03.30.09
Milagres de Cristo no Evangelho de João
O uso quase exclusivo de “semeion” por João ao apresentar os milagres de Cristo evidencia que seu propósito está além do que relatar um caso miraculoso. Ele certamente o faz em caráter teológico, apologético e evangelístico: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Valor Teológico dos Milagres
No que se refere a teologia, João assegura que os milagres registrados atestam que Jesus é o Filho de Deus: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
A designação Filho de Deus, ao contrário do que os arianos modernos (TJ) afirmam atestam a divindade de Cristo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). O uso da expressão unigênito Filho de Deus (gr. tou monogenous uiou tou theou) é uma das formas pelas quais João apresenta Cristo como divino[5], e essa definição é uma exigência para salvação. Ou seja, ainda que as opiniões sobre Cristo fossem divergentes já nessa ocasião, é certo para João que Jesus é Deus. Aliás, a linguagem de João aqui parece trazer a tona uma referência ao gnosticismo incipiente e sua desconexão da pessoa de Cristo Deus Pai (1Tm.1.4).
A designação de Filho assumida por Cristo expressa uma relação familiar com o Deus Pai. Tal ênfase é explicitamente majoritária em João, pois enquanto os sinóticos atestam esse fato em aproximadamente 24 ocasiões, em João encontramos cento e seis vezes. Esse fato é visto desde o prólogo do evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14). João Batista também atesta o mesmo fato: “Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (Jo.1.34).
Uma situação que pode testificar a Pessoa de Cristo como Filho de Deus é encontrada no encontro de Natanael com Cristo (Jo.1.44-51). No exercício de sua onisciência, Jesus demonstra que o que Felipe disse a Seu respeito é verdadeiro, e Natanael afirma: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Ao ouvir isso, Jesus garante que Natanael veria sinais mais evidentes de que Ele o é (Jo.1.50). A cena que segue a esse diálogo nos conta seu primeiro milagre (sinal; gr. semeion), com o qual Ele manifestou sua Glória (Jo.2.11).
Ao ter conhecimento dos atos de Cristo, o próprio Nicodemos atesta: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo.3.2). Esse reconhecimento é fundamental para compreender alguns dos milagres de Cristo narrados em João, como por exemplo a cura do filho do oficial do Rei (Jo.4.46-54). Nessa ocasião, apenas o declara a cura do filho do oficial à distância foi suficiente para que ele fosse curado. O fato de que o texto narra a expressão de pontualidade da cura (v.53) demonstra que Aquele que realizara o Milagre é Filho de Deus. E esse teria sido apenas o seu segundo milagre (sinal; gr. semeion) narrado no evangelho.
Valor Apologético dos Milagres
No que se refere a apologética, João também atesta a Messianidade de Jesus quando o chama de Cristo (ungido, messias): “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
Alias, essa ênfase é muito forte na literatura joanina: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho” (1Jo.2.22). A preocupação com a apresentação da Messianidade de Cristo também é vista na reação das pessoas que estavam próximas a Ele. O convite de Felipe a Natanael deixa isso transparecer, quando diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo.1.45). A resposta de Natanael também testifica isso: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (v.49).
Um ato milagroso de Jesus que testifica sua Messianidade é a ressurreição de Lázaro, narrado no capítulo onze do Evangelho de João. Após anunciar a morte de Lázaro (v.11-14), Jesus diz-se alegre de não estar lá na ocasião, pois assim seus discípulos poderiam crer, pois com Lázaro eles se encontrariam (v.15). Ao chegar na casa de Marta e Maria, uma multidão já havia chegado para consolar a família de Lázaro, pois ele já estava morto a quatro dias. Marta, chega a expressar seu lamento pela ausência de Jesus na ocasião, mas reconhece que se Ele pedir ao Pai, seu pedido seria atendido (v.21, 22). Ao ouvir isso, Jesus garante: “Teu irmão há de ressurgir” (v.23). Ainda que Marta não tenha entendido exatamente quando isso aconteceria (v.24), Jesus garante que Ele é a ressurreição e a vida, e que aquele que Nele deposita sua fé, ainda que morra viverá (v.25) e que se estiver vivo não morrerá (v.26). Ao ouvir isso, Marta afirma: “Sim, Senhor, respondeu ela, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (v.27). Quando o milagre ia ser realizado Jesus pronuncia-se ao Pai para que aqueles que o ouvem pudessem crer que Ele é o envidado da parte de Deus (v.42) e isso mesmo acontece com muitos deles (v.45) depois que testemunham o milagre.
Valor Evangelístico dos Milagres
A relação entre a fé e vida eterna é claramente exposta na teologia Joanina. No terceiro capítulo encontramos: “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (v.15); “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v.16); “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (v.36; cf. Jo.5.24; 6.35, 40, 47; 11.25). Essa característica também é bem encontrada na literatura joanina: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo.5.13).
É fundamental ressaltar que tal conceito também é testemunhado pelos milagres (sinais; gr. semeion) realizados por Cristo e registrados por João: “Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo.20.31).
As ações milagrosas de Cristo têm por motivo apresentar sua Real Pessoa para Seus expectadores; para que compreendam sua Divindade e Messianidade e para que possam depositar sua fé Nele. E isso é visto em vários dos seus milagres: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo.2.11); “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome” (Jo.2.23) “Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa” (4.53); “Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou” (9.38). “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele” (11.45)
Entretanto, assim como seus ensinos seus atos milagrosos estavam sujeitos a avaliação e rejeição. Já no início do seu ministério a incredulidade já estava anunciada: “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome, mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos” (Jo.2.23-24). Em outras ocasiões, o milagre promoveu completa rejeição. No caso da cura da aleijado do tanque de Betesda, por realizar no sábado o milagre, os fariseus passaram a perseguí-lo (Jo.5.16). Tal rejeição torna-se discussão e Jesus deixa clara a opinião dos fariseus a Seu respeito: “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo.5.46-47). No caso da cura do cego de nascença a incredulidade é clarividente, pois pesquisam para saber se aquele que se dizia cego o era de fato: “Não acreditaram [criam] os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais” (Jo.9.18). Outro exemplo interessante desse fato é visto entre os judeus descrentes: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo.12.37). A interpretação que João tem desses fatos é que eles são cumprimento profético: “para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados” (Jo.12.38-40).
Assim, ainda que os milagres tivessem claro papel evangelístico, também funcionaram como problema para a compreensão sobre a verdadeira pessoa de Cristo. Aliás, esse é um dos muito motivos pelos quais a pessoa de Cristo continua sob suspeita.
04.09.08
Evangelho de João – Louis Berkhof
Conteúdo
1. O advento e encarnação no logos (Jo.1.1-13) 2. O logos encarnado – a única forma de vida no mundo (1.14-6.71) 3. O logos encarnado – a vida e a luz, em conflito com trevas espirituais (7.1-11.54). 4. O logos encarnado – salvando a vida do mundo através da morte sacrificial (11.55- 19.42) 5. O logos encarnado -a ressurreição dos mortos, Salvador e Senhor de todos os crentes (20.1-21.25)
Características
1. O Evangelho de João enfatiza mais do que os outros a Divindade de Cristo:
O ponto de partida do evangelho não é histórico, como nos sinóticos, mas é enforcado na eternidade. O início do livro já apresenta essa característica, quando diz: “No princípio era o Verbo, e a imensa o Verbo estava com Deus, eu verbo era Deus”. No evangelho de João não encontramos descrição da sua genealogia, do seu batismo ou da sua tentação. Entretanto, no evangelho de João, de João Batista testifica a sua divindade, diferente do que acontece nos evangelhos sinóticos. O ministério de João Batista é enfocado no batismo para o arrependimento e na sua posição anterior ao Messias. Jesus Cristo, como Filho de Deus, entra em cena proclamando desde o início sua divindade 3.13; 5.17; e 6. 32,40 ). os milagres de Jesus, narrados no evangelho de João, em geral enfatizam a proeminência do seu poder divino e 4.46; 5.5; 9.1; 11.17 ).
2. No o evangelho de João os ensinos de Cristo são predominantes:
Embora os ensinos de Cristo tem um grande lugar nos evangelhos sinóticos, no evangelho de João eles têm um lugar de destaque na estrutura do livro, mas de maneira um pouco distinta. Ao invés de encontrarmos ensinamentos paradoxais, parábolas ou grande destaque para o ensino sobre o Reino de Deus, em João vemos que os discursos de Cristo são longos e confrontativos. Em contraste com os evangelhos sinóticos, o foco não está sobre o Reino de Deus, mas sim sobre a pessoa do Messias. em conexão com os milagres de Jesus Cristo apresentou-se como fonte da vida,4.46, nourishment of the soul, 6. 22- 65, como água da vida,4.7-16; 7.37-38; como verdadeiro libertador, 8.31-58; como a luz do mundo, 9.5,35 41 e o princípio vivo da ressurreição, 11.25-26. Próximo o fim do livro, além de grandes informações práticas e do seu relacionamento pessoal com um dos cristãos, encontramos claras referências sobre o advento do Parácleto.
3. O cenário de ação no Evangelho de João é um pouco diferente:
os evangelhos sinóticos encontramos grande participação do ministério de Cristo apresentado na galiléia, e seu ministério Jerusalém aparece apenas perto dos últimos dias com os discípulos. já João coloca em evidência, tanto trabalho quanto ensino de Jesus na Judéia e e particularmente em Jerusalém. João apresenta com alguns detalhes das festas judaicas: três festas de páscoa (possivelmente quatro ) 2:13; 5.1; 6.4; 13.1; festa do tabernáculo 7.2; e festa da dedicação 10.22.
4. O evangelho de João é mais definindo que os sinóticos na sua pontuação do tempo e locação dos acontecimentos:
De um certo modo, o evangelho de João parece mais cronológico que os outros evangelhos, e distinção com que apresenta a localidade dos acontecimentos do ministério de Jesus, dão a impressão que o autor do evangelho é muito preciso as suas considerações. através do relato de João, podemos descobrir as localidades por onde Jesus passou: Bethânia 1.28; Caná 2.1; Cafarnaun 2:12; Jerusalém 2.13 e assim por diante. outro detalhe interessante é que a designação de tempo é muito acurada, e eventualmente até as horas do dia são citadas. outro detalhe interessantíssimo é o valor que o autor dá a cronologia dos fatos. veja os detalhes entre o primeiro e o segundo capítulo.
5. O estilo e no quarto evangelho é muito diferente dos outros evangelhos :
a exceção da introdução e de poucas partos no decorrer do texto encontramos grande influência da língua hebraica no texto de João. LB afirma que João ” se aproximam do estilo dos estertores do antigo testamento mais do que qualquer autor do Novo Testamento tenha feito”. Podemos notar que o termo utilizado por João é de excelente qualidade entretanto não encontramos grande sentenças ou sentenças complexas e também inclui algumas palavras em aramaico: rabi, Messias, amen amen lego soi, rabbatha, khfas, rolyotha.
Autor
A voz da Antiguidade parece ser unânime ao atribuir o quarto evangelho a João. LB encontra apenas uma exceção em um de chamado Epiphanius. Entretanto das evidências internas apontam para a autoria de João:
1. O autor era judeu:
Certamente, o autor tem íntimo conhecimento do antigo testamento a ponto de não conhecer apenas a tradução da LXX, mais o terço na sua linguagem original, com evidente em algumas das suas citações do antigo testamento. O fato de o autor escreveu em grego, não compromete sua identificação como judeu, pois suas construções literária usam muitos paralelismos, e todos têm influência hebraica. Luthardt afirma o seguinte: “Existe e uma alma hebraica e viva na linguagem do evangelista”.
2. O autor era um judeu palestiniano:
O modo de escrever de João mostra claramente que ele está em casa quando estar em um mundo judaico. Ele é claramente habituado com os costumes judeus e com cuidado religioso requerido pela lei, sem contar que parece compreender com facilidades o mundo e pensamento judaico e com a compreensão judaica das especulações da lei.
3. O autor é testemunha ocular dos eventos que relata:
O autor afirma explicitamente em João 1.14, mesmo que de maneira plural, entendemos que o autor estava presente essa declaração, mas fica evidente em 19.35 que o autor estava presente quando o testeficou estes fatos. Outro detalhe que corrobora com essas afirmações é a maneira que clara e vívida com que o autor relata os eventos: pelas definições cronológica, pela nomenclatura e dos locais e pessoas que estiveram próximos a Jesus no seu ministério e pela grande proeminência de detalhes nas narrativas maiores e nos discursos feitos por Jesus, podemos entender que o outrora era a testemunha ocular desses fatos.
4. O autor foi o apóstolo João :
O autor do evangelho com freqüência menciona um discípulo que ele nunca nem só no nome, às vezes chamado de “Outro discípulo”, ou como “O discípulo de Jesus amava” cf. 13.23; 18.15; 19.26; 20.2; e 21.7. no fim do evangelho o autor diz: “Esse é o discípulo que testifica essas coisas; e nós sabemos que sou testemunha verdadeiro” (21.24).
Outra informação importante na busca da autoria do evangelho, é que o autor deste documento apresenta apenas sete dos doze discípulos. Os os discípulos que não são mencionados são: João, Thiago, Mateus, Simão e Tiago filho de Alfeu. Consideradas essas afirmações, somando as evidências de João 1.35 a 41 e 1.41 a 43 em comparação com Marcos 1.16 a 19 percebemos que apenas João e Tiago são pessoas possíveis a serem autores desse documento. Entretanto, não podemos pensar que o autor deste evangelho tenha sido Thiago, uma vez que ele foi martirizado próximo do ano 44. Dessa forma só podemos concluir que João o tenha escrito.
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Este artigo é resultado da reflexão do autor deste blog sobre parte do artigo do Louis Berkhof sobre o evangelho de João
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