assim, a ressurreição é uma prova ou garantia de que o problema da culpa, geradora da morte, foi resolvido. Ora, a Justificação é o termo que se refere ao livramento da culpa. Daí a relação entre a Ressurreição de Cristo e a Justificação dos cristãos. Tal pensamento tem fundamento evidente em Rm.4.25:
…o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.
Diante dos fatos levantados é notório que existe uma ligação entre a Justificação e a Lei, por conseguinte com um Juiz. Sobre isso não há dúvidas, pois Deus não é apenas o legislador, mas o Justo Juiz (2Tm.4.8; Tg.5.9). Logo, o sentido forense da expressão está completo. Mas é válido demonstrar que, diante do Juiz, o justificado tem acesso pela fé a esta graça (Rm.5.2; 9.30), desfruta de um relacionamento de paz com Deus (Rm.5.1) e implica na demonstração de uma conduta concernente com a Nova Posição (Rm.6.7; Tg.2.24).
Adoção
Como já ficou muito evidente, não existe dignidade suficiente no homem que o faça merecer Tão Graciosa Obra da Salvação. Mas, não há tão maior prova de ausência de mérito senão a expressão “eivj ui’oqesi,an” (para a adoção) em Ef.1.5 (cf. Gl.4.5; Rm.8.15), “por que um filho adotado deve sua posição à graça e não ao direito, e, ainda mais, é trazido ao seio da família, passando a ter os mesmos privilégios e deveres de um filho de nascimento[8]“.
Adoção é uma palavra normalmente utilizada no meio romano. Em uma cerimônia legal, o filho adotado era determinado a todos os direitos de um filho natural. É possível que Paulo tenha emprestado este termo para o empregar eficientemente à salvação. A palavra em pauta, na literatura paulina, “descreve os direitos e privilégios como também a nova posição do crente em Cristo[9]“.
Segundo Hendriksen, a adoção vai ainda um pouco além, pois “ela outorga aos seus recipientes não apenas um novo nome, um novo status legal e uma nova relação familiar, mas também uma nova imagem, a imagem de Cristo (Rm.8.29)[10]“.
J.I Packer afirma que no mundo de Paulo a “adoção era ordinariamente de homens jovens de bom caráter, que se tornavam os herdeiros e mantinham o sobrenome dos ricos sem filhos. Porém, o NT proclama a adoção cortesa de Deus a pessoas de mal caráter para se tornar ‘os herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo’[11]” (Rom. 8:17). Mais uma vez é digno de nota que o adotado não tem qualquer mérito pela escolha do “Adotador”, embora possa desfrutar de todos os benefícios e, principalmente, responsabilidades de um filho natural, pois a “soberania divina exclui com eficácia qualquer mérito[12]“.
Paulo ensina que o presente de justificação (i.e., aceitação presente por Deus como o Juiz do mundo) traz com isto o estado de filho por adoção (i.e., intimidade permanente com Deus como o Pai divino da pessoa, Gl. 3:26; 4:4-7). Justificação é a bênção básica na qual adoção é fundada; adoção é a bênção de coroamento para a qual justificação é direcionada. O status de adotado pertence a todos que recebem o Cristo (Jo.1:12). Agora, os crentes estão debaixo do cuidado paternal de Deus e de sua disciplina (Mat.6:26; Hb.12:5-11) e é dirigido, especialmente por Jesus, a viver suas vidas levando em conta o reconhecimento de que Deus é seu Pai celestial. .
Adoção e regeneração acompanham um ao outro como dois aspectos da salvação que o Cristo traz (Jo.1:12-13), mas eles serão distinguidos. Adoção é o favor de uma relação, enquanto regeneração é a transformação de nossa natureza moral. Ainda a ligação é evidente; Deus quer as crianças dele quem ele ama, agüentar o caráter dele, e entra em ação adequadamente.
Santificação
Santificação, segundo o Catecismo Menor de Westminster (Q.35), é “a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão.” O conceito não é que o pecado é totalmente erradicado ou completamente controlado, mas de uma divina mudança de disposições, virtudes, hábitos pecaminosos e caráter, forjados nos moldes de Cristo.
Santificação é uma transformação contínua dentro de uma consagração mantida, e gera real retidão. Por “santo” entende-se aqui como um portador de uma verdadeira semelhança com Deus. Santificação é o estado de ser separado permanentemente para Deus, e aflora desde a cruz, onde Deus, em Cristo, nos comprou e nos conduziu para Ele (At.20:28; 26:18; Hb.10:10). Santificação implica em renovação moral (Rm.8:13; 12:1-2; 1Co.6:11, 19-20; 2Co.3:18; Ef.4:22-24; 1Ts.5:23; 2Ts.2:13; Hb.13:20-21).
A Santificação é a continuação do que foi iniciado na salvação, quando uma novidade de vida foi conferida ao crente e sobre ele instalada. Contudo, é importante saber que a palavra santificação possui dois significados básicos: (1) é uma característica formal de um grupo de pessoas salvas (1Co.1.2; Ef.2.19; 1Pe.2.9); (2) é uma qualidade moral almejável e conseqüência do significado anterior. Assim, os cristãos são Santos, diante de Deus, mas buscam a Santidade em suas vidas.
O conceito correto de Santificação repousa sobre uma tensão muito grande: É uma obra da graça de Deus, mas exige busca pessoal do cristão. Uma ênfase demasiada no primeiro lado dessa tensão, conclui-se que a Santificação é passiva. Da mesma sorte, uma ênfase demasiada no segundo lado dessa tensão, a Santificação passa a ser encarada com um grau meritório, e fruto apenas do esforço humano, o que é impossível. Por isso, deve-se admitir que a santificação é uma obra sobrenatural (1Ts.5.23; cf. Ef.5.26; Tt.2.14; Hb.13.20, 21) da qual o cristão participa ativamente (Gl.5.16, 25; Fp.2.12, 13; Rm.8.13; 12.1, 2, 9, 16, 17). Embora a santificação seja exclusivamente de Deus, o crente é constantemente exortado a trabalhar e crescer nas questões que dizem respeito à salvação.
Sobre esse assunto, é importante ressaltar que a Santificação tem alvo claro: Semelhança com Cristo (Rm.8.29); e é encarada com um progresso, que se inicia na salvação e dura toda a vida do homem.
Perseverança
Diante do que já foi anunciado uma pergunta precisa ser feita: “Aquele que foi justificado, adotado, santificado persistirá para sempre neste estado?”. Ou melhor: “Será um cristão sempre um cristão?”. Ou ainda: “Existe possibilidade de se perder a salvação?”.
Historicamente a resposta para a questão em pauta sempre correu para dois lados distintos: o sim (arminianos) e o não (calvinistas). Diante da lógica é obvio que aquele que é recipiente da salvação, que é iniciada e perfeita por Deus, permanecerá salvo pela graça de Deus. Contudo, não é a mera lógica que sustenta o fato da Perseverança dos Santos, pois existe grande número de evidências bíblicas que testemunham a favor da indestrutibilidade da salvação. 1Pe.1.3-5 é um exemplo desses:
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.
Romanos 8.38-39 também testemunha esse fato:
Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
O próprio Cristo testemunhou essa verdade quando falou que aqueles que o Pai lhe dá, irá até ele e Ele de modo nenhum os jogará fora (Jo.6.37). Neste mesmo trecho é anunciado por Ele que a vontade de Deus Pai é que todo o que crer tenha a vida eterna e seja ressuscitado por Ele no último dia (v.39, 40, 44; cf. Jo.10.27-30).
Assim, nota-se que Cristo não apenas nos concede vida eterna e nos abandona em nosso próprio esforço, mas antes, a obra que foi por Ele iniciada em nós continua até ser completada (Fp.1.6). Paulo testemunha essa fato quando diz: “Não me envergonho, por que sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar meu tesouro até o dia final” (2Tm.1.12).
Em Efésios 2, o conceito correto da salvação é exposto, e no v.4 nota-se que aquele que é salvo é feito assentar nas regiões celestiais com Cristo. Assim, como este poderia ser retirado de onde está, uma vez que tal atividade é realizada a semelhança da experiência de Cristo, testemunhada pouco antes (1.20)? Se o cristão pode ser derrubado de sua posição de assentado nas regiões celestiais, o mesmo espera-se de Cristo, o que é ilógico.
Outro detalhe que é comumente esquecido é que a vida eterna é eterna, no sentido de que não tem mais fim. Assim, como alguém que tem uma vida sem fim pode morrer? Dessa forma, podemos crer, diante da clareza das escrituras, que nossa salvação está garantida perante Deus.
Glorificação
A Glorificação é a confirmação dessa certeza obtida pela doutrina da Perseverança dos Santos. A Glorificação é o estágio final da salvação e é aplicado a todos os salvos incondicionalmente. Essa doutrina impulsiona a Perseverança no texto de Rm.8.28, 30:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
Se analisado com cautela o texto, notar-se-á que todos os verbos relacionados a Salvação são ativos e reportam para uma atividade realizada por completo no passado: Conheceu, Predestinou, Chamou, Justificou, Glorificou. Ou seja, aquele que é salvo, já era conhecido por Deus e predestinado por ele para a salvação, mesmo que ainda seria chamado, justificado e glorificado. O que nota-se com clareza aqui é que Deus, quando resolveu conceder salvação eterna aos homens ele o fez de maneira completa. Logo, aquele que já foi Predestinado para salvação, já está Glorificado, mesmo que isso seja um evento futuro.
Fim da Lei
Com relação à Lei e a sua validade, é necessário ter muita cautela em fazer uma afirmação, pois o tema é delicado e tem implicações muito complexas para a práxis cristã e para uma teologia saudável. Anunciar o Fim da Lei em Cristo, não é uma questão de dizer que ela não tem mais validade, ou que em Cristo não se necessita mais dela. Portanto, é necessário compreender a expressão: “te,loj ga.r no,mou Cristo.j” (télos gar nomou Cristós: Por que o fim da Lei é Cristo, Rm.10.4).
A mesma palavra grega utilizada para “fim” em Rm.10.4, é utilizada em Rm.6.21-22, como se lê: “Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna”. Ou seja, se Cristo é o fim (télos) da Lei, pode-se dizer que Cristo é o alvo final da Lei. Logo, pode-se dizer que a primeira possibilidade a respeito de Cristo ser o fim da Lei é esta: A Lei teve Cristo por alvo, ou testemunhava a seu favor (Calvino). Por outro lado, o vocábulo ainda pode ser utilizado com o sentido de completar, cumprir, como se lê em Lc.22.37, que diz: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido“. A idéia expressa pelo vocábulo neste texto sugere a idéia de completar ou cumprir, o que pode ser aplicado a Cristo, que veio para cumprir a Lei: “não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt.5.17b). Assim, pode-se afirmar que outra possibilidade é esta: Em Cristo a Lei foi completa ou cumprida, ou teve suas exigências satisfeitas (Hodge).
Contudo, a tônica em Romanos não parece estar voltada para nenhuma dessas possibilidades, antes direcionada para a idéia de que em Cristo, a lei teve seu término. Com essa afirmação concordam Ryrie, John Sttot, F.F Bruce e L.S. Chafer. Ryrie, sobre esse assunto, afirma:
A declaração de Paulo em Romanos 10.4, dizendo que Cristo é o fim da lei, pode ser entendida como término ou propósito. Em outras palavras, ou Cristo terminou com a lei ou o propósito da vinda de Cristo era cumprir a lei. No entanto, término claramente parece ser o significado nesse contexto, por causa do contraste (iniciado em 9.30) entre lei e a justiça de Deus[13].
John Sttot afirma:
Telós pode ter dois significados. Um é “fim” no sentido de alvo, ou “completar algo”, significando que a lei apontava para Cristo e que ele a cumpriu. Ou então poderia significar poderia significar um “fim” no sentido de “terminalidade” ou “conclusão”, indicando que Cristo aboliu a lei. Paulo com certeza se refere a este último sentido[14].
F.F. Bruce diz:
Cristo é a terminação da lei no sentido de que, com Ele, a velha ordem, da qual a lei fazia parte, foi eliminada, para ser substituída pela nova ordem do Espírito[15].
Deve-se ter em mente que as idéias que mencionadas anteriormente, não são de todo excluídas, mas antes não se restringe a elas o significado da Obra de Cristo em relação a Lei. Pois, não se pode se negar que a Lei testemunhou a respeito de Cristo (Jo.12.4; Gl.3.24) ou que em Cristo ela é Satisfeita (Rm.3.29-31). Contudo, não se retira de Rm.10.4 essas idéias. Assim, o que se pode dizer sobre a Obra de Cristo em relação a Lei, é uma das conseqüências dela é o Término da Lei (At.15.10, 24; Rm.3.21, 22; Gl.5.1, 4, 13).
Significados da Obra de Cristo
A verdade é que o significado total da morte de Cristo não pode ser resumido em apenas uma ou duas frases. Porém, é igualmente verdade que seu significado central pode e deve estar centrado em algumas idéias fundamentais[2]
A verdade estampada por Ryrie não pode ser contrariada, e sobre essa afirmação é que se sustenta a abordagem sobre o significado da Obra de Cristo. Assim, podemos facilmente considerar quatro significados principais para essa Obra: (1) A morte de Cristo foi em substituição dos pecadores; (2) foi uma redenção para os pecados; (3) uma reconciliação do homem para com Deus; (4) e uma propiciação pelo pecado.
A Morte de Cristo foi em lugar dos pecadores
Neste ponto é válido recordar algumas verdades: (1) Quando o homem caiu e se afastou de Deus, ficou em débito eterno para com Deus; (2) Contudo, a única maneira de o homem pagar por essa dívida, era sofrendo eternamente a penalidade fixada pela transgressão; (3) É também importante perceber que, o cumprimento dessa penalidade, é o que Deus deveria exigir por uma questão de justiça, e teria exigido, se não tivesse agido com amor e compaixão do pecador.
Assim, nota-se que o homem, por si só não poderia resolver seu problema ou pagar sua dívida diante de Deus, a não ser que um substituto fosse providenciado, o que está fora do alcance do homem conseguir. Contudo, está dentro do Plano Histórico de Deus conceder esse Substituto. Isso é observado desde Gn.3.15, como já observamos. E, de fato, Deus designou um substituto na pessoa de Jesus Cristo para tomar o lugar do homem, e este substituto expiou o pecado e obteve eterna redenção para o homem.
Essa atividade, dentro da Teologia, é chamada de “Expiação Vicária“, que pode ser entendida como “Substituição Penal“. E não é sem provas que se admite essa realidade, pois “a Bíblia certamente ensina que os sofrimentos e a morte de Cristo foram vicários, e vicários no sentido mais estrito da palavra, que Ele tomou o lugar dos pecadores, e que a culpa deles lhes foi imputada e a punição que mereciam foi transferida para Ele[3]” [Lv.1.2-4; 16.20-22; 17.11; Is.53.6, 12; Mt.20.28; Mc.10.45; Jo.1.29; 11.50; Rm.5.6-8; 8.32; 2Co.5.14, 15, 21; Gl.2.20; 3.13; 1Tm.2.6; Hb.9.28; 1Pe.2.24[4]].
Assim, uma definição simples com relação a esse aspecto da Obra de Cristo pode ser assim anunciada: “Cristo é o substituto proposto legalmente por Deus para assumir o débito moral do homem em seu lugar, de modo que pôde providenciar um benefício eterno para este, para que o homem não tivesse mais que suportar o fardo da condenação do pecado”. Nosso texto base é obviamente 2Co.5.14, 15, 21:
Pois o amor de Cristo nos compele, julgando nós isto: Ele morreu em lugar de todos, logo todos morreram. E ele morreu em lugar de todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que em benefício deles morreu e ressuscitou. Aquele que não conheceu o pecado, fez-se pecado em nosso lugar, para que fossemos feitos justiça de Deus.
A Morte de Cristo foi para Redenção dos Pecados
A redenção é um aspecto da morte de Cristo sobre a cruz, que é ligado ao pecado e restrito em seu significado. Como substituição tem o sentido de assumir a culpa, a redenção tem sentido de pagar essa culpa assumida. Ou seja, a redenção é aplicada no que diz respeito ao pecado e o débito que ele causa, que pode apenas ser pago com sangue (Hb.9.22 cf. Lv.17.11). Logo, para que o preço de pecado pudesse ser pago, era necessário derramamento de sangue de um Cordeiro sem máculas. Essa era exigência colocada na história da redenção, que tem seu significado completo em Cristo (Jo.1.29; cf. Is.53.9; 1Pe.2.21-22).
No Antigo Testamento podemos perceber que o sentido de redenção é aplicado, não somente a pessoas, mas também a posses, como terras e animais (Lv.25.25, 47, 48). A idéia expressa nesse contexto é de prover liberdade através do pagamento de um resgate.
Um ponto interessante no VT é que existe a idéia de um Redentor-Parente, como no caso de Boás, que foi o redentor parente da Família de Noemi em benefício de Rute (Rt.3.9; cf. Os.3.15; Is.43.3, 10-14). É possível que isso tenha implicações com a Obra de Cristo, como se Ele, como homem que é, fosse o Redentor da Raça humana. Segundo Chafer, esse aspecto “é uma exigência básica que o Filho de Deus trouxe do céu para a terra e tornou necessária a encarnação para Ele pudesse ser um perfeito Redentor-parente[5]“.
Em Ex.21-1-6 (cf. Dt.15.15-17), podemos perceber que no VT um escravo tinha vida de serviço de 6 anos, sendo que no sétimo ele deveria ser solto. Contudo, se este entrasse solteiro para servir seu senhor, e este lhe desse uma esposa, quando ele saísse deveria deixar a esposa e os filhos que tivesse com ela. Contudo, se ele amasse sua esposa, seus filhos e seu senhor, ele voluntariamente aceitaria servi-lo até sua morte. Ou seja:
Um escravo liberto por seu senhor era totalmente livre; mas ele podia voluntariamente permanecer com seu senhor, a quem ele amava.
Alguns textos que testemunham as verdades acima anunciadas: [Ex.13.12; 21.28; 30.12; Nm.18.15-17; Sl.130.8; Is.59.20]
No NT podemos ressaltar três vocábulos que auxiliam a compreensão dessa verdade: avgora,xw( lutro,w e peripoioumai:
avgora,xw: A idéia expressa por esse vocábulo é de comprar (Mt.13.44, 46; 14.15; Mc.6.36; Lc.9.13; cf. LXX Gn.41.57, 42.5, 7; Dt.2.6) Este vocábulo é aplicado à soteriologia neotestamentária de maneira interessante. Observe o texto de 1Co.6.20: “Por que fostes comprados por preço” (cf. 1Co.7.23). A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2.1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1Co.6.19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “evx”, formando o vocábulo “evxavgora,xw”. Em Gl.3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “evx” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra.
lutro,w: É um termo muito utilizado no NT e significa basicamente que o redimido é desatado e liberto. Mas isso ocorre apenas quando é recebido o pagamento do preço do resgate. Assim, por meio do pagamento, o redimido é desatado e está livre. Mt.20.28 testemunha esse fato: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. LXX: Ex.30.11-16; Lv.25.31, 32; Nm.2.46-51; NT: Lc.1.68; 2.38; 24.21; Tt.2.14; Hb.9.12; 1Pe.1.18,19). Neste caso, como com “avgora,xw”, é possível encontrar o termo preposicionado: “avpolutrw,sij”. Seu significado é basicamente redenção, seguindo mesmo rumo do verbo em pauta (Lc.21.28; Rm.8.23; Ef.4.30 – prisma escatológico; Rm.3.24; Ef.1.7, 14; Cl.1.14; Hb.9.14 – prisma de libertação de incrédulos; 1Co.1.30 – sentido geral).
peripoioumai: Esse vocábulo ocorre apenas uma vez, e é aplicado ao Sacrifício de Cristo: At.20.28.
Portanto, deve ser observado que a doutrina da redenção mostrada pelo NT é um cumprimento completo da verdade mostrada em sombras no AT, de que há um sentido em que o preço é pago, mas o escravo não é necessariamente liberto (que é o estado de todos por quem Cristo morreu que ainda não são salvos) e que, por uma realização mais profunda e abundante da redenção, o escravo pode ser solto e liberto (que é o estado de todos que são salvos). A relação dos não salvos com a verdade de que, pela sua morte, Cristo pagou o preço do resgate, é crer no que está declarado como verdadeiro. A relação dos salvos com a verdade de que, por sua morte, Cristo liberta, é reconhecer essa liberdade maravilhosa e, então, pela rendição de si mesmo, tornarem-se escravos voluntários do redentor.
Se Cristo deu sua vida por mim, o mínimo que posso fazer é dar a minha a ele.
A Morte de Cristo foi para reconciliar o Mundo Consigo
A idéia de reconciliação é completamente neotestamentária, e só pode ser real por meio da Obra de Cristo. A reconciliação é necessária pelo fato de que o homem sem salvação vive em uma relação de inimizade e hostilidade com Deus (Rm.5.9, 10; cf. 2Co.5), e, como inimigos de Deus está plenamente passível de sofrer a manifestação de Sua Ira. Contudo, o cenário não assim deixado, pois vemos que Deus propõe uma resolução para esse problema por meio da morte do Senhor Jesus (Rm.5.10). Assim, fomos aproximados a Deus, pois Cristo mudou completamente nosso estado anterior de inimizade e substituiu por um de Justiça e de completa harmonia com Deus (2Co.5.18-20).
[Rm.5.10; 11.15; 2Co.5.18-21; Ef.2.16; Cl.1.20-21
A Morte de Cristo foi para Satisfazer a Ira de Deus pelo Pecado
Como já foi demonstrado anteriormente, Deus demonstra sua Justa Ira para com o pecado (Jo.3.36; Rm.1.18-32; Ef.2.3; 1Ts.2.16; Ap.6.16; 14.10, 19; 15.1, 7; 16.1; 19.15), de forma que, qualquer que seja a atitude desse Deus absolutamente Santo contra o pecado, é completamente justo e aceitável, pois, devido a seu caráter Santo, não pode deixar impune o mal, nem tão pouco fingir que ele não existe, ou que não tem importância. Por sua Justiça e Santidade deve puni-lo. Contudo, em Cristo é providenciada uma oferta "propiciatória" e assim a Ira de Deus contra o pecado é apaziguada. Logo, pode-se dizer que a Morte de Cristo, além de Substitutiva, Redentora, Reconciliadora, é também Propiciatória, pois satisfaz a Ira de Deus pelo pecado.
Aqui três textos devem ser demonstrados:
Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (1Jo.2.1-2)
[Jesus Cristo] a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm.3.25)
e sobre ela, os querubins de glória, que, com a sua sombra, cobriam o propiciatório. (Hb.9.5a)
Em todos os textos mencionados podemos encontrar formas derivadas do termo grego “i’lasth,rion” (hilastérion), que tem por significado básico “propiciação”. Contudo, no primeiro texto podemos entender o termo como “aquele que propicia” (cf. 1Jo.4.10 – Sobre a questão da abrangência eficiente desse aspecto da salvação). Já no segundo caso a termo denota a idéia de “lugar da propiciação” (cf. LXX: Ex.25.17-22; Lv.16.14.15). Essa idéia é claramente exposta no terceiro texto. Ou seja, Cristo não é apenas a oferta como também o lugar onde se faz a oferta, como sugere os textos citados.
O significado dessa oferta vem desde o VT, e “em qualquer lugar que pudesse estar o propiciatório no Tabernáculo, tipicamente, era para o israelita aquilo que Cristo é, realmente, para o crente e para Deus[6]” (Dt.13.15-17; Jn.3.7-10; Sl.78.38; Is.48.9).
02.10.09
Profecias Messiânicas Cumpridas por Cristo
Profecias Messiânicas Cumpridas por Jesus
| Trecho Bíblico | Teor da Profecia | Cumprimento |
|
Gn. 3.15 |
Seria o “descendente da mulher”. |
Lc.2.7; Gl.4.4 e Ap.12.5 |
|
Gn.12.3 |
Seria o “descendente de Abraão” |
Mt.1.1; Lc.3.34; At.3.25 |
|
Gn.17.19 |
Seria o “descendente de Isaque” |
Mt.1.2; Lc.3.34 |
|
Gn.28.14 e Nm.24.17 |
Seria o “descendente de Jacó” |
Mt.1.2,3; Lc.3.33 |
|
Gn.49.10 |
Descenderia de Judá |
Mt.1.2,3; Lc.3.33 |
|
2Sm.7.13; Is.9.7; 11.1-5 |
Herdadria o Trono de Davi |
Mt.1.1, 6 |
|
Mq.5.2 |
Nasceria em Belém de Judá |
Mt.2.1; Lc.2.4-7 |
|
Dn.9.25 |
Tempo de Seu nascimento |
Lc.2.1-3, 7 |
|
Is.7.14 |
Nasceria de uma Virgem |
Mt.1.18; Lc.1.26-35 |
|
Jr.31.15 |
O massacre dos infantes |
Mt.2.16-18 |
|
Os.11.1 |
Fuga para o Egito |
Mt.2.14-15 |
|
Is.9.1,2 |
Seu ministério na Galiléia |
Mt.4.12-16 |
|
Dt.18.15 |
Seria Profeta |
Jo.6.14; At.3.19-26 |
|
Sl.110.4 |
Seria Sacerdote da Ordem de Melquisedeque |
Hb.5.5-6; 6.20 e 7.15-17 |
|
Sl.2.2; Is.53.3 |
Seria rejeitado pelos judeus |
Lc.4.29; 17.25; 23.18; Jo.1.11; 5.43 |
|
Sl.45.7; Is.11.2-4 |
Algumas de suas Característacas |
Lc.2.52; 4.18 |
|
Is.62.11; Zc.9.9 |
Sua entrada triunfal |
Mt.21.1-11; Jo.12.12-14 |
|
Sl.41.9 |
Seria Traido por um amigo |
Mt.26.1416; Mc.14.10, 43-45 |
|
Zc.11.12, 13 |
Seria vendido por trinta moedas |
Mt.26.3-10, 25 |
|
Sl.109.7-8 |
Judas seria substituido |
At.1.16-20 |
|
Sl.27.12; 35.11 |
Testemunhas falsas o acusariam |
Mt.26.60, 61 |
|
Sl.38.13, 14; Is.53.7 |
Calar-se-ia ao ser acusado |
Mt.26.62, 63; 27.12-14 |
|
Is.50.6 |
Seria ferido e cuspido |
Mc.14.65; 15.17; Jo.18.22; 19.1-3 |
|
Sl.69.4; 109.3-5 |
Seria odiado sem causa |
Jo.15.23-25 |
|
Is.53.4, 12 |
Sofreria Vicariamente |
Mt.8.16, 17; Rm.4.25; 1Co.15.3 |
|
Is.53.12 |
Seria cricificado com criminosos |
Mt.27.38; Mr.15.27-28; Lc.23.33 |
|
Sl.22.16; Zc.12.10 |
Teria mãos e pés transpassados |
Jo.19.37; 20.25-27 |
|
Sl.22.6-8 |
Seria Zombado e Insultado |
Mt.27.39-44; Mc.15.29-32 |
|
Sl.69.21 |
Dar-lhe-iam vinagre |
Mt.27.34, 48; Jo.19.29 |
|
Sl.22.8 |
Ouviria palavras proféticas repetidas com zombaria |
Mt.27.43 |
|
Sl.109.4; Is.53.12 |
Oraria pelos inimigos |
Lc.23.34 |
|
Sl.22.18 |
Soldados lançariam sorte quanto à sua túnica |
Mc.15.24; Jo.19.24 |
|
Ex.12.46; Sl.34.20 |
Nenhum dos seus ossos seriam quebrados |
Jo.19.23 |
|
Is.53.9 |
Seria sepultado com o rico |
Mt.27.57-60 |
|
Sl.16.10 e Mt.16.21 |
Ressuscitaria dentre os mortos |
Mt.28.9; Lc.24.36-48 |
|
Sl.68.18 |
Ascenderia aos lugares celestiais |
Lc.24.50; At.1.9 |
Cristo poderia pecar?
Não Poderia Pecar ou Poderia não Pecar?
Possibilidades:
Reconhecidas pela História da Teologia Cristã
- Existência exclusiva da realidade humana em Cristo:
- Seria como Adão
- Sem pecado,
- Com possibilidade para pecar
- Não efetuaria Eterna Redenção pelo Pecado
- Existência exclusiva da realidade da divindade de Cristo:
- Seria Deus
- Não Encarnado
- Sem possibilidade de pecar
- Não redimiria a Raça Humana
- Existência completa afirmada pela União Hipostática[1]:
- Seria o Cristo prometido;
- Sem Pecado
- Poderia não Pecar / Não Poderia Pecar
- Efetuaria Eterna Redenção Redimindo a Humanidade
Verdades inegociáveis:
Afirmadas pelas Escrituras e ratificadas pela História da Teologia Cristã
- Jesus é plenamente Homem e plenamente Deus
- Homens podem e são tentados
- Deus não pode, não é e não será tentado pelo Mal (Tg.1.13)
Fatos Observáveis:
Pela demonstração Histórica dos Relatos Inspirados.
- Jesus foi tentado (Mt.4.1ss; 16.1ss; 19.3ss; Lc.4.2; Jo.8.6)
- As tentações foram reais
- Jesus jamais pecou (Hb.4.15)
- Deus foi tentado (Ex.17.2 7; At.15.10)
- As tentações são reais
- Deus jamais pecou e jamais pecaria (1Jo.1.5)
Realidade da Tentação
Fatos reais na experiência Cristã.
- Origem: Na cobiça (sedução e atração)
- Resultado Imediato: Concebe o pecado
- Resultado Intermediário: Dá a luz ao Pecado
- Resultado Final: Gera a morte (Tg.1.13-15)
Realidade da Cobiça:
epithumeö (gr.): Ter grande desejo para possuir algo; Ter demasiado interesse sexual por alguém.
peirázö (gr.): Realizar um teste para descobrir a natureza ou caráter de algo ou alguém.
- Ex.20.17: Ordem para não Cobiçar bens materiais ou pessoas
- A Ordem é a Expressão do Caráter e da Vontade de Deus
- A Violação da Ordem é a Violação do Caráter e da Vontade de Deus
- Por esta razão é que cobiçar é pecado
- Mt.5.28: Relacionado ao Sexo não consumado (imaginado; suposto)
- Está além do ver;
- Está ligado ao ver (ouvir,sentir)
- É um pecado que se perfaz internamente
- Rm.7.7: Reconhecimento da origem do pecado
- A Lei apresenta o pecado
- O Reconhecimento do pecado vem com a identificação da Cobiça
- Embora interna, é o pecado origem de outros pecados
Por que a Premissa “Poderia não Pecar” não é aceitável?
- As tentativas do Diabo seriam Infrutíferas de qualquer forma.
- A tentação necessita da cobiça pessoal para ser perfeito
- Se houvesse possibilidade de que Jesus cobiçasse algo, a tentação poderia ter sido completa;
- Portanto, para defender que Jesus poderia ter pecado é necessário afirmar que ele teria possibilidade de Cobiçar algo;
- Pedra em Pão: A primeira tentativa do Diabo na tentação de Jesus foi oferecer uma proposta para satisfazer sua fome, afinal estava a 40 dias no deserto sem comer. Será que isso teria excitado a cobiça de Cristo a ponto de pensar no caso?
- Base Jump Do Pináculo: A segunda tentativa foi pedir que Jesus se jogasse do alto do Pináculo para que os anjos o segurassem. Isso certamente não era nada cobiçável.
- Ter todo Domínio dos Reinos: Na terceira e última tentativa o Diabo oferece algo que não era seu em troca da adoração. Ou seja, é como eu dar um Civic pra cada um dos que beijarem meu pé. Ainda que a proposta possa ser atraente a princípio, todos sabem que não posse dar o que prometi. Isso certamente não foi provocou a cobiça de Jesus;
- As investidas do Diabo eram fundamentadas no não conhecimento de Jesus.
- Todas as abordagens do Diabo a Jesus iniciam-se com a partícula “SE”.
- Ora, em duas situações são aceitáveis o seu uso: (1) Na tentativa de colocar em dúvida quem é questionado; ou (2) Ter dúvida com relação a resposta a pergunta que se faz
- Em qualquer dos casos desconhecia-se quem era Jesus.
- Jesus era consciente de sua posição, obra e missão
- Esta consciência é observável antes da encarnação
- Como parte do cumprimento teria que passar por dor e sofrimento, e inda que não quisesse passar, sabia que era necessário
- Portanto é certo que não deixar-se-ia levar por tão pouco.
- Jesus é Perfeito (Ausente de ausências)
- As escrituras afirmam que o homem que domina sua língua é Perfeito (Tg.3.2)
- Cristo é reconhecido como alguém em quem não se pode encontrar dolo na sua boca (1Pe.2.22);
- Portanto Cristo não tem defeitos ou falhas. Nada lhe falta.
- A impecabilidade de Cristo havia sido prometida
- Aquilo que é prometido por Deus nas Escrituras não tem possibilidade de não se cumprir.
- A impecabilidade de Cristo foi anunciada pelos profetas (Is.53.9)
- Segue-se que era impossível que Cristo pecasse..
Excurso Exegético
As afirmações de onde podem-se tirar a conclusão de que Cristo “poderia não pecar” não foram observadas.
- Hb.4.15: Texto utilizado para demonstrar a abrangência das tentações de Cristo, que não aconteceram exclusivamente nos 40 dias no deserto. “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (ARA)
- Todas as Coisas: Essa expressão aponta para o fato de que não houve circunstância em que Cristo não tenha sido tentado. Logo, não existe situação em que não possa nos socorrer.
- À nossa semelhança: Tal como nós. A idéia da construção grega é que ele foi tentado em situações similares.
- Sem pecado: Aqui existem duas possibilidades de interpretação:
- Que Cristo passou por tudo o que passamos, mas sem pecar
- Que Cristo passou por tudo o que passamos, mas sem o acréscimo depreciador do pecado. Tal opção parece mais plausível, visto que o termo grego é um substantivo e não um verbo. Com esta identificação fica ainda mais evidente a partícula anterior, de que Cristo foi tentado em situações similares e não idênticas.
- Tentado: O sentido do termo grego para tentar não é provocar ao pecado ou ainda, convidá-lo à prática do pecado, mas experimentar, testar, aprovar. Ou seja, Cristo foi experimentado em tudo a nossa semelhança, por isso pode nos auxiliar. (O termo foi traduzido como gerúndio, por ser um acusativo, masculino, singular, no perfeito do particípio ativo de peirázo. É possível que um uso adverbial de causa seja melhor aplicado)
- Hb.5.7-10: Texto utilizado para apresentar a Cristo como em uma crescente moral, onde vem a tornar-se perfeito pelo sofrimento e por isso, pode ser Autor da Salvação. Ou seja, poderia ter sucumbido moralmente, mas não o fez, por isso pode o Salvador. “Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”
- Aprendeu a Obediência: O termo grego para “aprender” é “mantano”. A idéia do termo é ensinar, descobrir, aprender pela experiência. A experiência é fator importante em um aprendizado. Portanto, diz-se que Cristo aprendeu pela experiência da Obediência. A descrição dos evangelhos nos apresenta Cristo em clamor e lágrimas, orações e súplicas a Deus, que o podia livrar da morte, inda que soubesse qual era a vontade de Deus. Essa identificação com a humanidade não detrata sua Perfeição Divina, antes, Ele mesmo pôde experimentar nosso sofrimento.
- Tendo sido aperfeiçoado: Ser aperfeiçoado corresponde ao termo grego “teleioo”, que é traduzido como Realizar, Consumar, Aperfeiçoar, Completar. Ou seja, o sofrimento experimentado por Cristo o possibilitou a Completar, Consumar a Realizar a Obra que lhe estava proposta.
- Tornou-se:o Verbo “gnomai” é o responsável pela construção do sentido de “vir a ser” apresentado no texto, embora não sugira que houve tempo em que Cristo não fosse perfeito ou Autor da Salvação Eterna, mas que pelo progresso de sua vida e sua constante aprovação diante das “tentação” (ou provas) ele é reconhecido como Apto a ser a “Causa” da Salvação Eterna. Ou seja, o que não é causado por Cristo, não pode ser a Salvação Eterna, da qual ele é o Autor.
[1] União Hipostática é a expressão que descreve a existência de duas naturezas distintas, juntas e sem mistura, humana e divina, na pessoa única de Jesus Cristo, de forma que sua humanidade não diminuiu sua divindade, bem como sua divindade não detratou sua humanidade (Marcos Mendes Granconato)
Cristo – Conforme apresentado pelas Escrituras
1. Jesus é o Cristo prometido em todo o Velho Testamento: Gn.3.15; Ex.15.18; Sl.2.6-12; 16.8, 22.1, 7; 45.6-7; 110.2; Is.9.6 Is.52.3-12; Jr.23.6; Dn.7.13; Mq.5.2; Zc.13.7; Ml.3.1
2. Preexistente com Deus desde a Eternidade passada: Jo.1.1-2, 8.58, 17.5;
3. Co-participante ativo na Criação do Mundo: Jo.1.3, 10; 1Co.8.6; Cl.1.16; Hb1.1-3
4. Filho de Deus: Mt.4.3, 16.16-17; Jo.5.17, 22, 17.1, 20.28; Gl.4.4; Fp.2.6
5. É acima de Tudo e Todos: Ef.1.21; Hb.1.4
6. Nascido em sua encarnação: Mt 26:12; 8:24; 21:18; Lc 22:44; 1 Co 15:3; Jo 4:6
a. Virginalmente: Is.7.14; Mt 1:18; Lc.1.27
b. de Maria: Mt 2:11, 12:47; Lc.1.27; Gl.4.4-5
c. Concebido pelo Espírito Santo: Mt.1.18, 20, 24-25; Lc.1.35; 3.23
d. Como homem: Mt.1.1; Mt.4.2; 11; Lc.2.7, 40, 52; Jo.8.40; Jo.4.6; 19.28; At.2.22; Rm5.15; 1Co.15.21; ITm.2.5
e. Como Deus: Mt.1.17, 3.17, 8.29; Lc.1.35; Jo.1.1, 10: 28, 30, 17.21; Hb.1.8, 13.8; Ap.1.8
7. Esvaziou-se na encarnação de Sua Glória e do exercício pleno de Sua Soberania assumindo forma de Servo: Jo.17.1, 5; Fp.2.5-7; Hb.12.2
8. Sem cometer qualquer pecado: Is.53.9; Jo.4.34, 8.12, 46; Lc.1.35; 4.13; Jo.8.29; 46; At 2.17; 3:14; 4.30; 7.52; 13.35; Rm.8.3; 2Co.5.21; Hb.4.15; 7.26; 1Pe.1.19; 2.22, 3.18; 1Jo.3:5 (Jo.8.12 + 1Jo.1.5)
9. Realizou a expiação pelos pecados do mundo (1Jo1.22) através de sua morte: Jo 10:17,18; 1Co 5:7; 1Pe 3:18
10. Ressuscitou: Mt 28:5,8,9; Lc 23.46; 24:34, 39; 42; Jo 16.28; 17.11; 20:16-17, 20, 26, 27,29; 21.9;, 13; 1Co.15.1-3; 2Tm 2:8
11. Subiu aos céus: At.1.8-10, Ef.4.8-10
12. Voltará: At.1.11; 1Ts.4.13-18; Ap.21.1-8; 22.1-5.
[1] União Hipostática é a expressão que descreve a existência de duas naturezas distintas, juntas e sem mistura, humana e divina, na pessoa única de Jesus Cristo, de forma que sua humanidade não diminuiu sua divindade, bem como sua divindade não detratou sua humanidade (Marcos Mendes Granconato)
06.18.08
Evidências da Humanidade de Cristo em 1João
Em primeira João percebemos claramente o grande foco colocado sobre Cristo. As exortações e ensinos de João nesse livro em grande parte estão fundamentados na pessoa, obra e caráter de Cristo: As implicações sobre a vida cristã estão fundamentadas em Cristo (2.4-6), a exortação contra os falsos mestres é centrada na concepção correta da pessoa de Cristo (2.18-23; 5.6, 9), a prática do amor entre os cristão está fundamentado na Obra de Cristo a nosso favor (3.16), a centralidade da fé cristã está em Cristo (3.23; 4.2-3; 4.14-15; 5.1, 5; 5.11-12; 5.20), a manifestação do amor de Deus é reconhecida na auto-doação de Cristo em nosso benefício (4.9-10) entre outras considerações sobre Cristo.
O que vemos nesse fato é que a Pessoa de Cristo estava sob ataque e consequentemente a fé cristã. Portanto, era necessário que João investisse seu tempo para escrever uma carta que pudesse auxiliar os cristãos a buscarem uma vida adequada diante de Deus e da correta compreensão da Pessoa de Cristo. Talvez seja por essa razão que encontramos tantas referências a Cristo, seja por sua Obra, Caráter ou Pessoa.
Como já foi dito, a concepção cristã sobre a Pessoa de Cristo não teve muitas dificuldades em apresentar Deus como divino, embora seja esse o alvo de maior ataque dos anti-cristãos. Mas, compreender a necessidade de sua humanidade era uma tarefa pouco realizada. João em sua primeira epístola o faz de modo claro e convincente. Observe a introdução de sua epístola: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida” (1.1). Eventualmente enfatizamos as características divinas de Cristo nesse verso, visto que o texto parece iniciar desse modo. Entretanto, os verbos de ação atribuídos a Cristo, o que era desde o princípio divino, sugerem participação ativa como humano entre homens.
Nesse verso temos uma seqüência interessante de verbos e informações sobre Cristo que atestam sua humanidade sem detratar sua divindade. Os dois primeiros verbos (ouvir: akouö – ver: opaö) estão no perfeito indicativo ativo ao passo que os dois próximos verbos (contemplar: theáomai – apalpar: pselafaö) estão no aoristo indicativo ativo. Essa construção sugere uma seqüência de ações decrescente, do atual ao antigo. Essa é uma declaração baseada no uso do verbos ouvir como um perfeito intensivo, do verbo ver como um perfeito consumativo e dos verbos contemplar e apalpar como aoristo constatativo. É por isso que os primeiros dois verbos trazem a sensação de ação realizada no presente, ao passo que os outros atestam claramente uma ação realizada indefinidamente no passado.
Ou seja, embora Cristo já não estivesse mais fisicamente próximo a João, ele ainda o podia ouvir. Três possibilidades podem ser vistas aqui: (1) Ou vemos nessa sentença parte do cumprimento da promessa de Cristo de estar com os cristãos até o fins dos tempos (Mt.28.20); (2) vemos que o impacto causado pelo ensino de Cristo ainda era presente na vida de João e sua memória o ainda o remetia à mensagem de Cristo ou (3) as duas possibilidades são verdadeiras ao mesmo tempo. De qualquer forma, na memória de João ainda era vívida a mensagem de Cristo, bem como sua pessoalidade humana e divina, como o primeiro verso dessa epístola testemunha muito bem.
A questão da visão com próprios olhos tem duplo objetivo na introdução dessa epístola: (1) ratificar sua posição como testemunha ocular de Cristo, diferente dos falsos mestres que surgiram ao redor dos cristãos e certamente (2) defender sua humanidade integral. Cristo não se parecia com um homem, era visto como tal perante aqueles que ante dele estiveram. O perfeito consumativo no verbo ver reforça a idéia de uma ação concluída e definida na mente daquele que escreve. Assim, a sentença “o que temos visto com os nossos próprios olhos” é uma declaração da presença física de Cristo entre os apóstolos (e certamente entre seus seguidores).
Já o verbo “contemplar” tem peso significativo nessa sentença. Se João intencionasse apenas apresentar a “visibilidade” de Cristo, o verbo “ver” teria sido suficiente, por que, então, anexar na mesma sentença outro verbo que diria o mesmo? O verbo grego “theáomai” que traduzimos por contemplar anexa em sua gama de significado o conceito de atenção. Ou seja, mais do que visto, Cristo foi contemplado atentamente por João pessoalmente. Isso é evidente quando somamos a esse testemunho de João seu evangelho. O tempo que teve disposto para estar com Cristo foi suficiente para que ele considerasse sua contemplação atenciosa como evidência de sua humanidade. O fato de que João usa esse verbo no aoristo constatativo contínuo no passado atesta a evidência histórica, pois sugere que essa ação não foi realizada em um único evento, mas durante em período de tempo não determinado no passado. Mesma conotação que encontramos com o verbo “apalpar” na seqüência.
Entretanto, o argumento em prol da humanidade de Cristo nesse verso ganha incrível força quando soma-se os argumentos já apresentados aos significado de verbo “pselafaö” (apalpar). Esse verbo é usado em referência a capacidade tátil do ser humano, uma de suas fontes de conhecimento e percepção. Ou seja, afirmar que Aquele que era desde o princípio é alguém que poderia ser tocado é uma afirmação definitiva sobre a correta compreensão da Pessoa de Cristo, Deus-Homem entre nós. Aqui fica evidente que Cristo, na percepção de João, era mais que um espírito desencarnado como alguns falsos mestres pareciam sugerir, era um ser humano real, que poderia ser visto, ouvido e contemplado atenciosamente[1].
Ou seja, para João a humanidade de Cristo era real e como testemunha ocular desse fato ele atesta e ensina essa verdade com o objetivo de instruir os cristãos e protegê-los dos ensinos falsos que rondavam seus leitores primários. Um dos exemplos desse tipo de ensinamento era que Jesus teria sido habitado temporariamente pelo Cristo (divino) no batismo e que ele havia o deixado na crucificação, ensino comumente encontrado nos escritos gnósticos. Entretanto, João confronta esse pensamento para defender a integralidade da pessoa de Cristo quando diz: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue” (5.6)[2]. Quando João fala em água e sangue tem em mente que Jesus Cristo era o mesmo no batismo e na morte. Não há possibilidade para João que Jesus, o ser humano, tivesse sido possuído pelo Cristo, o ser divino, no batismo e o deixado na morte. Para ele Jesus Cristo é o mesmo em ambas as situações.
Outro detalhe importante sobre a visão de João sobre a teologia cristã é que a humanidade de Cristo era uma necessidade real, por isso em sua epístola chega a afirmar: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus[3]” (4.2). Independente da referência que se faça nesse texto, é evidente que para João a humanidade de Cristo não era apenas central para a teologia cristã ou para a concepção correta da pessoa de Cristo, mas para a salvação. Aqueles que não aceitam a humanidade do Filho de Deus não podem pertencer a Deus, e aquele que não tem o Filho não tem o Pai. As implicações soteriologicas da verdade sobre Cristo são certamente o ponto mais importante da mensagem dos apóstolos e deve ser mantido por nós.
Ou seja, a humanidade de Cristo é uma necessidade soteriológica e qualquer que intencione retirar esse aspecto da mensagem do evangelho, não apenas o corrompe com suas vãs filosóficas, mas impede que aqueles que ouvem sua (a)versão do evangelho possam ser de Deus, como João instrui. É por isso que devemos manter fidelidade a Deus na entrega de sua mensagem, pois podemos ser considerados como os fariseus o foram: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando” (Mt.23.13).
[1] Apenas para elucidação do tema, esse é o mesmo verbo utilizado por Lucas para evidenciar que após a ressurreição, Cristo era um ser humano. Em sua narrativa Jesus diz: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc.23.39)
[2] Um detalhe interessante sobre esse verso é a designação do Filho como Jesus Cristo, expressão não freqüente na literatura joanina. João utiliza essa nominação apenas 10x para o Filho (Jo.1.17; 17.3; 1Jo.1.3; 2.1; 3.23; 4.2; 5.6; 5.20; 2Jo.1.3, 7)
[3] Nesse verso, alguns comentaristas têm achado uma indicação de entidades espirituais como testemunhas de fatos que não são coerentes com a doutrina ensinadas pelos apóstolos. Eu entendo particularmente que o uso de “pneuma” nos primeiros versos do capítulo 4 refere-se a outras pessoas e não a entidades espirituais, por algumas razões:
- § Confissão: no verso 2 João aponta para um problema similar ao apresentado no capítulo 2: Esses espíritos não confessam que Jesus teria vindo em carne;
- § Nominação: esse espírito é nominado como “espírito do anticristo” em consonância com a nomenclatura do capítulo 2 para os falsos mestres.
- § Identificação: No verso 4 fica explícito que sua intenção é falar sobre “falsos profetas”, que falam da parte do mundo.
- § Procedência: Esses falsos profetas, segundo o verso 5, procedem do mundo. Ora se a origem é natural não há por que esperar que sejam sobrenaturais esses espíritos.
- § Correlação: no verso 6 João associa pessoas que escutam a mensagem dos apóstolos com o espírito da verdade, de modo que fica evidente que o uso do termo espírito pode ser usado para pessoas. Deve-se acrescentar a esse ponto que em sua segunda carta João faz uma declaração muito semelhante e atribui claramente a pessoas: “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo“.
05.06.08
Necessidade da Humanidade de Cristo
Não existem dúvidas de que Cristo é divino. A Bíblia como um todo não deixa de evidenciar esse fato. Mesmo no Velho Testamento existem evidências de um Messias divino: Sl.2.6-12, 45.6-7, 110.2; Is.9.6; Jr.23.6; Dn.7.13; Mq.5.2; Zc.13.7; Ml.3.1. O Novo Testamento é muito mais enfático e claro nesse sentido. Os escritos joaninos expõem esse fato incansavelmente: Jo.1.1-3, 14,18; 2.2,25; 3.16-18, 35, 36; 4.14,15; 5.18, 2-22,25-27; 11.41-44; 20.28; 1Jo.1.3, 2.23; 4.14, 15; 5.5, 10-13, 20. Para Paulo a questão tem resposta clara, e por isso muitas evidências são declaradas em seus escritos: Rm.1.7; 9.5; 1Co.1.1-3; 2.8; 2Co.5.10; Gl.2.20; 4.4; Fp.2.6; Cl.2.9; 1Tm.3.16. O autor de Hebreus, além de ter por propósito demonstrar a supremacia de Cristo, evidencia esse fato: Hb.1.1-3, 4.14; 5.8 entre outros. Os evangelhos sinóticos são versados sobre essa idéia: Mt.5.17; 9.6; 11.1-6, 27; 14.33; 16.16, 17; 25.31-46; 28.18; Mc.8.38; 13.35-37; Lc.10.22 entre muitas outras.
Não existem duvidas de que Cristo é humano, e verdadeiramente humano, em diferença clara entre os conceitos do gnósticismo (realidade da humanidade), Docetismo (integralidade da humanidade) e Apolinarismo (integralidade da humanidade). Atualmente, o debate sobre Cristo envolve muito mais sua divindade que sua humanidade. Seitas, por todos os lados, crescem anunciando a humanidade de Cristo, ou apenas sua humanidade (Legião da Boa Vontade, Espíritas, Testemunhas de Jeová, Mulçumanos, entre outros). E, neste ponto o Novo Testamento é claro: Jo.8.40; At.2.22; Rm.5.15; 1Co.15.21; Jo.1.14; 1Tm.3.16; 1Jo.4.2; Mt.26.26,28, 38; Lc.23.46; 24.39; Jo.11.33; Hb.2.14; Lc.2.40, 52; Hb.2.10, 18; 5.8; Mt.4.2; 8.24; 9.24; 9.36; Mc.3.5; Lc.22.44; Jo.4.6; 11.35; 12.27; 19.28, 30; Hb.5.7.
Segue-se que é impossível negar que Cristo é integralmente homem e plenamente Deus diante de tantas evidências. A esse fato a Teologia Reformada denomina “União Hipostática”. União Hipostática é a expressão que descreve a existência de duas naturezas distintas, juntas e sem mistura, humana e divina, na pessoa única de Jesus Cristo, de forma que sua humanidade não diminuiu sua divindade, bem como sua divindade não detratou sua humanidade. E sobre isso Rm.9.5 afirma categoricamente: “e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre“.
Sobre essas questões a sã teologia contemporânea não apresenta dificuldades. Entretanto, os fatos evidenciados testemunham outro questionamento: “Qual é a razão para que os autores bíblicos defendessem a humanidade de Cristo?” ou “Por que era necessário que Cristo fosse homem?“.
a. A teoria de Anselmo de Cantuária[1] (Cur Deus Homo)
Anselmo de Cantuária desenvolveu uma teoria muito conhecida sobre a necessidade da humanidade de Cristo, de modo que tratou logicamente do assunto sem faltar com as escrituras no processo. Seu método foi muito interessante, pois além de defender a necessidade da humanidade de Cristo, defendeu sua divindade. Ou seja, a pessoa teantrópica de Cristo, tal como compreendida pelas escrituras foi plenamente defendida de modo lógico. Observe o que ele diz:
“Temos que investigar agora como Deus pode ser homem. As naturezas divina e humana não podem alternar-se mutuamente, de sorte que a divina torne-se humana ou a humana divina; nem elas podem ser tão misturadas como se uma terceira devesse se produzir das suas que não seria nem totalmente divina nem totalmente humana. Pois, se fosse possível que uma delas se transformasse ou se convertesse na outra, ou resultaria somente Deus e não homem, ou somente o homem e não Deus; e se da mistura e corrupção das duas resultasse uma terceira, do mesmo modo que de dois indivíduos animais de espécies diversas, macho e fêmea, nasce um terceiro que não reproduz integralmente nem a natureza do pai nem a da mãe, mas uma terceira, mistura de ambas, então nem seria Deus nem homem. Não pode, pois, o Deus-homem que buscamos ser o resultado da natureza divina e humana pela conversão de uma na outra ou pelo nascimento de uma terceira como resultante da decomposição de ambas, pois esta decomposição não cabe nelas, e, ainda que fosse possível, não diria respeito ao caso que aqui nos interessa. Também temos de descartar qualquer outra união destas duas naturezas em que permaneçam íntegras, de sorte que o homem seja um ser distinto de Deus, e Deus distinto do homem, pois neste caso é impossível que estas realizem o que se necessita, pois Deus não o fará, pois Ele não está obrigado, e o homem tampouco, pois este não poderá; e para que isto o torne Deus-homem, é necessário que aquele que tem de cumprir esta satisfação seja perfeito Deus e perfeito homem, pois não poderá cumpri-la se não for verdadeiro Deus, e nem estará obrigado a ela, se não for verdadeiro homem. E como é necessário que exista um Deus-homem com as duas naturezas bem distintas, também o é que estas duas naturezas bem distintas e perfeitas se reúnam em uma só pessoa, como o corpo e a alma racional se reúnem em um só homem, pois do contrário não pode ser perfeitamente Deus e perfeitamente homem[2]“
Abaixo, a teoria de Anselmo é apresentada de modo resumido, observe:
1. Se os homens sempre dessem a Deus o que lhe é devido, nunca pecariam, pois pecar nada mais é do que não conceder a Deus o que lhe é devido;
2. Se pecar é não dar a Deus o que lhe é devido, estamos desonrando a Deus, e tiramos-lhe o que lhe é devido. Segue-se que, enquanto não for restituído, a culpa permanece;
3. Se, porventura, resolvemos conceder tudo o que é devido a Deus, não estamos fazendo mais do que a nossa obrigação, e assim, não cancelamos a dívida lançada anteriormente;
4. Ou seja, a dívida que o homem tem diante de Deus é impagável por sua condição;
Nós, normalmente, não temos idéia da gravidade do pecado diante de Deus, pois temos convicção que a culpa dos nossos atos já foi removida. Entretanto, note o grau da gravidade da dívida do homem diante de Deus:
1. O grau da gravidade da ofensa depende do nível de dignidade do ofendido;
2. O Pecado é uma ofensa direta a infinitude da dignidade de Deus;
3. Logo, a culpa do homem é infinita, e para supri-la exige uma satisfação infinita;
4. Se isto é verdade, o homem nunca poderá supri-la, pois é finito;
5. Assim, apenas Deus pode sanar essa dívida. Mas a culpa não é de Deus, mas do homem. Logo, Deus não deve pagá-la.
6. Ou seja, o homem deveria pagar, mas não pode. Deus poderia, mas não deve. Segue-se que é necessário um Homem-Deus, pois como homem deve, e como Deus pode. Por que “o que não é assumido não é redimido[3]“.
b. O Testemunho das Escrituras:
O testemunho lógico lançado acima é bem demonstrado pela literatura bíblica. Pois, “desde que o homem pecou, era necessário que o homem sofresse a penalidade. Além, disso, o pagamento envolvia sofrimento de corpo e alma, sofrimento incabível ao homem, Jo.12.27; At.3.18; Hb.2.14, 9.22“. Assim, era necessário que Cristo assumisse a natureza humana, e como representante capital da raça, pagasse a dívida perante Deus, do gênero humano.
O fato de que Cristo assumiu a raça humana, não significa que Ele possuía pecado, ou natureza pecaminosa, pois o pecado não é inerente a natureza humana, é um acréscimo depreciador da realidade original desta natureza. Por isso, não se deve acoplar pecado com humanidade, nem Cristo com pecado, pois o pecado é acessório (não fundamental, não essencial) à natureza humana (Hb.2.14-18).
Assim, Cristo, isento de pecado, se fez pecado por nós para que pudéssemos ser feitos justiça de Deus (2Co.5.21). E, era necessário que não conhecesse o pecado, pois se possuísse pecado, estaria destituído de sua vida, o que conseqüentemente o privaria da possibilidade de prover redenção a si mesmo (Hb.7.26). Assim, “unicamente um Mediador verdadeiramente humano, que tivesse conhecimento experimental das misérias da humanidade e se mantivesse acima de todas as tentações, poderia identificar-se com todas as experiências, provações e tentações do homem, Hb.2.17, 18, 4.15-5.2, e ser um perfeito exemplo humano para Seus seguidores, Mt.11.29; Mc.10.39; Jo.13.13-15; Fp.2.5-8; Hb.12.2-4; 1Pe.2.21“.
[1] Anselmo de Aosta (1033-1109), arcebispo de Cantuária de 1093 a 1109, que é também conhecido pelo nome de Anselmo da Cantuária, é uma das personalidades mais importantes da história do pensamento cristão. O Cur Deus Homo (Por que Deus se fez Homem?), provavelmente a mais influente e conhecida de suas obras, é um clássico da teologia
[2] Por que Deus se fez Homem?, Santo Anselmo, Editora Novo Século, páginas 107 e 108
Material retirado do site: www.monergismo.com
[3] Marcos Mendes Granconato
04.11.08
Introdução à Cristologia em 1João
Nesse artigo, tenho apenas a intenção de apresentar as categorias do conhecimento teológico que são percebidas na primeira epístola de João no que se refere a Cristo. Posteriormente, cada tópico desse artigo será comentado apropriadamente.
Filho (uiós)
- 1.3: o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo
- 1.7: Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado
- 2.22: Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho
- 2.23: Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai
- 2.24: Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis vós no Filho e no Pai
- 3.23: Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.
- 4.10: Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados
- 4.14: E nós temos visto e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo
- 5.9: Se admitimos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior; ora, este é o testemunho de Deus, que ele dá acerca do seu Filho
- 5.11: E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho
Filho de Deus (uiós tou theou)
- 3.8: Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo
- 4.15: Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele, em Deus
- 5.5: Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?
- 5.10: Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho. Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho
- 5.12: Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida
- 5.13: Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus
- 5.20: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna
Filho Unigênito (uiós monogene)
- 4.9: Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele
Cristo (christós)
- 1.3: o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo
- 2.1: Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo
- 2.22: Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho
- 3.23: Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou
- 4.2: Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus
- 5.1: Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido
- 5.6: Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade
- 5.20: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna
Propiciação pelos pecados (hilasmos)
- 2.2: e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro
- 4.10: Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados
Humano
- 1.1: O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida
- 4.2: Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus
- 5.6: Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é verdade
Divino
- 1.1: O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida
- 1.2: e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada
- 2.13: Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno
- 4.3: e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo
- 5.11: E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho
- 5.20: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna
Caráter
- 2.1: Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo
- 2.29: Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele
- 3.5: Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado