02.11.09

Pecado Original e Depravação Total

Enviado em Hamartiologia tagged , às 2:23 pm por Marcelo Berti

As escrituras diagnosticam o pecado como uma deformidade universal da natureza humana, deformidade que se manifesta em cada pormenor da vida da pessoa (1Rs.8.46; Rm.3.9-23, 7.17; 1Jo.1-810). Ambos os Testamentos descrevem o pecado como rebelião contra as normas de Deus, como deixar de atingir o alvo que Deus estabeleceu para nós, transgredir a lei de Deus, ofender a pureza de Deus pela nossa corrupção e incorrer em culpa diante de Deus, o Juiz. A deformidade moral é dinâmica: o pecado é uma energia de reação irracional, negativa e rebelde contra Deus. É uma mentalidade que luta contra Deus para fazer o papel de Deus. A raiz do pecado é o orgulho e a inimizade contra Deus, o espírito visto na primeira transgressão de Adão. E os atos praticados têm sempre, atrás de si, pensamentos e desejos que, de um modo ou de outro, expressão a deliberada oposição do coração pecaminoso às reivindicações de Deus sobre nossa vida.

O pecado pode ser definido como quebra da Lei de Deus ou falta de conformidade com essa lei, em qualquer sentido da vida, que nos pensamentos nas palavras ou nas ações. Entre as passagens das Escrituras que ilustram diferentes aspectos do pecado se encontram Jr.17.9; Mt.12.30-37; Mc.7.20-23; Rm.1.18-3.20; 7.7-25; 8.5-8; 14.23 (Lutero afirmou que Paulo escreveu Romanos para “ampliar o pecado”); Gl.5.16-21; Ef.2.1-3; 4.17-19; Hb.3.12; Tg.2.10-11; 1Jo3.4; 5.17).

“Pecado original”, que quer dizer pecado derivado de nossa origem, não é uma expressão bíblica (a expressão é de Agostinho), mas coloca em foco a realidade do pecado no nosso sistema espiritual. A expressão “pecado original” não significa que o pecado faça parte da natureza humana como tal, pois “Deus fez o homem reto” (Ec.7.29). Nem significa que o processo de reprodução e nascimento seja pecaminoso; a impureza associada à sexualidade na Lei (Lv.12; 15) era típica e cerimonial e não moral. Mas exatamente, “pecado original” significa que a pecaminosidade marca a cada um desde o nascimento, na forma de um coração inclinado para o pecado, antes de quaisquer pecados de fato cometidos. Essa pecaminosidade íntima é a raiz e a fonte desses pecados atuais. Ela nos foi transmitida por Adão, nosso primeiro representante diante de Deus. A doutrina do pecado original nos diz que nós não somos pecadores por que pecamos, mas pecamos por que somos pecadores, nascidos com um natureza escravizada pelo pecado.

A expressão “depravação total” é comumente usada para torna explícitas as implicações do pecado original. Significa a corrupção de nossa natureza moral e espiritual, que é total em princípio, ainda que não em grau (por que ninguém é tão mau quanto poderia ser). Nenhuma parte de nosso ser está isenta de pecado, e nenhuma das nossas ações é tão boa quanto deveria ser. Em conseqüência, nada do que fazemos é meritório (ou merece mérito) aos olhos de Deus. Não podemos ganhar o favor de Deus, pouco importando o que fazemos; se a graça não nos salvar, estamos perdidos.

Depravação total inclui a incapacidade total, o que significa não ter poder para crer em Deus ou na sua palavra (Jo.6.44; Rm.8.7-8). Paulo diz que essa incapacidade é uma forma de “morte”, pois o coração decaído está “morto” (Ef.2.1, 5; Cl.2.13). Como diz a Confissão de Westminster (IX.3): “O homem, ao cair num estado de pecado, perdeu inteiramente todo poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz, pelo seu próprio poder, converter-se ou preparar-se para isso”. Para essa escuridão só a Palavra de Deu traz luz (Lc.18.27; 2Co.4.6).

 

Fonte: Bíblia de Genebra

Conceituações Teológicas do Pecado

Enviado em Hamartiologia tagged , às 2:21 pm por Marcelo Berti

Na criação, Deus deu à alma do homem a mente, que distingue o bem do mal, o justo do injusto, e como assistente desta a razão, e a esta mente Deus acoplou a Vontade, e nesta a Escolha. A faculdade da escolha, no ambiente da Queda, deve ser bem compreendida para que o conceito correto da queda e de sua deficiências seja igualmente compreendidos.

Em Adão, A Razão, a Inteligência, a Prudência, o Julgamento não são suficientes para o direcionamento da Vida Eterna, mas por meio deste o homem original transcende até Deus e a felicidade Eterna, e assim foi acrescida ao homem a faculdade da Escolha, afim de que dirigisse os apetites e regulasse a todos os movimentos orgânicos. Dessa forma, a Vontade é inteiramente consentânea à ação moderadora da razão.

Sobre essas considerações, Calvino nos instrui:

 

Nesta integridade, o homem fruía de livre arbítrio, mercê do qual, se o quisesse, poderia alcançar a vida eterna (…) Já que, entretanto, flexível lhe era a vontade para uma ou para outra direção, nem lhe fora dada a constância para preservar, por isso, veio tão facilmente a cair. Contudo, livre foi a escolha do bem e do mal. Nem apenas isto, mas ainda suma retidão lhe havia na mente e na vontade e todas as partes orgânicas lhe estavam adequadamente ajustadas a obediência, até que, perdendo-se a si próprio, corrompeu todo o bem que havia nele”.

 

O estudo do ponto de vista teológico evidencia o pecado muito mais como FATO do que como ATO. Assim, em função do pecado:

 

  • 1. A natureza humana, de todos os homens, foi corrompida por inteiro. Todos os aspectos do homem foram pervertidos a ponto de deteriorar com o passar do tempo.
  • 2. A Imagem de Deus foi maculada. O homem não deixa de ser Imagem de Deus, mas não pode ter a mesma.
  • 3. A morte, tanto física como espiritual ,passou a reinar no homem. E como conseqüência, todos os descendentes de Adão sofrem com esse resultado danoso.

 

Em suma, a queda do ponto de vista teológico determinou a culpa judicial sobre a humanidade, o rompimento da comunhão entre Deus e o homem e a deturpação da perfeita e anterior “Imago Dei”. (Veja Gn.2.15-17 c/ 1Co.15.22 e Rm.5.12).

 

Definição Segundo Marcos Mendes Granconato:

“Tudo aquilo que não redunda em, ou contribui para, a Glória de Deus. É um mal orientado contra Deus, que envolve ato, natureza e culpa”. (cf. 1Jo.3.4)

Definição Segundo Strong:

“Pecado é a falta de conformidade com a Lei moral de Deus quer em ato, disposição ou estado”.

  • a. A definição admite que o pecado é apenas atribuído a agentes racionais e voluntários.
  • b. “Admite, contudo, que o homem tem natureza racional submissa à consciência e uma natureza voluntária independente da verdadeira vontade”.
  • c. “Sustenta que a lei divina requer semelhança moral com Deus nos sentimentos e tendências da natureza bem como nas atividades exteriores”.
  • d. Assim, a conclusão correta que chega-se é que a falta de conformidade com a santidade de Deus em disposição ou estado está em igualdade a um ato de violação da lei, ou um ato de transgressão.

 

Três princípios podem ser ressaltados aqui:

(1) A santidade pertence à Natureza de Deus;

(2) a vontade, é um estado permanente da alma;

(3) a lei exige conformidade com a santidade de Deus.

 

Esses conceitos sustentam a idéia de pecado como estado, pois, uma vez que, como o pecado original (que foi um ato consciente e ativo da vontade) ultrapassou de maneira negativa a santidade, que pertence à Natureza de Deus, bem como sua Lei moral preestabelecida, o homem passa a ter permanentemente a conseqüência moral dessa infração. Por conseguinte, o homem não está apenas sujeito a atos de pecado, mas imerso em um estado de pecado pela constante impossibilidade de adequar-se à Lei moral de Deus e à Sua Natureza. Isso é estado, e em função dele é que decorrem os atos.

Condição Original do Homem

Enviado em Hamartiologia tagged , às 2:19 pm por Marcelo Berti

“Nada de Grande existe na terra a não ser o homem; nada há de grande no homem a não ser sua mente”

Sir William Hamilton

 

“Que obra prima é o homem! Como é nobre pela razão! Como a sua faculdade é infinita! Em forma de movimentos, como é expressivo e maravilhoso! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência como se parece com um Deus”

Shakespeare

 

“O homem é maior que o universo; o universo pode esmagá-lo, mas não sabe que está esmagando um ser humano”

Blaise Pascal

 

“Nem uma excelente alma está isenta de um misto de loucura”

Aristóteles

 

“Não existe grande gênio sem uma tinta de loucura”

Sêneca

 

“Homo mortalis deus”

Cícero

 

 

Ao tratar do homem como criação de Deus, pode-se chegar a conclusões como essa: Existe uma dignidade latente no homem. Existe algo de realmente grandioso no homem. Mas deve-se ressaltar que isso é apenas perceptível no homem original. Não podemos elevar o homem às alturas, pelo fato de que hoje não está na mesma condição, está destituído de Deus, alheio à Sua Vida. É como um belo pássaro livre gravemente machucado, tem asas mas não pode voar.

Devemos ter uma concepção clara do que é o homem original, quais suas qualidades essenciais, sua postura, suas características pessoais e espirituais. Temos que abordar o homem original como peça única de toda uma criação, visto que após ele apenas sobraram apenas resquícios da criação original.

A abordagem sobre a condição original do homem é intimamente ligada ao fato de que o Homem é criado a Imagem de Deus. Essa definição merece atenção pelo fato de que historicamente diferentes abordagens foram realizadas gerando grandes conflitos teológicos. É possível notar três grandes abordagens sobre o assunto: Protestante, Católica e Racional.

A abordagem Protestante afirma que o homem foi criado por Deus em um estado de justiça e santidade. A Católica afirmar que o homem foi criado, mas que sua justiça original lhe foi acrescida, por isso veio a cair. A última abordagem formada por, pelagianos, soncinianos e arminianos afirma que o homem foi criado em um ambiente de neutralidade moral, mas completamente dotado de livre-arbítrio, de modo que pudesse seguir para essa ou aquela direção (“o homem determina sua própria condição moral“). Entretanto, de acordo com os relatos bíblicos podemos notar que dois aspectos sintetizam a condição original do homem: Semelhança natural e moral com Deus. O que se pode afirmar, por ora, é:

“O estado original do homem deve (1) contrastar-se com o pecado; (2) ser um paralelo com o estado de restauração[1]

 

A.           Semelhança natural com Deus

Semelhança natural está ligada ao fato da pessoalidade do homem. Segundo STRONG, “pessoalidade é o duplo poder de conhecer a si mesmo relacionado com o mundo e com Deus e determinar o eu com vistas aos fins morais” (pp.89).

 

Pessoalidade = Auto-conhecimento + Auto-determinação.

 

O homem, mesmo sendo criado à imagem de Deus, não é a representação exata de Deus. O homem possui características derivadas do próprio Deus, que dão a ele a dignidade de ser um ser humano. Sem tais características, o homem não pode ser humano. Mesmo a insanidade não reduz o homem a uma condição animal, nem mesmo a uma categoria subumana, mas obscurece essa Imagem em que o homem foi criado.

 

Não há dúvidas que o fato do homem ser criado segundo a Imagem de Deus implica que até mesmo os aspectos mais naturais do homem derivem de Dele. Ou seja, as faculdades intelectuais, sentimentos naturais, liberdade moral e a volição, no homem são reflexos do que Deus é em primeiro lugar.

Por ser criado à Imagem de Deus o homem dispõe de uma capacidade moral e racional. Essas capacidades asseguram a condição de homem ao ser humano, e é impossível que participe dessa condição sem a presença dessas dádivas. Ou seja, embora o homem hoje esteja em um estado de pecado, não perdeu completamente essas características, mas é impossível que elas sejam exatamente como foram outrora.

Portanto, é importante evidenciar que, ainda que o homem tenha a capacidade moral e intelectual, ela foi maculada pelo pecado. Entretanto, é válido demonstrar que mesmo após a queda o homem é apresentado como sendo imagem de Deus (Gn.9.6; 1Co.11.7; Tg.3.9). Segue-se que é impossível afirmar que o homem perdeu totalmente a Imagem de Deus, da mesma forma que é impossível afirmar que ela seja identicamente a mesma.

A imagem de Deus no homem, mesmo hoje, ainda aufere a tal uma dignidade que ninguém pode retirar dele. Pode notar tal afirmação no exemplo abaixo:

 

“Robert Burns, andando com um nobre em Edimburgo, encontrou um velho conterrâneo de Ayr e parou para conversar com ele. O nobre ficou esperando com crescente importunação, e, depois, repreendeu Burns por conversar com um homem de péssimo paletó. Burns respondeu: ‘Eu não estava conversando com o paletó; eu estava conversando com o homem”.

 

Contudo, é necessário que se afirme que apenas Cristo é a Imagem de Deus de maneira completa. Isso é observado em Hb.1.3, que afirma que Cristo é a “expressão exata do ser de Deus”. Em Cl.1.15 fala que Cristo é a Imagem do Deus invisível. Assim, Cristo é de forma absoluta a Imagem de Deus.

 

 

 

B.            Semelhança moral com Deus

Como é de conhecimento geral, Deus é santo por definição. Para que Deus possa ser Deus, é necessário que Ele usufrua de Santidade Absoluta.  Se o homem é criado à Imagem de um Deus Absolutamente Santo, é óbvio que este desfrute da santidade de Deus. Entretanto, o homem original é o reflexo finito deste atributo moral de Deus, que lhe foi comunicado.

Em Eclesiastes, Salomão faz um reconhecimento muito verdadeiro. Segundo seu entendimento Deus fez o homem “reto” (Ec.7.29). A palavra usada por Salomão, traduzido por reto, denota que Deus fez o homem “upright” em todos os seus caminhos, ações, modo de vida, intenções do coração, mente e vontade.

Essa percepção inibe a possibilidade de que se afirme que o homem tenha sido criado inocente. A inocência é apenas possível àqueles que tendo não tendo consciência sobre algum ato malévolo e não se encontre culpado diante dele. O homem original era plenamente consciente sobre suas obras. Ele não era uma criança que não tem conhecimento da maldade que pode realizar, e não pode compreender plenamente suas capacidades morais, a ponto de descobrir que pode fazer mal uso delas. O homem original é marcado pelo pleno conhecimento:

 

“Não mintais uns aos outros,, uma vez que vos despistes do velho homem com seus feitos, e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl.3.10)

 

O texto citado utiliza o verbo “refazer”, que pode ser traduzido como “renovar”. Ambas palavras reportam ao fato de que o novo homem é feito novamente ou renovado. Assim, pode-se afirmar que na regeneração o homem retoma progressivamente a característica original do homem criado a Imagem de Deus. Se isso é verdadeiro, como é bem demonstrado como tal, o homem original desfrutava de uma condição de CONHECIMENTO PLENO.

Se o homem original é marcado por um conhecimento pleno, não é possível que sofra da deficiência exigida por aqueles que afirmam sua inocência. É impossível que o homem deixe de conhecer ou compreender perfeitamente sua condição moral. Logo, não é ingênuo, é SANTO.

O Novo Testamento testemunha esse fato. Em Efésios, Paulo faz semelhante afirmação:

 

“…e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef.4.24)[2]

 

Neste texto acontece mesmo fenômeno que acontece em Cl.3.10, pois se nota que na salvação o homem retorna a uma posição que perdeu com a entrada do pecado. Se isto é verdadeiro, o homem original vivia plenamente em justiça e retidão. Retidão é exatamente a mesma palavra utilizada em Lc.1.75, quando Zacarias afirma que Deus os libertou para que pudessem adorar sem temor e em “santidade”. É certo que a palavra em questão, em sua literalidade, significa santidade. Se isto é verdadeiro, a conclusão correta é que a Condição do Homem Original é de Santidade (Retidão) e Justiça.

Portanto, “a criação do homem segundo esta imagem moral implica que a condição original do homem era de santidade positiva, e não um estado de inocência ou de neutralidade moral[3]“.


[1] PHILLIPPPI, Glaubenslehre In: STRONG, Augustus Hopkins, Teologia Sistemática. Vol. II, pp. 87.

[2] Deve-se ressaltar que a palavra retidão, originalmente carrega a idéia de santidade, e que segundo a tradução KJV pode-se ler: “verdadeira santidade“. Entretanto, o termo referente a verdade é um Genitivo de Origem, ou seja, justiça e santidade procedem da verdade, como ficou bem demonstrada pela tradução ARA.

[3] BERKHOF, Louis, pp. 189

Conseqüências da Queda

Enviado em Hamartiologia tagged , , às 2:17 pm por Marcelo Berti

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De acordo com o gráfico acima demonstrado, podemos relevar algumas informações importantes com respeito a realidade da destruição do pecado na humanidade. 

A.           Separação Espiritual: o homem e o Criador

A Queda implica diretamente na separação espiritual com Deus. Em função da entrada do pecado no mundo, o homem está privado de desfrutar dessa bem-aventurança, pois Deus não pode conviver, nem manter comunhão com o pecado. Por essa razão afirma-se não existir mais comunhão direta entre Deus e os homens. No relato de Gênesis, vemos que após cometerem uma infração direta à Lei de Deus, tanto o homem como a  mulher “esconderam-se“. Isso implica que a comunhão com Deus havia sido quebrada.

B.            Separação Psico-somática: o homem em si mesmo

O homem, em função do pecado, sofre da falta de unidade no que tange aos aspectos imateriais do homem. Ou seja, o pecado desestabilizou a harmonia inicial do homem, e devido a isso, não pode portar-se de maneira irrepreensível diante da Lei de Deus, e do próprio Deus. E as conseqüências ainda podem ser claramente observadas: A mulher passa a sofrer as dores do parto (3.16), o homem a penar em sua labuta diária (3.19a) e a morte passa a reinar na experiência humana (3.19b), sem contar que suas inclinações, agora, propendem ao pecado, ao erro, à pratica do mal orientado contra Deus.

 

C.           Separação Sociológica: o homem do homem

O homem não perde apenas comunhão com Deus, e harmonia consigo mesmo, mas em função do pecado o homem está separado do homem. Em Gênesis 3 podemos ler a seguinte declaração: 

Então disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi (v.12) 

O primeiro conflito do homem encontra-se no contexto matrimonial. Ou seja, entre homem e mulher o conflito já estava anunciado na queda. Contudo, Deus ainda profere punições para esse relacionamento: 

E à mulher disse: (…) o teu desejo será para[1] o teu marido, e ele te governará. E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher, e comeste da árvore que eu te ordenara não comesse…(16-17).

O que se nota é que não existe mais harmonia matrimonial, antes sobressai o conflito existente nessa relação, como conseqüência do pecado. Entretanto, o relacionamento homem mulher não é o único prejudicado, mas qualquer espécie de relacionamento, pois em Gn.4 podemos notar o ciúmes e o homicídio de Caim para com Abel.  

D.           Separação Antro-ecológica: o homem da natureza

O relacionamento do homem para com a natureza é também afetado, pois é necessário que o homem viva em constante trabalho para sua sobrevivência (3.18-19). Entretanto, esse trabalho é enfadonho agora, pois a terra precisa ser cuidada para que de fruto. 

E.            Separação Ecológica: a natureza da natureza

Por conseqüência do pecado , a natureza passa a sofrer. Note que agora a “terra é maldita”, “produzirá cardos e abrolhos” e esta sujeita à vaidade (Rm.8.20; cf.Is.11.6s; 65.25).

 

F.            Separação Final

No meio do juízo adâmico, o Senhor Deus deu a promessa da vitória sobre Satanás através da semente da mulher (Gn.3.15). A promessa de bênção (1.28) por meio de um filho prometido é a chave da teologia bíblica. Quando o Deus Pai não pode olhar para o Filho na cruz, houve uma divisão catastrófica que pagou o preço de todo pecado e destruiu a base do juízo. Na divisão na cruz, a solução de cada divisão da Queda é providenciada e garantida. Agora, a reconciliação com Deus e a cura parcial nos níveis psicológicos e sociais pode ser realizados através da fé. E, no futuro, a cura e a restauração completa (até da natureza) ocorrerão. A história ainda vai ver a salvação de Cristo, não por meio do esforço humano, mas pela intervenção divina. Assim, eliminada a causa, cessam as conseqüências.

 

A cura total e completa tem dois fatores:

# completa erradicação do pecado

# completa restauração da criação

Ambos os fatores serão completos no futuro.

 


 

[1] A idéia da preposição hebraica sugere que o desejo da mulher será contra o marido.

Depravação do Homem

Enviado em Hamartiologia tagged , , às 2:11 pm por Marcelo Berti

O pecado, como demonstrado, não é apenas uma atividade, um ato de agressão à dignidade e santidade de Deus, mas é tudo o que não se conforma com a Lei Moral de Deus, e isso inclui o estado em que o homem se encontra, bem como a culpa judicial que carrega.

Assim, notamos que a Natureza Pecaminosa do homem, o estado em que se encontra, tem grande importância no estudo teológico, e, nessa altura, nasce uma pergunta: “Qual é a abrangência dessa Natureza Pecaminosa?”. Para responder a essa pergunta, devemos, primeiramente, demonstrar o termo teológico que sugere essa abrangência: Depravação. Dessa forma, em outras palavras poderíamos perguntar: “Essa depravação, é total ou parcial?”.

 

A.           Depravação Total

A pergunta em pauta exige certa explicação, pois é possível que exista uma má compreensão dos termos empregados, fazendo com que a conclusão seja errônea. Com Depravação afirma-se a falta de retidão original, por um lado, e, por outro lado, a corrupção moral ou inclinação para o mal. Assim, essa Depravação pode corromper parte do homem ou o homem como um todo, o que seria a Depravação Parcial ou Depravação Total, respectivamente.

Diante do relato bíblico, seria incorreto afirmar que um aspecto da constituição imaterial do homem seja maculado pelo pecado, enquanto outro não. Dessa forma, se pode afirmar que a Depravação do Homem é total, ou seja, todos os aspectos do homem foram corrompidos pelo pecado. Entretanto é válido demonstrar que afirmar que todos os aspectos do homem são corrompidos, não significa que eles são aniquilados, ou seja, eles ainda existem, mas estão estragados, decompostos. Assim o homem é totalmente depravado. Contudo, muitas vezes esta frase é mal compreendida, e, portanto requer cuidadosa interpretação.

Negativamente não implica

(1)     que todo homem é tão completamente depravado como poderia chegar a ser;

(2)     que o pecador não tem nenhum conhecimento inato de Deus, nem tampouco tem uma consciência que discerne entre o bem e o mal;

(3)     que o homem pecador raramente admira o caráter e os atos virtuosos dos outros, ou que é incapaz de afetos e atos desinteressados em suas relações com o semelhante;

(4)     que todos os homens não regenerados, em virtude da sua pecaminosidade inerente, se entregarão a todas as formas de pecado: muitas vezes acontece que uma forma de pecado exclui a outra.

(5)     que o pecador seja destituído de consciência;

(6)     que o pecador seja desprovido de todas as qualidades agradáveis e úteis aos olhos do homem;

 

Positivamente indica

(1)     que a corrupção inerente abrange todas as partes da natureza do homem, todas as faculdades e poderes da alma e do corpo;

(2)     que absolutamente não há no pecador bem espiritual algum com relação a Deus, mas somente perversão. (Rm.7.18; 2Tm.3.2-4).

(3)     totalmente destituído daquele amor a Deus (Jo.5.42).

(4)     carregado de desejo que ultrapassa a consideração por Deus e sua Lei (2Tm.3.4).

(5)     supremamente determinado em sua preferência do “eu” (egoísta) em relação a Deus, interna ou externamente ((2Tm.3.2).

(6)     possuído de aversão a Deus (Rm.8.7).

(7)     desordenado e corrompido em cada faculdade (Ef.4.18; Tt.1.15; 2Co.7.1; Hb.3.12).

 

B.            Incapacidade Total

Com respeito ao seu efeito sobre os poderes espirituais do homem, a Depravação Total tem como conseqüência lógica a Incapacidade Total, ou seja, diante de Deus o homem é incapaz de agradá-lo.

Aqui, de novo, é necessário fazer adequada distinção. Na atribuição da incapacidade total à natureza do homem, não queremos dizer que é impossível fazer o bem em todo e qualquer sentido da palavra. Os teólogos Reformados geralmente dizem que ele ainda é capaz de realizar:

 

(1) o bem natural;

(2) o bem civil ou a justiça civil;

(3) externamente, o bem religioso.

 

Admite-se que mesmo o não regenerado possui alguma virtude, a qual se revela nas relações da vida social, em muitos atos e sentimentos que merecem a sincera aprovação e gratidão dos seus semelhantes. Ao mesmo tempo, afirma-se que esse mesmo ato e sentimentos, quando considerados em relação a Deus, são radicalmente defeituosos. Seu defeito fatal é que não são motivados pelo amor a Deus, nem pela consideração de que a vontade de Deus os exige, e muito menos, orientados para conceder ou atribuir Glória a Deus.

Quando falamos da corrupção do homem em termos de incapacidade total, queremos dizer duas coisas:

(1) que o pecador não regenerado não pode praticar nenhum ato, por insignificante que seja, que fundamentalmente obtenha a aprovação de Deus e corresponda às exigências da lei Santa de Deus;

(2) que ele não pode mudar sua preferência fundamental pelo pecado e por si mesmo, trocando-a pelo amor a Deus; não pode sequer fazer algo que se aproxime de tal mudança. Numa palavra, ele é incapaz de fazer qualquer bem espiritual. Há abundante suporte bíblico para essa doutrina: Jo.1.13; 3.5; 6.44; 8.34; 15.5; Rm.7.18, 24; 8.7,8; 1Co.2.14; 2Co.3.5; Ef.2.1, 8-10; Hb.11.6.

É válido demonstrar que a incapacidade do homem não tange apenas à sua moralidade, mas à sua insuficiência e insignificância diante da Majestade e Soberania de Deus. Qualquer atividade que tenha por foco distinto da Glória de Deus, não agrada a Deus. Não interessa qual seja essa atividade. Por mais que se reconheça a possibilidade da consecução de um bem natural, cívico, sem fé é impossível agradar a Deus (Hb.11.6).

 

C.           Depravação, Incapacidade e a Liberdade Humana

No que diz respeito a toda essa discussão sobre o pecado, é inevitável que uma questão seja lançada: “Teria o homem o livre-arbítrio?”. Essa questão deve ser respondida tanto positiva como negativamente.

Pode-se dizer que o homem inevitavelmente possua liberdade para realizar algo, ou deixar de realizar; adquirir ou não conhecimento; vestir essa ou aquela camisa; decidir o que lhe agrada e o que não lhe agrada; o que lhe é bonito ou não é bonito; neste sentido pode-se aplicar o termo livre-arbítrio.

Entretanto, por definição, o livre arbítrio é impossível, pois se refere principalmente às ações e à vontade humana, e pretende significar que o homem é dotado do poder de, em determinadas circunstâncias, agir sem motivos ou finalidades diferentes da própria ação. Ou seja, livre arbítrio é a habilidade de mover-se em direção a consecução de um ato almejado dentre algumas possibilidades, sem consideração de motivos ou circunstâncias, a ponto de não sofrer qualquer inclinação distinta do interesse de realizar este ato. Contudo, todo ato exige motivo ou interesse. Não existe ato absolutamente livre de qualquer inclinação, interesse ou motivo. Se as decisões para executar ou realizar algo não exigem pressupostos racionais, são espontâneas, e por conseqüência as decisões não são tomadas, elas acontecem. Segue-se que o livre arbítrio por definição é impossível.

Observe o exemplo sugerido por Rc. Sproul:

 

“A mula não tinha desejos anteriores, ou desejos iguais em duas direções diferentes. Seu proprietário pôs uma cesta de aveia à sua esquerda e uma cesta de trigo à sua direita. Se a mula não tivesse nenhum desejo (…) ela não escolheria nenhuma e passaria fome. Se ela tivesse uma disposição exatamente igual para a aveia e o trigo, ainda passaria fome. Sua disposição igual a deixaria paralisada. Não haveria motivo. Sem motivo, não haveria escolhas. Sem escolhas, não haveria comida. Sem comida, logo não haveria mula”.

 

Por mais que o homem tenha liberdade de escolhas, em algumas situações, como é reconhecido aqui, ele “perdeu a sua liberdade material, insto é, o poder racional de determinar o procedimento, rumo ao bem supremo, que esteja em harmonia com a constituição moral original da sua natureza. O homem tem, por natureza, uma irresistível inclinação para o mal. Ele não é capaz de compreender e de amar a excelência espiritual, de procurar realizar coisas espirituais, as coisas de Deus, que pertencem a salvação[1]“.

Sobre esse tópico, a Confissão de Westminster afirma:

 

“O homem, devido à sua queda num estado de pecado, perdeu completamente toda capacidade para querer algum bem espiritual que acompanhe a salvação. É assim que, como homem natural que está inteiramente oposto ao bem e morto no pecado, não pode, por sua própria força converter-se ou preparar-se para isso”.


[1] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. pp.231

Definição de Pecado

Enviado em Hamartiologia tagged , às 2:09 pm por Marcelo Berti

Antes de uma definição significativa do pecado é válido buscar informações tanto no Velho como no Novo Testamento, com a intenção de buscar informações que revelem a realidade do pecado.

 

Conceito no Velho Testamento

No Velho Testamento podemos encontrar as seguintes palavras normalmente encontradas com o sentido de pecado:

                   hatah – significa basicamente errar, tornar-se culpado;

                   heth’ – erro, malogro;

                   awon – iniqüidade;

                   pesha – transgressão, infração;

Nos profetas do Antigo Testamento, o pecado é muito mais que uma violação de regras, mas significa o rompimento de um relacionamento pessoal com Deus. Isso poder ser observado em Is.59.2:

 

Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça.

 

Assim, no Velho Testamento é claro que pecado é visto como uma transgressão direta à Lei de Deus, evidenciado por um erro moral que torna culpado diante de Deus.

 

Conceito no Novo Testamento

No Novo Testamento podemos ressaltar as seguintes palavras:

                   hamartano: não acertar o alvo, atingir alvo errado;

                   hamartia: transgressão, pecado. Normalmente visto como atos específicos;

Especialmente na literatura paulina, o pecado é observado como uma força em si, que opera no homem e o mantém cativo. Por vezes o pecado é personificado, como em Rm.7.20:

 

Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.

 

Segue-se que no Novo Testamento podemos perceber que o pecado é não acertar o alvo correto. Ou seja, não é um ato passivo, mas uma intenção determinada em não se conformar com a Lei preestabelecida. Assim, após observar o uso das palavras, uma definição de pecado pode ser assim esboçada:

 

“Tudo aquilo que não redunda em, ou contribui para, a Glória de Deus. É um mal orientado contra Deus, que envolve ato, natureza e culpa[1]“. (cf. 1Jo.3.4)

 

A abrangência do conceito do pecado pode ser observada pelo texto de 1Co.10.31, que diz: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus“. O que se nota neste texto é que mesmo as atividades mais simples, como comer e beber, podem ser maculadas pela presença de motivos ou propósitos distintos ao padrão estabelecido no referido versículo. Ou seja, qualquer atividade que não tenha como motivo primeiro a Glória de Deus, É PECADO! Assim, o pecado pode ser observado como a incapacidade de viver em conformidade com o que Deus espera de nós no que diz respeito a ATO, NATUREZA e a CULPA.

 

Ato

Ações que não se conformam com a vontade de Deus; qualquer falta de conformidade ativa com a lei moral de Deus. Essas ações podem ser praticadas ou não, pois segundo Tg.4.17, não fazer o que se deve fazer é pecado. Ou seja, omitir-se de responsabilidades é PECADO. Diante desse fato, qual é a relação entre o cristão e o pecado como Ato?

 

TEXTOS

IMPLICAÇÕES

1Jo.1.10

O cristão não está livra da prática do pecado.

Jo.3.6

Neutralização[2] do poder do pecado na vida do cristão.

2Co.3.18

A santificação pressupõe a imperfeição moral de crente.

Ef.4.17-29

O  cristão deve abandonar os atos.

1Jo.2.6

Deve imitar a Cristo em sua vida.

 

Em caso do cristão incorrer na prática do pecado ele pode confessar. Em 1Jo.1.9, a palavra utilizada é “ovmologe,w” (omologéo), de onde procede nossa palavra HOMOLOGAR. Ou seja, a confissão de pecado nada mais é do que dizer a mesma coisa, ou falar em conformidade, ou conformar-se, ou concordar com o que a  Palavra de Deus diz e reconhecer sua falha em arrependimento. Entretanto, é necessário que cristão não apenas confesse o pecado, mas também deixe o pecado:

 

O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia (Pr.28.13).

 

Mas, a essa altura é necessário que se diga que a disposição de Deus em perdoar não serve como desculpa, ou estímulo para a prática do pecado:

 

Todo aquele que permanece nele [em Cristo] não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu (…) Aquele que pratica[3] o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. (1Jo.2.7-9).

Natureza

É uma inclinação herdada, dedes Adão, potencialmente presente em todos, para a prática do mal orientado contra Deus.  Essa inclinação herdada é também chamada de “pecaminosidade”, e afeta o homem como um todo. Assim, nesse ponto as motivações são tão perniciosas quanto as ações.

Mas é importante ressaltar que não atinge apenas o homem como um todo, mas todo homem. Dessa forma, todo ser humano possui de maneira completa esta inclinação. Ou seja, “não é simplesmente que somos pecadores por que pecamos; [mas] pecamos por que somos pecadores[4]“. É o que Paulo afirma em Ef.2.3: “e éramos, por natureza, filhos da ira[5], como também os demais“.

O pecado, visto como essa inclinação, é considerado estúpido, por que não anula a consciência do homem. Em Rm. 7.15-17 podemos ler:

 

Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. 16 Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. 17 Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim

 

Sobre isso R.C. Sproul diz:

 

Parece estupidez  fazermos algo que sabemos que vai roubar-nos a felicidade. Contudo o fazemos. O mistério do pecado não é somente o fato da ser perverso e destrutivo, mas de ser estúpido[6].

 

O crente possui uma Nova Natureza, mas não anulou a Antiga Natureza pecaminosa, que ainda existe substancialmente: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena” (Cl.3.5). Com a conversão a Natureza Pecaminosa recebe um golpe substancial, embora não deixe de existir.

 

Culpa

O conceito de culpa nos dias atuais é visto de uma perspectiva incorreta, e por esse motivo leva a uma realidade também erronia sobre essa ela. Após o advento dos estudos de Freud, a culpa passou a ser vista como um sentimento irracional que não merece atenção, pois não prestamos contas a mais ninguém além de nós mesmos e algumas pessoas ao nosso redor. Assim, se ninguém é prejudicado por uma atividade pessoal, não existe motivo para ter culpa.

Contudo, a perspectiva teológica aborda a questão a partir da isenção de dignidade que o homem sofre diante de Deus. Portanto, culpa é mais que errar, executar algo mau ou sentir-se mal por isso, mas é o resultado da violação original da Lei Moral de Deus, e atinge judicialmente a todos os descendentes de Adão. Assim, a Culpa do Pecado provem do ato rebelde de Adão, e é imposta a todo o qualquer ser humano, de maneira que, esta redunda diretamente em condenação. 

Resumo

O Ato é Pessoal  –> Agrava a condenação

A Natureza é Herdada –> Viabiliza a execução do Ato

A Culpa é Imposta –> Gera Condenação

 


[1] GRANCONATO, Marcos Mendes. Teologia Sistemática 3, material não publicado.

[2] Neutralização não total, parcial.

[3] A idéia presente nesta palavra é a “prática constante” do pecado.

[4] ERICKSON, Millard J., Introdução à Teologia Sistemática.

[5] A expressão “filhos da ira” traz em si a idéia de “merecedor da ira”.

[6] SPOUL, R.C., Santidade de Deus.

Uma observação à Queda do Homem

Enviado em Hamartiologia tagged , , , às 2:06 pm por Marcelo Berti

A queda é o marco da origem do pecado no mundo e de todas as deficiências que existem nele. É o momento histórico que explica tanto a origem de todo o mal existente no mundo, como a concepção correta do pecado. Assim, não compreender o pecado do ponto de vista do Velho Testamento impossibilita vislumbrar a maravilhosa graça no Novo Testamento.

Da mesma forma, é necessário compreender a queda do ponto de vista teológico, pois apenas assim pode-se notar suas conseqüências danosas na humanidade, bem como em todos seus relacionamentos.

 

A.                          Queda como Fato Histórico

Para que a queda tenha qualquer sentido real, é necessário que os acontecimentos narrados em Gênesis sejam verdadeiros. Para que a salvação possa ter qualquer validade é necessário que exista uma deficiência que careça ser sanada. Ou seja, sem a queda não se pode reconhecer o pecado, e sem ele não há necessidade de salvação.

 

Jardim literal

Se os acontecimentos narrados em Gênesis são reais, era necessário um ambiente real para que atos reais possam ser executados. Segue-se a necessidade de um Jardim do Éden geográfico-histórico. Este Jardim é assim demonstrado pela literatura bíblica:

 

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…) Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”  (Gn.2.8,9,15)

 

 

Após o ato imediato da criação do homem, nota-se o seguinte texto que demonstra claramente a criação do Ambiente do Primeiro homem. Nota-se que Deus é a causa primeira deste Jardim que está localizado na terra, que já havia sido criada. A localização descrita pelo autor bíblico sugere que este Jardim estava situado na região da Palestina. Nos versículos que seguem podemos notar esse fato:

 

E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços (…) O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates” (Gn2.10, 14)

 

Os nomes de rios mencionados neste texto são muito bem conhecidos e Norman Geisler chega a sugerir que a Bíblia situa os rios na Assíria, atual Iraque[1]. As informações bíblicas são muito bem arranjadas, e isso faz com que alguns teólogos acreditem em uma inserção de informações posteriores. Mas tal informação é especulativa, visto não existir informações que sustentem essa opinião.

Por causa das especulações teológicas colocadas sobre o texto de Gênesis, é importante demonstrar que as evidências dão suporte para a interpretação normal do texto, que neste caso é literal.

Normalmente as objeções lançadas sobre a mitologia relacionada com o Jardim do Éden são colocadas em função da inexistência de artefatos arqueológicos que evidenciem tal existência. Contudo, é necessário que se demonstre que após a queda Deus selou o Jardim (Gn.3.24), isso impossibilitaria que qualquer evidência arqueológica fosse encontrada. Outro detalhe que merece atenção é que não existem evidências de que Adão ou Eva tenham se aplicado à produção de artefatos neste Jardim, nem mesmo se empenhado a qualquer espécie de construção. Ou seja, sem tais fatos é impossível que se encontre evidências arqueológicas. Se existisse, ainda, qualquer evidência, com o Dilúvio elas seriam destruídas (Gn.6-9; cf. 2Pe.3.5, 6).

A inclusão dos rios Tigre e Eufrates, que são reais, parece sugerir que o Jardim seja igualmente literal. A preocupação do autor bíblico em demonstrar os rios deve reportar-se ao fato de que tal Jardim seja também real.

Um ponto que merece destaque dentre os mencionados, é que o Novo Testamento testemunha sobre os fatos relacionados ao Jardim como reais. Fala da criação de Adão e Eva (Mt.19.4; 1Tm.2.13) e de seu pecado original (1Tm.2.13; Rm.5.12) . Assim, esses eventos reais precisam de um Ambiente Real para acontecer, um lugar geográfico-histórico.

 

Adão Histórico-literal

A argumentação que proporciona a interpretação mítica ou irreal é a consideração de que o autor utiliza-se de um estilo poético, repleto de paralelismo com outros mitos antigos e a suposta contradição entre o relato e a ciência. No entanto, para os escritores bíblicos, tanto Adão quanto Eva, são personagens históricos, e encontrados em uma leitura literal de Gênesis.

O primeiro fato que evidência a condição histórica de Adão é a própria narrativa de Gênesis. Embora muita discussão exista neste ponto, para aqueles que consideram o texto como fonte fidedigna de informações é o ponto de partida. Observe que o autor sempre demonstra Adão como uma pessoa real. Se Adão fosse irreal não poderia ter gerado filhos, e na narrativa de Gênesis ele perpetua a espécie humana, gerando filhos à sua imagem (Gn.5.3).

Outro detalhe importante dentro da narrativa de Gênesis é que a sentença “Este é o registro”, ou “são estas as gerações” encontradas para registrar a história do povo hebreu (cf. Gn.6.9; 10.1; 11.10, 27; 25.12, 19) é usada para o registro da Criação (2.4) e para Adão e Eva e seus descendentes (5.1).

Fora da narrativa de Gênesis é possível encontrar Adão como personagem histórico. Na cronologia encontrada em 1Cr.1.1, Adão encabeça a genealogia mais extensa das escrituras (1.1 – 9.44), que demonstra a historicidade das tribos de Israel e a importância da linhagem davídica. Mas para que esta genealogia tenha valor real é necessário que os personagens envolvidos seja igualmente reais.

O Novo Testamento testemunha a favor da historicidade de Adão. Em Lc.3.38 Adão é designado como um ancestral literal de Jesus,  e este, posteriormente, referiu-se a Adão e Eva como os primeiros “homem e mulher” literais, fazendo da união deles a base para o casamento (Mt.19.4).

Paulo em Romanos declara que a morte foi trazida ao mundo por um homem real (Rm.5.12, 14). Em Coríntios, Paulo faz uma comparação entre Cristo e Adão (1Co.15.45). Para Timóteo, Paulo afirma que primeiro foi criado o homem e depois a mulher (1Tm.2.13, 14). Ou seja, se as comparações e citações paulinas sobre os diversos assuntos que aborda fossem baseadas em mitologia, as asseverações morais seriam nada mais do que afirmações equivocadas e inválidas. Entretanto, não parece ser esse o caráter que Paulo escreve. Tanto ele, como os autores do Novo Testamento tem por certo de que os acontecimentos narrados em Gênesis são fatos. Assim, é impossível não crer na historicidade de Adão.

 

Evidências

A queda é considera verdadeira e histórica pelo fato de que a Literatura Bíblica, mesmo fora do relato de Gênesis, apresenta tanto a queda como verdadeira como os resultados desse evento:

 

  • Velho Testamento: Gn.3.20; 5.1-15; 10.1-32; 11.1-32; 1Cr.1.1; Jó.31.33; Ec.7.29; Is.43.27; Os.6.7.
  • Novo Testamento: Mt.19.4-5; Mc.10.6-7; Lc.3.38; Rm.5.12-21; 1Co.11.7-9; 15.22, 45; 2Co.11.3; 1Tm.2.13-14; Jd.14.

 

B.            Queda como Fato Teológico

A queda não é observada apenas do escopo histórico, mas também teológico. O primeiro visa a demonstração da queda como um fato dentro da história do homem. O segundo, por sua vez, tem por norte a demonstração das conseqüências evidenciadas pelos resultados observáveis. Ou seja, evidencia o pecado muito mais como FATO do que como ATO. Assim, em função do pecado:

 

  • 1. A natureza humana foi corrompida por inteiro. Todos os aspectos do homem foram pervertidos a ponto de deteriorar com o passar do tempo. (ver detalhes no ponto IV)
  • 2. A Imagem de Deus foi maculada. O homem não deixa de ser Imagem de Deus, mas não pode ter a mesma.
  • 3. A morte, tanto física como espiritual ,passou a reinar no homem. E como conseqüência, todos os descendentes de Adão sofrem com esse resultado danoso.

 

Em suma, a queda do ponto de vista teológico determinou a culpa judicial sobre a humanidade, o rompimento da comunhão entre Deus e o homem e a deturpação da perfeita e anterior “Imago Dei”. (Veja Gn.2.15-17 c/ 1Co.15.22 e Rm.5.12).


[1] GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética.

Introdução à Hamartiologia

Enviado em Hamartiologia tagged , , às 2:04 pm por Marcelo Berti

A doutrina do pecado é uma das mais importantes doutrinas da teologia crista, pois ocupa-se a ressaltar a condição que o homem está em função do pecado, demonstrar sua impossibilidade em agradar a Deus, com o objetivo de demonstrar que o homem está perdido e abismado em relação a Deus, e que, sozinho não pode fazer nada para alterar essa realidade.

 

Certamente nada nos ofende de forma mais rude do que esta doutrina [o pecado], e ainda assim, sem esse mistério, o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis para nós mesmos.

Blaise Pascal

 

Tão longe de nós, porém, este reconhecimento [homem com pecado] está de formentarnos a presunção, que antes, subjugada a ela, à humildade nos prostra.

João Calvino

 

Em função do pecado nascemos num mundo onde a rebelião contra Deus já tomou espaço e nos arrasta como numa correnteza..

Edward Oakes

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