12.07.09

A Criação do Homem

Enviado em Antropologia, Gênesis tagged , , às 9:40 am por Marcelo Berti

O homem é criado por Deus (cf. Mt.19.4; Rm.5.12-19; 1Co.15.45-49; 1Tm.2.13). Somente Deus seria a causa suficiente e razoável para explicar a complexidade da vida humana. Somente na palavra de Deus pode-se encontrar uma revelação especial das atividades de Deus na CRIAÇÃO do universo e de tudo o que nele existe. “Nenhuma outra literatura no mundo é tão repleta de revelação direta destinada a informar a mente do homem e orientar pesquisas científicas como essas primeiras páginas da Bíblia[1]”.

A criação é relatada em dois textos distintos em Gênesis: 1.26,27 e 2.7, 21-23. Essa duplicidade de relatos tem feito com que alguns teólogos questionem sua validade e veracidade. Alguns afirmam que existe certa contradição entre os relatos ou até que existem duas fontes na qual o autor deve ter pesquisado. “A alta crítica é de opinião que o escritor de Gênesis juntou duas narrativas da criação (…) e que as duas são independentes e contraditórias[2]”.

No entanto, seguindo o plano do autor de Gênesis nota-se que a segunda narração trata-se de uma descrição mais detalhada da criação. “O primeiro registro da criação do homem reporta com simplicidade sublime um tema muito difícil”, mas não de maneira insuficiente. “No detalhe acrescentado que caracteriza o segundo registro, está declarado que homem e mulher são parecidos no aspecto físico, por ter sido diretamente – como no caso do homem – e indiretamente – como no caso da mulher – do pó da terra[3]”.

Para os cristãos convictos pouco importa se a ciência afirma, em caráter científico bem fundamentado ou não que a historicidade de terra é bem maior que a sustentada por alguns teólogos, visto que não viola o texto bíblico de maneira nenhuma. “Seja num tempo ou noutro, permanece verdadeiro que Deus Criou o homem imediata e diretamente[4]”. Segue-se, então que é possível concordar com Strong quando se propõe a definir o ato da criação da seguinte maneira:

“Criação é o ato livre do Deus trino pelo qual, no princípio, para sua glória, ele fez, sem uso de matéria preexistente, todo o universo visível e invisível[5]”.

Criação pode ser compreendida como origem com desígnio, pois é impossível que o homem tenha capacidade de imaginar um Ser Pessoal como criador, sem que o tenha conhecido como tal. Outro fato interessante, é que na criação Deus preocupou-se em formar todos os outros seres vivos a fim de que o homem pudesse ter o ambiente perfeito para viver. Ou seja, tudo o que era essencial para a existência do homem já havia sido criado por Deus.

Introdução – A Literalidade de Gênesis

Este tópico visa detalhar ainda um pouco mais que as informações colhidas nos tópicos anteriores podem ser verídicas pelo fato de que o texto base para tal é literal e demonstrado com real diante das demais Escrituras.

1.         Jardim Literal

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…) Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”  (Gn.2.8,9,15)

Após o ato imediato da criação do homem, nota-se o seguinte texto que demonstra claramente a criação do Ambiente do Primeiro homem. Nota-se que Deus é a causa primeira deste Jardim que está localizado na terra, que já havia sido criada. A localização descrita pelo autor bíblico sugere que este Jardim estava situado na região da Palestina. Nos versículos que seguem podemos notar esse fato:

E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços (…) O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates” (Gn2.10, 14)

Dois dos nomes de rios mencionados neste texto são muito bem conhecidos e Norman Geisler chega a sugerir que a Bíblia situa os rios na Assíria, atual Iraque. As informações bíblicas são muito bem arranjadas, e isso faz com que alguns teólogos acreditem em uma inserção de informações posteriores. Mas tal informação é especulativa, visto não existir informações que sustentem essa opinião.

Por causa das especulações teológicas colocadas sobre o texto de Gênesis, é importante demonstrar que as evidências dão suporte para a interpretação normal do texto, que neste caso é literal.

Normalmente as objeções lançadas sobre a mitologia relacionada com o Jardim do Éden é colocada em função da inexistência de artefatos arqueológicos que evidenciem tal existência. Contudo, é necessário que se demonstre que após a queda Deus selou o Jardim (Gn.3.24), isso impossibilitaria que qualquer evidência arqueológica fosse encontrada. Outro detalhe que merece atenção é que não existem evidências de que Adão ou Eva tenham se aplicado à produção de artefatos neste Jardim, nem mesmo se empenhado a qualquer espécie de construção. Ou seja, sem tais fatos é impossível que se encontre evidências arqueológicas. Se existisse, ainda, qualquer evidência, com o Dilúvio elas seriam destruídas (Gn.6-9; cf. 2Pe.3.5, 6).

A inclusão dos rios Tigre e Eufrates, que são reais, parece sugerir que o Jardim seja igualmente literal. A preocupação do autor bíblico em demonstrar os rios deve reportar-se ao fato de que tal Jardim seja também real.

Um ponto que merece destaque dentre os mencionados, é que o Novo Testamento testemunha sobre os fatos relacionados ao Jardim como reais. Fala da criação de Adão e Eva (Mt.19.4; 1Tm.2.13) e de seu pecado original (1Tm.2.13; Rm.5.12) . Assim, esses eventos reais precisam de um Ambiente Real para acontecer, um lugar geográfico.

2.         Adão Histórico-literal

A argumentação que proporciona a interpretação mítica ou irreal é a consideração de que o autor utiliza-se de um estilo poético, repleto de paralelismo com outros mitos antigos e a suposta contradição entre o relato e a ciência. No entanto, para os escritores bíblicos, tanto Adão quanto Eva, são personagens históricos, e encontrados em uma leitura literal de Gênesis.

O primeiro fato que evidencia a condição histórica de Adão é a própria narrativa de Gênesis. Embora muita discussão exista neste ponto, para aqueles que consideram o texto como fonte fidedigna de informações é o ponto de partida. Observe que o autor sempre demonstra Adão como uma pessoa real. Se Adão fosse irreal não poderia ter gerado filhos, e na narrativa de Gênesis ele perpetua a espécie humana, gerando filhos à sua imagem (Gn.5.3).

Outro detalhe importante dentro da narrativa de Gênesis é que a sentença “Este é o registro”, ou “são estas as gerações” encontradas para registrar a história do povo hebreu (cf. Gn.6.9; 10.1; 11.10, 27; 25.12, 19) é usada para o registro da Criação (2.4) e para Adão e Eva e seus descendentes (5.1).

Fora da narrativa de Gênesis é possível encontrar Adão como personagem histórico. Na cronologia encontrada em 1Cr.1.1, Adão encabeça a genealogia mais extensa das escrituras (1.1 – 9.44), que demonstra a historicidade das tribos de Israel e a importância da linhagem davídica. Mas para que esta genealogia tenha valor real é necessário que os personagens envolvidos seja igualmente reais.

O Novo Testamento testemunha a favor da historicidade de Adão. Em Lc.3.38 Adão é designado como um ancestral literal de Jesus,  e este, posteriormente, referiu-se a Adão e Eva como os primeiros “homem e mulher” literais, fazendo da união deles a base para o casamento (Mt.19.4).

Paulo em Romanos declara que a morte foi trazida ao mundo por um homem real (Rm.5.12, 14). Em Coríntios, Paulo faz uma comparação entre Cristo e Adão (1Co.15.45). Para Timóteo, Paulo afirma que primeiro foi criado o homem e depois a mulher (1Tm.2.13, 14). Ou seja, se as comparações e citações paulinas sobre os diversos assuntos que aborda fossem baseadas em mitologia, as asseverações morais seriam nada mais do que afirmações equivocadas e inválidas. Entretanto, não parece ser esse o caráter que Paulo escreve. Tanto ele, como os autores do Novo Testamento tem por certo de que os acontecimentos narrados em Gênesis são fatos. Assim, é impossível não crer na historicidade de Adão.

A.     Conceituações gerais da Criação do homem

Três características são percebidas em relação a criação do homem: (1) Ele foi criado diretamente por Deus; (2) Em distinção das outras criaturas e (3) colocado em uma posição exaltada.

1.         O homem foi criado diretamente por Deus

Ao observar o primeiro relato bíblico da criação, não se pode chegar à outra conclusão senão que o homem é resultado da intervenção direta de Deus. Observe o versículo: “Criou Deus, pois, o homem…” (Gn.1.27). Esse versículo inibe a possibilidade da utilização de um processo evolutivo para a formação do homem. Deus não utilizou formas “preexistentes” ou subumanas de vida para formar Adão. Assim Deus não soprou o fôlego da vida em um “macaco-quase-homem” que veio a ser o primeiro homem.

No segundo relato da criação podemos percebem que Deus não se utilizou de formas orgânicas menos desenvolvidas para formar o homem, mas “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra”. Dessa maneira podemos dizer que “essa passagem reforça o fato da criação especial a partir de materiais inorgânicos, não apoiando a idéia de uma criação derivada de alguma forma de vida prévia[6]”.

Entretanto alguns atestam que a referência ao pó da terra pode ser considerado como uma forma alegórica para um ser vivo preexistente. Mas devemos desconsiderar essa possibilidade, pois o próprio Deus afirmou que o homem voltaria ao pó quando morresse, mas o homem nunca volta a um estado animal na sua morte (Gn.3.19).

Portanto, temos que admitir, se cremos que a Palavra de Deus é infalível e inerrante como ela afirma ser, que não existe outra possibilidade verdadeira para a origem do homem fora das escrituras. Deus criou o homem de fato, e isso não pode ser negado.

2.         O homem foi criado em distinção das outras criaturas

Outro fato que deve ser percebido na criação do homem é que ele não foi criado nem derivado de outras criaturas. Na descrição de Gênesis, Deus cria o reino vegetal distinto do animal, e o homem distinto de ambos. Observe:

“E disse: Produza a terra relva, ervas, que dêem fruto semente, e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cujo a semente esteja nele” (Gn.1.11)

Essa identificação exata de Deus em relação ao reino vegetal inclui até mesmo a condição da semente do fruto das árvores. Mas não se encontra aqui nenhuma referência ou semelhança com os animais ou o homem, mas declara que sua reprodução é única e exclusiva segundo a sua espécie, ou como declara o próximo versículo “conforme a sua espécie”. Fato similar acontece com os animais marinhos e as aves:

“Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies” (Gn.1.21)

Note que cada ser criado por Deus é criado segundo a sua espécie. E o mesmo acontece com os animais selváticos:

“E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie.” (Gn.1.25)

Assim, cada categoria de animal foi criada em conformidade com sua própria espécie, bem como a sua reprodução de acordo com essa conformidade. Segue-se que não se pode afirmar a partir do relato bíblico que houve nalgum momento da criação um processo evolutivo, mas cada animal foi criado segundo a sua espécie.

E, tendo isso como fundamento, na criação do homem não podemos atribuir a utilização de um outro ser vivo para a sua formação. Pois além de ser criado a partir do pó da terra, não pertence à espécie de nenhum outro ser vivo. Portanto, o homem é distinto de qualquer outra forma de vida.

3.         O homem foi colocado numa posição exaltada

O fato de que o homem não pertence à categoria dos animais pode ser percebido em função da criação distinta dos outros seres vivos, como uma espécie distinta de ser vivo e pela posição distinta que tem das demais criaturas. Esse distinção em termos de posição pode ser observada na declaração:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toa a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn.1.26)

Essa identificação demonstra que existe algo especial, não somente na criação, mas na formação. Além da intervenção especial, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Isso faz toda diferença entre o homem e os outros seres vivos. Mas é ainda reforçado por sua posição exaltada, pois é criado para ter domínio sobre todos os outros seres vivos. Portanto, o homem está colocado numa posição privilegiada em relação a demais criaturas.

Essa posição exaltada é ainda demonstrada de forma poética em Salmos, quando Davi escreve uma exaltação das obras de Deus dizendo:

“Quando contemplo os teus céus, obra de teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras de tua mão, e sob teus pés tudo lhe puseste” (Sl.8.3-6)

Portanto, o homem é considerado como ápice da criação, a coroa da criação, e por isso tem sua distinção de todas as outras criações e criaturas e está acima de todas elas.  Outro fator que evidencia essa verdade é que como a criação do homem a Obra Criativa de Deus chegou ao fim. Isso pode ser observado pela frase dita pelo próprio Deus após a criação do homem: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn.1.31).

B.     A dignidade do homem (1.26-31)[7]

Desde que o capítulo dois é construído sobre os detalhes básicos de 1:26-31, vamos começar por considerar esses versos mais cuidadosamente. O homem, como dissemos anteriormente, é a coroa do programa criativo de Deus. Isto fica evidente em muitos pormenores.

Primeiro, o homem é a última das criaturas de Deus. Todo o relato é montado para a criação do homem. Segundo, só o homem é criado à imagem de Deus. Enquanto há considerável discussão do que isso significa, muitas coisas estão implícitas no próprio texto. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus em sua sexualidade:

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn. 1:27)

Isso não quer dizer que Deus seja homem ou mulher, mas que Deus é ambos unidade e diversidade. O homem e a mulher no casamento se tornam um e ainda assim são distintos um do outro. Unidade na diversidade como refletida na relação do homem com sua mulher reflete uma faceta da personalidade de Deus.

Também, o homem, de alguma forma, é parecido com Deus naquilo que o distingue do mundo animal. O homem, enquanto distinto dos animais, é feito à imagem e semelhança de Deus. O que distingue o homem dos animais deve então ser uma parte de seu reflexo de Deus. A habilidade do homem de raciocinar, de se comunicar e de tomar decisões morais deve ser uma parte dessa distinção.

Ainda mais, o homem reflete a Deus no fato de que ele domina sobre a criação de Deus. Deus é o Dirigente Soberano do universo. Ele delegou uma pequena porção de Sua autoridade ao homem no domínio da criação. Nesse sentido, também, o homem reflete a Deus.  Repare também que é o homem e a mulher que dominam: “… dominem eles…” (Gn. 1:26, cf. v. 28).

Ele se refere ao homem e a mulher, não somente aos homens que Ele fez. Enquanto que Adão tem a função de liderar (como evidenciado em sua prioridade na criação[8], seu ser a origem de sua esposa [9], e a nomeação de Eva[10]), a função de Eva era ser a auxiliadora de seu marido. Nesse sentido ambos estão no domínio da criação de Deus.

Mas, mais importante que isso é o fato de que a dignidade e o valor do homem não são imputados por ele mesmo, mas são intrínsecos a ele como aquele que foi criado à imagem de Deus. O valor do homem está diretamente relacionado à sua origem. Não é de se admirar que hoje estejamos ouvindo tais propostas éticas e morais assustadoras.

Qualquer opinião a respeito da origem do homem que não o veja como produto do projeto e desígnio divino, não pode atribuir a ele o valor que Deus lhe dá. Para colocar de outra forma, nossa avaliação do homem é diretamente proporcional à nossa opinião a respeito de Deus. O sólido princípio sobre o qual tais decisões devem ser tomadas, em minha opinião, é o fato de que todos os homens são criados à imagem de Deus. Sob essa luz, agora posso ver porque nosso Senhor pôde resumir todo o Velho Testamento em dois mandamentos:

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt. 22:37-40)

A atitude do futuro parece ser amar apenas aqueles “próximos” que são contribuidores na sociedade, apenas aqueles que podem ser considerados vantajosos. Quão diferente é o sistema de valores de nosso Deus, que disse:

“O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt. 25:40).

Em minha opinião, eis onde nós cristãos seremos colocados à prova. Alguns estão fortemente sugerindo que, aqueles que nosso Senhor chamou de “pequeninos”, são justamente aqueles que devem ser eliminados da sociedade. Possa Deus nos ajudar a ver que a dignidade do homem é aquela que é divinamente determinada.

C.     O dever do homem (2.4-17)[11]

Enquanto Gênesis um descreve a progressão do caos para o cosmos, ou da desordem para a ordem, o capítulo dois segue um padrão diferente. Talvez a linha literária que permeie toda a passagem seja aquela da atividade criativa de Deus em complemento àquelas coisas que estão ausentes.

O verso 4 serve como introdução aos versos restantes. H.C. Leupold, em seu livro, Exposition of Genesis, defende que o uso de “toledoth” expressa exatamente isso, observe:

“Hoje é um fato bem conhecido que o livro de Gênesis é dividido em 10 seções por seu próprio autor, que dá a cada uma o título de “estória” (toledoth); cf. 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1, (9); 37:2. Apenas esta circunstância, mais o uso do número dez redondo, apontariam definitivamente para o fato de que, aqui, a expressão “estes são toledeth” deva também ser um cabeçalho. Em todos os outros exemplos de seu uso em outros livros o mesmo fato é observável; cf. Nm. 3:1; Rt 4:18; I Cr. 1:29; ele está sempre como um cabeçalho[12]

O verso 5 nos informa quais são as ausências que são supridas nos versos 6 e 7: sem arbusto, sem planta, sem chuva e sem o homem. Estas são preenchidas pela neblina (verso 6), pelos rios (versos 10 e 14), o homem (verso 7), e o jardim (versos 8 e 9).

A ausência dos versos 18 a 25 é simplesmente afirmada “nenhuma auxiliadora idônea para Adão” (cf. versos 18, 20). Esta auxiliadora é providenciada de uma linda maneira na parte final do capítulo dois.

Outra vez, deixe-me enfatizar que Moisés não pretendia nos dar aqui uma ordem cronológica dos eventos, mas uma ordem lógica, ao menos essa parece a opinião de Leupold:

“O verso 4b nos leva de volta ao tempo da obra da criação, mais especificamente ao tempo antes da obra do terceiro dia começar, e chama nossa atenção para certos detalhes que, sendo detalhes, dificilmente teriam sido inseridos no capítulo um: o fato de que certos tipos de planta, isto é, as espécies que requerem um cuidado maior e mais atento por parte do homem, não tinham brotado. Aparentemente, toda a obra do terceiro dia está na mente do escritor[13]”.

Seu propósito é mais especificamente descrito na criação do homem, de sua esposa, e o contexto no qual eles são colocados. Estes se tornam o fator chave na queda que ocorre no capítulo três.  Embora até agora não houvesse chovido, Deus providenciava a água que era necessária à vida das plantas. “Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.” (Gn. 2:6).

Há alguma discussão a respeito da palavra “neblina”. Poderia significar uma névoa ou neblina, como alguns afirmam.[14] A Septuaginta usou a palavra grega πηγὴ (pegè) que significa “fonte”. Alguns entendem a palavra hebraica como sendo derivada de uma palavra suméria, se referindo a águas subterrâneas. . Young, sobre isso diz:

“O que entendemos por “ed”? Não uma neblina! A palavra está aparentemente relacionada à palavra suméria. Parece se referir a águas subterrâneas, e o que temos aqui ou é um rompimento de água de algum lugar abaixo do solo, ou possivelmente um rio transbordando de seu leito. Não acho que possamos ser dogmáticos aqui[15]

Derek Kidner, também parece ter opinião similar, observe:

“Apenas subia constantemente (6, o bervo está no imperfeito) uma neblina ou provavelmente uma enchente, de modo que toda a cena era uma devastação de águas – pois o sentido de regava pode variar de um sentido benéfico, como em 10, para o de uma inundação completa (cf. Ez.32.6) e o último parece mais coerente com o contexto[16]

Pode ser que fontes fluíssem para fora do solo e que a vegetação talvez fosse regada por irrigação ou canais. Isto poderia explicar, em parte, o trabalho de Adão na manutenção do jardim. A água sendo suprida, Deus criou o jardim, que seria o lugar da morada do homem, e objeto de sua atenção. Era bem suprido com muitas árvores que proviam beleza e comida:

“Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9).

Especificamente duas árvores são mencionadas, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última árvore foi a única coisa proibida ao homem.

“E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás,” (Gênesis 2:16-17).

É interessante que, aparentemente, só para Adão é dito por Deus que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não devia ser comido. Alguém pode conjecturar em como a ordem de Deus para Adão foi comunicada a Eva. Poderia isto explicar a avaliação imprecisa de Eva em 3:2-3?

O homem foi colocado dentro desse paraíso. Note que a palavra hebraica Éden, significa exatamente isso:

“A palavra “Éden” em hebraico pode significar deleite ou prazer. Não estou certo de que é isto o que significa aqui. Há uma palavra suméria que significa estepe, ou planície, vasta planície, e a leste desta planície Deus plantou o jardim. Sem ser categórico dou minha opinião de que é isto o que “Éden” significa. Assim o jardim é plantado[17]”.

Apesar de certamente se regozijar nesse país das maravilhas, ele também estava lá para cultivá-lo. Olhe outra vez o verso 5:

“Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.” (Gn. 2:5)

Quando colocado no jardim, Adão teve que trabalhar lá: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” (Gn. 2:15)

A criação de Adão é descrita mais amplamente em 2:7 do que no capítulo um. Ele foi formado[18] do pó da terra:

“O verbo aqui empregado está mais de acordo com o caráter de “Senhor” de Deus; yatsar significa “moldar” ou “formar”. É a palavra que descreve especificamente a atividade do oleiro (Jr. 18:2 e ss). A idéia a ser enfatizada é aquela do cuidado especial e atenção pessoal que esse oleiro dá ao seu trabalho. Deus dá toques de Seu interesse no homem, Sua criatura, ao moldá-lo como Ele o faz”.

Ainda que isso seja um fato humilhante, é óbvio também que a origem do homem não é do mundo animal, nem o homem é criado da mesma maneira que os animais. Em parte, a dignidade de Adão provém do fato de que seu fôlego de vida foi soprado por Deus (verso 7).

Este não foi jardim mítico. Todas as partes da descrição deste paraíso nos levam a entender que foi um jardim real numa localização geográfica especial. São dados pontos de referência específicos. Quatro rios são nomeados, dois dos quais são conhecidos ainda hoje. Não deveríamos nos surpreender que pudessem ter ocorrido mudanças, especialmente depois do evento cataclísmico do dilúvio, o que tornaria impossível sua localização precisa.

O que acho mais interessante é que o paraíso do Éden foi um lugar um pouco diferente daquilo que visualizamos hoje. Prá começar, foi um lugar de trabalho. Os homens hoje pensam no paraíso como uma rede pendurada entre dois coqueiros numa ilha deserta, onde o trabalho nunca mais será encarado. Além do mais, o céu é tido como o fim de todas as proibições. O céu freqüentemente é confundido com hedonismo. É puro egocentrismo e auto-satisfação. Enquanto que o estado de Adão foi de beleza e felicidade, não se pode pensar que foi de prazer irrestrito. O fruto proibido também era uma parte do Paraíso. O céu não é experimentar todos os desejos, mas a satisfação de desejos benéficos e sadios.

A subserviência não é um conceito novo no Novo Testamento. Serviço significativo dá satisfação e significado à vida. Deus descreve Israel como um jardim cultivado, uma vinha (Isaías 5:1-2 ss). Jesus falou de si mesmo como uma Videira e nós como os ramos. O Pai ternamente cuida de Sua vinha (João 15:1 e ss). Paulo descreve o ministério como o trabalho de um lavrador (II Timóteo 2:6).

Ainda que a igreja do Novo Testamento possa ser melhor descrita como um rebanho, ainda assim a imagem do jardim não é inapropriada. Há um trabalho a ser feito pelo filho de Deus. E esse trabalho não é penoso, nenhum dever a ser relutantemente cumprido. É uma fonte de alegria e satisfação. Hoje muitos não têm senso real de sentido e propósito porque não estão fazendo o trabalho que Deus designou para que façam.

D.     O deleite do homem (2.18-25)[19]

Ainda resta uma ausência. Agora há água adequada, a bela e generosa provisão do jardim, e o homem para cultivá-lo. Mas ainda não há uma companhia apropriada para o homem. Esta necessidade é encontrada nos versos 18 a 25. O jardim, com seus prazeres e provisões para alimento e atividade significativa não era suficiente a menos que os deleites pudessem ser compartilhados. Deus daria a Adão aquilo que ele mais necessitava.

“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18)

A companheira de Adão deveria ser uma criação muito especial, uma “auxiliadora idônea para ele” (verso 18). Ela deveria ser uma “auxiliadora”, não uma escrava, não uma inferior. A palavra hebraica ezer é muito interessante. Era uma palavra que Moisés obviamente gostava, pois Êxodo 18:4 diz que este foi o nome que ele deu a um de seus filhos.

“e o outro, Eliézer, pois disse: o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.” (Êxodo 18:4).

Ainda três outras vezes encontramos ezer sendo usada por Moisés em Deuteronômio (33:7, 26, 29), e se refere a Deus como auxiliador do homem. Como também nos Salmos (20:2, 33:20, 70:5, 89:19, 115:9, 121:1-2, 124:8, 146:5).

A característica da palavra mais empregada no Velho Testamento é que o auxílio não implica absolutamente em inferioridade. De uma maneira compatível com seu uso, Deus está auxiliando o homem através da mulher. Que belo pensamento. Como isso é superior a algumas concepções. Então, ela é também uma auxiliadora que “corresponde a” Adão. Em certa tradução se lê: “…Farei uma auxiliadora como ele.”[20]

Ainda que isto seja o que muitas vezes consideramos a mulher perfeita – alguém que é exatamente como nós, é precisamente o oposto da questão. Muitas vezes a incompatibilidade está no desígnio divino. Como Dwight Hervey Small corretamente observa:

A incompatibilidade é um dos propósitos do casamento! Deus designa conflitos e sobrecargas como lições para o crescimento espiritual. Estes existem para que haja submissão aos altos e santos propósitos.[21]

Assim como Eva foi feita para se ajustar a Adão de uma forma física, ela também o completava socialmente, intelectualmente, espiritualmente e emocionalmente.

Em conseqüência, quando aconselho àqueles que planejam se casar, não procuro descobrir tantas características semelhantes quanto possível. Em vez disso, preocupo-me com que cada parceiro tenha uma visão acurada do que o outro realmente é, e que eles se comprometam com o fato de que Deus os tenha unido permanentemente. O reconhecimento de que Deus fez o homem e a mulher diferentes por desígnio, e a determinação em atingir a unidade nessa diversidade é essencial para um casamento sadio.

Antes de criar sua contraparte, Deus primeiro aguçou o apetite de Adão. As criaturas que Deus criara agora são trazidas a Adão para que ele lhes dê nomes. Esta nomeação refletia o domínio de Adão sobre as criaturas, como Deus planejara (cf. 1:28). Isto provavelmente envolveu um cuidadoso estudo por parte de Adão para registrar as características particulares de cada criatura.[22]

Este processo de nomeação deve ter tomado algum tempo. No processo, Adão observaria que nenhuma simples criatura poderia preencher o vazio de sua vida. Mais ainda, eu usaria um pouco de santa imaginação para supor que Adão observou cada criatura com sua companheira, uma contraparte maravilhosamente designada. Adão deve ter percebido que ele, só ele, estava sem uma companheira.

Nesse momento de intensa necessidade e desejo, Deus colocou Adão num sono profundo[23], e de sua costela e carne [24] formou a mulher [25] Ele então deu a mulher de presente ao homem.

Que excitamento há na resposta entusiástica de Adão:

“E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.” (Gênesis 2:23).

Gosto da maneira como a versão ARA traduz a resposta inicial de Adão: “…afinal…[26]. Nessa expressão há uma mistura de alívio, êxtase e deleitosa surpresa. “Esta (pois Adão ainda não lhe tinha dado nome) é agora osso dos meus ossos e carne de minha carne” (verso 23a). O nome da companheira de Adão é mulher. A tradução em inglês agradavelmente capta o jogo de sons semelhantes. Em hebraico, homem seria pronunciado ‘ish; mulher seria ‘ishshah. Embora os sons sejam semelhantes, as raízes das duas palavras são diferentes. Convenientemente ‘ish pode vir de uma raiz paralela arábica, levando à idéia de “exercendo o poder”, enquanto o termo ‘ishshah pode ser derivado de um paralelo arábico, significando “ser suave[27]”. O comentário divinamente inspirado do verso 24 é extremamente importante:

“Por isso deixa o homem pai e mãe e se uma à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24).

Por este texto é imperativo que o homem deixe sua mãe e seu pai e se uma à sua mulher. Qual é a relação entre este mandamento de deixar e se unir e a criação da mulher? O verso 24 começa “Por isso…” Qual é a causa disto? Podemos compreender a razão apenas quando explicamos o mandamento. O homem deixa seus pais, não no sentido de evitar sua responsabilidade para com eles (cf. Mc. 7:10-13, Ef. 6:2-3), mas no sentido de ser dependente deles. Ele deve parar de viver sob sua liderança e começar a agir sozinho, como cabeça de um novo lar[28].

A mulher não recebe o mesmo mandamento porque simplesmente ela é transferida de uma liderança para outra. Enquanto uma vez ela esteve sujeita a seu pai, agora ela está unida a seu marido. O homem, no entanto, tem uma transição mais difícil. Ele, como uma criança, era dependente e submisso a sua mãe e a seu pai.

Quando um homem se casa, ele deve passar pela transição mais radical de um dependente filho submisso para um líder independente (de seus pais), que age como o cabeça de seu lar.

Como muitos observam, a relação marido e mulher é permanente, enquanto a relação pai e filho é temporária. Mesmo se os pais forem relutantes em encerrar a relação dependente de seus filhos, o filho é responsável por fazê-lo. Falhar em agir assim é recusar uma espécie de vínculo necessário com sua esposa.

Agora, talvez, estejamos em posição de ver a relação deste mandamento com o relato da criação. Qual é a razão para sua menção aqui em Gênesis? Antes de mais nada, não há pais dos quais Adão e Eva tenham nascido. A origem de Eva é diretamente de seu marido, Adão. A união ou vínculo entre Adão e sua esposa, é a união que vem de uma só carne (a carne de Adão) e se torna uma só carne (numa união física). Esse vínculo é maior do que aquele entre pai e filho. Uma mulher, é claro, é o produto de seus pais, como o homem é dos seus. Mas a união original não envolvia pais, e a esposa era uma parte da carne de seu marido. Este primeiro casamento, então, é a evidência da primazia da relação marido e mulher sobre a relação pai e filho.

O último verso não é incidental. Ele nos diz muito do que precisamos saber. “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.” (Gênesis 2:25).

Aprendemos, por exemplo, que o lado sexual desta relação era uma parte da experiência do paraíso. O sexo não se originou com ou depois da queda. A procriação e intimidade física foram intencionadas desde o princípio (cf. 1:28). Também vemos que o sexo podia ser apreciado em sua amplitude no plano divino. Desobediência a Deus não intensifica o prazer sexual; o diminui. Hoje, o mundo quer acreditar que inventou o sexo e que Deus apenas tenta impedi-lo. Mas sexo, sem Deus, não é o que poderia ou deveria ser.

Ignorância, se me perdoam dizê-lo, é felicidade. Em nossa geração somos bacanas, ou se preferir, sofisticados, apenas se sabemos (por experiência) tudo o que há para saber sobre sexo. “Que ingênuos são aqueles que nunca tiveram sexo antes do casamento”, somos levados a crer. Há muitas coisas que é melhor não saber. O sexo nunca foi tão apreciado como quando era uma doce ignorância.

A revelação posterior lança muita luz sobre este texto. Nosso Senhor, significativamente, cita o capítulo um e o capítulo dois de Gênesis como se fosse um único relato (Mt. 19:4-5), um golpe fatal aos críticos do documento original.

A origem divina do casamento significa que não é uma mera invenção social ou convenção, mas uma instituição divina para o homem. Porque Deus une um homem e uma mulher em casamento, ela é uma união permanente: “O que Deus uniu, não o separe o homem.” (Mt. 19:6).

O fato de que Adão precedeu sua esposa na criação e de que Eva foi feita de Adão, também estabelece as razões pelas quais o marido está no exercício da liderança sobre sua mulher no casamento (cf. I Co. 11:8-9, I Tm. 2:13). O papel das mulheres na igreja não é apenas idéia de Paulo restrita ao tempo e à cultura dos cristãos de Corinto. O papel bíblico da mulher é estabelecido no relato bíblico da criação (cf. também I Co. 14:34).


[1] CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. II pp.545

[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã:São Paulo, 2001. pp.167

[3] Chafer, Vol. II, pp546.

[4] Idem, pp.547.

[5] STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. I, pp.547

[6] RYRIE, Charles. Teologia básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp.271.

[7] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[8] I Timóteo 2:13.

[9] I Coríntios 11:8,12..

[10] Gênesis 2:23.

[11] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[12] H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 110.- Veja também: PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23; YOUNG, Edward, Introdução ao Antigo Testamento. pp.54-68; ARHCER, Gleason, Merece Confiança o Antigo Testamento, pp.200.

[13] Idem, p. 112

[14] Tal parece ser o ponto de vista Leupold, I, pp. 113-114.

[15] Young, pp. 67-68.

[16] Derek Kidner, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.56.

[17] Young, p. 71.

[18] Leupold, p. 115.

[19] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[20] Cf. Leupold, p. 129.

[21] Dwight Hervey Small, Design For Christian Marriage (Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell, 1971), p. 58. Em outro lugar Small observa: “Como Elton Trueblood sugere, um casamento de sucesso não é aquele no qual duas pessoas, que combinam perfeitamente, encontram um ao outro e seguem adiante sempre felizes, por causa de sua afinidade inicial. É, em vez disso, um sistema por meio do qual pessoas que são pecaminosas e briguentas são então alcançadas por um sonho e um propósito maior do que eles mesmos, que trabalham ao longo dos anos, a despeito de repetidos desapontamentos, para tornar o sonho verdadeiro.” p. 28.

[22] “Pois a expressão “dar nomes”, no uso hebraico da palavra “nome”, envolve uma designação expressiva da natureza ou caráter daquele que é nomeado. Esta não foi uma fábula rude, onde, de acordo com a opinião hebraica, os nomes para o futuro foram tirados de exclamações acidentais à vista de uma nova e estranha criatura.” Leupold, p. 131.

[23] “Tardemah é, de fato, um “sono profundo”, não um estado de êxtase, como os tradutores gregos apresentam; nem um “transe hipnótico”(Skinner), pois vestígios de hipnose não são encontrados nas Escrituras. Um “transe”pode ser permissível. A raiz, no entanto, é aquela do verbo usado em referência a Jonas quando adormeceu profundamente durante a tempestade.” Ibid, p. 134.

[24] “A palavra tsela traduzida por “costela”, definitivamente contém esse significado (contra V. Hofman), apesar de não ser necessário pensar apenas em osso puro; pois, sem dúvida, osso e carne foram usados por ela daquele homem que posteriormente disse: “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). Ibid.

[25] “A atividade de Deus no modo de tomar a costela do homem é descrita como uma construção (wayyi ‘bhen). Antes de ser uma indicação da obra de um autor diferente, o verbo desenvolve a situação como sendo a mais apropriada. Não teria sido próprio usar yatsar, um verbo aplicável no caso do barro, não da carne. “Construir” aplica-se ao modelamento de uma estrutura de alguma importância; envolve esforço construtivo.” Ibid, p. 135.

[26] Ou, como Leupold sugere “Agora, finalmente” (p. 136).

[27] Leupold, pp. 136‑137.

[28] Creio que devemos ter muita cautela na aplicação do princípio de Bill Gothard “corrente de conselho”. Embora o sensato procurará conselho e alguns possam vir de seus pais, dependência é um perigo real. O problema não é tanto com o princípio, mas com a aplicação.

V.    A Criação do Homem

O homem é criado por Deus (cf. Mt.19.4; Rm.5.12-19; 1Co.15.45-49; 1Tm.2.13). Somente Deus seria a causa suficiente e razoável para explicar a complexidade da vida humana. Somente na palavra de Deus pode-se encontrar uma revelação especial das atividades de Deus na CRIAÇÃO do universo e de tudo o que nele existe. “Nenhuma outra literatura no mundo é tão repleta de revelação direta destinada a informar a mente do homem e orientar pesquisas científicas como essas primeiras páginas da Bíblia[1]”.

A criação é relatada em dois textos distintos em Gênesis: 1.26,27 e 2.7, 21-23. Essa duplicidade de relatos tem feito com que alguns teólogos questionem sua validade e veracidade. Alguns afirmam que existe certa contradição entre os relatos ou até que existem duas fontes na qual o autor deve ter pesquisado. “A alta crítica é de opinião que o escritor de Gênesis juntou duas narrativas da criação (…) e que as duas são independentes e contraditórias[2]”.

No entanto, seguindo o plano do autor de Gênesis nota-se que a segunda narração trata-se de uma descrição mais detalhada da criação. “O primeiro registro da criação do homem reporta com simplicidade sublime um tema muito difícil”, mas não de maneira insuficiente. “No detalhe acrescentado que caracteriza o segundo registro, está declarado que homem e mulher são parecidos no aspecto físico, por ter sido diretamente – como no caso do homem – e indiretamente – como no caso da mulher – do pó da terra[3]”.

Para os cristãos convictos pouco importa se a ciência afirma, em caráter científico bem fundamentado ou não que a historicidade de terra é bem maior que a sustentada por alguns teólogos, visto que não viola o texto bíblico de maneira nenhuma. “Seja num tempo ou noutro, permanece verdadeiro que Deus Criou o homem imediata e diretamente[4]”. Segue-se, então que é possível concordar com Strong quando se propõe a definir o ato da criação da seguinte maneira:

“Criação é o ato livre do Deus trino pelo qual, no princípio, para sua glória, ele fez, sem uso de matéria preexistente, todo o universo visível e invisível[5]”.

Criação pode ser compreendida como origem com desígnio, pois é impossível que o homem tenha capacidade de imaginar um Ser Pessoal como criador, sem que o tenha conhecido como tal. Outro fato interessante, é que na criação Deus preocupou-se em formar todos os outros seres vivos a fim de que o homem pudesse ter o ambiente perfeito para viver. Ou seja, tudo o que era essencial para a existência do homem já havia sido criado por Deus.

Introdução – A Literalidade de Gênesis

Este tópico visa detalhar ainda um pouco mais que as informações colhidas nos tópicos anteriores podem ser verídicas pelo fato de que o texto base para tal é literal e demonstrado com real diante das demais Escrituras.

1.         Jardim Literal

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…) Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”  (Gn.2.8,9,15)

Após o ato imediato da criação do homem, nota-se o seguinte texto que demonstra claramente a criação do Ambiente do Primeiro homem. Nota-se que Deus é a causa primeira deste Jardim que está localizado na terra, que já havia sido criada. A localização descrita pelo autor bíblico sugere que este Jardim estava situado na região da Palestina. Nos versículos que seguem podemos notar esse fato:

E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços (…) O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates” (Gn2.10, 14)

Dois dos nomes de rios mencionados neste texto são muito bem conhecidos e Norman Geisler chega a sugerir que a Bíblia situa os rios na Assíria, atual Iraque. As informações bíblicas são muito bem arranjadas, e isso faz com que alguns teólogos acreditem em uma inserção de informações posteriores. Mas tal informação é especulativa, visto não existir informações que sustentem essa opinião.

Por causa das especulações teológicas colocadas sobre o texto de Gênesis, é importante demonstrar que as evidências dão suporte para a interpretação normal do texto, que neste caso é literal.

Normalmente as objeções lançadas sobre a mitologia relacionada com o Jardim do Éden é colocada em função da inexistência de artefatos arqueológicos que evidenciem tal existência. Contudo, é necessário que se demonstre que após a queda Deus selou o Jardim (Gn.3.24), isso impossibilitaria que qualquer evidência arqueológica fosse encontrada. Outro detalhe que merece atenção é que não existem evidências de que Adão ou Eva tenham se aplicado à produção de artefatos neste Jardim, nem mesmo se empenhado a qualquer espécie de construção. Ou seja, sem tais fatos é impossível que se encontre evidências arqueológicas. Se existisse, ainda, qualquer evidência, com o Dilúvio elas seriam destruídas (Gn.6-9; cf. 2Pe.3.5, 6).

A inclusão dos rios Tigre e Eufrates, que são reais, parece sugerir que o Jardim seja igualmente literal. A preocupação do autor bíblico em demonstrar os rios deve reportar-se ao fato de que tal Jardim seja também real.

Um ponto que merece destaque dentre os mencionados, é que o Novo Testamento testemunha sobre os fatos relacionados ao Jardim como reais. Fala da criação de Adão e Eva (Mt.19.4; 1Tm.2.13) e de seu pecado original (1Tm.2.13; Rm.5.12) . Assim, esses eventos reais precisam de um Ambiente Real para acontecer, um lugar geográfico.

2.         Adão Histórico-literal

A argumentação que proporciona a interpretação mítica ou irreal é a consideração de que o autor utiliza-se de um estilo poético, repleto de paralelismo com outros mitos antigos e a suposta contradição entre o relato e a ciência. No entanto, para os escritores bíblicos, tanto Adão quanto Eva, são personagens históricos, e encontrados em uma leitura literal de Gênesis.

O primeiro fato que evidencia a condição histórica de Adão é a própria narrativa de Gênesis. Embora muita discussão exista neste ponto, para aqueles que consideram o texto como fonte fidedigna de informações é o ponto de partida. Observe que o autor sempre demonstra Adão como uma pessoa real. Se Adão fosse irreal não poderia ter gerado filhos, e na narrativa de Gênesis ele perpetua a espécie humana, gerando filhos à sua imagem (Gn.5.3).

Outro detalhe importante dentro da narrativa de Gênesis é que a sentença “Este é o registro”, ou “são estas as gerações” encontradas para registrar a história do povo hebreu (cf. Gn.6.9; 10.1; 11.10, 27; 25.12, 19) é usada para o registro da Criação (2.4) e para Adão e Eva e seus descendentes (5.1).

Fora da narrativa de Gênesis é possível encontrar Adão como personagem histórico. Na cronologia encontrada em 1Cr.1.1, Adão encabeça a genealogia mais extensa das escrituras (1.1 – 9.44), que demonstra a historicidade das tribos de Israel e a importância da linhagem davídica. Mas para que esta genealogia tenha valor real é necessário que os personagens envolvidos seja igualmente reais.

O Novo Testamento testemunha a favor da historicidade de Adão. Em Lc.3.38 Adão é designado como um ancestral literal de Jesus,  e este, posteriormente, referiu-se a Adão e Eva como os primeiros “homem e mulher” literais, fazendo da união deles a base para o casamento (Mt.19.4).

Paulo em Romanos declara que a morte foi trazida ao mundo por um homem real (Rm.5.12, 14). Em Coríntios, Paulo faz uma comparação entre Cristo e Adão (1Co.15.45). Para Timóteo, Paulo afirma que primeiro foi criado o homem e depois a mulher (1Tm.2.13, 14). Ou seja, se as comparações e citações paulinas sobre os diversos assuntos que aborda fossem baseadas em mitologia, as asseverações morais seriam nada mais do que afirmações equivocadas e inválidas. Entretanto, não parece ser esse o caráter que Paulo escreve. Tanto ele, como os autores do Novo Testamento tem por certo de que os acontecimentos narrados em Gênesis são fatos. Assim, é impossível não crer na historicidade de Adão.

A.     Conceituações gerais da Criação do homem

Três características são percebidas em relação a criação do homem: (1) Ele foi criado diretamente por Deus; (2) Em distinção das outras criaturas e (3) colocado em uma posição exaltada.

1.         O homem foi criado diretamente por Deus

Ao observar o primeiro relato bíblico da criação, não se pode chegar à outra conclusão senão que o homem é resultado da intervenção direta de Deus. Observe o versículo: “Criou Deus, pois, o homem…” (Gn.1.27). Esse versículo inibe a possibilidade da utilização de um processo evolutivo para a formação do homem. Deus não utilizou formas “preexistentes” ou subumanas de vida para formar Adão. Assim Deus não soprou o fôlego da vida em um “macaco-quase-homem” que veio a ser o primeiro homem.

No segundo relato da criação podemos percebem que Deus não se utilizou de formas orgânicas menos desenvolvidas para formar o homem, mas “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra”. Dessa maneira podemos dizer que “essa passagem reforça o fato da criação especial a partir de materiais inorgânicos, não apoiando a idéia de uma criação derivada de alguma forma de vida prévia[6]”.

Entretanto alguns atestam que a referência ao pó da terra pode ser considerado como uma forma alegórica para um ser vivo preexistente. Mas devemos desconsiderar essa possibilidade, pois o próprio Deus afirmou que o homem voltaria ao pó quando morresse, mas o homem nunca volta a um estado animal na sua morte (Gn.3.19).

Portanto, temos que admitir, se cremos que a Palavra de Deus é infalível e inerrante como ela afirma ser, que não existe outra possibilidade verdadeira para a origem do homem fora das escrituras. Deus criou o homem de fato, e isso não pode ser negado.

2.         O homem foi criado em distinção das outras criaturas

Outro fato que deve ser percebido na criação do homem é que ele não foi criado nem derivado de outras criaturas. Na descrição de Gênesis, Deus cria o reino vegetal distinto do animal, e o homem distinto de ambos. Observe:

“E disse: Produza a terra relva, ervas, que dêem fruto semente, e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cujo a semente esteja nele” (Gn.1.11)

Essa identificação exata de Deus em relação ao reino vegetal inclui até mesmo a condição da semente do fruto das árvores. Mas não se encontra aqui nenhuma referência ou semelhança com os animais ou o homem, mas declara que sua reprodução é única e exclusiva segundo a sua espécie, ou como declara o próximo versículo “conforme a sua espécie”. Fato similar acontece com os animais marinhos e as aves:

“Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies” (Gn.1.21)

Note que cada ser criado por Deus é criado segundo a sua espécie. E o mesmo acontece com os animais selváticos:

“E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie.” (Gn.1.25)

Assim, cada categoria de animal foi criada em conformidade com sua própria espécie, bem como a sua reprodução de acordo com essa conformidade. Segue-se que não se pode afirmar a partir do relato bíblico que houve nalgum momento da criação um processo evolutivo, mas cada animal foi criado segundo a sua espécie.

E, tendo isso como fundamento, na criação do homem não podemos atribuir a utilização de um outro ser vivo para a sua formação. Pois além de ser criado a partir do pó da terra, não pertence à espécie de nenhum outro ser vivo. Portanto, o homem é distinto de qualquer outra forma de vida.

3.         O homem foi colocado numa posição exaltada

O fato de que o homem não pertence à categoria dos animais pode ser percebido em função da criação distinta dos outros seres vivos, como uma espécie distinta de ser vivo e pela posição distinta que tem das demais criaturas. Esse distinção em termos de posição pode ser observada na declaração:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toa a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn.1.26)

Essa identificação demonstra que existe algo especial, não somente na criação, mas na formação. Além da intervenção especial, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Isso faz toda diferença entre o homem e os outros seres vivos. Mas é ainda reforçado por sua posição exaltada, pois é criado para ter domínio sobre todos os outros seres vivos. Portanto, o homem está colocado numa posição privilegiada em relação a demais criaturas.

Essa posição exaltada é ainda demonstrada de forma poética em Salmos, quando Davi escreve uma exaltação das obras de Deus dizendo:

“Quando contemplo os teus céus, obra de teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras de tua mão, e sob teus pés tudo lhe puseste” (Sl.8.3-6)

Portanto, o homem é considerado como ápice da criação, a coroa da criação, e por isso tem sua distinção de todas as outras criações e criaturas e está acima de todas elas.  Outro fator que evidencia essa verdade é que como a criação do homem a Obra Criativa de Deus chegou ao fim. Isso pode ser observado pela frase dita pelo próprio Deus após a criação do homem: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn.1.31).

B.     A dignidade do homem (1.26-31)[7]

Desde que o capítulo dois é construído sobre os detalhes básicos de 1:26-31, vamos começar por considerar esses versos mais cuidadosamente. O homem, como dissemos anteriormente, é a coroa do programa criativo de Deus. Isto fica evidente em muitos pormenores.

Primeiro, o homem é a última das criaturas de Deus. Todo o relato é montado para a criação do homem. Segundo, só o homem é criado à imagem de Deus. Enquanto há considerável discussão do que isso significa, muitas coisas estão implícitas no próprio texto. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus em sua sexualidade:

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn. 1:27)

Isso não quer dizer que Deus seja homem ou mulher, mas que Deus é ambos unidade e diversidade. O homem e a mulher no casamento se tornam um e ainda assim são distintos um do outro. Unidade na diversidade como refletida na relação do homem com sua mulher reflete uma faceta da personalidade de Deus.

Também, o homem, de alguma forma, é parecido com Deus naquilo que o distingue do mundo animal. O homem, enquanto distinto dos animais, é feito à imagem e semelhança de Deus. O que distingue o homem dos animais deve então ser uma parte de seu reflexo de Deus. A habilidade do homem de raciocinar, de se comunicar e de tomar decisões morais deve ser uma parte dessa distinção.

Ainda mais, o homem reflete a Deus no fato de que ele domina sobre a criação de Deus. Deus é o Dirigente Soberano do universo. Ele delegou uma pequena porção de Sua autoridade ao homem no domínio da criação. Nesse sentido, também, o homem reflete a Deus.  Repare também que é o homem e a mulher que dominam: “… dominem eles…” (Gn. 1:26, cf. v. 28).

Ele se refere ao homem e a mulher, não somente aos homens que Ele fez. Enquanto que Adão tem a função de liderar (como evidenciado em sua prioridade na criação[8], seu ser a origem de sua esposa [9], e a nomeação de Eva[10]), a função de Eva era ser a auxiliadora de seu marido. Nesse sentido ambos estão no domínio da criação de Deus.

Mas, mais importante que isso é o fato de que a dignidade e o valor do homem não são imputados por ele mesmo, mas são intrínsecos a ele como aquele que foi criado à imagem de Deus. O valor do homem está diretamente relacionado à sua origem. Não é de se admirar que hoje estejamos ouvindo tais propostas éticas e morais assustadoras.

Qualquer opinião a respeito da origem do homem que não o veja como produto do projeto e desígnio divino, não pode atribuir a ele o valor que Deus lhe dá. Para colocar de outra forma, nossa avaliação do homem é diretamente proporcional à nossa opinião a respeito de Deus. O sólido princípio sobre o qual tais decisões devem ser tomadas, em minha opinião, é o fato de que todos os homens são criados à imagem de Deus. Sob essa luz, agora posso ver porque nosso Senhor pôde resumir todo o Velho Testamento em dois mandamentos:

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt. 22:37-40)

A atitude do futuro parece ser amar apenas aqueles “próximos” que são contribuidores na sociedade, apenas aqueles que podem ser considerados vantajosos. Quão diferente é o sistema de valores de nosso Deus, que disse:

“O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt. 25:40).

Em minha opinião, eis onde nós cristãos seremos colocados à prova. Alguns estão fortemente sugerindo que, aqueles que nosso Senhor chamou de “pequeninos”, são justamente aqueles que devem ser eliminados da sociedade. Possa Deus nos ajudar a ver que a dignidade do homem é aquela que é divinamente determinada.

C.     O dever do homem (2.4-17)[11]

Enquanto Gênesis um descreve a progressão do caos para o cosmos, ou da desordem para a ordem, o capítulo dois segue um padrão diferente. Talvez a linha literária que permeie toda a passagem seja aquela da atividade criativa de Deus em complemento àquelas coisas que estão ausentes.

O verso 4 serve como introdução aos versos restantes. H.C. Leupold, em seu livro, Exposition of Genesis, defende que o uso de “toledoth” expressa exatamente isso, observe:

“Hoje é um fato bem conhecido que o livro de Gênesis é dividido em 10 seções por seu próprio autor, que dá a cada uma o título de “estória” (toledoth); cf. 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1, (9); 37:2. Apenas esta circunstância, mais o uso do número dez redondo, apontariam definitivamente para o fato de que, aqui, a expressão “estes são toledeth” deva também ser um cabeçalho. Em todos os outros exemplos de seu uso em outros livros o mesmo fato é observável; cf. Nm. 3:1; Rt 4:18; I Cr. 1:29; ele está sempre como um cabeçalho[12]

O verso 5 nos informa quais são as ausências que são supridas nos versos 6 e 7: sem arbusto, sem planta, sem chuva e sem o homem. Estas são preenchidas pela neblina (verso 6), pelos rios (versos 10 e 14), o homem (verso 7), e o jardim (versos 8 e 9).

A ausência dos versos 18 a 25 é simplesmente afirmada “nenhuma auxiliadora idônea para Adão” (cf. versos 18, 20). Esta auxiliadora é providenciada de uma linda maneira na parte final do capítulo dois.

Outra vez, deixe-me enfatizar que Moisés não pretendia nos dar aqui uma ordem cronológica dos eventos, mas uma ordem lógica, ao menos essa parece a opinião de Leupold:

“O verso 4b nos leva de volta ao tempo da obra da criação, mais especificamente ao tempo antes da obra do terceiro dia começar, e chama nossa atenção para certos detalhes que, sendo detalhes, dificilmente teriam sido inseridos no capítulo um: o fato de que certos tipos de planta, isto é, as espécies que requerem um cuidado maior e mais atento por parte do homem, não tinham brotado. Aparentemente, toda a obra do terceiro dia está na mente do escritor[13]”.

Seu propósito é mais especificamente descrito na criação do homem, de sua esposa, e o contexto no qual eles são colocados. Estes se tornam o fator chave na queda que ocorre no capítulo três.  Embora até agora não houvesse chovido, Deus providenciava a água que era necessária à vida das plantas. “Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.” (Gn. 2:6).

Há alguma discussão a respeito da palavra “neblina”. Poderia significar uma névoa ou neblina, como alguns afirmam.[14] A Septuaginta usou a palavra grega πηγὴ (pegè) que significa “fonte”. Alguns entendem a palavra hebraica como sendo derivada de uma palavra suméria, se referindo a águas subterrâneas. . Young, sobre isso diz:

“O que entendemos por “ed”? Não uma neblina! A palavra está aparentemente relacionada à palavra suméria. Parece se referir a águas subterrâneas, e o que temos aqui ou é um rompimento de água de algum lugar abaixo do solo, ou possivelmente um rio transbordando de seu leito. Não acho que possamos ser dogmáticos aqui[15]

Derek Kidner, também parece ter opinião similar, observe:

“Apenas subia constantemente (6, o bervo está no imperfeito) uma neblina ou provavelmente uma enchente, de modo que toda a cena era uma devastação de águas – pois o sentido de regava pode variar de um sentido benéfico, como em 10, para o de uma inundação completa (cf. Ez.32.6) e o último parece mais coerente com o contexto[16]

Pode ser que fontes fluíssem para fora do solo e que a vegetação talvez fosse regada por irrigação ou canais. Isto poderia explicar, em parte, o trabalho de Adão na manutenção do jardim. A água sendo suprida, Deus criou o jardim, que seria o lugar da morada do homem, e objeto de sua atenção. Era bem suprido com muitas árvores que proviam beleza e comida:

“Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9).

Especificamente duas árvores são mencionadas, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última árvore foi a única coisa proibida ao homem.

“E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás,” (Gênesis 2:16-17).

É interessante que, aparentemente, só para Adão é dito por Deus que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não devia ser comido. Alguém pode conjecturar em como a ordem de Deus para Adão foi comunicada a Eva. Poderia isto explicar a avaliação imprecisa de Eva em 3:2-3?

O homem foi colocado dentro desse paraíso. Note que a palavra hebraica Éden, significa exatamente isso:

“A palavra “Éden” em hebraico pode significar deleite ou prazer. Não estou certo de que é isto o que significa aqui. Há uma palavra suméria que significa estepe, ou planície, vasta planície, e a leste desta planície Deus plantou o jardim. Sem ser categórico dou minha opinião de que é isto o que “Éden” significa. Assim o jardim é plantado[17]”.

Apesar de certamente se regozijar nesse país das maravilhas, ele também estava lá para cultivá-lo. Olhe outra vez o verso 5:

“Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.” (Gn. 2:5)

Quando colocado no jardim, Adão teve que trabalhar lá: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” (Gn. 2:15)

A criação de Adão é descrita mais amplamente em 2:7 do que no capítulo um. Ele foi formado[18] do pó da terra:

“O verbo aqui empregado está mais de acordo com o caráter de “Senhor” de Deus; yatsar significa “moldar” ou “formar”. É a palavra que descreve especificamente a atividade do oleiro (Jr. 18:2 e ss). A idéia a ser enfatizada é aquela do cuidado especial e atenção pessoal que esse oleiro dá ao seu trabalho. Deus dá toques de Seu interesse no homem, Sua criatura, ao moldá-lo como Ele o faz”.

Ainda que isso seja um fato humilhante, é óbvio também que a origem do homem não é do mundo animal, nem o homem é criado da mesma maneira que os animais. Em parte, a dignidade de Adão provém do fato de que seu fôlego de vida foi soprado por Deus (verso 7).

Este não foi jardim mítico. Todas as partes da descrição deste paraíso nos levam a entender que foi um jardim real numa localização geográfica especial. São dados pontos de referência específicos. Quatro rios são nomeados, dois dos quais são conhecidos ainda hoje. Não deveríamos nos surpreender que pudessem ter ocorrido mudanças, especialmente depois do evento cataclísmico do dilúvio, o que tornaria impossível sua localização precisa.

O que acho mais interessante é que o paraíso do Éden foi um lugar um pouco diferente daquilo que visualizamos hoje. Prá começar, foi um lugar de trabalho. Os homens hoje pensam no paraíso como uma rede pendurada entre dois coqueiros numa ilha deserta, onde o trabalho nunca mais será encarado. Além do mais, o céu é tido como o fim de todas as proibições. O céu freqüentemente é confundido com hedonismo. É puro egocentrismo e auto-satisfação. Enquanto que o estado de Adão foi de beleza e felicidade, não se pode pensar que foi de prazer irrestrito. O fruto proibido também era uma parte do Paraíso. O céu não é experimentar todos os desejos, mas a satisfação de desejos benéficos e sadios.

A subserviência não é um conceito novo no Novo Testamento. Serviço significativo dá satisfação e significado à vida. Deus descreve Israel como um jardim cultivado, uma vinha (Isaías 5:1-2 ss). Jesus falou de si mesmo como uma Videira e nós como os ramos. O Pai ternamente cuida de Sua vinha (João 15:1 e ss). Paulo descreve o ministério como o trabalho de um lavrador (II Timóteo 2:6).

Ainda que a igreja do Novo Testamento possa ser melhor descrita como um rebanho, ainda assim a imagem do jardim não é inapropriada. Há um trabalho a ser feito pelo filho de Deus. E esse trabalho não é penoso, nenhum dever a ser relutantemente cumprido. É uma fonte de alegria e satisfação. Hoje muitos não têm senso real de sentido e propósito porque não estão fazendo o trabalho que Deus designou para que façam.

D.     O deleite do homem (2.18-25)[19]

Ainda resta uma ausência. Agora há água adequada, a bela e generosa provisão do jardim, e o homem para cultivá-lo. Mas ainda não há uma companhia apropriada para o homem. Esta necessidade é encontrada nos versos 18 a 25. O jardim, com seus prazeres e provisões para alimento e atividade significativa não era suficiente a menos que os deleites pudessem ser compartilhados. Deus daria a Adão aquilo que ele mais necessitava.

“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18)

A companheira de Adão deveria ser uma criação muito especial, uma “auxiliadora idônea para ele” (verso 18). Ela deveria ser uma “auxiliadora”, não uma escrava, não uma inferior. A palavra hebraica ezer é muito interessante. Era uma palavra que Moisés obviamente gostava, pois Êxodo 18:4 diz que este foi o nome que ele deu a um de seus filhos.

“e o outro, Eliézer, pois disse: o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.” (Êxodo 18:4).

Ainda três outras vezes encontramos ezer sendo usada por Moisés em Deuteronômio (33:7, 26, 29), e se refere a Deus como auxiliador do homem. Como também nos Salmos (20:2, 33:20, 70:5, 89:19, 115:9, 121:1-2, 124:8, 146:5).

A característica da palavra mais empregada no Velho Testamento é que o auxílio não implica absolutamente em inferioridade. De uma maneira compatível com seu uso, Deus está auxiliando o homem através da mulher. Que belo pensamento. Como isso é superior a algumas concepções. Então, ela é também uma auxiliadora que “corresponde a” Adão. Em certa tradução se lê: “…Farei uma auxiliadora como ele.”[20]

Ainda que isto seja o que muitas vezes consideramos a mulher perfeita – alguém que é exatamente como nós, é precisamente o oposto da questão. Muitas vezes a incompatibilidade está no desígnio divino. Como Dwight Hervey Small corretamente observa:

A incompatibilidade é um dos propósitos do casamento! Deus designa conflitos e sobrecargas como lições para o crescimento espiritual. Estes existem para que haja submissão aos altos e santos propósitos.[21]

Assim como Eva foi feita para se ajustar a Adão de uma forma física, ela também o completava socialmente, intelectualmente, espiritualmente e emocionalmente.

Em conseqüência, quando aconselho àqueles que planejam se casar, não procuro descobrir tantas características semelhantes quanto possível. Em vez disso, preocupo-me com que cada parceiro tenha uma visão acurada do que o outro realmente é, e que eles se comprometam com o fato de que Deus os tenha unido permanentemente. O reconhecimento de que Deus fez o homem e a mulher diferentes por desígnio, e a determinação em atingir a unidade nessa diversidade é essencial para um casamento sadio.

Antes de criar sua contraparte, Deus primeiro aguçou o apetite de Adão. As criaturas que Deus criara agora são trazidas a Adão para que ele lhes dê nomes. Esta nomeação refletia o domínio de Adão sobre as criaturas, como Deus planejara (cf. 1:28). Isto provavelmente envolveu um cuidadoso estudo por parte de Adão para registrar as características particulares de cada criatura.[22]

Este processo de nomeação deve ter tomado algum tempo. No processo, Adão observaria que nenhuma simples criatura poderia preencher o vazio de sua vida. Mais ainda, eu usaria um pouco de santa imaginação para supor que Adão observou cada criatura com sua companheira, uma contraparte maravilhosamente designada. Adão deve ter percebido que ele, só ele, estava sem uma companheira.

Nesse momento de intensa necessidade e desejo, Deus colocou Adão num sono profundo[23], e de sua costela e carne [24] formou a mulher [25] Ele então deu a mulher de presente ao homem.

Que excitamento há na resposta entusiástica de Adão:

“E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.” (Gênesis 2:23).

Gosto da maneira como a versão ARA traduz a resposta inicial de Adão: “…afinal…[26]. Nessa expressão há uma mistura de alívio, êxtase e deleitosa surpresa. “Esta (pois Adão ainda não lhe tinha dado nome) é agora osso dos meus ossos e carne de minha carne” (verso 23a). O nome da companheira de Adão é mulher. A tradução em inglês agradavelmente capta o jogo de sons semelhantes. Em hebraico, homem seria pronunciado ‘ish; mulher seria ‘ishshah. Embora os sons sejam semelhantes, as raízes das duas palavras são diferentes. Convenientemente ‘ish pode vir de uma raiz paralela arábica, levando à idéia de “exercendo o poder”, enquanto o termo ‘ishshah pode ser derivado de um paralelo arábico, significando “ser suave[27]”. O comentário divinamente inspirado do verso 24 é extremamente importante:

“Por isso deixa o homem pai e mãe e se uma à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24).

Por este texto é imperativo que o homem deixe sua mãe e seu pai e se uma à sua mulher. Qual é a relação entre este mandamento de deixar e se unir e a criação da mulher? O verso 24 começa “Por isso…” Qual é a causa disto? Podemos compreender a razão apenas quando explicamos o mandamento. O homem deixa seus pais, não no sentido de evitar sua responsabilidade para com eles (cf. Mc. 7:10-13, Ef. 6:2-3), mas no sentido de ser dependente deles. Ele deve parar de viver sob sua liderança e começar a agir sozinho, como cabeça de um novo lar[28].

A mulher não recebe o mesmo mandamento porque simplesmente ela é transferida de uma liderança para outra. Enquanto uma vez ela esteve sujeita a seu pai, agora ela está unida a seu marido. O homem, no entanto, tem uma transição mais difícil. Ele, como uma criança, era dependente e submisso a sua mãe e a seu pai.

Quando um homem se casa, ele deve passar pela transição mais radical de um dependente filho submisso para um líder independente (de seus pais), que age como o cabeça de seu lar.

Como muitos observam, a relação marido e mulher é permanente, enquanto a relação pai e filho é temporária. Mesmo se os pais forem relutantes em encerrar a relação dependente de seus filhos, o filho é responsável por fazê-lo. Falhar em agir assim é recusar uma espécie de vínculo necessário com sua esposa.

Agora, talvez, estejamos em posição de ver a relação deste mandamento com o relato da criação. Qual é a razão para sua menção aqui em Gênesis? Antes de mais nada, não há pais dos quais Adão e Eva tenham nascido. A origem de Eva é diretamente de seu marido, Adão. A união ou vínculo entre Adão e sua esposa, é a união que vem de uma só carne (a carne de Adão) e se torna uma só carne (numa união física). Esse vínculo é maior do que aquele entre pai e filho. Uma mulher, é claro, é o produto de seus pais, como o homem é dos seus. Mas a união original não envolvia pais, e a esposa era uma parte da carne de seu marido. Este primeiro casamento, então, é a evidência da primazia da relação marido e mulher sobre a relação pai e filho.

O último verso não é incidental. Ele nos diz muito do que precisamos saber. “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.” (Gênesis 2:25).

Aprendemos, por exemplo, que o lado sexual desta relação era uma parte da experiência do paraíso. O sexo não se originou com ou depois da queda. A procriação e intimidade física foram intencionadas desde o princípio (cf. 1:28). Também vemos que o sexo podia ser apreciado em sua amplitude no plano divino. Desobediência a Deus não intensifica o prazer sexual; o diminui. Hoje, o mundo quer acreditar que inventou o sexo e que Deus apenas tenta impedi-lo. Mas sexo, sem Deus, não é o que poderia ou deveria ser.

Ignorância, se me perdoam dizê-lo, é felicidade. Em nossa geração somos bacanas, ou se preferir, sofisticados, apenas se sabemos (por experiência) tudo o que há para saber sobre sexo. “Que ingênuos são aqueles que nunca tiveram sexo antes do casamento”, somos levados a crer. Há muitas coisas que é melhor não saber. O sexo nunca foi tão apreciado como quando era uma doce ignorância.

A revelação posterior lança muita luz sobre este texto. Nosso Senhor, significativamente, cita o capítulo um e o capítulo dois de Gênesis como se fosse um único relato (Mt. 19:4-5), um golpe fatal aos críticos do documento original.

A origem divina do casamento significa que não é uma mera invenção social ou convenção, mas uma instituição divina para o homem. Porque Deus une um homem e uma mulher em casamento, ela é uma união permanente: “O que Deus uniu, não o separe o homem.” (Mt. 19:6).

O fato de que Adão precedeu sua esposa na criação e de que Eva foi feita de Adão, também estabelece as razões pelas quais o marido está no exercício da liderança sobre sua mulher no casamento (cf. I Co. 11:8-9, I Tm. 2:13). O papel das mulheres na igreja não é apenas idéia de Paulo restrita ao tempo e à cultura dos cristãos de Corinto. O papel bíblico da mulher é estabelecido no relato bíblico da criação (cf. também I Co. 14:34).


[1] CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. II pp.545

[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã:São Paulo, 2001. pp.167

[3] Chafer, Vol. II, pp546.

[4] Idem, pp.547.

[5] STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. I, pp.547

[6] RYRIE, Charles. Teologia básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp.271.

[7] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[8] I Timóteo 2:13.

[9] I Coríntios 11:8,12..

[10] Gênesis 2:23.

[11] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[12] H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 110.- Veja também: PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23; YOUNG, Edward, Introdução ao Antigo Testamento. pp.54-68; ARHCER, Gleason, Merece Confiança o Antigo Testamento, pp.200.

[13] Idem, p. 112

[14] Tal parece ser o ponto de vista Leupold, I, pp. 113-114.

[15] Young, pp. 67-68.

[16] Derek Kidner, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.56.

[17] Young, p. 71.

[18] Leupold, p. 115.

[19] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[20] Cf. Leupold, p. 129.

[21] Dwight Hervey Small, Design For Christian Marriage (Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell, 1971), p. 58. Em outro lugar Small observa: “Como Elton Trueblood sugere, um casamento de sucesso não é aquele no qual duas pessoas, que combinam perfeitamente, encontram um ao outro e seguem adiante sempre felizes, por causa de sua afinidade inicial. É, em vez disso, um sistema por meio do qual pessoas que são pecaminosas e briguentas são então alcançadas por um sonho e um propósito maior do que eles mesmos, que trabalham ao longo dos anos, a despeito de repetidos desapontamentos, para tornar o sonho verdadeiro.” p. 28.

[22] “Pois a expressão “dar nomes”, no uso hebraico da palavra “nome”, envolve uma designação expressiva da natureza ou caráter daquele que é nomeado. Esta não foi uma fábula rude, onde, de acordo com a opinião hebraica, os nomes para o futuro foram tirados de exclamações acidentais à vista de uma nova e estranha criatura.” Leupold, p. 131.

[23] “Tardemah é, de fato, um “sono profundo”, não um estado de êxtase, como os tradutores gregos apresentam; nem um “transe hipnótico”(Skinner), pois vestígios de hipnose não são encontrados nas Escrituras. Um “transe”pode ser permissível. A raiz, no entanto, é aquela do verbo usado em referência a Jonas quando adormeceu profundamente durante a tempestade.” Ibid, p. 134.

[24] “A palavra tsela traduzida por “costela”, definitivamente contém esse significado (contra V. Hofman), apesar de não ser necessário pensar apenas em osso puro; pois, sem dúvida, osso e carne foram usados por ela daquele homem que posteriormente disse: “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). Ibid.

[25] “A atividade de Deus no modo de tomar a costela do homem é descrita como uma construção (wayyi ‘bhen). Antes de ser uma indicação da obra de um autor diferente, o verbo desenvolve a situação como sendo a mais apropriada. Não teria sido próprio usar yatsar, um verbo aplicável no caso do barro, não da carne. “Construir” aplica-se ao modelamento de uma estrutura de alguma importância; envolve esforço construtivo.” Ibid, p. 135.

[26] Ou, como Leupold sugere “Agora, finalmente” (p. 136).

[27] Leupold, pp. 136‑137.

[28] Creio que devemos ter muita cautela na aplicação do princípio de Bill Gothard “corrente de conselho”. Embora o sensato procurará conselho e alguns possam vir de seus pais, dependência é um perigo real. O problema não é tanto com o princípio, mas com a aplicação.

10.28.09

A Criação do Universo

Enviado em Gênesis tagged , , às 8:37 am por Marcelo Berti

“Existe qualquer coisa particularmente notável na maneira como o Espirito Santo abre este livo sublime. Ele apresenta-nos, imediatamente, a Deus, na Sua plenitude essencial do Seu Ser e no isalamento de Sua atuação. Toda matéria preliminar é dispensada. É a Deus que somos trazidos. Ouvimo-lo, de fato, quebrando o silêncio e brilhando sobre as trevas da tera com o propósito de fomentar um globo no qual pudesse mostrar o Seu poder eterno e Sua Divindade[1]

A verdade apresentada acima é estampada aos nossos olhos nos primeiro versos das Escrituras, por isso nosso estudo terá grande atenção aos detalhes desse texto com o objetivo de ressalatar a Grandeza e Sabedoria do Nosso Criador. A intenção desse estudo é conhecer mais detalhadamente a ação de Deus enquanto visa compreender a linguagem usada pelo autor para descrever a Criação. O modo do nosso estudo segue o exemplo auferido no Salmo 19: Com os olhos na Revelação Geral (1-6) estudamos a Revelação Específica (7-10) com o objetivo de levarnos à uma vida mais coerente com o Deus que transmiste Sua Mensagem por meio de sua Criação e Revelação (11-14). Assim, desejo que nossa investigação do conteúdo das escrituras seja feita no verdadeiro espírito de adoração para que as palavras dos nosso lábios e o meditar do nosso coração possam ser agradáveis na presença de Deus, nosso Redentor[2].

A.     O Princípio

No princípio: A palavra hebraica reshı̂̂yt é a palavra que origina em português o termo princípio.  A raiz dessa palavra é usada em diversas ocasiões como referência do início de algo. Em Gênesis 10.10 o termo descreve o início de um reino. Essa mesma raiz tamém é usada para descrever a primazia ou a proeminência de algo. Em Êxodo 34.26 descreve a parte mais importante dos primeiros frutos, sendo traduzido em português pela palavra primícia (ARA). Essa raiz também descreve o conceito de princípio como valor. Esse é o caso do uso encontrado em Provérbios 1.7. A referência dessa palavra nesse contexto normalmente é observada sob dois aspectos: (1) O início da atividade criativa de Deus; (2) O princípio da eternidade.

A segunda opção não parece favorável pela intrigante contradição que oferece, pois sabe-se que por definição a eternidade não tem início. Portanto, o texto parece indicar o início da atividade criativade Deus. Entretanto, Derek Kidner entende que o termo fala um pouco mais do que somente sobre o tempo ou a ocasião e para isso cita Pv.8.22 para concluir que o texto “revela algo do aspecto concernente a Deus deste princípio da criação[3]”.

O texto de Provérbios citado por Kidner nos faz pensar sobre o conceito da eternidade de Deus apresentada em Gn.1.1 e reforça a idéia de que o texto fala sobre o início da criação de Deus. Mais interessante é notar que esse texto parece adentrar na Eternidade da qual temos poucas informações. O Novo Testamento nesse sentido, ousa a apresentarnos relatos desse período da Perfeita existência de Deus anterior à Criação (Jo.1.1; 17.5, 26)[4].

Deus criou: A expressão Deus criou (bärä elöhîm) merece nossa atenção. A palavra elöhîm é frequente no AT e é usada em contextos diversos. Pode ser aplica a divindades pagãs (Ex.20.3; Dt. 4.7), pessoas (Ex.22.9, 27), anjos  (Sl.97.7) e ao Próprio Deus (Dt.4.35). O fato de estar no plural faz com que algumas pessoas pensem que trata-se da influência politeísta do Egito sobre a cosmovisão hebraica da dividnade. Entretanto, é importante lembrar que nesse retrato da Auto-revelação de Deus, Moisés nos lembra quem é o elöhîm criador em Gn.2.4: “Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou. A palavra Senhor em caixa alta no texto é o tetragrama hebraico (YHWH) usado para descrever a Pessoa do Criador[5]. Ou seja, Gn.1.1 não trata de da multiplicidade de divindades na criação, mas o uso da expressão em plural é uma descrição característica da divindade.

A clarividência dessa informação é observada no fato de que o termo bärä está no singular. Isso é evidência de que por mais que a expressão seja plural o autor pensa em uma pessoa. É interessante notar que sentença similar a essa é encontrada  para descrever Iahweh como Deus Criador (cf. Jr.31.22).

Sobre a grandeza dessa expressão David Merck diz que bära’na Bíblia foi usada somente de Deus.  Fala de atos muito especiais—a criação de tudo do nada (ex nihilo 1.1, 2.3,4), da criação de animais cientes (em contraste com plantas) (1.21) e do homem e da mulher (1.27). Somente Deus pode fazer algo do nada. Deus conhece intimamente todo átomo do universo porque Ele o fez! Cada célula, cada fio de cabelo, cada estrela por nome, Deus criou tudo que existe! (Sl 139)[6]

Céus e terra: Ainda que a expressão ëres (terra) possa indicar também uma local específico (Ex.32.4), e várias vezes indicar a terra prometida (Dt.4.5), não entendemos aqui que o autor fala da prepração da terra, mas em função do paralelo céu e terra (shāmayı̂m e ‘eres) entendemos que o autor fala de todo o universo. Nesse verso, até mesmo Sailham  entende que esse é o objetivo do autor: “O propósito de Gn.1.1 não é identificar a Deus desse modo [Redentor de Israel – Gn.48.15], mas identificá-lo como o Criador do Universo[7]”. Clyde Francisco, quem embora demonstre algumas credenciais mais liberais[8] também defende essa opção: “Os céus e a terra é uma expressão que significa todo o universo, todo o mundo. Neste versículo, o escritor está dizendo: ‘Deus criou tudo o que há no mundo’, Começando com o verso 2, ele descreve o processo da criação de maneira mais específica[9]” .

Sem forma e vazia: A descrição da terra é agora apresentada como tôhú e bohû. Esses dois vocábulos são usados juntos em algumas ocasiões no AT parecem sempre estarem focadas nos eventos descritos em Gn.1.2 (Is.34.1; Jr.4.23). É em função dessas duas palavras que a muitos entendem que a ação do verso 1 foi destruída pela queda de Satanás e como consequência a terra tornou-se sem forma e vazia. Contudo, o verbo usado nessa sentença, häyah, parece não permitir esse tipo de interpretação: por estar no qal perfeito ele descreve uma condição (era) e não um estado subsequente a uma ação específica (tornou-se). Em Gênesis, todas as vezes que o termo é usado no qal perfeito é normalmente traduzida para o português desse modo (Gn.3.20; 18.12; 29.17). Assim, entendemos que a terra ainda não estava formada (tôhú) e que nela nada havia (bohû). Em outras palavras, a terra era deserta e não habitada antes de ser trabalhada por Deus para ser “boa”. David Merck sobre isso disse: “As palavras [tôhú e boh] se referem à criação original, como se fosse o barro do oleiro, uniforme, sem forma, sem contéudo definido.  Em termos modernos, poderíamos descrever essa obra original como sendo as “células tronco” do mundo.  Era uma neblina universal, que Deus em Sua infinita sabedoria e majestade há de transformar no universo que conhecemos.  Existe uma lição maravilhosa para nós sobre o poder de Deus e Sua palavra, e a natureza de Deus.  Alguns entendem uma lacuna entre 1.1 e 1.2, como se Satanás tivesse caído e destruído a criação original.  Mas Deus não teria chamado tudo “muito bom” (1.31) se isso já tivesse acontecido[10]

Espírito de Deus pairava: Já temos falado sobre a ação criativa do Espírito Santo em estudos anteriores: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jo.33.4); “Quem mediu com o seu punho as águas, e tomou a medida dos céus aos palmos, e recolheu numa medida o pó da terra e pesou os montes com pesos e os outeiros em balanças, Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro o ensinou?” (Is.40.12). Mas, ainda não falamos sobre a palavra “râchaph” que também é usada para descrever a ação preservadora de Deus (Dt.32.11). Se esse sentido é entendido aqui, temos a evidência do Espirito Santo como preservador da criação em seu estágio inicial.

B.     A Descrição da Criação

A partir do verso 3 vemos a ação de Deus em transformar o a terra de sem forma e vazia para uma terra habitável, cheia das obras da sua criação e considerada boa. Essa criação acontece em seis “dias”. A palavra hebraica usada para descrever dias é a palavra Yom e ela merece nossa atenção aqui, pois há claros indícios de que ela não faça referência a um dia de 24h como nós o conhecemos hoje. O uso desse termo não tem referências temporais claramente definidas. É por isso que o DITAT diz sobre o termos: “Esta palavra é o ‘mais importante conceito de tempo no AT, pela qual pode-se expressar tanto um instante quanto um período de tempo[11]”. A palavra Yom é usada para descrever:’

  1. Dia, período inespecífico de tempo, ano:  Ela é usada em Gn.7.4 como dia oposto de noite, o qu esugere um período menor que 24h. Em Gn.18.1 descreve um período específico do dia. Entretanto Gn.15.18 parece fazer o uso do conceito de um dia completo (24h) como conhecemos. Eventualemente o termo é usado para descrever o tempo da vida de uma pessoa (Gn.9.29) ou um período de tempo  (Gn.10.25; 14.1; 26.15). Em algumas ocasiões a questão do tempo não parece ser definida (Gn.21.34; Gn.26.8). Em algumas ocasiões ainda faz referência ao período de 365 dias (1Sm.27.7; Ex.13.10).
  2. Referências Temporais: Em Ex.2.18 vemos o termo ser usado como referência ao dia de hoje, enquanto em Ex.5.14 ele denota o sentido de ontem, ao passo que em Ex.3.18 o sentido de agora.

Em outras palavras, o que estamos dizendo é que o termo tem largas conotações no contexto do Pentateuco e não seria sábio deduzir que o objetivo do autor fosse definir em 24h aquilo que não poderia ter sido avaliado desse modo. Por isso, entendo que o uso de Yom é uma impossibilidade para se definir o tempo em 24h.

Aliás, outros usos encontrados no próprio relato da criação sugerem que o autor não tem em mente um período específico. Em Gn.1.5a observamos que o termo é usado em contraste com a luz com as trevas ao passo que na segunda parte do mesmo verso ela descreve o período que o autor chama “tarde e manhã”, que envolveria todo as atividades descritas anteriormente. Entretanto, quando chegamos a Gn.2.4, lemos: “Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus” (ARC). Nesse verso vemos que todo o processo da criação é descrito pela palavra Yom sem que isso signifique um dia de 24h. Caso essa fosse a intenção do autor haveria grande contradição em suas palavras.

Outro argumento que parece favorecer um período maior do que 24h é a descrição do que acontece no sexto período. Segundo o capítulo 2 de Gênesis, o homem é criado pessoalmente por Deus (v.7). Então Deus planta um jardim para que o homem pudesse lavrar o solo (v.8; cf. V.5). Esse jardim passa a brotar toda sorte de árvores, inclusive a árvore do bem e do mal. Posteriormente, esse homem é colocado no jardim para o guardar e cultivar (v.15). Muito embora a ordem divina de criar uma auxiliadora idônea (v.18), a criação da mulher aconteceu apenas após Adão perceber que todos os animais tinham uma companheira que lhes correspondessem (v.19-20). Esses versos é que deixam evidente que nosso querido Adão passou mais tempo do que apenas meio dia sozinho. Ele teve a incumbência de nomear TODOS os animais. Deus estava pessoalmente envolvido com o processo, mas como a expressão da Imagem de Deus no homem era o domínio sobre todas as criaturas, Deus media sua soberania ao homem dando-lhe o privilégio de nomear. O ato de dar nome, segundo a cultura hebraica, está ligado a conhecer características e então tribuir um nome que represente o objeto de observação. Se isso é verdade, e ele teve que realizar isso com TODOS os animais do campo, todas as aves dos céus, ele deve ter investido mais que 8h de uma jornada de trabalho.

Dois detalhes ainda precisam ser anunciados: (1) É válido lembrar que o sol, que é responsável por nosso dia de 24h não teria sido criado até o quarto período da criação. Ou seja, o que acontece antes dele certamente não pode ser medido do mesmo modo; (2) A expressão tarde e noite, comumente utilizada para se defender que o dia de Gênesis teria 24h está em ordem invertida, o que sugere que o autor está a usar um recurso literário para estruturar seu texto e não para descrever um período de tempo de 24h. É digno de nota que o sétimo dia também não tem qualquer descrição de tarde e noite. Isso seria uma sugestão de que tal dia não teria acabado. Essa parece ser a interpretação de o autor de Hebreus faz para o texto (Hb.4.4).

Tendo feito essa análise do termo Yom passamos em nosso estudo a considerar os “dias” em Gênesis como períodos de tempo não necessariamente especificados pelo autor. Muito embora pudessem ser dias de 24h executados pelo poder do Criador, a terminologia empregada parece não exigir isso do texto. Assim, vamos conhecer os períodos da criação.

1.         Primeiro Período (v.3-5):

Disse Deus: Um distintivo interessante nesse texto, em relação ao mitos pagão da criação, é que Deus fala e tráz a existência o que quer criar. A fala de Deus como foco do Seu poder é descrito algumas vezes no AT: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl.33.9). Essa informação é constante no relato da Criação, pois essa expressão ocorre mais nove vezes. Ressaltar o poder criativo de Deus por meio de suas ordens nos faz pensar no peso que suas palavras tem: “A sua palavra é lei[12]” – O que diz acontece, o que ordena sucede.

Haja luz e houve luz: A primeira criação divina foi a Luz. Não sabemos ao certo a que se refere essa Luz, mas temos por certo que não trata-se do sol. O relato da criação nos diz que o grande luzeiro foi criado no quarto período da criação. O que é certo é que o termo empregado para luz aqui é também utilizada para descrever o efeito do sol após criado: “para alumiarem a terra” (Gn.1.17). O que é interessante é que “o caráter primário da luz, mesmo antes do sol, é um um dos postulados da ciência moderna[13]”. Derek Kidner sugere que a Luz vem à exsitência antes do sol e permanecerá após o sol: “E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre” (Ap.22.5). Clyde prefere entender essa expressão figuradamente e  sugere que essa luz é a que reflete as palavras do Criador na criação e no cristão no decorrer da vida (cf. Clyde, pp.175). Ryrie, que preferem entendê-la literalmente, opta por entender que essa fonte de luz era o que demarcava o período de tempo antes da criação do sol, como uma fonte de luz alternativa que seria substituída pelo sol no quarto dia (cf. Charles Ryrie, Bilbia Anotada, pp.7-8) . Norman Geisler e Thomas Howe sugerem que “é possível que ele [o sol] já existisse desde o primeiro dia, tendo somente aparecido ou se feito visível (com a dissipação da neblina) no quarto dia. Vemos num dia nublado a luz, mesmo quando não nos é possível ver o sol[14]

Luz era boa: A palavra que descreve a característica da luz é tôb. É usada para descrever o que é agradável (Gn.6.2; 26.7) e certamente, nesse caso, é a demonstração do apreço que Deus tem pelo que havia acabado de criar. Essa expressão de apreço acontece mais cinco vezes no relato da criação (v.10, 12, 18, 21, 25).

2.         Segundo Período (v.6-8):

Firmamento no meio das águas: A palavra raqîa’ é a palavra que descreve a expressão portuguesa firmamento, e faz referência em algumas ocasiões ao metal martelado. Esse parece ser o sentido que Jó atribui ao termo em um contexto similar: “Ou estendeste com ele o firmamento, que é sólido como espelho [metal] fundido?” (Jó.37.18). Esse termo traz a conotação de uma substância sólida e por conta disso, “muito eruditos estão convencidos de que este versículo expressa o conceito de um Universo em três andares, comum no Oriente Próximo da antiguidade. Os antigos criam que havia três camadas de água no mundo: sob a terra, sobre a terra e acima da terra[15]”. Entretanto, o sentido figurado dessa palavra tem sido normalmente entendido aqui, e portanto, pode significar uma expansão, como é percebido em algumas traduções. No relato da criação nós encotramos esse termo como o lugar onde Deus fixa os luzeiros e as estrelas (v.14), mas onde também voam os pássaros (v.20).

Fez Deus: De modo diferente do que tinha acontecido até aqui, onde Deus fala e acontece, nesse verso Deus fala e Ele mesmo realiza. Aqui, claramente ele é o autor da ação que o verso anterior Ele havia decretado. Essa interação do Criador com a criação é interessante e esse processo de Ordenar e Realizar acontece nos versos 21 e 21. “É evidente que  através do capítulo 1 de Gênesis existe uma consistente alternação entre os relatos em que Deus fala e faz, eventualmente dando a impressão de repetição (v.11 com 12; v.14 com 16; v.24 com 25). Esse fato deve ser pesado na presença da recorrente expressão ‘e assim se fez’ (wayehî-hên), que sugere queo que Deus havia ordenado  foi realizado[16]”.

Separou as águas: Esse verso também nos diz que houve uma separação efetiva das águas: aquelas que ficaram abaixo do firmamento fazem referência aos mares e rios, enquanto aquelas que ficaram acima do firmamento se referem ás nuvens que passavam a povoar a atmosfera. É bem verdade que alguns entendem que as águas que estavam acima do firmamento como o indício de uma grande camada de vapor que poderia manter a terra em melhores condições para a manutenção da vida e por isso, as primeiras personasgens bíblicas vivessem por tanto tempo  e a quantidade de água envolvida no dilúvio (cf. Charle Ryire).

Águas sobre o firmamento: As águas que estão acima do firmamento devem ser entendidas como nuvens, pelo menos parece ter sido esse o entendimento do autor de Pv.8.28: “quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo”.

3.         Terceiro Período (v.9-13):

Águas debaixo do céu: Oceanos e rios são formados pela ordem de Deus.

No terceiro período duas ações são feitas: (1) A separação da água e da terra seca, como um ato de prepração da terra; e (2) a  produção de plantas nas partes secas, como início do enchimento. É interessante notar que nesses versos a interação em ordenar e a realização de suas ordens. No verso nove lemos: “Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar” o autor nos conta que “assim foi”; o mesmo acontece no verso 11, quando ele diz: “Produza” e o verso 12 nos brinda com a expressão: “e a terra produziu”.

E chamou Deus: Uma nova descrição da Divindade é oferecida: Ele é aquele que pode nomear. Essa autoridade de nomear a criação é de posse exclusiva de Deus: Como Criador ele tem o direito de nomear toda sua criação. Entretanto, esse poder/papel  é oferecido ao homem: Ele é quem nomeia todos os animais. A posição de domínio que Deus tem sobre sua criação é agora mediado ao homem que pode exercer essa autoridade mediada por Deus. Ele é quem desempenha o papel de dominador sobre a criação. Essa autoridade é concedida junamente com a ordem para que isso aconteça. É interessante também considerar que o homem também nomeia a mulher após ser criada (2.23).

Erva que dê semente: É interessante notar que Deus estabelece que a fertilidade das plantas fosse sua forma de manutenção da espécie: a erva verde dará semenetes que estará sobre a terra. Essa relação da Determinação Divina da fertilidade o distingue dos inúmeros deuses da fertilidade: enquanto deuses podem ter poderes ou representações de fertilidade Yahweh é o Deus que decreta a fertilidade (note que Ele a ordena aos animais –v22 – e aos homens – v28).

Segundo sua espécie: A credencial apresentada para a criação é interessantemente notável: “Nesta pequena frase a teoria de que uma espécie que está sendo desenvolvida a partir de outro é negada[17]”, pois a reprodução é claramente segundo sua espécie. O termo hebraico min só é usado no AT para descrever plantas, ou animais de acordo com sua espécie, tipo. Isso significa que “Deus enlaçou todas as criaturas numa dependência comum dos seus elementos naturais de origem, embora dando a cada uma delas o caráter distintivo de sua espécie[18]”.

4.         Quarto Período (v.14-19):

Luzeiros no firmamento dos céus: Nesse verso temos que considerar alguns detalhes importantes: (1) Se o sol e a lua não haviam sido criados, como era possível haver luz no princípio? Quando Deus criou os céus e a terra (v.1), Ele não criou o sol e a lua? Essas e outras questões são possíve aqui, e várias respostas já foram dadas para esse dilema. Algumas dessas respostas já foram apresentadas rapidamente aqui, mas vale a pena detalha-lhas um pouco mais: “Alguns intérpretes sugerem que o sol foi criado anteriormente, e subsequente a terra foi atraída à sua esfera de influência. Outros dizem que uma pesada capa de nuvens enscondia o sol de quem estivesse na terra [19]”. De modo interessante, O. Zöckler, parece ter uma opinião intermediária, observe: “O sol e a lua foram criados no princípio. A luz, obviamente, vinha do sol, mas o vapor difundia a luz. Posteriormente o sol apareceu em um céu sem nuvens[20]”. Outros entendem que Deus criou os céus e a terra no princípio, mas os céus como obra de Deus não estavam completos até o quarto período. Calvino é favorável a essa interpretação, e sobre ela dia: “O mundo não estava perfeito até esse pronunciamento, do modo que hoje o vemos, mas ele foi criado com um vácuo caótico de céu e terra”.

Entretanto, todas essas alternativas parecem falhar na leitura do verbo asah usado no verso 16: “Fez Deus os dois grandes luzeiros”. A tentativa de compreender esse texto à luz de seu contexto parece louvável, mas não podemos deixar de considerar aspectos simples do texto ao conversarmos sobre grandes teorias de criação. Uma vez que entendo que a criação do Universo foi iniciada em Gn.1.1 e que cada período parece acrescer à essa criação algo que lhe falta, não vejo dificuldades em compreender a criação dos luzeiro no quarto período da criação. A questão da luz no primeiro período deve, certamente, referir-se algo mais do que simplesmente luz no sentido de iluminação, pois os luzeiros criados no quarto período havim sido criados para esse propósito.

Dois grandes luzeiros: É interessante o fato de que Moisés aqui evita nomear os astros criados chamando-os apenas de Maior e menor. Pelas funções atribuídas a cada um deles temos por certo qual é o luzeiro a que se refere. Ao que parece, o autor está evitando nomeá-los para que não se incorra no risco de que seus leitores seguissem o que teriam aprendido no Egito sobre o sol e a lua como divindades e se curvassem ante eles em adoração. Também parece interessante que aqui vemos uma correção da cosmogonia que os israelitas pudessem ter recebido no seu período de escravidão no Egito: Ao invés de terem os luzeiros como divindades em um panteão de divindades, o sol e a luz são criação direta de Deus. A descrição de propósito da criação desses luzeiros é uma clara demonstração da correção oferecida por Deus à visão egípcia: Os luzeiros fora criados para:

  1. Fazerem entre separação entre dia e noite: aquela separação (badal) outrora realizada por Deus em Gn.1.4 entre luz e trevas é agora realizada pelo sol e a lua; talvez esse seja um indicio de que essas funções anteriormente realizadas por Deus são agora mediada à Criação de Deus.
  2. Serem sinais para as estações, para dias e anos: do mesmo modo como apenas Deus sabia e fazia as divisões entre os períodos criativos, no quarto dia vemos que a organização parece estar acrescendo à Criação funcionamento próprio. Desse ponto em diante a terra e seus habitantes poderiam perceber o tempo em função da criação dos luzeiros.
  3. Alumiarem a terra: aquela Luz criada no começo é agora atribuída ao sol, que no exercício de sua habilidade de brilhar trasmite sua luz por intermédio da luz no período da noite e cumprem o papel designado por Deus, atribuindo graça e organização à Luz e Trevas organizadas pelo Criador no primeiro período da Criação.
  4. Governarem o dia e a noite: O verbo hebraico mashal expressa o sentido de domínio, governo e é usado assim em diversas ocorrências no AT, mas é importante ressaltar que o objeto desse verbo é o dia e a noite, não os habitantes da terra. Como luzeiros, sol e lua não coordenam as estações, mas evidenciam, marcam, mostram sinais, e como tal, falam por Deus e não para o destino das pessoas.

5.         Quinto Período (v.20-23):

Povoem-se as águas (…) Voem as aves: A criação dos animais é divida em dois períodos: as aves e peixes no quinto período e os animais selváticos no sexto. Nesse momento, Deus parece estar preenchendo os céus que havia criado do mesmo modo que o faz com os mares. “As águas reunidos em um só lugar, as águas do oceano, e aqueles em rios, piscinas e lagos, e que, antes de sua coleção para esses lugares, foi sentado, movido, e impregnada pelo Espírito de Deus, de modo que eles poderiam, como fizeram, pela ordem divina acompanhado com seu poder, levar adiante a abundância de criaturas[21]”.

A questão que parece ficar aqui, é: Qual é a razão de Deus criar em primeiro lugar os peixes e as aves e então os animais? Eu tenho entendido essa ordem como uma demonstração da organização de Deus e de uma simetria para a Criação, conforme demonstra à frente. Keil e Delitzsch entedem que “A verdadeira razão é bastante presente, que a criação prossegue ao longo da parte inferior para o superior, e nesta escala ascendente dos peixes ocupam, em grande medida um lugar mais baixo na economia animal de aves e animais de água e de aves de um lugar mais baixo de animais terrestres, mais especialmente os mamíferos. Novamente, não se afirma que apenas um único par foi criado de cada tipo, pelo contrário, as palavras, “vamos Produzam as águas de seres vivos”, mais parecem indicar que os animais foram criados, não só em uma rica variedade de gêneros e espécies, mas em grande número de indivíduos[22]”.

Criou Deus: É interessante perceber que a cada novo estágio na descrição da criação é marcada pelo uso de bära’: o universo é bära’ (1:1), posteriormente os seres vivos são bära’ (1:21), e finamente o homem e a mulher são bära’ (1:26). Albert Barnes entende que “na escolha de palavras diferentes para expressar a operação divina, duas considerações parecem ter guiado pena do autor – variedade e adequação de dicção. A diversidade de palavras que parece indicar uma diversidade no modo de exercer o poder divino[23]”.

Grandes baleias: Embora esta expressão é geralmente entendida pelas diferentes versões como baleias, o significando original, no entanto, deve ser entendido de modo geral e não específico, ou seja, uam referência a todos os grandes animais aquáticos. A expressão também já foi entendida como grandes monstros pelo fato de a expressão ser usada em outros lugares como descrição de outros animais (Ex.7.9 – serpente; Jo.7.12 – monstro marinho; Jo.30.29 – chacais). É bem verdade que aqui o autor tem uma visão mais genérica, e  portanto, animais marinhos parece uma boa interpretação dessa expressão.

Deus os abençoou: Essa é uma nova descrição no relato da criação: Pela primeira vez Deus abençoa sua criação. Anteriormente, Sua palavra já tinha sido levado à cabo no desenvolvimento da terra e do reino vegetal, mas agora Deus dirige Sua atenção aos animais que criou: Ele deseja que sejam fecundos. Enquanto digindades pagãs representavam a fecundidade, Yahweh é o Deus que ordena e coordena a fecundadide. Matthew Henry, sobre isso diz: “O poder da providência de Deus preserva todas as coisas, do mesmo modo como primeiramente o seu poder de criar produziu. Fecundidade é o efeito da bênção de Deus e deve ser atribuída a ele, a multiplicação dos peixes e aves, de ano para ano, ainda é o fruto dessa bênção[24]”. É interessante notar que essa bênção parece nos colocar diante de um novo patamar da Criação. Do mesmo modo que a terminologia parece sugerir algo especial para a ocasião, a benção de Deus parece confimar esse fato. Barnes sobre isso diz: “Somos levados para uma nova esfera de criação, neste dia, e nos deparamos com uma nova lei do Todo Poderoso. Abençoar é desejar, e, no caso de Deus, é querer algo de bom para o objeto da bênção. A bênção aqui pronunciada sobre os peixes e as aves é o de aumentar a abundante[25]”.

6.         Período Período (v.24-31):

Produza a terra seres viventes: Adam Clark entende que a expressão nephesh chaiyah é “um termo geral para expressar todos os seres dotados de vida animal, em qualquer de suas gradações infinitamente variados[26]”. A multiplicidade de seres vivos aqui é apresentada na criação, como proveniente da terra, não que ela tivesse o poder em si mesma para realzar esse feito, mas que por intermédio da ordem de Deus, da terra os animais foram produzidos. É por isso que Gill diz: “sem dúvida que foi pelo poder do Deus que acompanha a sua palavra, que essas criaturas foram produzidos da terra, e formado em suas várias formas[27]”.

Segundo a sua espécie: Para Keil e Delitzsch “isso se refere a todas as três classes de seres vivos, cada qual com sua espécie peculiar, conseqüentemente, na Gen 1: 25, onde a palavra de Deus é cumprida, é repetido com cada classe. Este ato de criação, também, como todos os que o precedem, é apresentado pela palavra divina “bom” para estar em conformidade com a vontade de Deus[28]

Façamos o homem: A primeira observação que devemos fazer aqui é que no sexto dia Deus tanto ordena e as coisas acontecem quanto ele mesmo se ocupa em realizar. No caso dos animais, ele ordena e assim se faz, contudo, no que se refere ao homem Ele apresenta o plano e executa pessoalmente: “Façamos o homem” e “Criou, pois Deus”. Sobre isso, Keil e Delitzsch  afirmam que “a criação do homem não se realiza através de uma palavra dirigida por Deus para a terra, mas como o resultado do decreto divino, “Vamos fazer o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, que anuncia logo no início da distinção e preeminência do homem acima de todas as outras criaturas da terra[29]”.  O homem é criado no mesmo dia que os animais, divide com eles o cenário da criação, provém do pó da terra do mesmo modo, mas “o apogeu de sua glória é sua relação com Deus[30]”: Ele é criado à imagem de Deus.

Nossa Imagem e Semelhança: As palavras hebraicas de Gênesis 1.26,27 são tselem e demuth, o equivalente às palavras gregas eikon e homoiosis. Tselem significa imagem moldada, uma figura moldada, imagem no sentido concreto da palavra (2Rs.11.18; Ez.23.14; Am.5.26). Já demuth também se refere à idéia de similaridade, mas num aspecto mais abstrato ou idealístico. Embora durante muito tempo se tentou diferenciar as palavras, nos relatos bíblicos as palavras imagem e semelhança são empregadas como sinônimos. Em Gn.1.26 são empregada as duas palavras, mas no v.27 apenas a primeira delas. Em Gn.5.1 só ocorre a palavra semelhança e no v.3 ambas novamente. Porém em Gn.9.6 aparece apenas a palavra imagem. Ou seja, são utilizadas em Gênesis de maneira intercambiável. Outro detalhe importante é que, até mesmo as preposições utilizadas são igualmente intercambiáveis (cf. Gn.1.26,27 e 5.1-3).

Ou seja, não parece sensato ficar buscando definições exaustivas para os termos, mas podemos certamente concordar com Addison Leitch quando diz: “o autor bíblico parece estar tentando expressar uma idéia muito difícil, na qual deseja deixar claro que o homem, de alguma maneira, é o reflexo concreto de Deus[31]”..

O que é certo sobre essa Criação é que esse reflexo concreto  inclui:

  1. Sua Justiça original: A imagem de Deus, na qual foi criado o homem, certamente inclui o que normalmente se denomina “justiça original”. Esse termo diz respeito a condição do homem, que foi criado sem pecado. Esse fato tem grande respaldo escriturístico. Em Eclesiastes lemos “que Deus fez o homem reto” (Ec.7.29) e por isso entendemos que “a criação do homem segundo esta imagem moral implica que a condição original do homem era de santidade positiva, e não um estado de inocência ou de neutralidade moral[32]”.
  2. Sua Constituição Natural: Não há dúvidas que o fato do homem ser criado segundo a Imagem de Deus implica que até mesmo os aspectos mais naturais do homem derivem de Dele. Ou seja, as faculdades intelectuais, sentimentos naturais, liberdade moral e a volição, no homem são reflexos do que Deus é em primeiro lugar. Por ser criado a Imagem de Deus o homem dispõe de uma capacidade moral e racional. Essas capacidades asseguram a condição de homem ao ser humano, e é impossível que participe dessa condição sem a presença dessas dádivas.
  3. Sua Constituição Espiritual: É natural esperar que o homem sendo criado a imagem de Deus desfrute de uma condição espiritual, pois “Deus é espírito” (Jo.4.24). E não é difícil observar esse fato, pois mesmo na narrativa da criação podemos encontrar dados referentes a esse fato: “…lhes soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn.2.7) Dois fatos podem ser ressaltados e considerados importantes nesta questão, (1) a vida do homem só foi possível após o sopro de vida da parte de Deus, sendo considerado como o princípio da vida do homem e (2) a expressão “alma vivente” é considerada condição de sua vida.

Em outras palavras, estamos dizendo que:

Tudo o que torna possível um ser autoconsciente, incluindo os aspectos materiais e imateriais do homem indica que o arquétipo do homem é o Deus trino e que nossos atributos refletem, ainda que imperfeitamente, o caráter de Deus. Também indica que o homem não é um ser autônomo, mas tem sua própria existência em dependência dAquele que o criou. Já o  aspecto físico do homem reflete o plano original de Deus de encarnar-se para a redenção da humanidade.

Aqui ainda cabe uma pergunta: Se a palavra Deus (elohîm) é um título e por isso pode governar verbo no singular, por que nesse verso vemos os verbos no Plural? Muitas propostas tem sido feitas para compreender esse dilema: (1) Alguns tem entendido que o plural  aqui é uma referência aos anjos, uma vez que também são chamados nas escrituras de elohîm (Philo de Alexandria). Entretanto esse posição é completamente conflitante com passagens como Gn.2.7; 2.22 e Is.40.13, entre várias outras. Sem contar que isso implicaria em dizer que o homem teria sido criado à imagem dos anjos também, o que cria irreparáveis dificuldades com Sl.8; Gn.1.27 e 5.1. (2) outros entendem como um plural majestático, similar ao que vemos no relato . (3) Outros entendem como uma referência direta à Trindade, uma vez que o NT é claro em mostar que Cristo é efetivo na Criação (Jo.1.1-3) e que o Espírito de Deus está ativo no mesmo cenário (Gn.1.2). Kevan é partidária dessa visão, e por isso mesmo diz: “É a Trindade quem delibera, sem qualqer intervenção ou consulta feita aos anjos[33]”.

Entranto, é válido demonstrar que a ortodoxia cristã navega entre a segunda e a terceira opção. Geisler deixa isso claro quando diz que “o plural da palavra hebraica propicia um sentido mais abrangente, mais majestático ao nome de Deus. Convém observar, entretanto, que o NT ensina com clareza que Deus é uma Trindade (Mt.3.16-17; 2Co.13.13; 1Pe.1.2)e, embora a doutrina da Trindade não seja claramente desenvolvida no AT, ela é vislumbrda em muitas passagens (Sl.110.1; Is.63.7, 9-10; Pv.30.4)[34]”. Kidner parece esboçar a mesma opinião, pois para ele é “esta plenitude, vislumbrada no VT, [que] haveria de ser revelada como tri-unidade, nos posteriores ‘nós’ e ‘nossa’ de Jo.14.23 (com 14.17)[35]”. É bem verdade que, diante do desenvolvimento do monoteísmo judaico, o plural aqui é uma referêcia à majestade de Deus. Mas, como o NT lança maiores luzes ao que se passa aqui, podemos assumir com tranquilidade que uma referência à Trindade é realizada aqui. Essa fato poderia ser observado pelo fato que a partir do verso 27 o termo elohîm coordena verbos no singular novamente (v.27 criou; 28 abençoou; 29 disse). Essa singularidade plural é uma pequena evidência da Triunidade tão claramente exposta no NT.

Deus os abençoou: A ordem de fertilidade dada por Deus aqui é em muito similar àquela já dada aos peixes e aves anteriormente. Entretanto, um aspecto dessa bênção só é aplicável ao homem: “sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra” (Gn.1.28). Essa bênção está em conformidade com o Ele mesmo havia prometido fazer no verso 26. Esse domínio é uma pressuposição de poder outorgado por Deus para o homem de modo que ele é seu representante sobre toda a criação. Essa é a opinião de Barnes: “A bênção divina é agora pronunciado sobre o homem. Ela difere da dos animais inferiores, principalmente no elemento de supremacia. Presume-se que o poder pertence a natureza do homem, segundo o conselho da vontade do Criador (Gn.1.26[36])”.

Entretanto, esse ato de abençoar não foi apenas um ato de “conferir uma dádiva, mas também uma função (cf. 1.21; 2.3), e fazê-lo com ardoso interesse[37]”. Esse conceito exposto por Kdner nos faz pensar que Deus ao criar o homem lhe atribui, não apenas a distinção das outras criaturas, por exercer uma função de domínio sobre elas, mas por exercer uma função em similaridade com Deus: Ele é o Soberano, mas divide Seu domínio com o ser humano. Note que em todos os estágios da criação o Criador nomeou o que fizera, entretanto, notamos que no sexto dia até mesmo essa atividade foi outorgada ao homem (Gn.2.19-20). Essa mediação de autoridade de domínio é uma expressão da Imagem de Deus, a qual o homem foi criado. Sobre isso, Sailhamer diz: “o propósito do autor não parece meramente marcar o homem como diferente do resto da criação’a narrativa parce intencionar demonstrar que o homem é semelhante a Deus: (…) O homem é uma criatura, mas uma criatura especial: Ele é feito à imagem e semelhança de Deus[38]”.

Viu Deus tudo quanto fizer e eis que era muito bom: Tudo operava conforme o plano divino! Tudo glorificava a Deus conforme sua própria esfera de criação. As máquinas de cada átomo funcionavam direitinho.  O mar, a terra, as plantas, as aves, os animais, tudo em sua esfera trazia glória a Deus. O homem ocupava seu devido lugar como vice-regente e imagem de Deus.  Harmonia.  Paz.  Beleza.  Perfeição.  Glória[39]”. “Se cada pormenor da Sua obra foi declarado ‘bom’ (4, 10, 12, 18, 21, 25) o conjunto todo é muito bom[40]”.

7.         Sétimo Período e Aplicação:

Foram acabados o céu e a terra: Trouxe para a conclusão. Nenhuma mudança permanente desde então tem sido feita no curso do mundo, não houve novas espécies de animais foram formadas, nenhuma lei da natureza revogada ou adicionada. Elas poderiam ter sido concluídas em um momento bem como em seis dias, mas o trabalho de criação foi gradual para a instrução do homem[41]”. “Aperfeiçoada e completada no espaço de seis dias, aos poucos, sucessivamente, na forma antes relacionados; pela palavra e poder de Deus que foram no primeiro dia criado do nada, mas eles não foram aperfeiçoados, embelezada, e adornada, e preenchida, até que todas as criaturas foram feitas[42]

Descançou nesse dia: Descanço aqui não é uma referência a um estado de repouso inerte, mas de deleite com as obras de Suas mãos. A impressão que temos nesse texto é que Deus agora inicia a obra da preservação (At.17). O uso que Jesus faz do sábado dá a entender que Ele entendia que Deus ainda trabalha (Jo.5.17). O autor de Hebreus (H.b.4.1-7)entende que esse descanço fala mais do que um estágio de deleite e desfrute divino de Suas Obras, mas fala da esfera de vida que Deus vive. Por isso, Von Rad diz que Deus “não o considera como algo para Deus somente, mas como algo que interessa ao mundo. Portanto, está sendo preparado o caminho para o bem final, o bem salvífico[43]”.

8.         Simetria da Criação:

Um dos detalhes dessa criação que ainda merece nossa atenção é o fato de que Deus exerceu Sua obra da Criação com perfeita simetria, observe o quadro abaixo:

Sem Forma Transformado em Forma Vazio Transformado em Habitação
v. 3-5 1º Período Luz v. 14-19 4º Período Luminares (sol, luz, estrelas)
v. 6-8 2º Período Céu (espaço superior)

Mar (espaço inferior)

v. 20-23 5º Período Peixes e Pássaros
v. 9-13 3º Período Terra Fértil

Plantas terrestres

v. 24-31 6º Período Animais e Homem
7 º Período – DESCANÇO: E era muito bom

Ao observar essa simetria Bob Deffinbaug diz: “Duas outras observações devem ser feitas. Primeiro, há uma seqüência nos seis dias. Fica claro que este relato está disposto cronologicamente, cada dia edificado sobre a atividade criativa dos dias anteriores. Segundo, há um processo envolvido na criação, um processo envolvendo a transformação do caos no cosmos, a desordem na ordem[44]”. Muito embora o autor prefira entender o texto como um relato de seis dias e não períodos, vemos que há solidez em sua observação.

C.     Aplicação

Diante dessa breve exposição da Criação, nós cristãos devemos chegar a dois reconhecimentos: (1) Nesse relato reconhecemos que Deus é; (2) e também reconhecemos quem nós somos. Esses dois reconhecimentos básicos devem nos levar ao espírito verdadeiro de adoração a esse Deus por quem Ele é, o que Faz e como nos privilegia com a possibilidade de um relacionamento com Ele.

1.         Reconhecimentos a respeito de Deus:

  1. O Poder da Palavra de Deus: O poder de Deus é claramente observado nesse trecho, “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl.33.9). Deus é o Deus cuja palavra é capaz de criar, cujas ordens são recebidas e concretizadas por toda criação.
  2. O Caráter de Deus: Em poucas ocasiões o caráter desse Deus é exposto, mas as expressões “bom” e “muito bom” descrevem o caráter de Deus que transformou aquilo que era sem forma e vazio em formatado e completo: Deus é um Deus que realiza suas obras por completo. É essa certeza que nos garante a salvação eterna: “estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fl.1.16).
  3. A Legislação de Deus: A quantidade de ordens realizadas por Deus nesse texto nos remete ao fato de que esse Deus é um Deus que estabelece Leis que se seguem por toda a existência da Criação: “Sejam férteis, multipliquem-se” são pequenos exemplos das Leis Universais que nosso Criador estabeleceu para o mundo. Isso é um indício de que esse Deus, além de demonstrar-se Criativo e Inteligente no exercício do Seu poder, também irá demonstrar Seu caráter no estabelecimento de suas Leis.

2.         Reconhecimentos a nosso próprio respeito:

Considerar quem Deus é nos faz pensar melhor sobre quem nós somos:

  1. Nós lhe devemos obediência: Na criação, Deus ordena e tudo lhe obedece. Nada lhe foge o poder da palavra. A história do homem é clara em demonstrar que a obediência a Deus é muito mais benéfica ao homem do que seguir suas próprias intenções.
  2. Nós lhe devemos adoração: “A grandeza de Deus é evidente nas obras de suas mãos – a criação que está ao nosso redor. Os homens deveriam temê-Lo e reverenciá-Lo por Quem Ele é[45]”. O salmista capta esse fato quando diz: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste,  que é o homem, que dele te lembres E o filho do homem, que o visites?” (Sl.8.3-4).

[1] MACKINTOSH, Charles Henry., Estudos sobre o livro de Gênesis. pp.5.

[2] Cf. Salmo 19.14

[3] KIDNER, Derek, Gênesis, Introdução e Comentário. pp.41.

[4] A Septuaginta nos brinda aqui com uma tradução que merece ser lembrada pela conexão que faz com Jo.1.1:  “Ἐν ἀρχῇ  ἐποίησεν θες”. A similaridade entre a versão da Septuaginta (LXX) de Gn.1.1 e o texto de Jo.1.1 (᾿Εν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος) nos remete com mais segurança ao fato de que o texto está a falar no princípio da criação, onde somente a Trindade existia.

[5] A clara dicotomia entre a pessoa de Deus e sua função como Deus é vista em Ex.20.7: “Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”.  Novamente, o termo Senhor em caixa alta é o Tetragrama (YHWH – Iahweh) enquanto a palavra Deus é a palavra elöhîm. O que se tem por certo, é que a Pessoa de Deus, reconhecida como Iahweh, é o único Deus verdadeiro, mas a expressão elöhîm pode tanto falar dele como Pessoa ou como Função ou Título. É o que observamos em Dt.4.35: “A ti te foi mostrado para que soubesses que o SENHOR é Deus; nenhum outro há senão ele”. Nesse caso a Pessoa de Iahweh é descrita como sendo Deus (sua função). A distinção entre Pessoa e Cargo é bem observado pelas palavras hebraicas e nos oferece uma clara leitura sobre quem estamos estudando.

[6] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[7] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.20.

[8] ex. Atribui a narrativa de Gênesis ao editor Sacerdotal.

[9] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.173.

[10] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[11] Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, pp.604

[12] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.175.

[13] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.83.

[14] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Pp.34.

[15] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.176.

[16] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.29.

[17] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[18] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.45.

[19] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.176-7.

[20] ZÖCKLER, O., Schoöpfung – Real Encyklopädie für prtestantische Theologie und Kirche, pp.735-36. IN: SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.33.

[21] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[22] KEIL, Johann, DELITZSCH, Franz, Commentary on the Old Testament.

[23] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[24] HENRY, Matthew, Commentary on the Whole Bible.

[25] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[26] CLARK, Adam, Commentary on the Bible.

[27] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[28] KEIL, Johann, DELITZSCH, Franz, Commentary on the Old Testament.

[29] Idem.

[30] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.45.

[31] [31] LEITCH, Addison. Image of God. In: RYRIE, Charles. Teologia Básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp. 218

[32] BERKHOF, Louis, pp. 189

[33] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.84.

[34] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Pp.35.

[35] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.49.

[36] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[37] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.49.

[38] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.37.

[39] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[40] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.50.

[41] JAMIESON, Robert, FAUSSET, A. R., BROWN, David , A Commentary on the Old and New Testaments.

[42] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[43] RAD, Von, Genesis. Pp.60 IN: KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.50-1.

[44] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens and the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[45] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens and the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

10.19.09

O Dilema da Criação

Enviado em Gênesis tagged , , , às 3:37 pm por Marcelo Berti

Estudar o início do livro de Gênesis certamente exige de nós conhecimento: Muitas são as teorias que tentam compreender o que se passa nos primeiros versos de Gênesis. Alguns o entendem como uma poesia; outros preferem encontrar nele um relato apologético das origens do mundo; outros associam suas crenças científicas ao relato enquanto outros ainda preferem identificar nesse um relato inspirado por Deus de acordo com o conhecimento de Moisés, seu agente intermediário.

É bem verdade que todos os que se aproximam do texto tentam verificar-lhe a beleza e veracidade, entretanto, por não poderem equalizar ambas as características teorizam para harmonizar suas crenças com as escrituras que defendem. De fato, não existe um manual inspirado por Deus que defina como o texto deve ser lido, mas há certamente algumas observações de natureza hermeneutica e histórica que poderiam nos auxiliar a observar o texto sem violar-lhe a beleza e veracidade:

  1. Gênesis 1 não é uma poesia hebraica: A poesia hebraica tal como vista nos livros poéticos do antigo testamento tem forma e métrica extremamente oposta àquela encotrada aqui. Enquanto os paralelos hebraicos (Pv.10.27), suas rimas ideológicas (Pv.16.4) fazem parte da poesia hebraica, Gênesis apresenta-se com um texto lógico e estruturado historicamente.
  2. Gênesis 1 não é um tratado primariamente apologético: Um dos frequêntes equívocos que se comete ao ler Gênesis 1 é entende-lo como primariamente apologético. Muito embora, Gênesis 1 tenha grande valor apologético, esse não parece o propósito do autor do relato, nem mesmo a compreensão dos seus primeiros leitores: Gênesis foi escrito para o povo de Deus, não para os infiéis. “Aqueles que se recusam a aceitar o criacionismo não o fazem por falta de provas (Rm.1.18ss), ou por causa do seu grand econhecimento (Sl.14.1), mas por falta de fé (Hb.11.3). Gênesis é mais uma declaração que uma defesa[1]”.
  3. Gênesis 1 não é um tratado científico: Ainda que o Deus revelado nas escritas é o mesmo que se revela na natureza e que Sua Auto-revelação não é contraditória, Deus revelou-se a Moisés (ou a outras pessoas antes dele que preservaram sua declaração oralmente) de modo que pudesse ser compreendido corretamente diante do conhecimento que ele dispunha. Não faria sentido para Deus manifestar-se a Moisés de acordo com o conhecimento científico de nossa era, pois seus leitores primários seriam incapazes de compreendê-lo. Portanto, ainda que o valor científico desse relato ainda seja fundamental para a apologética cristã, esse não é o caráter fundamental desse texto.
  4. Gênesis 1 é o relato inspirado por Deus para revelar-se ao Seu povo: Eventualemente a falta de atenção ao contexto histórico de Gênesis nos força a compreender o texto for a de sua origem: Aqueles que saíam do Egito, certamente precisavam conhecer o Deus que os retirava da escravidão. O Grande “Eu Sou” também é o criador e originador de todas as coisas, povos e culturas, e precisava ser conhecido mais amplamente.

A verdade sobre Gênsis 1 é que o dilema normalmente é visto do ponto de vista errado. B.B. Warfield provavelmente está certo quando diz:

Uma janela de vidro está diante de nós. Levantamos os olhos e vemos o vidro; notamos sua qualidade, observamos seus defeitos e especulamos sobre sua composição. Ou olhamos através dele na perspectiva de ver além terra, céu e mar. Da mesma forma, há duas maneiras de se olhar o mundo. Podemos ver o mundo e ficar absorvidos pelas maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar diretamente através do mundo e ver Deus por detrás dele. Essa é a maneira religiosa. A maneira científica de olhar para o mundo não é mais errada do que a maneira do fabricante do vidro olhar a janela. Essa maneira de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada não para ser observada, mas para observarmos através dela, e o mundo falha em seu propósito a menos que também olhemos através dele e os olhos repousem não nele mas no Deus que o fez[2]”

O que podemos dizer com certeza é que o relato de Gênesis não foi escrito para o fabricante de vidros, mas para pessoas como nós que param diante da janela e adimiram a paisagem d’além dela. Gênesis foi escrito para que as pessoas pudessem olhar Deus por detras do universo e ser admirado como tal.

A. Visões sobre a Criação

Como já sabemos, muitas visões são oferecidas para o relato de Gênesis, por isso abaixo transcrevo o sumário oferecido por Keith Krell[3], como algumas adaptações, sobre as opções de abordagem do relato de Gênesis:

1. Criacionismo Científico:

Defensores da criação da Terra jovem acreditam que Deus criou a terra em seis dias literais, e que todo o universo é de aproximadamente 10.000 anos de idade. Acredita-se também que a maioria dos fósseis foram formados durante o dilúvio de Noé, que eles vêem como uma catástrofe mundial (Gn 6:17; 7:21-23). Criacionistas aplicar os seus métodos científicos para a conta de inundações em Gênesis 6-9 e estão convencidos de que a atual condição da terra, que dá a aparência de ser muito mais velha, reflete a catastrófica destruição causada pelo dilúvio de Noé. Proponentes: Henry Morris, Duane Gish e Adauto Lourenço. Sugiro a leitura do livro “Onde tudo começou” de Adauto Lourenço como referência para esse grupo.

2. Criacionismo histórico:

Deus criou o universo durante um tempo indeterminado, que o autor chama “o princípio” (Gn 1:1). Esse “princípio” não foi uma questão de tempo, mas um período de tempo, com toda a probabilidade de um longo período de tempo. Após esse período de tempo, Deus passou a preparar a terra “como um lugar para os seres humanos a habitar”. Essa visão compreende 1:2-2:4 como uma descrição da preparação de Deus do Jardim do Éden, ou mais especificamente, a Terra Prometida. Proponente: John Sailhamer. Sugiro a leitura de “Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account ” de John Sailhamer.

3. A Teoria do Intervalo:

Defensores do que é chamado a teoria do intervalo acreditam que Gênesis 1:1 fala de uma criação inicial, seguido por um período de tempo extremamente longo. A maioria dos organismos que agora encontrar no registro fóssil viveu durante esse tempo. Segundo a teoria do Intervalo, Gênesis 1:2 descreve um momento da morte e ruína, causado por Satanás, quando Deus expulsou-o para a terra. O restante de Gênesis 1 descreve como o Senhor restaurou a criação em seis dias literais. Embora essa visão permita que se veja Gênesis como história factual, enquanto ainda acreditar em uma terra antiga, a Escritura não parece mostrar grande apoio. Em nenhum lugar da Bíblia mencionar diretamente tal lacuna ou qualquer destruição universal causada por Satanás. Além do mais, outras passagens (como Êxodo 20:11) referem explicitamente a seis dias da criação, não re-criação. Proponentes: C.I. Scofield, Merrill Unger, MR DeHaan, e J. Vernon McGee. Esta visão não é muito difundida hoje. Sugiro a leitura da “Bíblia em ordem cronológica”, organizada por Edward Reese e Frank Klassen.

4. Criacionismo Progressivo:

Os defensores desta posição de dia-era acreditam que o dia em Gênesis 1 não se referem a seis períodos literais de 24 horas, mas a seis períodos indefinidamente longos séculos. Acredita-se que o universo tem entre oito a desesseis bilhões de anos e que a vida começou na Terra há 3,5 bilhões de anos atrás. Criacionistas Progressivos salientam que a palavra hebraica para dia (yom) é usado em três diferentes maneiras na narrativa da criação (1:4-5; 2:4). Nesses três versos, yom é usado para descrever um período de 12 horas, um período de 24 horas, e durante todo o período de criação. Criacionistas Progressivos também citam o Salmo 90:4 e 2 Pedro 3:8 como prova de que “dias” no calendário de Deus são muito mais do que os nossos dias. Proponentes: Hugh Ross, Gleason Archer, e Millard Erickson. Sugiro a leitura do livro “The Genesis question” escrito por Hugh Ross.

5. Evolução Teísta:

Defensores da evolução teísta ensinam que as plantas, animais e homem evoluiram gradualmente a partir de formas inferiores, mas que Deus supervisionou o processo. Enquanto os criacionistas da Terra-jovem e Terra-velha acreditam que Deus criou formas de vida, por ordem divina, os evolucionistas teístas acreditam que Deus usou a evolução, ou algo semelhante, para fazer parte de sua obra. A maioria dos evolucionistas teístas tem dificuldades em passagens como Gênesis 1:1-1:24 por argumentar que Deus criou formas vivas indiretamente, usando as leis da natureza. Por sua própria confissão, evolucionistas teístas tem uma abordagem poética ou alegórica na interpretação de Gênesis 1:1-2:4. Proponentes: C. S. Lewis, Howard Van Till e Francis Collins. Sugiro a leitura do livro “A Linguagem de Deus” de Francis Collins.

6. Design Inteligente:

Uma nova escola de pensamento está a evoluir (desculpem o trocadilho). É conhecido como o movimento do “design inteligente”. Aqueles que defendem este ponto de vista são geralmente agnósticos (e até mesmo ex-ateus), que agora acreditam que, com toda probabilidade, não há um designer inteligente por trás da criação. Eles podem não saber quem ele é, mas eles são menos dispostos a admitir que os evangélicos têm acreditado o tempo todo. Esse movimento realmente arrancou em 1996 com o livro, Darwin’s Black Box: The Biochemical Challenge to Evolution por Michael Behe (bioquímico de um católico na Lehigh University).

B. Contexto histórico do Relato da Criação

Uma das convicções que temos por certeza é que Deus sempre fala com homens selecioandos por Ele, em ocasiões específicas e com propósitos definidos. Ao que sabemos de Deus, temos por claro o testumunho das escrituras que Ele não manifesta sua Auto-Revelação sem que um Propósito específico tenha sido almejado (Ef.1.11). Assim, devemos tratar o início de Gênesis desse modo: Deus em sua Soberania e Graça deu aos antigos israelitas uma declaração de quem Ele é por meio do relato da criação.

Por meio da arqueologia, também sabemos que o relato da criação encontrado em Gênesis não é único nem mesmo o primeiro dos relatos conhecidos: Os egípcios tinham diversos mitos sobre a criação do universo e do homem. Em função de esses relatos serem anteriores ao relato bíblico, não poucos estudiosos se propuseram a estudá-los. Muitos desses, entendem que esses mitos egípcios tem grandes relações com o relato mosaico.

No livro Caos and Creation, Watke sugere algumas similaridades entre os mitos e informações encontradas nas escrituras. Segundo ele, o Sl.74.13-14 tem claras similaridades com o Texto Ugarítico 67:I.1-3; 27-30:

“Salmo 74:13-14 “Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste a cabeça do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto.” Texto 67: I . 1-3, 27-30: “Quando esmagaste Lotan (Leviathan) o diabólico dragão, também destruíste o dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças…[4]”

A relação entre os textos mencionados acima (vale lembrar que não são so únicos) devem ser entendidos á luz da cronologia da revelação, até por que sabe-se que existe grande distância entre os relatos de tal forma que podem nem ser relacionados. É por isso que alguns tem sugerido que a cosmologia hebraica é uma adaptação desmitologizada das antigas cosmologias e por isso, são equivalentes ou de mesmo valor. Contudo, considerando sobre essas similaridades, Bob Deffinbaug diz:

A explicação mais aceitável é que as semelhanças são explicadas pelo fato de que todos os relatos similares da criação tentam explicar os mesmos fenômenos[5].

A idéia de que a similaridades apontam para uma verdade observada de pontos de vista e opiniões culturais diferentes é interessante: Não há a necessidade de que todas as variantes sejam falsas, apenas progressões de um conhecimento antigo que YHWH resolveu deixar explícita ao revelar-se a Moisés. É bem possível que o conhecimento mais antigo do relato da criação houvesse sido distorcido a tal ponto que perdesse sua originalidade e veracidade. Contudo, YHWH salvaguardou de modo coerente com o contexto histórico do Seu Povo quando deu a conhecer de Moisés Sua visào da criação. Sobre esse assunto, Merril Unger diz:

“Muito cedo os povos se desviaram daquelas primeiras tradições da raça humana, e em climas e temperaturas variadas, têm-nas modificado de acordo com sua religião e modo de pensar. As modificações com o tempo resultaram na corrupção da tradição pura e original. O relato de Gênesis não é o único inalterado, mas em qualquer lugar sustenta a inerrante impressão da inspiração divina quando comparado às extravagâncias e corrupções de outros relatos. A narrativa bíblica, podemos concluir, representa a forma original que deve ter sido assumida por essas tradições.”[6]

É também salutar dizer aqui, que a despeito de alguns similaridades linguisticas ou situacionais, o relato de Gênesis tem em grande parte material único, apenas encontrado na Auto-Revelação de YHWH. Considerando sobre as diferenças entre os relatos, Derek Kidner diz:

“A versão mais completa que existe do Épico de Atrahasis, de mais de 1200 versos, liga os dois acontecimentos [criação e dilúvio] numa só história contínua que nos dá uma espécie de paralelo de [Gn.] 1-8. Mas, ao terminarem esses poemas, Gênesis mal está começando. A narrativa deste começa num ponto bem anterior ao daqueles (visto que, neles, as águas, personifcadas, são o princípio, e os deuses que a dominavam são apenas seus produtos) e só termina quando a igreja do Antigo Testamento já está firmemente alicerçada e quatro gerações de patriarcas tinham tido vida momentosa no cenário de duas civilizações diferentes [7]”

Contudo, é ainda interessante investiagar um pouco mais sobre o assunto para demonstrar a clara distinção que existe entre os relatos culturais anteriores ao relato de Gênesis e sua superioridade em relação a eles.

C. Breve sumário das Cosmologias Egípcias[8]

As crenças egípcia e conceitos de criação aparecem em várias fontes: Textos em pirâmides, Textos em caixões, no Livro dos Mortes, Na Teologia Mephita, bem como em vários hinos. Essas fontes mostram que a cosmologia egípcia é ao mesmo tempo uniformes e diversa. Embora existam cerca de uma dúzia de mitos de criação egípcia, as três mais ifluentes surgiram nos locais de culto de Heliópolis, Memphis, e Hermopolis. Estes três interligam-se com um outro, como evidenciado pelo surgimento de alguns dos deuses em mais de uma tradição. A cosmogonia de Heliópolis e Memphis partilham mais em comum com um outro que com Hermopolis. No entanto, todos eles apresentam os conceitos similares de um oceano primordial, uma colina primordial, ea deificação de natureza. Estas três cosmogonias lidam especificamente com a forma como os deuses criaram o mundo. Eles não tratam diretamente da criação dos seres humanos e dos animais. “As primeiras cosmogonias registados parecem mais preocupados com a origem do mundo do que com a criação de homem ou dos animais [9]“. Abaixo apresentamos as três principais cosmologias egípcias.

1. Heliópolis:

Textos da Pirâmide de Hiliópolis contêm as expressões mais antiga da cosmogônia egípcaia. Os Sacerdotes do Templo em Heliópolis gravaram textos em hieróglifos dentro das pirâmides do Unis, Teti, Pepi I, Merenre I, II11 Pepi (reis das dinastias 5 e 6, aprox. 2375-2184 a.C.). A partir destes textos vem o conhecimento da cosmogonia de Heliópolis. Em Heliópolis, nove deuses constituem as funções do Grande Ennead (lit. nove deuses). Atum funciona como o Deus Criador, de quem os outros oito deuses são originados. O texto piramidal 1655 enumera os deuses do Grande Ennead e reconhece Atum como o pai dos outros oito. Nele lê-se:

Ó Grande Ennead você está no Ön (Heliópolis), (a saber) Atum, Shu, Tefēnet, Geb, Nut, Osíris, Isis, Seth e Néftis, ó filhos de Atum, prolonguem a sua boa vontade para com seu filho em seu nome de Nove Arcos [10]“.

Atum primeiro surge a partir das águas primordiais (personificada como Nun) de que também emerge a montanha primitiva. Ele assume a sua posição sobre o monte primevo, e começa seu trabalho de criação. Por não ter um conjugê, ele se masturba para trazer outros deuses para ajudá-lo na criação. O texto piramidal 1248 graficamente descreve este evento.

“Tendo Atum desenvolvido seu crescimento fálico, em Heliópolis, colocou seu pênis em sua posse de modo que ele pudesse fazer orgasmo com ele, e os dois irmãos nasceram-Shu e Tefnut”.

Desde a sua emissão erótica, Shu e Tefnut, deificaram o ar e umidade, respectivamente. Então, Shu e Tefnut copularam e produziram Geb, a terra, e Nut, o céu. Geb e Nut, por sua vez produziram cinco filhos: Osíris, Isis, Horus o Velho, Set, e Nephthys. No entanto, Horus o Velho não se tornou um membro da Grande Ennead. Em vez disso, ele, junto com Thot, Maat, Anúbis, e outras divindades que não são claramente identificadas, constituem o pequeno Ennead.

2. Memphis:

A Pedra Shabaka contém a famosa Teologia Mephita. Esculpido em uma laje de granito negro, por ordem do rei Shabaka (716-702 aC) da vigésima quinta Dinastia, esta pedra preserva a escrita de um documento carcomido. Infelizmente, a pedra mais tarde sofreu danos graves. Os nomes dos Shabaka e do do deus Set foram intencionalmente retirados, e a pedra foi usada para moer grãos. Os teólogos de Memphis emprestaram o Grande Ennead de Heliópolis. Ptah substitui Atum como o deus criador, entretanto, Atum, não desapareceu da nova teologia.

Segundo a Mercer, Ele “tornou-se o coração (entendimento) e língua (palavra) de” Ptah, o Grande ‘, e por sua vez, Ptah era o coração ea língua do Ennead [sic] … Ptah (isto é, Atum) foi o Ennead em emanação ea manifestação. Assim, os outros oito divindades do Ennead Memphite eram apenas Ptah-se na manifestação [11]“.

A linha 55 da Pedra de Shabaka corrobora a afirmação da Mercer, e revela que Ptah cria pela palavra divina.

Ela diz: “Seu (Ptah) Ennead está diante dele como dentes e lábios. Eles são o sémen e as mãos de Atum. O Ennead de Atum surgiu com o sêmen e os dedos. Mas o Ennead são os dentes e lábios nessa boca que pronuncia o nome de cada coisa, desde que Shu e Tefnut saiu, e que deu origem ao Ennead [12]“.

Neste texto, a criação de Ptah pela palavra é contrastada com a criação de Atum, pela masturbação, e o método de Ptah é indicado para ser o verdadeiro motivo por trás do método de Atum de criar. A Teologia Memphita não retrata Ptah ao usar a magia para chamar o mundo à existência.

“O criador divino não é imaginado como um mago recitando suas magias, ele é visto como aquele que primeiro concebeu em sua mente o que deve ser criado para dar forma ao mundo e, em seguida, pôs em circulação, pronunciando o comando necessário para que seja [13]“.

3. Hermopolis:

Na cidade de Hermopolis, a cosmogonia dos Ogdoad surgiu. O Ogdoad de Hermopolis consiste em quatro deuses e suas respectivas companheiras: Nun e Naunet, Keku e Kauket, Hehu e Hauhet, Amun e Amaunet. Cada uma das quatro deusas recebe o seu nome a partir da forma feminina do nome de suas divindades masculinas. Essas deidades representam as quatro condições presentes no início da criação egípcia. Nun e Naunet personificam as águas primordiais. Nun encarna o oceano primordial, e Naunet, sua consorte, referiu-se ao contra-céu deitado sob o oceano primitivo. Keku e Kauket personificam a escuridão que assistiram ao estado primordial. Hehu e Hauhet personificam a ausência de limites e informe da condição primordial. Amun e Amaunet apresentam alguma dificuldade em determinar o seu significado preciso. Apesar de Amon ter sido identificado com o deus Sol, Ra, durante o Reino Médio, ele foi originalmente conhecido como o deus do ar e vento. Pode-se ver uma associação entre o ar eo vento, e a idéia de “oculto” ou “invisível”. Assim, Amun e Amaunet personificam o ar escondido e vento que assistiram ao estado primordial. Frankfort comenta sobre o papel Amun, e explica a função do Ogdoad.

Ele afirma, “Amon poderia ser concebido em épocas posteriores como o elemento dinâmico do caos, o motor da criação, o sopro da vida na matéria morta. Mas esta não é a concepção original, que simplesmente, por meio da Ogdoad, fez o caos mais específico, mais apto a ser compreendido. Na ilha de Flames Oito misteriosamente fez o deus-sol saem as águas, e com isso a sua função foi cumprida [14]“.

4.Diferenças entre os três cosmogonias egípcias:

Os três cosmogonias de Heliópolis, Memphis, e exibem Hermopolis semelhanças e diferenças. Às vezes as diferenças criam contradições na mente do leitor moderno. No entanto, essas contradições entre as três tradições e até mesmo dentro das tradições si não representa um problema para os antigos egípcios.

5. Semelhanças entre os três cosmogonias egípcias:

De estudar os diversos elementos de prova lidar com o entendimento egípcio da criação, três conceitos comuns trazer unidade para as histórias da criação de outro modo diverso. Toda a criação compartilha em suas histórias a crença em um oceano primordial, uma colina primordial, e a deificação da natureza. Estes conceitos encontram representação em cada um dos locais templo no antigo Egito.

D. O Significado do Relato da Criação para os primeiros leitores

Tendo conhecido um pouco da cosmogonia egípcia, é evidente que o relato de Gênesis mostra-se em grande parte distinto deles. Muito embora alguns estados similares pudessem ser encontrados (oceano primevo como uma alusão à expressão “face das águas”), a santidade de YHWH é claramente mantida no relato de Gênesis. Assim, considerando o pano de fundo histórico e religioso temos por certo que o relato de Gênesis tem dois propósitos: (1) Corrigir a cosmologia aprendida no Egito durante o tempo em que estiveram por lá; (2) apresentar YHWH como único Deus capaz de criar.

1. Promover correção:

Diante da cosmologia egipcia, e pelo tempo que passaram em sujeição ao domínio egípcio, não seria estranho que o Povo de Deus tivesse sido contaminado pela visão altamente religiosa do Egito. Isso é claramente percebido nas declarações de fidelidade a YHWH e nas diversas advertências para o povo abandonar os ídolos que carregavam.

“Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor teu Deus requer de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Dt. 10.12)

“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e servi ao Senhor.” (Js. 24:14)

Por isso, não podemos descartar que Deus em sua Sabedoria está a corrigir a visão sobre a cosmologia do seu povo, para que possam reconhecê-lo como Senhor exaltado acima de todos os falsos deuses que haviam conhecido no Egito. Assim, “não era suficiente honrar a Yahweh simplesmente como um deus, um entre muitos. Nem poderia ser concebido isso do Deus de Israel. Só Yahweh é Deus. Não há outro Deus. Ele é o criador dos céus e da terra. Ele não é simplesmente superior aos deuses das nações em derredor. Somente Ele é Deus [15]”. Essa visão permeia todo o Pentateuco:

“Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt. 6:4)

O Deus exaltado acima da criação é o Deus único que não precisa de mediadores para sua Criação, em distinção dos deuses egípcios (Dt.4.32). Ele não exerce seu poder de modo erótico, ou até mesmo promíscuo na criação, Ele em santidade mostra-se superior moralmente (Lv.11.45). Além disso, Ele está além de sua Criação e lhe é superior. Por isso “a tendência em se começar a confundir Deus com Sua criação foi uma parte dos pensamentos do mundo antigo. Ele deve ser honrado como o Deus da criação, não apenas Deus na criação. Todas as tentativas de se visua-lizar ou humanizar a Deus na forma de alguma coisa criada foram tendências em equiparar Deus com Sua criação. Creio que foi assim com o bezerro de ouro de Arão [16]”.

2. Promover Informação [17]:

Negativamente, Gênesis um corrige muitas concepções populares erradas a respeito de Deus. Positivamente, retrata Seu caráter e Seus atributos.

Deus é soberano e Todo-Poderoso. Distintamente das cosmogonias de outros povos antigos, não há nenhuma batalha na criação descrita em Gênesis um. Deus não enfrentou forças opostas para criar a terra e o homem. Deus criou com uma simples ordem “Haja…” Há ordem e progresso. Deus não faz experiência, mas, ao invés disso, habilmente molda a criação conforme Seu projeto onisciente.

Deus não é simplesmente energia, mas uma Pessoa. Ainda que devamos ficar atemorizados pela transcendência de Deus, devemos ficar também pela Sua imanência. Ele não é uma energia cósmica distante, mas um Deus pessoal sempre presente. Isto é refletido no fato de que Ele criou o homem à sua própria imagem (1:26-28). O homem é um reflexo de Deus. Nossa personalidade é simplesmente uma sombra da personalidade de Deus. No capítulo dois Deus deu a Adão uma tarefa significativa, com uma companheira como auxiliadora. No terceiro capítulo aprendemos que Deus tinha comunhão diária com o homem no jardim (cf. 3:8).

Deus é eterno. Enquanto que outras criações são vagas ou errôneas no que concerne à origem de seus deuses, o Deus de Gênesis é eterno. O relato da criação descreve Sua atividade no princípio dos tempos (do ponto de vista humano).

Deus é bom. A criação não teve lugar num vácuo moral. A moralidade foi tecida dentro da estrutura da criação. Repetidamente é encontrada a expressão “e era bom”. Bom implica não somente em utilidade e complexidade, mas em valores morais. Aqueles que sustentam pontos de vista ateístas sobre a origem da terra não vêem nenhum outro sistema de valores a não ser o que é sustentado pela maioria das pessoas. A bondade de Deus é refletida em Sua criação, a qual, em seu estado original, era boa. Mesmo hoje, a graça e a bondade de Deus são evidentes (cf. Mt. 5:45; At. 17:22-31).

_________________________

[1] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). IN: http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23

[2] WARFIELD, Benjamin B., Selected shorter writngs of Benjamin B. Warfield, Vol 1, pp.108.

[3] KRELL, Keith, Gênesis – The Book of Beginnings. pp. 15-16. Escrito como artigo, Creative Gennius, também encontrado em: http://www.timelessword.com/?p=147

[4] Watke, Caos and Creation, pp.12; IN: DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[5] Idem.

[6] Merrill F. Unger, Archaeology and the Old Testament, p. 37, citado por DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). (http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[7] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.13

[8] Material adaptado de Tony L. Shetter: “Genesis 1-2 In light of Ancient Egyptian Creation Myths”.

[9] Brandon, Creation Legends, pp. 61. Cyrus H. Gordon, “Khnum and El,” in Scripta Hierosolymitana: Egyptological Studies, vol. 28, pp. 206-07

[10] Brandon, Creation Legends, pp.14.

[11] Mercer, Religion of Ancient Egypt, pp.79.

[12] Miriam Lichtheim, Ancient Egyptian Literature: A Book of Readings, vol. 1, pp.54.

[13] Brandon, Creation Legends, pp.38

[14] Henri Frankfort, Kingship and the Gods: A Study of Ancient Near Eastern Religion as the Integration of Society & Nature, pp.155.

[15] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[16] Idem.

[17] Material aproveitado de DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

Uma janela de vidro está diante de nós. Levantamos os olhos e vemos o vidro; notamos sua qualidade, observamos seus defeitos e especulamos sobre sua composição. Ou olhamos através dele na perspectiva de ver além terra, céu e mar. Da mesma forma, há duas maneiras de se olhar o mundo. Podemos ver o mundo e ficar absorvidos pelas maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar diretamente através do mundo e ver Deus por detrás dele. Essa é a maneira religiosa. A maneira científica de olhar para o mundo não é mais errada do que a maneira do fabricante do vidro olhar a janela. Essa maneira de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada não para ser observada, mas para observarmos através dela, e o mundo falha em seu propósito a menos que também olhemos através dele e os olhos repousem não nele mas no Deus que o fez2

10.02.09

Definindo a Obra da Criação

Enviado em Gênesis, Teologia Própria tagged , , , , às 4:11 pm por Marcelo Berti

Assumir que Deus é um Deus Criador, exige de nós alguns reconhecimentos: (1) que Deus é livre para exercer sua vontade de criar; (2) que é poderoso para exercer poder suficiente para criar; (3) que é anterior e superiror a Sua criação; (4) que Sua criação é posterior e inferior a Si mesmo; (5) se Ele é o Deus criador Ele é o criador de todas as coisas; (6) e que fez o que fez para evidenciar sua Glória.

Tendo considerado isso, devemos admitir que O Deus apresentado pelas escrituras é sobremodo nobre e grande, pois é aquele que da inexistência trouxe o Universo. Por isso, definir a criação é de alguma forma também definir a Deus. Portanto, entendo que a Obra da Criação é a fruto da livre da ação do Deus trino em exercer seu poder em trazer à existência tudo o que existe do nada para louvor da sua Glória.

A. Triunidade de Deus

As escrituras são claras quando falam sobre a Criação e demonstram por fato que Deus Pai é ativo na criação: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn.1.1); “Assim diz o Senhor, teu Redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra” (Is.44.24). O Deus criador é uma grande ênfase na revelação, até por que, esse reconhecimento estabelece por fato a superioridade de Yahweh aos outros deuses: Enquanto os deuses eram criados pela atividade criativa e desesperada do seres humanos (Is.44.14-17), Yahweh é o Supremo Criador dos seres humanos: “Porque todos os deuses dos povos são ídolos; mas o Senhor fez os céus” (Sl.96.5); “Os deuses que não fizeram os céus e a terra, esses perecerão da terra e de debaixo dos céus. Ele fez a terra pelo seu poder; ele estabeleceu o mundo por sua sabedoria e com a sua inteligência estendeu os céus” (Jr.10.11-12).

É evidente nas escrituras que o Deus Pai seja o protagonista na obra da criação, mas é fundamental demonstrar que essa obra é também claramente reconhecida como obra do Filho e do Espírito Santo. O Novo Testamento é claro em demonstrar que Jesus Cristo é ativo na criação: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo.1.3); “porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl.1.16); “nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo” (Hb.1.2).

As escrituras também apontam para a Obra do Espírito Santo na criação: “A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas” (Gn.1.2). Alguns tem visto nessa afirmação apenas uma declarção de um poder ou atividade do próprio Deus, como se o Espírito de Deus fosse uma manifestação do próprio Deus. Entretanto, é importante reconhecer a terminologia empregada por Moisés aqui. O uso da expressão hebraica “ruach elohim” em outros lugares no Velho Testamento parecem sugerir que o autor fala de uma pessoa e não uma qualidade, especialmente por desempenhar funções que são atribuídas claramente ao Espírito Santo no Novo Testamento. Em Gn.41.38 o “ruach elohim” é apresentado  como aquele que estava em José em sagacidade e sabedoria. Em Ex.31.3 (cf. Ex.35.31) vemos o Senhor (YHWH) dizer a Moiséis que havia enchido Bezaleel com o “ruach elohim”. Certamente aqui, como no caso anterior, significa uma unção especial, uma comunicação especial de qualidades, que nesse caso se refere à sabedoria, conhecimento para exercer funções artísiticas na construção do Tabernáculo. É interessante notar que no Novo Testamento o Espírito Santo seja o responsável por conduzir os cristão ao desempenho do serviço a Deus em situações de dificuldades (At.2.4; 4.31; 6.3). Em 2Cr.24.20 (cf. Nm.24.2; 1Sm.10.10; 19.20; 2Cr.15.1) vemos o “ruach elohim” ser usado para levar a Palavra de Deus. Essa manifestação especial de Deus para demonstrar sua palavra é claramente atribuida a ação do Espírito Santo no Novo Testamento: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (2Pe.1.21); “Aos quais foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos bem desejam atentar” (1Pe.1.12).

Outro detalhe que parece reforçar essa sugestão é o uso neotestamentário da palavra grega “pneuma” para descrever o Espírito Santo. O termo hebraico “ruach” também significa ar, respiração, vento como o termo neotestamentário “pneuma”. A equivalência desses dois termos nos faz pensar que os autores neotestamentários tinham razões léxicas e escrituristicas para preferirem o termo grego que usaram para descrever o “ruach elohim”. É interessante notar que a LXX trouxe a declaração, para Gn.1.2, como o “pneuma Theou” (o Espírito de Deus).

Assim sendo, é possível perceber outras ocasiões em que o “ruach” (pneuma; Espírito) é apresentado como criador: “Pelo seu Espírito clareou os céus e a sua mão traspassou a serpente fugitiva” (Jo.26.13): “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jo.33.4); “Quem mediu com o seu punho as águas, e tomou a medida dos céus aos palmos, e recolheu numa medida o pó da terra e pesou os montes com pesos e os outeiros em balanças, Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro o ensinou?” (Is.40.12).

Tendo admitido que a Trindade estava ativa na criação é importante lembrar que Filho e Espírito Santo não poderes manifestos de Deus, ou agentes intermdiários, mas participantes ativos com o Pai na Obra da Criação. Portanto, podemos dizer que a Criação é uma Obra do Pai, por meio do Filho com o Espírito Santo.

B. Liberdade de Deus

Eventualmente a criação é apresentada como um ato de necessidade de Deus, como se dependesse da criação para ser Soberano Deus, ou para acalentar sua solidão cósmica. Em outras palavras, afirmar que o Deus das escrituras não era nem estava completo antes da criação, e por isso cria para poder se relacionar. Portanto, essa necessidade relacional do criador seria o motivo pelo qual o Deus teria iniciado o processo criativo.

Contudo, as escrituras não apresentam Deus desse modo. As escrituras afirmam que desde a eternidade passada Deus já estava em um relacionamento de com Cristo. Observe as palavras de Cristo: “Agora, pois, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo.17.5). Nesse texto é evidente que o Filho já estava com o Pai antes da existência do mundo em um estado exaltado. Isso é importante ser ressaltado como evidência da não solidão cósmica do Criador. Ao contrário, desde a Eternidade passada Deus é Trino em sua Existência e Completo como Deus Soberano. As escrituras também afirmam que Deus, Cristo e o próprio Deus coexistiam em um relacionamento de amor desde a eternidade passada: “Pai, desejo que onde eu estou, estejam comigo também aqueles que me tens dado, para verem a minha glória, a qual me deste; pois que me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). De fato, as escrituras apresentam com clarividência que Deus desde a eternidade passada coexistia de modo trino e, portanto, a criação não poderia ser considerada com um ato de necessidade de Deus perante sua suposta solidão.

Existe ainda a necessidade que se demonstre que o Espírito Santo estivesse antes da fundação do mundo. E sobre isso é válido lembrar que o autor de Hebreus o denomina “Espírito Eterno” em 9.14. assim, pode-se conconrdar com a premissa que era necessário que a Triunidade de Deus fosse antes mesmo da criação.

A idéia de que Deus tem vida em si mesmo (Jo.5.26) também nos auxilia a compreender a não necessidade de Deus em criar: Ele é indenpendente da criação e não tem nela sua expressão de necessidade. Assim, ele independe do universo criado e é assim apresentado: como Soberano Criador que no exercício de Seu Poder e Liberdade (Rm.9.21) trouxe à existência todas as coisas. Ele é aquele que de nada necessita, mas a tudo traz a existência: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas” (At.17.24-25).

Então, que dizer da razão pela qual Deus teria feito o universo? As escrituras respondem essa pergunta por afirmar que a declarada vontade do Criador assim o quis: “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas” (Ap.4.11). A humanidade nada lhe acrescenta a existência (Jo.22.2), do mesmo modo que nem todo universo pode tornar Deus mais Deus ou mais exaltado do que Ele mesmo o é. Contudo, por decreto de sua livre vontade Deus traz a existência tudo o que existe para que o propósito de sua Graça fosse exercido Soberanamente em sua Criação: “havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef.1.11).

C. O Poder de Deus e a Criação Ex-nihilo

As Escrituras iniciam com uma declaração interessante: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn.1.1). O verbo hebraico utilizado nesta sentença mosaica é bara’. Alguns teólogos afirmam que a utilização deste vocábulo implique diretamente na utilização de matéria preexistente para a criação, em função das demais utilizações do verbo no contexto (cf.Gn.2.7; Sl.51.10). O verbo aparece em três ocasiões: (1) para denotar a criação do universo, (2) para a criação dos grandes monstros e (3) para a criação do homem. O que pode-se concluir, seguindo esse raciocínio, é que Deus remoldou matéria preexistente para criar o universo, os grandes animais e o homem.

Porém, a utilização do verbo hebraico, por si só, não indica a utilização de matéria preexistente (cf.Is.65.18). Aliás, parece muito sensato observar que o verbo é apenas utilizado no Qal e aplicado exclusivamente às atividades criativas de Deus e sempre desacompanhada de uma referência a um material preexistente.  Ou seja, o verbo bara’ (criar, formar) não pode sustentar a idéia de que Deus tenha se utilizado de material preexistente para criar o universo.

Ainda, faz-se necessário demonstrar que a utilização dos verbo hebraico é intercambiável nas escrituras. Outros verbos além de bara’ são utilizados para expressar a idéia da criação, como asah (Gn.2.4) a respeito da criação dos céus e terra e yatzar (cf.Is.45.18). Com relação ao homem, em Gn.1.27 encontramos o bara’, mas em 1.26 e 9.6 encontramos asah e em 2.7 yatzar. Mas alguns textos são ainda mais interessantes, como Is.43.7 que utiliza as três formas de uma só vez: “…a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória, e que formei, e fiz”.

Criar, formar e fazer correspondem respectivamente aos vocábulos hebraicos bara’, yatzar e asah. Outro exemplo interessante é que em Is.45.12 lemos que Deus asah a terra e bara’ o homem, mas em Gn.1.1 Deus bara’ a terra e em 9.6 asah o homem. Em Is.44.2 utiliza-se asah e yatzar em relação ao homem, e Gn.1.27 utiliza bara’. Em Gn.5.2 lemos que Deus criou o homem, “homem e mulher os bara’”, mas em 2.22 lemos que “da costela ele asah uma mulher”.
Ou seja, fundamentar uma teoria da preexistencia da matéria, ou da eternidade desta, e que Deus apenas moldou sua forma baseado na literatura bíblica e a utilização de seus vocábulos é inconsistente.

A fim de que se confirme a veracidade bíblica da criação a partir do nada, é necessário trazer à tona que a criação marco o início das atividades temporais. Ou seja, “a criação divina é fixado como começo absoluto, não como obra realizada em algo que já existia”.

Outro fator que deve ser relembrado a favor da criação ex-nihilo (a partir do nada) é que no versículo dois a terra estava em uma situação rudimentar, mas ainda é chamada de Terra. As duas palavras hebraicas, tohû e bôhû, dão idéia de que a terra está mais que vazia e sem forma, como encontrado na tradução ARA, mas de absolutamente sem forma e vazia, ou em um estado de vacuidade como sugere o BDB Lexicon. Embora essa situação parece caótica, é a situação do mundo em sua forma elementar.

É digno de nota, ainda, que a própria cultura hebraica com todas as suas tradições, ensinos e literatura pareciam ser mergulhadas na idéia de uma Criação da parte de Deus, a partir do nada. Esse fato pode ser testemunhado pelas expressões encontradas nos livros hebraicos considerados apócrifos, como por exemplo o livro de Macabeus. Em 2Mac.7.28 encontramos a seguinte afirmação sobre os céus e a terra: “por que não foi de coisas existentes que Deus os fez, e que também o homem foi feito da mesma forma”. Esta sentença é apresentada da seguinte maneira para o latin: “quia ex nihilo fecit illa Deus et hominum genus”. Nesta citação é que encontra-se a expressão “do nada” para a criação de Deus. Por mais que o livro em si não seja fonte mais confiável de informações é observável que a cultura hebraica, impulsionada por seus escritos, tradições e informações, não duvidava de maneira nenhuma da criação de Deus a partir do nada, ou como sugere a Vulgata, ex nihilo.

As escriturasm também testemunha que o Universo veio a existir por meio da palavra de Deus: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro da sua boca (…) Pois ele falou, e tudo se fez; ele mandou, e logo tudo apareceu” (Sl.33.6, 9). Todas as coisas foram feitas por Deus: “Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar, e tudo o que neles há” (At.4.24); “Porque assim diz o Senhor, que criou os céus, o Deus que formou a terra, que a fez e a estabeleceu” (Is.45.18).

Mas, a fim de que a discução possa ser exterminada, no que diz respeito as referências bíblicas da criação, é mister ressaltar o versículo de Hebreus 11.3, que assevera: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. O fato ressaltado pelo autor de Hebreus é que o mundo não foi feito da matéria perceptível aos sentidos ou preexistente, mas pelo ato direto da onipotência de Deus. Vale, ainda, ressaltar que o verbo utilizado para exprimir “veio a existir” é “ginomai”. A tradução mais literal traria a seguinte forma: “veio a ser”. Isso implica em afirmar que o Universo não era até a intervenção de Deus, mas veio a ser o que é por meio da ação criativa do Deus Trino.

D. A Eternidade de Deus e a Temporalidade do Universo

Como já foi demonstrado, o universo veio a ser por meio a ação criativa de Deus, e portanto, podemo concluir que Deus é anterior e superior a Sua Criação. Logo, Deus é eterno e o universo temporal. As escrituras favorecem essa conclusão com forte clareza, observe: “… desde o princípio do mundo que Deus criou” (Mc.13.19). Aqui podemos perceber a limitação temporária do mundo, pois refere-se ao seu princípio. Ora, quem tem princípio não desfruta de um estado de eterna exisência ou ausência de limitações temporais. Se o universo, como criação, teve um princípio, certamente é limitado pelo tempo, e está cronologicamente fadado ao tempo.

Assim, não se pode afirmar que Deus, para a criação do mundo, utilizou-se matéria preexistente, ou eterna, pois é marcado um início para a existência de sua criação. O Velho Testamento também parece corroborar com essa idéia, observe as seguintes orações: “...antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, sim , de eternidade a eternidade tú és Deus” (Sl.90.2); “O Senhor me possuía [sabedoria] no início de sua obra, antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da terra” (Pr.8.22, 23). Podemos observar claramente que Deus, que é eterno, estava presente antes do começo da terra, e até mesmo Sua Sabedoria é demonstrada como anterior à existência da terra.
Outro detalhe, não menor que os anteriores, é que a origem do universo é atriuida a Deus. Em Ef.3.9 lemos: “Deus, que tudo criou”; Em Jo.1.3: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele”, “através de que também fez os mundos” (Hb.1.2). Portanto, a Deus é anterior e superior a Sua Criação.

E. O Objetivo de Deus

Em tudo o que faz, Deus demonstra seu supremo propósito: A sua própria Glória. Isso é evidenciado claramente nas escrituras: “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para o louvor da glória da sua graça” (Ef.1.5, 6); “com o fim de sermos para o louvor da sua glória, nós, os que antes havíamos esperado em Cristo” (Ef.1.12); “para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória” (Ef.1.14); “E todos os do teu povo serão justos; para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” (Is.60.21). Não é à toda que as Escrituras dizem que tudo que é e foi feito, para Sua Glória o é: “Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm.11.36).

Isso não poderia ser diferente sobre a criação: “todo aquele que é chamado pelo meu nome, e que criei para minha glória, e que formei e fiz” (Is.43.7); “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas” (Ap.4.11).

F. A Relação entre Criação e Redenção

Para algumas pessoas a queda do ser humano, a entrada do pecado na Criação de alguma forma frustraram os planos de Deus para sua criação. Depois de todo trabalho exercido em benefício de suas Criaturas, o pecado insurge como uma barreira ao propósito de Deus. É como se essas pessoas dissessem: Deus, como mal planejador que é, não foi capaz de inibir a entrada do pecado. Em uma única colocação ignoram a onisciência e onipotência de Deus.

De fato, as escrituras não nos ensinam assim. Aliás, é digno de nota que algumas declarações bíblicas nos levam a compreender que quando Deus se propos a criar ele se propos a redimir. Uma dessas ocasiões é quando João diz que a morte de Cristo era conhecida desde a fundação do mundo: “E adora-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap.13.8). A expressão grega “apó kataboles kosmou” sugere que, desde que há mundo, o Cordeiro foi morto.

É possível que algumas pessoas tomem isso de modo equivocado, e por isso é necessário que se compreenda aqui que, a morte de Cristo aconteceu como Decreto Divino na fundação do mundo, e não como ato. Àquele que tem o tempo como indivisívil em presente contínuo, seus decretos são enunciados antes de serem executados. Essa percepção é claramente observada nas seguintes palavras de Pedro: “mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo, o qual, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto no fim dos tempos por amor de vós” (1P2.1.19-20). A morte de Cristo, como Decreto, já estava determinada desde a eternidade passada, contudo foi manifesta no tempo em uma ocasião oportunida: plenitude dos tempos, por ocasião da Vontade Soberana de Deus.

As escrituras são claras em apresentar a morte de Cristo como um decreto eterno de Deus, e sobre isso não há qualquer dúvida: “Porque, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que esta determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!” (Lc.22.22); “Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos” (At.2.22-23). Ou seja, mesmo antes de existir o Universo, o Plano Redentor já estava estabelecido, por Soberana Graça do Criador.

Mas, é importante demonstrar que tal Decreto não inclui apenas a Cristo como Redentor, mas também a aplicação eficiente de Sua Morte para os eleitos de Deus, pois da mesma forma que Cristo é apresentado como morto antes da fundação do mundo, os cristãos são apresentados pelas escrituras como eleitos antes da fundação do mundo: “como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele” (Ef.1.4).

Alguém poderia objetar por dizer que tal eleição é destinada à santidade e não à salvação. De fato, é essa mesmo a declaração do texto, mas gostaria de saber como alguém poderia ser eleito à santidade sem ser salvo. Outra dúvida que acompanharia essa afirmação seria: então Deus escolheu dentre os cristãos uns para serem santos enquanto outros o farão por suas forças ou serão excluídos dessa bem-aventurança? Isso certamente não é verdadeiro, até por que, na mesma carta, Paulo se refere a seus leitores como “santos que vivem em Éfeso”, contrariando tal declaração.

Mas, diante do todo as escrituras, temos consciência que a Eleição é para salvação: “porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts.5.9); “Mas nós devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos, amados do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade, e para isso vos chamou pelo nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts.2.13).

Assim, diante de tal informação das escrituras, podemos compreender que, quando Deus se propos a criar Ele se propos a Redimir. Portanto, Criar e Redimir são duas facetas de uma mesma Obra de Deus e sua auto-revelação assim nos ensina.

08.07.09

O Livro de Gênesis

Enviado em Gênesis tagged , , às 1:50 pm por Marcelo Berti

Título do Livro

O título “Gênesis”, que significa literalmente “começo” e vem da palavra grega “γενέσις[1]”. Esse título foi dado ao livro pela tradução grega do Velho Testamento, chamada Septuaginta[2]. O título hebraico para esse livro é retirado das primeiras palavras do livro: “berēshith” e significa “no princípio”. Esse título é certamente apropriado, pois além de demonstrar o princípio do universo, do homem e do povo de Deus, Gênesis também “prepara o terreno para a plena compreensão da fé bíblica[3]”.

O Autor do Livro[4]

Enquanto nenhuma declaração é dada sobre quem teria escrito esse livro, a tradição sempre tem dito que o autor desse livro é Moisés. Evidências para isso tem-se encontrado:

(1)    No Novo Testamento normalmente atribui Gênesis a Moisés: indicação desse fato é que em Jo.7.23 Jesus afirma que a circuncisão, que é apresentada em Gn.17.12, faz parte da Lei de Moisés. Mais comum ainda no NT é a declaração do Pentateuco como livro de Moisés

  1. Evangelhos: Mt.8.5; 19.19.4-8; Mc.1.44; 7.10; 12.19, 26; Lc.2.22; 5,14; 20.37; Jo.1.17, 45; 7.19, 22-24; 8.5;
  2. Atos: At.3.22; 7.44; 13.39; 15.5; 28.23;
  3. Paulo: Rm.10.5; 10.19; 1Co.9.9;
  4. Autor de Hebreus: Hb.9.19; 10.28.

(2)    No Antigo Testamento também parece atribuir a autoria do Pentateuco (Tora) a Moisés:

  1. Livros Históricos: Js.1.7-8; 8.31-32; 1Re.2.3; 2Re.14.6; 21.8; Ed.6.18; Ne.13.1;
  2. Profetas: Dn.9.11-13; Ml.4.4.
  3. O próprio Pentateuco aponta para esse fato: Ex.17.14; 24.4-8; 34.27; Nm.33.1-2; Dt.31.9, 22.

(3)    Além disso, o autor do Pentateuco demonstra conhecer detalhes tão particulares da história que só uma testemunha ocular poderia saber:

  1. Quantidades específicas de fontes e árvores (Ex.15.27)
  2. Detalhes específicos do povo em ocasiões específicas (Nm.2.1-31)
  3. Detalhes da alimentação (Nm.11.7-8)

(4)    O conhecimento que o autor do Pentateuco apresenta sugere ele não poderia ser alguém de séculos mais tarde[5]:

  1. Conhecimento da Geografia (Gn.13.10; Gn.33.17)
  2. Conhecimento de costumes específicos (Gn.16.1-3; Gn.41.41-43)
  3. Moisés era alguém habilitado para ter essas informações (At.7.22)

Se alguém duvidar da autoria Mosaica do Pentateuco ou de Gênesis, deve atribuir também ou falsidade ou erro, tanto dos textos do Velho, como do Novo Testamento. Em outras palavras, os profetas, escritores, apóstolos e o próprio Jesus Cristo deveriam ser considerados ou falsos ou equivocados. Portanto, “a autoria de Gênesis é atribuída a Moisés, mais provavelmente durante a jornada do Egito para Canaã, com o uso de fontes que tivesse à disposição, quer orais quer escritas, debaixo do ministério orientador do Espírito de Deus[6]”.

Estrutura e Conteúdo do Livro

Uma das características marcantes do livro é a forma como esse livro foi estruturado. Do ponto de vista da história, duas categorias são claramente reconhecidas na estrutura do livro: (1) Nos capítulos de 1.1-11.26 encontramos a história das origens de modo geral e (2) de 11.27-50.26 lemos a história da origem do povo judeu – a história dos patriarcas. Sobre essa estrutura John Hartley diz: “Gênesis 1-11 é um prefácio à história da salvação, tratando da origem do mundo, da humanidade e do pecado. Gênesis 12-50 reconta as origens da história da redenção no ato de Deus escolher os patriarcas, juntamente com as promessas da terra, posteridade e aliança[7]”.

Contudo, Moisés como hábil escritor também deixou uma clara estrutura literária para seu primeiro livro: com o uso de uma palavra específica, Moisés pode marcar dez blocos de texto onde agrupou o conteúdo do seu livro. Essa palavra hebraica é “tôledôt”, que significa gerações, genealogia. Em “cada uma dessas seções [Moisés] relata o que aconteceu com à(s) pessoa(s) mencionada(s), ou seus descendente[8]”.

Normalmente essa palavra é acompanhada de uma genealogia, conquanto também possa apresentar o desenvolvimento de algo que já foi iniciado. Esse é o caso de Gn.2.4: “Esta é a história das origens dos céus e da terra, no tempo em que foram criados: Quando o SENHOR Deus fez a terra e os céus”. Nessa ocasião Moisés faz um uso metafórico da palavra “tôledôt” para expressar que os céus foram gerados (criados) pelo Próprio Deus.

É interessante observar que a estrutura história e a estrutura literária foram de tal forma ajustadas que para a primeira parte (a história primeva) Moisés usou cinco “tôledôt”, enquanto que para a segunda parte (história patriarcal) ele o fez mais cinco vezes[9]. Seguindo essa sugestão, podemos observar a estrutura do livro da seguinte forma:

I. HISTÓRIA PRIMEVA                                            (Gn.1.1-11.26)

  • Criação do Universo                            (1.1-2.3)
  • As gerações do céu e da terra         (2.4-4.26)
  • As gerações de Adão                          (5.1-6.8)
  • A geração de Noé                                (6.9-9.29)
  • As gerações dos filhos de Noé       (10.1-11.26)

II.HISTÓRIA DOS PATRIARCAS                            (Gn.11.27-50.26)

  • As gerações de Terá                            (11.27-25.11)
  • As gerações de Ismael                       (25.12-18)
  • As gerações de Isaque                       (25.19-35-29)
  • As gerações de Esaú                           (36.1-43)
  • As gerações de Jacó                            (37.1-50.26)

É importante lembrar que um dos recursos literários que Moisés usa na composição de Gênesis é apresentar em primeiro lugar um conjunto de informações sobre personagens que terão sua história continuada no seu relato. Por exemplo, “a genealogia de Caim (4.17-24) precede a de Sete (4.25,26); as linhagens de Jafé e Cão (10.1-8) aparecem antes de Sem (10.21,22); a genealogia de Ismael (25.12-15) antecede a de Isaque (25.19) e a de Esaú (36.1-10) precede a de Jacó (37.2)[10]”.

Propósito

O propósito do primeiro livro do Pentateuco é fornecer um breve sumário da história da revelação, desde o princípio até que os israelitas foram levados para o Egito e estavam a ponto de se tornarem em nação teocrática[11]”. De forma prática, Gênesis parece demonstrar, do início ao fim, quem é o Deus que chamou a Moisés para liderar o Povo.

É nesse texto que Moisés registra YAHWEH como o Deus que é poderoso para Criar, Julgar e Punir, Retribuir, Chamar, Restaurar e Salvar Seu povo. Gênesis é um relato da Personalidade e Caráter de YAHWEH como Deus Poderoso, Cuidadoso, Amoroso e Soberano.

De forma anacrônica Moisés parece deixar a Soberania de Deus estampada nas páginas de Gênesis, de modo que, na primeira parte de seu livro ele demonstra quão longe o homem por suas forças pode ir, enquanto que na segunda parte ele demonstra quanto Deus faz para resgatá-los. Assim, estamos falando que, após a Criação, nos primeiro 11 capítulos de Gênesis nós vemos a degradação do ser humano: Na Queda vemos a soberania de Deus e a sentença de todo ser humano; No Dilúvio a justa retribuição história de Deus; e em Babel vemos a soberania de Deus na distribuição.

Até que, em Abraão o processo de regeneração inicia e parece reverter a cena: Em Abraão vemos a soberania de Deus na Eleição; Em Isaque a soberania de Deus na Separação; Em Jacó a soberania de Deus é percebida no cuidado; e em José vemos a soberania de Deus no controle da situação.

É como se o livro tivesse sido escrito para apresentar o caráter de Deus como chefe da Teocracia que Ele irá formar a partir de um povo exilado no Egito, retirando-os soberanamente do domínio egípcio. É óbvio que Moisés faz isso, enquanto registra os acontecimentos do seu povo.

Mensagem

Poucas pessoas foram capazes de resumir a mensagem de um livro tão grande em tão poucas palavras de modo tão impressionante: Carlos Osvaldo tem sintetizado a mensagem do livro da seguinte maneira:

“A eleição e separação de Israel como povo pactual se deu em um contexto de conflito entre o propósito Benevolente do Criador e a vontade rebelde das criaturas, a quem Ele pune com justiça e restaura com amor[12]


Teologia de Gênesis

Como temos dito que esse livro é uma Auto-Revelação de Deus para o povo de Israel, não poderíamos deixar de falar de Sua Pessoa como apresentada por ele. Sobre isso, House diz:

“Certamente tornou-se visível um retrato nítido de Deus. Ele é a única divindade que atua nesses relatos. Só Deus cria, de maneira que só Ele julga o pecado, chama, dirige e abençoa Abraão e seus descendentes, e proteje e livra em todas as circunstâncias o povo agora chamado Israel. Esse Deus comunica-se com o povo alternadamente emanando ordens, fazendo promessas e dando orientação, Ele trabalha para tirar o pecado que atribula toda a raça humana. Esse Deus não tem qualquer começo, rival, limites de tempo ou espaço, falha moral, ou interesses ocultos[13]

Deus é Criador:

Em Gênesis não difícil falar em um Deus Criador: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. O relato da criação em Gênesis é realizado em duas etapas para ressaltar a Pessoa do Criador: Enquanto o primeiro relato aponta para um fato (há um Criador de todas as coisas) o segundo relato mais específico sobre a criação do homem apresenta o Criador como zeloso, atencioso e relacional. Essa descrição de Deus é certamente uma demonstração do Seu poder e de Seu cuidado graciosos.

Entretanto, é válido dizer que a descrição da criação demonstra a ordem e a dignidade dela. “Enquanto outras histórias da criação tendem a tratar a raça humana como fonte de irritação para o panteão e o mundo criado como alo que os deuses não pensaram inicialmente, Gênesis 1.1-2.3 apresenta a ordem criada como resultado da atividade intencional da parte do Deus único[14]”.

A unicidade de Deus nos primeiros versos de Gênesis também são também uma descrição de contraste entre YAHWEH, o verdadeiro Deus e os deuses pagãos. Até por que, a descrição de Deus como Criador auto-existente, solitário e auto-suficiente difere gritantemente de outros relatos antigos da criação. Falando sobre a multiplicidade de deuses do paganismo, LaSor, Hubbard e Bush afirmam que “para eles a variedade de forças personificava-se em deuses. Assim, uma divindade era multipessoal, em geral ordenada e equilibrada, mas às vezes caprichosa, instável e temerária. O texto de Gênesis 1 combate tal concepcção de divindade. Ela retrata a natureza surgindo de uma simples ordem de Deus, o que é anterior a ela e dela independente[15]”.

Outro detalhe sobre a Singularidade de Deus como Criador é estampado no uso do termo hebraico bärä’, que descreve sua ação como trazendo a criação do nada (ex nihilo[16]). Em Gn.1.1 não há qualquer indicação de matéria pré-existente que Deus teria formado, antes “afirma que Deus criou, (bärä’) sem nenhum esforço, todo o universo e tudo o que nele há[17]”. Assim, “o termo hebraico bärä’, ‘criar’, é uma palavra chave, sendo empregada seis ou sete vezes no relato da criação. Essa palavra tem Deus como seu único sujeito no Antigo Testamento, e não se fez nenhuma menção do material a partir do qual se cria algum objeto. Ela descreve um modo de agir que não possui analogia humana. Só Deus cria, assim como só Deus salva[18]

Deus é Soberano:

Sidlow Baxter quando comenta sobre Gênesis diz: “Pelo fato de ter sido colocado logo no início dos 66 livros, Gênesis nos faz dobrar os joelhos em obediência reverente diante de Deus, por exibir perante os nossos olhos, e trovejar em nossos ouvidos, aquela verdade que deve ser aprendida antes de todas as outras em nosso trato com Deus, em nossa interpretação da história e em nosso estudo da revelação divina, a saber A SOBERANIA DIVINA[19]”.

A soberania de Deus é observada em quase todos os eventos apresentados nesse livro: Ele é o Criador Soberano, o Juiz soberano sobre o pecado do homem, na punição de Caim, no Dilúvio, em Babel. Ele é o Soberano na separação e eleição de Abraão como herdeiro das promessas. Não havia qualquer característica em Abraão digna da atenção de Deus, mas em Sua Soberania Deus o separa para dele fazer uma grande nação. “O Senhor escolhe a Abrão da mesma maneira como decide criar os céus e a terra, ou seja, a partir da liberdade absoluta resultante de ele ser o Deus único, todo-suficiente e independente[20]”.

Toda a história dos patriarcas é uma demonstração da Soberania de Deus: Abraão é eleito soberanamente por Deus; Isaque é mantido soberanamente por Deus; Jacó[21], o mais relutante de todos, demonstra a Soberania de Deus na Preservação de sua Promessa feita a Abraão e em José podemos observar a Soberania de Deus no controle das situações para formar um povo Seu em meio a um tempo de crise.

Até mesmo na tensão entre a Soberana Vontade de Deus e da vontade rebelde de suas criaturas, “o que o homem pecador tenciona para o mal, YAHWEH é mais do que capaz de suplantar para Seus propósitos de bênção e bem estar para o povo de Sua aliança[22]”. A soberania de Deus é capaz de convergir a maldade do homem para bênçãos para os Seus: Esse retrato é vívido em Gênesis.

Deus é Justo:

No trato com a humanidade desde a Criação, Deus demonstra sua habilidade para exercer sua Justiça. Na retribuição justa de Gn.3 vemos que Deus é severo no trato com o pecado e na imposição das punições para cada um dos participantes da rebelião contra Ele no Éden. Entretanto, é importante lembrar que “quando Sua bondade original foi desprezada no jardim do Éden em troca da independência que as criaturas queriam Dele, foi Deus quem tomou a iniciativa de buscar o homem (3.8, 9), de prometer a vitória definitiva sobre a serpente pela semente da mulher (3.15) e remediar a nudez e a vergonha do primeiro casal[23]”. No exercício de sua Justa punição, Deus não deixou de manifestar sua Graça Salvadora: O maior prejudicado na queda foi o próprio Deus, pois Ele mesmo assume as piores conseqüências da Queda e doa-se em amor ao mundo.

Da mesma forma o dilúvio revela Sua Justa retribuição à intenção do homem em contraposição à Lei Divina. Em sua Justa Soberania, Deus estabelece o juízo da rebeldia dos homens e os sentencia à morte no Dilúvio. Entretanto, temos que lembrar que Ele mesmo ofereceu 120 anos para o arrependimento dos seres humanos em demonstração de que age com paciência. Isso sem contar que Deus havia deixado um modo para que os homens pudessem ser libertos dessa punição, pela fé na instrução que havia dado a Noé (Hb.11.7). Assim, tanto a Paciência quanto Graça são observadas no exercício da Justiça de Deus[24].

Deve ser por isso que Ralph Smith diz: “Três coisas são essenciais a um bom juiz: autoridade e soberania; decisões justas e imparciais; e a capacidade de perceber e interpretar corretamente todas as evidências. Javé tem as três qualidades[25]”. Por isso, “a justiça de YAHWEH reflete-se não tanto em declarações sobre Seu caráter quanto nos meios simples e diretos pelos quais Ele julga a falta de conformidade do homem com o padrão de conduta prescrito pelo Criador[26]”.

Deus é Gracioso:

Pelo contrário, ele opera exclusivamente em benefício do mundo que não tem intenção alguma de fazer o que é certo. Neste caso a eleição demonstra a misericordiosa bondade de Deus com o mundo[27]”.

Por que Deus não opera sua disciplina para com Jacó, que demonstra em sua história não manter uma padrão de conduta em nada parecido com o do seu pai? “O fato mais consolador é que Deus não mudou seu propósito, promessa ou poder. O caráter divino continua intacto, acentuando a sensação que o leitor tem de respeito e expectativa diante do futuro[28]”.

A graça divina seleciona este homem [Jacó] terrivelmente imperfeito, não por causa de mérito algum de sua parte. O amor determina a decisão, e esse amor é tão grande por Jacó quanto é por Abraão e Isaque, pois as promessas divinas feitas anteriormente permanecem de pé[29]”.

A graça intensifica-se quando o pacto de YAHWEH com a humanidade se focaliza em Abraão e sua linhagem: Ló é preservado pela graça (19.1-31), Isaque é poupado pela graça (cap.22), Jacó é escolhido por graça (25.19-23; cf. Rm.9.11, 12), assim como toda a família patriarcal é libertada da corrupção e miscigenação em Canaã pela provisão graciosa que YAHWEH lhes faz de José como vice-regente do Egito (caps.37-50)[30]

Deus é Único:

Em oposição ao conceito do Oriente Médio Antigo, Gênesis apresenta um Deus que é Único, “nenhuma outra divindade questiona o direito divino de criar; nenhuma outra divindade ajuda Deus a criar nem se opõe à sua atividade criadora. Desde o princípio, ou desde a origem do tempo e da história, só Deus existe ou age[31]”.

A idéia da unicidade de Deus no Antigo Testamento é singular e significativa. Enquanto outros povos antigos achacam que seus deuses eram muitos, cada um tendo sua própria esfera de influência e responsabilidade, o Israel antigo entendia que seu Deus era um (indivisivo), como todos os atributos e poderes da divindade em si mesmo, governando todas as esferas da existência[32]

A singularidade de YAHWEH aparece em cores ainda mais brilhantes no fato de que Ele é um Deus que, apesar de transcendente e todo-poderoso, busca um relacionamento com Suas criaturas e a elas Se revela. Ele estabelece alianças (cf. 9.8-17; 15.9-21; 17.1-27) e garante seu cumprimento ao prover e proteger milagrosamente a semente que havia prometido (18.13-15; 22.15-18; 25.21)[33]


[1] O termo grego “γενέσις” pode também indicar vir a existir (Gn.40.20), nascimento(Mt.1.18), existência (Tg.1.23), vida e experiência humana (Tg.3.6), história de vida (Gn.2.3; 5.1 – história da origem), linhagem, descendência (Mt.1.18).

[2] A Septuaginta é também apresentada como LXX, em função de ser essa a representação gráfica de 70 em algarismos romanos.

[3] LASOR, Willian, HUBBARD, David, BUSH, Frederic, Introdução ao Antigo Testamento. pp.16.

[4] A autoria do livro de Gênesis e de todo o Pentateuco tem sido largamente discutida. Jean Astruc (sec. 18) chegou a apontar para duas formas documentais que poderiam ter resultado na produção do texto que dispomos. Ele denominou as fontes como J (Javista) e E (Elohista) em função do uso de palavras para se referir a Deus. K.H. Graf, em uma adaptação ampliada da teoria de Astruc, propôs uma Teoria Documental em 1866 que além de J e E, identificou as fonte D (Deuteronomista) e P (Sacerdotal – proveniente do alemão priesterlich). Entretanto, essa teoria só tornou-se popular quando Wellhausen em 1876 combinou a “teoria documentária com uma visão evolucionista da religião de Israel”. (COP, FDAT, pp21-22). Reações a essa proposição de Wellhausen foram feitas por liberais e conservadores e aos poucos sua teoria tornou-se menos influente no mundo acadêmico. O leitor fará bem se ler sobre o assunto o artigo Autoria do Pentateuco no livro “Merece confiança o Antigo Testamento” onde o autor trata com detalhes da refutação da teoria (pp.113-118).

[5] Wellhausen teria proposto que o Pentateuco como um todo seria fruto do período do exílio ou pós-exílico (Introdução ao AT, pp.7). Entretanto, uma vez que os livros exílicos e pós-exílicos citam o Pentateuco, com indicações da autoria Mosaica, a teoria de Wellhausen fica em descrédito. Ou seja, para que sua teoria tenha validade o Velho Testamento precisa ser reestruturado, passo que os liberais já deram a muito tempo.

[6] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23.

[7] LASOR, Willian, HUBBARD, David, BUSH, Frederic, Introdução ao Antigo Testamento. pp.16-17.

[8] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23.

[9] É válido demosntra que em Gênesis Moisés usa “tôledôt” 13x (Gn.2.4; 5.1; 6.9; 10.1, 32; 11.10, 27; 25.12, 13, 19; 36.1; 36.9; 37.2). O agrupamento estrutural desses usos tem sido diferentes em diferentes autores. (cf. YOUNG, Edward, Introdução ao Antigo Testamento. pp.54-68; ARHCER, Gleason, Merece Confiança o Antigo Testamento, pp.200)

[10] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23.

[11] YOUNG, Edward, Introdução ao Antigo Testamento. pp.53.

[12] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.24.

[13] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.107.

[14] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.76.

[15] LASOR, Willian, HUBBARD, David, BUSH, Frederic, Introdução ao Antigo Testamento. pp.24

[16] A expressão latina ex nihilo encontrada em alguns materiais teológicos sobre a Criação é provavelmente proveniente da Vulgata. Em 2Mc.7.28 lemos: “peto nate aspicias in caelum et terram et ad omnia quae in eis sunt et intellegas quia ex nihilo fecit illa Deus et hominum genus” (Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra e observa o que nele existe. Reconhece que não foi de coisas existentes que Deus os fez, e que também o gênero humano surgiu da mesma forma. – BJ). Sobre o uso de bärä’ considere alguns usos que descrevem o início de algo novo (cf. Is.41.20; 48.6, 7; 65.17) como um paralelo do conceito criativo ex nihilo. Lembre-se também dos usos que descrevem o sentido de trazer à existência (Is.43.1; Ez.21.30; 28.13, 15) como exemplificação da origem ex nihilo de uma ação divina.

[17] SMITH, Ralph, Teologia do Antigo Testamento. pp.172.

[18] LASOR, Willian, HUBBARD, David, BUSH, Frederic, Introdução ao Antigo Testamento. pp.24.

[19] BAXTER, Sidlow, Examinais as Escrituras. Vol.I, pp29.

[20] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.92.

[21]Pouquíssimos textos do AT ressaltam os conceitos bíblicos de eleição e graça mais do que os relatos que envolvem Jacó” – HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.98

[22] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.25

[23] Idem, IBID.

[24] MERRIL, Eugene, The Pentateuch. IN: Holman Bible Handbook

[25] SMITH, Ralph, Teologia do Antigo Testamento. pp.206.

[26] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.25.

[27] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.792.

[28] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.97.

[29] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.98.

[30] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.26

[31] HOUSE, Paul, Teologia do Antigo Testamento. pp.74.

[32] SMITH, Ralph, Teologia do Antigo Testamento, pp.218-219.

[33] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.26.