02.11.09
Pré-conhecimento
Existe uma constante luta entre alguns termos bíblicos, a saber, pré-conhecer (Rm.8.29; 1Pe.1.2) e Predestinar (Ef.1.5). Todos os comentaristas que não adotam uma postura mais reformada em termos de soteriologia, tendem a agrupar os vocabulos alistados em referência a uma possível ordem para salvação. Ou seja, para eles Deus precisa conhecer alguém, e por seu conhecimento antecipado dos fatos, sabendo que este creria, então Ele predestinaria este.
Essa ordem é, em primeiro lugar, uma superposição temática, teológica e contextual, e uma declaração equivocada em função de uma má observação dos vocábulos gregos. Assim é necessário observá-los em seus contextos. A tentativa não é de afirmar a isenção de ligação entre os vocábulos, mas compreender o seu real significado no ambiente em que é utilizado. Mas, vamos por partes. A princípio vamos observar o texto de Rm.8.29:
“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos“
Este é o texto do qual normalmente se retiram o verbete conhecer em referência a salvação. Note que os tradutores da versão ARA utilizam o vocábulo conhecer associado com o advérbio antemão. Em conjunto eles veêm a significar um conhecimento prévio, antecipado, ou seja, um pré-conhecimento.
Segundo os teólogos aversos à teologia reformada afirmam que esse vocábulo implica em dizer que Deus conhece a cada um daqueles que “aceitarão a Jesus” no futuro, e então, segundo o texto, ele os predestina à salvação. Ou seja, Deus em seu conhecimento prévio resolver predestinar a salvação aqueles que, Ele sabe, já se predestinaram a salvação eterna “aceitando a Jesus” como salvador. Logo, a conclusão que se chega é que a Predestinação da parte de Deus é na verdade uma obra em cooperação com o homem. E sobre isso muito bem acentuou Spurgeon:
De acordo com o esquema do livre-arbítrio, o Senhor tem boas intenções, mas precisa aguardar como um servo, a iniciativa de sua criatura, para saber qual é a intenção dela. Deus quer o bem e o faria, mas não pode, por causa de um homem indisposto, o qual não deseja que sejam realizadas as boas coisas de Deus. (…) Se eu decidir, tornarei ineficaz o sangue de Cristo, pois sou mais poderoso que o sangue, o sangue do próprio Filho de Deus. Embora Deus estipule seu propósito, me rirei desse propósito; será o meu propósito que fará o dEle realizar-se ou não”. Senhores, se isto não é ateísmo, é idolatria; é colocar o homem onde Deus deveria estar.[1]
Contudo, esse corrente teológica tende a minimizar a Obra Salvífica de Deus, que é um ato iniciado e perfeito por Ele. Assim é mister compreender o significado deste vocábulo, no ambiente bíblico, a fim de observar quão grande obra foi realizada por Deus na salvação do homem.
Prognosko
O verbo utilizado por Paulo em Romanos 8.29 é proginosko. Esse vocábulo e formado a a partir da junção do verbo ginosko com a preposição pró, que passa a modificar o sentido do verbo. Segundo Collin Brown e Lothar Coenen, o verbo “é atestado de Eurípedes em diante (Hippolytus, 1072)[2]“, ou seja, um termo relativamente recente.
O verbo ginosko tem significado simples e pode ser utilizado basicamente de duas maneiras: de maneira universal e particular. No que diz respeito aos usos mais universais do verbo, ele vem a sigficar conhecer, saber, vir a conhecer, compreender, obter conhecimento ou, como sugere o Thayer’s Greek Lexicon, como um eufemismo hebraico referindo-se à conexão carnal íntimas entre homem e mulher (LXX Gn.4.1, 17, 19.8; 1Sm.1.19). De maneira particular pode referir-se ao conhecimento de Deus e de Cristo e das coisas relativas a Eles ou procedentes Deles.
Neste aspecto mais particular é que parece ser utilizado o vocábulo, mesmo que precedido por uma preposição, pois refere-se ao conhecimento relativo a Deus, pois, como lê-se: “Porquanto [Deus] aos que de antemão conheceu, também os predestinou…”. Assim, esse conhecimento seria prévio, exclusivo de Deus embora ainda não manifesto claremente ao homem, como sugeriu Eurípedes, Platão e Xenofontes ao aplicarem o vocábulo proginosko em referência direta a Deus. O que se pode concluir que esse vocábulo não pode ser aplicado ao simples fato de que Deus previu algo, mas que desde a eternidade passada ele já tinha conhecimento.
Entrementes, pode-se perceber que a busca para a definição léxica do verbete é fundamentada apenas nas citações do grego clássico. Isso poderia criar objeção à definição visto não ser retirada do ambiente bíblico. Mas, antes que se pense de maneira inadequada, é necessário observar atentamente as citações bíblicas e procurar compreender qual uso os autores do Novo Testamento fizeram desse vocábulo.
Nas citações bíblicas pode-se observar 5 utilizações do vocábulo, sendo uma de Lucas (At.26.5), duas de Paulo (Rm.8.29, 11.2) e duas de Pedro (1Pe.1.20; 2Pe.3.17). Em Atos é que observa-se a colocação mais simples, pois trata-se de uma defesa pessoal de Paulo. Em sua defesa ele afirma: “pois, na verdade, eu era conhecido deles desde o princípio, se assim o quiserem testemunhar, porque vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião”. A intenção de Paulo é demonstrar que os fariseus o coheciam a muito tempo, ou seja, o conheciam anteriormente ao julgamento. Essa colocação não pode ser classificada de outra maneira, senão no uso mais universal do verbo, referindo-se a atividades humanas de recordação (cf. 2Pe.3.17). As outras três citações dizem respeito às atividades de Deus, e por certo, estão classificadas de maneira mais particular, pois refere-se ao conhecimento anterior que Deus tem.
Romanos 8.29
Antes de qualquer discução no que diga respeito ao vocábulo e o ambiente em que ele está inserido, é necessário observar algumas características da epístola em que o ambiente, que contém o vocábulo, está inserido.
Paulo escreve esta Carta-Tratado, aos Romanos, com alguns pontos em mente. Tais como Justiça de Deus que se revela no Evangelho (1.17). Sendo revelada no Evangelho, qualquer outra possibilidade de Justificação é anulada, pois todos estão debaixo do Pecado (1.18-3.31). E fora do evangelho, permanecerá como tal (1.17-3.31). Dessa forma é necessária a justificação, que é ilustrada (4.1-25), é recebida pela fé (5.1-11) e aplicada a muitos (5.11.19) em função da manifestação da graça de Deus (5.20-21), sendo esta graça atribuida a pecadores, isso não isenta a responsabilidade do salvo em relação ao pecado (6.1-23), a busca pela santificação (7.1-25) embora se pudesse ter muitas questões sobre o cristão e a lei judaica.
Nesse interím, sabendo de todas as informações acima lancadas, Paulo passa a criar o ambiente em que a palavra é utilizada. O ambiente parece denotar um aspecto da vida cristã que é muito desgostasa, as tribulações. Mas, Paulo, de maneira muito madura, contrasta as tribulações e sofrimentos com a glória que em nós será revelada. (8.18). pois, segundo ele, até mesmo a natureza e toda a criação de Deus sofre com o problema do pecado no mundo, e isso inclui o homem (8.19-23). A partir deste ponto Paulo faz uma demonstração de que o ápice da posição do cristão encontra-se no fato de que no futuro será glorificado (8.24-30). Então, é nesse contexto que encontramos o vocábulo, onde lê-se:
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmão. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. Rm.8.28-29 .
Note que a contrução do versículo: “…aos que de antemão conheceu, também os predestinou”. Se observado dentro da gramática em português, fica evidente que o fato de que Deus conheceu não é a base, nem o fundamento da predestinação, pois o advérbio entre conhecer previamente e predestinar é “também”. Em grego isso fica mais estampado, pois lê-se: “o[ti ou]j proe,gnw( kai. prow,risen)))”. O vocábulo “kai,” utilizado neste texto não pode ser traduzido por “por causa”, muito menos por “por isso”. Normalmente o termo é utilizado apenas para conectar cláusulas e sentenças, bem como narrativas, além de, epexegeticamente, anexar palavras e sentenças. A função sintática do termo restringe-se a isso.
Assim, não pode-se afirmar que a razão da predestinação é o pré-conhecimento que Deus tem. O que pode-se concluir é que Deus de fato conheceu e predestinou, embora o texto não faça distinção entre tempo ou época em que isso aconteceu.
A exceção dessa observação, a própria palavra que refere-se ao pré-conhecimento, não expressa o sentido desejado pelos teólogos aversos à teologia mais reformada, no que tange à salvação. E sobre isso J.I Paker diz:
Para a pergunta, “Em que base escolheu Deus os indivíduos para salvação?” às vezes é respondido: em base da presciência dele que quando os confrontou com o evangelho eles escolheriam a Cristo como Salvador deles. Nesta resposta, pre-conhecimento significa previsão passiva da parte de Deus do que os indivíduos irão fazer, sem o predeterminar de suas ações dEle. Mas
(a) Pré-conhecimento em romanos 8:29 e 11:2 (…): não expressa a idéia da antecipação de um espectador do que acontecerá espontaneamente[3].
Sendo assim, observa-se que a fundamentação é vaga, pois não tem base exegética. Mas é valido afirmar que pré-conhecimento e predestinação não referem-se ao mesmo evento, sendo isso evidenciado pelo uso de duas palavras diferentes para a especificação das atividades que são iniciadas por Deus e perfeitas por Ele. Assim, é muito mais provavel que esse conhecer seja marcado pelo senso hebreu de escolha antecipada[4], como sugeriu Archibald Thomas Robertson.
Portanto, é mister afiançar que o texto diz que “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à Imagem de Seu Filho”, o que inibe a possibilidade em que se afirme que fomos eleitos por que Deus sabia que creríamos, pois sabe-se que ser conforme a imagem de Seu Filho é consequência da salvação. Ao contrário, deve-se afirmar que fomos eleitos com objetivo de sermos conformes à Imagem de seu Filho, como bem destaca a preposição “eivj” no texto. Ou seja, não se deve considerar como fundamento, como normalmente alguns teólogos tem feito de maneira indevida, o que é conseqüência da salvação. Assim, “a eleição não se pode basear em obediência, obras e santidade previstas, porque isso tudo é resultado da eleição, e não sua causa[5]“.
Logo, conclui-se que o ato de conhecer fatos antecipadamente da parte de Deus não significa que Ele tenha previsto fatos futuros como um profeta, nem mesmo que isto fundamente sua predestinação, como fica bem estampado pelo grego no texto em pauta. Mas é válido relembrar que o termo não é um sinônimo de predestinar, visto que, neste texto, Paulo usa os dois termos juntos. Contudo é necessário que se diga que ambos estão em acordo.
Romanos 11.2
Este texto é muito pouco utilizado para defender o pré-conhecimento passivo e soteriológico, embora utilize a mesma palavra que Rm.8.29. Possivelmente isto aconteça em função de que o texto não corrobora para o fim desejado por aqueles que visam distorcer os texto e verdades bíblicas.
Antes de qualquer qualquer menção seja feita sobre este texto é necessário fazê-lo exposto: “Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu…”. O discurso de Paulo, que está ao redor deste versículo, refere-se à possivel rejeição de Deus do povo de Israel. Mas, sua conclusão, no texto, é bem clara, pois Deus não repudiou seu povo. Em confirmação a esta premissa, ele ilustra a partir da história de Elias, que não estava sozinho e diz: “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. Segue-se que Deus não repudiou seu povo, que conheceu de antemão.
A esse conhecimento de Deus é impossível que se diga que Ele simplesmente sabia que este povo o iria cultuar e aceitar seu plano pactual e remissor. Aqui fica evidente que a palavra é utilizada no sentido de escolha antecipada. Embora não seja a mesma palavra que “predestinação”, esse conhecimento antecipado está em consonâcia com ela.
Segue-se que o pre-conhecimento de Deus não é passivo, muito menos espectador das atividades humanas, mas, é ativo e eletivo, como foi bem demonstrado acima.
1 Pedro.1.20
Neste texto acontece fenômeno semelhante com o que acontece em Rm.11.2, como lê-se: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós”.
Neste caso é impossível que diga-se que esse conhecimento de Deus refere-se à sua estimada previsão que Cristo iria entregar sua vida em resgate de muitos. Principalemente pelo fato de que no grego pode-se observar uma certa ênfase no que tange a esse conhecimento, como lê-se: “proegnwsme,nou me.n pro. katabolh/j ko,smou”. Se traduzido com mais literalidade, notar-se-á a seguinte tradução: “conhecido antecipadamente, com efeito, antes da fundação do mundo”. Assim, a definição desse conhecimento é anterior à fundação do mundo, como fica bem enfatizado pelos termos bíblicos utilizados por Pedro.
Logo, é impossível dizer que este texto afirma apenas um saber desconexo com seu determinar. Porém, se isso é de fato verdade, como alguns creêm piamente, a morte propiciatória de Cristo passa a ser um evento estranho ao propósito de Deus, e ser considerado um anexo posterior ou um apêndice, que veio a colaborar com suas espectativas. Sem contar que a remissão dos pecados não faria parte dos Seus Planos.
Mas como é muito bem observado pela literatura bíblica, Cristo não é um evento histórico, mas o centro dos Propósitos de Deus para a humanidade. Deus não sabia que Cristo morreira, mas assim predeterminou, pois “a crucificação foi o centro de seu plano eterno para a redenção[6]” (veja ponto 2.2, At.2.23). Assim, não se pode chegar a outra conclusão, senão que o ato de pre-conhecer de Deus está em conformidade com o ato de predestinar, é ativo e que por vezes carrega um aspecto de eleição e determinação antecipada, como pôde-se observar nos textos analisados. Segue-se que afirmar que Deus predestinou aqueles que sabia que o aceitaria não passa de uma declaração não bíblica, senão, como afirmado por Spurgeon, uma heresia:
Qual é a heresia de Roma, senão acrescentar algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, ou seja, trazer obras da carne, para ajudarem na justificação? E qual é a heresia do arminianismo, senão acrescentar alguma coisa à obra do Redentor? Toda heresia, analisada com profundidade, se descobrirá aqui[7].
Prognosis
Este é a forma substantiva do verbo anteriormente mencionado, um termo bíblico utilizado para pré-conhecimento, sendo encontrado em 1Pe.1.2, e imediatamente ligado com Rm.8.29, como já observado. Como prognwskw, prognosij é formado pela junção de pro com gnosis. Como é muito bem conhecido, a primeira partícula deste vocábulo refere-se a temporalidade, e a segunda a conhecimento. Assim, encontra-se mais uma palvra bíblica que refere-se ao conhecimento prévio de Deus.
Nas escrituras o termo aparece apenas duas vezes, à exceção das duas citações encontradas na septuaginta (Jd.9.6 – h’ kri,sij sou evn prognw,sei: juízos previstos de antemão; 11.19 – tau/ta evlalh,qh moi kata. pro,gnwsi,n mou: estas coisa me foram ditas previamente), em At.2.23 e 1Pe.1.2. Esse vocábulo parece não acontecer no Grego clássico, o que sugere que seu significado pode ser muito bem identificado nas citações bíblicas.
Por ser um verbo composto é válido observar as ocorrências do verbo sem o prefixo “pro,”. Das 29 ocorrências de “gnw,sij”, nenhuma foge da idéia de conhecimento, sabedoria, saber, ciência. Assim, pode-se afirmar que “gnw,sis” é um sinônimo de “gnwskw”, como também afirma o Thayer’s Greek Lexicon.
Logo, pode-se perceber que esta é apenas outra forma para expressar a idéia de conhecimento antecipado, ou pré-conhecimento, como se tem insistido neste trabalho. Vale assim observar as ocorrências Neo-testamentárias desse vocábulos.
1 Pedro.1.2
Este parece ser o mais polêmico dos textos, no que se refere a esse conhecimento antecipado de Deus. Todo o problema parece surgir no mesmo ponto, pois segundo todos os comentaristas que não concordam com a predestinação bíblica tentar dar outro significado ao termo bíblico.
Entretanto, de todas as definições encontradas, nenhuma é mais interessante que a encontrada no Bauer’s Lexicon, pois este define o verbete como a sabedoria e intenção onisciênte de Deus. Essa definição vai além de todas as outras definições encontradas, visto que traz em si o reconhecimento correto de que pré-conhecer não isenta o fato do Pleno, Perfeito, Infinito e Eterno Conhecimento de Deus, Sua Onisicência. Ou seja, “Deus conhece os infinitos resultados das infinitas possibilidades[8]“. Assim nada pode escapar de seu conhecimento.
Mas o fato mais interessante dessa definição, é que encontra-se nesta definição uma partícula que retira e inibe toda a passividade que se possa encontrar nesse conhecimento, pois diz respeito a sua intenção. Não aplica-se o termo apenas a uma espécie de conhecimento que, porventura Deus possa ter, mas Suas Intenções são caracterizadas por essa sabedoria onisciênte.
Mas, é possível que algum mal informado possa afirmar que tal argumento não está estampado nas páginas bíblicas, pois afinal de contas trata-se de uma definição léxico-teológica. Entremente, em resposta a esse raciocínio infundado pode-se dizer que a própria utilização em 1Pe.1.2 favorece a tal definição.
Note que Pedro escreve àqueles que são “eleitos” (1.1). Porém pouco a frente acrescenta “eleitos, segundo a presciência de Deus”. Em um raciocínio simples há de se notar que os cristãos, a quem escreve Pedro, foram escolhidos. Ou sejam, trata-se de um povo que foi escolhido por alguém, visto ser impossível ser que a ação, que Pedro demonstra, faça menção a uma atividade autocausada, onde o homem é o motivo, executor e alvo da ação. Sem contar que a segunda afirmação, que diz respeito à eleição, é clara em afirmar que é segundo a presciência de Deus. Como a presciência não é um departamento, ou aspecto independente em Deus, pode-se afirmar sem medo que os cristãos foram eleitos por Deus, sendo que essa atividade está em conformidade com seu conhecimento prévio.
Rapidamente pôde-se perceber que a presciência de Deus não refere-se apenas a uma antecipação, ou previsão da parte de Deus, dos fatos que viriam a acontecer, mas a uma intenção que permeia sua escolha, que é realizada segundo seu pré-conhecimento. Sobre isso muito bem afirmou McArthur:
Ao escrever que ’somos eleitos, segundo a presciência de Deus Pai (1Pe.1. 2), Pedro não estava usando a palavra ‘presciência’ para significar que Deus sabia de antemão quem haveria de crer e, por isso, escolheu a essas pessoas pela fé que previra nelas. Em vez disso, Pedro estava dizendo que Deus determinou, antes do princípio dos tempos, conhecê-las, amá-las e salvá-las; e escolheu-as sem levar em conta qualquer coisa boa ou ruim que pudessem fazer[9].
A declaração de McArthur parece concordar com a definição do Bauer’s Lexicon, visto que a presciência não trata-se de um conhecimento passivo, mas efetivo e determinante na questão da eleição. Sem contar que o texto não afirma que “Deus predestinou ou elegeu aqueles cuja fé, santidade e perseverança ele conheceu de antemão[10]“. Sobre isso Samuel ainda argumenta:
Se a presciência divina do arrependimento e da fé do homem fosse a base par a eleição, Deus teria oferecido uma oportunidade às cidades pagãs de Tiro, Sidom e Sodoma, as quais, conforme Jesus disse (Mt.11.20-24), ter-se-iam arrependido se tivessem presenciado seus milagres. Deus previu que elas se arrependeriam e, apesar disso, não lhes deu uma oportunidade de ver as obras de Cristo e de se arrependerem (…) Portanto, a eleição não depende de Deus conhecer previamente o arrependimento e a fé, mas depende de sua vontade e soberania[11].
A partir deste ponto, é necessário que se apresente alguns argumentos fundamentados diretamente no texto grego. E neste lê-se: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j”. Note que a expressão que acompanha o pré-conhecimento de Deus é “kata,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, kata, é uma preposição que denota movimento, difusão ou direção de cima para o baixo, basicamente. Emobora, possa ser subdividida em dois grandes grupos de possibilidades de tradução. A primeira, acompanhando palavras no caso genitivo, e a segunda, no acusativo. Com genitivo, a preposição significa basicamente “contra”, “para baixo”. Com acusativo, no que diz respeito a tempo pode significar “durante”, mas no que tange a referência ou relação, significa “em conformidade”, “de acordo com”, “segundo”. Como fica bem estampado no texto, “pro,gnwsin ” deve ser identificado como um substantivo comum, no acusativo, feminino, singular de “pro,gnwsij”. Assim restringe-se as possibilidades de tradução.
Vale anotar que “pré-conhecimento”, embora tenha uma conotação temporal, não pode ser usado com o aspecto temporal da preposição “kata,” visto não fazer o menor sentido. Logo, a que conclusão se chega, senão que a melhor tradução para os termos associados seria: “em conformidade com o pré-conhecimento”.
Mais uma vez chega-se a conclusão que não se pode afirmar que o conhecimento antecipado de Deus é a causa efetiva da ação, nem mesmo a inspiração motivadora, mas significa dizer que a eleição está em acordo com esse Seu conhecimento. Com obviedade, existe uma distinção considerável em afirmar que a eleição está em acordo com o pré-conhecimento, do que afirmar que foi por causa deste pré-conhecimento.
Dessa forma, claramente nota-se que a preposição “kata.” utilizada por Pedro inibe a possibilidade de que esse preconhecimento seja o motivo pelo qual Deus escolhe, pois o fato claro é que Deus sabia de antemão em quem iria atuar, por isso os escolheu.
Outro detalhe que acaba por derrubar o argumento infundado que afirmar a eleição em função do pré-conhecimento, é outra preposição muito bem ajustada com o texto e muito bem colocada, a preposição “eij”. Uma particularidade dessa preposição é que ela é utilizada apenas com o caso acusativo, e segundo o Lothar Coenen e Collin Brown, “nínguém nunca questionou que eis pode expressar a direção metafórica, isto é, alvo ou propósito[12]“. Trata-se, na verdade, do uso télico ou final da preposição grega, que é um uso comum no Novo Testamento.
Mas que ligação teria essa preposição com o argumento anteriormente lançado, a saber, a impossibilidade de que se diga que a eleição é fundamentada sobre o pré-conhecimento? A resposta está estampada no texto grego de 1Pe.1:2: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j evn a’giasmw/| pneu,matoj eivj u’pakoh.n kai. r’antismo.n ai[matoj VIhsou/ Cristou/". O que Pedro parece estar estampando no versículo nada mais é do que o propósito da Eleição. A utilização de "eij" não deixa dúvidas.
Assim, se o texto demonstra que o propósito da Eleição é a obediência, ninguém pode argumentar que fomos eleitos por que Deus sabia que obedeceríamos. Obviamente, há quem diga que "eij" neste texto possa ser utilizado como causa, sendo traduzido por "eleitos segundo a presciência (...) por causa da obediência". A primeira ojeção que pode-se fazer sobre essa malfadada tradução é, de fato, não existe utilização como essa no Novo Testamento. Sobre isso Lothar Coenen e Collin Brown afirmam que "tal significado para eis parece improvável em quer uma das passagens às vezes aduzidas[13]“. Já no Léxico Liddell-Scott, não encontra-se qualquer análise de uso causal da preposição em pauta. O mesmo acontece com o Thayer’s Greek Lexicon e o Friberg Lexicon. Conclui-se que seguramente pode-se afirmar que tal uso é indevido na passagem, sem contar que parece tratar-se de uma desvirtuação do texto em prol de uma ideolgia filosófica que não tem seus princípios estampados nas páginas bíblicas. A segunda objeção que pode-se fazer está em caráter de lógica, pois não pode-se fundamentar como causa o que é efeito, como outrora demonstrado. Nas páginas do Novo Testamento pode-se observar que a obediência é resultado da salvação, como fica bem exposto por Paulo em Rm.1.5 “por intermédio de quem [Jesus Cristo] viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé”. (cf. Rm.16.26).
Segue-se que o pré-conhecimento de Deus não é o fundamento da sua eleição, mas pode-se assumir com segurança que a eleição está em conformidade com seu pré-conhecimento. Além de que, este pré-conhecimento não é passivo, mas trata-se de uma sabedoria e intenção onisciente, que está além das estipulações da vontade humana.
Atos 2.23
Este é mais um texto que utiliza a forma substantiva de “prognwskw”, a saber “prognwsij”. Mas, como é de se esperar, não é um texto utilizado para comprovar a antipática e antibíblica ideologia do pré-conhecimento como base ou fundamento para a eleição.
Mas, antes de qualquer colocação é válido fazer o texto conhecido: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis, sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;”.
Este texto encontra-se na primeira defesa pública da Vida De Jesus Cristo, feita por um dos seus discípulos, pouco após ter recebido, junto com outros discípulos, a promessa do derramento do Espírito Santo. Este é o momento de ápice na defesa-testemunho de Pedro, pois chega onde todo evangelismo deveria chegar, na mensagem da morte da Jesus Cristo e consequentemente na sua ressureição.
Note a forma como Pedro estampa o fato de que Jesus foi entregue por Deus para ser morto pelo judeus, que o mataram. Ou seja, dois fatos estão acontecendo em consonância nesta ação, o decreto de Deus e a responsabilidade dos homens. Mas o mais interessante é que dois termos estão muito próximos aqui, a saber “determinado desígnio” e “presciência”.
A palavra grega referente a palavra portuguesa para “determinado” é “o’ri,zw”, já conhecida pelo estudo de “proori,zw” estampado em boa parte do trabaho anterior. Esse verbete, como já preanunciado, está intimamente ligado com a ação de determinar, designar, decidir. A palavra que acompanha essa “determinação”, demonstrada por “ovri,zw” é “boulh,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, este substantivo encontrado em At.2.23 fala “especialmente do propósito de Deus com respeito à salvação de homens por Cristo”. Assim, “boulh,” não apenas caracteriza uma vontade determinada, mas a um propósito determinado por Deus. Logo, conclui-se que a morte de Cristo é um decreto eterno de Deus em relação ao seu plano redentor para o homem.
Somado a esse reconhecimento, muito necessário, é válido afirmar que esse propósito determinado acompanha o pré-conhecimento de Deus. Note o texto grego: “tou/ton th/| w’risme,nh| boulh/| kai. prognw,sei tou/ qeou/ e;kdoton”. Em uma pequena observação, perceber-se-á que a conjunção que une o determinado desígnio de Deus e sua presciência é a partícula “kai,”.
A utilização dessa conjunção nesse tipo de contexto já foi comentado em Rm.8.29, porém é válido lembrar que aqui a conjunção deve ser identificada como uma conexão entre os termos. Logo, determinado desígnio está ligado sintaticamente à presciência. Ou seja, a determinação estampada pelo verbo “ovri,zw” atinge tanto a “desígnio” quanto “presciência”, visto que ambos substantivos concordam em caso com o verbo substantivado, identificado como um particípio de uso adjetivo. Segue-se que, tanto o desígnio quanto a presciência de Deus são determinadas por seu propósito.
À luz dessa conclusão, não se pode afirmar que Deus apenas previu o sacrifício de Cristo, como apenas um ato voluntário da parte de Jesus. Mas foi um predeterminação da parte de Deus. Isso está em acordo com Jamiesson, Fausset and Brow, que afirmam que “a morte de Cristo tinha sido predeterminada de antes da fundação do mundo (veja 1Pe.1.19, 20; Ap.13:8)[14]“. Mas isso não implica em afirmar isenção de responsabilidade humana, pois Pedro demonstra a culpabilidade dos homens pela morte de Cristo no texto. Sobre isso Archibald Thomas Robertson diz: “Deus teve legado a morte de Jesus (Jo.3:16) e a morte de Judas (At.1:16), mas aquele fato não perdoou o Judas da responsabilidade e culpa dele (Lc.22:22). Ele agiu como um livre agente moral[15]“.
O que se quer afirmar nada mais é do que, muito bem fez Jonh Walvoord e Roy Zuck, ao dizer que “o ponto deste verso está claro: a Crucificação não era nenhum acidente. Estava no propósito de jogo de Deus (“plano”) e era o determinado desígnio de Deus, não somente a inclinação dele. Era uma necessidade divina (cf. 4:28)[16]“.
Que se conclui, então? Presciência, ou pré-conhecimento, não é um aspecto independente de Deus, nem mesmo um anexo a sua Onisciência. Pré-conhecimento em referência a Deus não pode ser considerado apenas como uma previsão profética, mas uma determinação onisciênte da parte de Deus, que por vezes diz respeito a Cristo e em outras a salvação dos homens. Visto que, tanto a ação de pre-conhecer como o pré-conhecimento em si referem-se à salvação dos homens, considera-se ambos tenham um aspecto ativo e eletivo da parte de Deus.
Portanto, qualquer afirmação que se faça que fuja das afirmações acima alistadas, trata-se de afirmações equivocadas e sem respaldo bíblico e exegético podendo ser considerada como heresia, como o fez Charles Spurgeon
[1] SPURGEON, Charles H., Implicações do Livre Arbítrio.
[2] BROWN, Collin, COENEN, Lothar, Dicionáio Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp1792.
[3] PACKER, J.I, Concise Theology: a guide to historic Christian beliefs. Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois. 1997
[4] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.
[5] FALCÃO, Samuel. Escolhidos em Cristo. Cultura Cristâ:São Paulo, 1997. pp.127
[6] MCARTHUR, Jonh F., Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo.1997. pp. 192
[7] SPURGEON, Charles H., Spurgeon’s Autobiography. Londre: Passmore and Alabaster, 1897. pp.168, 169
[8] GRANCONATO, Marcos Mendes. Teologia Sistemática 3, material não publicado.
[9] MACARTHUR, John F. Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo, 1997. pp.179.
[10] FALCÃO, Samuel, Escolhidos em Cristo. Cultura Cristã:São Paulo, 1997. pp.121.
[11] Idem. pp.123
[12] COENEN, Lothar, BROWN, Collin, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp.1764
[13] Idem, pp.1765
[14] JAMIESON, FAUSSET and BROWN, New Commentary on the Whole Bible. Parsons Tecnology:Iowa. 1998. Tradução Pessoal.
[15] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.
[16] WALVOORD, Jonh F., ZUCK, Roy B., The Bible Knowledge Commentary. Press:Canadá.
Saudações – Efésios 1.1-2
“A Saudação de Paulo visa demonstrar sua autoridade como Apóstolo, ratificar a posição dos crentes em Cristo, afirmar Deus como causa primária da Graça e da Paz e afiançar a Paternidade de Deus”.
Como é comum em um início de carta, Paulo inicia a sua aos efésios de uma maneira natural, pois deixa claro quem é, não simplesmente como escritor, mas como participante do ministério apostólico, e também levanta características destes a quem escreve, demonstrando que a graça e a paz, essência de sua saudação, são da parte de Deus que é nosso Pai e de Jesus Cristo.
1. A saudação de Paulo demonstra quem ele é e a quem escreve
Como demonstrado, a saudação paulina nesta epístola é curta e muito simples, pois apenas apresenta-se, na primeira palavra do texto, como Paulo, ratifica seu ministério e identifica de forma clara seus leitores, não simplesmente referindo-se a uma região, mas à postura destes diante de Deus.
1.1. Paulo se apresenta como Apóstolo
Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus
Paulo se apresenta como avpo,stoloj de Cristo Jesus, ou seja, se apresenta como alguém enviado pelo Messias (Cristou/). Assim, Paulo é comissionado para seu ministério pelo próprio Senhor Jesus, o que de certa forma é uma tentativa de demonstrar a autenticidade, bem como autoridade de seu ministério. No que diz respeito a sua autoridade fica evidente pela própria palavra empregada para descrever-se, pois “contém em si um elemento de autoridade concedida e reconhecida por aquele que envia[1]“.
Esse argumento pode ser comprovado pelo fato de que a palavra “avpo,stoloj” é utilizada nos evangelhos designar aqueles que estavam com Jesus, que foram eleitos por Ele para o acompanharem e que foram enviados por Ele (cf. Mt.10.2-5; Lc.6.13; Lc.11.49). Já em Atos pode-se notar que a referida palavra tem seu significado estendido, sendo atribuída àqueles que têm autoridade para ministrar, são ligados diretamente a Jesus (At.1.26; 2.37, 43; 4.33, 35-37; 5.12, 29), tem autoridade doutrinária (At.2.42), tem autoridade conciliar (At.15.2, 4, 6, 22-23) e são escolhidos pelo próprio Senhor Jesus (At.1.2).
Em Atos 9.27, Paulo é apresentado por Barnabé aos Apóstolos de Jerusalém como alguém convertido, embora a princípio eles não acreditassem. Pouco à frente Paulo e Barnabé são reconhecidos por Lucas como Apóstolos (At.14.14). Assim, esse título que traz em si um conteúdo de Autoridade é colocado sobre Paulo, que também utiliza este termo em suas cartas.
Paulo utiliza a palavra avpo,stoloj em autoreferência em outras saudações iniciais das suas epístolas (cf. Rm1.1; 1Co.1.1; 2Co.1.1; Gl.1.1; Cl.1.1; 1Tm.1.1; 2Tm1.1; Tt.1.1), mas a de Efésios é muito semelhante a de 1Coríntios que afirma: “Pau/loj klhto.j avpo,stoloj Cristou/ VIhsou/ dia. qelh,matoj qeou/” (1Co.1.1a). Assim fica evidente que Paulo é chamado para ser apóstolo pela vontade de Deus, e não por auto-sugestão, ou imposição dos outros apóstolos. E isso , segundo John MacArthur, implica em dizer que “a credencial de Paulo aqui não é seu treinamento acadêmico ou sua liderança rabinica, mas o fato de ser um apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus[2]“.
Contudo, a utilização da preposição “dia” pode dar muitos significados à expressão, entretanto a opção de tradução mais plausível é “pela vontade de Deus“, mas não somente como motivo ou razão, mas como um marcador de instrumentalidade, pelo qual o apostolado de Paulo pôde ser concedido e realizado.
Logo, na saudação epistolar de Efésios existe um reconhecimento secundário no que diz respeito à auto-apresentação de Paulo, pois ele tem em mente reforçar a autoridade do seu ministério que é viabilizado pela vontade de Deus, e não dele por meio de sua própria vontade ou de outras pessoas.
1.2. Paulo Apresenta os Efésios como santos e fiéis em Cristo
aos santos e fiéis em Cristo Jesus que vivem [em Éfeso],
Os destinatários da carta que Paulo escreve são claramente identificados como moradores da cidade de Éfeso (toi/j ou=sin Îevn VEfe,sw|Ð – O verbo grego “toi/j ou=sin” está no Dativo, Masculino, Singular, Presente do Particípio Ativo de “eivmi,”, sendo melhor traduzido como um Particípio Substantivo, pelo fato de que tem artigo em concordância, mas não tem um substantivo). Entretanto, é também notório que Paulo oferece qualidades a estes, como “a[gioj" ("santos") e "pistoi/j evn Cristw/| VIhsou/" (Discussão sobre a ausência ou inclusão do termo [em Éfeso], ver Questões Introdutórias e Apêndice 1).
Entrementes, a primeira dessas duas características parece estar ligada ao caráter destes, pois o adjetivo santo, muitas vezes no Novo Testamento é atribuído ao alvo moral da vida Cristã (cf. Rm.1.7; 12.1; 1Co.1.2; 7.34; Cl.1.22). Note que esta palavra é utilizada por Paulo em Efésios com esse sentido. Em Ef.1.4 nota-se que existe um propósito para a eleição, que é vir a ser santo (Ef.5.27; cf. Rm.1.7; 12.1; 1Co.1.2; 1Co.7.34; Cl.1.22).
Assim a conclusão simples deste argumento seria afirmar que os efésios teriam chegado a um estágio avançado da fé, ou chegado ao alvo final. Contudo, isso seria excluir a grande maioria de texto que falam sobre o assunto, sem contar que estaria completamente em desacordo com o todo das Escrituras. Logo, é razoável procurar entender a afirmação de Paulo no que diz respeito aos efésios.
Em Ef.1.15, pode-se notar a utilização dessa palavra no início da oração de Paulo pelos efésios de uma maneira muito interessante, pois estes têm demonstrado amor por outros santos (kai. th.n avga,phn th.n eivj pa,ntaj tou.j a’gi,ouj ). Segue-se que é provada a existência de mais um povo que tem a mesma nomenclatura.
Pouco à frente Paulo afirma que os efésios são “sumpoli/tai tw/n a’gi,wn” (Ef.2.19), demonstrando que existe um povo que é também conhecido como “oivkei/oi tou/ qeou/” como identificado no mesmo versículo. Mais à frente ainda Paulo afirma a totalidade destes, enfatizando que não se restringe apenas aos Efésios (Ef.3.18; cf. 6.18).
Em uma observação mais profunda é possível notar que Paulo utiliza esse termo outras vezes a outros grupos de pessoas (Rm.8.27; 12.13; 15.25, 31; 16.2, 15; 1Co.6.1; 16.1, 15; 2Co.1.1; 8.4; 9.1; Cl.3.12; Fm.1.5,7) o que indica que Paulo não está enfatizando o caráter deste mas a classe a que pertencem esses. Classe no sentido de categoria de pessoas baseada nas distinções de ordem moral. Isso está em pleno acordo com a colocação de Jonh Sttot sobre o texto, quando afirma que Paulo “não está usando esta palavra para referir-se a alguma elite espiritual dentro da congregação, uma minoria de cristãos excepcionalmente piedosos mas, sim, à totalidade do povo de Deus[3]“.
O que Paulo quer dizer com o termo é que os moradores de Éfeso, a quem escreve, já não fazem mais parte da categoria de gentios ou filhos da desobediência, mas que agora são feitos santos em Cristo, como ele enfatiza outras vezes nesta epístola (Ef.2.1-10; 4,17-19). Logo a ênfase do termo não é referida sobre o aspecto moral dos efésios, mas à posição destes diante de Deus.
Isso pode ser também evidenciado pela próxima expressão utilizada por Paulo para demonstrar quem são esses efésios, que é “pistoi/j evn Cristw/| VIhsou”. O adjetivo “pisto,j”, que neste caso está a qualificar os efésios, tem dois significados básicos. O primeiro deles diz respeito a pessoas que demonstram fidelidade em transações de negócio, ou na execução de comandos, ou na consecução de deveres oficiais. O outro significado claro da palavra é aquele que crê ou que confia, e no Novo Testamento diz respeito àquele que confia nas promessas de Deus, e é convencido que o Jesus foi ressucitado dos mortos.
Assim, visto as definições possíveis da expressão pode-se concluir que os efésios confiam nas promessas de Deus e estão convencidos da ressureição de Cristo Jesus dentre os mortos, e por esse motivo podem ser denominados santos.
2. A saudação de Paulo tem por base a graça e a paz
A essência da saudação de Paulo nesta epístola é a graça e a paz, que estão presentes em outras saudações. Em sua epístola aos romanos, Paulo utiliza a mesma fórmula para introduzir sua epístola, “ca,rij u’mi/n kai. eivrh,nh avpo. qeou/ patro.j h’mw/n kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/”. Fato idêntico acontece em 1 Coríntios (cf. 1Co.1.3 cf. 2Co.1.2; Gl.1.3; Ef.1.2; Fl.1.2; Fm.1.3). Assim pode-se concluir que esta é uma saudação de Paulo, confirmando a autenticidade da autoria.
Essa “fórmula” utilizada por Paulo, é por vezes alterada, acrescentando algumas palavras, substituindo outras, mas mantendo sempre graça e paz, o que implica em dizer que estes dois elementos são a essência, ou a base, de sua saudação.
2.1. Paulo afirma que a Graça e a Paz são da parte de Deus
Graça e paz a vocês, da parte de Deus
Como observado, esses dois elementos são a base da saudação de Paulo, por isso é importante conhecê-los bem. A palavra “ca,rij” aparece 164 vezes no Novo Testamento, mas Paulo é responsável por 106 destas, sendo que 12 destas se encontram na Epístola aos Efésios. Ou seja, é uma palavra comum no vocabulário de Paulo pelo fato de conhecer o real significado desta palavra, pois, quanto mais se tem consciência do valor das palavras, mais se conscientiza do emprego delas.
Em documentos gregos antigos, esse substantivo é comumente encontrado, principalmente naqueles que se referem a documentos de registro de herança. Nestes, a palavra é utilizada no sentido de um presente generoso. É válido demonstrar que o substantivo “ca,rij” pode evidenciar uma qualidade que atribua bondade ao objeto de sua definição ou à atitude deste em relação a alguém. Contudo, é importante notar que bondade em português indica uma atividade na qual um indivíduo é amável a alguém, entretanto, o substantivo grego transcende esse significado pois pode ser traduzida como um favor que não se merece, um favor imerecido. Assim a identificação fica clara, a base ou a essência da saudação de Paulo é o favor imerecido da parte de Deus (sobre o termo veja ponto 4.3.1).
A palavra “eivrh,nh” (paz) quando utilizada literalmente vem a significar um estado de paz em sentido oposto a conflito armado, guerra. Figurativamente pode ser traduzida como um acordo entre pessoas (Tg.3.18), em contraste com “diamerismo,j”. Contudo pode ser uma saudação ou adeus correspondendo à palavra hebraica “~Alv’” (shalom): saúde, bem-estar, paz [para você]. Neste introdução epistolar é possível que Paulo esteja utilizando o vocábulo simplesmente como uma saudação, como faziam os judeus.
Assim, é provável que Paulo tenha emprestado um comprimento judaico e acrescido neste a palavra graça para a introdução de suas epístolas, o que demonstra suas raízes e suas mudanças, pois apesar de judeu era um cristão, e como tal reconhecia a graça de Deus.
Mas o ponto mais alto desta saudação se encontra na identificação feita por Paulo, pois esta graça e esta paz não provem dele mesmo, mas da parte de Deus. Esta expressão é muito significativa pois especifica a origem dos elementos que são considerados a base ou a essência de suas Saudações.
2.2. Paulo afirma que a Graça e a Paz são da parte de Cristo
Graça e paz a vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e de Deus nosso Pai
Em uma simples e curta introdução, Paulo demonstra claramente a graciosidade de Deus, bem como sua paternidade sobre nós, como se pode observar no texto grego, “avpo. qeou/ patro.j h’mw/n”. Essa paternidade é claramente observada na epístola de efésios.
Em Efésios 4.6 nota-se claramente a demonstração de Paulo da existência de um único Deus que é Pai de todos (ei-j qeo.j kai. path.r pa,ntwn). Em Efésios 5.20, falando sobre conduta cristã, Paulo enfatiza que os cristãos devem dar sempre graças a nosso Deus e Pai (euvcaristou/ntej pa,ntote u’pe.r pa,ntwn [...] tw/| qew/| kai. patri,). Em Efésios 6.23, Paulo encerrando sua epístola demonstra novamente essa característica de Deus como Pai (qeou/ patro.j). Assim, pode-se concluir que Paulo faz referência a mais um atributo de Deus, a paternidade.
Contudo, Paulo parece fazer uma identificação entre Cristo e Deus Pai, pois atribui a Cristo a graça e a paz que são a base de sua saudação. Ou seja, Cristo é tão capaz de prover graça e paz quanto Deus. Isso demonstra a posição Elevada de Cristo, que não é apenas homem, mas é demonstrado como Deus. Logo, Paulo comprova, de maneira indireta a divindade de Cristo.
Porém, aqui surge um problema, pois a frase é, de certa forma, ambígua. Pois é possível fazer duas identificações interesantes neste texto [ca,rij u'mi/n kai. eivrh,nh avpo. qeou/ patro.j h'mw/n kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/]: Pois, a partir de “eivrh,nh” a sentença está no genitivo. Segue-se que é possível dizer que o versículo demonstre a Paternidade de Deus sobre Jesus Cristo. Como se nota na tradução da ARA: “graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”.
Entrementes, pode-se afirmar que a Graça é da parte de Deus, como fica um pouco melhor definido na NVI: “A vocês, graça e paz da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo” e na tradução pessoal: “Graça e paz a vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e de Deus nosso Pai”.
Portanto, dizer que o texto enfatiza a Paternidade de Deus, não é nenhum problema, contudo, contextualmente observa-se que o versículo seguinte faz essa colocação. Assim é mais aceitável esperar que Paulo está enfatizando a divindade do Senhor Jesus Cristo, e não a Paternidade de Deus.
[1] PINTO, Carlos Osvaldo, Análise Exegética de Tito 1.1-2. Material não Publicado.
[2] MACARTHUR, Jonh. Efesians, The MacArthur New Testament Commentary. Moody:Chicago, 1986. pp. 2
[3] STTOT, John R.W. A mensagem de Efésios. ABU:São Paulo, 1994. pp. 6.
Questões Introdutórias – Efésios
Antes de qualquer comentário exegético ou teológico, é necessário conhecer alguns aspectos anteriores com respeito a essa epístola. Assim, demonstrar-se-á dados a respeito do autor, da localidade a que escreve, bem como os problemas subseqüentes de ambos. Isto uma vez feito, ressaltar-se-á fatos gerais da epístola que marcam o propósito pelo qual o autor escreve o que escreve, enquanto destacar-se-á o conteúdo desta.
1 Autor
Embora não seja de comum acordo, o que pode ser afirmado por ora é que o autor desta epístola é Paulo (Sobre supostos problemas com a autoria desta epístola veja Ponto 2.3). Este, nasceu em Tarso, uma das principais cidades da Cilícia, que atualmente refere-se à costa sul da Turquia (At.9.11; 21.39; 22.3). Este região, a Cilícia, abrange uma área relativamente grande e, como é de se esperar, é formada de regiões extremamente distintas. Segundo F.F. Bruce, na região:
Havia a planície fértil no leste chamada de Cilícia Pedias, entre as montanhas Tauro e o mar; a rota de comércio da Síria para a Ásia Menor passava por ela, atravessando o monte Amano pelas Portas Sírias e cruzando a cadeia de montanhas do Tauro, pelas Portas da Cilícia, para o centro da Ásia Menor. A oeste destas ficava a região costeira montanhosa da Cilícia Tracheia (Cilícia acidentada), onde a cadeia do Tauro desce para o mar[1]
De acordo com o relato de F.F.Bruce é impossível não reconhecer a importância da região do ponto de vista comercial, pois era localizada no ponto de encontro entre a ligação comercial da Síria com a Ásia Menor. Por essa razão, o desenvolvimento da região era, em relação a realidade das demais regiões, avançada. E, nesta região encontrava-se a cidade de Tarso, que na concepção do próprio apóstolo Paulo, é uma “cidade não insignificante” (At.21.39). A cidade de Tarso além de ter grande importância comercial, teve relevância intelectual, visto ter uma universidade cuja fama rivalizava com a de Atenas e Alexandria.
Paulo, por ter nascido nessa região, poderia ter cursado nesta universidade onde absorveria um pouco da cultura e língua grega. Entretanto, segundo suas próprias considerações, recebeu sua principal educação em Jerusalém (At.22.3). Mas, sobre a possibilidade de absorção da cultura e língua, sua própria convivência na região se encarregaria desse fato.
Um ponto interessante na vida do Apóstolo é que ele é, ao mesmo tempo um judeu e cidadão romano. Em At.22.27 Paulo afirma que tem cidadania romana por nascimento. Como não se contesta a validade dessa afirmação, é possível que seu pai já fosse um cidadão romano e que por direito hereditário teria assumido tal cidadania. É de comum acordo que a cidade de Tarso possuísse benefícios ante ao Império Romano, como a isenção de impostos imperiais durante o governo de Augusto, o que facilitaria com que pessoas nascidas em Tarso pudessem comprar seu direito de cidadania, ou recebê-lo por mérito a uma atividade em benefício do Império. Não se sabe ao certo como seu pai, ou avô, pudesse ter recebido esse direito, mas é acima de suspeita que Paulo possuísse tal cidadania, e que como tal participava da elite social da cidade.
Entretanto, é importante notar que Paulo também se apresenta como “hebreu dos hebreus”, no sentido de descendente de Abraão (Fp.3.5). Ou seja, sua ascendência é naturalmente judaica. Assim, por mais que sua família pudesse ter sido totalmente enraizada na cultura grega, a religião de seus antepassados sempre falou mais alto, e a ela dedicou toda sua devoção, como lê-se em At.22.3: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus“. Em Fp.3.5 pode-se encontrar mais informações ainda: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu“.
Portanto, Paulo é considerado como um homem de influência no judaísmo, e de respeito perante o Império Romano. E, em posse desses direitos, e impulsionado pelo seu zelo para com Deus, o fariseu de nome hebraico Saulo empenha-se em perseguir aqueles que corrompem a verdade que considera inequívoca. Como ele mesmo afirma: “quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Fp.3.6).
O que provavelmente impulsionou Paulo nessa perseguição à igreja foi sua própria concepção de que era impossível que o Ungido de Deus, o Messias libertador da nação, pudesse sofrer tamanha indignidade como morrer em uma cruz. Isso era claramente demonstrado pela lei: “porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus” (Dt.21.23). Assim, aquele que perante a lei se considera irrepreensível, não podia aceitar essa informação. Contudo, essa era a mensagem anunciada pelos discípulos de Jesus. Pedro, em seu primeiro sermão em Atos faz a seguinte colocação: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo“.
Diante dessa realidade, Paulo como fariseu e zeloso pelos ensinos de Deus, não podia conter-se, deveria mover-se contra tal difamação da verdade que tanto crê. E prova de que tamanho era o zelo de Paulo contra o cristianismo, é que é possível encontrá-lo na cena do apedrejamento de Estevão (At.8.1), quando consente com sua morte[2]. Além de “consentir” com a morte de Estevão, pouco depois é apresentado como aquele que “assolava a igreja, entrando pelas casas, e, arrastando homens e mulheres e encerrava-os no cárcere” (At.8.3).
Sobre a dedicação de Paulo para com o judaísmo é assim expresso por John Sttot: “Seu zelo é demonstrado por sua disposição de realizar uma longa viagem para desarraigar todos os adeptos desse ‘Caminho’ nocivo[3]“. Paulo é aquele que, segundo ele mesmo, não só perseguia a Igreja, mas a detestava (Gl.1.13), enquanto respirava “ameaças de morte contra os discípulos do Senhor (At.9.1). Dessa forma, “Paulo se tornou um dos maiores líderes dos opressores da igreja[4]“.
Mas, todo esse zelo em prol do judaísmo não poderia durar por toda sua existência. Sua busca por defender os fatos em conformidade com verdade do próprio Deus, não poderia cerrar seus olhos para a mais sublime verdade já conhecida: “O Cristo ressurreto”.
Seu encontro com a verdade estava próximo, e a caminho de Damasco o inesperado acontece:
Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? (At.9.4)
Em Hebraico Paulo ouve seu nome e uma pergunta (At.26.14). E, como qualquer um em sua situação, questiona: “Quem és tu?”. Atordoado com o evento, não conseguia nem discernir quem falava com ele. Mas a resposta não deixa dúvidas: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At.9.4s; 22.7s; 26.14s). Após esse fato, cego por causa do fulgor daquela luz, Paulo é encaminhado para Damasco, onde Ananias, como muito temor, seria convidado por Deus para impor-lhe as mãos. Com certeza a situação é tensa, mas Deus Deus é claro em afirmar Seu propósito:
Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel, pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome.
Em uma conversa com Ananias, o que lhe tampava a vista, cai como que escamas dos seus olhos e torna a ver, e ao levantar-se foi batizado. Agora, o tão poderoso perseguidor do evangelho reúne-se aos perseguido e “logo pregava nas sinagogas a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus” (At.9.20). Transformado pela graça de Deus, dedica-se a anunciá-la. Como ele mesmo chegou a dizer:
A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor, pelo qual temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele. (Ef.3.8-12)
Agora uma mudança sem precedentes acontece na vida de Paulo, perseguidor para perseguido. Toda a intensidade que tinha em defender o judaísmo é agora aplicada em propagar o evangelho da salvação pela graça. Paulo, agora, é cônscio de sua tarefa: pregar aos gentios o evangelho de Cristo, enquanto aprende a sofrer pelo nome de Deus.
Além desses fatos anunciados, Paulo, após recuperar sua visão, ainda mudou sua visão com respeito a Jesus, pois afirma que ele é o Messias; mudou sua visão da lei, passou a questionar o todo seu procedimento como fariseu, tendo em mente que a lei o incitou a perseguir o próprio Messias; mudou sua visão da salvação, pois nada mais do que pudesse realizar poderia garanti-la; e assim, como um hebreu dos hebreus, cidadão romano, decidido e zeloso naquilo que crê, dedica sua vida em prol da causa de Cristo. E, talvez, deve ser essa a razão pelo qual, ao lembrar do passado chega a dizer:
Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes, e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (1Co.1.27-29).
A sabedoria de Deus deve ser exaltada na experiência da salvação de Paulo, pois este que era a “pedra no sapato” do evangelho, vem a ser de fundamental importância para a propagação do evangelho. Um judeu, conhecedor da lei e das tradições, com grande instrução, conhecedor não só da língua mas como da filosofia grega, universalizou o evangelho com suas epístolas na língua que todos poderiam ter acesso, com verdades que apenas ele parecia dispor.
Deve-se isso à graça de Deus que transformou, não apenas sua visão, mas sua vida, fazendo com que sua cosmovisão fosse nova, sua missão diferente, diante de uma perspectiva correta, produzindo uma teologia sadia e digna de autoridade e respeito, enquanto empenhava-se em auxiliar a igreja a portar-se corretamente. De missão em missão, dificuldades e problemas, a ponto de experimentar o cárcere, por algumas vezes, por assim dizer, aprende aos poucos o que significava sofre pelo evangelho. E preso, dedica-se a escrever cartas àqueles que durante suas missões conhecera; às igrejas que ele mesmo lançou o fundamento, buscando informá-los sobre a realidade do evangelho, e sua importância na prática vivencial.
É o que acontece com a mensagem contida na epístola aos Efésios, que é marcada pela graça de Deus, que ele pessoalmente teria experimentado. Graça que o alcançou a despeito de seu zelo fariseu para com a lei, concedendo-lhe a justificação diante de Deus, a redenção em Cristo, e o selo do Espírito que é a garantia de sua herança.
2 Destino
Como é comum na maioria dos documentos neotesta-mentários, existem problemas na epístola em pauta que dificultam a identificação satisfatória do rumo que ela teria tomado, e a quem teria sido enviada (Sobre essa discussão veja ponto 2.4). Entretanto, nesta altura considerar-se-á apenas Éfeso como destino desta carta, pois é certo que tenha chegado até lá. O intuito desta consideração é tomar como Éfeso modelo social e cultural da região para onde esta epístola possa ter ido, para ressaltar algumas informações que auxiliem a identificação do propósito pelo qual Paulo escreve o que escreve nesta epístola.
Assim, não é necessário ler muito para encontrar a seguinte oração: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, aos santos que vivem em Éfeso“. Éfeso, pertencia à região da Ásia, que “foi formada pelo reino de Pérgamo, quando Atalo III morreu em 133 a.C. e deixou seu território para o senado e o povo de Roma[5]” e a região da Mísisa, Lídia, Caria, Lícia, e parte da Frígia.
Posteriormente, parte da costa da Ásia, a Jônia, foi inserida à Lídia, e após diversos conflitos sobre o domínio da região, acaba dominada pelos gregos, que vêem a ser denominados gregos jônios. Dentre as principais cidades dessa região, que possuíam autonomia cívica, Éfeso, na foz do Caístro, era a mais ilustre, chegando a ser considerada como “a cidade mais importante da província romana da Ásia[6]“.
A cidade era adentrada e cortada por uma magnífica estrada com aproximadamente 22 metros de largura adornada com colunas esculturais, que chegava até o porto, que servia tanto como grande centro exportador como escala natural para quem viajava para a capital do império. Devido a esse fato, a economia era crescente, e a cidade era de extrema importância para o comércio, também crescente naquele tempo.
Sua grandiosidade como cidade não é apenas marcada pela sua proeminência comercial, nem mesmo pela sua fama com os direitos cívicos, mas era o centro de adoração da deusa pagã Diana. Homero, em A Ilíada, apresenta Diana como senhora e protetora da vida selvagem[7], e na Grécia era conhecida como a virgem caçadora. O templo de Diana, situado em uma planície próxima à entrada da cidade pela porta Magnesiana, guardava a imagem da deusa que tinha muitos seios que, segundo as crenças, teria caído do céu (At.19.35). A veneração dessa deusa teria se espalhado pelo mundo antigo (At.19.27), e em função disso a cidade orgulhava-se de ser a Guardiã do templo de Diana. Entretanto, uma espécie de multiformidade ideológica marcava a cultura religiosa da região, pois segundo Walter Elwell e Robert Yarbrough a cidade “era dominada pela adoração do imperador, pela idolatria, e as artes negras de ocultismo e espiritismo[8]“.
E a esta cidade é que o apóstolo Paulo chegou, próximo ao fim do verão de 52.d.C. e ficou durante quase três anos. O evangelho parece ter nascido nesta cidade fruto dos esforços de Priscila e Áquila, em um momento de grande expansão do cristianismo, que se espalhou com igrejas pelo vale do Lico (cf. Cl.1.7; 2.1). É provável que, de Éfeso Paulo tenha mantido contato com a Igreja de Corinto, e que, segundo G.S. Duncan, nesta cidade é que Paulo ficou aprisionado pro três vezes e que de lá teria escrito suas epístolas de prisão[9]. Entretanto, poucas evidencias apóiam tal hipótese.
O que é certo é que durante o ministério de Paulo uma comunidade cristã tenha crescido e se fortalecido na região após o encontro de Paulo com alguns discípulos de João (At.19.1ss), e por meio dessa comunidade, o evangelho espalhou-se pela província da Ásia. Outro fato que deve ser ressaltado é que a esta comunidade, poucos anos depois, Paulo tenha dirigido uma epístola, embora sem referências diretas a pessoas, a conhecida epístola de Paulo aos Efésios.
3 Problemas com a Autoria
Entrementes, essa consideração não é simples assim. A epístola de Efésios é normalmente atribuída a Paulo como autor, embora alguns teólogos modernos tentam atribuir a epístola a um pseudônimo, devido a algumas discrepâncias literárias, teológicas e de vocabulário ao que se refere aos outros escritos paulinos. Tal dificuldade tem impulsionado alguns comentaristas a não conseguirem expressar opinião concreta, como Arthur G. Patzia, que ao levantar dados sobre o fato parece não fechar a questão da autoria. Para ele, “todas as questões internas e externas que rodeiam esta carta não nos deveriam distrair de sua beleza e valor essenciais, e completa autoridade que ela tem para a igreja[10]“.
Assim, é de fundamental importância conhecer os argumentos que favorecem ou desfavorecem a autoria paulina para que uma conclusão sólida, concreta, consistente e digna de confiança possa ser levantada, com o propósito de não atribuir suspeitas no que tange a fidedignidade e veracidade do texto.
3.1 Argumentos contra a autoria paulina
Sobre os argumentos contra a autoria paulina pode-se ressaltar pelo menos 3 pontos: vocabulário e estilo, doutrina e semelhança com Colossenses.
Vocabulário e Estilo:
Neste ponto, as afirmações parecem muito subjetivas. O primeiro grande argumento lançado é que em Efésios existem oitenta duas palavras que não ocorrem em nenhum outro escrito de Paulo, e que trinta e oito não se encontram em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Desse grupo de palavras pode-se destacar avswti,a (dissolução) e politei,a (comunidade). Outro detalhe é que em Efésios algumas marcas registradas de Paulo são alteradas, como por exemplo: sua referência ao céu (oiv ouvranoi,) é cunhada como “nos lugares celestiais” (evn toij evpourani,oij); a expressão normalmente utilizado por Paulo para designar sua atividade de “dar graças” (ca,rij di,domi) é apresentada pelo verbo “conceder graciosamente” (carito,w); normalmente Paulo refere-se a Satanás, mas em Efésios como “diabo”. No que tange ao estilo, apenas duas colocações são importantes; a primeira diz respeito às orações normais de Paulo, que são curtas, concisas e formadas por orações breves, o que não acontece em Efésios; em Efésios o autor tem o costume de ligar termos sinônimos o que não ocorre nos outros escritos paulinos. Segue-se, que à luz desses argumentos pode-se reforçar a idéia de um autor pseudônimo.
Doutrina:
A doutrina expressa em Efésios parece muito organizada para a época que é comumente atribuída. Um exemplo disso é a doutrina relacionada à Igreja, pois é normal que Paulo se refira à igreja como uma comunidade individual, ou igreja local. Porém, em Efésios encontra-se o conceito claramente universal da igreja, pensamento encontrado por volta do início do segundo século. Patzia sugere que esse tipo de pensamento é encontrado no início do catolicismo, o que implica em uma carta pós-paulina[11]. Ainda em relação à igreja, o autor de Efésios ilustra a união entre Cristo e a Igreja com a idéia do “casamento”. Mas parece impossível que esse pensamento provenha de Paulo, pois parece conflitante com 1Coríntios 7[12]. A idéia de que na igreja tanto gentios como judeus são incluídos pelo derribamento da “parede de separação” sugere a idéia da destruição do Templo em 70.d.C., visto que na época de Paulo era impossível que gentios e judeus vivessem em harmonia. Outro fator interessante é que Paulo sempre menciona algo referente a “parousia“, sua doutrina favorita[13], e em Efésios isso não acontece nem indiretamente. Pouca ênfase na iminência da Volta de Cristo é encontrada em Efésios, e Paulo costumava referir-se ao futuro e a urgência de uma vida irrepreensível em função desta iminência. Observado esse quadro, é possível sugerir um pseudônimo muito posterior a Paulo, pois apenas assim é que essas tensões podem ser harmonizadas.
Semelhança com Colossenses:
Este argumento é muito interessante, mas não se sabe a quem apóia. Por exemplo, é notória a semelhança entre Efésios e Colossenses, que é uma carta genuinamente paulina. Isso mais atrapalha que auxilia tal argumento, contudo o que se tem sugerido é que Colossenses é uma carta paulina e que um admirador de Paulo a tenha utilizado para redigir Efésios. Argumento um tanto subjetivo e confuso, a não ser que ambas sejam consideradas não paulinas. Contudo, essa similaridade é apenas superficial, pois, embora setenta e cinco dos vocábulos encontrados em Efésios estejam presentes em Colossenses, muitos desses são utilizados de maneira diferente nestas epístolas. A idéia de supremacia de Cristo, denominado o cabeça das potestades (Cl.2.10, 19), em Efésios é aplicado à Igreja, onde Cristo é o cabeça (Ef.4.15-16); o mistério em Colossenses refere-se a “Cristo em vós” (Cl.1.27) e em Efésios a unificação entre judeus e gentios (Ef.3.3, 6); a palavra dispensação em Colossenses denota mordomia (Cl.1.20) e em Efésios refere-se ao plano soberano de Deus (Ef.1.10; 3.2). Assim, um admirador de Paulo pode ter assumido seu nome e alguns de seus termos, para escrever uma carta que fosse aceita pela igreja primitiva, em uma data muito posterior à morte de Paulo. Um fator, mesmo sendo tolo, que apoiaria esse argumento é que as cartas de Paulo circulavam entre as igrejas por meio de cópias, assim é possível que um pseudônimo inserisse uma pseudocarta de Paulo como uma carta sem que ninguém pudesse notar.
Diante dos fatos levantados é possível que a autenticidade da autoria possa ser reavaliada. Mas é ainda necessário conhecer os argumentos a favor da autoria paulina para que tal afirmação possa ser levado a cabo, como alguns tem tentado.
3.2 Argumentos a favor da autoria paulina
Antes de qualquer argumento a favor, é importante demonstrar que dois pontos são interessantes até aqui: (1) O argumento contra a autoria paulina é fundamentado no fato de que o vocabulário, estilo e doutrina são avançados demais para se admitir a autoria paulina, mas são tão semelhantes que é preciso crer que um admirador de Paulo, de seu estilo, vocabulário e doutrina redigisse tal documento; (2) as evidências anteriores apontam para um autor pós Paulo, o que seria ilógico esperar que um admirador escreveria uma carta com o nome de alguém que certamente está morto. Assim, uma conclusão é clara: existe muitos conflitos entre os argumentos contra a autoria paulina, e sua base é muito subjetiva, e a subjetividade não é um bom ponto de partida para um debate tão perigoso como esse.
Após essa breve colocação, é válido lançar um pequeno questionamento: Qual seria o valor e a veracidade das informações espirituais contidas nesta epístola se é baseada na intenção dolosa de algum pseudônimo admirador de Paulo? Se Ef.1.1 é inválido, qual é a validade do resto? Ou toda a epístola é uma mentira, ou as teorias sobre sua autoria o são. Neste trabalho, evidencia-se a clarividência de que a segunda opção é verdadeira, a saber, que as teorias recentes são inválidas. As respostas às possibilidades lançadas no tópico anterior, neste tópico é refutada, como segue abaixo.
No que tange a vocabulário e estilo, a avaliação é inócua. A demonstração de um vocabulário rico não pode garantir que Paulo não o tenha escrito, e por certo este nunca resolveu anotar as suas palavras preferidas para redigir suas cartas com vocábulos exclusivamente seus. É evidente que para ênfases distintas usa-se vocabulário distinto. Assim afirmar que Paulo não escreveu a epistola fundamentado nessa premissa é no mínimo ilógico. Sobre seu estilo diferenciado é novamente uma avaliação superficial, pois é impossível que durante o tempo, tanto vocabulário como estilo, não sejam alterados. Ninguém pode escrever com absolutamente mesmo estilo durante todas as fases da vida. Isso é demonstrável nos próprios escritos de Paulo, pois que conexão existe entre Romanos e 1Coríntios em termos de estilo? Não se pode acusar Shakespeare de escrever poesias e peças, e negar-lhe os sonetos em função do estilo de escrita e vocabulário. Isso ilustra o fato de que, em função de destinatários diferentes, problemas diferentes, pessoalidade diferente uma abordagem diferente nasce, e com ela um estilo literário distinto. Mas não se pode afirmar que Romanos é de Paulo e 1Coríntos não, nem o contrário, pois é certo que ambas pertençam ao mesmo autor, a história da igreja assim o confirma. Do mesmo modo com Efésios e os demais escritos de Paulo.
Sobre a doutrina mesmo problema é encontrado, pois Paulo não pode não mencionar sua doutrina favorita, pois isso iria impossibilitá-lo como autor desta carta, o que é ilógico. Sobre a Igreja universal em Efésios, em Cl.1.18 é clara a consideração da universalidade da Igreja, o que sugere um mesmo autor para ambas (cf. 1Co.4.9; 12.28; 15.9; Gl.1.13; Fl.3.6). As outras sugestões teológicas são também inconsistentes, pois sobre a parede de separação e sua aplicação à queda do templo está mais diretamente relacionado com uma má interpretação do argumento de Paulo naquele texto do que uma alusão a este fato histórico. E para agravar, a queda do templo não auxiliaria em nada essa convivência, pois que relação existiria entre os dois fatos? A impossibilidade anunciada para a convivência entre gentios e judeus não tem respaldo histórico, pois as advertências neotestamentárias sempre abordam essa questão. O que é certo é que esta convivência era por vezes conflitante, não impossível. Outro detalhe importante aqui é que em Rm.9-11 Paulo se importa em demonstrar que o conceito de unidade entre gentios e judeus já fazia parte de seu escopo teológico. Sobre 1Coríntios 7 e a figura do casamento em relação a Cristo e a Igreja é fruto de uma má compreensão de ambos textos, pois não há indícios que um atribua problemas ao outro. Além disso, essa idéia não é proposta pelo Apóstolo, mas é indicada pelo próprio Messias (Mt.25.1-13).
Em relação à sua semelhança com Colossenses, até onde ela é levada, mais confirma a autoria paulina do que a desacata. Como já demonstrado, as supostas discrepâncias não são decisivas, visto serem fruto de má disposição de interpretação. Todos os termos que foram sugeridos como conflitantes estão sendo usados dentro do campo semântico aceito, embora aplicações distintas possam ter sido elaboradas em cada consideração. Com respeito a Cristo ser o cabeça das potestades em Colossenses e o cabeça da Igreja em Efésios não é problemático, pois em Colossenses Cristo também é testemunhado como Cabeça da Igreja (Cl.1.18). Sobre o mistério, a expressão “Cristo em vos” (Cl.1.27) é aplicada a gentios, e mesma ênfase existe em Efésios, contudo de maneira mais detalhada, o que não desmerece o texto. Sobre a palavra “dispensação” em ambos os casos referem-se à mordomia ou administração soberana da parte de Deus. Ou seja, todas as afirmações de caráter doutrinário não parecem tão consistente assim, antes contribuem mais para uma autoria paulina do que o contrário. Vale ainda ressalvar que Colossense e Efésios são escritos aproximadamente na mesma época e do mesmo lugar, e segundo tudo indica, pelo mesmo autor. Isso resolve o problema da similaridade.
Sobre a idéia de um imitador, é válido questionar: Se ele era um admirador de Paulo, por que razão não procurou utilizar outras cartas de Paulo na sua redação? Por que utilizou apenas Colossenses? Sobre isso, Hendriksen cita E.F. Scott que diz:
Quando um escritor tira de si mesmo, ele faz o que quer de seu próprio material. Ele não pode deixar de fazer revisões e modificações em cada frase. Somente o imitador desonesto é o que percebe que precisa atentar bem ao seu original se não quiser trair a si mesmo[14]
À luz dessas respostas é necessário demonstrar as evidência à favor da autoria paulina.
História Eclesiástica:
Dentro das informações recolhidas pela história a Epístola é reconhecida como Paulina. Sua aceitação no Cânon deu-se em função do reconhecimento da autoria paulina. Marcion, mesmo sendo um herege, incluiu Efésios no seu Cânon particular, embora sob o título de “aos Laodicenses“. Policarpo, martirizado em 168, faz alusões dessa epístola como escrito de Paulo Irineu, no segundo século já reconhecia tal epístola. O Cânon Muratoriano também incluía a epístola em questão, reconhecendo a autoria paulina. O mesmo acontece com Clemente de Alexandria e Orígenes. Eusébio de Cesaréia reconhece Efésios como epístola paulina quando se refere aos textos considerados como Escritura[15]. Se aqueles que estavam mais próximos reconheciam a autoridade do texto é válido considerar como autêntico. Ainda é importante demonstrar que até o século dezesseis “pende completamente para o lado Paulino quanto a questão da autoria[16]“. O que se pode notar é que existe um forte apoio externo e uma certa unanimidade presente na igreja primitiva.
Autoridade das Escrituras:
Em primeiro lugar deve-se ressaltar que o autor da epístola se identifica, não apenas uma vez mas duas (1.1; 3.1). A não ser que existam muitas provas do contrário é válido aceitar a carta pela sugestão deixada nela mesma. Um detalhe importante é que os receptores da carta deveriam reconhecer o escrito em pauta pelas sugestões deixadas na própria epístola, tal como a oração do autor pelos receptores (1.15), chama-se de “o prisioneiro de Cristo” (3.1; 4.1) e pelos pedidos de orações deixados (6.19-20). Se algum pseudônimo assumisse a identidade de Paulo, notas com uma certa pessoalidade seriam evitados. Se o caso desta epístola fosse de falsificação de autoria ela seria, sem sombra de dúvidas, retirada do cânon aceito.
Semelhança teológica consigo mesmo:
Dentre os temas tratados em Efésios, muitos são encontrados nos documentos inconteste de Paulo: Domínio da carne nos não regenerados; O papel da graça na salvação; a obra de Cristo como reconciliação; o papel dos judeus e da lei; isso, ao menos, sugere que o mesmo autor as tenha escrito.
3.3 Conclusão
Diante das informações recolhidas é impossível que se atribua a Epístola ao Efésios a um admirador, ou imitador do Apóstolo Paulo. As sugestões que nascem para colocar em “cheque” a autoria paulina podem ser utilizadas para validá-la. Tais argumentos, além de incoerentes, são inconsistentes com a realidade da epístola. Assim, é incontestável que a autoria seja paulina.
4. Problemas com o destino
O problema em relação ao destino desta epístola nasce logo no início da Epístola: “Pau/loj avpo,stoloj Cristou/ VIhsou/ dia. qelh,matoj qeou/ toi/j a’gi,oij toi/j ou=sin Îevn VEfe,sw|Д. Como se observa, a expressão que indica o destino desta epístola está entre colchetes, ou seja, não consta em manuscritos importantes. Se isso é correto, é possível que “em Éfeso” não indica que Paulo tenha endereçado esta epístola à comunidade de Éfeso (maiores detalhes textuais sobre a expressão, veja Apêndice 1). O papiro mais antigo P46, considerado o mais confiável, e em alguns outros documentos antigos (a, B, 424c, 1739) não constam tal expressão, o que sugere que ela não estivesse no autógrafo.
Entretanto é válido demonstrar que não se sabe afirmar para quem tais documentos são mais importantes. Tal título é mantido pela idade de tais documentos, e que por serem antigos devem estar mais próximos do autógrafo. Contudo, as evidências a favor da inclusão de “em Éfeso” são devastadoramente maiores numericamente, regionalmente, textualmente com boas evidências patrísticas. O argumento que favorece a não inclusão deve sua força a esse fato, que parece não resolver a questão, pois é notório que na história da igreja as cópias dignas de confiança foram mantidas, e as demais, rejeitadas. Assim, afirmar que documentos antigos são mais próximos do original pode ser um risco muito grande, pois existem duas hipóteses válidas para documentos antigos: (1) foram perdidos no decorrer do tempo ou (2) foram deixados de lado. Para qualquer uma das duas hipóteses é certo que não existia qualquer valor textual, por que a igreja não deixaria cópias dignas de confiança serem esquecidas ou perdidas no tempo. Assim, é certo que as evidências que desacreditam o destino para Éfeso não podem ser tão conclusivas.
Além deste problema textual nesse assunto, é possível notar certa incoerência no relacionamento de Paulo com os efésios durante seu ministério e o tom impessoal da carta a eles dirigida: “tendo ouvido a fé que há entre vós” (1.15); “se é que tendes ouvido…” (3.2; 4.21). Como foi demonstrado, Paulo não apenas passou por Éfeso, mas esteve nesta cidade durante três anos (At.19.8; 20.31), e a estes se despede com tom de muita amizade, comunhão e carinho (At.20.17-38), como se pode ler:
Tendo dito essas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. Então houve grande pranto entre todos e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que dissera, que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até o navio (v.36-38)
Se tamanha pessoalidade é encontrada entre Paulo e os efésios, por que não existe nenhum reflexo disto em sua epístola, uma vez que ela foi endereçada a eles? A resposta a esta questão parece não favorecer a inclusão do destino, e assim “é muito difícil imaginar que Paulo teria escrito uma carta tão seca e impessoal a amigos tão queridos[17]“, sem contar que, é possível que essa seja a carta mais impessoal do apóstolo Paulo.
A questão pode ser ainda pior quando uma análise patrística é aplicada a esse problema. Sobre isso Broadus David Hale afirma:
Tertuliano, em seu debate corrente contra Marcião, citou o título, mas não se referiu à locução “em Éfeso”, contida em 1.1. Quando Orígenes escreveu sobre esta carta, está evidente em sua exposição de 1.1 que a expressão não estava no manuscrito que ele usou. Muito mais tarde, Basílio escreveu que seus predecessores haviam omitido a locução[18].
Relevando ainda a questão patristica, é possível que o cânon de Marcião contivesse essa mesma epístola sob a referência de “aos Laodicenses”. Mas, se era verdadeira tal indicação, por que motivo foi descartada? A essa pergunta, não existe resposta histórica. Então, se as evidências levantadas acima são verdadeiras, bem como a autoria paulina, pode-se assegurar que ela não tenha sido endereçada a Éfeso. Contudo, essa conclusão descarta a veracidade do conteúdo dês epístola, pois, se o destino dela é uma incógnita, ou uma falácia má intencionada, que se dirá de seu conteúdo?
Ante a essas perguntas, possivelmente sem resposta, deve-se ter em mente que dois destinos a uma mesma carta nunca foi problema para ninguém, pois se pode endereçar a mesma carta a dois ou mais destinos distintos. A questão do destino da carta pode ser bem explicada pela possibilidade de que Paulo tenha escrito uma carta circular, e que Éfeso, como a cidade proeminente da região a que escreve teve seu título mantido no decorrer da história. Entretanto, não se abraça a idéia de uma carta sem destino, ou com uma lacuna para se preencher, visto que não existe nenhuma outra indicação na antiguidade de que isso tenha acontecido.
Em prol da opinião da carta circular, é válido afirmar que a tradução expressa pela ARA para Ef.3.2 (“se é que tendes ouvido“), que retira a dignidade de Paulo como autor e Éfeso como destino, não expressa o sentido da frase grega “ei; ge hvkou,sate”. A palavra “ge” é uma partícula de ênclise, e não corresponde diretamente a nenhuma palavra em Latim ou em Português, mas indica que o significado da palavra a qual pertence tem proeminência especial. Ou seja, uma vez conectada à preposição “eiv”, ela eleva a uma condição de ênfase tal preposição. Dessa forma, “eiv” não expressa dúvida, mas uma suposição que é dada por garantida. Logo, a sentença pode ser assim traduzida: “visto que tendes ouvido”. Ou seja, tal versículo não é respaldo para a negar a autoria de Paulo, ou o destino a Éfeso, antes dignifica a possibilidade que tal documento tenha sido escrito como um encíclica que, certamente, chegou a Éfeso.
Se a carta é uma encíclica para ser lida em diversas igrejas, não existe nenhuma prova que possa desmerecer o conteúdo, autoria ou até mesmo o destino. É válido lembrar que, se a carta foi endereça da à Laodicéia e nenhum dos manuscritos foi mantido com essa referência, é possível que a tradição da igreja o tenha retirado, pela conexão direta com Marcião que isso traria. Dessa forma conclui-se que, a carta apesar de ter sido destinada a várias regiões da Ásia, chegou até Éfeso, e possivelmente a partir desta é que se estenderam as cópias posteriores mantendo-a até os dias de hoje.
5. Propósito geral da Carta
Certa dificuldade cerca esta epístola por que, normalmente, o propósito da redação está intimamente ligado à circunstância específica dos destinatários. E, como observado, na Epístola aos Efésios existem muitas dificuldades no que tange aos destinatários bem como a circunstâncias vividas por eles. Mas é válido ressaltar que: (1) a carta chegou até Efésos, e que esta cidade serve como modelo sócio-cultural e religioso dentre todas as possíveis Igrejas que receberam tal epístola; (2) considera-se que esta epístola seja encíclica, assim releva-se um propósito mais abrangente do que as demais cartas de Paulo; (3) a carta é proveniente de Roma, como a ortodoxia tem se preocupado em defender, chegando aos destinatários por volta do ano 61 d.C.; Segue-se que é possível compreender o propósito de Paulo nesta epístola.
Contudo, as premissas (1) e (2) já foram bem demonstradas, o que não ocorre com (3). Mas, não é sem provas que tal conclusão é aceita, pois Paulo esteve em Roma sob confinamento em uma casa alugada (At.28.16, 30, 31) com certa liberdade tanto para locomover-se como para escrever; as evidências das outras epístolas de prisão (Fp.1.7; Cl.4.10; Fm.9) apontam para a primeira prisão em Roma, o que sugere que não seria diferente com Efésios, visto ser normalmente enquadrada na mesma época que as demais; a narrativa do Livro de Atos também favorece essa conclusão; ou seja, a premissa (3) é válida.
Portanto, diante dessas evidências, pode-se levantar fatos que demonstrem o propósito. É possível a considerar três pontos altos nessa epístola, que cooperam entre si, para a identificação do propósito maior desta, as saber: Paulo tem interesse em expressar satisfação pelo testemunho dos cristãos a que escreve; impulsioná-los a demonstrar a graça de Deus manifesta na salvação deles visando assim glorificar a Deus; e por fim estabelecer um conceito sólido tanto da salvação como da Igreja para que os cristãos, convictos de sua nova posição em Cristo, pudessem viver de maneira irrepreensível diante de Deus.
Expressar satisfação: Nesta carta, embora com poucas referências pessoais, Paulo deixa evidente que a postura dos gentios cristãos, em relação a fé em Cristo e no amor para com os santos (1.15, 16), está correta, e assim louva a Deus por isso, embora peça que Deus lhes dê espírito de sabedoria e revelação para que eles possam compreender o poder de Deus manifesto na salvação deles.
Estimular a propagação da graça de Deus: Nesta carta é evidente que Paulo estimula seus leitores a serem uma eterna demonstração da graça de Deus (1.12; 2.7, 10; 4.1-3; 5.1). A intenção é que os gentios compreendessem a graça de Deus na salvação deles, da realidade da inclusão deles no plano histórico de Deus, com o objetivo de que não vivam mais como viviam antes da salvação (4.17-19).
Estabelecer conceitos corretos: Com obviedade, a epístola de Paulo aos efésios inclui um caráter didático muito forte e coeso, mas diretamente ligado à práxis vivencial do cristão. Neste ponto nota-se a base para tudo o que é levantado na carta, pois Paulo compreende que apenas a partir de conceitos corretos pode-se levantar uma conduta correta. Assim, a demonstração do conceito correto da salvação de Paulo conduz os gentios a conclusão da isenção de mérito para o recebimento desta bênção, e os conclama à humildade, pois não podem alegar mérito da salvação, mas devem relembrar da sua condição antes da atuação de Deus e que por meio de Cristo foram aproximados deste plano histórico e inseridos na comunidade dos santos, podendo, a partir de então, desfrutar desta nova posição em Cristo como santos em busca da santidade.
Segue-se que, segundo essas informações pode-se sintetizar o propósito da Epístola de Paulo ao Efésios nas seguintes palavras: “Conscientizar cristãos gentios da sua posição em Cristo, bem como da nova comunidade que participam, a Igreja, para que entendam a postura digna que devem ter diante de Deus, dos judeus e do mundo“.
[1] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça. Shedd Publicações:São Paulo, 2003. pp.27
[2] A idéia presente neste texto é que Paulo aprovava em sentimento comum com outros o assassinato de Estevão como um blasfemador.
[3] STTOT, Jonh. Homens com uma mensagem. Cristã Unida:São Paulo, 1996, pp.88.
[4] DOUGLAS, J.D and COMFORT, Philip W. Who’s who in Christian History. Tyndale House: Illinois, 1997.
[5] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça. Shedd Publicações:São Paulo, 2003. pp.279
[6] DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vida Nova:São Paulo, 1962. Vol I. pp.459.
[7] HOMERO, A Ilíada. Martin Claret:São Paulo, 1998, pp.470.
[8] ELWEEL, Walter e YABROUGH, Robert. Descobrindo o Novo Testamento. Cultura Cristã:São Paulo. 2002, pp.309.
[9] DUNCAN, G.S. St. Paul’s Ephesian Ministry. In: DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vida Nova:São Paulo, 1962. Vol I. pp.460
[10] PATZIA, Arthur. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Vida:São Paulo, 1995. pp.137.
[11] Idem, pp.139.
[12] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 1997. pp.338
[13] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.273
[14] SCOTT, E.F, Epístola de Paulo aos Colossenses, a Filemom e aos Efésios. In: HENDRISKSEN, William, Comentário do Novo Testamento. Casa Presbiteriana:São Paulo, 1992. pp.38
[15] EUSÉBIO, História Eclesiástica. CPAD:São Paulo, 1997. pp.235
[16] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.275
[17] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 1997. pp.340
[18] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.275