04.28.09
Conceito de Redenção nas Escrituras
Bibliografia:
STOTT, A Cruz de Cristo; HARRIS, GLEASON, BRUCE, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento; COENEN, BROWN, O Novo Dicionário do Novo Testamento de Teologia; GRENZ, GURETZKI, NORDLING, Dicionário de Teologia; DOUGLAS, O Novo Dicionário da Bíblia; IRONSIDE, Grandes Vovábulos do Evangelho; TENNEY, The Pictorial Encyclopedia oj the Bible; GIRDLESTONE, Synonyms of the Old Testament; BUTTLER, Holman Bible Dictionary; EASTON, Easton’s Bible Dictionary; ORR, Internacional Standard Bible Encyclopedia; FAUSSET, Fausset’s Bilbe Dictionary; Léxicos: BDB Hebrew Lexicon; Friberg Greek Lexicon; Louw-Nida Greek Lexicon; Lidell-Scot Greek Lexicon; Thayer’s Greek Lexicon
Recentemente os símbolos tem sido grande foco de pesquisa e perguntas desde que Daniel Brown lançou o controvertido livro “O código da Vince” que fantasia a história de um professor de simbologia, Robert Langdon, que é acusado de assassinato no Louvre em Paris. Toda a trama policial, envolvendo idéias mirabolantes sobre o passado do cristianismo, é emoldurada por símbolos aparentemente desconexos. O autor deste romance aproveita do grande número de símbolos históricos para criar enigmas que serão solucionados a medida que os protagonistas compreendem o sentido primeiro de cada símbolo deixado.
O apreço por símbolos por parte do autor do livro fez com seus leitores ficassem intrigados com a profundidade de significado dos símbolos mais simples, e buscassem fontes fidedignas para comprovar seus significados. Por isso, os símbolos vieram a ter grande lugar na busca de significado na vida de muitas pessoas, tornado a simbologia uma ideologia comum entre muitos estudantes.
É bem verdade que símbolos não tem um significado único, mas conforme o tempo e a época, carregam um significado particular. Um exemplo disto é a flor de Lótus, que é normalmente associada ao budismo, mas já foi usada chineses, egípcios e hindus antigos. Contudo, apesar de sua variedade de significados, os símbolos sempre representam uma idéia central de determinado pensamento. E o cristianismo histórico não um exceção a esse fato.
Nos primeiros momentos da história do cristianismo, os cristãos adotaram o peixe como símbolo do cristianismo. Atualmente, alguns adesivos colados em carros, casas ainda levam esse símbolo. Mas qual é a razão da escolha desse símbolo?
Quando criança era muito curiosos, como a maioria das crianças, mas o meu desenvolvimento lógico era um pouco mais lento que o normal, e eu não conseguia entender a razão do peixe simbolizar a Jesus, como eu tinha ouvido falar em uma escola dominical. Certo dia ouvindo sobre a história da multiplicação dos pães, feita por Jesus, eu tive uma conclusão interessante: “Aqui está a resposta! O peixe que representa Jesus vem da multiplicação dos pães! O menino trouxe 2 peixes e 5 pães. E é lógico que o Peixe representa Jesus“.
Por certo essas não foram minhas palavras naquele dia, mas essa foi a conclusão que carreguei durante anos. Há pouco tempo atras eu compreendi o símbolo por trás do peixe escolhido pelos primeiros cristãos. Trata-se de um acróstico: “ichthus” que é a palavra grega para peixe foi assim demonstrada: “Iesus Christou Theou Huios Soter“, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A idéia é excelente, mas poucas pessoas poderiam compreender facilmente essa idéia.
Deve ser por isso que o símbolo mais conhecido do cristianismo e que o representa facilmente é a CRUZ. Contudo, “a escolha que os cristãos fizeram da cruz como simbolo de sua fé é tanto mais surpreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo[1]“. A crucificação sempre foi vista com horror pelo mundo antigo. Os gregos e romanos adotaram a crucificação, como pena capital, dos bárbaros, que eram caprichosamente cruéis em suas formas de execução. Para os romanos, a crucificação era aplicada somente a criminosos extremamente desumanos, para que pudessem sofrer muito antes de sua morte. Com a crucificação, era possível fazer com que o criminoso sofresse durante dias, e isso servia de ilustração para outros que tentassem trilhar o mesmo caminho. Então,
Por que razão o cristianismo escolheu a cruz?
Como já foi dito anteriormente, o símbolo é a expressão gráfica do cerne de uma idéia. E dessa forma, não haveria para o cristianismo outro símbolo tão apropriado quanto a cruz. A cruz em si, como acontecimento comum no antigo mundo romano, era deveras cruel. Era um símbolo de repulsa, medo, sofrimento e desprezo. Mas para o cristianismo é símbolo de vida e liberdade, pois representa a morte de Cristo. Com isso não negamos a crueldade com que foi executada, mas afirmamos o resultado obtido por essa morte.
A cruz, como evento histórico necessário, marca o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus:
- É na morte que a Obra Messiânica de Cristo é encerrada (Jo.19.30)
- É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3)
- A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como das suas boas obras (Tt.2.14)
- É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para a perdão dos pecados (Hb.9.15, 22; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14).
- É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12).
- É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24)
- Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)
De acordo com as colocações supracitadas, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se a cruz de Cristo, que representa Sua Morte em nosso favor. Aliás, cristianismo sem a cruz é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pois esta é o cerne de sua ideologia e fé. Se o que foi dito é verdadeiro, e o símbolo que deveria representar tal idéia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal para o Cristianismo.
E o que significa essa cruz senão nossa liberdade!? Nossa Redenção!? A remissão dos nosso pecados!? Comunhão com Deus!? É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de Jesus Cristo.
Cruz nos lembra a morte de Cristo, que nos garante a Redenção do pecado, que nos proporciona a perfeita vida eterna com Deus.
Com isso não estamos tentando minimizar nem a Vida nem a Ressureição de Cristo[2], que são igualmente essenciais para a expectativa e vida cristã. Mas, queremos enfatizar é que a Sua Morte é o cerne de Redenção administrada históricamente por Deus para a salvação da humanidade.
A.W Pink, quando escreveu o livro Deus é Soberano, adimitiu estar escrevendo um livro unilateral no que diz respeito ao relacionamento entre Deus e os homens no que tange a sua Soberana Administração e a volição dos homens dentro dessa Administração, pois estava interessado em enfatizar apenas o que diz respeito a Deus. No presente estudo, tenho interesse semelhante, pois quero tratar exclusivamente da morte de Cristo como cerne da Obra Redentora de Deus.
Contudo, para que isso seja corretamente exposto, teremos que passar pela História que envolve tal Obra, para, então, levantar sua realidade e aplicação. Para tanto, precisaremos passar por uma fase inicial de conceituação da Obra Redentora, observar termos envolvidos na literatura bíblica, observar algumas opiniões teológicas na história da teologia cristã, para então levantarmos um conceito aplicável para a realidade bíblica.
Conceito de Redenção
A palavra Redenção em si tem diversas definições, devido a sua origem. O Dicionário de Teologia de Grenz, Guretzki e Fee Nordling traz a seguinte definição: “Redenção é o processo pelo qual o homem pecador é resgatado da prisão do pecado e entra num relacionamento com Deus por meio de sua Graça e do pagamento feito na morte de Jesus. A redenção é uma das figuras metafóricas que o Novo Testamento usa para explicar a obra salvadora e misericordiosa de Deus em Jesus“.
Alguns pontos são notáveis em tal definição:
- Reconhecimento da Redenção como um Processo: Embora o reconhecimento seja ainda primário e pouco explorado, o conceito em si é bem colocado. O que tal definição expressa até aqui, é que existe uma progressão na vida do homem para que compreenda a verdade sobre Cristo e se aproprie dela.
- Reconhecimento do Pecado no homem como prisão: A idéia do pecado como prisão expõe em simples palavras a realidade da vida do homem. Como Jesus mesmo já afirmou, “todo que vive pecando é escravo do pecado” (Jo.8.34)
- Exaltaçã da Graça de Deus: A Graça de Deus não poderia ter sido deixada de lado quando falamos da Eterna Redenção que nos oferece em Cristo Jesus.
- Reconhecimento da Morte de Cristo como pagamento: Esse ponto é essencial para conceituação de Redenção. Sem tal premissa, toda definição estaria errada.
Contudo, não podemos considerar tal definição como suficiente. O autor dessa definição, por certo, não considerou as declarações que o Velho Testamento tem a dizer sobre o assunto. Sem contar que cre que o termo em pauta seja um figura metafórica utilizada no Novo Testamento. Tal colocação tende a minimizar o sentido original e básico do termo, e por certo sua aplicação pode ser assim, igualmente, minimizada.
Portanto, para uma compreensão e definição plausível e adequada, é necessário compreender os vocábulos envolvidos na literatura bíblica.
Definição Léxica
A redenção é objeto de estudo de critãos há muito tempo. Muito teólogos já se dedicaram a pesquisar e levantar questões bíblicas sobre o assunto. H.A. Ironside, foi um desses, e escreveu o excelente livro “Os grandes vocábulos do Evangelho, e em sua abordagem, Ironside faz a seguinte colocação sobre o termo em pauta: “A palavra ‘Redenção’ atravessa a Bíblia de capa a capa; de fato, podemos dizer sem qualquer sugestão de hipérbole que este é o grande e notável temo das escrituras Sagradas (…) Por toda parte, do Gênesis ao Apocalipse, encontramos Deus, de um modo ou de outro, a apresentar-nos a verdade da redenção – redenção em promessa e em tipo, no Antigo Testamento; redenção em gloriosos cumprimento no Novo Testamento[3]“.
Segundo Ironside, redenção refere-se ao ato da compra de algo que fora seu, readquirir algo que foi retirado temporariamente de seu poder. Pode ser empregado também como Liberdade, libertar, livrar, no sentido de redimir alguém que corria grave perigo.
Tal referência feita por Ironside, está em consonância com a maioria dos comentaristas e teólogos bíblicos. M.G. Easton, autor do Easton’s Bible Dictionary, concorda com Ironside e complementa que tal recuperação exige pagamento adequado[4]. Ray Summers, que participa da elaboração do Holman Bible Dictionary, nos lembra que “no uso antigo da idéia e das palavras apontam para uso de atividades legais e comerciais. Elas proporcionam aos escritores bíblicos uma das mais básicas e dinamicas imagens para descrever a atividade de Deus em salvar a humanidade[5]“.
Seguindo essas colocaçãoes sobre o assunto, vamos observar com mais atenção, o que a Bíblia tem a nos informar sobre o assunto. A idéia é buscar o conceito sendo exposto no Velho e no Novo Testamento..
Velho Testamento
O livro International Standard Bible Encyclopedia, organizado por Jamer Orr, diz que “a idéia de redenção no Antigo Testamento tem início a partir do conceito de propriedade (Lv.25.26; Rt.4.4ss)[6]“. Um preço era pago em dinheiro, em conformidade com a Lei, para comprar novamente uma propriedade que necessitasse ser libertada ou resgatada (Nm.3.51; Ne.5.8). E a partir deste uso, o termo no Antigo Testamento é usada normalmente com um senso de libertação, embora o idéia de pagamento esteja presente.
Nesse mesmo sentido levantado, Deus é visto como o Redentor de Israel, pois é aquele que provê Libertação para seu povo. Em Dt.9.26 temos uma bela demonstração desse fato: “Ó Soberano Senhor, não destruas o teu povo, tua própria herança! Tu o redimiste com a tua grandeza e o tiraste da terra do Egito com mão poderosa“. Como podemos observar, Deus é visto pelo escritor sagrado como “Aquele que Liberta“. Redenção aqui é vista exatamente neste sentido, e a história da saída do povo do Egito é a prova definitiva desse sentido. Obeserve:
E quem é como Israel, o teu povo, a única nação da terra que tú, ó Deus, resgataste para dela fazerdes um povo para ti mesmo, e assim tornaste o teu nome famoso, realizaste grandes maravilhas ao expulsar nações e seus deuses de diante desta mesma nação que libertaste do Egito? (2Sm.7.23)
Observe que os termos em destaque reportam-se ao termo hebraico “padâ“, que ainda será conceituado no presente estudo. Portanto, não podemos negar que o conceito de Redenção no Velho Testamento denota o sentido de libertar, e normalmente é vista em benefício do povo de Deus (1Cr,17.21 Is.52.3). A idéia de “Redenção” inclui a libertação de todas as formas de mal (Is.52.9; 63.9 cf. Lc.2.38), ou pragas (Sl.78.35, 52) ou qualquer tipo de calamidade (Gn.48.16; Nm.25.4, 9).
O Velho Testamento também apresenta a figura do homem endividado que poderia hipotecar seus bens para conseguir pagar o que estava devendo. Se porventura, ainda não fosse suficiente ele poderia hipotecar sua força, suas habilidades como um escravo até que sua dívida fosse paga: “Depois de haver-se vendido, haverá ainda resgate para ele” (Lv.25.48). Um irmão poderia, se tivesse condições, redimi-lo, mas não era o que normalmente aconteceria. Outra maneira de redimir esse homem seria se ele herdasse subitamente uma propriedade para, então, pagar sua dívida. Contudo, existe ainda outra possibilidade, e essa merece nossa atenção: É a figura do Redentor Parente. O redentor parente seria alguém com capacidade para remi-lo, e que se “preocupasse suficientemente por ele, a ponto de responsabilizar-se pelas dívidas e as solvesse, então poderia ser libertado[7]“.
Como podemos ver, a idéia de rendenção do Velho Testamento é bem sólida, baseada em fatos concreto. Contudo, para uma compreensão mais abrangente e coesa, é necessário conhecer os termos hebraicos envolviudos nesse contexto.
O Velho Testamento Hebraico utiliza os seguintes vocábulos para conceituar o que o Latim, língua materna do Português, chamou de “redemptio”, o Inglês de “redemption” e o português de “redenção“:
ga’al[8]
Gn. 48:16; Ex. 6:6; 15:13; Lv. 25:25f, 30, 33, 48, 54; 27:13, 15, 19, 27, 31, 33; Nm. 5:8; 35:12, 19, 21, 24, 27; Dt. 19:6, 12; Js.20:3, 5, 9; Rh 2:20; 3:9, 12; 4:1, 3, 6, 8, 14; 2 Sm. 14:11; 1 Re. 16:11; Ed. 2:62; Ne. 7:64; Jò 3:5; 19:25; Sl. 19:15; 69:19; 72:14; 74:2; 77:16; 78:35; 103:4; 106:10; 107:2; 119:154; Pv. 23:11; Is. 35:9; 41:14; 43:1, 14; 44:6, 22; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 26; 51:10; 52:3, 9; 54:5, 8; 59:3, 20; 60:16; 62:12; 63:3, 9, 16; Jr. 31:11; 50:34; Lm. 3:58; 4:14; Dn. 1:8; Os. 13:14; Mc. 4:10; Zc. 3:1; Ml. 1:7, 12
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, de Harris, Archer Jr., e Waltke, o termo significa basicamente “Redimir, vingar, resgatar, livrar, cumprir o papel de resgatador[9]“. Este verbete é o verbo denominativo, que dá origem a outros termos, tal como “geûllay” (que aparece uma única vez em Is.63.4 – redenção), “geûllâ” (direito de redenção, preço de redenção) e “go’el” (redentor).
O Velho Testamento utilza o termo em quatro situações distintas: (1) É usada na legislação do Pentateuco para se referir ao resgate de um campo que for a vendido em tempos de necessidade (Lv.25.25), ou ao escravo que se vendera em termos de miséria (Lv.25.48); (2) Diz respeito a propriedades e animais, que não eram dedicados ao sacrifício ao Senhor ou eram primogênitos de animais imundos (Lv.27.11ss) que poderiam ser resgatadas por um homem que pudesse dar algo equivalente em troca, embora o preço do resgate fosse maior, para evitar trocas desonestas; (3) Refere-se, também, ao “vingador de sangue“, que era o parente mais próximo de um homem assassinado (Nm.35.12ss). Como nas relações comerciais, era necessário um valor equivalente para que uma propriedade ou escravo fossem resgatados, neste caso, de vida retirada, com a vida do assassino seria paga, visto que o parente mais próximo é o “vingador de sangue“. Neste caso, o “redentor” é um executor da pena capital, mas sem culpa para receber mesma punição; (4) Um outro uso muito comum nos Salmos e nos profetas, é a identificação de Deus como Redentor de Israel. Neste caso, o preço da redenção não é citado, embora a idéia de julgamento sobre os inimigos de Israel seja citado em Is.43.1-3.
Um uso interessante do termo está lançado em Prv.23.10-11: “Não removas os marcos antigos, nem entres nos campos dos órfãos, porque o seu Vingador é forte e lhes pleiteará a causa contra ti“. Como é evidente pelo uso de letra maiúscula na tradução da ARA, o Vingador referido é Deus. A NVI traz a idéia de “aquele que defende” de maneira um pouco superficial, embora a colocação seja aceitável do ponto de vista léxico. A versão inglesa New International Version, traz a idéia de “Defensor”, enquanto a King James Version traz “Redentor”. Segundo Girdlestone “Deus assume o lugar de redentor-parente e também de vingador do pobre e necessitado“. Todas astraduções expostas levantam um aspecto do termo “goel“, sendo que é possível, diante de fartas opções, compreender o seu significado. Portanto, o que vemos neste texto é que existe uma combinação de sentidos de “goel“, que expõe de maneira clara o seu significado[10].
O texto clássico sobre redenção está em Jó.19.25: “Por que eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra“. Alguns cristãos do passado o assinalaram como uma referência à vinda de Cristo em sua obra messiânica, o que seria uma grande colocação. Contudo, considerando o argumento do proprio livro, e a situação de Jó, seria mais correto crer que faça referência a Deus, que, como amigo e parente resgatador, por meio da fé, por fim redimiria Jó do pó da terra. Por outro lado, não podemos negar que existe uma relação profética deste texto, com a Obra Messiânica realizada por Cristo.
padâ[11]:
Ex. 13:13, 15; 21:8; 34:20; Lv. 19:20; 27:27, 29; Nm. 3:49; 18:15ss; Dt. 7:8; 9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18; 1 Sm. 14:45; 2 Sm. 4:9; 7:23; 1 Re. 1:29; 1 Cr. 17:21; Ne. 1:10; Jo 5:20; 6:23; 33:28; Sl. 25:22; 26:11; 31:6; 34:23; 44:27; 49:8, 16; 55:19; 69:19; 71:23; 78:42; 119:134; 130:8; Is. 1:27; 29:22; 35:10; 51:11; Jr. 15:21; 31:11; Os. 7:13; 13:14; Mc. 6:4; Zc. 10:8
O Dicionário Internacional de Teologia traz a seguinte colocação sobre o termo “padâ“: “O sentido básico é o de conseguir a transferência de propriedade de uma pessoa para outra mediante pagamento apropriado de uma quantia ou de um substituto equivalente. A raiz ocorre em assírio com o sentido de ‘poupar’, e em ugartico é mais usada com o significado de ‘resgatar’. A raiz e seus derivados aparecem 69 vezes no AT[12]“.
O termo em pauta é um dos termos mais significativos para a idéia de “Redenção” do ponto de vista cristão, porque recebe influências históricas. No Êxodo o termo é usado em relação a redenção dos primogênitos de Israel, que são popado por substituição, enquanto os primogênitos do Egito são mortos (Ex.12.13, 15). Naquela ocasião, Deus livrou Israel da servidão pelo preço da morte de todos os primogênitos do Egito, sejam eles humanos ou animais (Ex.4.23; 12.29). O termo também é utilizado em relação ao leviatas e seus animais, que deveriam ser separados para Deus, em lugar do povo e de seus animais (Nm.3.44ss), que não eram dedicados aos Senhor (Ex.13.11-16; 34.19-20; Nm.18.8-32). “Aquilo que era santo para o Senhor, i.e., o primogênito de vaca, ovelha e cabra, não seria resgatado[13]“.
Um texto que merece nossa atenção aqui é Dt.15.15: “Lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito e de que o SENHOR, teu Deus, te remiu; pelo que, hoje, isso te ordeno“. Israel também é visto como receptor da libertação proposta por Deus. Portanto, o termo não trata exclusivamente da questão legal ou religiosa do povo de Israel, mas é aplicado à Obra de Deus em relação a seu povo. Tal idéia, ainda será exposta em outras épocas.
Em 2Sm.7.23 vemos uma colocação importantíssima: “Quem há como o teu povo, como Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo? E para fazer a ti mesmo um nome e fazer a teu povo estas grandes e tremendas coisas, para a tua terra, diante do teu povo, que tu resgataste do Egito, desterrando as nações e seus deuses“. O reconhecimento sobre o privilégio da nação de Israel é vista historicamente como consequência da Redenção de Deus, ou seja, da libertação do povo.
Inclusive, Isaías parece interpretar o chamado de Abraão como um ato remidor da parte de Deus: “Portanto, acerca da casa de Jacó, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão: Jacó já não será envergonhado, nem mais se empalidecerá o seu rosto“. Com mesma visão, anteviu aquil que Deus lhe revelara sobre o futuro de Sião: “Os resgatados do SENHOR voltarão e virão a Sião com cânticos de júbilo; alegria eterna coroará a sua cabeça; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido” (Is.35.10; cf. 50.2; 51.11; Zc.10.8).
Como “ga’al”, “padâ” é aplciado a diversasa situações, principalmente nos Salmos. Deus é apresentado como aquele que “liberta, redimi” os homens de algum perigo (Sl.26.11; 31.5; 34.22-23; 44.26; 71.23) ou das mãos de opressores (Sl.55.18-19; 69.18-19). Nesse contexto vemos que os Salmos ensinam a insuficiência do homem diante da morte, visto não poder fazer nada perante ela (Sl.49.8-9), mas demonstra que o poder redentor de Deus não está limitado a ela (v.15-16).
O mais interessante no uso deste termo é que uma única vez é utilizado em referência ao pecado: “Espere Israel no SENHOR, pois no SENHOR há misericórdia; nele, copiosa redenção. É ele quem redime a Israel de todas as suas iniqüidades” (Sl.130.8-9).
kapar:
Gn.32:21; Ex. 29:33, 36; 30:10, 15; 32:30; Lv. 1:4; 4:20, 26, 31, 35; 5:6, 10, 13, 16, 18, 26; 6:23; 7:7; 8:15, 34; 9:7; 10:17; 12:7f; 14:18ss, 29, 31, 53; 15:15, 30; 16:6, 10, 16, 20, 24, 27, 30, 32; 17:11; 19:22; 23:28; Nm. 5:8; 6:11; 8:12, 19, 21; 15:25, 28; 17:11f; 25:13; 28:22, 30; 29:5; 31:50; 35:33; Deut. 21:8; 32:43; 1 Sm. 3:14; 2 Sm. 21:3; 1 Cr. 6:34; 2 Cr. 29:24; 30:18; Ne. 10:34; Sl. 65:4; 78:38; 79:9; Pv. 16:6, 14; Is. 6:7; 22:14; 27:9; 28:18; 47:11; Jr. 18:23; Ez. 16:63; 43:20, 26; 45:15, 17, 20; Dn. 9:24 Is. 43:3; Am 5:12
Esse termo é o verbo denominativo dá origem a termos como “koper” (resgate, dádiva para obter favor), “kippur” (expiação) e “kapporet” (propiciatório, local da expiação). Embora exista muita discução sobre a raiz desse termo, alguns comentários devem ser elaborados. R. Laird Harris, no Dicionário Internacional de Teologia, diz que “a raiz kapar é usada cerca de 150 vezes. Tem sido objeto de intensos debates. Existe uma raíz árabe equivalente que significa ‘cobrir’ ou ‘ocultar[14]‘“. Girdlestone nos informa que o termo árabe mencionado pelo DITAT é “Kephr“[15], e que o sentido original é de se coberto ou protegido. Nos diz também que o termo tem 3 usos distintos do sentido original em hebraico mencionado acima: (1) Pode significar um vila, povoado, aldeia (Kaper-naum = Cafarnaum = vila de Naum; cf. 1Cr.27.25; Ct.7.12); (2) Pode referir-se a um planta (Ct.1.14; 4.13); e (3) pode significar calafetar com betume (Gn.6.14).
O conceito de “pecado coberto” é normalmente abordado por estudiosos da teologia sistemática, tal como Chafer, que diz que “a economia divina com respeito à disposição de tais pecados, representados nos sacrifícios de animais durante o extenso período entre Abel e Cristo, foi a de cobrir, como mostra a raiz hebraica kaphar, traduzida como expiação[16]“. Continuando seu raciocínio diz que o termo em pauta expressa com exatidão divina o conceito de cobrir. O International Standard Encyclopedia complementa, ainda, afirmando que o termo significa não apenas cobrir, mas também “cancelar, aplacar, oferecer ou receber uma oferta pelo pecado[17]“. O Holman Bible Dictionary contribui ao afirmar que “kapar” “é usado em conceitos e práticas estritamente religiosas. É da palavra “Kippur” que se origina “Yom Kippur”, dia da expiação, ou ‘dia de cobrir’, talvez o mais sagrado dos dias santos no Judaísmo. A forma verbal no Velho Testamento sempre é usada com um senso religioso de cobrir o pecado ou efetuar pagamento pelo pecado. Porém, a forma substantiva às vezes é usada no sentido secular de um suborno (Am. 5:12) ou resgate (Ex. 21:30). Com ‘padâ’, é usado no senso de resgate[18]“.
De fato, não podemos negar o que a escritura nos ensina sobre a morte expiatória de Cristo (sobre a morte de Cristo ser eficiente aos pecados cometidos antes de sua vinda ver At.17.30; Rm.3.26; Hb.9.15). Segue-se que o termo pode auxiliar na compreensão do conceito de “expiação“, como é visto por todo Velho Testamento. Portanto, concluímos que, apesar da dificuldade de identificação da aplicação do termo para a teologia do Velho Testamento, o termo é utilizado teologicamente com o conceito de “cobrir” os pecados (sobre essa conclusão, ver ISBE no tópico “The English Word”). Enfim, após algumas considerações etimológicas de aplicação teológica, vamos considerar o que o termo “Kapar” e suas variante podem nos auxiliar na compreensão de Redenção no Antigo Testamento.
Em Gn.32.20 vemo um uso interessante do termo “kapar”, pois a ARA traduziu o termo como “aplacar”, a NVI como “apaziguar” e a versão da Alfalit Brasil, como “perdoar”. O contexto é a reconciliação entre Jacó e Esaú, e um presente foi envidado adiante de Jacó, pois pensava que fazendo o presente chegar antes dele, seu irmão o perdoaria. O termo é usado neste contexto, e sua aplicação em português é bem vista com qualquer uma das possibilidades destacadas.
As sete ocorrências do termo em Exodo, seis são utilizadas na ARA com sentido de “expiação” e uma como “propiciação” (Ex.32.30). Em Levítico a maioria dos casos é traduzido como “expiação“. Em Nm.5.8 vemos outro uso que merece nossa atenção. A ARA traz a seguinte tradução: “Mas, se esse homem não tiver parente chegado, a quem possa fazer restituição pela culpa, então, o que se restitui ao SENHOR pela culpa será do sacerdote, além do carneiro expiatório com que se fizer expiação pelo culpado“. O termo “kapar” é traduzido pelo termo sublinhado no texto, mas o seu conceito é expresso pela colocação em negrito no texto. Ou seja, o bode expiatório, que era oferecido para morrer, tinha a função de “fazer restituição pela culpa“. Portanto, podemos notar que o sentido mais clássico do termo em relação a Teologia do Velho Testamento diz respeito a preço pago em favor de um débito. Deve-se lembrar que tal conceito aplica-se, não a dívida financeira, mas religiosa. Note os versos anteriores: “Dize aos filhos de Israel: Quando homem ou mulher cometer algum dos pecados em que caem os homens, ofendendo ao SENHOR, tal pessoa é culpada. Confessará o pecado que cometer; e, pela culpa, fará plena restituição, e lhe acrescentará a sua quinta parte, e dará tudo àquele contra quem se fez culpado” (v.6, 7).
Dos termos do Velho Testamento, o mais significativo em termos religiosos é “Kapar”. Sem sombra de dúvidas, o conceito de “expiação” é inexoravelmente ligado ao pecado. Uma simples abordagem de Levíticos deixará isso mais que evidente. A idéia de débito acompanhado pelo perdão é claramente observada na literatura vétero-testamentária. Observe a chamada de Isaías: “Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado” (Is.6.7; cf. Nm.15.28; Sl.653; 78.38; 2Cr.30.18-19).
Como pudemos ver, a idéia de Redenção exposta no Velho Testamento é concentrada em conceitos concretos e aplicada a práticas civis e religiosas. Entretanto, a idéia de preço adequado pago em função de um débito sempre está presente, bem como a idéia de substituição para essa reconstituição. Sobre o assunto, o Holman Bible Dictionary diz que “a doutrina de redenção no Velho Testamento não é derivada de pensamento filosófico abstrato, mas do pensamento concreto hebreu“. E isto foi bem observado em nossa exposição.
Novo Testamento
O Novo Testamento, ao contrário do Antigo, tráz conceitos mais claros para os cristãos mas, não perde de vista seu significado original. Como sabemos, o Novo Testamento aplica eficazmente o conceito vétero-testamentário à Jesus Cristo, como o Redentor do homem. Sobre isso, Ray Summers diz que “o Novo Testamento centra a redenção em Jesus Cristo. Ele comprou a Igreja com seu póprio sangue (At.20.28), deu-se pela vida do mundo (Jo.6.51), como Bom Pastor deu sua Vida por suas ovelhas (Jo.10.11) e demonstrou seu grande amor dando sua vida por seus amigos (Jo.15.13). O propósito de Jesus na terra foi realizar um sacrificío de Si mesmo para libertação do homem do pecado[19]“. Isso parece estar em concordancia com Merril C. Tenney, quando diz que “o coração da mensagem bíblica da redenção é a libertação do povo de Deus do domínio do pecado por meio do sacrifício substitutivo de Jesus Cristo e a sua consequente reconciliação com Deus e Seu Reino Celeste[20]“.
Diante das colocações neo-testamentárias, não podemos nos esquecer que tal sacrifício de Cristo em favor do homem é a maior prova da incapacidade do homem de libertar-se, por seu mérito ou capacidade, do pecado. Ironside, concorda com essa colocação, e diz que “não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humano[21]“. Ao tratarmos o assunto de Redenção no Novo Testamento temos que resgatar o sentido de deficiência humana perante Deus, em função do seu pecado. Não existem méritos no homem que o façam merecer o Sacrifício de Cristo. Não podemos retirar os perfeitos méritos de Cristo da questão. Sobre isso o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, organizado por Colin Brown, nos informa que:
“Sempre que os homens, por sua própria culpa ou através de algum poder superior ficam submetidos ao controle de outra pessoa, e perdem sua liberdade para implementar a vontade e as suas decisões, e quando seus próprios recursos são inadequados para enfrentar aquele outro poder, podem obter de novo sua liberdade somente mediante intervenção de um terceiro. No NT, conforme o aspecto encarado, o grupo de palavras gregas associado com lyo, sozo, rhyomai, é empregado para expressar semehante intervenção (…) No NT, estes termos se empregam de modo preeminente para a obra redentora de Cristo[22]” (grifo do autor).
J.D. Douglas acrescenta muito ao nosso estudo ao nos demonstrar uma outra perspectiva sobre a Redenção, ao dizer que “a redenção não somente lança os olhos de volta para o calvário, mas também comptempla a liberdade na qual se encontram os redimidos. [23]“. A idéia de liberdade após pagamento não deve ser deixada aqui. Aliás, tal conceito é necessário ser compreendido de maneira correta para que a Salvação oferecida por Jesus Cristo não seja mal interpretada. Lembre-se: quando Jesus disse, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo.8.32), os que o ouviram ficaram indignados por não conhecerem sua real situação diante de Deus, por isso Jesus acrescentou: “em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo.8.34). Apenas a verdade pode libertar o homem das amarras do pecado, e Jesus Cristo é a Verdade (Jo.14.6).
Para um compreensão maisq adequada da Redenção, vamos observar os termo envonvidos com esse conceito na Literatura do Novo Testamento:
lyo:
NT: Matt. 5:19; 16:19; 18:18; 21:2; Mk. 1:7; 7:35; 11:2, 4; Lk. 3:16; 13:15f; 19:30f, 33; Jn. 1:27; 2:19; 5:18; 7:23; 10:35; 11:44; Acts 2:24; 7:33; 13:25, 43; 22:30; 27:41; 1 Co. 7:27; Eph. 2:14; 2 Pet. 3:10ff; 1 Jn. 3:8; Rev. 1:5; 5:2; 9:14f; 20:3, 7; LXX: Gen. 42:27; Exod. 3:5; Jos. 5:15; Ps. 101:21; 104:20; 145:7; Job 5:20; 39:2, 5; 42:9; Isa. 5:27; 14:17; 40:2; 58:6; Jer. 47:4; Dan. 3:92; Apócrifos: 1 Es. 1:52; 9:13, 46; Jdt. 6:14; 9:2; Tbs. 3:17; 3 Ma. 1:4; 6:27, 29; 4 ma. 3:11; 7:13; 12:8f; Sir. 28:2; Dat. 3:92; 5:12
To termo Iyo significa basicamente “soltar, desligar, livrar, libertar, anular, abolir”, e como verbo denominativo dá origem a Iysis (soltura, divórcio), katalyo (quarto de visitas), akatalytos (indestrutível), eklyo (ficar solto, ficar cansado, ficar fraco), apolyo (livrar, libertar, soltar, perdoar, deixar ir, mandar embora, demitir, divorciar). Cada um dos termos derivados de Iyo é encontrado na LXX, o que atribui grande valor etimológico-conceitual ao termo em pauta no que tange ao conceito de Redenção.
Antes de observar como esse termo foi utilizado na LXX, é válido observar seu uso anterior à tradução da Torá para o grego, ou seja, é preciso ressaltar os usos do Grego Clássico. Na Odisséia, Homero utiliza o vocábulo com sentido da salvação oferecida pelos deuses aos homens, contudo sem nenhuma ligação com o conceito de pecado, demérito, ou inabilidade do homem em alcançá-la (Od.5, 397; 13, 321). Em outros autores, o conceito mais encontrado é “soltar” ou “libertar”. Portanto, a conclusão que pode-se auferir aqui é que a Etimologia de Iyo é vista fora da literatura bíblica está em harmonia com os usos bíblicos.
Na tradução da LXX o termo é visto algumas, mas em tradução a 7 diferentes termos hebraicos carregando sempre alguma idéia de “soltar” (cf. Ex.3 5; Js.5. 15 – referente a sandálias; Dn.3.9; 5.12 – resolver dificuldades; entre várias outras ocorrências). Entretanto, um texto deve ser vislumbrado aqui: Is.40.2: “Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pesados”. Aqui vemo o uso mais claro no VT referente a redenção. A idéia de perdão do termo Iyo é percebida pela tradução de rasah (heb), que significa ser favorável, perdoar, favorecer. A LXX faz a aplicação conceito do termo no sentido de libertar ou deixar ir a culpa pela iniquidade. Ou seja, o conceito do termo carrega a idéia de iniquidade como dívida ou débito, e que para que ela seja quitada é necessário ser liberto ou perdoado, como vemos no texto acima.
Outro texto que merece nossa atenção aqui é Jó. 19.25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”[24]. A idéia primária do texto está posta sobre Deus como Vindicador, visto não apresentar claramente a idéia de libertação do Sheol, mas da ajuda durante sua vida e resgate da justiça perdida. Neste ponto é clara a utilização de Iyo para traduzir go’el, com a intenção de apresentar o Resgate efetuado por Deus. Isso efetivamente acontece conforma exposto pelo cap.41 do livro de Jó.
Em Salmos vemos um texto que deve ser também analisado aqui: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu” (Sl.19.14). Aqui vemos a clara identificação de Deus como Redentor, ou seja, aquele que liberta. Novamente a idéia de Remidor parente está conceituada por Iyo na LXX.
No NT vemos o termo sendo aplicado em diversas ocasiões, tais como desatar a sandália (Mc.1.7; Lc.3.16; Jo.1.27; At.13.25; At.7.33 em relação a Ex.3.5), soltar o filhote da jumenta (Mt.21.2; Mc.11.2, 4-5; Lc.19.30-31, 33), soltar as cadeias de Paulo (At.22.30), desatar as ataduras de Lázaro (Jo. 1 1 .44), entre outros. Na verdade, o termo em paute é utilizado com quatro sentidos básico: (1) Libertar, Desligar, e é aplicado a Anjos (Ap.9. 14-15) e a Satanás (Ap.20.3, 7); (2) Em Lc.13 15-16 Jesus apresenta o conceito de libertar alguém de um problema espiritual (doença), que neste caso trata-se de um espírito de enfermidade. Sentido semelhante é visto em Mc.7 35; (3) Quebrar, desfazer (At.13.43), destruir (At.27.41); (4) Soltar, livrar da morte e do pecado (At.2.24; Ap.1.5) Em At.2.24 vemos que a ressurreição de Jesus rompeu os grilhões da morte, e em Ap.1.5 que o seus sangue nos libertou dos nossos pecados (cf.Ap.5.9; 7.14).
lytron:
NT: Mt. 20:28; Mc. 10:45; Lc. 24:21; Tt. 2:14; 1 Pe.1:18; LXX: Aparições como Verbo: Ex. 6:6; 13:13, 15; 15:13; 34:20; Lv. 19:20; 25:25, 30, 33, 48, 54; 27:13, 15, 19, 27, 31, 33; Nm. 18:15, 17; Dt. 7:8; 9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18; 2 Sm. 4:9; 7:23; 1 Re. 1:29; 1 Cr. 17:21; Ne. 1:10; Et. 4:17; Sl. 7:3; 24:22; 25:11; 30:6; 31:7; 33:23; 43:27; 48:8, 16; 54:19; 58:2; 68:19; 70:23; 71:14; 73:2; 76:16; 77:42; 102:4; 105:10; 106:2; 118:134, 154; 129:8; 135:24; 143:10; Pv. 23:11; Os. 7:13; 13:14; Mq. 4:10; 6:4; Sf. 3:15; Zc. 10:8; Is. 35:9; 41:14; 43:1, 14; 44:22ss; 51:11; 52:3; 62:12; 63:9; Jr. 15:21; 27:34; 38:11; Lm. 3:58; 5:8; Dn. 3:88; 4:27; 6:28; Apraições como substantivo: Ex. 21:30; 30:12; Lv. 19:20; 25:24, 26, 51; 27:31; Nm. 3:12, 46, 48, 51; 18:15; 35:31s; Pv. 6:35; 13:8; Is. 45:13; Apócrifos: 1 Macabeus. 4:11; As Odes de Salomão 1:13; Siraque. 48:20; 49:10; 50:24; 51:2; Salmos de Salomão 8:11, 30; 9:1; Adições a História de Daniel. 4:27
O termo tem grande significação na sua conceituação por sua imensa aparição na Versão Grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX). De fato, no Novo Testamento não faz mais que 5 manifestações sobre o termo[25], tanto na forma substantiva como verbal. A grande maioria das aparições de “lutron” são efetuadas na LXX, conforme podemos constatar acima. Nos livros apócrifos, que fazem parte da LXX, podemos notar o uso na forma verbal, o que evidencia que tipo de significado o termo carregava na época do seu uso. Um detalhe interessante é que apenas três vezes aparece no singular (Lv.27.31; Pv.6.35; 13.8), o resto está sempre no plural. Segundo o DITNT o sufixo tron traz a idéia de “instrumento ou meio mediante o qual se leva a efeito a ação do verbo, isto é, por meio da soltura, ou o pagamento[26].
Na Literatura Grega fora do NT, chamado Grego Clássico, encontramos comum uso de lytron em Platão, Xenofontes, Pindar e outros, com o sentido de “liberar alguém da miséria e da penalidade dos seus erros[27]“. Segundo Brown, o termo em pauta é utilizado fora da literatura bíblica desde o século V, as sua variante antilytron é apenas pós-bíblico. Os termos lytrosis e apolytrosis são raros e achados pela primeira vez no século primeiro. Contudo, a idéia de lytotes, redentor, não é encontrado fora da literatura bíblica. Portanto, notamos o valor do termo dentro da perspectiva teológica dos escritores neotestamentários e dos tradutores da LXX. Por certo tal termo tem significado importantíssimo para o conceito de redenção dentro da expectativa messiânica.
Na LXX[28] lytron traduz o termo hebraico kopper (cobir) em Ex.21.30; 30.12; Nm.31, 32; Pv.6.35; 13.8, com o sentido de oferta em troca por uma vida que está condenada ou está sujeita a castido divino. Traduz também alguns termos variantes de padâ (resgatar, redimir) como podemos observar em Nm.3.46-51. Em Lv.19.20 e Nm.18.35, onde vemos claramente o sentido da ação da redenção, bem como seu preço que deve ser pago aos primogênitos dos homens e dos animais que pertencem a Deus (sacrifício de um animal: Ex.13.13, 15; 34.20; pagamento em dinheiro: Ex.30. 13-16; Nm.18.15-16). Também traduz ga’al no caso do parente que tinha o direito e a obrigação de agir como redentor-parente (Lv.25.24, 26, 51-52). O sentido mais comum do termo pode ser percebido em Jr 32.7: “Eis que Hananel, filho de teu tio Salum, virá a ti, dizendo: Compra o meu campo que está em Anatote, pois a ti, a quem pertence o direito de resgate, compete comprá-lo” A princípio, o termo não tem aplicação religiosa, mas legal e civil.
No NT as declarações são mais claras e diretas, observe: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos[29]” (Mt.20.28; Mc.10.45; cf 1Tm.2.6[30]). A declaração de Jesus é feita em um contexto de liderança, quando Jesus apresenta o conceito de que veio para servir (cf. Lc.22.27). Aliás o foco é o serviço, mas Ele complemento com a expressão “dar sua vida em resgate de muitos”. Ao que tudo indica, parte de serviço de Cristo foi oferecer-se a Deus como pagamento efetivo da divida do homem perante Deus.
Neste texto vemos que o papel de Cristo em grego é desempenhado pelo vocábulo lytron, que seria um correspondente direto do grupo hebraico kipper. Assim concluímos que a morte de Cristo como resgate tem um aspecto propiciatório, bem como libertador. “Os muitos são livrados não somente da culpa, como também, ao mesmo tempo, das suas conseqüências, a morte e o julgamentos[31]“. Tal aspecto libertador acha paralelo na ocasião da Páscoa, em que o Povo de Deus foi liberto pelo sacrifício de um Cordeiro sem mácula. Assim, a conclusão levantada na Páscoa sobre o sacrifício ser anterior a liberdade, acha aqui seu ápice.
A pergunta feita por Cristo em Mc.8.37 (“Que daria um homem em troca de sua alma?”)parece ser satisfatoriamente respondida em Mc.10.45. Alias, é um contraste marcante com o texto apócrifo de Enoque 98.10: “E agora, sabei que fostes preparados para o dia da destruiição: portanto, ó pecadores, não tende esperança de viverdes, pois partireis e morrereis; pois não conheceis resgate algum; pois fostes preparados para o dia do grande julgamento, para a grande tribulação e grande vergonha para os vossos espíritos”.
A expectativa judaica para os pecadores, tal como ressaltado pelo texto de Enoque, é que sem resgate eles não tem outra alternativa. Por certo o argumento do texto apócrifo não expressa o reconhecimento de um Messias que redimiria o homem do seu débito com Deus, do seu pecado. É muito mais provável que esperassem no Messias um libertador, tal como Moiséis o fora. Observe que Estevão em seu discurso perante as autoridades judaicas apresenta a Moiséis como “chefe e libertador”(At.7.35). O termo que define Moisés como “libertador” é lytrotes, uma variante de lytron utilizada uma única vez em todo NT. Essa expectativa é vista em Simão, que segundo Lucas nos informa “esperava a consolação de Israel” (Lc.2.25) que em outras palavras significa esperava o Messias. A ele havia sido profetizado que morreria sem antes ter visto o Messias, e ao pegá-lo no colo, com oito dias de vida, ele declarou: “Agora Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra; por que meus olhos já viram a tua salvação[32]“(Lc.2.29-30). Fato semelhante acontece com Ana, uma profetiza vivua a oitenta e quatro anos que “falava a respeito do menino a todos que esperavam a redenção de Israel”(Lc.2.38). Há clara conexão entre as duas idéias aqui: Salvação e Redenção. O termo para salvação ainda será estudado (sotérios), mas redenção é exatamente lytrosis, outra variante de lytron. Ou seja, a expectativa judaica do Messias é que Ele seria o libertador, aquele que liberta (no sentido clássico de salvador), ou aquele que redimi seu povo. isso acompanhou o ministério terreno de Cristo, pois até mesmo após a sua morte tal expectativa ainda é encontrada. Isto é visto com os discípulos de Emaús, que em conversa com o próprio Cristo não o reconheceram e disseram: “O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc.24.19-21). A idéia do texto é que o Messias fosse aquele que libertaria Israel. O termo utilizado para “redimir” é a forma verbal de lytron, lytroö. Portanto conclue-se que a Liberdade oferecida por Cristo está além das expectativas dos primários discípulos (At. 1 6) e de todo Israel, como vimos nos textos mencionados.
Assim, Cristo é aquele que resgata o homem perdido (Mt 20 28; cf. Lc. 19. 10), por meio de sua Morte em favor deles, obtendo assim nossa “eterna redenção” (Hb.9.12). A colocação de “eterna” junto a “lytrosis” atribui infalibilidade e infinitude a esse resgate. Dessa forma conclui-se que aquele que é resgatado por Cristo, para Eternidade é resgatado.
Entrementes, ainda temos que observar dois textos que são importantíssimos para a conceituação de lytron da perspectiva da conduta cristã. 1 Pe. 1 .18 diz: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” Pedro tem a clara visão de que o sangue de Cristo é o preço oferecido pela liberdade desfrutada pelos cristãos. Mas, segundo a perspectiva de Pedro, tal resgate diz respeito ao fútil procedimento do homem. Assim, Cristo se propõe não apenas a conceder a Redenção eterna para eternidade, mas para a presente vida do cristão, a ponto de que ele não precisa mais viver;como antes, pois foi resgatado de lá. Sentido semelhante é demonstrado por Paulo em Tt.2. 14: “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. Portanto, conclui-se que Cristo não apenas efetuou pleno resgate no que diz respeito à nossa culpa perante Deus, mas Ele mesmo nos libertou do pecado e da Iniquidade, afim de nos purificar a ponto de sermos feitos um povo exclusivo Seu.
Com apolytrosis, podemos ver mais algumas colocações importantes para o conceito de redenção. Em Hb.9.12 vemos o conceito do sangue de Cristo como pagamento para redenção eterna. Em Ef 1.7 a idéia de Resgate, Libertação, Redenção é colocada lado a lado com a idéia de Remissão: “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” O Conceito de “no qual” é visto no verso anterior como “o Amado”, que é uma referência direta a Cristo. Assim, em Cristo temos a redenção, ou melhor, por meio do seu sangue temos a remissão dos pecados. Nesse texto temos a clara visão do pagamento efetivo da nossa divida a ponto de que nossos pecados são apagados, ou cancelados (cf. Rm.3.24; Cl.1.14; Hb.9.15).
Mas, ainda podemos encontrar um outro uso do termo apolytrosis, que é apenas visto em dois texto no NT. Em Rm.8.23 e Ef 1.14. Oserve: “E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso intimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8 23). O uso aqui dessa variante de lytron é claramente escatológica. Paulo em seu argumento no capítulo oito de Romanos deixa evidente sua expectativa sobre o futuro. Segundo Champlin, a redenção do corpo da perspectiva de Paulo, exige necessariamente a idéia, ainda que ausente neste trecho, a redenção, que é o cumprimento da adoção “Assim, pois, sob o titulo de ‘redenção do corpo: Paulo aponta, mais uma vez, para aquele exaltadíssimo conceito da glorificação em Cristo[33]“. Em contraste com as filosofias e ideologias não cristãs, que pregam a imortalidade da alma, até mesmo como o judaísmo pregou, o cristianismo apresenta com conceito além: A redenção do Corpo, ou, a Glorificação. Essa expectativa pode ser norteada pela experiência do próprio Senhor. Semelhantemente, Ef. 1 .14 nos diz: “qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (cf. Ef.4.30). O selo do ES no cristão é a garantia do resgate da propriedade de Deus. Ou seja, o cristão como propriedade particular de Deus, será aproximado junto a Ele no futuro, sendo que isso é garantido pelo selo do ES. Portanto, em linguagem claramente judaica, Paulo nos informa sobre o valor futuro da Redenção.
Em Sentido e Linguagem similar Lucas apresenta um discurso apocalíptico de Jesus, onde ele apresenta o conceito futuro da redenção: “exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima”. A idéia da proximidade da Redenção é introduzida pela expressão: “Então virá o Filho do Homem” em uma auto-referência. Assim, o estágio final dessa redenção levado a efeito em um futuro próximo, tal é nossa esperança e expectativa.
rýomai:
NT: Mt. 6:13; 27:43; Lc. 1:74; Rm. 7:24; 11:26; 15:31; 2 Co. 1:10; Cl. 1:13; 1Ts. 1:10; 2Ts. 3:2; 2Tm. 3:11; 4:17f; 2 Pt. 2:7, 9; LXX:Gn. 48:16; Ex. 2:17, 19; 5:23; 6:6; 12:27; 14:30; Js. 22:22, 31; Jz. 6:9; 8:34; 9:17; 11:26; 18:28; 2Sm. 12:7; 14:16; 19:10; 22:18, 44, 49; 2Re. 18:32f; 19:11; 23:18; Ed. 8:31; Ne. 9:28; Es. 4:8, 17; 10:3; Sl. 6:5; 7:2; 16:13; 17:1, 18, 20, 30, 44, 49; 21:5, 9, 21; 24:20; 30:2, 16; 32:19; 33:5, 8, 18, 20; 34:10; 36:40; 38:9; 39:14; 40:2; 42:1; 49:22; 50:16; 53:9; 55:14; 56:5; 58:3; 59:7; 68:15, 19; 70:2, 4, 11; 71:12; 78:9; 80:8; 81:4; 85:13; 88:49; 90:3, 14; 96:10; 105:43; 106:6, 20; 107:7; 108:22; 114:4; 118:170; 119:2; 123:7; 139:2; 141:7; 143:7, 11; Prov. 2:12; 6:31; 10:2; 11:6; 12:6; 13:17; 14:25; 22:23; 23:14; 24:11; Jo 5:20; 6:23; 22:30; 33:17, 30; Os. 13:14; Me. 4:10; 5:5; is. 1:17; 5:29; 25:4; 36:14f, 18; 37:12; 44:6; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5, 16; Ez. 3:19, 21; 13:21, 23; 14:18, 20; 37:23; Dan. 3:88; 8:4, 7, 11; Apócrifos: Apócrifo de Julzes 8:34; 11:26; 1 Esdras. 8:60; Judite. 6:2; Tobias. 4:10; 12:9; 14:11; Tobias. 12:9; 1 Macabeus. 2:60; 5:17; 12:15; 16:2; 2 Macabeus. 8:14; 3 Macabeus. 2:12, 32; 5:8; 6:6, 10, 39; Odes 9:74; Sabedoria de Salomão. 2:18; 10:6, 9, 13, 15; 16:8; 19:9; Sir. 29:16; 40:24; Salmos de Salomão. 4:23; 12:1; 13:4; 17:45; Epistola de Jeremias. 1:35, 53; Adições a história de Daniel. 3:17, 88, 96; 6:28; 8:11; 11:45;
O verbete ryomai é um verbo defectivo médio, por isso a terminação mai, e apesar de sua grande aparição nos escritos bíblicos, especialmente na LXX, o termo ryomai não tem termos cognatos. O termo significa basicamente “socorrer”, “livrar”, “preservar”, “salvar”. Nesse sentido é um sinônimo de sozo, termo não estudo que significa basicamente “salvar” e dá origem aos termos soteria (Salvação) e soter (Salvador).
No Grego Clássico aparece apenas a partir de Homero com sentido básico de “livramento” ou Preservação”, executado normalmente pelos deuses. Na oração de Ajax ao “Pai Zeus”, ele pede que os livre dos acáios da noite escura (Ilíada, 17,645). Semelhante colocação foi feita por Aquiles a Enéias: “Somente Zeus e os demais deuses te salvaram’ (Ilíada, 20,194). Tal livremente não era efetuado apenas em situações de guerra, mas a qualquer perigo ou aflição, bem como a proteção de bens (Ilíada. 15., 257,290; Heródoto 1, 87 [livrar do mal]; 5,49; 9,76, 184; 6, 7; 7, 217). Fato interessante é que da perspectiva do pensamento politeomítico, alguns casos não poderiam ser salvos ou libertos (Ilíada, 15.141; Odisséia 12,107). Em outra forma encontrada na literatura grega secular, pode ser aplicada à ação humana, principalmente às autoridades. Os príncipes libertavam cidades e países (Ilíada 9, 396), mulheres e crianças (Ilíada 17,224), os póscritos (Sóf. OC 285). Também é aplicado a objetos inanimados, tais como muro, capacete, armadura.
Na LXX o termo em pauta traduz nasal no sentido de “libertar”, “livrar, e “salvar-se” (cerca de 90x). De forma interessante, também traduz ga’al em passagens de Isaías, e em especial o texto de Gn,48.16, com a idéia de redimir, comprar de volta, libertar. A correlação entre esses vocábulos nos levam a crer que a gama original de significados aplicados a ryomai é de fundamental importância para a Teologia da Redenção, emoldurar pelo estudo etimológico. Segundo o DITNT, W. Kash percebeu que o uso que a LXX faz do termo pode ser equiparado ao uso do Grego Clássico, principalmente no que refere-se a YHWH como libertador. Por outro lado, é impossível deixar de reconhecer o lada plenamente particular em que a LXX aplica o termo para conceitos explicitamente hebraicos. Assim, temos dois grandes grupos de uso de ryomai.
Em Salmos a ação de YHWH como libertador do aflito é facilmente observável. Os salmistas cantam sobre o livramento dos perseguidores (Sl.7.1), de vizinhos ímpios (Sl.33.4), de homens falsos e maldosos (Sl.42.1), da morte e da fome (Sl32. 19; 55. 13). do Sheol (Sl.85. 13) entre várias outras colocações. Contudo, um outro uso que deve ser observado é que em alguns momentos em especial o termo é aplicado a grandes atos salvíficos de Deus, tal como o Êxodo (Ex.6.6 14.30) e a povoação de Canaã (Jz.ó.9; 8.34) entre outros exemplos (2Re.18.32; Is.36.15; Mq.4.10 5.5; 2Sm.12.7; 22.18- 3Ma.ó.10). Neste ponto o uso equipara-se ao uso do grego clássico, o que ressalta o bom uso feito do termo dentro do seu campo semântico ma LXX.
Como vimos, além de plausível tal tradução em conformidade com o sentido exposto pelo grego clássico, temos que ressaltar o sentido mais judaico aplicado ao termo na tradução da LXX. O que significa retirar o sentido mais antropocêntrico do conceito secular para abordar um sentido mais teocêntrico, como expressa todo o VT ao referir-se à Obra de Deus. W. Kash observa que a libertação não é determinada pelo acaso, ou pelas leis vigoradas pelos deuses ou homens, mas “mediante a palavra criadora e sustentadora de Javé, para Quem a salvação do povo e do individuo faz parte da Sua ação criadora da história da salvação começada por Ele[34]“.
Nesse aspecto um texto merece nossa atenção: Acaso, os deuses das nações puderam livrar, cada um a sua terra, das mãos do rei da Assíria?” (2Re.18.33). A declaração feita por Rabsaqué em afronta a YHWH é a clara demonstração da perspectiva antropocêntrica do povo assírio. Ele equipara YHWH com outros deuses de outros povos, mostrando a supremacia da Assíria (v.34; cf. 19.11-13). Certamente era verdadeira a afirmação de que a Assíria tinha subjugado outras nações, mas um fato estava equivocado na perspectiva dos assírios: YHWH não é como os deuses dos outros povos, feitos por mão humanas, Ele é O SENHOR. Observe a oração de Ezequias: “Ó SENHOR, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinas da terra; tu fizeste os céus e a terra” (19.15). A realidade de YHWH como Soberano Deus está além da compreensão ordinária dos gentios, por isso não podem entender Seu Caráter “Libertador”: Agora, pois, Ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinas da terra saibam que só tu és o SENHOR Deus” (v.19). A verdade sobre YHWH é exposta por Isaías da seguinte maneira: Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade” (Is.63.16). Deus é o Libertador, o Redentor, Resgatador (cf.4:ó; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5).
Em alguns textos vemos que a ação redentora de Deus é aplicada àquele que crêem positivamente na capacidade de YHWH de salvar. Observe Sl.21.4: Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste”; Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer” (v.8; cf. Sl.32.18-19; 33.7). YHWH é o que providência a salvação, a libertação do seu povo, e Ele ouve o clamor do justo e o livra de suas aflições (Sl.34.17); Ele livra os que o temem e confiam em sua misericórdia (Sl.33.18-19; Ez.14.20).
Portanto, diante das evidências acima lançadas, podemos notar que a consideração teocêntrica do judaísmo atribuiu uma nova perspectiva ao campo semântico do termo ryomai a ponto de ser aplicado condicionalmente ao homem, ao mesmo tempo que representa a ação do Soberano Senhor, que é poderoso para livrar seu povo (Dn.3.96 LXX- 3.29).
O termo ryomai aparece 15x em todo o NT, sendo que 7x refere-se a citações do VT, mas ele todos os casos Deus é o Libertador. Algumas vezes o termo é utilizado em situações de escárnio, tal como na crucifixão de Cristo, pois os zombadores entendiam os sofrimentos de Jesus e o não salvamento de Deus como prova absoluta da sua falsidade. Observe: Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt.27.43; cf. Sl.21.9). De fato, Deus não o livrou da morte, como esperavam seus zombadores, mas de modo especial o livrou na ressurreição.
Um fato interessante é que o uso neotestamentário do termo em pauta não traz a idéia de Salvação, tal como entendida pelo conceito cristão. O termo que desempenha esse papel é “sozo”. ryomai ocupa-se com a verdade da libertação oferecida por Deus ao Seu povo. Observe a declaração de Jesus, na famosa oração do Pai nosso: te não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre” (Mt.6. 13). Nesse sentido apresentado pro Cristo, é impossível que seja aplicado a incrédulos. O que é apresentado é a idéia da ação continua de Deus em livrar os eleitos do mal moral. Ao homem não foi dada a plena capacidade, em sua própria condição natural, para resistir ou escapar do mal que o assedia. Dessa forma, em sua oração deve reconhecer sua insuficiência diante da tentação e pedir que Ele nos livre do mal. Nesse mesmo sentido, a obra de Deus em livrar é apresentada por Paulo aos corintos da seguinte forma: “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos, o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos”.
Uma única vez o termo faz referência a Obra de Deus na Salvação, conforme apresentada por Paulo em sua Epístola aos Colossensses: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13). De qualquer forma, a ênfase é sobre a libertação moral do homem, por que “Império das Trevas” ilustra a situação de pecado que o homem vivia antes da libertação efetuada por Deus, por meio de Jesus Cristo. Contudo, podemos nos lembrar de Rm.11.26 e 1Ts.1.10 como textos que expressão a expectativa escatológica do cristão.
agorázo:
NT: Mt.13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; 1Co. 6:20; 7:23, 30; 2Pt. 2:1; Ap. 3:18; ~:9; 13:17; 14:3f; 18:11; LXX: Gn. 41:57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; is. 24:2; 55:1; Je. 44:12; Apócrifos: Tobias. 1:13f; 1 Macabeus. 12:36; 13:49; Siraque. 20:12; 37:11; Baruque. 1:10; Eplstola de Jeremias.1 :24;
O termo agorazo tem significação estrita, sendo normalmente encontrado com o sentido de compra. José foi comprado (Gn.41.57), os filhos de Israel foram para o egito comprar mantimentos (Gn.42.5, 7; 43.4; 43.42). Normalmente essa é a idéia exposta pelo termo, conforme expresso na LXX (cf. Gn. 41 :57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; Is. 24:2; 55:1; Je. 44:12).
No NT esse uso parece majoritário (cf. Mt. 13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; Ap. 3:18). Entretanto, alguns texto merecem nossa atenção: “Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens” (1Co 7.23; cf. 6.20). A idéia é que estávamos vendidos a escravidão, mas Deus nos comprou para si. A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2 1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1 Co.6. 19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “ex”, formando o vocábulo “exagorazo”. Em Gl 3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “ex” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra (Gl.3.13).
Conclusão
Diante das informações coletadas no estudo léxico dos termos envolvidos na conceituação de redenção, podemos concluir que:
(1) A doutrina da redenção mostrada pelo NT é um cumprimento completo da verdade mostrada em sombras no AT.
(2) Há um sentido em que o preço é pago, mas o escravo não é necessariamente liberto (que é o estado de todos por quem Cristo morreu que ainda não são salvos) e que, por uma realização mais profunda e abundante da redenção, o escravo pode ser solto e liberto (que é o estado de todos que são salvos).
(3) A relação dos não salvos com a verdade de que, pela sua morte, Cristo pagou o preço do resgate, é crer no que está declarado como verdadeiro.
(4) A relação dos salvos com a verdade de que, por sua morte, Cristo liberta, é reconhecer essa liberdade maravilhosa e, então, pela rendição de si mesmo, tornarem-se escravos voluntários do redentor, enquanto abandonam sua velha vida de pecado.
Em resumo, redenção refere-se ao ato da compra de algo que fora seu, readquirir algo que foi retirado temporariamente de seu poder. Pode ser empregado também como Liberdade, libertar, livrar, no sentido de redimir alguém que corria grave perigo. De certo, quanto a ação é aplicada a Deus, temos que admitir que trata-se de uma compra de algo que já for a completamente seu, o homem, pois sabemos que o homem é um pecador vendido e condenado. O texto de Isaías 52.3 nos diz: “Por nada fostes vendidos, e sem dinheiro sereis resgatados”. “Não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humanos[35]” (pp.14). Assim, podemos definir OBRA REDENTORA nas seguintes palavras:
Obra Redentora é um Plano estabelecido e executado historicamente por Deus em benefício do homem cujo ápice é Cristo e sua Aplicação é Eterna
Charles Hodge é que faz a seguinte observação: “As Escrituras falam de uma Economia de Redenção[36]“. A palavra Economia, utilizada em referência a Redenção, deriva da palavra grega “oikonomia” que significa administração, mordomia. A identificação dos dois conceitos nos leva a conclusão de que Deus administra historicamente a Redenção dos homens. Por esta razão é correto afirmar que existe um Plano da Salvação que deve ser anunciado. Doutra sorte, deve-se reconhecer que Deus é o Autor e Executor deste Plano. A redenção é iniciada e perfeita por Ele, pois a Ele pertence o poder para tal tarefa. Logo, Deus estabeleceu um Plano para a salvação do homem dentro da história do homem e vai levá-lo a cabo (Jo.42.2).
É das palavras de Jonas que devemos ter em mente ao levantarmos essa assunto: “Ao Senhor pertença a Salvação”. O termo salvação visto na oração feita por Jonas é yasha (heb) que tem sotérios (grego) que traz a clara idéia de libertação. A situação em que Jonas se encontrava não tinha o que podia fazer, senão reconhecer que a Salvação pertence ao senhor. Assim Ele não simplesmente inicia e termina como mantém.
Em todas as Obras de Deus nós podemos notar um plano pré-estabelecido, o que não poderia ser diferente para Obra Redentora. Ou seja, não se deve presumir que, no que diz respeito ao destino do homem tudo seja deixado ao acaso. E sobre isso a Escritura é clara, pois afirma que Deus não somente vê o fim desde o principio, mas que ele opera todas as coisas segundo o conselho de sua vontade, ou com base nesse propósito (Ef.1.11). Assim, se o que acima foi dito é verdade é possível encontrar na história marcas desse plano e evidências reais que apontam para a consumação de um plano iniciado e perfeito por Deus. Dessa forma, vamos buscar essas evidências na história.
“Há luz suficiente para quem quer ver, e trevas suficientes para quem não quer ver[37]“
Dentro da progressão histórica do significado da salvação e da consecução da soberania de Deus em relação ao seu plano preestabelecido para salvação, o ponto mais alto, mais sublime e necessário é a Obra de Cristo. Por alguns teólogos a Obra de Cristo é considerada como um acidente na história, como se Deus fosse pego de surpresa por esse evento. Contudo, a história demonstra a progressão desse significado, de modo que, fica evidente que a Obra de Cristo a nosso favor é parte integral do Plano de Deus para a Salvação daqueles que fazem parte da Soberana e Amorosa Eleição Incondicional.
“Se ignorarmos o grande fim a que se dirige o plano da redenção, ou as relações das diferentes partes do plano, ou tivermos uma falsa concepção do fim e daquela relação, todas as nossas idéias serão confusas e errôneas. Seremos incapazes ou de exibi-lo a outros ou de aplicá-lo a nós mesmos[38]“.
[1]STOTT, Jonh, A cruz de Cristo. pp.17
[2] A Ressureição é a confirmação divina da verdade exposta sobre o Cristo anunciado aos antigos (Is.53.10-11), a garantia da justificação (Rm.4.25) e da ressureição (1Co.15.20, 23) dos cristãos, da libertação do pecado (1Co.15.17), perfeição e imortalidade (1Co.15.53) entre diversas outras questões. Por isso não deve nem pode ser minimizada.
[3]IRONSIDE, H.A. Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.17
[4]EASTON, M.G. Easton’s Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[5]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[6]ORR, James Org. International Standard Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[7]IRONSIDE, H.A. Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[8]Sobre colocações mais profundas e completas sobre o termo em pauta, ver Robert B. Girdlestone: Synonyms of the Old Testament, pp.117-120. Girdlestone, faz a aplicação do conceito de “ga’al” exposto no Velho Testamento no Novo Testamento, evidenciando os termos gregos envolvidos. Sua exposição é excelente.
[9]HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. pp.235
[10]Sobre Pv.23.10-11, é válido observar a tradução que a septuaginta oferece para “Por que seu Vingador é forte“: “hó gar lutrúmenos autos kúrios krataiós estin“. O uso de “kurios” associado com “lutrow” no presente do particípio médio, nominativo, masculino, singular, nos dá a clara identificação de Deus como Redentor-Parente Vingador.
[11]É comum entre os comentaristas que ga’al e padâ sem sinònimos, embora tenham suas particularidades. Observe o que o Willian Coker diz sobre o termo no DITAT:
”O emprego de padâ e seus derivados ocorre, às vezes, em paralelo com outras raizes. Deve-se destacar particularmente que ga’al é usado como sinônimo. As duas raízes dizem respeito à redenção mediante o pagamento de um resgate, embora seja sugerido que ga’alestá basicamente associado a sutações familiares e, dessa forma, dá a idéia da ação de um parente consanguínio. No entanto, o suo de padâ e de ga’al em paralelismos encontrados em Os.13.14 e Jeremias.31.11 e o seu emprego como sinônimos em Levíticos 27.27 exemplificam a sobre posição de idéias entre as duas palavras. Além disso, das 99 vezes que a LXX utiliza o verbo lutroo, em 45 vezes esse verbo está traduzino a raiz ga’al e em 43 a raiz padâ“
[12]HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. pp.1200
[13]Idem, pp.1201
[14]HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. pp.743
[15]GIRDLESTONE, Robert B. Synonyms of the Old Testament. pp.127
[16]CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistemática. Vol 3 pp.107.
[17]ORR, James Org. International Standard Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[18]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[19]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[20]TENNEY, Merril C. The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Biblei. Vol.5, pp 49.
[21]IRONSIDE, Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[22]BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[23]DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vol.3, pp.1373
[24] Muita discussão tem sido feita sobre o conceito apresentado neste texto. Como vimos anteriormente, é certo que o texto faça referência ao remidor partente de Jó, embora tenha grande significância sobre a Obra Redentora efetuada por Cristo. Como já foi afirmado, é mais coeso crer que Jó faça menção a Deus como seu Remidor (cf. 16.19). Um detalhe que não pode passar desapercebido aqui é a continuação do texto: “Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus”. Jó parece esperar ver a Deus em sua carne, ou seja, em sua vida, o que seria uma infração de Ex.33.20, 23. Outro detalhe é que segundo a História de Jó, ele foi Vindicado por Deus no cap. 41, mas não chegou a ver a Deus literalmente. Portanto, pode-se concluir que ele vislumbra uma vida ressurreta. Assim, fica mais evidente o link entre esse texto e a expectativa messiânica posteriormente elaborada.
[25] Na forma não preposicionada. Existem outras variantes do termo encontradas em todo o NT, como anfflytron, Iytroo, lytrosis e apolytrosis.
[26] BROWN, Colin, Dicionário internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.93
[27] Thayer’s Greek Lexicon, BibleWorks Software Inc.
[28] Um detalhe importante é que a LXX diluiu o sentido de lytron ao adotar o termo anchisteus (lit. parente, cf. Rt.3.9, 12; 4.1, 3, 6, 8) e o verbo anchisteuo (ser o parente próximo, agir como parente próximo, fazer o dever de parente próximo, cf. Rt.2.20; 3.13; 4.4, 6-7). A idéia de redenção ainda é exposta pelos termos Hebraicos, embora o mesmo seja absorvido pelas expressões gregas na LXX.
[29] Ponto importante deste texto é que o resgate é aplicado a “muitos”. Tal colocação tem produzido intenso debate. Rudolff Bultmann acredita que tal colocação seja produto da Igreja Primitiva elaborada a partir de um pronunciamento feito pelo Cristo ressurreto. Entretanto, tal teoria não tem como ser provada, a não ser pelas colocações do próprio texto. Ainda seguindo essa vertente ideológica, W. Bousset acredita que a expressão seria influência do cristianismo helenístico. Outros, como J Jeremias e E. Lohse, acreditam em um fundo histórico palestiniano. Tal argumento pode ser melhor demonstrado, por duas razões: (1) O uso da expressão “Filho do Homem” (Dn.7.13); e (2) pela forma de expressão claramente semítica “muitos” (heb. Rabbtm). O segundo ponto seria claramente uma identificação com o Servo Sofredor: “foi contado entre os transgressores, contudo, levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu”. Aqui vemos um fundo histórico judaico claramente evidenciado. Segundo W.L. Lane, “muitos”, “é um termo técnico para a comunidade eleita, o povo escatológico de Deus”. Seguindo semelhante raciocínio, Brown afirma que “Mc. 10. 45 parece combinar a redenção substitutiva do único em prol dos muitos com a idéia de que os muitos são a comunidade eleita”. Deve ter em mente que tal colocação não contradiz 1Tm.2.ó, mas a restringe. Segundo a Teologia Sistemátic aCristã Reformada, a oferta de Cristo pelo pecado é suficiente para todos os homens, como Paulo nos mostra em 1Tm.2.ó, mas é aplicada somente aos eleitos, como Cristo enfatiza em Mc.10.45 e Mt 20.28.
Entretanto, a Teologia Bíblica e Exegética pode oferecer uma colocação muito mais plausível.. Observe que o vocábulo “todos” é utilizado várias vezes dentro do contexto do capítulo. João Calvino, ao comentar 1Tm.2.4, faz a seguinte colocação: “Que seria mais razoável do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino?”. A oração é que tem grande foco aqui no argumento de Paulo, pois ela deve ser feita em favor de todos os homens, dos reis e de todos que se acham investidos de autoridade. Dessa forma, Paulo demonstra que dentro desse “todos os homens” incluem-se as autoridades responsáveis pela perseguição dos cristãos. Dessa forma, insurge a idéia de que a expressão totalitária de Paulo esta mais ligada a não acepção de pessoas da parte dos cristãos, inclusive em suas orações, como alinhada ao desejo do próprio Deus. “Pois se o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, então é justo que todos aqueles a quem o evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida enterna” (CALVINO, João, As Pastorais. pp.59-60). Nem mesmo João Calvino se detem a tratar da eficácia da oferta de Cristo, visto não ser o foco da discussão aqui. Mas, o que se pode dizer é que a Salvação oferecida por Cristo é indiscriminada, ou seja, atinge todas as nações, etnias, camadas sociais, pois Deus oferece o evangelho sem acepção de pessoas (Rm.2.11). Essa conclusão é evidente a partir da descrição de reis e autoridades, feitas anteriormente. Com esse contexto em mente, vemos que o resgate oferecido por Cristo, como anunciado por Paulo em 1Tm.2.6 está em conformidade com os textos de Mc e Mt. A diferença é que Paulo evidencia a não acepção de Deus para com o homem. Assim, qualquer homem pode ser alvo da salvação oferecida por Deus.
[30] Em 1Tm.2.6, Paulo faz uso de antilytron, termo que não é encontrado na LXX, e em nenhum outro lugar no NT o que provavelmente é um neologismo criado por Paulo para enfatizar o caráter da redenção. Tanto Mateus como Marcos utilizam a preposição anti após o termo lytron conceituando uma “resgate para”. A colocação de Paulo é agrupar ambos sentidos em um só termo para expressar um resgate que foi levado a efeito. Alias, muitos comentaristas tem visto no termo uma indicação de “substituição”, como sugere Charles Caldwell Ryrie em sua obra Teologia Básica (pp.332-335). D Gunthrie acredita que “o acréscimo de preposição anti, ‘em lugar de’ é significante, tendo em vista a preposição hyper,’em prol de’ que se emprega depois dela. Pensa-se em Cristo como o ‘preço de troca’ em prol de todos e no lugar deles, por motivo do qual se concede a liberdade” (The Pastoral Ephistles, IN: BROWN, Collin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.100; grifo do autor)
[31] BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[32] O termo grego para salvação ainda será estudado, mas como percebe-se pelo contexto, tanto ele quanto a profetiza Ana tem a mesma expectativa em relação ao futuro do menino.
[33] CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Comentado Versrculo por Versículo. Vol.3, pp.720.
[34] KASH, W. Theological Dictionary of New Testament, Vol.VI, pp.1000 IN: BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.105
[35] IRONSIDE, H.A. Os grandes vocábulos do Evangelho. pp.14
[36] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, pp.717
[37] PASCAL, Blaise, Pensamentos.
[38] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, pp.718
O Conceito de Redenção no Novo Testamento
O Novo Testamento, ao contrário do Antigo, tráz conceitos mais claros para os cristãos mas, não perde de vista seu significado original. Como sabemos, o Novo Testamento aplica eficazmente o conceito vétero-testamentário à Jesus Cristo, como o Redentor do homem. Sobre isso, Ray Summers diz que “o Novo Testamento centra a redenção em Jesus Cristo. Ele comprou a Igreja com seu póprio sangue (At.20.28), deu-se pela vida do mundo (Jo.6.51), como Bom Pastor deu sua Vida por suas ovelhas (Jo.10.11) e demonstrou seu grande amor dando sua vida por seus amigos (Jo.15.13). O propósito de Jesus na terra foi realizar um sacrificío de Si mesmo para libertação do homem do pecado[1]“. Isso parece estar em concordancia com Merril C. Tenney, quando diz que “o coração da mensagem bíblica da redenção é a libertação do povo de Deus do domínio do pecado por meio do sacrifício substitutivo de Jesus Cristo e a sua consequente reconciliação com Deus e Seu Reino Celeste[2]“.
Diante das colocações neo-testamentárias, não podemos nos esquecer que tal sacrifício de Cristo em favor do homem é a maior prova da incapacidade do homem de libertar-se, por seu mérito ou capacidade, do pecado. Ironside, concorda com essa colocação, e diz que “não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humano[3]“. Ao tratarmos o assunto de Redenção no Novo Testamento temos que resgatar o sentido de deficiência humana perante Deus, em função do seu pecado. Não existem méritos no homem que o façam merecer o Sacrifício de Cristo. Não podemos retirar os perfeitos méritos de Cristo da questão. Sobre isso o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, organizado por Colin Brown, nos informa que:
“Sempre que os homens, por sua própria culpa ou através de algum poder superior ficam submetidos ao controle de outra pessoa, e perdem sua liberdade para implementar a vontade e as suas decisões, e quando seus próprios recursos são inadequados para enfrentar aquele outro poder, podem obter de novo sua liberdade somente mediante intervenção de um terceiro. No NT, conforme o aspecto encarado, o grupo de palavras gregas associado com lyo, sozo, rhyomai, é empregado para expressar semehante intervenção (…) No NT, estes termos se empregam de modo preeminente para a obra redentora de Cristo[4]” (grifo do autor).
J.D. Douglas acrescenta muito ao nosso estudo ao nos demonstrar uma outra perspectiva sobre a Redenção, ao dizer que “a redenção não somente lança os olhos de volta para o calvário, mas também comptempla a liberdade na qual se encontram os redimidos. [5]“. A idéia de liberdade após pagamento não deve ser deixada aqui. Aliás, tal conceito é necessário ser compreendido de maneira correta para que a Salvação oferecida por Jesus Cristo não seja mal interpretada. Lembre-se: quando Jesus disse, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo.8.32), os que o ouviram ficaram indignados por não conhecerem sua real situação diante de Deus, por isso Jesus acrescentou: “em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo.8.34). Apenas a verdade pode libertar o homem das amarras do pecado, e Jesus Cristo é a Verdade (Jo.14.6).
Para um compreensão maisq adequada da Redenção, vamos observar os termo envonvidos com esse conceito na Literatura do Novo Testamento:
lyo:
NT: Matt. 5:19; 16:19; 18:18; 21:2; Mk. 1:7; 7:35; 11:2, 4; Lk. 3:16; 13:15f; 19:30f, 33; Jn. 1:27; 2:19; 5:18; 7:23; 10:35; 11:44; Acts 2:24; 7:33; 13:25, 43; 22:30; 27:41; 1 Co. 7:27; Eph. 2:14; 2 Pet. 3:10ff; 1 Jn. 3:8; Rev. 1:5; 5:2; 9:14f; 20:3, 7; LXX: Gen. 42:27; Exod. 3:5; Jos. 5:15; Ps. 101:21; 104:20; 145:7; Job 5:20; 39:2, 5; 42:9; Isa. 5:27; 14:17; 40:2; 58:6; Jer. 47:4; Dan. 3:92; Apócrifos: 1 Es. 1:52; 9:13, 46; Jdt. 6:14; 9:2; Tbs. 3:17; 3 Ma. 1:4; 6:27, 29; 4 ma. 3:11; 7:13; 12:8f; Sir. 28:2; Dat. 3:92; 5:12
To termo Iyo significa basicamente “soltar, desligar, livrar, libertar, anular, abolir”, e como verbo denominativo dá origem a Iysis (soltura, divórcio), katalyo (quarto de visitas), akatalytos (indestrutível), eklyo (ficar solto, ficar cansado, ficar fraco), apolyo (livrar, libertar, soltar, perdoar, deixar ir, mandar embora, demitir, divorciar). Cada um dos termos derivados de Iyo é encontrado na LXX, o que atribui grande valor etimológico-conceitual ao termo em pauta no que tange ao conceito de Redenção.
Antes de observar como esse termo foi utilizado na LXX, é válido observar seu uso anterior à tradução da Torá para o grego, ou seja, é preciso ressaltar os usos do Grego Clássico. Na Odisséia, Homero utiliza o vocábulo com sentido da salvação oferecida pelos deuses aos homens, contudo sem nenhuma ligação com o conceito de pecado, demérito, ou inabilidade do homem em alcançá-la (Od.5, 397; 13, 321). Em outros autores, o conceito mais encontrado é “soltar” ou “libertar”. Portanto, a conclusão que pode-se auferir aqui é que a Etimologia de Iyo é vista fora da literatura bíblica está em harmonia com os usos bíblicos.
Na tradução da LXX o termo é visto algumas, mas em tradução a 7 diferentes termos hebraicos carregando sempre alguma idéia de “soltar” (cf. Ex.3 5; Js.5. 15 – referente a sandálias; Dn.3.9; 5.12 – resolver dificuldades; entre várias outras ocorrências). Entretanto, um texto deve ser vislumbrado aqui: Is.40.2: “Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pesados”. Aqui vemo o uso mais claro no VT referente a redenção. A idéia de perdão do termo Iyo é percebida pela tradução de rasah (heb), que significa ser favorável, perdoar, favorecer. A LXX faz a aplicação conceito do termo no sentido de libertar ou deixar ir a culpa pela iniquidade. Ou seja, o conceito do termo carrega a idéia de iniquidade como dívida ou débito, e que para que ela seja quitada é necessário ser liberto ou perdoado, como vemos no texto acima.
Outro texto que merece nossa atenção aqui é Jó. 19.25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”[6]. A idéia primária do texto está posta sobre Deus como Vindicador, visto não apresentar claramente a idéia de libertação do Sheol, mas da ajuda durante sua vida e resgate da justiça perdida. Neste ponto é clara a utilização de Iyo para traduzir go’el, com a intenção de apresentar o Resgate efetuado por Deus. Isso efetivamente acontece conforma exposto pelo cap.41 do livro de Jó.
Em Salmos vemos um texto que deve ser também analisado aqui: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu” (Sl.19.14). Aqui vemos a clara identificação de Deus como Redentor, ou seja, aquele que liberta. Novamente a idéia de Remidor parente está conceituada por Iyo na LXX.
No NT vemos o termo sendo aplicado em diversas ocasiões, tais como desatar a sandália (Mc.1.7; Lc.3.16; Jo.1.27; At.13.25; At.7.33 em relação a Ex.3.5), soltar o filhote da jumenta (Mt.21.2; Mc.11.2, 4-5; Lc.19.30-31, 33), soltar as cadeias de Paulo (At.22.30), desatar as ataduras de Lázaro (Jo. 1 1 .44), entre outros. Na verdade, o termo em paute é utilizado com quatro sentidos básico: (1) Libertar, Desligar, e é aplicado a Anjos (Ap.9. 14-15) e a Satanás (Ap.20.3, 7); (2) Em Lc.13 15-16 Jesus apresenta o conceito de libertar alguém de um problema espiritual (doença), que neste caso trata-se de um espírito de enfermidade. Sentido semelhante é visto em Mc.7 35; (3) Quebrar, desfazer (At.13.43), destruir (At.27.41); (4) Soltar, livrar da morte e do pecado (At.2.24; Ap.1.5) Em At.2.24 vemos que a ressurreição de Jesus rompeu os grilhões da morte, e em Ap.1.5 que o seus sangue nos libertou dos nossos pecados (cf.Ap.5.9; 7.14).
lytron:
NT: Mt. 20:28; Mc. 10:45; Lc. 24:21; Tt. 2:14; 1 Pe.1:18; LXX: Aparições como Verbo: Ex. 6:6; 13:13, 15; 15:13; 34:20; Lv. 19:20; 25:25, 30, 33, 48, 54; 27:13, 15, 19, 27, 31, 33; Nm. 18:15, 17; Dt. 7:8; 9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18; 2 Sm. 4:9; 7:23; 1 Re. 1:29; 1 Cr. 17:21; Ne. 1:10; Et. 4:17; Sl. 7:3; 24:22; 25:11; 30:6; 31:7; 33:23; 43:27; 48:8, 16; 54:19; 58:2; 68:19; 70:23; 71:14; 73:2; 76:16; 77:42; 102:4; 105:10; 106:2; 118:134, 154; 129:8; 135:24; 143:10; Pv. 23:11; Os. 7:13; 13:14; Mq. 4:10; 6:4; Sf. 3:15; Zc. 10:8; Is. 35:9; 41:14; 43:1, 14; 44:22ss; 51:11; 52:3; 62:12; 63:9; Jr. 15:21; 27:34; 38:11; Lm. 3:58; 5:8; Dn. 3:88; 4:27; 6:28; Apraições como substantivo: Ex. 21:30; 30:12; Lv. 19:20; 25:24, 26, 51; 27:31; Nm. 3:12, 46, 48, 51; 18:15; 35:31s; Pv. 6:35; 13:8; Is. 45:13; Apócrifos: 1 Macabeus. 4:11; As Odes de Salomão 1:13; Siraque. 48:20; 49:10; 50:24; 51:2; Salmos de Salomão 8:11, 30; 9:1; Adições a História de Daniel. 4:27
O termo tem grande significação na sua conceituação por sua imensa aparição na Versão Grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX). De fato, no Novo Testamento não faz mais que 5 manifestações sobre o termo[7], tanto na forma substantiva como verbal. A grande maioria das aparições de “lutron” são efetuadas na LXX, conforme podemos constatar acima. Nos livros apócrifos, que fazem parte da LXX, podemos notar o uso na forma verbal, o que evidencia que tipo de significado o termo carregava na época do seu uso. Um detalhe interessante é que apenas três vezes aparece no singular (Lv.27.31; Pv.6.35; 13.8), o resto está sempre no plural. Segundo o DITNT o sufixo tron traz a idéia de “instrumento ou meio mediante o qual se leva a efeito a ação do verbo, isto é, por meio da soltura, ou o pagamento[8].
Na Literatura Grega fora do NT, chamado Grego Clássico, encontramos comum uso de lytron em Platão, Xenofontes, Pindar e outros, com o sentido de “liberar alguém da miséria e da penalidade dos seus erros[9]“. Segundo Brown, o termo em pauta é utilizado fora da literatura bíblica desde o século V, as sua variante antilytron é apenas pós-bíblico. Os termos lytrosis e apolytrosis são raros e achados pela primeira vez no século primeiro. Contudo, a idéia de lytotes, redentor, não é encontrado fora da literatura bíblica. Portanto, notamos o valor do termo dentro da perspectiva teológica dos escritores neotestamentários e dos tradutores da LXX. Por certo tal termo tem significado importantíssimo para o conceito de redenção dentro da expectativa messiânica.
Na LXX[10] lytron traduz o termo hebraico kopper (cobir) em Ex.21.30; 30.12; Nm.31, 32; Pv.6.35; 13.8, com o sentido de oferta em troca por uma vida que está condenada ou está sujeita a castido divino. Traduz também alguns termos variantes de padâ (resgatar, redimir) como podemos observar em Nm.3.46-51. Em Lv.19.20 e Nm.18.35, onde vemos claramente o sentido da ação da redenção, bem como seu preço que deve ser pago aos primogênitos dos homens e dos animais que pertencem a Deus (sacrifício de um animal: Ex.13.13, 15; 34.20; pagamento em dinheiro: Ex.30. 13-16; Nm.18.15-16). Também traduz ga’al no caso do parente que tinha o direito e a obrigação de agir como redentor-parente (Lv.25.24, 26, 51-52). O sentido mais comum do termo pode ser percebido em Jr 32.7: “Eis que Hananel, filho de teu tio Salum, virá a ti, dizendo: Compra o meu campo que está em Anatote, pois a ti, a quem pertence o direito de resgate, compete comprá-lo” A princípio, o termo não tem aplicação religiosa, mas legal e civil.
No NT as declarações são mais claras e diretas, observe: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos[11]” (Mt.20.28; Mc.10.45; cf 1Tm.2.6[12]). A declaração de Jesus é feita em um contexto de liderança, quando Jesus apresenta o conceito de que veio para servir (cf. Lc.22.27). Aliás o foco é o serviço, mas Ele complemento com a expressão “dar sua vida em resgate de muitos”. Ao que tudo indica, parte de serviço de Cristo foi oferecer-se a Deus como pagamento efetivo da divida do homem perante Deus.
Neste texto vemos que o papel de Cristo em grego é desempenhado pelo vocábulo lytron, que seria um correspondente direto do grupo hebraico kipper. Assim concluímos que a morte de Cristo como resgate tem um aspecto propiciatório, bem como libertador. “Os muitos são livrados não somente da culpa, como também, ao mesmo tempo, das suas conseqüências, a morte e o julgamentos[13]“. Tal aspecto libertador acha paralelo na ocasião da Páscoa, em que o Povo de Deus foi liberto pelo sacrifício de um Cordeiro sem mácula. Assim, a conclusão levantada na Páscoa sobre o sacrifício ser anterior a liberdade, acha aqui seu ápice.
A pergunta feita por Cristo em Mc.8.37 (“Que daria um homem em troca de sua alma?”)parece ser satisfatoriamente respondida em Mc.10.45. Alias, é um contraste marcante com o texto apócrifo de Enoque 98.10: “E agora, sabei que fostes preparados para o dia da destruiição: portanto, ó pecadores, não tende esperança de viverdes, pois partireis e morrereis; pois não conheceis resgate algum; pois fostes preparados para o dia do grande julgamento, para a grande tribulação e grande vergonha para os vossos espíritos”.
A expectativa judaica para os pecadores, tal como ressaltado pelo texto de Enoque, é que sem resgate eles não tem outra alternativa. Por certo o argumento do texto apócrifo não expressa o reconhecimento de um Messias que redimiria o homem do seu débito com Deus, do seu pecado. É muito mais provável que esperassem no Messias um libertador, tal como Moiséis o fora. Observe que Estevão em seu discurso perante as autoridades judaicas apresenta a Moiséis como “chefe e libertador”(At.7.35). O termo que define Moisés como “libertador” é lytrotes, uma variante de lytron utilizada uma única vez em todo NT. Essa expectativa é vista em Simão, que segundo Lucas nos informa “esperava a consolação de Israel” (Lc.2.25) que em outras palavras significa esperava o Messias. A ele havia sido profetizado que morreria sem antes ter visto o Messias, e ao pegá-lo no colo, com oito dias de vida, ele declarou: “Agora Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra; por que meus olhos já viram a tua salvação[14]“(Lc.2.29-30). Fato semelhante acontece com Ana, uma profetiza vivua a oitenta e quatro anos que “falava a respeito do menino a todos que esperavam a redenção de Israel”(Lc.2.38). Há clara conexão entre as duas idéias aqui: Salvação e Redenção. O termo para salvação ainda será estudado (sotérios), mas redenção é exatamente lytrosis, outra variante de lytron. Ou seja, a expectativa judaica do Messias é que Ele seria o libertador, aquele que liberta (no sentido clássico de salvador), ou aquele que redimi seu povo. isso acompanhou o ministério terreno de Cristo, pois até mesmo após a sua morte tal expectativa ainda é encontrada. Isto é visto com os discípulos de Emaús, que em conversa com o próprio Cristo não o reconheceram e disseram: “O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam” (Lc.24.19-21). A idéia do texto é que o Messias fosse aquele que libertaria Israel. O termo utilizado para “redimir” é a forma verbal de lytron, lytroö. Portanto conclue-se que a Liberdade oferecida por Cristo está além das expectativas dos primários discípulos (At. 1 6) e de todo Israel, como vimos nos textos mencionados.
Assim, Cristo é aquele que resgata o homem perdido (Mt 20 28; cf. Lc. 19. 10), por meio de sua Morte em favor deles, obtendo assim nossa “eterna redenção” (Hb.9.12). A colocação de “eterna” junto a “lytrosis” atribui infalibilidade e infinitude a esse resgate. Dessa forma conclui-se que aquele que é resgatado por Cristo, para Eternidade é resgatado.
Entrementes, ainda temos que observar dois textos que são importantíssimos para a conceituação de lytron da perspectiva da conduta cristã. 1 Pe. 1 .18 diz: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” Pedro tem a clara visão de que o sangue de Cristo é o preço oferecido pela liberdade desfrutada pelos cristãos. Mas, segundo a perspectiva de Pedro, tal resgate diz respeito ao fútil procedimento do homem. Assim, Cristo se propõe não apenas a conceder a Redenção eterna para eternidade, mas para a presente vida do cristão, a ponto de que ele não precisa mais viver;como antes, pois foi resgatado de lá. Sentido semelhante é demonstrado por Paulo em Tt.2. 14: “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. Portanto, conclui-se que Cristo não apenas efetuou pleno resgate no que diz respeito à nossa culpa perante Deus, mas Ele mesmo nos libertou do pecado e da Iniquidade, afim de nos purificar a ponto de sermos feitos um povo exclusivo Seu.
Com apolytrosis, podemos ver mais algumas colocações importantes para o conceito de redenção. Em Hb.9.12 vemos o conceito do sangue de Cristo como pagamento para redenção eterna. Em Ef 1.7 a idéia de Resgate, Libertação, Redenção é colocada lado a lado com a idéia de Remissão: “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” O Conceito de “no qual” é visto no verso anterior como “o Amado”, que é uma referência direta a Cristo. Assim, em Cristo temos a redenção, ou melhor, por meio do seu sangue temos a remissão dos pecados. Nesse texto temos a clara visão do pagamento efetivo da nossa divida a ponto de que nossos pecados são apagados, ou cancelados (cf. Rm.3.24; Cl.1.14; Hb.9.15).
Mas, ainda podemos encontrar um outro uso do termo apolytrosis, que é apenas visto em dois texto no NT. Em Rm.8.23 e Ef 1.14. Oserve: “E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso intimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8 23). O uso aqui dessa variante de lytron é claramente escatológica. Paulo em seu argumento no capítulo oito de Romanos deixa evidente sua expectativa sobre o futuro. Segundo Champlin, a redenção do corpo da perspectiva de Paulo, exige necessariamente a idéia, ainda que ausente neste trecho, a redenção, que é o cumprimento da adoção “Assim, pois, sob o titulo de ‘redenção do corpo: Paulo aponta, mais uma vez, para aquele exaltadíssimo conceito da glorificação em Cristo[15]“. Em contraste com as filosofias e ideologias não cristãs, que pregam a imortalidade da alma, até mesmo como o judaísmo pregou, o cristianismo apresenta com conceito além: A redenção do Corpo, ou, a Glorificação. Essa expectativa pode ser norteada pela experiência do próprio Senhor. Semelhantemente, Ef. 1 .14 nos diz: “qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (cf. Ef.4.30). O selo do ES no cristão é a garantia do resgate da propriedade de Deus. Ou seja, o cristão como propriedade particular de Deus, será aproximado junto a Ele no futuro, sendo que isso é garantido pelo selo do ES. Portanto, em linguagem claramente judaica, Paulo nos informa sobre o valor futuro da Redenção.
Em Sentido e Linguagem similar Lucas apresenta um discurso apocalíptico de Jesus, onde ele apresenta o conceito futuro da redenção: “exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima”. A idéia da proximidade da Redenção é introduzida pela expressão: “Então virá o Filho do Homem” em uma auto-referência. Assim, o estágio final dessa redenção levado a efeito em um futuro próximo, tal é nossa esperança e expectativa.
rýomai:
NT: Mt. 6:13; 27:43; Lc. 1:74; Rm. 7:24; 11:26; 15:31; 2 Co. 1:10; Cl. 1:13; 1Ts. 1:10; 2Ts. 3:2; 2Tm. 3:11; 4:17f; 2 Pt. 2:7, 9; LXX:Gn. 48:16; Ex. 2:17, 19; 5:23; 6:6; 12:27; 14:30; Js. 22:22, 31; Jz. 6:9; 8:34; 9:17; 11:26; 18:28; 2Sm. 12:7; 14:16; 19:10; 22:18, 44, 49; 2Re. 18:32f; 19:11; 23:18; Ed. 8:31; Ne. 9:28; Es. 4:8, 17; 10:3; Sl. 6:5; 7:2; 16:13; 17:1, 18, 20, 30, 44, 49; 21:5, 9, 21; 24:20; 30:2, 16; 32:19; 33:5, 8, 18, 20; 34:10; 36:40; 38:9; 39:14; 40:2; 42:1; 49:22; 50:16; 53:9; 55:14; 56:5; 58:3; 59:7; 68:15, 19; 70:2, 4, 11; 71:12; 78:9; 80:8; 81:4; 85:13; 88:49; 90:3, 14; 96:10; 105:43; 106:6, 20; 107:7; 108:22; 114:4; 118:170; 119:2; 123:7; 139:2; 141:7; 143:7, 11; Prov. 2:12; 6:31; 10:2; 11:6; 12:6; 13:17; 14:25; 22:23; 23:14; 24:11; Jo 5:20; 6:23; 22:30; 33:17, 30; Os. 13:14; Me. 4:10; 5:5; is. 1:17; 5:29; 25:4; 36:14f, 18; 37:12; 44:6; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5, 16; Ez. 3:19, 21; 13:21, 23; 14:18, 20; 37:23; Dan. 3:88; 8:4, 7, 11; Apócrifos: Apócrifo de Julzes 8:34; 11:26; 1 Esdras. 8:60; Judite. 6:2; Tobias. 4:10; 12:9; 14:11; Tobias. 12:9; 1 Macabeus. 2:60; 5:17; 12:15; 16:2; 2 Macabeus. 8:14; 3 Macabeus. 2:12, 32; 5:8; 6:6, 10, 39; Odes 9:74; Sabedoria de Salomão. 2:18; 10:6, 9, 13, 15; 16:8; 19:9; Sir. 29:16; 40:24; Salmos de Salomão. 4:23; 12:1; 13:4; 17:45; Epistola de Jeremias. 1:35, 53; Adições a história de Daniel. 3:17, 88, 96; 6:28; 8:11; 11:45;
O verbete ryomai é um verbo defectivo médio, por isso a terminação mai, e apesar de sua grande aparição nos escritos bíblicos, especialmente na LXX, o termo ryomai não tem termos cognatos. O termo significa basicamente “socorrer”, “livrar”, “preservar”, “salvar”. Nesse sentido é um sinônimo de sozo, termo não estudo que significa basicamente “salvar” e dá origem aos termos soteria (Salvação) e soter (Salvador).
No Grego Clássico aparece apenas a partir de Homero com sentido básico de “livramento” ou Preservação”, executado normalmente pelos deuses. Na oração de Ajax ao “Pai Zeus”, ele pede que os livre dos acáios da noite escura (Ilíada, 17,645). Semelhante colocação foi feita por Aquiles a Enéias: “Somente Zeus e os demais deuses te salvaram’ (Ilíada, 20,194). Tal livremente não era efetuado apenas em situações de guerra, mas a qualquer perigo ou aflição, bem como a proteção de bens (Ilíada. 15., 257,290; Heródoto 1, 87 [livrar do mal]; 5,49; 9,76, 184; 6, 7; 7, 217). Fato interessante é que da perspectiva do pensamento politeomítico, alguns casos não poderiam ser salvos ou libertos (Ilíada, 15.141; Odisséia 12,107). Em outra forma encontrada na literatura grega secular, pode ser aplicada à ação humana, principalmente às autoridades. Os príncipes libertavam cidades e países (Ilíada 9, 396), mulheres e crianças (Ilíada 17,224), os póscritos (Sóf. OC 285). Também é aplicado a objetos inanimados, tais como muro, capacete, armadura.
Na LXX o termo em pauta traduz nasal no sentido de “libertar”, “livrar, e “salvar-se” (cerca de 90x). De forma interessante, também traduz ga’al em passagens de Isaías, e em especial o texto de Gn,48.16, com a idéia de redimir, comprar de volta, libertar. A correlação entre esses vocábulos nos levam a crer que a gama original de significados aplicados a ryomai é de fundamental importância para a Teologia da Redenção, emoldurar pelo estudo etimológico. Segundo o DITNT, W. Kash percebeu que o uso que a LXX faz do termo pode ser equiparado ao uso do Grego Clássico, principalmente no que refere-se a YHWH como libertador. Por outro lado, é impossível deixar de reconhecer o lada plenamente particular em que a LXX aplica o termo para conceitos explicitamente hebraicos. Assim, temos dois grandes grupos de uso de ryomai.
Em Salmos a ação de YHWH como libertador do aflito é facilmente observável. Os salmistas cantam sobre o livramento dos perseguidores (Sl.7.1), de vizinhos ímpios (Sl.33.4), de homens falsos e maldosos (Sl.42.1), da morte e da fome (Sl32. 19; 55. 13). do Sheol (Sl.85. 13) entre várias outras colocações. Contudo, um outro uso que deve ser observado é que em alguns momentos em especial o termo é aplicado a grandes atos salvíficos de Deus, tal como o Êxodo (Ex.6.6 14.30) e a povoação de Canaã (Jz.ó.9; 8.34) entre outros exemplos (2Re.18.32; Is.36.15; Mq.4.10 5.5; 2Sm.12.7; 22.18- 3Ma.ó.10). Neste ponto o uso equipara-se ao uso do grego clássico, o que ressalta o bom uso feito do termo dentro do seu campo semântico ma LXX.
Como vimos, além de plausível tal tradução em conformidade com o sentido exposto pelo grego clássico, temos que ressaltar o sentido mais judaico aplicado ao termo na tradução da LXX. O que significa retirar o sentido mais antropocêntrico do conceito secular para abordar um sentido mais teocêntrico, como expressa todo o VT ao referir-se à Obra de Deus. W. Kash observa que a libertação não é determinada pelo acaso, ou pelas leis vigoradas pelos deuses ou homens, mas “mediante a palavra criadora e sustentadora de Javé, para Quem a salvação do povo e do individuo faz parte da Sua ação criadora da história da salvação começada por Ele[16]“.
Nesse aspecto um texto merece nossa atenção: Acaso, os deuses das nações puderam livrar, cada um a sua terra, das mãos do rei da Assíria?” (2Re.18.33). A declaração feita por Rabsaqué em afronta a YHWH é a clara demonstração da perspectiva antropocêntrica do povo assírio. Ele equipara YHWH com outros deuses de outros povos, mostrando a supremacia da Assíria (v.34; cf. 19.11-13). Certamente era verdadeira a afirmação de que a Assíria tinha subjugado outras nações, mas um fato estava equivocado na perspectiva dos assírios: YHWH não é como os deuses dos outros povos, feitos por mão humanas, Ele é O SENHOR. Observe a oração de Ezequias: “Ó SENHOR, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinas da terra; tu fizeste os céus e a terra” (19.15). A realidade de YHWH como Soberano Deus está além da compreensão ordinária dos gentios, por isso não podem entender Seu Caráter “Libertador”: Agora, pois, Ó SENHOR, nosso Deus, livra-nos das suas mãos, para que todos os reinas da terra saibam que só tu és o SENHOR Deus” (v.19). A verdade sobre YHWH é exposta por Isaías da seguinte maneira: Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade” (Is.63.16). Deus é o Libertador, o Redentor, Resgatador (cf.4:ó; 47:4; 48:17, 20; 49:7, 25; 50:2; 51:10; 52:9; 54:5, 8; 59:20; 63:5).
Em alguns textos vemos que a ação redentora de Deus é aplicada àquele que crêem positivamente na capacidade de YHWH de salvar. Observe Sl.21.4: Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste”; Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer” (v.8; cf. Sl.32.18-19; 33.7). YHWH é o que providência a salvação, a libertação do seu povo, e Ele ouve o clamor do justo e o livra de suas aflições (Sl.34.17); Ele livra os que o temem e confiam em sua misericórdia (Sl.33.18-19; Ez.14.20).
Portanto, diante das evidências acima lançadas, podemos notar que a consideração teocêntrica do judaísmo atribuiu uma nova perspectiva ao campo semântico do termo ryomai a ponto de ser aplicado condicionalmente ao homem, ao mesmo tempo que representa a ação do Soberano Senhor, que é poderoso para livrar seu povo (Dn.3.96 LXX- 3.29).
O termo ryomai aparece 15x em todo o NT, sendo que 7x refere-se a citações do VT, mas ele todos os casos Deus é o Libertador. Algumas vezes o termo é utilizado em situações de escárnio, tal como na crucifixão de Cristo, pois os zombadores entendiam os sofrimentos de Jesus e o não salvamento de Deus como prova absoluta da sua falsidade. Observe: Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt.27.43; cf. Sl.21.9). De fato, Deus não o livrou da morte, como esperavam seus zombadores, mas de modo especial o livrou na ressurreição.
Um fato interessante é que o uso neotestamentário do termo em pauta não traz a idéia de Salvação, tal como entendida pelo conceito cristão. O termo que desempenha esse papel é “sozo”. ryomai ocupa-se com a verdade da libertação oferecida por Deus ao Seu povo. Observe a declaração de Jesus, na famosa oração do Pai nosso: te não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre” (Mt.6. 13). Nesse sentido apresentado pro Cristo, é impossível que seja aplicado a incrédulos. O que é apresentado é a idéia da ação continua de Deus em livrar os eleitos do mal moral. Ao homem não foi dada a plena capacidade, em sua própria condição natural, para resistir ou escapar do mal que o assedia. Dessa forma, em sua oração deve reconhecer sua insuficiência diante da tentação e pedir que Ele nos livre do mal. Nesse mesmo sentido, a obra de Deus em livrar é apresentada por Paulo aos corintos da seguinte forma: “Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos, o qual nos livrou e livrará de tão grande morte; em quem temos esperado que ainda continuará a livrar-nos”.
Uma única vez o termo faz referência a Obra de Deus na Salvação, conforme apresentada por Paulo em sua Epístola aos Colossensses: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13). De qualquer forma, a ênfase é sobre a libertação moral do homem, por que “Império das Trevas” ilustra a situação de pecado que o homem vivia antes da libertação efetuada por Deus, por meio de Jesus Cristo. Contudo, podemos nos lembrar de Rm.11.26 e 1Ts.1.10 como textos que expressão a expectativa escatológica do cristão.
agorázo:
NT: Mt.13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; 1Co. 6:20; 7:23, 30; 2Pt. 2:1; Ap. 3:18; ~:9; 13:17; 14:3f; 18:11; LXX: Gn. 41:57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; is. 24:2; 55:1; Je. 44:12; Apócrifos: Tobias. 1:13f; 1 Macabeus. 12:36; 13:49; Siraque. 20:12; 37:11; Baruque. 1:10; Eplstola de Jeremias.1 :24;
O termo agorazo tem significação estrita, sendo normalmente encontrado com o sentido de compra. José foi comprado (Gn.41.57), os filhos de Israel foram para o egito comprar mantimentos (Gn.42.5, 7; 43.4; 43.42). Normalmente essa é a idéia exposta pelo termo, conforme expresso na LXX (cf. Gn. 41 :57; 42:5, 7; 43:4, 22; 44:25; 47:14; Dt. 2:6; 1Cr. 21:24; 2Cr. 1:16; 34:11; Ne. 10:32; Is. 24:2; 55:1; Je. 44:12).
No NT esse uso parece majoritário (cf. Mt. 13:44, 46; 14:15; 21:12; 25:9f; 27:7; Mc. 6:36f; 11:15; 15:46; 16:1; Lc. 9:13; 14:18f; 17:28; 22:36; Jo. 4:8; 6:5; 13:29; Ap. 3:18). Entretanto, alguns texto merecem nossa atenção: “Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens” (1Co 7.23; cf. 6.20). A idéia é que estávamos vendidos a escravidão, mas Deus nos comprou para si. A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2 1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1 Co.6. 19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “ex”, formando o vocábulo “exagorazo”. Em Gl 3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “ex” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra (Gl.3.13).
[1]BUTTLER, Trent C Org. Hoiman Biblie Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
[2]TENNEY, Merril C. The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Biblei. Vol.5, pp 49.
[3]IRONSIDE, Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[4]BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[5]DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vol.3, pp.1373
[6] Muita discussão tem sido feita sobre o conceito apresentado neste texto. Como vimos anteriormente, é certo que o texto faça referência ao remidor partente de Jó, embora tenha grande significância sobre a Obra Redentora efetuada por Cristo. Como já foi afirmado, é mais coeso crer que Jó faça menção a Deus como seu Remidor (cf. 16.19). Um detalhe que não pode passar desapercebido aqui é a continuação do texto: “Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus”. Jó parece esperar ver a Deus em sua carne, ou seja, em sua vida, o que seria uma infração de Ex.33.20, 23. Outro detalhe é que segundo a História de Jó, ele foi Vindicado por Deus no cap. 41, mas não chegou a ver a Deus literalmente. Portanto, pode-se concluir que ele vislumbra uma vida ressurreta. Assim, fica mais evidente o link entre esse texto e a expectativa messiânica posteriormente elaborada.
[7] Na forma não preposicionada. Existem outras variantes do termo encontradas em todo o NT, como anfflytron, Iytroo, lytrosis e apolytrosis.
[8] BROWN, Colin, Dicionário internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.93
[9] Thayer’s Greek Lexicon, BibleWorks Software Inc.
[10] Um detalhe importante é que a LXX diluiu o sentido de lytron ao adotar o termo anchisteus (lit. parente, cf. Rt.3.9, 12; 4.1, 3, 6, 8) e o verbo anchisteuo (ser o parente próximo, agir como parente próximo, fazer o dever de parente próximo, cf. Rt.2.20; 3.13; 4.4, 6-7). A idéia de redenção ainda é exposta pelos termos Hebraicos, embora o mesmo seja absorvido pelas expressões gregas na LXX.
[11] Ponto importante deste texto é que o resgate é aplicado a “muitos”. Tal colocação tem produzido intenso debate. Rudolff Bultmann acredita que tal colocação seja produto da Igreja Primitiva elaborada a partir de um pronunciamento feito pelo Cristo ressurreto. Entretanto, tal teoria não tem como ser provada, a não ser pelas colocações do próprio texto. Ainda seguindo essa vertente ideológica, W. Bousset acredita que a expressão seria influência do cristianismo helenístico. Outros, como J Jeremias e E. Lohse, acreditam em um fundo histórico palestiniano. Tal argumento pode ser melhor demonstrado, por duas razões: (1) O uso da expressão “Filho do Homem” (Dn.7.13); e (2) pela forma de expressão claramente semítica “muitos” (heb. Rabbtm). O segundo ponto seria claramente uma identificação com o Servo Sofredor: “foi contado entre os transgressores, contudo, levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu”. Aqui vemos um fundo histórico judaico claramente evidenciado. Segundo W.L. Lane, “muitos”, “é um termo técnico para a comunidade eleita, o povo escatológico de Deus”. Seguindo semelhante raciocínio, Brown afirma que “Mc. 10. 45 parece combinar a redenção substitutiva do único em prol dos muitos com a idéia de que os muitos são a comunidade eleita”. Deve ter em mente que tal colocação não contradiz 1Tm.2.ó, mas a restringe. Segundo a Teologia Sistemátic aCristã Reformada, a oferta de Cristo pelo pecado é suficiente para todos os homens, como Paulo nos mostra em 1Tm.2.ó, mas é aplicada somente aos eleitos, como Cristo enfatiza em Mc.10.45 e Mt 20.28.
Entretanto, a Teologia Bíblica e Exegética pode oferecer uma colocação muito mais plausível.. Observe que o vocábulo “todos” é utilizado várias vezes dentro do contexto do capítulo. João Calvino, ao comentar 1Tm.2.4, faz a seguinte colocação: “Que seria mais razoável do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino?”. A oração é que tem grande foco aqui no argumento de Paulo, pois ela deve ser feita em favor de todos os homens, dos reis e de todos que se acham investidos de autoridade. Dessa forma, Paulo demonstra que dentro desse “todos os homens” incluem-se as autoridades responsáveis pela perseguição dos cristãos. Dessa forma, insurge a idéia de que a expressão totalitária de Paulo esta mais ligada a não acepção de pessoas da parte dos cristãos, inclusive em suas orações, como alinhada ao desejo do próprio Deus. “Pois se o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, então é justo que todos aqueles a quem o evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida enterna” (CALVINO, João, As Pastorais. pp.59-60). Nem mesmo João Calvino se detem a tratar da eficácia da oferta de Cristo, visto não ser o foco da discussão aqui. Mas, o que se pode dizer é que a Salvação oferecida por Cristo é indiscriminada, ou seja, atinge todas as nações, etnias, camadas sociais, pois Deus oferece o evangelho sem acepção de pessoas (Rm.2.11). Essa conclusão é evidente a partir da descrição de reis e autoridades, feitas anteriormente. Com esse contexto em mente, vemos que o resgate oferecido por Cristo, como anunciado por Paulo em 1Tm.2.6 está em conformidade com os textos de Mc e Mt. A diferença é que Paulo evidencia a não acepção de Deus para com o homem. Assim, qualquer homem pode ser alvo da salvação oferecida por Deus.
[12] Em 1Tm.2.6, Paulo faz uso de antilytron, termo que não é encontrado na LXX, e em nenhum outro lugar no NT o que provavelmente é um neologismo criado por Paulo para enfatizar o caráter da redenção. Tanto Mateus como Marcos utilizam a preposição anti após o termo lytron conceituando uma “resgate para”. A colocação de Paulo é agrupar ambos sentidos em um só termo para expressar um resgate que foi levado a efeito. Alias, muitos comentaristas tem visto no termo uma indicação de “substituição”, como sugere Charles Caldwell Ryrie em sua obra Teologia Básica (pp.332-335). D Gunthrie acredita que “o acréscimo de preposição anti, ‘em lugar de’ é significante, tendo em vista a preposição hyper,’em prol de’ que se emprega depois dela. Pensa-se em Cristo como o ‘preço de troca’ em prol de todos e no lugar deles, por motivo do qual se concede a liberdade” (The Pastoral Ephistles, IN: BROWN, Collin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.100; grifo do autor)
[13] BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamneto. Vol. 4, pp.80
[14] O termo grego para salvação ainda será estudado, mas como percebe-se pelo contexto, tanto ele quanto a profetiza Ana tem a mesma expectativa em relação ao futuro do menino.
[15] CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Comentado Versrculo por Versículo. Vol.3, pp.720.
[16] KASH, W. Theological Dictionary of New Testament, Vol.VI, pp.1000 IN: BROWN, Colin, Dicionário Internacional do Novo Testamento. Vol. 4, pp.105
04.27.09
Por que o Cristianismo escolheu a Cruz?
É bem verdade que os símbolos não tem um significado único, mas conforme o tempo e a época, carregam um significado particular. Um exemplo disto é a flor de Lótus, que é normalmente associadoa ao budismo, mas já foi usada por chineses, egípcios e hindus antigos. Contudo apesar de sua variedade de significados, os símbolos sempre representam uma idéia central de determinado pensamento. E o cristianismo histórico não foi uma exceção a esse fato.
Nos primeiros momentos da história do cristianismo, os cristãos adotaram o peixe como símbolo do cristianismo. Atualmente, alguns adesivos colados em carros, casas ainda levam esse símbolo. Mas qual é a razão da escolha desse símbolo?
Quando criança era muito curioso, como a maioria das crianças, mas o meu desenvolvimento lógico era um pouco mais que o normal, e eu não conseguia entender a razão do peixe simbolizar a Jesus, como eu tinha ouvido falar em uma escola dominical. Certo dia ouvindo sobre a história da multiplicação dos pães feita por Jesus eu tive uma conclusão interessante: “Aqui está a resposta! O peixe representa Jesus vem da multiplicação dos pães! O menino trouxe 2 peixes e 5 pães. E é lógico que o Peixe representa Jesus“.
Por certo essa não foram as minhas palavras naquele dia, mas essa foi a conclusão que carreguei durante anos. Há pouco tempo atrás eu compreendi o símbolo por trás do peixe escolhido pelos primeiros cristãos. Trata-se de um acróstico: “ICHTHUS”, que é a palavra grega para peixe foi assim demonstrada: “Iesus Christou Theou Uios Soter”, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A idéia é excelente, mas poucas pessoas poderiam compreende facilmente essa idéia.
Deve ser por isso que os símbolo mais conhecido do cristianismo e que o representa facilmente é a CRUZ. Contudo, “a escolha que os cristãos fizeram da cruz como símbolo de sua fé é tanto mais supreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo[1]“. A crucificação sempre foi vista com horror pelo mundo antigo. Os gregos e romanos adotaram a crucificação, como pena capital, dos bárbaros que eram caprichosamente cruéis em suas formas de execução. Para os romanos, a crucificação era aplicada somente a criminosos extremamente desumanos, para que pudessem sofrer muito antes de sua morte. Com a crucificação, era possível fazer com que o criminoso sofresse durante dias, e isso servia de ilustração para outros que tentassem trilhar mesmo caminho. Então,
Por que razão o cristianismo escolheu a cruz?
Como já foi dito anteriormente, o símbolo é a expressão gráfica do cerne de uma idéia. E dessa forma, não haveria para o cristianismo outro símbolo tão apropriado quanto a cruz. A cruz em si, como acontecimento comum no antigo mundo romano, era deveras cruel. Era um símbolo de repulsa, medo, sofrimento, e desprezo. Mas para o cristianismo é símbolo de vida e liberdade, pois representa a morte de Cristo. Com isso não negamos a crueldade com que foi executada, mas afirmamos o resultado obtido por essa morte.
A Cruz, como evento histórico necessário, marco o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus:
- É na morte que a Obra Messiânica é encerrada (Jo.19.30)
- É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3)
- A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como de suas obras (Tt.2.14)
- É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para o perdão dos pecados (Hb.9.15; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14
- É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12)
- É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24)
- Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)
De acordo com as colocações supracitadas, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e na expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se à Cruz de Cristo. As lias, cristianismo sem cruz é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pos esta é o cerne de suas ideologia e fé. Se o que foi deito é verdadeiro, e o símbolo que deveria representar tal idéia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal par o Cristianismo.
E o que significa essa cruz senão nossa liberdade?! Nossa redenção?! A remissão dos nossos pecados?! Comunhão com Deus?! É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de jesus Cristo.
[1] STOTT, John, A Cruz de Cristo. Pp.17
[2] A ressurreição é a confirmação da divina verdade exposta sobre o Cristo anunciado aos antigos (Is.53.10-11), a garantia da justificação (Rm.4.25) e da ressurreição dos cristãos (1Co.15.20, 23), da libertação do pecado (1Co.15.17), perfeição e imortalidade (1.Com.15.33) entre diversas outras questões. Por isso não pode nem deve ser minimizada.
Conceito de Redenção no Velho Testamento
O Livro International Standard Bible Encyclopedia, organizado por James Orr, diz que “a idéia de redenção no Antigo Testamento tem início a partir do conceito de propriedade (Lv.25.26; Rt.4.4)[1]“. Um preço era pago em dinheiro, em conformidade com a Lei, para comprar novamente uma propriedade que necessitasse ser liberta ou resgatada (Nm.3.51; Ne.5.8). E a partir deste uso, o termo no Antigo Testamento foi usado normalmente com um senso de libertação, embora a idéia de pagamente sempre estivesse presente.
Nesse mesmo sentido levantado, Deus é visto como o Redentor de Israel, pois é aquele que provê Libertação para seu povo. Em Dt.9.26 temos uma bela demonstração desse fato: “Ó Soberano Senhor, não destruas o teu povo, tua própria herança! Tu o redimiste com tua grandeza e tiraste da terra do Egito com mão poderosa‘. Como podemos observar, Deus é visto por Moisés como “Aquele que Liberta“. Redenção aquilo é vista exatamente neste sentido, e a história da saída do povo do Egito é a prova definitiva desse fato. Observe:
E quem é como Israel, o teu povo, a única nação da terra que tu, ó Deus, resgatastes para dela fazerdes um povo para ti mesmo, e assim tornaste o teu nome famoso, realizaste grandes maravilhas ao expulsar nações e seus deuses de diante desta mesma nação libertaste do Egito? (2Sm.7.23)
Os dois termos em destaque reportam-se ao mesmo vocábulo hebraico (padâ; cf. abaixo) que traduz o conceito em português para redenção. Portanto, não podemos negar que o conceito de Redenção no Velho Testamento denota o sentido de libertação. Tal ação é comumente vista em benefício do povo de Deus (1Cr.17.21; Is.52.3). A idéia de “Redenção” inclui a libertação de todas as formas de mal (Is.52.9; 63.9; cf. Lc.2.38), ou pragas (Sl.78.35, 52) ou qualquer tipo de calamidade (Gn.48.16; Nm.25.4, 9).
O VT também apresenta a figura do homem endividado que poderia hipotecar seus bens para conseguir pagar o que estava devendo. Se porventura, ainda não fosse suficiente ele poderia hipotecar suas forças, suas habilidades como um escravo até que sua dívida fosse paga: “Depois de haver-se vendido, haverá ainda resgate para ele” (Lv.25.48). Um irmão poderia, se tivesse condições, redimi-lo, mas não era o que normalmente acontecia. Outra maneira de redimir esse homem seria se ele herdasse subitamente uma propriedade para então, pagar sua dívida. Contudo, existe ainda outra possibilidade, e essa merece nossa atenção: É a figura do Redentor-Parente. O Redentor-Parente seria alguém com capacidade para remi-lo, e que “se preocupasse suficientemente por ele, a ponto de responsabilizar-se pelas dívidas e as solvesse, então poderia ser libertado[2]“.
O Velho Testamento emprega os seguintes vocábulos para conceitura o que o Latim chamou de “redemptio“, o inglês de “redemption” e o português de “redenção[3]“:
Ga’al
Gn.48.16; Ex. 6.6; 15.13; Lv.25.25ss, 30, 33, 38, 48, 54; 27.13, 15, 19, 27, 31, 33: Nm.5.8; 35.12, 19, 21, 24, 27: Dt.19.6, 12; Js.20.3, 5, 9; Rt.2.20; 3.9, 12; 4.1, 3, 6, 8, 14; 2Sm.14.11; 1Re.16.11; Ed.2.62; Ne.7.64; Jó.3.5; 19.25; Sl.19.15; 69.19; 72.14; 74.2; 77.16; 78.35; 103.4; 106.10; 107.2; 119.154; Pv.23.11; Is.35.9; 41.14; 43.1, 14; 44.6, 22; 47.4; 48.17, 20; 49.7, 26; 51.10; 52.3, 9; 54.5, 8; 59.3, 20; 60.16; 62.12; 63.3, 9, 16; Jr.31.11; 50.34; Lm.3.58; 4.14; Dn.1.8; Os.13.14; Mc.4.10; Zc.3.1; Ml.1.7, 12
Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, o termo significa basicamente: “Redimir, vingar, resgatar, livrar, cumprir o papel de resgatador[4]“. Este verbete é o verbo denominativo, que dá origem a outros termo, tais como “geûllay” (apenas em Is.63.4 – redenção), “geûlla” (direito de redenção, preço de redenção) e “go’el” (redentor).
O Velho Testamento utilza o termo em quatro situações distintas:
- É usada na legislação do Pentateuco para se referir ao resgate de um campo que fora vendido em tempo de necessidade (Lv.25.25), ou o escravo que se vendera em tempos de miséria (Lv.25.48).
- Diz respeito a propriedades e animais, que não eram dedicados ao sacrifício ao Senhor ou eram primogênitos de animais impuros (Lv.27.11ss) que poderiam ser resgatados por um homem que pudesse dar algo equivalente em troca, embora o preço do resgate fosse maior, para evitar torças desonestas;
- Refere-se, também, ao “Vingador de Sangue“, que era o parente mais próximo de um homem assassinando (Nm.35.12ss). Como nas relações comerciais, era necessário um valor equivalente para que uma propriedade ou escravo fossem resgatados, no caso de vida retirada, com a vida do assassino seria paga. Por esta razão denomina-se tal pessoa de “Vingador de Sangue“. Neste caso, o “redentor” é um executor da pena capital, mas sem culpa para receber mesma punição;
- Um outro uso muito comum nos Salmos e nos profetas, é a identificação de Deus como Redentor de Israel. Neste caso, o preço da redenção não é citado, embora a idéia de julgamento sobre os inimigos de Israel seja citado em Is.43.1-3.
Um uso interessante do termo está lançado em Pv.23.10-11: “Não removas os marcos antigos, nem entres nos campos dos órfãos, porque o seu Vingador é forte e lhes pleiteará a causa contra ti“. Como é evidente pelo uso de letra maiúscula na tradução da ARA, o Vingador referido é Deus. A NVI traz a idéia de “aquele que defende“, de maneira um pouco mais superficial, embora a declaração seja aceitável do ponto de vista léxico. A versão em inglês, a NIV, traz a idéia de defensor, enquanto a KJV traz “Redentor“. Segundo Girdlestone “Deus assume o lugar do redentor-parente e também de Vingador do pobre e necessitado“. Todas as traduções expostas levantam um aspecto do termo “go’el“, sendo que é possível, diante de fartas opções, compreender seu significado. Portanto, o que vemos neste texto é que existe uma combinação de sentidos de “go’el“, que expõe de maneira clara seu significado[5].
O texto clássico sobre a redenção está em Jó.19.25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra“. Alguns cristãos do passado o assinalaram como uma referência à vinda de Cristo em sua Obra Messiânica, o que seria uma grande colocação. Contudo, considerando o argumento do próprio livro, e a situação de Jó, seria mais correto crer que faça referência a Deus, que, como amigo e parente-resgatador, por meio da fé, por fim redimiria Jó do pó da terra. Por outro lado, não podemos negar que exista uma relação profética neste texto relacionada com a Obra Messiânica realizada por Cristo.
Padâ[6]
Exod. 13:13, 15; 21:8; 34:20; Lev. 19:20; 27:27, 29; Num. 18:15ff; Deut. 7:8; 9:26; 13:5; 15:15; 21:8; 24:18; 1 Sam. 14:45; 2 Sam. 4:9; 7:23; 1 Ki. 1:29; 1 Chr. 17:21; Neh. 1:10; Job 5:20; 6:23; 33:28; Ps. 25:22; 26:11; 31:5; 34:22; 44:26; 49:7, 15; 55:18; 69:18; 71:23; 78:42; 119:134; 130:8; Isa. 1:27; 29:22; 35:10; 51:11; Jer. 15:21; 31:11; Hos. 7:13; 13:14; Mic. 6:4; Zech. 10:8
O Dicionário Internacional de Teologia traz a seguinte colocçaão de termo “padâ”: “O Sentido básico de padâ é o de conseguir a transferência de propriedade de uma pessoa para outra mediante pagamento apropriado de uam quantia ou de um substituto equivalente. A raiz ocorre em assírio como o sentido de ‘poupar’, e em ugarítico é mais usado com o significado de ‘resgatar’. A raiz e seus derivados aparecem 69 vezes no AT[7]“.
O termo em pauta é um dos termos mais significativos para a idéia de Redenção do ponto de vista cristão, porque recebe influências históricas. No Êxodo o termo é utilizado em relação a redenção dos primogênitos de Israel, que são poupados por substituição, enquanto os primogênitos do Egito são mortos (Ex.13.13, 15). Naquela ocasião, Deus livrou a Israel da servidão pelo preço da morte de todos os primogênitos do egito, sejam eles humanos ou animais (Ex.4.23; 12.29). O Termo é também utilizado em relação aos levitas e seus animais, que deveriam ser separados para Deus, em lugar do povo e de seus animais (Nm.3.4ss), que não eram dedicados ao Senhor (Ex.13.11-16; 34.19-20; Nm.18.8-32). “Aquele que era santo para o Senhor, i.e, o primogênito de vaca, ovelha e cabra, não seria resgatado[8]“.
Um texto que merece nossa atenção aqui é Dt.15.15: “Lembrar-te-ás de que fostes servo na terra do Egito e de que o SENHOR, teu Deus, te remiu; pelo que, hoje, isto te ordeno“. Israel também é visto como receptor da libertação proposta e executada por Deus. Portanto, o termo não trata exclusivamente da questão legal ou religiosa do povo de Israel, mas é aplicado à Obra de Deus em relação ao Seu povo. Tal idéia, ainda será exposta em outras épocas.
Em Sm.7.23 vemos uma colocação importantíssima: “Quem há como o teu povo, como Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo? E para fazer a ti mesmo um nome e fazer a teu povo estas grandes e tremendas coisas, para a tua terra, diante do teu povo, que tu resgataste do Egito, desterrando as nações e seus deuses“. O reconhecimento sobre o privilégio da nação de Israel é vista historicamente como conseqüência da Redenção de Deus, ou seja, a libertação do povo.
Inclusive, Isaías parece interpretar o chamado de Abraão como um ato remidor da parte de Deus: “Portanto, acerca da casa de Jacó, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão: Jacó já não será envergonhado, nem mais se empalidecerá o seu rosto” (Is29.22). Com a mesma visão, anteviu aquilo que Deus lhe revelara sobro o futuro de Sião: “Os resgatados do SENHOR voltarão e virão a Sião com cânticos de júbilo; alegria eterna coroará a sua cabeça; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido“. (Is.35.10; cf. 50.2; 51.11; Zc.10.8).
Como “ga’al”, “padâ” é aplicado a diversas situações, principalmente nos Salmos. Deus é apresentado como aquele que liberta/redime os homens do perigo (Sl.26.11; 31.5; 34.22-23; 44.26; 71.23) ou da mão de opressores (Sl.55.18-19; 69.18-19). Nesse contexto vemos que os Salmos ensinam a insuficiência do homem diante da morte, visto não poder fazer nada perante ela (Sl.49.8-9), mas demonstra que o poder redentor de Deus não está limitado a ela (v.15-16).
O mais interessante no uso deste termo é que uma única vez ele é utilizado em referência ao pecado: “Espere Israel no SENHOR, porque no SENHOR há misericórdia, e nele há abundante redenção. É ele quem redime a Israel de todas as suas iniqüidades” (Sl.130.7-8).
Kapar
Gen. 6:14; 32:21; Exod. 21:30; 29:33, 36f; 30:10, 12, 15f; 32:30; Lev. 1:4; 4:20, 26, 31, 35; 5:6, 10, 13, 16, 18, 26; 6:23; 7:7; 8:15, 34; 9:7; 10:17; 12:7f; 14:18ff, 29, 31, 53; 15:15, 30; 16:6, 10f, 16ff, 20, 24, 27, 30, 32ff; 17:11; 19:22; 23:28; Num. 5:8; 6:11; 8:12, 19, 21; 15:25, 28; 17:11f; 25:13; 28:22, 30; 29:5; 31:50; 35:31ff; Deut. 21:8; 32:43; 1 Sam. 3:14; 6:18; 12:3; 2 Sam. 21:3; 1 Chr. 6:34; 27:25; 2 Chr. 29:24; 30:18; Neh. 10:34; Job 33:24; 36:18; Ps. 49:8; 65:4; 78:38; 79:9; Prov. 6:35; 13:8; 16:6, 14; 21:18; Cant. 1:14; 4:13; 7:12; Isa. 6:7; 22:14; 27:9; 28:18; 43:3; 47:11; Jer. 18:23; Ezek. 16:63; 43:20, 26; 45:15, 17, 20; Dan. 9:24; Amos 5:12
Este é o verbo denominativo que dá origem a termo como “koper” (resgate, dádiva para obter favor), “kippur” (expiação) e “kapporet” (propiciatório, local da expiação). Embora exista muita discussão sobre a raiz desse termo, alguns comentários devem ser elaborados. Harris, no DITAT, dia que a “raiz kapar é usada cerca de 150 vezes. Tem sido objeto de intensos debates. Existe uma raiz árabe equivalente que significa ‘cobrir’ ou ‘ocultar’[9]“. Girdlestone nos informa que o termo árabe, mencionado pelo DITAT é “kephr”[10], e que o sentido original é de ser coberto ou protegido. Nos diz também que o termo tem 3 usos distintos no sentido original em hebraico:
- 1. Pode significar um povoado, vila, aldeia (Kapernaum = Cafarnaum = Vila de Naum; cf. 1Cr.27.25; Ct.7.12)
- 2. Pode referir-se a uma planta (Ct.1.14; 4.13);
- 3. Pode significar calafetar com betume (Gn.6.14)
O Conceito de “pecado coberto” é normalmente abordado por estudiosos da Teologia Sistemática, tal como Chafer, que diz que “a economia divina com respeito à disposição de tais pecados, representados nos sacrifícios de animais durante o extenso período entre Abel e Cristo, foi a de cobrir, como mostra a raiz hebraica kaphar, traduzida como expiação[11]“. Pouco a frente, ele ainda afirma que o termo em pauta expressa com exatidão divina o conceito de cobrir. O International Standard Bible Encyclopedia complementa, ainda, que o termo significa não apenas cobrir, mas também “cancelar, aplacar, oferecer ou receber uma oferta pelo pecado[12]“. O Holman Bible Dictionary contribui ao afirmar que “kapar” é usado em conceitos e práticas estritamente religiosas. É da palavra “kippur” que se origina “Yom Kippur, dia da expiação, ou o ‘dia de cobrir’, talvez o mais sagrado dos dias santos no Judaísmo. A forma verbal no Velho Testamento sempre é usada com um senso religioso de cobrir o pecado ou efetuar pagamento pelo pecado. Porém, a forma substantiva às vezes é usada no sentido secular de um suborno (Am.5.12) ou resgate (Ex.21.30). Com ‘padâ’, é usado no senso de resgate[13]“.
De fato, não podemos negar o que a escritura nos ensina sobre a morte expiatória de Cristo (sobre a morte de Cristo ser eficiente aos pecados cometidos antes de sua vinda ver At.17.30; Rm.3.26; Hb.9.15). Segue-se que o termo pode auxiliar na compreensão do conceito de “expiação”, como é visto por todo o velho Testamento. Portanto, concluímos que, apesar da dificuldade de identificação da aplicação do termo para a teologia do Velho Testamento, o termo é utilizado teologicamente como o conceito de “cobrir” os pecados (sobre essa conclusão ver ISBE no tópico “The English Word). Enfim, após algumas consideração etimológicas de aplicação teológica, vamos considerar o que o termo “Kapar” e suas variantes podem auxiliar na compreensão de Redenção no Antigo Testamento.
Em Gn.32.20 vemos um uso interessante do termo “kapar”, pois a ARA traduziu como “aplacar”, a NVI como “apaziguar” e a versão Alfalit Brasil, como “perdoar” (A simples observação deste caso já nos ilustra a dificuldade de se ter um termo definitivo para a tradução conceitual acontecer. Por outro lado, é sempre importante ter em mente que não existe tradução perfeita). O Contexto é a reconciliação entre Jacó e Esaú, e um presente foi enviado adiante de Jacó, pois pensava que fazendo o presente chegar antes dele, seu irmão o perdoaria. O termo é utilizado nesse contexto, e sua aplicação em português é bem vista com qualquer uma das possibilidades ressaltadas pelas diferentes versões bíblicas.
Das Sete ocorrências do termo em Êxodo, seis são utilizadas na ARA como sentido de expiação e uma como “propiciação” (Ex.32.30). Em Levítico a maioria dos casos é traduzido como “expiação”. Em Nm 5.8 vemos outro uso que merece nossa atenção. A ARA traz a seguinte tradução: “Mas, se esse homem não tiver parente chegado, a quem possa fazer restituição pela culpa, então, o que se restitui ao SENHOR pela culpa será do sacerdote, além do carneiro expiatório com que se fizer expiação pelo culpado“. O termo “Kapar” é traduzido pelo termo sublinhado no texto, mas o seu conceito é expresso pela colocação em negrito. Ou seja, o bode expiatório, que era oferecido para morrer, tinha a função de “fazer restituição pela culpa”. Portanto, podemos notar que o sentido mais clássico do termo em relação com a Teologia do Velho Testamento diz respeito a preço pago em favor de um débito. Deve-se lembrar que tal conceito aplica-se, não a dívida financiara, mas religiosas. Note os versos anteriores: “Dize aos filhos de Israel: Quando homem ou mulher cometer algum dos pecados em que caem os homens, ofendendo ao SENHOR, tal pessoa é culpada. Confessará o pecado que cometer; e, pela culpa, fará plena restituição, e lhe acrescentará a sua quinta parte, e dará tudo àquele contra quem se fez culpado” (v.6, 7).
Dos termos do Velho Testamento, o mais significativo em termos religiosos é “kapar”. Sem sombras de dúvidas, o conceito de expiação é inexoravelmente ligado ao pecado. Uma simples abordagem de Levíticos deixará isso mais que evidente. A Idéia de débito acompanhado pelo perdão é claramente observada na literatura vétero-testamentária. Observe a chamada de Isaías: “Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado” (Is.6.7; cf. Nm.15.28; Sl.65.3; 78.38; 2Cr.30.18, 19).
Como pudemos ver, a idéia de Redenção exposta no Velho Testamento é concentrada em conceitos concretos e aplicada a práticas civis e religiosas. Entretanto, a idéia de preço adequado pago em função de um débito sempre será bem presente, bem como a idéia de substituição para essa reconstituição. Sobre o assunto, o Holman Bible Dictionary diz que a “doutrina da redenção no Velho Testamento não é derivada do pensamento filosófico abstrato , mas do pensamento concreto hebreu“. E isto foi bem observado em nossa exposição.
[1] ORR, James (org). International Standard Bible Encyclopedia. Parsons Tecnology Inc.
[2] IRONSIDE, H.A. Grandes Vocábulos do Evangelho. pp.14
[3] Sobre colocações mais profundas e completas sobre o termo hebraico em pauta, ver Robert B. Girdlestone: Synonyms of the Old testament, pp.117-120. Girdlestone, faz a aplicação do conceito de “ga’al” exposto no VT no NT, evidenciando os termos gregos relativos.
[4] HARRIS, R. Laiid, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionáio Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Pp.235
[5] Sobre Pv.23.10-11 é válido observar que a tradução da Septuaginta oferece para “por que seu Vingado é forte“: “o’ ga.r lutrou,menoj auvtou.j ku,rioj krataio,j evstin”. O uso de “kúrios” associado com “lutroö” no presente do particípio médio, nominativo, masculino, singular nos dá a clara identificação de Deus como Redentor-Parente Vingador.
[6] É ponto pacífico entre muitos comentaristas que ga’al e padâ sejam sinônimos, embora tenham suas particularidades. Observe o que Willian Coker diz sobre o termo no DITAT:
“O emprego de padâ e seus derivados ocorre, às vezes, em paralelo com outras raízes. Deve-se destacar particularmente que ga’al é usado como sinônimo. As duas raízes dizem respeito à redenção mediante o pagamento de um resgate, embora seja sugerido que ga’al está basicamente associado a situações familiares e, dessa forma, dá a idéia da ação de um parente consangüíneo. No entanto, o uso de padâ e de ga’al em paralelismos encontrados em OS.13.14 e Jr.31.11 e o seu emprego como sinônimos em Lv.27.27 exemplificam sobre aposição de idéias entre as duas palavras. Além disso, das 99 vezes que a LXX utiliza o verbo lutroö, em 45 esse verbo está traduzindo a raiz ga’al e 43 a raiz padâ“
[7] HARRIS, R. Laiid, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionáio Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Pp.1200.
[8] Idem. pp.1201.
[9] HARRIS, R. Laiid, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionáio Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Pp.743
[10] GIRLESTONE, Robert, B. Synonyms of the Old Testament. Pp.127.
[11] CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. Vol.3 pp.107
[12] ORR, James (org). International Standard Bible Encyclopedia. Parsons Tecnology Inc.
[13] BUTTLER, Trent C (org). Holman Bible Dictionary. Parsons Tecnology Inc.
02.11.09
Redenção
Esse artigo é resultado da leitura do capítulo sobre Redenção do livro Grandes Vocábulos do Evangelho escrito por H.A. Ironside.
Bom Proveito!
———————————-
Texto fundamental: 1Pe.1.18-21:
“Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, as pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus”.
“A palavra ‘Redenção’ atravessa a Bíblia de capa a capa; de fato, podemos dizer sem qualquer sugestão de hipérbole que este é o grande e notável temo das escrituras Sagradas (…) Por toda parte do, do Gênesis ao Apocalipse, encontramos Deus, de um modo ou de outro, a apresentar-nos a verdade da redenção – redenção em promessa e em tipo, no Antigo Testamento; redenção em gloriosos cumprimento no Novo Testamento” (pp.13).
Segundo Ironside, redenção refere-se ao ato da compra de algo que fora seu, readquirir algo que foi retirado temporariamente de seu poder. Pode ser empregado também como Liberdade, libertar, livrar, no sentido de redimir alguém que corria grave perigo.
O Velho Testamento apresenta a figura do homem endividado que poderia hipotecar seus bens para conseguir pagar o que estava devendo. Se porventura, ainda não fosse suficiente ele poderia hipotecar sua força, suas habilidades como um escravo até que sua dívida fosse paga. Sobre ele Lv.25.48 diz: “Depois de haver-se vendido, haverá ainda resgate para ele“. Um irmão poderia, se tivesse condições, redimi-lo, mas não era o que normalmente aconteceria. Outra maneira de redimir esse homem seria se ele herdasse subitamente uma propriedade para, então, pagar sua dívida. Contudo, existe ainda outra possibilidade, e essa merece nossa atenção: É a figura do Redentor Parente. O redentor parente seria alguém com capacidade para remi-lo, e que se “preocupasse suficientemente por ele, a ponto de responsabilizar-se pelas dívidas e as solvesse, então poderia ser libertado” (pp.14).
Segundo a grande maioria dos comentaristas bíblicos tem encontrado na figura do Redentor Parente um tipo para Jesus Cristo como aquele que provê a redenção. O termo aplicado a esse libertador é “goel“, que é utilizado muito antes do estabelecimento de Israel como nação. Observe o que Jó diz sobre ele: “Por que eu sei que o meu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra” (Jó.19.25).
Tal pensamento pode ser aplicado a humanidade com um todo, pois sabemos que o homem é um pecador vendido e condenado. O texto de Isaías 52.3 nos diz: “Por nada fostes vendidos, e sem dinheiro sereis resgatados“. “Não é possível para qualquer homem, por seus próprios meios, redimir-se das tristes condições em que se encontra devido ao pecado; eis por que necessitamos de um parente remidor que seja mais que homem, que seja ao mesmo tempo divino e humano” (pp.14).
Segundo Ironside, o Novo Testamento nos informa sobre três aspectos da Redenção: (1) Redenção da Culpa do Pecado; (2) Redenção do Poder do Pecado; (3) Redenção Presença do Pecado.
Sobre a Páscoa Ironside diz: “Os israelitas tinha sido escravizados pelo egípicios, e sofriam debaixo da crueldade de Faraó; mas, conforme deveis estar relembrados, disse Deus: ‘Por isso desci a fim de livra-los…’ (Ex.3.8), e anunciou a Moisés um acontecimento que logo se realizaria, pelo qual ele faria distinção (literalmente, redenção) entre egípcios e os israelitas (ex.11.7). Essa redenção foi efetuada pelo sangue do cordeira pascal; e é justamente a esse cordeiro que o apóstolo Pedro se referiu tipicamente, em sua primeira epistola ao escrever ‘Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, as pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo’“ (1Pe.1.18-19).
“O sangue do cordeiro, derramado há tantos séculos atrás, foi a ilustração divina do sangue do Senhor Jesus Cristo, que seria derramado sobre a cruz do Calvário mil e quinhentos anos mais tarde, mas para o qual agora miramos através da névoa de quase dois mil anos já passados. Como é que esse sangue serve para nossa redenção hoje? Nos dias de Israel escravizado, o sangue do cordeiro tinha de ser literalmente aspergido sobre as vergas e ombreiras da porta, e assim os habitantes dentro daquela casa estavam em segurança. Já se passaram séculos, desde a morte de Jesus Cristo. Em qual sentido, pois, podemos estar em segurança, livres da condenação, através do sangue que há tantos séculos foi derramado?” (pp.16)
A questão levantada por Ironside nos remete a seguinte colocação: Seria a aplicação do sangue de Cristo literal, ou a aplicação do sacrifício de Cristo é espiritual? Se consideramos literal, estaremos sem condições de sermos salvos, visto que é impossível que exista uma gota sequer de tal sangue. Por outro lado, se cremos que sua aplicação é espiritual, termos que considerar que muitas das promessas referentes a Cristo possam ter a mesma aplicação. A aplicação espiritual da morte de Cristo não seria um problema, mas a aplicação das outras promessas em relação a Jesus, principalmente no que tange ao Reino de Deus e ao cumprimento das profecias e promessas referente ao Messias, sim. Analisar com mais calma o argumento.
“Lemos, na epístola aos Hebreus, que nossos corações te sido aspergidos pelo sangue de Cristo. Como é que esse sangue é aplicado a nossos corações? Mediante a simples fé” (pp.16). “Em outras palavras, quando confiamos no Senhor Jesus que derramou Seu sangue no Calvário, então somos enumerados entre aqueles que tem redenção por meio do Sacrifício que Ele ofereceu, e isso significa que ficamos seguros para sempre, salvos da condenação devida ao pecado, tais como Israel, protegida sob o sangue do cordeiro pascal, ficou livre do julgamento que cairia sobre o Egito…” (pp.17).
Ironside utiliza o texto de Tt.2.11-14 para demonstrar a utilização do termo “redenção” como “livramento”, visto ser aplicado à iniqüidade: “…Cristo Jesus, o que al si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras“. Ironside diz: “Ele morreu a fim de livrar-nos de toda iniqüidade, para tirar-nos das coisas más que põem em perigo nossa experiência Cristã, e visam arruinar e naufragar nossas vidas” (pp.19).
Cordeiro de Deus
Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Cordeiro de Deus do livro Deus estava em Cristo.
Bom Proveito
—————————–
“Santo Anselmo é, muitas vezes, acusado de iniciar o estudo da expiação a partir do final, por que seu primeiro passo consiste em mostrar, abstratamente, a urgência da situação que exigia semelhante expiação divina para, somente então, contemplar a provisão efetiva de Deus, em Jesus Cristo. Eu poderia ser acusado do mesmo erro. Mas, ainda que, neste caso, esteja muito bem acompanhado, parece-me que seria mais exato dizer que procurei mostrar a experiência cristã da reconciliação para daí reconsiderar aquilo que a tornou possível, a Cruz e a Paixão de Cristo” (pp.206).
Por que morreu Jesus?
“Se quisermos compreender a relação que há entre a Expiação divina e a Cruz de Cristo, devemos voltar nossa atenção ao relato evangélico e ao Jesus da história” (pp.206). Baillie, depois de expor a idéia de expiação quer fazer a ligação entre tal conceito e a Morte de Cristo. Para que isso seja evidente, ele procura demonstrar que é necessário compreender quem foi de fato este que morreu. Por isso, quer voltar sua atenção ao relato dos Evangelhos para buscar Jesus como personagem histórico. “Foram preservadas [as narrativas sobre Jesus], na tradição, por que o significado da Cruz não seria compreendido sem o conhecimento e a compreensão daquele que foi crucificado” (pp.206).
Algumas perguntas propostas por Baillie sobre a morte de Cristo: “Por que Jesus morreu? Por que foi condenado à morte pelo Procurador Romano? Por que as autoridades judaicas tramaram sua condenação? Qual o propósito final da morte de Jesus na economia divina, na providência de Deus? Em que sentido e por que razão Jesus ‘entregou-se’ ao destino da Cruz?” (pp.207). Sobre a voluntariedade de Jesus para a morte na concepção de Baillie implica em dizer que Ele o fez através da fé humana. Para ele é certo que Jesus aceitou a cruz como vontade e propósito de Deus. Quando ele afirma que Jesus fez isso mediante a fé humana ele quer enfatizar a humanidade de Cristo a ponto de não ser “guiado por um conhecimento sobre-humano que lhe faria discernir ‘o fim desde o começo’. Seria artificial pensar nele como tendo desde o início a consciência clara de que viera ao mundo para morrer de morte violenta pela salvação humana. Seria igualmente artificial concebe-lo em qualquer ponto de sua vida a formar a intenção de estar condenado a morte” (pp.207). Para Baillie, “os evangelhos foram escritos numa época em que os cristãos podiam olhar para trás e se gloriar da Cruz, aceitando-a como ordenada pelo propósito de Deus; mas não ocultaram o fato de que Jesus, ao contemplar o seu futuro e percebendo como haveria de ser, via-o como tragédia indescritível, aceitando-o contudo pela fé, e que até na última noite esperou e orou para que não chegasse” (pp.207-8).
É válido relembrar que, segundo Baillie, Jesus não morreu como vítima indefesa, “ele poderia ter escapado mas prosseguiu com olhos bem abertos” (pp.208). Segundo tal autor, se Jesus tivesse alterado o caráter de seus ensino, o número de confrontos com as autoridades judaicas, se tivesse mantido-se reservadamente com seus discípulo, por certo as autoridades judaicas o deixariam viver, e assim Ele teria salvo sua vida. “Mas mesmo quando os seus próprios discípulos tivessem desejado que tomasse o caminho menos perigoso – o que tornou muito mais difícil sua decisão (Mc.8.31-35) – ele não hesitou. ‘O que salvar a sua vida perde-la-á’ – havia ensinado. Poderia ter salvo a sua vida, mas seria a perda de tudo o que tinha sentido para a sua própria vida. E, assim, não haveria de voltar atrás no caminho que lhe conduzia ao sofrimento, à vergonha e à morte“. (pp.208).
Algumas perguntas interessantes são propostas por Baillie:
- Qual era o caminho que não podia abandonar embora tivesse que morrer?
- Para que morreu?
- Que objetivo levou-o a tal fim?
Provavelmente a respostas a todas essas perguntas sejam resumidas a um vocábulo: “AMOR”. Contudo, seria ainda necessário considerar a existência do objeto desse amor. Logo, “AMOR AOS PECADORES” seria a mais plausível das respostas. A pouco, discutimos sobre o amor incondicional de Deus, como deve ser ele compreendido de maneira correta. “Não há nada tão certo e tão autenticado no relato dos evangelhos do que o assombro que o Rabi de Nazaré causava, indispondo-se mesmo com as autoridades ao manter relações de amizade e simpatia com homens e mulheres de caráter duvidoso e pela atitude que demonstrava para com estas pessoas. Freqüentava suas casas e lhes falava com familiaridade. Demonstrava mais interesse nessas pessoas do que em outras e praticamente disse que Deus também fazia o mesmo. Disse que a sua própria missão não era para os ‘justos’ mas para os ‘pecadores’ (…) Não que considerasse os ‘justos’ – escribas e fariseus – sem pecado. Talvez fossem piores do que os ‘publicanos e pecadores’ aos olhos de Deus. Eram também pecadores e precisavam de arrependimento. E quando lhes falou com tanta severidade sobre os seus pecados não foi, em última análise, por que também os amava e desejava que se arrependessem?” (pp.209). “Mas à parte da profecia mencionada e de todas as interpretações teológicas, é verdade que ele morreu pelos pecadores no mais pleno sentido histórico: foi o seu amor pelos pecadores que o levou a morrer na Cruz” (pp.210).
A Cruz e o Amor de Deus
“A crucifixão de Jesus levou os homens à reflexão, mas do que qualquer outro acontecimento na vida da raça humana. E o fato mais notável na história do pensamento religiosos é que, quando os cristãos primitivos se reportavam ao que havia acontecido e consideravam os momentos terríveis do Calvário, eram levados a meditar no amor redentor de Deus” (pp.211). É interessante tal afirmação, pois para uma mente inquiridora e saudável, a morte trágica e sofrível, tal como a sofrida por Cristo, deveria ser encarada como a mais faltosa de amor, ou como atitude inescrupulosa de Deus. Talvez, ainda, considerada como a mais cruel de todas as atitudes, ou como afirma Baillie, “a crucifixão poderia ser vista como reductio ad absurdum” (pp.211). O ponto de vista de Baillie da presente argumentação sobre a Morte de Cristo é que, a princípio ela parece cruel demais para revelar um Deus amoroso por trás. O que ele reconhece facilmente é que Jesus demonstra claramente seu amor para com o homem. Mas o paradoxo da Morte de Cristo é reconhecer o amor de Deus por trás de tudo isso. “Se Deus era bom, como havia permitido que tal coisa acontecesse?” (pp.210). Isso é ainda pior quando notamos que os seguidores mais próximos de Cristo nunca inquiriram estas perguntas, ao contrário, consideravam a crucificação como ponto central na exposição do evangelho (ver pregações em Atos). É provável que tal atitude para com a crucifixão de Cristo tenha nascido a partir dos acontecimentos da manhã da Páscoa.
“Desde os primeiros dias da vida da Igreja diziam, aparentemente, que de alguma forma tudo acontecera pelos propósitos de Deus e, ainda mais, pelo propósito misericordiosos de Deus par ao perdão dos pecados – um perdão que poderia alcançar até os homens que haviam crucificado Jesus” (cf. At.2.23, 38; 3.17-19, 26; 4.27ss; 1Co.15.3).
Na verdade, não muitos problemas com a preocupação de Baillie em compreender o amor de Deus por trás da morte de Cristo, visto que há farto número de referências neo-testamentárias para esse fim (Rm.5.8; 8.32; Jo.3.16; 1Jo.4.10).
“Em resumo ‘tudo é de Deus’: o desejo de perdoar e reconciliar, os meios indicados, a provisão da vítima vindo do seu próprio seio, mediante preço infinito. Tudo acontece dentro da própria vida de Deus: pois se tomamos a Cristologia do Novo Testamento, temos de afirmar que ‘Deus estava em Cristo’ neste grande sacrifício expiatório, e que o Sacerdote e a Vítima eram o mesmo Deus“. (pp.215).
“Mas seja qual for o meio empregado no processo da salvação através da cruz, a atitude misericordiosa de Deus para com os pecadores nunca é vista como o resultado do processo, mas como sua causa e origem” (pp.215-6).
Por que a Expiação?
Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Por que a expiação? do livro Deus estava em Cristo.
Bom Proveito
—————————————————
Baillie intenciona neste capítulo procurar a razão por traz da expiação, como parte da Obra de Cristo. A primeira pergunta que levanta já havia sido dita por Alselmo de Cantuária séculos antes, durante o período do Escolasticismo Católico. Contudo, a princípio Baillie levanta questões que provavelmente são ouvidas em sua época sobre a realidade da fé cristã. Uma pergunta que teria sido muito ouvida durante a história do Cristianismo é a seguinte: “Seria isto verdade?”. A profundidade deste questionamento demonstra que a preocupação dos antigos cristãos estava voltada para a veracidade da sua fé. Contudo, no tempo de Baillie, o questionamento parece muito mais superficial, pois diz-se “Tem importância?”. Ou seja, os cristãos estão se perguntando se existe valor ou importância na existência de Deus amoroso que revela-se ao homem. “Tem alguma importância, para mim, na vida real, a existência desse misteriosos ser chamado Deus? Importa que eu creia em sua existência mais do que saiba de existência de alguma estrela distante, invisível a olho nu?” (pp.179).
A conclusão que se chega é que “Se tais perguntas inquietantes são freqüentes, é por que, sem dúvida, a Cristandade anda muito afastada dos próprios conhecimentos elementares do ensino cristão. Sugere também que nós, cristãoas, não estamos fornecendo explicações e informações adequadas do que cremos” (pp.180). Certamente os problemas não estão nas perguntas, pois são adequadas, mas na falta de respostas.
Algumas questões a serem consideradas: “Por que Deus se fez homem? Com que propósito Cristo desceu do céu? Será que a encarnação fazia parte do plano original e terno de Deus para a humanidade, como o verdadeiro fim da coroa da criação? Ou se tornou necessária somente por causa da Queda do Homem e a conseqüente necessidade de redenção? Teria Cristo vindo, se Adão não tivesse pecado? Se o homem não tivesse caído, a Encarnação ocoreria de maneira talvez diferente e sob condições diversas? Foi somente para morrer na Cruz, pela salvação humana que Cristo se encarnou? Seria necessário que a salvação humana se verificasse através desse único método? Não poderia Deus ter salvo o homem de outra forma, talvez menos custosa, mediante simples Fiat de sua vontade?” (pp.180).
Tais perguntas históricas do cristianismo são, sem dúvida, cruciais para a consolidação da fé cristã. Contudo, não é possível responde-las satisfatoriamente sem que alguns conceitos anteriores sejam tais como o problema do pecado e do perdão, da expiação e da reconciliação (1Tm.1.5; Mc.10.45; 1Jo.4.10). Por isso, “devemos responder a estas perguntas e tentar compreender o significado do perdão dos pecados na vida cristã, expor a compreensão de modo real e vital, e daí voltar à quetãos da expiação e sua conexão com a Encarnação” (pp.180-1).
A Necessidade do Perdão de Deus
Normalmente se ouve que o homem moderno não se preocupa com o pecado e sua realidade. Aliás, há quem diga que o sentido do pecado e da necessidade de perdão é muito estranhos à mente moderna. Contudo, Dr. Reinhold Niebuhr, em 1939, não podia deixar de falar da consciência complacente do homem moderno: “A universalidade dessa consciência complacente, entre os modernos, é tanto mais surpreendente quanto mais se expressa, sem restrições, em uma época de decadência social bem semelhante ai apogeu da cultura burguesa dos séculos XVIII e XIX” (pp.183).
A indiferença com relação à existência do pecado e da preocupação com suas conseqüências foi normalmente aplicado ao medo do juízo e castigo deles, seja neste mundo como o vindouro. Para eles, mais importante é o erro que a penitência, pois o primeiro permanece inalterado e pertence ao passado e não pode ser desfeito nem mesmo com muitas lágrimas penitenciais. O importante é futuro. Portanto, deixando para trás os erros, procurando repara-los a medida do possível, sigo com minha auto-expiação e não me importo nem me perturbo com os meus pecados e com o perdão dele.
O pensamento moderno não pode subsistir a realidade. Como disse Niebuhr: “Sobre o perpétuo sorriso da modernidade há uma careta de desilusão e cinismo” (pp.186). Se considerarmos o homem simplesmente como tendo uma “mera moral”, um ser apenas consciente de seus erros, ser simplesmente um moralista. Para o moralismo moderno não existe solução, pois jamais poderia perdoar-se a si mesmo. Não existe auto-perdão, ou conceito de liberdade moral que supra as acusações de uma consciência normal. Portanto, aqui demonstra-se o fracasso da vã moralidade desprovida de vida de fé. “Este esforço não terá sucesso, por que se centraliza no eu em vez de ter Deus no centro, e esta á a verdadeira raiz do mal. E quanto mais ansioso, mais desesperado se torna, por que não há maneira alguma que sirva para tratar de suas próprias falhas. O pobre moralista é orgulhoso demais para perdoar a si mesmo, e deste modo a auto-retidão e o auto-desespero se encontram, impedindo a salvação da alma” (pp.187-8).
Contudo, quando nos orientamos para Deus, a situação muda de figura, pois a moralidade, não torna-se “mera moralidade”, mas constitui-se Moral absoluta, transformada e saudável, como parte integral da fé. Assim, não existe apenas a consciência do erro, mas a certeza de um mal orientado contra Deus, uma desobediência e violação completa da vontade de Deus, bem como a traição do seu amor incondicional. Ou seja, o homem moderno, em sua concepção da vida meramente moral e moralista não tem “o segredo salvado para enfrentar suas faltas morais” (pp.189). Portanto, sua tristeza é a tristeza do mundo que produz a morte, que deveria transformar-se em tristeza segundo Deus que produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar, por que leva ao perdão (2Co.7.10).
A conclusão que se chega é que não existe resposta suficientemente completa para a questão moral do homem sem que exista o padrão moral absoluto. Não existe solução para o homem, como ser moral, em suas próprias forças e limitações. Não existe quem escape da verdade, veracidade e realidade do pecado como degradador da humanidade do homem. Se, temos pecado em não o negamos, temos certeza de que a verdade está em nós e que, “se confessarmos os nosso pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo.1.8,9).
Perdão e Castigo?
A questão em pauta neste tópico é relacionada a existência do perdão na inevitabilidade de um castigo para o pecado. “Temos o caso de um homem que pela sua vida pecaminosa adquiriu doenças e incapacidade físicas, ou perdeu o emprego e as melhores perspectivas, caindo em séria privação. Ele deve considerar tudo isso como castigo de Deus. Contudo, quando sinceramente ele se arrepende e aceita o perdão de Deus, iniciando uma nova etapa de sua vida, as más conseqüências dos seus velhos pecados podem ainda acompanhá-lo em sua vida nova e mesmo permanecer com ele até o fim” (pp.191). “O castigo rela não está nos sofrimentos, mas na separação de Deus” (idem). “Martinho Lutero refere-se à regra da arte dramática proposta por Horácio, segundo a qual não se deve introduzir nenhum deus na ação e não ser que o argumento se haja complicado tanto, que somente um deus pudesse desenredar a trama. ‘Pois bem’, diz Lutero, ‘o pecado humano é esta complicação’. Somente Deus pode desenredar a trama dos nossos pecados” (pp.195).
Mas por que Expiação?
Portanto, a questão que insurge neste ponto é: “O perdão de Deus não é suficiente?“. O pressuposto dessa questão é visto pela própria argumentação de Baillie, pois demonstra o Amor de Deus como incondicional e seu Perdão como gratuito a todos que o aceitam. Então, por que elaborar uma Teologia de redenção, propiciação e reconciliação por meio do Sangue de Cristo? “Não é melhor crer, afinal de contas, no amor eterno de Deus que busca os pecadores para gratuitamente lhes dar o perdão?” (pp.197). Para responder a essa pergunta, Baillie procura demonstrar a diferença moral e espiritual entre um favor bem intencionado e uma reconciliação custosa.
A questão do amor incondicional de Deus tem que ser compreendida corretamente, pois é certo que o Amor de Deus continua a atuar sobre homem mesmo em situação de pecado. Contudo, isso não significa que Deus não se importa com a gravidade do nosso pecado, como se tudo fosse parte da vida do homem, uma rotina a qual Deus está habituado. Tal pensamento pode ser claramente estampado pelo pensamento de Heine[1] em seu leito de morte que disse: “Deus me perdoará: este é o seu ofício“.
A questão do pecado pode ser ilustrada como uma ação depreciativa de um amigo para outro. Suponhamos que um deles use de falsidade para com seu amigo e o coloque em situação de risco. A reação dele vai depender da intimidade que existe entre eles, pois se for uma amizade superficial, com leviandade será tratada a ofensa. Contudo, se for um bom amigo, será custosa a restauração desse relacionamento. Observe essa analogia da perspectiva do casamento. Traição é apenas perdoada com muito custo, pois o ofendido teve sua honra maculada, sua vergonha exposta. O ofendido é quem sofre mais, ele carrega a vergonha como se fosse dele, por causa do seu amor traído. A agonia do ofendido é muito maior que a do ofensor, pois é certo que seu amor é muito mais profundo. Portanto, se o perdão for concedido, é neste misto nobre de vergonha e agonia que advém o perdão, e por certo é deveras custoso. Mas, deve-se levar em conta a falibilidade da humanidade, pois o ofendido, na questão da traição no casamento, pode muito bem ser levado por seu amor próprio e desempenhar um julgamento unilateral, e não lhe atribuir o perdão.
No que tange ao pecado, o ofendido é Deus e o ofensor sou eu. “Se lhe fui desleal como acontece em todas as minhas más ações, a minha deslealdade é para com o Amor infinito que é o coração do universo, a fonte e o fim da minha existência e o próprio significado da ‘Lei Moral’ que eu quebrei. Não pode haver nada mais inexorável do que este amor. Se o traí a traição é definitiva. Esta é que deve ser apagada, e uma ‘expiação’ assim deve ser a mais difícil, a mais sobrenatural e custosa do mundo” (pp.199).
A questão do perdão não trata-se de um Tirano de boa índole conceder anistia com um simples mover de sua caneta. O perdão “provém do coração de um amor que carregou todos os nosso pecados e, por seu amor infinito, a paixão é também infinita. ‘ Quem sofre mais do que Deus?’ pergunta Piers Plowman. Existe no próprio coração de Deus uma expiação, um sacrifício,produzindo o perdão dos nossos pecados“.
Os termos “expiação”, “prociciação” e “reconciliação” vem do antigo sistema sacrificial de Israel, e encontra seu clímax no Cristianismo do Novo Testamento, mais especificamente, em Cristo, onde se entende que Deus é quem paga o preço pelo pecado.
[1] “Seu nome em alemão era Heinrich Heine. Assina a mensagem inserida em O Evangelho segundo o espiritismo, no item 3 do capítulo XX, intitulada “Os últimos serão os primeiros”. Nasceu em Düsseldorf em 13 de dezembro de 1797, de família judaica. Seu destino era o comércio e por isso foi encaminhado pelo pai a um tio banqueiro em Hamburgo. Logo verificou-se que ele não tinha dom para a atividade e o tio o remeteu a Bonn, a fim de estudar direito. Mas o jovem Harry como era chamado então, interessou-se pelos assuntos literários e abraçou os cursos de literatura. Berlim foi seu ambiente mais propício, permitindo-lhe freqüentar os salões literários e seguir a filosofia política de Hegel. Poeta e jornalista, ficou famoso pelos poemas e livros de viagens. Desgostoso pelo clima anti-semita do país, emigrou para Paris no ano de 1831. Ali se tornaria correspondente de grandes jornais alemães. Foi um dos mais inquietos e polêmicos jornalistas de seu tempo. Para o Jornal Geral de Augsburgo descrevia quadros da vida francesa, sendo seus temas constantes o parlamento, a imprensa, o mundo artístico, o teatro e a música. Sua influência foi enorme dentro e fora da Alemanha. Na segunda metade do século XIX todos os poetas alemães pareciam heinianos. Sua poesia é de um lirismo melancólico de início. Seus poemas sentimentais são cheios de infelicidade e lamentações amorosas. Alguns poemas de amor conquistaram fama universal, sendo depois musicados por Schubert , Schumann e muitos outros compositores. Escreveu poemas dedicados ao mar, em versos livres. E por fim, a poesia política, tangendo versos que retratavam situações da época como Os Tecelões, poema inspirado pela greve dos tecelões esfomeados da Silésia. Como prosador é considerado um dos mais ágeis da literatura de língua alemã, em qualquer tempo. Suas obras mais ambiciosas são A escola romântica e Sobre a história da religião e da filosofia na Alemanha. Nesse último, Heine parece querer completar o livro de Mme de Stäel sobre a Alemanha, tentando mostrar aos franceses o pensamento estético e filosófico do seu país. Nele está estampada a profecia de um despertar revolucionário da consciência alemã e, sobretudo, a crença do poeta na importância universal do pensamento de Hegel. Sofreu dificuldades financeiras, enfrentou conflitos políticos e a doença acabou por vitimá-lo. Sofreu uma paralisia que o conduziu à morte em 17 de fevereiro de 1856, em Paris. A mensagem que se encontra em O Evangelho segundo o espiritismo é datada de 1863, também em Paris”. (www.panoramaespirita.com.br).
Pré-conhecimento
Existe uma constante luta entre alguns termos bíblicos, a saber, pré-conhecer (Rm.8.29; 1Pe.1.2) e Predestinar (Ef.1.5). Todos os comentaristas que não adotam uma postura mais reformada em termos de soteriologia, tendem a agrupar os vocabulos alistados em referência a uma possível ordem para salvação. Ou seja, para eles Deus precisa conhecer alguém, e por seu conhecimento antecipado dos fatos, sabendo que este creria, então Ele predestinaria este.
Essa ordem é, em primeiro lugar, uma superposição temática, teológica e contextual, e uma declaração equivocada em função de uma má observação dos vocábulos gregos. Assim é necessário observá-los em seus contextos. A tentativa não é de afirmar a isenção de ligação entre os vocábulos, mas compreender o seu real significado no ambiente em que é utilizado. Mas, vamos por partes. A princípio vamos observar o texto de Rm.8.29:
“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos“
Este é o texto do qual normalmente se retiram o verbete conhecer em referência a salvação. Note que os tradutores da versão ARA utilizam o vocábulo conhecer associado com o advérbio antemão. Em conjunto eles veêm a significar um conhecimento prévio, antecipado, ou seja, um pré-conhecimento.
Segundo os teólogos aversos à teologia reformada afirmam que esse vocábulo implica em dizer que Deus conhece a cada um daqueles que “aceitarão a Jesus” no futuro, e então, segundo o texto, ele os predestina à salvação. Ou seja, Deus em seu conhecimento prévio resolver predestinar a salvação aqueles que, Ele sabe, já se predestinaram a salvação eterna “aceitando a Jesus” como salvador. Logo, a conclusão que se chega é que a Predestinação da parte de Deus é na verdade uma obra em cooperação com o homem. E sobre isso muito bem acentuou Spurgeon:
De acordo com o esquema do livre-arbítrio, o Senhor tem boas intenções, mas precisa aguardar como um servo, a iniciativa de sua criatura, para saber qual é a intenção dela. Deus quer o bem e o faria, mas não pode, por causa de um homem indisposto, o qual não deseja que sejam realizadas as boas coisas de Deus. (…) Se eu decidir, tornarei ineficaz o sangue de Cristo, pois sou mais poderoso que o sangue, o sangue do próprio Filho de Deus. Embora Deus estipule seu propósito, me rirei desse propósito; será o meu propósito que fará o dEle realizar-se ou não”. Senhores, se isto não é ateísmo, é idolatria; é colocar o homem onde Deus deveria estar.[1]
Contudo, esse corrente teológica tende a minimizar a Obra Salvífica de Deus, que é um ato iniciado e perfeito por Ele. Assim é mister compreender o significado deste vocábulo, no ambiente bíblico, a fim de observar quão grande obra foi realizada por Deus na salvação do homem.
Prognosko
O verbo utilizado por Paulo em Romanos 8.29 é proginosko. Esse vocábulo e formado a a partir da junção do verbo ginosko com a preposição pró, que passa a modificar o sentido do verbo. Segundo Collin Brown e Lothar Coenen, o verbo “é atestado de Eurípedes em diante (Hippolytus, 1072)[2]“, ou seja, um termo relativamente recente.
O verbo ginosko tem significado simples e pode ser utilizado basicamente de duas maneiras: de maneira universal e particular. No que diz respeito aos usos mais universais do verbo, ele vem a sigficar conhecer, saber, vir a conhecer, compreender, obter conhecimento ou, como sugere o Thayer’s Greek Lexicon, como um eufemismo hebraico referindo-se à conexão carnal íntimas entre homem e mulher (LXX Gn.4.1, 17, 19.8; 1Sm.1.19). De maneira particular pode referir-se ao conhecimento de Deus e de Cristo e das coisas relativas a Eles ou procedentes Deles.
Neste aspecto mais particular é que parece ser utilizado o vocábulo, mesmo que precedido por uma preposição, pois refere-se ao conhecimento relativo a Deus, pois, como lê-se: “Porquanto [Deus] aos que de antemão conheceu, também os predestinou…”. Assim, esse conhecimento seria prévio, exclusivo de Deus embora ainda não manifesto claremente ao homem, como sugeriu Eurípedes, Platão e Xenofontes ao aplicarem o vocábulo proginosko em referência direta a Deus. O que se pode concluir que esse vocábulo não pode ser aplicado ao simples fato de que Deus previu algo, mas que desde a eternidade passada ele já tinha conhecimento.
Entrementes, pode-se perceber que a busca para a definição léxica do verbete é fundamentada apenas nas citações do grego clássico. Isso poderia criar objeção à definição visto não ser retirada do ambiente bíblico. Mas, antes que se pense de maneira inadequada, é necessário observar atentamente as citações bíblicas e procurar compreender qual uso os autores do Novo Testamento fizeram desse vocábulo.
Nas citações bíblicas pode-se observar 5 utilizações do vocábulo, sendo uma de Lucas (At.26.5), duas de Paulo (Rm.8.29, 11.2) e duas de Pedro (1Pe.1.20; 2Pe.3.17). Em Atos é que observa-se a colocação mais simples, pois trata-se de uma defesa pessoal de Paulo. Em sua defesa ele afirma: “pois, na verdade, eu era conhecido deles desde o princípio, se assim o quiserem testemunhar, porque vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião”. A intenção de Paulo é demonstrar que os fariseus o coheciam a muito tempo, ou seja, o conheciam anteriormente ao julgamento. Essa colocação não pode ser classificada de outra maneira, senão no uso mais universal do verbo, referindo-se a atividades humanas de recordação (cf. 2Pe.3.17). As outras três citações dizem respeito às atividades de Deus, e por certo, estão classificadas de maneira mais particular, pois refere-se ao conhecimento anterior que Deus tem.
Romanos 8.29
Antes de qualquer discução no que diga respeito ao vocábulo e o ambiente em que ele está inserido, é necessário observar algumas características da epístola em que o ambiente, que contém o vocábulo, está inserido.
Paulo escreve esta Carta-Tratado, aos Romanos, com alguns pontos em mente. Tais como Justiça de Deus que se revela no Evangelho (1.17). Sendo revelada no Evangelho, qualquer outra possibilidade de Justificação é anulada, pois todos estão debaixo do Pecado (1.18-3.31). E fora do evangelho, permanecerá como tal (1.17-3.31). Dessa forma é necessária a justificação, que é ilustrada (4.1-25), é recebida pela fé (5.1-11) e aplicada a muitos (5.11.19) em função da manifestação da graça de Deus (5.20-21), sendo esta graça atribuida a pecadores, isso não isenta a responsabilidade do salvo em relação ao pecado (6.1-23), a busca pela santificação (7.1-25) embora se pudesse ter muitas questões sobre o cristão e a lei judaica.
Nesse interím, sabendo de todas as informações acima lancadas, Paulo passa a criar o ambiente em que a palavra é utilizada. O ambiente parece denotar um aspecto da vida cristã que é muito desgostasa, as tribulações. Mas, Paulo, de maneira muito madura, contrasta as tribulações e sofrimentos com a glória que em nós será revelada. (8.18). pois, segundo ele, até mesmo a natureza e toda a criação de Deus sofre com o problema do pecado no mundo, e isso inclui o homem (8.19-23). A partir deste ponto Paulo faz uma demonstração de que o ápice da posição do cristão encontra-se no fato de que no futuro será glorificado (8.24-30). Então, é nesse contexto que encontramos o vocábulo, onde lê-se:
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmão. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. Rm.8.28-29 .
Note que a contrução do versículo: “…aos que de antemão conheceu, também os predestinou”. Se observado dentro da gramática em português, fica evidente que o fato de que Deus conheceu não é a base, nem o fundamento da predestinação, pois o advérbio entre conhecer previamente e predestinar é “também”. Em grego isso fica mais estampado, pois lê-se: “o[ti ou]j proe,gnw( kai. prow,risen)))”. O vocábulo “kai,” utilizado neste texto não pode ser traduzido por “por causa”, muito menos por “por isso”. Normalmente o termo é utilizado apenas para conectar cláusulas e sentenças, bem como narrativas, além de, epexegeticamente, anexar palavras e sentenças. A função sintática do termo restringe-se a isso.
Assim, não pode-se afirmar que a razão da predestinação é o pré-conhecimento que Deus tem. O que pode-se concluir é que Deus de fato conheceu e predestinou, embora o texto não faça distinção entre tempo ou época em que isso aconteceu.
A exceção dessa observação, a própria palavra que refere-se ao pré-conhecimento, não expressa o sentido desejado pelos teólogos aversos à teologia mais reformada, no que tange à salvação. E sobre isso J.I Paker diz:
Para a pergunta, “Em que base escolheu Deus os indivíduos para salvação?” às vezes é respondido: em base da presciência dele que quando os confrontou com o evangelho eles escolheriam a Cristo como Salvador deles. Nesta resposta, pre-conhecimento significa previsão passiva da parte de Deus do que os indivíduos irão fazer, sem o predeterminar de suas ações dEle. Mas
(a) Pré-conhecimento em romanos 8:29 e 11:2 (…): não expressa a idéia da antecipação de um espectador do que acontecerá espontaneamente[3].
Sendo assim, observa-se que a fundamentação é vaga, pois não tem base exegética. Mas é valido afirmar que pré-conhecimento e predestinação não referem-se ao mesmo evento, sendo isso evidenciado pelo uso de duas palavras diferentes para a especificação das atividades que são iniciadas por Deus e perfeitas por Ele. Assim, é muito mais provavel que esse conhecer seja marcado pelo senso hebreu de escolha antecipada[4], como sugeriu Archibald Thomas Robertson.
Portanto, é mister afiançar que o texto diz que “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à Imagem de Seu Filho”, o que inibe a possibilidade em que se afirme que fomos eleitos por que Deus sabia que creríamos, pois sabe-se que ser conforme a imagem de Seu Filho é consequência da salvação. Ao contrário, deve-se afirmar que fomos eleitos com objetivo de sermos conformes à Imagem de seu Filho, como bem destaca a preposição “eivj” no texto. Ou seja, não se deve considerar como fundamento, como normalmente alguns teólogos tem feito de maneira indevida, o que é conseqüência da salvação. Assim, “a eleição não se pode basear em obediência, obras e santidade previstas, porque isso tudo é resultado da eleição, e não sua causa[5]“.
Logo, conclui-se que o ato de conhecer fatos antecipadamente da parte de Deus não significa que Ele tenha previsto fatos futuros como um profeta, nem mesmo que isto fundamente sua predestinação, como fica bem estampado pelo grego no texto em pauta. Mas é válido relembrar que o termo não é um sinônimo de predestinar, visto que, neste texto, Paulo usa os dois termos juntos. Contudo é necessário que se diga que ambos estão em acordo.
Romanos 11.2
Este texto é muito pouco utilizado para defender o pré-conhecimento passivo e soteriológico, embora utilize a mesma palavra que Rm.8.29. Possivelmente isto aconteça em função de que o texto não corrobora para o fim desejado por aqueles que visam distorcer os texto e verdades bíblicas.
Antes de qualquer qualquer menção seja feita sobre este texto é necessário fazê-lo exposto: “Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu…”. O discurso de Paulo, que está ao redor deste versículo, refere-se à possivel rejeição de Deus do povo de Israel. Mas, sua conclusão, no texto, é bem clara, pois Deus não repudiou seu povo. Em confirmação a esta premissa, ele ilustra a partir da história de Elias, que não estava sozinho e diz: “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. Segue-se que Deus não repudiou seu povo, que conheceu de antemão.
A esse conhecimento de Deus é impossível que se diga que Ele simplesmente sabia que este povo o iria cultuar e aceitar seu plano pactual e remissor. Aqui fica evidente que a palavra é utilizada no sentido de escolha antecipada. Embora não seja a mesma palavra que “predestinação”, esse conhecimento antecipado está em consonâcia com ela.
Segue-se que o pre-conhecimento de Deus não é passivo, muito menos espectador das atividades humanas, mas, é ativo e eletivo, como foi bem demonstrado acima.
1 Pedro.1.20
Neste texto acontece fenômeno semelhante com o que acontece em Rm.11.2, como lê-se: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós”.
Neste caso é impossível que diga-se que esse conhecimento de Deus refere-se à sua estimada previsão que Cristo iria entregar sua vida em resgate de muitos. Principalemente pelo fato de que no grego pode-se observar uma certa ênfase no que tange a esse conhecimento, como lê-se: “proegnwsme,nou me.n pro. katabolh/j ko,smou”. Se traduzido com mais literalidade, notar-se-á a seguinte tradução: “conhecido antecipadamente, com efeito, antes da fundação do mundo”. Assim, a definição desse conhecimento é anterior à fundação do mundo, como fica bem enfatizado pelos termos bíblicos utilizados por Pedro.
Logo, é impossível dizer que este texto afirma apenas um saber desconexo com seu determinar. Porém, se isso é de fato verdade, como alguns creêm piamente, a morte propiciatória de Cristo passa a ser um evento estranho ao propósito de Deus, e ser considerado um anexo posterior ou um apêndice, que veio a colaborar com suas espectativas. Sem contar que a remissão dos pecados não faria parte dos Seus Planos.
Mas como é muito bem observado pela literatura bíblica, Cristo não é um evento histórico, mas o centro dos Propósitos de Deus para a humanidade. Deus não sabia que Cristo morreira, mas assim predeterminou, pois “a crucificação foi o centro de seu plano eterno para a redenção[6]” (veja ponto 2.2, At.2.23). Assim, não se pode chegar a outra conclusão, senão que o ato de pre-conhecer de Deus está em conformidade com o ato de predestinar, é ativo e que por vezes carrega um aspecto de eleição e determinação antecipada, como pôde-se observar nos textos analisados. Segue-se que afirmar que Deus predestinou aqueles que sabia que o aceitaria não passa de uma declaração não bíblica, senão, como afirmado por Spurgeon, uma heresia:
Qual é a heresia de Roma, senão acrescentar algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, ou seja, trazer obras da carne, para ajudarem na justificação? E qual é a heresia do arminianismo, senão acrescentar alguma coisa à obra do Redentor? Toda heresia, analisada com profundidade, se descobrirá aqui[7].
Prognosis
Este é a forma substantiva do verbo anteriormente mencionado, um termo bíblico utilizado para pré-conhecimento, sendo encontrado em 1Pe.1.2, e imediatamente ligado com Rm.8.29, como já observado. Como prognwskw, prognosij é formado pela junção de pro com gnosis. Como é muito bem conhecido, a primeira partícula deste vocábulo refere-se a temporalidade, e a segunda a conhecimento. Assim, encontra-se mais uma palvra bíblica que refere-se ao conhecimento prévio de Deus.
Nas escrituras o termo aparece apenas duas vezes, à exceção das duas citações encontradas na septuaginta (Jd.9.6 – h’ kri,sij sou evn prognw,sei: juízos previstos de antemão; 11.19 – tau/ta evlalh,qh moi kata. pro,gnwsi,n mou: estas coisa me foram ditas previamente), em At.2.23 e 1Pe.1.2. Esse vocábulo parece não acontecer no Grego clássico, o que sugere que seu significado pode ser muito bem identificado nas citações bíblicas.
Por ser um verbo composto é válido observar as ocorrências do verbo sem o prefixo “pro,”. Das 29 ocorrências de “gnw,sij”, nenhuma foge da idéia de conhecimento, sabedoria, saber, ciência. Assim, pode-se afirmar que “gnw,sis” é um sinônimo de “gnwskw”, como também afirma o Thayer’s Greek Lexicon.
Logo, pode-se perceber que esta é apenas outra forma para expressar a idéia de conhecimento antecipado, ou pré-conhecimento, como se tem insistido neste trabalho. Vale assim observar as ocorrências Neo-testamentárias desse vocábulos.
1 Pedro.1.2
Este parece ser o mais polêmico dos textos, no que se refere a esse conhecimento antecipado de Deus. Todo o problema parece surgir no mesmo ponto, pois segundo todos os comentaristas que não concordam com a predestinação bíblica tentar dar outro significado ao termo bíblico.
Entretanto, de todas as definições encontradas, nenhuma é mais interessante que a encontrada no Bauer’s Lexicon, pois este define o verbete como a sabedoria e intenção onisciênte de Deus. Essa definição vai além de todas as outras definições encontradas, visto que traz em si o reconhecimento correto de que pré-conhecer não isenta o fato do Pleno, Perfeito, Infinito e Eterno Conhecimento de Deus, Sua Onisicência. Ou seja, “Deus conhece os infinitos resultados das infinitas possibilidades[8]“. Assim nada pode escapar de seu conhecimento.
Mas o fato mais interessante dessa definição, é que encontra-se nesta definição uma partícula que retira e inibe toda a passividade que se possa encontrar nesse conhecimento, pois diz respeito a sua intenção. Não aplica-se o termo apenas a uma espécie de conhecimento que, porventura Deus possa ter, mas Suas Intenções são caracterizadas por essa sabedoria onisciênte.
Mas, é possível que algum mal informado possa afirmar que tal argumento não está estampado nas páginas bíblicas, pois afinal de contas trata-se de uma definição léxico-teológica. Entremente, em resposta a esse raciocínio infundado pode-se dizer que a própria utilização em 1Pe.1.2 favorece a tal definição.
Note que Pedro escreve àqueles que são “eleitos” (1.1). Porém pouco a frente acrescenta “eleitos, segundo a presciência de Deus”. Em um raciocínio simples há de se notar que os cristãos, a quem escreve Pedro, foram escolhidos. Ou sejam, trata-se de um povo que foi escolhido por alguém, visto ser impossível ser que a ação, que Pedro demonstra, faça menção a uma atividade autocausada, onde o homem é o motivo, executor e alvo da ação. Sem contar que a segunda afirmação, que diz respeito à eleição, é clara em afirmar que é segundo a presciência de Deus. Como a presciência não é um departamento, ou aspecto independente em Deus, pode-se afirmar sem medo que os cristãos foram eleitos por Deus, sendo que essa atividade está em conformidade com seu conhecimento prévio.
Rapidamente pôde-se perceber que a presciência de Deus não refere-se apenas a uma antecipação, ou previsão da parte de Deus, dos fatos que viriam a acontecer, mas a uma intenção que permeia sua escolha, que é realizada segundo seu pré-conhecimento. Sobre isso muito bem afirmou McArthur:
Ao escrever que ’somos eleitos, segundo a presciência de Deus Pai (1Pe.1. 2), Pedro não estava usando a palavra ‘presciência’ para significar que Deus sabia de antemão quem haveria de crer e, por isso, escolheu a essas pessoas pela fé que previra nelas. Em vez disso, Pedro estava dizendo que Deus determinou, antes do princípio dos tempos, conhecê-las, amá-las e salvá-las; e escolheu-as sem levar em conta qualquer coisa boa ou ruim que pudessem fazer[9].
A declaração de McArthur parece concordar com a definição do Bauer’s Lexicon, visto que a presciência não trata-se de um conhecimento passivo, mas efetivo e determinante na questão da eleição. Sem contar que o texto não afirma que “Deus predestinou ou elegeu aqueles cuja fé, santidade e perseverança ele conheceu de antemão[10]“. Sobre isso Samuel ainda argumenta:
Se a presciência divina do arrependimento e da fé do homem fosse a base par a eleição, Deus teria oferecido uma oportunidade às cidades pagãs de Tiro, Sidom e Sodoma, as quais, conforme Jesus disse (Mt.11.20-24), ter-se-iam arrependido se tivessem presenciado seus milagres. Deus previu que elas se arrependeriam e, apesar disso, não lhes deu uma oportunidade de ver as obras de Cristo e de se arrependerem (…) Portanto, a eleição não depende de Deus conhecer previamente o arrependimento e a fé, mas depende de sua vontade e soberania[11].
A partir deste ponto, é necessário que se apresente alguns argumentos fundamentados diretamente no texto grego. E neste lê-se: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j”. Note que a expressão que acompanha o pré-conhecimento de Deus é “kata,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, kata, é uma preposição que denota movimento, difusão ou direção de cima para o baixo, basicamente. Emobora, possa ser subdividida em dois grandes grupos de possibilidades de tradução. A primeira, acompanhando palavras no caso genitivo, e a segunda, no acusativo. Com genitivo, a preposição significa basicamente “contra”, “para baixo”. Com acusativo, no que diz respeito a tempo pode significar “durante”, mas no que tange a referência ou relação, significa “em conformidade”, “de acordo com”, “segundo”. Como fica bem estampado no texto, “pro,gnwsin ” deve ser identificado como um substantivo comum, no acusativo, feminino, singular de “pro,gnwsij”. Assim restringe-se as possibilidades de tradução.
Vale anotar que “pré-conhecimento”, embora tenha uma conotação temporal, não pode ser usado com o aspecto temporal da preposição “kata,” visto não fazer o menor sentido. Logo, a que conclusão se chega, senão que a melhor tradução para os termos associados seria: “em conformidade com o pré-conhecimento”.
Mais uma vez chega-se a conclusão que não se pode afirmar que o conhecimento antecipado de Deus é a causa efetiva da ação, nem mesmo a inspiração motivadora, mas significa dizer que a eleição está em acordo com esse Seu conhecimento. Com obviedade, existe uma distinção considerável em afirmar que a eleição está em acordo com o pré-conhecimento, do que afirmar que foi por causa deste pré-conhecimento.
Dessa forma, claramente nota-se que a preposição “kata.” utilizada por Pedro inibe a possibilidade de que esse preconhecimento seja o motivo pelo qual Deus escolhe, pois o fato claro é que Deus sabia de antemão em quem iria atuar, por isso os escolheu.
Outro detalhe que acaba por derrubar o argumento infundado que afirmar a eleição em função do pré-conhecimento, é outra preposição muito bem ajustada com o texto e muito bem colocada, a preposição “eij”. Uma particularidade dessa preposição é que ela é utilizada apenas com o caso acusativo, e segundo o Lothar Coenen e Collin Brown, “nínguém nunca questionou que eis pode expressar a direção metafórica, isto é, alvo ou propósito[12]“. Trata-se, na verdade, do uso télico ou final da preposição grega, que é um uso comum no Novo Testamento.
Mas que ligação teria essa preposição com o argumento anteriormente lançado, a saber, a impossibilidade de que se diga que a eleição é fundamentada sobre o pré-conhecimento? A resposta está estampada no texto grego de 1Pe.1:2: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j evn a’giasmw/| pneu,matoj eivj u’pakoh.n kai. r’antismo.n ai[matoj VIhsou/ Cristou/". O que Pedro parece estar estampando no versículo nada mais é do que o propósito da Eleição. A utilização de "eij" não deixa dúvidas.
Assim, se o texto demonstra que o propósito da Eleição é a obediência, ninguém pode argumentar que fomos eleitos por que Deus sabia que obedeceríamos. Obviamente, há quem diga que "eij" neste texto possa ser utilizado como causa, sendo traduzido por "eleitos segundo a presciência (...) por causa da obediência". A primeira ojeção que pode-se fazer sobre essa malfadada tradução é, de fato, não existe utilização como essa no Novo Testamento. Sobre isso Lothar Coenen e Collin Brown afirmam que "tal significado para eis parece improvável em quer uma das passagens às vezes aduzidas[13]“. Já no Léxico Liddell-Scott, não encontra-se qualquer análise de uso causal da preposição em pauta. O mesmo acontece com o Thayer’s Greek Lexicon e o Friberg Lexicon. Conclui-se que seguramente pode-se afirmar que tal uso é indevido na passagem, sem contar que parece tratar-se de uma desvirtuação do texto em prol de uma ideolgia filosófica que não tem seus princípios estampados nas páginas bíblicas. A segunda objeção que pode-se fazer está em caráter de lógica, pois não pode-se fundamentar como causa o que é efeito, como outrora demonstrado. Nas páginas do Novo Testamento pode-se observar que a obediência é resultado da salvação, como fica bem exposto por Paulo em Rm.1.5 “por intermédio de quem [Jesus Cristo] viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé”. (cf. Rm.16.26).
Segue-se que o pré-conhecimento de Deus não é o fundamento da sua eleição, mas pode-se assumir com segurança que a eleição está em conformidade com seu pré-conhecimento. Além de que, este pré-conhecimento não é passivo, mas trata-se de uma sabedoria e intenção onisciente, que está além das estipulações da vontade humana.
Atos 2.23
Este é mais um texto que utiliza a forma substantiva de “prognwskw”, a saber “prognwsij”. Mas, como é de se esperar, não é um texto utilizado para comprovar a antipática e antibíblica ideologia do pré-conhecimento como base ou fundamento para a eleição.
Mas, antes de qualquer colocação é válido fazer o texto conhecido: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis, sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;”.
Este texto encontra-se na primeira defesa pública da Vida De Jesus Cristo, feita por um dos seus discípulos, pouco após ter recebido, junto com outros discípulos, a promessa do derramento do Espírito Santo. Este é o momento de ápice na defesa-testemunho de Pedro, pois chega onde todo evangelismo deveria chegar, na mensagem da morte da Jesus Cristo e consequentemente na sua ressureição.
Note a forma como Pedro estampa o fato de que Jesus foi entregue por Deus para ser morto pelo judeus, que o mataram. Ou seja, dois fatos estão acontecendo em consonância nesta ação, o decreto de Deus e a responsabilidade dos homens. Mas o mais interessante é que dois termos estão muito próximos aqui, a saber “determinado desígnio” e “presciência”.
A palavra grega referente a palavra portuguesa para “determinado” é “o’ri,zw”, já conhecida pelo estudo de “proori,zw” estampado em boa parte do trabaho anterior. Esse verbete, como já preanunciado, está intimamente ligado com a ação de determinar, designar, decidir. A palavra que acompanha essa “determinação”, demonstrada por “ovri,zw” é “boulh,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, este substantivo encontrado em At.2.23 fala “especialmente do propósito de Deus com respeito à salvação de homens por Cristo”. Assim, “boulh,” não apenas caracteriza uma vontade determinada, mas a um propósito determinado por Deus. Logo, conclui-se que a morte de Cristo é um decreto eterno de Deus em relação ao seu plano redentor para o homem.
Somado a esse reconhecimento, muito necessário, é válido afirmar que esse propósito determinado acompanha o pré-conhecimento de Deus. Note o texto grego: “tou/ton th/| w’risme,nh| boulh/| kai. prognw,sei tou/ qeou/ e;kdoton”. Em uma pequena observação, perceber-se-á que a conjunção que une o determinado desígnio de Deus e sua presciência é a partícula “kai,”.
A utilização dessa conjunção nesse tipo de contexto já foi comentado em Rm.8.29, porém é válido lembrar que aqui a conjunção deve ser identificada como uma conexão entre os termos. Logo, determinado desígnio está ligado sintaticamente à presciência. Ou seja, a determinação estampada pelo verbo “ovri,zw” atinge tanto a “desígnio” quanto “presciência”, visto que ambos substantivos concordam em caso com o verbo substantivado, identificado como um particípio de uso adjetivo. Segue-se que, tanto o desígnio quanto a presciência de Deus são determinadas por seu propósito.
À luz dessa conclusão, não se pode afirmar que Deus apenas previu o sacrifício de Cristo, como apenas um ato voluntário da parte de Jesus. Mas foi um predeterminação da parte de Deus. Isso está em acordo com Jamiesson, Fausset and Brow, que afirmam que “a morte de Cristo tinha sido predeterminada de antes da fundação do mundo (veja 1Pe.1.19, 20; Ap.13:8)[14]“. Mas isso não implica em afirmar isenção de responsabilidade humana, pois Pedro demonstra a culpabilidade dos homens pela morte de Cristo no texto. Sobre isso Archibald Thomas Robertson diz: “Deus teve legado a morte de Jesus (Jo.3:16) e a morte de Judas (At.1:16), mas aquele fato não perdoou o Judas da responsabilidade e culpa dele (Lc.22:22). Ele agiu como um livre agente moral[15]“.
O que se quer afirmar nada mais é do que, muito bem fez Jonh Walvoord e Roy Zuck, ao dizer que “o ponto deste verso está claro: a Crucificação não era nenhum acidente. Estava no propósito de jogo de Deus (“plano”) e era o determinado desígnio de Deus, não somente a inclinação dele. Era uma necessidade divina (cf. 4:28)[16]“.
Que se conclui, então? Presciência, ou pré-conhecimento, não é um aspecto independente de Deus, nem mesmo um anexo a sua Onisciência. Pré-conhecimento em referência a Deus não pode ser considerado apenas como uma previsão profética, mas uma determinação onisciênte da parte de Deus, que por vezes diz respeito a Cristo e em outras a salvação dos homens. Visto que, tanto a ação de pre-conhecer como o pré-conhecimento em si referem-se à salvação dos homens, considera-se ambos tenham um aspecto ativo e eletivo da parte de Deus.
Portanto, qualquer afirmação que se faça que fuja das afirmações acima alistadas, trata-se de afirmações equivocadas e sem respaldo bíblico e exegético podendo ser considerada como heresia, como o fez Charles Spurgeon
[1] SPURGEON, Charles H., Implicações do Livre Arbítrio.
[2] BROWN, Collin, COENEN, Lothar, Dicionáio Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp1792.
[3] PACKER, J.I, Concise Theology: a guide to historic Christian beliefs. Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois. 1997
[4] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.
[5] FALCÃO, Samuel. Escolhidos em Cristo. Cultura Cristâ:São Paulo, 1997. pp.127
[6] MCARTHUR, Jonh F., Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo.1997. pp. 192
[7] SPURGEON, Charles H., Spurgeon’s Autobiography. Londre: Passmore and Alabaster, 1897. pp.168, 169
[8] GRANCONATO, Marcos Mendes. Teologia Sistemática 3, material não publicado.
[9] MACARTHUR, John F. Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo, 1997. pp.179.
[10] FALCÃO, Samuel, Escolhidos em Cristo. Cultura Cristã:São Paulo, 1997. pp.121.
[11] Idem. pp.123
[12] COENEN, Lothar, BROWN, Collin, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp.1764
[13] Idem, pp.1765
[14] JAMIESON, FAUSSET and BROWN, New Commentary on the Whole Bible. Parsons Tecnology:Iowa. 1998. Tradução Pessoal.
[15] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.
[16] WALVOORD, Jonh F., ZUCK, Roy B., The Bible Knowledge Commentary. Press:Canadá.
Conseqüências da Obra de Cristo
Diante dos principais significados da Obra de Cristo a nosso favor é necessário demonstrar que tal Obra tem conseqüências diretas àqueles que são beneficiados por ela.
Justificação
A Justificação não é apenas uma das conseqüências da Obra de Cristo a nosso favor, mas um tema doutrinário central na Salvação e fundamental para a essência do cristianismo. Tal importância é expressa pelo próprio vocábulo: “JUSTIFICAR”, que carrega o sentido de declara justo diante de Deus“. Isso não significa que uma pessoa, ao ser declarada justa, seja absolutamente sem falhas ou completamente justa no seu proceder, mas que a partir desse momento ela é Posicionalmente Justa, ou livre de culpa do pecado. “A justificação é o pronunciamento do juiz justo de que o homem em Cristo é justo; mas esta justiça é uma questão de relacionamento, e não de caráter ético[7]“.
A Justificação é um empreendimento do próprio Deus, e aparece como o complemento de Deus na obra da Salvação, é uma declaração de Deus a respeito do cristão de que foi feito para sempre justo e aceitável diante de Deus. Segundo a Confissão de Fé de Westminster “a Justificação é um ato da livre graça de Deus, pela qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos à sua vista, somente pela justiça de Cristo, imputada a nós, e recebida pela fé somente”.
Existe estreita ligação entre a Justificação e a Ressurreição de Cristo, pois a ressurreição de Cristo mostrou que a morte como resultado do pecado de Adão, teve seu poder neutralizado. Se a morte foi vencida, segue-se que a culpa foi removida. Assim, a ressurreição é uma prova ou garantia de que o problema da culpa, geradora da morte, foi resolvido. Ora, a Justificação é o termo que se refere ao livramento da culpa. Daí a relação entre a Ressurreição de Cristo e a Justificação dos cristãos. Tal pensamento tem fundamento evidente em Rm.4.25:
…o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.
Diante dos fatos levantados é notório que existe uma ligação entre a Justificação e a Lei, por conseguinte com um Juiz. Sobre isso não há dúvidas, pois Deus não é apenas o legislador, mas o Justo Juiz (2Tm.4.8; Tg.5.9). Logo, o sentido forense da expressão está completo. Mas é válido demonstrar que, diante do Juiz, o justificado tem acesso pela fé a esta graça (Rm.5.2; 9.30), desfruta de um relacionamento de paz com Deus (Rm.5.1) e implica na demonstração de uma conduta concernente com a Nova Posição (Rm.6.7; Tg.2.24).
Adoção
Como já ficou muito evidente, não existe dignidade suficiente no homem que o faça merecer Tão Graciosa Obra da Salvação. Mas, não há tão maior prova de ausência de mérito senão a expressão “eivj ui’oqesi,an” (para a adoção) em Ef.1.5 (cf. Gl.4.5; Rm.8.15), “por que um filho adotado deve sua posição à graça e não ao direito, e, ainda mais, é trazido ao seio da família, passando a ter os mesmos privilégios e deveres de um filho de nascimento[8]“.
Adoção é uma palavra normalmente utilizada no meio romano. Em uma cerimônia legal, o filho adotado era determinado a todos os direitos de um filho natural. É possível que Paulo tenha emprestado este termo para o empregar eficientemente à salvação. A palavra em pauta, na literatura paulina, “descreve os direitos e privilégios como também a nova posição do crente em Cristo[9]“.
Segundo Hendriksen, a adoção vai ainda um pouco além, pois “ela outorga aos seus recipientes não apenas um novo nome, um novo status legal e uma nova relação familiar, mas também uma nova imagem, a imagem de Cristo (Rm.8.29)[10]“.
J.I Packer afirma que no mundo de Paulo a “adoção era ordinariamente de homens jovens de bom caráter, que se tornavam os herdeiros e mantinham o sobrenome dos ricos sem filhos. Porém, o NT proclama a adoção cortesa de Deus a pessoas de mal caráter para se tornar ‘os herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo’[11]” (Rom. 8:17). Mais uma vez é digno de nota que o adotado não tem qualquer mérito pela escolha do “Adotador”, embora possa desfrutar de todos os benefícios e, principalmente, responsabilidades de um filho natural, pois a “soberania divina exclui com eficácia qualquer mérito[12]“.
Paulo ensina que o presente de justificação (i.e., aceitação presente por Deus como o Juiz do mundo) traz com isto o estado de filho por adoção (i.e., intimidade permanente com Deus como o Pai divino da pessoa, Gl. 3:26; 4:4-7). Justificação é a bênção básica na qual adoção é fundada; adoção é a bênção de coroamento para a qual justificação é direcionada. O status de adotado pertence a todos que recebem o Cristo (Jo.1:12). Agora, os crentes estão debaixo do cuidado paternal de Deus e de sua disciplina (Mat.6:26; Hb.12:5-11) e é dirigido, especialmente por Jesus, a viver suas vidas levando em conta o reconhecimento de que Deus é seu Pai celestial. .
Adoção e regeneração acompanham um ao outro como dois aspectos da salvação que o Cristo traz (Jo.1:12-13), mas eles serão distinguidos. Adoção é o favor de uma relação, enquanto regeneração é a transformação de nossa natureza moral. Ainda a ligação é evidente; Deus quer as crianças dele quem ele ama, agüentar o caráter dele, e entra em ação adequadamente.
Santificação
Santificação, segundo o Catecismo Menor de Westminster (Q.35), é “a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão.” O conceito não é que o pecado é totalmente erradicado ou completamente controlado, mas de uma divina mudança de disposições, virtudes, hábitos pecaminosos e caráter, forjados nos moldes de Cristo.
Santificação é uma transformação contínua dentro de uma consagração mantida, e gera real retidão. Por “santo” entende-se aqui como um portador de uma verdadeira semelhança com Deus. Santificação é o estado de ser separado permanentemente para Deus, e aflora desde a cruz, onde Deus, em Cristo, nos comprou e nos conduziu para Ele (At.20:28; 26:18; Hb.10:10). Santificação implica em renovação moral (Rm.8:13; 12:1-2; 1Co.6:11, 19-20; 2Co.3:18; Ef.4:22-24; 1Ts.5:23; 2Ts.2:13; Hb.13:20-21).
A Santificação é a continuação do que foi iniciado na salvação, quando uma novidade de vida foi conferida ao crente e sobre ele instalada. Contudo, é importante saber que a palavra santificação possui dois significados básicos: (1) é uma característica formal de um grupo de pessoas salvas (1Co.1.2; Ef.2.19; 1Pe.2.9); (2) é uma qualidade moral almejável e conseqüência do significado anterior. Assim, os cristãos são Santos, diante de Deus, mas buscam a Santidade em suas vidas.
O conceito correto de Santificação repousa sobre uma tensão muito grande: É uma obra da graça de Deus, mas exige busca pessoal do cristão. Uma ênfase demasiada no primeiro lado dessa tensão, conclui-se que a Santificação é passiva. Da mesma sorte, uma ênfase demasiada no segundo lado dessa tensão, a Santificação passa a ser encarada com um grau meritório, e fruto apenas do esforço humano, o que é impossível. Por isso, deve-se admitir que a santificação é uma obra sobrenatural (1Ts.5.23; cf. Ef.5.26; Tt.2.14; Hb.13.20, 21) da qual o cristão participa ativamente (Gl.5.16, 25; Fp.2.12, 13; Rm.8.13; 12.1, 2, 9, 16, 17). Embora a santificação seja exclusivamente de Deus, o crente é constantemente exortado a trabalhar e crescer nas questões que dizem respeito à salvação.
Sobre esse assunto, é importante ressaltar que a Santificação tem alvo claro: Semelhança com Cristo (Rm.8.29); e é encarada com um progresso, que se inicia na salvação e dura toda a vida do homem.
Perseverança
Diante do que já foi anunciado uma pergunta precisa ser feita: “Aquele que foi justificado, adotado, santificado persistirá para sempre neste estado?”. Ou melhor: “Será um cristão sempre um cristão?”. Ou ainda: “Existe possibilidade de se perder a salvação?”.
Historicamente a resposta para a questão em pauta sempre correu para dois lados distintos: o sim (arminianos) e o não (calvinistas). Diante da lógica é obvio que aquele que é recipiente da salvação, que é iniciada e perfeita por Deus, permanecerá salvo pela graça de Deus. Contudo, não é a mera lógica que sustenta o fato da Perseverança dos Santos, pois existe grande número de evidências bíblicas que testemunham a favor da indestrutibilidade da salvação. 1Pe.1.3-5 é um exemplo desses:
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.
Romanos 8.38-39 também testemunha esse fato:
Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
O próprio Cristo testemunhou essa verdade quando falou que aqueles que o Pai lhe dá, irá até ele e Ele de modo nenhum os jogará fora (Jo.6.37). Neste mesmo trecho é anunciado por Ele que a vontade de Deus Pai é que todo o que crer tenha a vida eterna e seja ressuscitado por Ele no último dia (v.39, 40, 44; cf. Jo.10.27-30).
Assim, nota-se que Cristo não apenas nos concede vida eterna e nos abandona em nosso próprio esforço, mas antes, a obra que foi por Ele iniciada em nós continua até ser completada (Fp.1.6). Paulo testemunha essa fato quando diz: “Não me envergonho, por que sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar meu tesouro até o dia final” (2Tm.1.12).
Em Efésios 2, o conceito correto da salvação é exposto, e no v.4 nota-se que aquele que é salvo é feito assentar nas regiões celestiais com Cristo. Assim, como este poderia ser retirado de onde está, uma vez que tal atividade é realizada a semelhança da experiência de Cristo, testemunhada pouco antes (1.20)? Se o cristão pode ser derrubado de sua posição de assentado nas regiões celestiais, o mesmo espera-se de Cristo, o que é ilógico.
Outro detalhe que é comumente esquecido é que a vida eterna é eterna, no sentido de que não tem mais fim. Assim, como alguém que tem uma vida sem fim pode morrer? Dessa forma, podemos crer, diante da clareza das escrituras, que nossa salvação está garantida perante Deus.
Glorificação
A Glorificação é a confirmação dessa certeza obtida pela doutrina da Perseverança dos Santos. A Glorificação é o estágio final da salvação e é aplicado a todos os salvos incondicionalmente. Essa doutrina impulsiona a Perseverança no texto de Rm.8.28, 30:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
Se analisado com cautela o texto, notar-se-á que todos os verbos relacionados a Salvação são ativos e reportam para uma atividade realizada por completo no passado: Conheceu, Predestinou, Chamou, Justificou, Glorificou. Ou seja, aquele que é salvo, já era conhecido por Deus e predestinado por ele para a salvação, mesmo que ainda seria chamado, justificado e glorificado. O que nota-se com clareza aqui é que Deus, quando resolveu conceder salvação eterna aos homens ele o fez de maneira completa. Logo, aquele que já foi Predestinado para salvação, já está Glorificado, mesmo que isso seja um evento futuro.
Fim da Lei
Com relação à Lei e a sua validade, é necessário ter muita cautela em fazer uma afirmação, pois o tema é delicado e tem implicações muito complexas para a práxis cristã e para uma teologia saudável. Anunciar o Fim da Lei em Cristo, não é uma questão de dizer que ela não tem mais validade, ou que em Cristo não se necessita mais dela. Portanto, é necessário compreender a expressão: “te,loj ga.r no,mou Cristo.j” (télos gar nomou Cristós: Por que o fim da Lei é Cristo, Rm.10.4).
A mesma palavra grega utilizada para “fim” em Rm.10.4, é utilizada em Rm.6.21-22, como se lê: “Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna”. Ou seja, se Cristo é o fim (télos) da Lei, pode-se dizer que Cristo é o alvo final da Lei. Logo, pode-se dizer que a primeira possibilidade a respeito de Cristo ser o fim da Lei é esta: A Lei teve Cristo por alvo, ou testemunhava a seu favor (Calvino). Por outro lado, o vocábulo ainda pode ser utilizado com o sentido de completar, cumprir, como se lê em Lc.22.37, que diz: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido“. A idéia expressa pelo vocábulo neste texto sugere a idéia de completar ou cumprir, o que pode ser aplicado a Cristo, que veio para cumprir a Lei: “não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt.5.17b). Assim, pode-se afirmar que outra possibilidade é esta: Em Cristo a Lei foi completa ou cumprida, ou teve suas exigências satisfeitas (Hodge).
Contudo, a tônica em Romanos não parece estar voltada para nenhuma dessas possibilidades, antes direcionada para a idéia de que em Cristo, a lei teve seu término. Com essa afirmação concordam Ryrie, John Sttot, F.F Bruce e L.S. Chafer. Ryrie, sobre esse assunto, afirma:
A declaração de Paulo em Romanos 10.4, dizendo que Cristo é o fim da lei, pode ser entendida como término ou propósito. Em outras palavras, ou Cristo terminou com a lei ou o propósito da vinda de Cristo era cumprir a lei. No entanto, término claramente parece ser o significado nesse contexto, por causa do contraste (iniciado em 9.30) entre lei e a justiça de Deus[13].
John Sttot afirma:
Telós pode ter dois significados. Um é “fim” no sentido de alvo, ou “completar algo”, significando que a lei apontava para Cristo e que ele a cumpriu. Ou então poderia significar poderia significar um “fim” no sentido de “terminalidade” ou “conclusão”, indicando que Cristo aboliu a lei. Paulo com certeza se refere a este último sentido[14].
F.F. Bruce diz:
Cristo é a terminação da lei no sentido de que, com Ele, a velha ordem, da qual a lei fazia parte, foi eliminada, para ser substituída pela nova ordem do Espírito[15].
Deve-se ter em mente que as idéias que mencionadas anteriormente, não são de todo excluídas, mas antes não se restringe a elas o significado da Obra de Cristo em relação a Lei. Pois, não se pode se negar que a Lei testemunhou a respeito de Cristo (Jo.12.4; Gl.3.24) ou que em Cristo ela é Satisfeita (Rm.3.29-31). Contudo, não se retira de Rm.10.4 essas idéias. Assim, o que se pode dizer sobre a Obra de Cristo em relação a Lei, é uma das conseqüências dela é o Término da Lei (At.15.10, 24; Rm.3.21, 22; Gl.5.1, 4, 13).
Significados da Obra de Cristo
A verdade é que o significado total da morte de Cristo não pode ser resumido em apenas uma ou duas frases. Porém, é igualmente verdade que seu significado central pode e deve estar centrado em algumas idéias fundamentais[2]
A verdade estampada por Ryrie não pode ser contrariada, e sobre essa afirmação é que se sustenta a abordagem sobre o significado da Obra de Cristo. Assim, podemos facilmente considerar quatro significados principais para essa Obra: (1) A morte de Cristo foi em substituição dos pecadores; (2) foi uma redenção para os pecados; (3) uma reconciliação do homem para com Deus; (4) e uma propiciação pelo pecado.
A Morte de Cristo foi em lugar dos pecadores
Neste ponto é válido recordar algumas verdades: (1) Quando o homem caiu e se afastou de Deus, ficou em débito eterno para com Deus; (2) Contudo, a única maneira de o homem pagar por essa dívida, era sofrendo eternamente a penalidade fixada pela transgressão; (3) É também importante perceber que, o cumprimento dessa penalidade, é o que Deus deveria exigir por uma questão de justiça, e teria exigido, se não tivesse agido com amor e compaixão do pecador.
Assim, nota-se que o homem, por si só não poderia resolver seu problema ou pagar sua dívida diante de Deus, a não ser que um substituto fosse providenciado, o que está fora do alcance do homem conseguir. Contudo, está dentro do Plano Histórico de Deus conceder esse Substituto. Isso é observado desde Gn.3.15, como já observamos. E, de fato, Deus designou um substituto na pessoa de Jesus Cristo para tomar o lugar do homem, e este substituto expiou o pecado e obteve eterna redenção para o homem.
Essa atividade, dentro da Teologia, é chamada de “Expiação Vicária“, que pode ser entendida como “Substituição Penal“. E não é sem provas que se admite essa realidade, pois “a Bíblia certamente ensina que os sofrimentos e a morte de Cristo foram vicários, e vicários no sentido mais estrito da palavra, que Ele tomou o lugar dos pecadores, e que a culpa deles lhes foi imputada e a punição que mereciam foi transferida para Ele[3]” [Lv.1.2-4; 16.20-22; 17.11; Is.53.6, 12; Mt.20.28; Mc.10.45; Jo.1.29; 11.50; Rm.5.6-8; 8.32; 2Co.5.14, 15, 21; Gl.2.20; 3.13; 1Tm.2.6; Hb.9.28; 1Pe.2.24[4]].
Assim, uma definição simples com relação a esse aspecto da Obra de Cristo pode ser assim anunciada: “Cristo é o substituto proposto legalmente por Deus para assumir o débito moral do homem em seu lugar, de modo que pôde providenciar um benefício eterno para este, para que o homem não tivesse mais que suportar o fardo da condenação do pecado”. Nosso texto base é obviamente 2Co.5.14, 15, 21:
Pois o amor de Cristo nos compele, julgando nós isto: Ele morreu em lugar de todos, logo todos morreram. E ele morreu em lugar de todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que em benefício deles morreu e ressuscitou. Aquele que não conheceu o pecado, fez-se pecado em nosso lugar, para que fossemos feitos justiça de Deus.
A Morte de Cristo foi para Redenção dos Pecados
A redenção é um aspecto da morte de Cristo sobre a cruz, que é ligado ao pecado e restrito em seu significado. Como substituição tem o sentido de assumir a culpa, a redenção tem sentido de pagar essa culpa assumida. Ou seja, a redenção é aplicada no que diz respeito ao pecado e o débito que ele causa, que pode apenas ser pago com sangue (Hb.9.22 cf. Lv.17.11). Logo, para que o preço de pecado pudesse ser pago, era necessário derramamento de sangue de um Cordeiro sem máculas. Essa era exigência colocada na história da redenção, que tem seu significado completo em Cristo (Jo.1.29; cf. Is.53.9; 1Pe.2.21-22).
No Antigo Testamento podemos perceber que o sentido de redenção é aplicado, não somente a pessoas, mas também a posses, como terras e animais (Lv.25.25, 47, 48). A idéia expressa nesse contexto é de prover liberdade através do pagamento de um resgate.
Um ponto interessante no VT é que existe a idéia de um Redentor-Parente, como no caso de Boás, que foi o redentor parente da Família de Noemi em benefício de Rute (Rt.3.9; cf. Os.3.15; Is.43.3, 10-14). É possível que isso tenha implicações com a Obra de Cristo, como se Ele, como homem que é, fosse o Redentor da Raça humana. Segundo Chafer, esse aspecto “é uma exigência básica que o Filho de Deus trouxe do céu para a terra e tornou necessária a encarnação para Ele pudesse ser um perfeito Redentor-parente[5]“.
Em Ex.21-1-6 (cf. Dt.15.15-17), podemos perceber que no VT um escravo tinha vida de serviço de 6 anos, sendo que no sétimo ele deveria ser solto. Contudo, se este entrasse solteiro para servir seu senhor, e este lhe desse uma esposa, quando ele saísse deveria deixar a esposa e os filhos que tivesse com ela. Contudo, se ele amasse sua esposa, seus filhos e seu senhor, ele voluntariamente aceitaria servi-lo até sua morte. Ou seja:
Um escravo liberto por seu senhor era totalmente livre; mas ele podia voluntariamente permanecer com seu senhor, a quem ele amava.
Alguns textos que testemunham as verdades acima anunciadas: [Ex.13.12; 21.28; 30.12; Nm.18.15-17; Sl.130.8; Is.59.20]
No NT podemos ressaltar três vocábulos que auxiliam a compreensão dessa verdade: avgora,xw( lutro,w e peripoioumai:
avgora,xw: A idéia expressa por esse vocábulo é de comprar (Mt.13.44, 46; 14.15; Mc.6.36; Lc.9.13; cf. LXX Gn.41.57, 42.5, 7; Dt.2.6) Este vocábulo é aplicado à soteriologia neotestamentária de maneira interessante. Observe o texto de 1Co.6.20: “Por que fostes comprados por preço” (cf. 1Co.7.23). A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2.1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1Co.6.19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “evx”, formando o vocábulo “evxavgora,xw”. Em Gl.3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “evx” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra.
lutro,w: É um termo muito utilizado no NT e significa basicamente que o redimido é desatado e liberto. Mas isso ocorre apenas quando é recebido o pagamento do preço do resgate. Assim, por meio do pagamento, o redimido é desatado e está livre. Mt.20.28 testemunha esse fato: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. LXX: Ex.30.11-16; Lv.25.31, 32; Nm.2.46-51; NT: Lc.1.68; 2.38; 24.21; Tt.2.14; Hb.9.12; 1Pe.1.18,19). Neste caso, como com “avgora,xw”, é possível encontrar o termo preposicionado: “avpolutrw,sij”. Seu significado é basicamente redenção, seguindo mesmo rumo do verbo em pauta (Lc.21.28; Rm.8.23; Ef.4.30 – prisma escatológico; Rm.3.24; Ef.1.7, 14; Cl.1.14; Hb.9.14 – prisma de libertação de incrédulos; 1Co.1.30 – sentido geral).
peripoioumai: Esse vocábulo ocorre apenas uma vez, e é aplicado ao Sacrifício de Cristo: At.20.28.
Portanto, deve ser observado que a doutrina da redenção mostrada pelo NT é um cumprimento completo da verdade mostrada em sombras no AT, de que há um sentido em que o preço é pago, mas o escravo não é necessariamente liberto (que é o estado de todos por quem Cristo morreu que ainda não são salvos) e que, por uma realização mais profunda e abundante da redenção, o escravo pode ser solto e liberto (que é o estado de todos que são salvos). A relação dos não salvos com a verdade de que, pela sua morte, Cristo pagou o preço do resgate, é crer no que está declarado como verdadeiro. A relação dos salvos com a verdade de que, por sua morte, Cristo liberta, é reconhecer essa liberdade maravilhosa e, então, pela rendição de si mesmo, tornarem-se escravos voluntários do redentor.
Se Cristo deu sua vida por mim, o mínimo que posso fazer é dar a minha a ele.
A Morte de Cristo foi para reconciliar o Mundo Consigo
A idéia de reconciliação é completamente neotestamentária, e só pode ser real por meio da Obra de Cristo. A reconciliação é necessária pelo fato de que o homem sem salvação vive em uma relação de inimizade e hostilidade com Deus (Rm.5.9, 10; cf. 2Co.5), e, como inimigos de Deus está plenamente passível de sofrer a manifestação de Sua Ira. Contudo, o cenário não assim deixado, pois vemos que Deus propõe uma resolução para esse problema por meio da morte do Senhor Jesus (Rm.5.10). Assim, fomos aproximados a Deus, pois Cristo mudou completamente nosso estado anterior de inimizade e substituiu por um de Justiça e de completa harmonia com Deus (2Co.5.18-20).
[Rm.5.10; 11.15; 2Co.5.18-21; Ef.2.16; Cl.1.20-21
A Morte de Cristo foi para Satisfazer a Ira de Deus pelo Pecado
Como já foi demonstrado anteriormente, Deus demonstra sua Justa Ira para com o pecado (Jo.3.36; Rm.1.18-32; Ef.2.3; 1Ts.2.16; Ap.6.16; 14.10, 19; 15.1, 7; 16.1; 19.15), de forma que, qualquer que seja a atitude desse Deus absolutamente Santo contra o pecado, é completamente justo e aceitável, pois, devido a seu caráter Santo, não pode deixar impune o mal, nem tão pouco fingir que ele não existe, ou que não tem importância. Por sua Justiça e Santidade deve puni-lo. Contudo, em Cristo é providenciada uma oferta "propiciatória" e assim a Ira de Deus contra o pecado é apaziguada. Logo, pode-se dizer que a Morte de Cristo, além de Substitutiva, Redentora, Reconciliadora, é também Propiciatória, pois satisfaz a Ira de Deus pelo pecado.
Aqui três textos devem ser demonstrados:
Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (1Jo.2.1-2)
[Jesus Cristo] a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm.3.25)
e sobre ela, os querubins de glória, que, com a sua sombra, cobriam o propiciatório. (Hb.9.5a)
Em todos os textos mencionados podemos encontrar formas derivadas do termo grego “i’lasth,rion” (hilastérion), que tem por significado básico “propiciação”. Contudo, no primeiro texto podemos entender o termo como “aquele que propicia” (cf. 1Jo.4.10 – Sobre a questão da abrangência eficiente desse aspecto da salvação). Já no segundo caso a termo denota a idéia de “lugar da propiciação” (cf. LXX: Ex.25.17-22; Lv.16.14.15). Essa idéia é claramente exposta no terceiro texto. Ou seja, Cristo não é apenas a oferta como também o lugar onde se faz a oferta, como sugere os textos citados.
O significado dessa oferta vem desde o VT, e “em qualquer lugar que pudesse estar o propiciatório no Tabernáculo, tipicamente, era para o israelita aquilo que Cristo é, realmente, para o crente e para Deus[6]” (Dt.13.15-17; Jn.3.7-10; Sl.78.38; Is.48.9).
Eleição Incondicional
Eleição Incondicional é a doutrina apresentada pelos calvinistas e é fundamentada na Soberania Absoluta de Deus e na Ausência Absoluta de Mérito do homem para alcançar a salvação. Conseqüentemente, o homem não tem livre arbítrio, no que diz respeito a salvação, e depende exclusivamente da graça de Deus para ser salvo.
Apresentação da Doutrina
É muito complexo definir em poucas linhas a Eleição, visto ser ela parte debate intenso desde a era dos Pais da Igreja. No século 5, Agostinho já discutia com Pelágio sobre o assunto. A respeito de Pelágio, Berkhof diz:
“Pelágio se afastou muito mais do ensino bíblico quanto à aplicação da redenção do que qualquer outro dos primeiros Pais da Igreja. Podemos mesmo afirmar que ele abandonou os fundamentos escriturísticos que eram sagrados, e reafirmou o princípio de auto-suficiência da filosofia pagã[12]“
A idéia presente no pensamento de Pelágio inicia-se na concepção errada de pecado, e por isso chega a não necessidade de Cristo para apropriação da redenção. Para ele, é possível mediante as obras da lei uma redenção completa. “Não desprezava ele inteiramente a ‘ajuda da graça’ ou ‘assistência divina’, mas considerava isso desejável ‘a fim de que aquilo que é ordenado por Deus possa ser mais facilmente cumprido’[13]“.
Para ele esta graça não diz respeito à Obra Regeneradora do Espírito Santo, ou Seu convencimento do pecado. Para ele a graça “consiste somente destes fatores: (a) ‘o bem da natureza’, isto é o livre arbítrio de que o homem é dotado, de tal modo que possa fazer o bem ou mal; e (b) a pregação do evangelho e o exemplo de Cristo, fatores esses que são dirigidos à mente do homem e lhe ensinam o caminho da salvação. A graça da natureza é universal e também absolutamente essencial ou necessária, mas a graça do evangelho não era nem universal nem necessária, embora facilitem ao homem a obtenção da salvação[14]“.
Tal idéia ainda prevalece em alguns guetos pseudo-teológicos. Mas, antes de qualquer outra menção que fira a doutrina pelagiana, é válido recordar que foi condenada pelo Sínodo de Cartago, pelo Sínodo de Éfeso e novamente pelo Sínodo de Orange, onde o semi-pelagianismo foi também descartado. Ou seja, diante da História da Igreja tal heresia vem perseguindo a sanidade da doutrina bíblica da salvação.
Ou seja, a idéia da co-participação humana na salvação, no sentido de determinar as atividades de Deus, é claramente descartada pela história da igreja. Isso não significa que o homem é um robô, ou alguém que não é dotado da possibilidade de optar, ou realizar escolhas. O que se afirma é que, em função do pecado, suas escolhas estão fadadas ao fracasso, no que diz respeito à salvação. Ou seja, uma vez que todos os aspectos do homem foram corrompidos pelo pecado, incluindo a vontade, é impossível que essa vontade caída, abarrotada de pecado possa subjugar as decisões de Deus.
O que se pode afirmar sobre a vontade, é que ela é influenciada ou dirigida, pelo intelecto, emoções e desejos e que sua liberdade nada mais é do que a experiência de realizá-la na ausência de controle ou influência. Seguindo essa afirmação, a liberdade da vontade é inconsciente. Entretanto, isso é impossível, pelo fato de que a vontade sempre está à mercê de alguma informação, necessidade ou desejo.
Observe que quando Paulo afirma que os não salvos tem um modo de vida em conformidade o curso deste mundo, o enganador deste mundo, e das inclinações da própria carne (Ef.2.1-3). Neste texto pode-se ler:
“..fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”
A vontade relaciona-se com os outros aspectos da constituição do homem, e o conduz segundo as inclinações destes aspectos. Dessa forma, o homem não regenerado tem sua vontade inclinada pelas paixões carnais e intenções malévolas, o que faz com que sua vontade não possa ter arbítrio isenta de influência.
O mesmo acontece com o homem regenerado, embora após a salvação o homem seja conduzido à liberdade, a vontade do homem não é absolutamente livre. Paulo testemunha esse fato quando diz:
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm.7.18-19)
O que acontece nesse texto demonstra a luta entre a intenção de fazer o bem e não conseguir efetuá-lo. Embora o homem regenerado desfrute de um ambiente de liberdade ainda não possui a liberdade essencial e verdadeira que o próprio Deus tem. De alguma forma até mesmo a vontade do homem é influenciada, ou regida por outro aspecto. Em Fp.2.13 podemos ler:
“Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”
Segue-se que a liberdade da vontade é o desejo de todo homem, porém, impossível à luz de sua própria definição:
Vontade é a capacidade inerente das faculdades do aspecto imaterial do homem, que o possibilita realizar escolhas morais influenciadas por sua condição moral, com o objetivo de movê-lo para alguma direção dentre as possibilidades desejadas[15].
Assim, não se nega a capacidade de escolas do homem, ao mesmo tempo que não afirma seu liberdade utópica. Assim, para a salvação é necessário que Deus em misericórdia inicie o processo de salvação, sendo que este é iniciado Ele com a eleição. Por isso é necessário compreender o termo teológico que refere-se a esse início: ELEIÇÃO. Sobre ela, Strong diz:
Eleição é o ato eterno de Deus pelo qual, em soberano agrado e não por mérito algum previsto nos homens ele escolhe alguns dos numerosos pecadores para serem os receptores da graça especial do seu Espírito e assim serem participantes voluntários da salvação de Cristo[16].
Para evidência bíblicas da Salvação veja o artigo: Prova Bíblica da Eleição
Agostinho, João Calvino, Teodoro Beza, George Whitefield, Charles Hodge, Augustus Hopkins Strong, Louis Berkhof, Charles Ryrie, Abraham Kuyper, John Sttot, Charles Swindow, Charles Spurgeon, A.W. Pink, A.W. Tozer, J.I. Packer, Walter Conner, Blaise Pascal, Roger Willians, Obadiah Holmes, Benjamin Keach, John Bunyan, Isaac Backus, Andrew Fuller, Willian Carey, Luther Rice, Adoniran Judson, J.P. Boice, John A. Broadus, B.H Carroll, Matthew Henry e John Newton, Anthony Hoekma, Jonatas Edwards, R.C. Sproul, Lewis Sperry Chafer, Millard Erickson, H. W. House, Marcos Ribeiro, Bruce Triplehorn, Jonas Cunha, Marcos Mendes Granconato, Carlos Osvaldo Pinto, Darcy Sborowisky, Samuel Falcão, Pedro, Paulo, Jesus e etc.
Como são muitos os defensores citados, neste ponto observaremos apenas o que alguns desses teólogos dizem a respeito da Eleição.
H. Wayne House:
Aquele aspecto do propósito eterno de Deus pelo qual ele determina de maneira certa e eterna, por meio de uma escolha amorosa e incondicional, quem irá crer. Não é simplesmente a intenção de Deus salvar todos os que possam crer, antes ele determina quem irá crer
John Bunyan:
Ora, quanto aos eleitos, mediante esse decreto ele são confinados ao número limitado de pessoas que formarão a plenitude do corpo místico de Cristo; e de tal forma foram confinados, por esse propósito eterno, que nada poderá aumentar ou diminuir esse número.
Matthew Henry:
Aos que de antemão conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho. Para todos os que foram designados para um fim glorioso e feliz, Deus decretou a graça e a santidade como caminho. Deus não predestinou para serem santos aqueles que Ele sabia de antemão que seriam santos. Os conselhos e decretos de Deus não se submetem à frágil e inconstante vontade dos homens.
Willian Carey:
Temos a certeza de que somente aqueles que foram destinados para a vida eterna irão crer, e que somente Deus pode adicionar à igreja aqueles que serão salvos. No entanto, não podemos senão observar, com admiração, que Paulo, o grande campeão das gloriosas doutrinas da graça gratuita e soberana, foi o mais notável em seu zelo pessoal pela obra de persuadir homens a se reconciliarem com Deus
Basil Manly:
A eleição é a eterna escolha, da parte de Deus, de algumas pessoas, para a vida eterna – não por algum mérito que nelas tivesse sido previsto, mas unicamente pela misericórdia de Deus em Cristo – em conseqüência da qual elas são chamadas, justificadas e glorificadas
Walter T. Conner:
Quando Deus elege um homem para a salvação, Deus toma em consideração cada fator que entra na situação. Ele não elegeria um homem para ser salvo em separação de sua fé, mas, sim, através da sua fé. Isso não quer dizer que a fé seja a base da eleição. A fé não é a base da eleição, mas a condição. A fé responde à graça, apreende-a, mas não produz a graça. A Graça suscita a fé, produz fé. Fé é a consciência de que não merecemos salvação. A fé reconhece todo o mérito da salvação. Como pertencente a Deus e à sua graça.
A.W. Pink
Deus não apenas tem o direito de realizar os seus propósitos com as criaturas de suas próprias mãos, mas igualmente exerce esse direito, e em nenhum ponto isso é revelado com maior clareza do que em sua graça predestinadora. Antes da fundação do mundo, Deus fez uma escolha, uma seleção, uma eleição. Diante do seu olhar onisciente estava a totalidade da raça de Adão, e dela ele selecionou um povo, predestinando-o à adoção de filhos, predestinando-o a ser conformado à imagem de Seu Filho, ordenando-o para a vida eterna.
João Calvino
Chamamos predestinação ao eterno decreto de Deus, pelo qual ele determinou em si mesmo o que ele quis que todo indivíduo do gênero humano viesse a ser. Porque eles não são criados todos com o mesmo destino. Mas para alguns é preordenada a vida eterna, e para outros, a condenação eterna. Portanto, sendo criada cada pessoa para um ou para outro destes fins, dizemos que é predestinada para vida ou para morte.
Eleição Prevista
Outra possibilidade para a Eleição é que Deus, por causa do seu conhecimento antecipado de todos os fatos, resolveu escolher todos aqueles que creram no evangelho. Em termos gerais, é a ideologia que afirma a Liberdade de Escolhas do Homem, e que suas opções subjugam as decisões de Deus.
Apresentação da Ideologia
A ideologia é exposta dentro da teologia ortodoxa e defendida por cristãos sinceros. A idéia primeira é de que o homem tem Livre Arbítrio. Ou seja, ele pode optar por ser salvo ou não. Contudo, isso não exclui a Soberania de Deus, onde este escolhe aqueles que o escolheram. Ou seja, na salvação existe co-participação entre Deus e os homens, mas o livre arbítrio do homem precede a decisão de Deus.
A idéia nasce a partir da leitura de Rm.8.29 com uma conexão direta com 1Pe.1.2. Vejamos os textos:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas
As palavras destacadas referem-se a dois termos gregos que significam literalmente: pré-conhecer e pré-conhecimento. As duas palavras têm mesma raiz, mesmo sufixo mas a primeira refere-se ao uso verbal e a segunda ao uso substantivo do termo. Assim, Deus pré-conheceu aqueles que irão crer e elege por causa do seu pré-conhecimento.
Dessa forma, o homem tem sua liberdade e Deus sua Soberania. Enquanto o homem pode, pelo poder que lhe é próprio, decidir seu destino e seus atos, Deus em sua Soberania pode escolher aqueles que querem ser escolhidos. Em resumo, essa ideologia afirma: “A eleição é a escolha de Deus de algumas pessoas para a salvação e privilégios, fundamentada na escolha inicial feita por essas mesmas pessoas“. Outros textos: Is.55.1-3; Ez.18.32; Mt.11.28; Lc.9.23; 1Co.1.21; 1Tm.2.6; 2Pe.2.1; Hb.2.9; 1Jo.2.2; Ap.22.17.
Defensores da ideologia
Segundo um dos defensores de tal ideologia, a eleição é o “diploma divino com que é agraciado todo o que recebe a Cristo Jesus como seu Único e Suficiente Salvador (Jo.3.16)[5]“. Ou seja, Eleição de Deus é apenas como um seguro que o homem tem para a salvação, uma vez que ele “aceita a Cristo” não o perde mais. Contudo, esta Eleição é precedida pela Predestinação, que é muito semelhante ao conceito anterior, visto que é oferecida a todos os seres humanos. Observe:
Ora, quanto à eleição, é necessário dizer que ela é precedida pela predestinação. Noutras palavras: toda a humanidade, sem quaisquer exceções, foi predestinada à vida eterna. Mas a eleição está reservada àqueles que acreditam na eficácia do sangue de Jesus[6].
Neste ponto, a Doutrina da Salvação da Convenção da Igreja Batista Brasileira está em acordo com as opções de Claudionor. Veja:
Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça. Antes da criação do mundo, Deus, no exercício da sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu, chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os homens. A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação.
Outro escritor cristão que deve ser lembrado é Norman Geisler. Para ele a Soberania de Deus abrange todas as coisas, mesmo a liberdade de escolhas do homem. Contudo Deus, em sua Soberania, autolimita-se na salvação do homem, visto que oferece salvação a todos mas só são aceitos aqueles que crêem. Sua base é o Argumento da Causalidade, que diz que cada evento tem uma causa. Assim, a escolha para salvação é uma ação auto-causada, como ele chama. Ou seja, o homem é a causa da sua própria salvação. Em sua concepção isso não fere a dignidade de Deus, pois ele determinou que o homem seria livre. Observe sua lógica:
Deus determinou que as criaturas façam as coisas livremente. Ele não determinou que sejam forçados a fazer atos livres. O que é forçado não é livre, e o que é livre não é forçado[7].
Entrementes, a opção da Eleição Prevista tem suas divergências, pois segundo alguns defensores esses que escolhem a Deus, podem deixá-lo. Esse pensamento é exposto por Raimundo de Oliveira:
A Bíblia dá a entender que muitos daqueles pelos quais Cristo morreu, aceitarão a sua provisão salvadora, mas depois abandonarão, perdendo com isto o direito à vida eterna. Sobre esses escreveram Paulo e Pedro: “Perece o irmão fraco pelo qual Cristo morreu”. “Negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição”[8].
Porém, este escritor ainda aceita as opções soteriológicas comuns a esse grupo de pensadores. Para ele a salvação é impossível sem cooperação entre Deus e os homens, de forma que a decisão do homem subjuga a decisão de Deus. Observe:
Os defensores do determismo estão equivocados quando salientam demasiadamente a verdade da majestade, da graça e do poder de Deus, em detrimento da insuficiência do homem para fazer qualquer coisa sem auxílio divino. Ignoram a capacidade de decisão do homem quanto à determinação do seu futuro eterno (…) A salvação (…) só é possível com a cooperação do crente[9].
Assim, a idéia básica é:
(1) O homem tem livre escolha;
(2) Deus sabe quem vai crer;
(3) Logo, Deus escolhe quem irá crer.
Ou, como disse Thiessen:
Por eleição, entendemos aquele ato soberano de Deus em graça, pelo qual Ele escolheu em Jesus Cristo para a salvação todos aqueles que de antemão sabia que O aceitariam[10].
Réplica da Ideologia
A ideologia exposta é sem sombra de dúvidas problemática, pois necessita de superposição temática dentro da terminologia dos termos bíblicos. O primeiro argumento dos defensores dessa idéia é que o homem tem livre arbítrio. O segundo é que Deus sabe quem vai crer e por isso escolhe. Assim, o homem livre escolhe ser salvo e Deus por seu conhecimento antecipado o predestina para salvação.
Se levado a sério a idéia concluir-se-á que as ações dos homens determinam as ações de Deus. Logo, Deus não tem liberdade para agir, antes é dependente do homem. Ou seja, Deus quer salvar mais não pode, precisa que o homem deixe ser salvo.
Dois problemas são claros: (1) Não compreendem corretamente a Deus; (2) Não compreendem quem o homem é. Sem esses dois reconhecimentos é impossível compreender a salvação. Deve-se lembrar que a Eleição nunca ofende a dignidade de Deus ao mesmo tempo que não retira do homem a responsabilidade. Observe o que Walter T. Conner diz:
Lembremos, no entanto, que o propósito de Deus em relação à eleição não vai ao ponto de o homem ser salvo independente de se arrepender e crer. Antes, é parte do propósito de Deus trazer o homem ao arrependimento e à fé. E Deus não obriga o eleito a crer. Ele o guia e persuade, através dos apelos do evangelho e trabalho do seu Espírito Santo, mas é o indivíduo que decide vir a Cristo (…) Lembremo-nos que o propósito de Deus na eleição era o de efetuar a mesma coisa que ele realiza ao salvar esse homem. Portanto, se a salvação de um homem não interfere na sua liberdade, o propósito na mente de Deus, em virtude do qual ele foi salvo, não interferiria tampouco na sua liberdade[11].
Ideologia fundamentada no Mal uso de terminologias bíblicas:
A premissa de Geisler, sobre a determinação de Deus com relação a liberdade humana, não tem fundamento bíblico, apenas lógico e filosófico. A idéia de Claudionor e Thiessen são fundamentadas no mal uso dos termos pré-conhecer e pré-conhecimento. Pois observe onde mais eles são usados:
…Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu (Rm.11.2)
…conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós (1Pe.1.20)
…sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos (At.2.23)
Nos outros textos em que os termos aparecem é impossível dizer que se referem apenas a um conhecimento antecipado de Deus. Em Rm.11.2 é impossível que o texto diga que Deus apenas sabia que Israel o iria aceitar. Isso não é visto em nenhum texto do Velho Testamento. O que se sabe sobre a origem da Nação de Israel é que Deus escolheu um casal e por meio deles estabeleceu uma nação. Não se pode dizer que Deus sabia que Abraão teria um filho e que desse filho viria uma nação. O que é certo é o que Paulo afirma: “O que Israel busca, isso não conseguiu, mas a eleição o alcançou” (Rm.11.7).
Em 1Pe.1.20 e At.2.23 fica mais difícil fazer a afirmação do pré-conhecimento passivo de Deus, pois é impossível que se diga que Deus sabia que Jesus ia morrer. Ao contrário, Deus estabeleceu assim. Ou seja, talvez o termo usado para defender um conhecimento passivo de Deus na salvação não defende.
Ideologia fundamentada no Mal uso de textos:
Outro pequeno detalhe é que a base estrutural do pensamento da Eleição prevista está lançada sobre Rm.8.29 somado com 1Pe.1.2, que não sustentam tal idéia. Não precisa ser um grande conhecedor de terminologias para perceber isso. Observe:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas.
Observe que essa idéia diz que Deus salva os homens que querem ser salvos. Contudo o primeiro texto diz que o fato de conhecer não antecede nem fundamenta a predestinação, mas diz que os dois fatos acontecem. Ou seja, ele conhece quem predestina, e não predestina por que conhece como insistem os adeptos dessa idéia. Outro detalhe observado no primeiro texto é que o objetivo da salvação é ser conforme Cristo. Logo, ninguém pode ser salvo por ser conforme Cristo como insistem os adeptos dessa idéia, mas para ser conforme Cristo.
No segundo texto nota-se que a presciência não é o fundamento da salvação, como insistem os adeptos dessa ideologia, mas, antes este pré-conhecimento está em conformidade com a eleição. Pedro diz que nós somos eleitos em conformidade com a presciência, e não por causa dela. Sem contar que para ele o objetivo da eleição é a obediência. Logo, ninguém pode ser salvo por obedecer, mas para obedecer.
Assim, diante desses fatos é certo que a idéia da Eleição Prevista não tem fundamento bíblico por três grandes motivos: (1) Não existem textos bíblicos que confirmem a absoluta liberdade do homem em relação ao seu destino eterno; (2) Não existem provas bíblicas para a idéia de que Deus escolhe quem irá crer; (3) Não existe fundamento escriturístico para afirmar a falta de liberdade de Deus na Salvação
Eleição Universal
O Universalismo prega a Eleição de, absolutamente, toda a humanidade para a Salvação. Ou seja, no plano redentor que Deus propôs, Cristo morre por todos os homens e assim todos eles são salvos, por que Deus é amoroso e misericordioso.
Apresentação da Ideologia
Segundo os universalistas: Sem qualquer sombra de dúvidas as Escrituras nos declaram que a intenção de Deus é salvar todas as suas criaturas. Ou seja, não importa seu caráter moral, sua condição ou suas atitudes diante da verdade, aliás, não é nem necessário crer, pois Deus irá salvar a todos. Isso está de acordo com a revelação de Seu caráter amoroso, gracioso e misericordioso demonstrado em sua Palavra.
Fundamento para isso é encontrado em textos como Rm.11.32 e 5.18 que demonstram claramente essa intenção soteriológica universal de Deus. Observe:
Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. (Rm.11.32) Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (Rm.5.18)
Deve-se ter em mente que essa proposta não é sem fundamento, pois ainda podem-se assinalar mais dois textos que confirmam sua proposta 1Tm.2.4 somado com Jô.42.2
…o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm.2.4) Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. (Jó.42.2)
Seguindo essa interpretação dos textos acima, podemos dizer que a Intenção de Deus é Salvar todos os seres humanos.
Defensor da Ideologia
Diante da proposição universalista feita e de sua réplica, é necessário conhecer quem é o teólogo que propôs tal idéia. É possível que o pai desta ideologia seja Karl Barth. Para ele Deus elegeu a raça humana para a salvação. Ou seja, aquele que é ser humano pode participar das bênçãos dessa salvação.
A identificação dessa idéia encontra-se em textos, como Ef.,1.5, que afirmam que Deus nos escolheu em Cristo. A conclusão retirada deste texto é que “em Cristo” todos os seres humanos podem ser salvos. Observe:
…o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos (1Tm.2.4-6).
Diante de textos como esse, Karl Barth chegou à conclusão de que Deus é quem realiza a escolha dos salvos, que são todos os seres humanos. Isso pode ser demonstrado:
A eterna palavra de Deus escolheu essência e existência humana, santificou-a e assumiu-a até fazer dela uma só realidade consigo mesmo, de maneira a tornar-se, enquanto verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a Palavra da reconciliação dita aos homens por Deus.[2]
Embora alguns conceitos soem estranhos, Barth afirma que Deus é o executor, por meio de Cristo, da salvação. Contudo, em Cristo todos, absolutamente todos podem chegar à salvação. Assim, a escolha feita anteriormente por Deus é expandida a todos em Cristo. Para ele Cristo é o “Mediador único entre Deus e os seres humanos[3]“. Assim quem realiza a escolha dos salvos é Deus, mas que o crivo dessa escolha é Jesus, e por meio dele todos, absolutamente todos podem chegar à salvação. Segue-se que a escolha feita anteriormente por Deus é expandida a todos em Cristo, e que “a única distinção básica não é entre eleitos e não-eleitos, e, sim, entre os que têm consciência de sua eleição e os que não tem[4]“.
Essa afirmação é a base do inclusivismo soteriológico, que afirma a salvação a todos os homens, apenas pela conexão indiscriminada com Cristo. Logicamente o pensamento exposto por esse teólogo não tem respaldo bíblico, embora seja encontrado de maneira sutil dentro do pensamento de muitos cristãos.
Réplica da Ideologia
Em primeiro lugar, necessita-se compreender de forma adequada a pessoa de Deus. É ponto pacífico que Ele seja amoroso, gracioso bem como misericordioso. Contudo não podemos encerrar Seus atributos apenas nesses aspectos. Fazer isso é cometer heresia, que por definição é superestimar aspectos da verdade. Precisamos compreender que Deus é, na mesma medida justo, poderoso, reto. Logo, não age apenas em uso do amor ou misericórdia ou graça, mas no exercício pleno de Seus atributos.
Assim percebemos que o raciocínio Auniversalista@ parece fazer menos sentido. Entretanto existem outras falácias no argumento, como a utilização de textos sem o menor estudo de contexto, quer histórico como textual. Por exemplo, o texto de Rm.11.32 é plausível no argumento universalista, mas inconsistente à luz do contexto. O versículo, sozinho, afirma que Deus vai usar misericórdia com todos. Ao ler o contexto nota-se que Paulo discursa com respeito aos Propósitos históricos de Deus, a saber, que outrora os gentios eram desobedientes a Deus, mas alcançaram misericórdia na desobediência de Israel e assim todos, quer gentios como israelitas, foram encerrados na desobediência, afim de usar misericórdia com todos, quer gentios como israelitas. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.
O mesmo fato acontece em Rm.5.18, onde o texto enfatiza claramente um contraste em termos de resultado entre Adão e Cristo. Em Adão, temos juízo a todos os homens, em Cristo justificação a todos os homens. Ou seja, todos os morreram em Adão e serão vivificados em Cristo. Mas precisamos entender que, embora seja universal o alcance do pecado, em Adão, ele não é irremediável. Bem como a justificação que, em Cristo é acessível universalmente, mesmo que nem todos serão justificados. A ênfase do texto se dá na superioridade da Obra Redentora em relação a queda, pois em Cristo os resultados da queda podem ser remediados. Isso fica evidente no versículo 19 que diz que muitos se tornaram pecadores em Adão e em Cristo muitos se tornarão justos, e não todos. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.
Falácia semelhante acontece no uso de 1 Tm.2.4 em conjunto com Jó 42.2. O primeiro afirma que o desejo de Deus é que todos sejam salvos e o segundo, que os planos de Deus não podem ser frustrados. Logo, Jesus foi uma encenação histórica. No texto de 1 Tm.2.4 vemos que o contexto é apenas um enfeite inútil para o que se quer entender. A expressão Atodos os homens@ aparece antes em 2.1, com respeito a oração do cristão que deve ser em favor de Atodos os homens@. Seguindo vemos uma classificação dentro desse Atodo@, que são os Areis e de todos os que se acham investidos de autoridade@. Logo, a utilização seguinte do mesmo terno, em 2.4, significa, todos, inclusive os reis e as autoridades, dando um sentido classificatório à expressão. Essa distinção era necessária, pois os cristãos dessa época sofriam perseguições pelas autoridades, mas que ainda assim eles deveriam orar por eles, sabendo que era desejo de Deus que eles também sejam salvos, pois Cristo se dera em resgate de todos (2.6), inclusive dos reis e autoridades. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.
Em Jó, vemos o mesmo problema. A partir do cap.38 vemos se iniciar um diálogo entre Deus e Jó. Neste Jó é desafiado a responder perguntas feitas por Deus. E isso segue alguns capítulos. Até que é dada uma oportunidade de resposta a Jó que diz ser indigno, pois não saberia o que responder a Deus. E, novamente Deus faz perguntas a Jó, mostrando que é quem manda na História, quem é que tem poder, quem criou o mundo e tudo o que nele há, quem é de fato o Todo-Poderoso. A luz disso vem a famosa frase do 42.2: ABem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos podem ser frustrados@. Isto expressa o reconhecimento de Jó a pessoa de Deus, revelando sua Onipotência e Imutabilidade, pois tudo pode, e seus planos não podem ser frustrados. Isso até poderia auxiliar a leitura herege universalista, mas é mister compreender que não é plano de Deus salvar todo homem. Se tal premissa fosse consistente fora do sistema universalista, teríamos de rejeitar a Obra Messiânica, bem como todas as profecias em relação a esse acontecimentos, bem como o Caráter de Deus. Logo, dentro da realidade da revelação bíblica o pensamento universalista é inaceitável.
Prova Bíblica da Eleição
Eleição Incondicional é fundamentada na Soberania Absoluta de Deus. Assim, podemos ressaltar a Soberania de Deus:
(1) Sobre toda a Vida: 1Sm.2.6-10; 2Rs.9.25; 1Cr.29.11-14; Sl.135.6; i39.1-16; Pr.16.9.33; 20.24; Ec.3.1; Is.14.24, 27; 25.1; 43.7; 45.1-13; 46.10; 48.3; 55.11; 63;16-17; 64.8; Dn.4.17; At.2.23-24; 4.27-28; 17.24-28; Rm.13.1; Ef.1.11; Fp.2.13;
(2) Sobre Seus Planos: 1Rs.22.19-22; Jó.42.2; Sl.115.3; 135.6; Pr.21.1; 16.4; Is. 44.18; 54.16; 55.11; Dn.4.17, 35; Jo.1.6; 2.1; Rm.9.11-24; 11.7; 2Pe.2.9; Jd.4; Ap.13.8; 17.8; 19.16; 20.2, 10;
(3) Sobre a Eleição: Gn.12.1-3; Lv.8; Dt.7.6, 14.2; 1Sm.17.1-12; Sl.33.12; Is.8.14 (cf.1Pe.2.8); 41.8, 9; 42.1; 43.20, 21; 65.9, 22; Mt.22.14; 24.22; 24.24; Mc.3.13-19; 13.27; Lc.18.7; Jo.1.13; 6.37, 44, 65; 10.29; 15.16, 19; 17.2, 6, 9, 12, 24; At.2.39; 13.48; 18.27; Rm.8.28-30; Cap.9; Cap.11; 16.13; 1Co.1.27-30; Gl.1.5-16; Ef.1.3-6, 11; 2.8-10; Cl.3.12; 1Ts.1.4; 2Ts.2.13; 3.2; Tt.1.1; 1Tm.1.9; 2Tm.2.10; Tg.1.18; 1Pe.1.2-5; 5.13; 2Pe.1.10; Ap.17.14.
Diante de tantas evidências, vamos ressaltar apenas alguns textos:
(1) A Eleição é para salvação: “porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts.5.9); “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts.2.13)
(2) A Eleição é restrita: “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt.22.14); “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At.13.48);
(3) A Eleição não depende da vontade humana: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo.1.13); “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm.9.16);
(4) A Eleição precede a Obediência, a Santificação, o Exercício de Fé: “assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef.1.3); “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm.8.29); “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1Pe.1.2); “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama) já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço” (Rm.9.11-12);
(5) A Eleição é realizada em Amor: “em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5);
(6) A Eleição é fundamentada na Graça de Deus: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto [a salvação] não vem de vós; é dom de Deus” (Ef.2.8); “segundo a riqueza da sua graça” (Ef.1.5-7);
(7) A Eleição Implica em Chamamento Eficaz: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm.8.28); “a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?.” (Rm.9.23-24); “mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo” (1Co.1.24);
(8) A Eleição é Departamento da Soberania de Deus: “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento, pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.” (1Co.1.26-29); “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tg.1.18); “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm.9.20, 21);
(9) A Eleição garante a existência de um Povo de Deus: “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm.11.5); “Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados” (Mt.24.22 – Contexto da Grande Tribulação); “Mas, relativamente a Israel, dele clama Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” (Rm.9.27);
(10) A Eleição Tem um aspecto Negativo: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição” (Rm.9.22); “Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm.9.18); “Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, como está escrito: Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje.” (Rm.11.7-8); “Por isso, não podiam crer” (Jo.12.39); “Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (1Pe.2.8); “O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade” (Pr.16.4); “Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos” (2Pe.2.12); “Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd.4); “Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo.8.43-44); “Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra” (Rm.9.17)
Diante desses textos é impossível negar a existência da Eleição Incondicional. Aliás, não existe como ser cristão e negar a Soberania Absoluta de Deus sobre a Vida e a Morte, sobre a Eleição e Preterição.
Eleição
Nada se pode entender das Obras de Deus se não se toma por princípio que ele quis cegar a uns e esclarecer os outros[1]
A Eleição é doutrina fundamental no pensamento cristão sobre a salvação. Diante desse fato ninguém dentro da ortodoxia teológica desacredita nesta verdade. Contudo, não se tem um conceito sólido sobre o assunto, pois dentro da ortodoxia teológica encontram-se, basicamente, duas formas de Eleição: a Eleição Incondicional (Calvinismo) e a Eleição Prevista (Arminianismo). Entretanto, é ainda possível observar fora da ortodoxia teológica versões sobre a salvação, pois há quem pense que Deus escolheu todos os seres humanos, de todos os lugares do mundo e de todas suas eras para a salvação (Universalismo). Assim, é necessário compreender tais possibilidades para que a verdade bíblica seja ressaltada.
A. Eleição Universal
O Universalismo prega a Eleição de, absolutamente, toda a humanidade para a Salvação. Ou seja, no plano redentor que Deus propôs, Cristo morre por todos os homens e assim todos eles são salvos, por que Deus é amoroso e misericordioso.
Apresentação da Ideologia
Segundo os universalistas: Sem qualquer sombra de dúvidas as Escrituras nos declaram que a intenção de Deus é salvar todas as suas criaturas. Ou seja, não importa seu caráter moral, sua condição ou suas atitudes diante da verdade, aliás, não é nem necessário crer, pois Deus irá salvar a todos. Isso está de acordo com a revelação de Seu caráter amoroso, gracioso e misericordioso demonstrado em sua Palavra.
Fundamento para isso é encontrado em textos como Rm.11.32 e 5.18 que demonstram claramente essa intenção soteriológica universal de Deus. Observe:
Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. (Rm.11.32) Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (Rm.5.18)
Deve-se ter em mente que essa proposta não é sem fundamento, pois ainda podem-se assinalar mais dois textos que confirmam sua proposta 1Tm.2.4 somado com Jô.42.2
…o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm.2.4) Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. (Jó.42.2)
Seguindo essa interpretação dos textos acima, podemos dizer que a Intenção de Deus é Salvar todos os seres humanos.
Defensor da Ideologia
Diante da proposição universalista feita e de sua réplica, é necessário conhecer quem é o teólogo que propôs tal idéia. É possível que o pai desta ideologia seja Karl Barth. Para ele Deus elegeu a raça humana para a salvação. Ou seja, aquele que é ser humano pode participar das bênçãos dessa salvação.
A identificação dessa idéia encontra-se em textos, como Ef.,1.5, que afirmam que Deus nos escolheu em Cristo. A conclusão retirada deste texto é que “em Cristo” todos os seres humanos podem ser salvos. Observe:
…o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos (1Tm.2.4-6).
Diante de textos como esse, Karl Barth chegou à conclusão de que Deus é quem realiza a escolha dos salvos, que são todos os seres humanos. Isso pode ser demonstrado:
A eterna palavra de Deus escolheu essência e existência humana, santificou-a e assumiu-a até fazer dela uma só realidade consigo mesmo, de maneira a tornar-se, enquanto verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a Palavra da reconciliação dita aos homens por Deus.[2]
Embora alguns conceitos soem estranhos, Barth afirma que Deus é o executor, por meio de Cristo, da salvação. Contudo, em Cristo todos, absolutamente todos podem chegar à salvação. Assim, a escolha feita anteriormente por Deus é expandida a todos em Cristo. Para ele Cristo é o “Mediador único entre Deus e os seres humanos[3]“. Assim quem realiza a escolha dos salvos é Deus, mas que o crivo dessa escolha é Jesus, e por meio dele todos, absolutamente todos podem chegar à salvação. Segue-se que a escolha feita anteriormente por Deus é expandida a todos em Cristo, e que “a única distinção básica não é entre eleitos e não-eleitos, e, sim, entre os que têm consciência de sua eleição e os que não tem[4]“.
Essa afirmação é a base do inclusivismo soteriológico, que afirma a salvação a todos os homens, apenas pela conexão indiscriminada com Cristo. Logicamente o pensamento exposto por esse teólogo não tem respaldo bíblico, embora seja encontrado de maneira sutil dentro do pensamento de muitos cristãos.
Réplica da Ideologia
Em primeiro lugar, necessita-se compreender de forma adequada a pessoa de Deus. É ponto pacífico que Ele seja amoroso, gracioso bem como misericordioso. Contudo não podemos encerrar Seus atributos apenas nesses aspectos. Fazer isso é cometer heresia, que por definição é superestimar aspectos da verdade. Precisamos compreender que Deus é, na mesma medida justo, poderoso, reto. Logo, não age apenas em uso do amor ou misericórdia ou graça, mas no exercício pleno de Seus atributos.
Assim percebemos que o raciocínio Auniversalista@ parece fazer menos sentido. Entretanto existem outras falácias no argumento, como a utilização de textos sem o menor estudo de contexto, quer histórico como textual. Por exemplo, o texto de Rm.11.32 é plausível no argumento universalista, mas inconsistente à luz do contexto. O versículo, sozinho, afirma que Deus vai usar misericórdia com todos. Ao ler o contexto nota-se que Paulo discursa com respeito aos Propósitos históricos de Deus, a saber, que outrora os gentios eram desobedientes a Deus, mas alcançaram misericórdia na desobediência de Israel e assim todos, quer gentios como israelitas, foram encerrados na desobediência, afim de usar misericórdia com todos, quer gentios como israelitas. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.
O mesmo fato acontece em Rm.5.18, onde o texto enfatiza claramente um contraste em termos de resultado entre Adão e Cristo. Em Adão, temos juízo a todos os homens, em Cristo justificação a todos os homens. Ou seja, todos os morreram em Adão e serão vivificados em Cristo. Mas precisamos entender que, embora seja universal o alcance do pecado, em Adão, ele não é irremediável. Bem como a justificação que, em Cristo é acessível universalmente, mesmo que nem todos serão justificados. A ênfase do texto se dá na superioridade da Obra Redentora em relação a queda, pois em Cristo os resultados da queda podem ser remediados. Isso fica evidente no versículo 19 que diz que muitos se tornaram pecadores em Adão e em Cristo muitos se tornarão justos, e não todos. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.
Falácia semelhante acontece no uso de 1 Tm.2.4 em conjunto com Jó 42.2. O primeiro afirma que o desejo de Deus é que todos sejam salvos e o segundo, que os planos de Deus não podem ser frustrados. Logo, Jesus foi uma encenação histórica. No texto de 1 Tm.2.4 vemos que o contexto é apenas um enfeite inútil para o que se quer entender. A expressão Atodos os homens@ aparece antes em 2.1, com respeito a oração do cristão que deve ser em favor de Atodos os homens@. Seguindo vemos uma classificação dentro desse Atodo@, que são os Areis e de todos os que se acham investidos de autoridade@. Logo, a utilização seguinte do mesmo terno, em 2.4, significa, todos, inclusive os reis e as autoridades, dando um sentido classificatório à expressão. Essa distinção era necessária, pois os cristãos dessa época sofriam perseguições pelas autoridades, mas que ainda assim eles deveriam orar por eles, sabendo que era desejo de Deus que eles também sejam salvos, pois Cristo se dera em resgate de todos (2.6), inclusive dos reis e autoridades. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.
Em Jó, vemos o mesmo problema. A partir do cap.38 vemos se iniciar um diálogo entre Deus e Jó. Neste Jó é desafiado a responder perguntas feitas por Deus. E isso segue alguns capítulos. Até que é dada uma oportunidade de resposta a Jó que diz ser indigno, pois não saberia o que responder a Deus. E, novamente Deus faz perguntas a Jó, mostrando que é quem manda na História, quem é que tem poder, quem criou o mundo e tudo o que nele há, quem é de fato o Todo-Poderoso. A luz disso vem a famosa frase do 42.2: ABem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos podem ser frustrados@. Isto expressa o reconhecimento de Jó a pessoa de Deus, revelando sua Onipotência e Imutabilidade, pois tudo pode, e seus planos não podem ser frustrados. Isso até poderia auxiliar a leitura herege universalista, mas é mister compreender que não é plano de Deus salvar todo homem. Se tal premissa fosse consistente fora do sistema universalista, teríamos de rejeitar a Obra Messiânica, bem como todas as profecias em relação a esse acontecimentos, bem como o Caráter de Deus. Logo, dentro da realidade da revelação bíblica o pensamento universalista é inaceitável.
B. Eleição Prevista
Outra possibilidade para a Eleição é que Deus, por causa do seu conhecimento antecipado de todos os fatos, resolveu escolher todos aqueles que creram no evangelho. Em termos gerais, é a ideologia que afirma a Liberdade de Escolhas do Homem, e que suas opções subjugam as decisões de Deus.
Apresentação da Ideologia
A ideologia é exposta dentro da teologia ortodoxa e defendida por cristãos sinceros. A idéia primeira é de que o homem tem Livre Arbítrio. Ou seja, ele pode optar por ser salvo ou não. Contudo, isso não exclui a Soberania de Deus, onde este escolhe aqueles que o escolheram. Ou seja, na salvação existe co-participação entre Deus e os homens, mas o livre arbítrio do homem precede a decisão de Deus.
A idéia nasce a partir da leitura de Rm.8.29 com uma conexão direta com 1Pe.1.2. Vejamos os textos:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas
As palavras destacadas referem-se a dois termos gregos que significam literalmente: pré-conhecer e pré-conhecimento. As duas palavras têm mesma raiz, mesmo sufixo mas a primeira refere-se ao uso verbal e a segunda ao uso substantivo do termo. Assim, Deus pré-conheceu aqueles que irão crer e elege por causa do seu pré-conhecimento.
Dessa forma, o homem tem sua liberdade e Deus sua Soberania. Enquanto o homem pode, pelo poder que lhe é próprio, decidir seu destino e seus atos, Deus em sua Soberania pode escolher aqueles que querem ser escolhidos. Em resumo, essa ideologia afirma: “A eleição é a escolha de Deus de algumas pessoas para a salvação e privilégios, fundamentada na escolha inicial feita por essas mesmas pessoas“. Outros textos: Is.55.1-3; Ez.18.32; Mt.11.28; Lc.9.23; 1Co.1.21; 1Tm.2.6; 2Pe.2.1; Hb.2.9; 1Jo.2.2; Ap.22.17.
Defensores da ideologia
Segundo um dos defensores de tal ideologia, a eleição é o “diploma divino com que é agraciado todo o que recebe a Cristo Jesus como seu Único e Suficiente Salvador (Jo.3.16)[5]“. Ou seja, Eleição de Deus é apenas como um seguro que o homem tem para a salvação, uma vez que ele “aceita a Cristo” não o perde mais. Contudo, esta Eleição é precedida pela Predestinação, que é muito semelhante ao conceito anterior, visto que é oferecida a todos os seres humanos. Observe:
Ora, quanto à eleição, é necessário dizer que ela é precedida pela predestinação. Noutras palavras: toda a humanidade, sem quaisquer exceções, foi predestinada à vida eterna. Mas a eleição está reservada àqueles que acreditam na eficácia do sangue de Jesus[6].
Neste ponto, a Doutrina da Salvação da Convenção da Igreja Batista Brasileira está em acordo com as opções de Claudionor. Veja:
Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça. Antes da criação do mundo, Deus, no exercício da sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu, chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os homens. A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação.
Outro escritor cristão que deve ser lembrado é Norman Geisler. Para ele a Soberania de Deus abrange todas as coisas, mesmo a liberdade de escolhas do homem. Contudo Deus, em sua Soberania, autolimita-se na salvação do homem, visto que oferece salvação a todos mas só são aceitos aqueles que crêem. Sua base é o Argumento da Causalidade, que diz que cada evento tem uma causa. Assim, a escolha para salvação é uma ação auto-causada, como ele chama. Ou seja, o homem é a causa da sua própria salvação. Em sua concepção isso não fere a dignidade de Deus, pois ele determinou que o homem seria livre. Observe sua lógica:
Deus determinou que as criaturas façam as coisas livremente. Ele não determinou que sejam forçados a fazer atos livres. O que é forçado não é livre, e o que é livre não é forçado[7].
Entrementes, a opção da Eleição Prevista tem suas divergências, pois segundo alguns defensores esses que escolhem a Deus, podem deixá-lo. Esse pensamento é exposto por Raimundo de Oliveira:
A Bíblia dá a entender que muitos daqueles pelos quais Cristo morreu, aceitarão a sua provisão salvadora, mas depois abandonarão, perdendo com isto o direito à vida eterna. Sobre esses escreveram Paulo e Pedro: “Perece o irmão fraco pelo qual Cristo morreu”. “Negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição”[8].
Porém, este escritor ainda aceita as opções soteriológicas comuns a esse grupo de pensadores. Para ele a salvação é impossível sem cooperação entre Deus e os homens, de forma que a decisão do homem subjuga a decisão de Deus. Observe:
Os defensores do determismo estão equivocados quando salientam demasiadamente a verdade da majestade, da graça e do poder de Deus, em detrimento da insuficiência do homem para fazer qualquer coisa sem auxílio divino. Ignoram a capacidade de decisão do homem quanto à determinação do seu futuro eterno (…) A salvação (…) só é possível com a cooperação do crente[9].
Assim, a idéia básica é:
(1) O homem tem livre escolha;
(2) Deus sabe quem vai crer;
(3) Logo, Deus escolhe quem irá crer.
Ou, como disse Thiessen:
Por eleição, entendemos aquele ato soberano de Deus em graça, pelo qual Ele escolheu em Jesus Cristo para a salvação todos aqueles que de antemão sabia que O aceitariam[10].
Réplica da Ideologia
A ideologia exposta é sem sombra de dúvidas problemática, pois necessita de superposição temática dentro da terminologia dos termos bíblicos. O primeiro argumento dos defensores dessa idéia é que o homem tem livre arbítrio. O segundo é que Deus sabe quem vai crer e por isso escolhe. Assim, o homem livre escolhe ser salvo e Deus por seu conhecimento antecipado o predestina para salvação.
Se levado a sério a idéia concluir-se-á que as ações dos homens determinam as ações de Deus. Logo, Deus não tem liberdade para agir, antes é dependente do homem. Ou seja, Deus quer salvar mais não pode, precisa que o homem deixe ser salvo.
Dois problemas são claros: (1) Não compreendem corretamente a Deus; (2) Não compreendem quem o homem é. Sem esses dois reconhecimentos é impossível compreender a salvação. Deve-se lembrar que a Eleição nunca ofende a dignidade de Deus ao mesmo tempo que não retira do homem a responsabilidade. Observe o que Walter T. Conner diz:
Lembremos, no entanto, que o propósito de Deus em relação à eleição não vai ao ponto de o homem ser salvo independente de se arrepender e crer. Antes, é parte do propósito de Deus trazer o homem ao arrependimento e à fé. E Deus não obriga o eleito a crer. Ele o guia e persuade, através dos apelos do evangelho e trabalho do seu Espírito Santo, mas é o indivíduo que decide vir a Cristo (…) Lembremo-nos que o propósito de Deus na eleição era o de efetuar a mesma coisa que ele realiza ao salvar esse homem. Portanto, se a salvação de um homem não interfere na sua liberdade, o propósito na mente de Deus, em virtude do qual ele foi salvo, não interferiria tampouco na sua liberdade[11].
Ideologia fundamentada no Mal uso de terminologias bíblicas:
A premissa de Geisler, sobre a determinação de Deus com relação a liberdade humana, não tem fundamento bíblico, apenas lógico e filosófico. A idéia de Claudionor e Thiessen são fundamentadas no mal uso dos termos pré-conhecer e pré-conhecimento. Pois observe onde mais eles são usados:
…Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu (Rm.11.2)
…conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós (1Pe.1.20)
…sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos (At.2.23)
Nos outros textos em que os termos aparecem é impossível dizer que se referem apenas a um conhecimento antecipado de Deus. Em Rm.11.2 é impossível que o texto diga que Deus apenas sabia que Israel o iria aceitar. Isso não é visto em nenhum texto do Velho Testamento. O que se sabe sobre a origem da Nação de Israel é que Deus escolheu um casal e por meio deles estabeleceu uma nação. Não se pode dizer que Deus sabia que Abraão teria um filho e que desse filho viria uma nação. O que é certo é o que Paulo afirma: “O que Israel busca, isso não conseguiu, mas a eleição o alcançou” (Rm.11.7).
Em 1Pe.1.20 e At.2.23 fica mais difícil fazer a afirmação do pré-conhecimento passivo de Deus, pois é impossível que se diga que Deus sabia que Jesus ia morrer. Ao contrário, Deus estabeleceu assim. Ou seja, talvez o termo usado para defender um conhecimento passivo de Deus na salvação não defende.
Ideologia fundamentada no Mal uso de textos:
Outro pequeno detalhe é que a base estrutural do pensamento da Eleição prevista está lançada sobre Rm.8.29 somado com 1Pe.1.2, que não sustentam tal idéia. Não precisa ser um grande conhecedor de terminologias para perceber isso. Observe:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas.
Observe que essa idéia diz que Deus salva os homens que querem ser salvos. Contudo o primeiro texto diz que o fato de conhecer não antecede nem fundamenta a predestinação, mas diz que os dois fatos acontecem. Ou seja, ele conhece quem predestina, e não predestina por que conhece como insistem os adeptos dessa idéia. Outro detalhe observado no primeiro texto é que o objetivo da salvação é ser conforme Cristo. Logo, ninguém pode ser salvo por ser conforme Cristo como insistem os adeptos dessa idéia, mas para ser conforme Cristo.
No segundo texto nota-se que a presciência não é o fundamento da salvação, como insistem os adeptos dessa ideologia, mas, antes este pré-conhecimento está em conformidade com a eleição. Pedro diz que nós somos eleitos em conformidade com a presciência, e não por causa dela. Sem contar que para ele o objetivo da eleição é a obediência. Logo, ninguém pode ser salvo por obedecer, mas para obedecer.
Assim, diante desses fatos é certo que a idéia da Eleição Prevista não tem fundamento bíblico por três grandes motivos: (1) Não existem textos bíblicos que confirmem a absoluta liberdade do homem em relação ao seu destino eterno; (2) Não existem provas bíblicas para a idéia de que Deus escolhe quem irá crer; (3) Não existe fundamento escriturístico para afirmar a falta de liberdade de Deus na Salvação.
C. Eleição Incondicional
Eleição Incondicional é a doutrina apresentada pelos calvinistas e é fundamentada na Soberania Absoluta de Deus e na Ausência Absoluta de Mérito do homem para alcançar a salvação. Conseqüentemente, o homem não tem livre arbítrio, no que diz respeito a salvação, e depende exclusivamente da graça de Deus para ser salvo.
Apresentação da Doutrina
É muito complexo definir em poucas linhas a Eleição, visto ser ela parte debate intenso desde a era dos Pais da Igreja. No século 5, Agostinho já discutia com Pelágio sobre o assunto. A respeito de Pelágio, Berkhof diz:
“Pelágio se afastou muito mais do ensino bíblico quanto à aplicação da redenção do que qualquer outro dos primeiros Pais da Igreja. Podemos mesmo afirmar que ele abandonou os fundamentos escriturísticos que eram sagrados, e reafirmou o princípio de auto-suficiência da filosofia pagã[12]“
A idéia presente no pensamento de Pelágio inicia-se na concepção errada de pecado, e por isso chega a não necessidade de Cristo para apropriação da redenção. Para ele, é possível mediante as obras da lei uma redenção completa. “Não desprezava ele inteiramente a ‘ajuda da graça’ ou ‘assistência divina’, mas considerava isso desejável ‘a fim de que aquilo que é ordenado por Deus possa ser mais facilmente cumprido’[13]“.
Para ele esta graça não diz respeito à Obra Regeneradora do Espírito Santo, ou Seu convencimento do pecado. Para ele a graça “consiste somente destes fatores: (a) ‘o bem da natureza’, isto é o livre arbítrio de que o homem é dotado, de tal modo que possa fazer o bem ou mal; e (b) a pregação do evangelho e o exemplo de Cristo, fatores esses que são dirigidos à mente do homem e lhe ensinam o caminho da salvação. A graça da natureza é universal e também absolutamente essencial ou necessária, mas a graça do evangelho não era nem universal nem necessária, embora facilitem ao homem a obtenção da salvação[14]“.
Tal idéia ainda prevalece em alguns guetos pseudo-teológicos. Mas, antes de qualquer outra menção que fira a doutrina pelagiana, é válido recordar que foi condenada pelo Sínodo de Cartago, pelo Sínodo de Éfeso e novamente pelo Sínodo de Orange, onde o semi-pelagianismo foi também descartado. Ou seja, diante da História da Igreja tal heresia vem perseguindo a sanidade da doutrina bíblica da salvação.
Ou seja, a idéia da co-participação humana na salvação, no sentido de determinar as atividades de Deus, é claramente descartada pela história da igreja. Isso não significa que o homem é um robô, ou alguém que não é dotado da possibilidade de optar, ou realizar escolhas. O que se afirma é que, em função do pecado, suas escolhas estão fadadas ao fracasso, no que diz respeito à salvação. Ou seja, uma vez que todos os aspectos do homem foram corrompidos pelo pecado, incluindo a vontade, é impossível que essa vontade caída, abarrotada de pecado possa subjugar as decisões de Deus.
O que se pode afirmar sobre a vontade, é que ela é influenciada ou dirigida, pelo intelecto, emoções e desejos e que sua liberdade nada mais é do que a experiência de realizá-la na ausência de controle ou influência. Seguindo essa afirmação, a liberdade da vontade é inconsciente. Entretanto, isso é impossível, pelo fato de que a vontade sempre está à mercê de alguma informação, necessidade ou desejo.
Observe que quando Paulo afirma que os não salvos tem um modo de vida em conformidade o curso deste mundo, o enganador deste mundo, e das inclinações da própria carne (Ef.2.1-3). Neste texto pode-se ler:
“..fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”
A vontade relaciona-se com os outros aspectos da constituição do homem, e o conduz segundo as inclinações destes aspectos. Dessa forma, o homem não regenerado tem sua vontade inclinada pelas paixões carnais e intenções malévolas, o que faz com que sua vontade não possa ter arbítrio isenta de influência.
O mesmo acontece com o homem regenerado, embora após a salvação o homem seja conduzido à liberdade, a vontade do homem não é absolutamente livre. Paulo testemunha esse fato quando diz:
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm.7.18-19)
O que acontece nesse texto demonstra a luta entre a intenção de fazer o bem e não conseguir efetuá-lo. Embora o homem regenerado desfrute de um ambiente de liberdade ainda não possui a liberdade essencial e verdadeira que o próprio Deus tem. De alguma forma até mesmo a vontade do homem é influenciada, ou regida por outro aspecto. Em Fp.2.13 podemos ler:
“Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”
Segue-se que a liberdade da vontade é o desejo de todo homem, porém, impossível à luz de sua própria definição:
Vontade é a capacidade inerente das faculdades do aspecto imaterial do homem, que o possibilita realizar escolhas morais influenciadas por sua condição moral, com o objetivo de movê-lo para alguma direção dentre as possibilidades desejadas[15].
Assim, não se nega a capacidade de escolas do homem, ao mesmo tempo que não afirma seu liberdade utópica. Assim, para a salvação é necessário que Deus em misericórdia inicie o processo de salvação, sendo que este é iniciado Ele com a eleição. Por isso é necessário compreender o termo teológico que refere-se a esse início: ELEIÇÃO. Sobre ela, Strong diz:
Eleição é o ato eterno de Deus pelo qual, em soberano agrado e não por mérito algum previsto nos homens ele escolhe alguns dos numerosos pecadores para serem os receptores da graça especial do seu Espírito e assim serem participantes voluntários da salvação de Cristo[16].
Eleição: Prova Bíblica
A Eleição Incondicional é fundamentada na Soberania Absoluta de Deus. Assim, podemos ressaltar a Soberania de Deus:
(1) Sobre toda a Vida: 1Sm.2.6-10; 2Rs.9.25; 1Cr.29.11-14; Sl.135.6; i39.1-16; Pr.16.9.33; 20.24; Ec.3.1; Is.14.24, 27; 25.1; 43.7; 45.1-13; 46.10; 48.3; 55.11; 63;16-17; 64.8; Dn.4.17; At.2.23-24; 4.27-28; 17.24-28; Rm.13.1; Ef.1.11; Fp.2.13;
(2) Sobre Seus Planos: 1Rs.22.19-22; Jó.42.2; Sl.115.3; 135.6; Pr.21.1; 16.4; Is. 44.18; 54.16; 55.11; Dn.4.17, 35; Jo.1.6; 2.1; Rm.9.11-24; 11.7; 2Pe.2.9; Jd.4; Ap.13.8; 17.8; 19.16; 20.2, 10;
(3) Sobre a Eleição: Gn.12.1-3; Lv.8; Dt.7.6, 14.2; 1Sm.17.1-12; Sl.33.12; Is.8.14 (cf.1Pe.2.8); 41.8, 9; 42.1; 43.20, 21; 65.9, 22; Mt.22.14; 24.22; 24.24; Mc.3.13-19; 13.27; Lc.18.7; Jo.1.13; 6.37, 44, 65; 10.29; 15.16, 19; 17.2, 6, 9, 12, 24; At.2.39; 13.48; 18.27; Rm.8.28-30; Cap.9; Cap.11; 16.13; 1Co.1.27-30; Gl.1.5-16; Ef.1.3-6, 11; 2.8-10; Cl.3.12; 1Ts.1.4; 2Ts.2.13; 3.2; Tt.1.1; 1Tm.1.9; 2Tm.2.10; Tg.1.18; 1Pe.1.2-5; 5.13; 2Pe.1.10; Ap.17.14.
Diante de tantas evidências, vamos ressaltar apenas alguns textos:
(1) A Eleição é para salvação: “porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts.5.9); “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts.2.13)
(2) A Eleição é restrita: “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt.22.14); “e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At.13.48);
(3) A Eleição não depende da vontade humana: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo.1.13); “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm.9.16);
(4) A Eleição precede a Obediência, a Santificação, o Exercício de Fé: “assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Ef.1.3); “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm.8.29); “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1Pe.1.2); “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama) já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço” (Rm.9.11-12);
(5) A Eleição é realizada em Amor: “em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5);
(6) A Eleição é fundamentada na Graça de Deus: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto [a salvação] não vem de vós; é dom de Deus” (Ef.2.8); “segundo a riqueza da sua graça” (Ef.1.5-7);
(7) A Eleição Implica em Chamamento Eficaz: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm.8.28); “a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?.” (Rm.9.23-24); “mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo” (1Co.1.24);
(8) A Eleição é Departamento da Soberania de Deus: “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento, pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.” (1Co.1.26-29); “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tg.1.18); “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm.9.20, 21);
(9) A Eleição garante a existência de um Povo de Deus: “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm.11.5); “Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados” (Mt.24.22 – Contexto da Grande Tribulação); “Mas, relativamente a Israel, dele clama Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo” (Rm.9.27);
(10) A Eleição Tem um aspecto Negativo: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição” (Rm.9.22); “Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm.9.18); “Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, como está escrito: Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje.” (Rm.11.7-8); “Por isso, não podiam crer” (Jo.12.39); “Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (1Pe.2.8); “O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade” (Pr.16.4); “Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos” (2Pe.2.12); “Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd.4); “Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo.8.43-44); “Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra” (Rm.9.17)
Diante desses textos é impossível negar a existência da Eleição Incondicional. Aliás, não existe como ser cristão e negar a Soberania Absoluta de Deus sobre a Vida e a Morte, sobre a Eleição e Preterição.
Defensores da Doutrina
Agostinho, João Calvino, Teodoro Beza, George Whitefield, Charles Hodge, Augustus Hopkins Strong, Louis Berkhof, Charles Ryrie, Abraham Kuyper, John Sttot, Charles Swindow, Charles Spurgeon, A.W. Pink, A.W. Tozer, J.I. Packer, Walter Conner, Blaise Pascal, Roger Willians, Obadiah Holmes, Benjamin Keach, John Bunyan, Isaac Backus, Andrew Fuller, Willian Carey, Luther Rice, Adoniran Judson, J.P. Boice, John A. Broadus, B.H Carroll, Matthew Henry e John Newton, Anthony Hoekma, Jonatas Edwards, R.C. Sproul, Lewis Sperry Chafer, Millard Erickson, H. W. House, Marcos Ribeiro, Bruce Triplehorn, Jonas Cunha, Marcos Mendes Granconato, Carlos Osvaldo Pinto, Darcy Sborowisky, Samuel Falcão, Pedro, Paulo, Jesus e etc.
Como são muitos os defensores citados, neste ponto observaremos apenas o que alguns desses teólogos dizem a respeito da Eleição.
H. Wayne House:
Aquele aspecto do propósito eterno de Deus pelo qual ele determina de maneira certa e eterna, por meio de uma escolha amorosa e incondicional, quem irá crer. Não é simplesmente a intenção de Deus salvar todos os que possam crer, antes ele determina quem irá crer
John Bunyan:
Ora, quanto aos eleitos, mediante esse decreto ele são confinados ao número limitado de pessoas que formarão a plenitude do corpo místico de Cristo; e de tal forma foram confinados, por esse propósito eterno, que nada poderá aumentar ou diminuir esse número.
Matthew Henry:
Aos que de antemão conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho. Para todos os que foram designados para um fim glorioso e feliz, Deus decretou a graça e a santidade como caminho. Deus não predestinou para serem santos aqueles que Ele sabia de antemão que seriam santos. Os conselhos e decretos de Deus não se submetem à frágil e inconstante vontade dos homens.
Willian Carey:
Temos a certeza de que somente aqueles que foram destinados para a vida eterna irão crer, e que somente Deus pode adicionar à igreja aqueles que serão salvos. No entanto, não podemos senão observar, com admiração, que Paulo, o grande campeão das gloriosas doutrinas da graça gratuita e soberana, foi o mais notável em seu zelo pessoal pela obra de persuadir homens a se reconciliarem com Deus
Basil Manly:
A eleição é a eterna escolha, da parte de Deus, de algumas pessoas, para a vida eterna – não por algum mérito que nelas tivesse sido previsto, mas unicamente pela misericórdia de Deus em Cristo – em conseqüência da qual elas são chamadas, justificadas e glorificadas
Walter T. Conner:
Quando Deus elege um homem para a salvação, Deus toma em consideração cada fator que entra na situação. Ele não elegeria um homem para ser salvo em separação de sua fé, mas, sim, através da sua fé. Isso não quer dizer que a fé seja a base da eleição. A fé não é a base da eleição, mas a condição. A fé responde à graça, apreende-a, mas não produz a graça. A Graça suscita a fé, produz fé. Fé é a consciência de que não merecemos salvação. A fé reconhece todo o mérito da salvação. Como pertencente a Deus e à sua graça.
A.W. Pink
Deus não apenas tem o direito de realizar os seus propósitos com as criaturas de suas próprias mãos, mas igualmente exerce esse direito, e em nenhum ponto isso é revelado com maior clareza do que em sua graça predestinadora. Antes da fundação do mundo, Deus fez uma escolha, uma seleção, uma eleição. Diante do seu olhar onisciente estava a totalidade da raça de Adão, e dela ele selecionou um povo, predestinando-o à adoção de filhos, predestinando-o a ser conformado à imagem de Seu Filho, ordenando-o para a vida eterna.
João Calvino
Chamamos predestinação ao eterno decreto de Deus, pelo qual ele determinou em si mesmo o que ele quis que todo indivíduo do gênero humano viesse a ser. Porque eles não são criados todos com o mesmo destino. Mas para alguns é preordenada a vida eterna, e para outros, a condenação eterna. Portanto, sendo criada cada pessoa para um ou para outro destes fins, dizemos que é predestinada para vida ou para morte.
[1] PASCAL, Blaise, Pensamentos. pp.269
[2] BARTH, Karl. Die kirchliche Dogmatik In: MONDIN, Battista. Os grandes teólogos do século vinte. Teológica:São Paulo, 2003. pp.70.
[3] BARTH, Karl. Artigos Selecionados – Eleição de Deus em Graça. Sinodal:Rio Grande do Sul, 1986. pp.243.
[4] BARTH, Karl, Gottes Gnadenwhal, In HENDRISKSEN, William, Comentário do Novo Testamento. Casa Presbiteriana:São Paulo, 1992. pp.96
[5] ANDRADE, Claudionor Corrêa, Dicionário Teológico. pp.133
[6] Idem, Ibid.
[7] GLEISLER, Norman, Eleitos, mas Livres. pp.62
[8] OLIVEIRA, Raimundo, As grandes doutrinas Bíblicas. pp.218
[9] Idem, pp.222
[10] THIESSEN, Henry Clarence, Palestras Introdutórias à Teologia Sistemática. pp.246
[11] CONNER, Walter T. Evangelho da Redenção. pp.71
[12] BERKHOF, Louis, A História das Doutrinas Cristãs. pp.185
[13] Idem, Ibid.
[14] Idem, Ibid.
[15] BERTI, Marcelo Mendes.
[16] STRONG, Augustus Hopkins, Teologia Sistemática. pp.472.
Obra Salvífica de Cristo
“Há luz suficiente para quem quer ver, e trevas suficientes para quem não quer ver[1]“
Dentro da progressão histórica do significado da salvação e da consecução da soberania de Deus em relação ao seu plano preestabelecido para salvação, o ponto mais alto, mais sublime e necessário é a Obra de Cristo. Por muitos teólogos a Obra de Cristo é considerada como um acidente na história, como se Deus fosse pego de surpresa por esse evento. Contudo, a história demonstra a progressão desse significado, de modo que, fica evidente que a Obra de Cristo a nosso favor é parte integral do Plano de Deus para a Salvação daqueles que fazem parte da Soberana e Amorosa Eleição Incondicional.
A. Significados
A verdade é que o significado total da morte de Cristo não pode ser resumido em apenas uma ou duas frases. Porém, é igualmente verdade que seu significado central pode e deve estar centrado em algumas idéias fundamentais[2]
A verdade estampada por Ryrie não pode ser contrariada, e sobre essa afirmação é que se sustenta a abordagem sobre o significado da Obra de Cristo. Assim, podemos facilmente considerar quatro significados principais para essa Obra: (1) A morte de Cristo foi em substituição dos pecadores; (2) foi uma redenção para os pecados; (3) uma reconciliação do homem para com Deus; (4) e uma propiciação pelo pecado.
A Morte de Cristo foi em lugar dos pecadores
Neste ponto é válido recordar algumas verdades: (1) Quando o homem caiu e se afastou de Deus, ficou em débito eterno para com Deus; (2) Contudo, a única maneira de o homem pagar por essa dívida, era sofrendo eternamente a penalidade fixada pela transgressão; (3) É também importante perceber que, o cumprimento dessa penalidade, é o que Deus deveria exigir por uma questão de justiça, e teria exigido, se não tivesse agido com amor e compaixão do pecador.
Assim, nota-se que o homem, por si só não poderia resolver seu problema ou pagar sua dívida diante de Deus, a não ser que um substituto fosse providenciado, o que está fora do alcance do homem conseguir. Contudo, está dentro do Plano Histórico de Deus conceder esse Substituto. Isso é observado desde Gn.3.15, como já observamos. E, de fato, Deus designou um substituto na pessoa de Jesus Cristo para tomar o lugar do homem, e este substituto expiou o pecado e obteve eterna redenção para o homem.
Essa atividade, dentro da Teologia, é chamada de “Expiação Vicária“, que pode ser entendida como “Substituição Penal“. E não é sem provas que se admite essa realidade, pois “a Bíblia certamente ensina que os sofrimentos e a morte de Cristo foram vicários, e vicários no sentido mais estrito da palavra, que Ele tomou o lugar dos pecadores, e que a culpa deles lhes foi imputada e a punição que mereciam foi transferida para Ele[3]” [Lv.1.2-4; 16.20-22; 17.11; Is.53.6, 12; Mt.20.28; Mc.10.45; Jo.1.29; 11.50; Rm.5.6-8; 8.32; 2Co.5.14, 15, 21; Gl.2.20; 3.13; 1Tm.2.6; Hb.9.28; 1Pe.2.24[4]].
Assim, uma definição simples com relação a esse aspecto da Obra de Cristo pode ser assim anunciada: “Cristo é o substituto proposto legalmente por Deus para assumir o débito moral do homem em seu lugar, de modo que pôde providenciar um benefício eterno para este, para que o homem não tivesse mais que suportar o fardo da condenação do pecado”. Nosso texto base é obviamente 2Co.5.14, 15, 21:
Pois o amor de Cristo nos compele, julgando nós isto: Ele morreu em lugar de todos, logo todos morreram. E ele morreu em lugar de todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que em benefício deles morreu e ressuscitou. Aquele que não conheceu o pecado, fez-se pecado em nosso lugar, para que fossemos feitos justiça de Deus.
A Morte de Cristo foi para Redenção dos Pecados
A redenção é um aspecto da morte de Cristo sobre a cruz, que é ligado ao pecado e restrito em seu significado. Como substituição tem o sentido de assumir a culpa, a redenção tem sentido de pagar essa culpa assumida. Ou seja, a redenção é aplicada no que diz respeito ao pecado e o débito que ele causa, que pode apenas ser pago com sangue (Hb.9.22 cf. Lv.17.11). Logo, para que o preço de pecado pudesse ser pago, era necessário derramamento de sangue de um Cordeiro sem máculas. Essa era exigência colocada na história da redenção, que tem seu significado completo em Cristo (Jo.1.29; cf. Is.53.9; 1Pe.2.21-22).
No Antigo Testamento podemos perceber que o sentido de redenção é aplicado, não somente a pessoas, mas também a posses, como terras e animais (Lv.25.25, 47, 48). A idéia expressa nesse contexto é de prover liberdade através do pagamento de um resgate.
Um ponto interessante no VT é que existe a idéia de um Redentor-Parente, como no caso de Boás, que foi o redentor parente da Família de Noemi em benefício de Rute (Rt.3.9; cf. Os.3.15; Is.43.3, 10-14). É possível que isso tenha implicações com a Obra de Cristo, como se Ele, como homem que é, fosse o Redentor da Raça humana. Segundo Chafer, esse aspecto “é uma exigência básica que o Filho de Deus trouxe do céu para a terra e tornou necessária a encarnação para Ele pudesse ser um perfeito Redentor-parente[5]“.
Em Ex.21-1-6 (cf. Dt.15.15-17), podemos perceber que no VT um escravo tinha vida de serviço de 6 anos, sendo que no sétimo ele deveria ser solto. Contudo, se este entrasse solteiro para servir seu senhor, e este lhe desse uma esposa, quando ele saísse deveria deixar a esposa e os filhos que tivesse com ela. Contudo, se ele amasse sua esposa, seus filhos e seu senhor, ele voluntariamente aceitaria servi-lo até sua morte. Ou seja:
Um escravo liberto por seu senhor era totalmente livre; mas ele podia voluntariamente permanecer com seu senhor, a quem ele amava.
Alguns textos que testemunham as verdades acima anunciadas: [Ex.13.12; 21.28; 30.12; Nm.18.15-17; Sl.130.8; Is.59.20]
No NT podemos ressaltar três vocábulos que auxiliam a compreensão dessa verdade: avgora,xw( lutro,w e peripoioumai:
avgora,xw: A idéia expressa por esse vocábulo é de comprar (Mt.13.44, 46; 14.15; Mc.6.36; Lc.9.13; cf. LXX Gn.41.57, 42.5, 7; Dt.2.6) Este vocábulo é aplicado à soteriologia neotestamentária de maneira interessante. Observe o texto de 1Co.6.20: “Por que fostes comprados por preço” (cf. 1Co.7.23). A idéia presente neste texto aponta para uma compra de alto valor. Assim, podemos concluir que essa compra implicou no pagamento de um preço alto (2Pe.2.1), que é o sangue do próprio Messias (Ap.5.9, 10) e deságua diretamente no serviço daquele que foi comprado em benefício do comprador (1Co.6.19, 20; 7.22, 23). Neste ponto ainda, é importante ressaltar um uso distinto do vocábulo em questão. Por vezes, encontra-se tal vocábulo precedido pela preposição “evx”, formando o vocábulo “evxavgora,xw”. Em Gl.3.13 nota-se claramente a idéia de resgatar. Ou seja, o termo preposicionado por “evx” traz um sentido de ser comprado para nunca mais retornar à condição anterior a compra.
lutro,w: É um termo muito utilizado no NT e significa basicamente que o redimido é desatado e liberto. Mas isso ocorre apenas quando é recebido o pagamento do preço do resgate. Assim, por meio do pagamento, o redimido é desatado e está livre. Mt.20.28 testemunha esse fato: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. LXX: Ex.30.11-16; Lv.25.31, 32; Nm.2.46-51; NT: Lc.1.68; 2.38; 24.21; Tt.2.14; Hb.9.12; 1Pe.1.18,19). Neste caso, como com “avgora,xw”, é possível encontrar o termo preposicionado: “avpolutrw,sij”. Seu significado é basicamente redenção, seguindo mesmo rumo do verbo em pauta (Lc.21.28; Rm.8.23; Ef.4.30 – prisma escatológico; Rm.3.24; Ef.1.7, 14; Cl.1.14; Hb.9.14 – prisma de libertação de incrédulos; 1Co.1.30 – sentido geral).
peripoioumai: Esse vocábulo ocorre apenas uma vez, e é aplicado ao Sacrifício de Cristo: At.20.28.
Portanto, deve ser observado que a doutrina da redenção mostrada pelo NT é um cumprimento completo da verdade mostrada em sombras no AT, de que há um sentido em que o preço é pago, mas o escravo não é necessariamente liberto (que é o estado de todos por quem Cristo morreu que ainda não são salvos) e que, por uma realização mais profunda e abundante da redenção, o escravo pode ser solto e liberto (que é o estado de todos que são salvos). A relação dos não salvos com a verdade de que, pela sua morte, Cristo pagou o preço do resgate, é crer no que está declarado como verdadeiro. A relação dos salvos com a verdade de que, por sua morte, Cristo liberta, é reconhecer essa liberdade maravilhosa e, então, pela rendição de si mesmo, tornarem-se escravos voluntários do redentor.
Se Cristo deu sua vida por mim, o mínimo que posso fazer é dar a minha a ele.
A Morte de Cristo foi para reconciliar o Mundo Consigo
A idéia de reconciliação é completamente neotestamentária, e só pode ser real por meio da Obra de Cristo. A reconciliação é necessária pelo fato de que o homem sem salvação vive em uma relação de inimizade e hostilidade com Deus (Rm.5.9, 10; cf. 2Co.5), e, como inimigos de Deus está plenamente passível de sofrer a manifestação de Sua Ira. Contudo, o cenário não assim deixado, pois vemos que Deus propõe uma resolução para esse problema por meio da morte do Senhor Jesus (Rm.5.10). Assim, fomos aproximados a Deus, pois Cristo mudou completamente nosso estado anterior de inimizade e substituiu por um de Justiça e de completa harmonia com Deus (2Co.5.18-20).
[Rm.5.10; 11.15; 2Co.5.18-21; Ef.2.16; Cl.1.20-21
A Morte de Cristo foi para Satisfazer a Ira de Deus pelo Pecado
Como já foi demonstrado anteriormente, Deus demonstra sua Justa Ira para com o pecado (Jo.3.36; Rm.1.18-32; Ef.2.3; 1Ts.2.16; Ap.6.16; 14.10, 19; 15.1, 7; 16.1; 19.15), de forma que, qualquer que seja a atitude desse Deus absolutamente Santo contra o pecado, é completamente justo e aceitável, pois, devido a seu caráter Santo, não pode deixar impune o mal, nem tão pouco fingir que ele não existe, ou que não tem importância. Por sua Justiça e Santidade deve puni-lo. Contudo, em Cristo é providenciada uma oferta "propiciatória" e assim a Ira de Deus contra o pecado é apaziguada. Logo, pode-se dizer que a Morte de Cristo, além de Substitutiva, Redentora, Reconciliadora, é também Propiciatória, pois satisfaz a Ira de Deus pelo pecado.
Aqui três textos devem ser demonstrados:
Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (1Jo.2.1-2)
[Jesus Cristo] a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos (Rm.3.25)
e sobre ela, os querubins de glória, que, com a sua sombra, cobriam o propiciatório. (Hb.9.5a)
Em todos os textos mencionados podemos encontrar formas derivadas do termo grego “i’lasth,rion” (hilastérion), que tem por significado básico “propiciação”. Contudo, no primeiro texto podemos entender o termo como “aquele que propicia” (cf. 1Jo.4.10 – Sobre a questão da abrangência eficiente desse aspecto da salvação). Já no segundo caso a termo denota a idéia de “lugar da propiciação” (cf. LXX: Ex.25.17-22; Lv.16.14.15). Essa idéia é claramente exposta no terceiro texto. Ou seja, Cristo não é apenas a oferta como também o lugar onde se faz a oferta, como sugere os textos citados.
O significado dessa oferta vem desde o VT, e “em qualquer lugar que pudesse estar o propiciatório no Tabernáculo, tipicamente, era para o israelita aquilo que Cristo é, realmente, para o crente e para Deus[6]” (Dt.13.15-17; Jn.3.7-10; Sl.78.38; Is.48.9).
B. Conseqüências
Diante dos principais significados da Obra de Cristo a nosso favor é necessário demonstrar que tal Obra tem conseqüências diretas àqueles que são beneficiados por ela.
Justificação
A Justificação não é apenas uma das conseqüências da Obra de Cristo a nosso favor, mas um tema doutrinário central na Salvação e fundamental para a essência do cristianismo. Tal importância é expressa pelo próprio vocábulo: “JUSTIFICAR”, que carrega o sentido de declara justo diante de Deus“. Isso não significa que uma pessoa, ao ser declarada justa, seja absolutamente sem falhas ou completamente justa no seu proceder, mas que a partir desse momento ela é Posicionalmente Justa, ou livre de culpa do pecado. “A justificação é o pronunciamento do juiz justo de que o homem em Cristo é justo; mas esta justiça é uma questão de relacionamento, e não de caráter ético[7]“.
A Justificação é um empreendimento do próprio Deus, e aparece como o complemento de Deus na obra da Salvação, é uma declaração de Deus a respeito do cristão de que foi feito para sempre justo e aceitável diante de Deus. Segundo a Confissão de Fé de Westminster “a Justificação é um ato da livre graça de Deus, pela qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos à sua vista, somente pela justiça de Cristo, imputada a nós, e recebida pela fé somente”.
Existe estreita ligação entre a Justificação e a Ressurreição de Cristo, pois a ressurreição de Cristo mostrou que a morte como resultado do pecado de Adão, teve seu poder neutralizado. Se a morte foi vencida, segue-se que a culpa foi removida. Assim, a ressurreição é uma prova ou garantia de que o problema da culpa, geradora da morte, foi resolvido. Ora, a Justificação é o termo que se refere ao livramento da culpa. Daí a relação entre a Ressurreição de Cristo e a Justificação dos cristãos. Tal pensamento tem fundamento evidente em Rm.4.25:
…o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.
Diante dos fatos levantados é notório que existe uma ligação entre a Justificação e a Lei, por conseguinte com um Juiz. Sobre isso não há dúvidas, pois Deus não é apenas o legislador, mas o Justo Juiz (2Tm.4.8; Tg.5.9). Logo, o sentido forense da expressão está completo. Mas é válido demonstrar que, diante do Juiz, o justificado tem acesso pela fé a esta graça (Rm.5.2; 9.30), desfruta de um relacionamento de paz com Deus (Rm.5.1) e implica na demonstração de uma conduta concernente com a Nova Posição (Rm.6.7; Tg.2.24).
Adoção
Como já ficou muito evidente, não existe dignidade suficiente no homem que o faça merecer Tão Graciosa Obra da Salvação. Mas, não há tão maior prova de ausência de mérito senão a expressão “eivj ui’oqesi,an” (para a adoção) em Ef.1.5 (cf. Gl.4.5; Rm.8.15), “por que um filho adotado deve sua posição à graça e não ao direito, e, ainda mais, é trazido ao seio da família, passando a ter os mesmos privilégios e deveres de um filho de nascimento[8]“.
Adoção é uma palavra normalmente utilizada no meio romano. Em uma cerimônia legal, o filho adotado era determinado a todos os direitos de um filho natural. É possível que Paulo tenha emprestado este termo para o empregar eficientemente à salvação. A palavra em pauta, na literatura paulina, “descreve os direitos e privilégios como também a nova posição do crente em Cristo[9]“.
Segundo Hendriksen, a adoção vai ainda um pouco além, pois “ela outorga aos seus recipientes não apenas um novo nome, um novo status legal e uma nova relação familiar, mas também uma nova imagem, a imagem de Cristo (Rm.8.29)[10]“.
J.I Packer afirma que no mundo de Paulo a “adoção era ordinariamente de homens jovens de bom caráter, que se tornavam os herdeiros e mantinham o sobrenome dos ricos sem filhos. Porém, o NT proclama a adoção cortesa de Deus a pessoas de mal caráter para se tornar ‘os herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo’[11]” (Rom. 8:17). Mais uma vez é digno de nota que o adotado não tem qualquer mérito pela escolha do “Adotador”, embora possa desfrutar de todos os benefícios e, principalmente, responsabilidades de um filho natural, pois a “soberania divina exclui com eficácia qualquer mérito[12]“.
Paulo ensina que o presente de justificação (i.e., aceitação presente por Deus como o Juiz do mundo) traz com isto o estado de filho por adoção (i.e., intimidade permanente com Deus como o Pai divino da pessoa, Gl. 3:26; 4:4-7). Justificação é a bênção básica na qual adoção é fundada; adoção é a bênção de coroamento para a qual justificação é direcionada. O status de adotado pertence a todos que recebem o Cristo (Jo.1:12). Agora, os crentes estão debaixo do cuidado paternal de Deus e de sua disciplina (Mat.6:26; Hb.12:5-11) e é dirigido, especialmente por Jesus, a viver suas vidas levando em conta o reconhecimento de que Deus é seu Pai celestial. .
Adoção e regeneração acompanham um ao outro como dois aspectos da salvação que o Cristo traz (Jo.1:12-13), mas eles serão distinguidos. Adoção é o favor de uma relação, enquanto regeneração é a transformação de nossa natureza moral. Ainda a ligação é evidente; Deus quer as crianças dele quem ele ama, agüentar o caráter dele, e entra em ação adequadamente.
Santificação
Santificação, segundo o Catecismo Menor de Westminster (Q.35), é “a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão.” O conceito não é que o pecado é totalmente erradicado ou completamente controlado, mas de uma divina mudança de disposições, virtudes, hábitos pecaminosos e caráter, forjados nos moldes de Cristo.
Santificação é uma transformação contínua dentro de uma consagração mantida, e gera real retidão. Por “santo” entende-se aqui como um portador de uma verdadeira semelhança com Deus. Santificação é o estado de ser separado permanentemente para Deus, e aflora desde a cruz, onde Deus, em Cristo, nos comprou e nos conduziu para Ele (At.20:28; 26:18; Hb.10:10). Santificação implica em renovação moral (Rm.8:13; 12:1-2; 1Co.6:11, 19-20; 2Co.3:18; Ef.4:22-24; 1Ts.5:23; 2Ts.2:13; Hb.13:20-21).
A Santificação é a continuação do que foi iniciado na salvação, quando uma novidade de vida foi conferida ao crente e sobre ele instalada. Contudo, é importante saber que a palavra santificação possui dois significados básicos: (1) é uma característica formal de um grupo de pessoas salvas (1Co.1.2; Ef.2.19; 1Pe.2.9); (2) é uma qualidade moral almejável e conseqüência do significado anterior. Assim, os cristãos são Santos, diante de Deus, mas buscam a Santidade em suas vidas.
O conceito correto de Santificação repousa sobre uma tensão muito grande: É uma obra da graça de Deus, mas exige busca pessoal do cristão. Uma ênfase demasiada no primeiro lado dessa tensão, conclui-se que a Santificação é passiva. Da mesma sorte, uma ênfase demasiada no segundo lado dessa tensão, a Santificação passa a ser encarada com um grau meritório, e fruto apenas do esforço humano, o que é impossível. Por isso, deve-se admitir que a santificação é uma obra sobrenatural (1Ts.5.23; cf. Ef.5.26; Tt.2.14; Hb.13.20, 21) da qual o cristão participa ativamente (Gl.5.16, 25; Fp.2.12, 13; Rm.8.13; 12.1, 2, 9, 16, 17). Embora a santificação seja exclusivamente de Deus, o crente é constantemente exortado a trabalhar e crescer nas questões que dizem respeito à salvação.
Sobre esse assunto, é importante ressaltar que a Santificação tem alvo claro: Semelhança com Cristo (Rm.8.29); e é encarada com um progresso, que se inicia na salvação e dura toda a vida do homem.
Perseverança
Diante do que já foi anunciado uma pergunta precisa ser feita: “Aquele que foi justificado, adotado, santificado persistirá para sempre neste estado?”. Ou melhor: “Será um cristão sempre um cristão?”. Ou ainda: “Existe possibilidade de se perder a salvação?”.
Historicamente a resposta para a questão em pauta sempre correu para dois lados distintos: o sim (arminianos) e o não (calvinistas). Diante da lógica é obvio que aquele que é recipiente da salvação, que é iniciada e perfeita por Deus, permanecerá salvo pela graça de Deus. Contudo, não é a mera lógica que sustenta o fato da Perseverança dos Santos, pois existe grande número de evidências bíblicas que testemunham a favor da indestrutibilidade da salvação. 1Pe.1.3-5 é um exemplo desses:
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.
Romanos 8.38-39 também testemunha esse fato:
Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
O próprio Cristo testemunhou essa verdade quando falou que aqueles que o Pai lhe dá, irá até ele e Ele de modo nenhum os jogará fora (Jo.6.37). Neste mesmo trecho é anunciado por Ele que a vontade de Deus Pai é que todo o que crer tenha a vida eterna e seja ressuscitado por Ele no último dia (v.39, 40, 44; cf. Jo.10.27-30).
Assim, nota-se que Cristo não apenas nos concede vida eterna e nos abandona em nosso próprio esforço, mas antes, a obra que foi por Ele iniciada em nós continua até ser completada (Fp.1.6). Paulo testemunha essa fato quando diz: “Não me envergonho, por que sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar meu tesouro até o dia final” (2Tm.1.12).
Em Efésios 2, o conceito correto da salvação é exposto, e no v.4 nota-se que aquele que é salvo é feito assentar nas regiões celestiais com Cristo. Assim, como este poderia ser retirado de onde está, uma vez que tal atividade é realizada a semelhança da experiência de Cristo, testemunhada pouco antes (1.20)? Se o cristão pode ser derrubado de sua posição de assentado nas regiões celestiais, o mesmo espera-se de Cristo, o que é ilógico.
Outro detalhe que é comumente esquecido é que a vida eterna é eterna, no sentido de que não tem mais fim. Assim, como alguém que tem uma vida sem fim pode morrer? Dessa forma, podemos crer, diante da clareza das escrituras, que nossa salvação está garantida perante Deus.
Glorificação
A Glorificação é a confirmação dessa certeza obtida pela doutrina da Perseverança dos Santos. A Glorificação é o estágio final da salvação e é aplicado a todos os salvos incondicionalmente. Essa doutrina impulsiona a Perseverança no texto de Rm.8.28, 30:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
Se analisado com cautela o texto, notar-se-á que todos os verbos relacionados a Salvação são ativos e reportam para uma atividade realizada por completo no passado: Conheceu, Predestinou, Chamou, Justificou, Glorificou. Ou seja, aquele que é salvo, já era conhecido por Deus e predestinado por ele para a salvação, mesmo que ainda seria chamado, justificado e glorificado. O que nota-se com clareza aqui é que Deus, quando resolveu conceder salvação eterna aos homens ele o fez de maneira completa. Logo, aquele que já foi Predestinado para salvação, já está Glorificado, mesmo que isso seja um evento futuro.
Fim da Lei
Com relação à Lei e a sua validade, é necessário ter muita cautela em fazer uma afirmação, pois o tema é delicado e tem implicações muito complexas para a práxis cristã e para uma teologia saudável. Anunciar o Fim da Lei em Cristo, não é uma questão de dizer que ela não tem mais validade, ou que em Cristo não se necessita mais dela. Portanto, é necessário compreender a expressão: “te,loj ga.r no,mou Cristo.j” (télos gar nomou Cristós: Por que o fim da Lei é Cristo, Rm.10.4).
A mesma palavra grega utilizada para “fim” em Rm.10.4, é utilizada em Rm.6.21-22, como se lê: “Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna”. Ou seja, se Cristo é o fim (télos) da Lei, pode-se dizer que Cristo é o alvo final da Lei. Logo, pode-se dizer que a primeira possibilidade a respeito de Cristo ser o fim da Lei é esta: A Lei teve Cristo por alvo, ou testemunhava a seu favor (Calvino). Por outro lado, o vocábulo ainda pode ser utilizado com o sentido de completar, cumprir, como se lê em Lc.22.37, que diz: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido“. A idéia expressa pelo vocábulo neste texto sugere a idéia de completar ou cumprir, o que pode ser aplicado a Cristo, que veio para cumprir a Lei: “não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt.5.17b). Assim, pode-se afirmar que outra possibilidade é esta: Em Cristo a Lei foi completa ou cumprida, ou teve suas exigências satisfeitas (Hodge).
Contudo, a tônica em Romanos não parece estar voltada para nenhuma dessas possibilidades, antes direcionada para a idéia de que em Cristo, a lei teve seu término. Com essa afirmação concordam Ryrie, John Sttot, F.F Bruce e L.S. Chafer. Ryrie, sobre esse assunto, afirma:
A declaração de Paulo em Romanos 10.4, dizendo que Cristo é o fim da lei, pode ser entendida como término ou propósito. Em outras palavras, ou Cristo terminou com a lei ou o propósito da vinda de Cristo era cumprir a lei. No entanto, término claramente parece ser o significado nesse contexto, por causa do contraste (iniciado em 9.30) entre lei e a justiça de Deus[13].
John Sttot afirma:
Telós pode ter dois significados. Um é “fim” no sentido de alvo, ou “completar algo”, significando que a lei apontava para Cristo e que ele a cumpriu. Ou então poderia significar poderia significar um “fim” no sentido de “terminalidade” ou “conclusão”, indicando que Cristo aboliu a lei. Paulo com certeza se refere a este último sentido[14].
F.F. Bruce diz:
Cristo é a terminação da lei no sentido de que, com Ele, a velha ordem, da qual a lei fazia parte, foi eliminada, para ser substituída pela nova ordem do Espírito[15].
Deve-se ter em mente que as idéias que mencionadas anteriormente, não são de todo excluídas, mas antes não se restringe a elas o significado da Obra de Cristo em relação a Lei. Pois, não se pode se negar que a Lei testemunhou a respeito de Cristo (Jo.12.4; Gl.3.24) ou que em Cristo ela é Satisfeita (Rm.3.29-31). Contudo, não se retira de Rm.10.4 essas idéias. Assim, o que se pode dizer sobre a Obra de Cristo em relação a Lei, é uma das conseqüências dela é o Término da Lei (At.15.10, 24; Rm.3.21, 22; Gl.5.1, 4, 13).
[1] PASCAL, Blaise, Pensamentos
[2] RYRIE, Charles, Teologia Básica. pp.331
[3] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. pp.346
[4] Note a progressão de significado no sentido da Substituição. Observe que nos versículos citados a base encontra-se no VT, mas tem seu significado completo no NT, especificamente na Obra de Cristo em nosso favor (J Ou seja, em favor dos eleitos J).
[5] Idem, pp.95
[6] SCOFIELD, C.I. In: CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistmática. Vol.3, pp.99
[7] LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento. pp. 414
[8] FOULKES, Francis, Efésio, Introdução e Comentário. Mundo Cristão:São Paulo, pp.41
[9] ENNS, Paul, Moody Handbook of Theology. Moody:Chicago, 1998.
[10] HENDRISKSEN, William, Comentário do Novo Testamento. Casa Presbiteriana:São Paulo, 1992. pp.101
[11] PACKER, J.I, Concise Theology. Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois. 1997
[12] SUPURGEON, C.H., A Soberania de Deus remove a Vanglória. Fé para Hoje, nº10 ano 2001 pp.6 Ed. Fiel.
[13] RYRIE, Charles, Teologia Básica. pp.350
[14] STTOT, John, Romanos. pp. 341
[15] BRUCE, F.F. Romanos, Introdução e Comentário. pp.164-165
Redenção um Plano Histórico
Se ignorarmos o grande fim a que se dirige o plano da redenção, ou as relações das diferentes partes do plano, ou tivermos uma falsa concepção do fim e daquela relação, todas as nossas idéias serão confusas e errôneas. Seremos incapazes ou de exibi-lo a outros ou de aplicá-lo a nós mesmos[1].
Os cristãos normalmente se referem a um PLANO DA SALVAÇÃO, principalmente quando estão envolvidos na tarefa de anunciar o evangelho. Nestas ocasiões ouve-se com freqüência: “Eu apresentei o plano da salvação para um homem hoje”. Nesta frase reconhecemos a existência de um PLANO para a salvação, mas não compreendemos sua real profundidade. Por isso faz-se necessário conhecer o que as escrituras falam desse plano.
“As Escrituras falam de uma Economia de Redenção[2]“. A palavra Economia, utilizada em referência a Redenção, deriva da palavra grega “oivkonomi,a” que significa administração, mordomia. Ou seja, Deus administra historicamente a Redenção dos homens. Logo, Deus estabeleceu um Plano para a salvação dentro da história do homem e pretende levá-lo a cabo.
Dessa forma, podemos admitir que o Plano da Salvação, estipulado por Deus, compreende: (1) A Seleção de algum objetivo concreto a ser executado; (2) A escolha de meios apropriados; (3) E a aplicação eficaz desses meios para atingir o fim proposto.
Em todas as Obras de Deus nós podemos notar um plano pré-estabelecido, o que não poderia ser diferente na salvação. Ou seja, não se deve presumir que, no que diz respeito ao destino do homem tudo seja deixado ao acaso, permitindo-se que tome seu curso não dirigido para chegar a um fim indeterminado. E sobre isso a Escritura é clara, pois afirma que Deus não somente vê o fim desde o princípio, mas que ele opera todas as coisas segundo o conselho de sua vontade, ou com base nesse propósito (Ef.1.11).
Assim, se o que acima foi dito é verdade é possível encontrar na história marcas desse plano e evidências reais que apontam para a consumação de um plano iniciado e perfeito por Deus. Dessa forma, vamos buscar essas evidências na história.
A. Na queda, o anúncio
Na cena da queda é a primeira vez que se ouve falar na derrota da serpente, responsável de conduzir os homens à queda, e da Promessa de Deus em prover um Redentor para a humanidade. Esta verdade é estampada pelo seguinte versículo:
Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos; rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. (Gn.3.14-15).
Desses versículos pode-se ressaltar: (1) A maldição de Deus inclui a serpente, o instrumento de Satanás (v.14; cf. Rm.16.20 2Co.11.3, 14; Ap.12.9); (2) A maldição de Deus inclui a inimizade entre os homens e Satanás (v.15a); (3) A maldição de Deus inclui inimizade entre a descendência de Satanás e dO Descendente da Mulher (15b); (4) A maldição de Deus inclui a derrota de Satanás por meio dO Descendente da mulher (15c).
O Descendente anunciado neste texto tem algumas características que merecem atenção, pois apontam para um Redentor esperado: (1) Esse Redentor seria descendente da mulher, ou seja, aponta para a encarnação do Verbo (Jo.1.1-15; Hb.2.14); (2) Esse, sofreria, padeceria, diante do inimigo; (3) Mas o venceria.
Embora a compreensão desses fatos pelos primeiros leitores da Sagrada Escritura não fosse completa, é certo que Deus, na administração de Seu Plano Histórico para a Salvação, está revelando paulatinamente seu interesse em Remir o Homem do pecado, por meio de um Plano pré-estabelecido.
B. Com Noé, uma Ilustração
A história de Noé serve como uma ilustração da Salvação proposta por Deus. No período de Noé, a humanidade já havia atingido um nível muito alto de iniqüidade, e Deus não podia aceitar que isso continuasse, e por isso faz a seguinte afirmação:
Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem o animal, os répteis e as aves do céu, por que me arrependo de os haver feito (Gn.6.7)
Em função da maldade do homem, este não merecia viver e estava passível da punição de Deus, ou seja, de ser sentenciado à morte, como bem demonstra o versículo citado. “Porém Noé achou graça diante do Senhor” (v.8). Aquele que lê desatento o texto pode ficar surpreso com essas colocações de Moisés, pois primeiro Deus se arrepende de criar o homem em função de sua maldade, depois é surpreendido pela existência de um homem, dentre toda a humanidade perversa, que é considerado “justo e íntegro entre seus contemporâneos” (v.9). Na verdade, o texto demonstra a progressão de um Plano estabelecido por Deus, pois no v.3 a sentença já estava lançada, mas para que fosse levado a cabo era necessário o dilúvio. A sobrevivência de alguma parte da humanidade já havia sido determinada pela promessa feita na queda, com respeito ao Descendente. Ou seja, nada o pegou de surpresa, nem mesmo a maldade dos homens, nem a integridade de Noé. Assim, a essa altura é necessário perguntar: “Como Noé podia manter-se íntegro em meio a uma sociedade completamente corrupta?” A resposta a essa pergunta é estampada pelo próprio texto: “Noé andava com Deus” (v.9b). Deve-se considerar que Noé era íntegro porque andava com Deus, e não o contrário. Ou seja, Deus revela-se de maneira especial a Noé, o que não acontece com nenhum outro homem de sua época. Outro detalhe que merece atenção, é que Deus já o havia separado para cumprir seu propósito e por isso a apenas ele revela Seu Plano:
Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra. Faze uma arca de tábuas de cipreste… Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos (Gn.6.13-14a, 18).
Deus poderia ter demonstrado Seu Plano para toda a humanidade? Certo que sim. Mas por que não o faz? Por que não constitui Seu Plano fazê-lo. Deus separa dentre toda a humanidade um homem, e por meio deste executa sua vontade soberana. Por isso nota-se que Deus, na Administração do Plano da Salvação, faz o que lhe apraz.
Contudo, merece atenção a postura de Noé, testemunhada por dois versículos interessantes:
Assim fez Noé, consoante a tudo o que Deus lhe ordenara. E tudo fez Noé, segundo o SENHOR lhe ordenara (Gn.6.22, 7.5)
Ambos versículos demonstram a atitude de Noé em relação à obra de Deus. Assim, um princípio para a salvação é aqui estabelecido: A resposta e escolha humana em relação a Obra da Salvação compõem o Plano de Deus, em função de Sua Escolha, Atuação especial, Auto-revelação e Revelação de Seu Plano Soberano aos objetos dessa Obra.
C. Com Abrão, um Fato
Abrão era diretamente descendente de Noé, que tinha sido escolhido por Deus para perpetuar a humanidade, e por meio dele asseverar sua promessa de Redenção proposta na queda do homem. Contudo, dentre muitos descendentes de Noé, Deus resolveu separar para si a Abrão, homem idoso, casado com Sarai, que era estéril, para, por meio desse casal, constituir uma numerosa nação, que seria instrumento em Suas Mãos para abençoar o mundo. Isso pode ser visto:
Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei;de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn.12.1-3).
Neste momento histórico é possível perceber a expansão do conceito exposto na queda, como relação à salvação, pois nesta altura nota-se que Deus está separando para si um povo, dentre os muitos outros povos existentes. Contudo, o início dessa grande nação se dá com um casal já fora de condições de poder perpetuar sua descendência, o que demonstra que não depende do homem, mas de Deus realizar sua Obra. A idéia de internacionalidade das bênçãos de Deus é colocada nessa Aliança feita com Abraão, pois as bênçãos deveriam ser atribuídas a todas as famílias da terra.
Na situação de Abrão, pode-se, da mesma forma que feita com o exemplo de Noé, ressaltar que a resposta e escolha humana em relação a Obra da Salvação compõem o Plano de Deus, em função de Sua Escolha (Gn.12.1-3; 15.7), Atuação especial (Gn.12.1-3, 7; 13.14; 15.7), Auto-revelação (Gn.14.18-20; 15.1, 4-5; 17.1-16, 19-21) e Revelação de Seu Plano Soberano (Gn.12.7; 13.14-17; 15.12-16, 18-21; 22.22.15-18) a Abrão.
D. Na Páscoa, a sombra
É válido expor o significado da palavra “Páscoa”, antes de entramos na questão do valor histórico que ela pode ter no que tange a progressão do significado da Salvação. Segundo o Dicionário VINE, a palavra em questão significa literalmente “passar sobre” ou “poupar”. A palavra grega para Páscoa é “pasca”, uma derivação da palavra hebraica “xs;P,” (pBsah).
O termo é pela primeira vez empregado em Ex.12.11 que diz: “Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do SENHOR”. O mesmo termo é utilizado duas vezes em Ex.12.27, e denota exatamente a idéia de passar sobre, ou poupar: “É o sacrifício da Páscoa ao SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas”.
O contexto em que estão inseridos esses versículos se refere ao Êxodo do povo de Israel que estava cativo no Egito durante 400 anos. E a Páscoa é instituída por Deus como memorial de tudo o aquilo que iria acontecer naquela mesma noite. A celebração desse memorial precedeu a saída do povo do Egito, ou seja, à liberdade da escravidão do povo. Sendo assim, a Páscoa assumiu o sentido de livramento, e “o êxodo foi a concretização disso[3]“.
A Páscoa foi instituída para a nação de Israel como um todo, embora fosse realizada em um ambiente familiar. “As famílias israelitas tinham ordens de sacrificar um cordeiro sem defeito[4]” , que deveria estar “na plenitude de sua vida[5]“, e este sacrifício era em substituição ao filho primogênito da casa. Conseqüentemente, à luz desse sacrifício, “o evento veio a ser integralmente associado à idéia de expiação[6]“, como um memorial da libertação da servidão do Egito.
Outro aspecto que influencia a perspectiva de expiação e libertação como fatos unificadores deste evento é o fato de que o sangue deste cordeiro deveria ser colocado nos umbrais das portas das casas dos israelitas. Além de um sinal de identificação de quem era de fato um israelita é um símbolo que expressa a idéia de libertação por meio do sangue de um cordeiro sem mácula.
O objetivo dessa instituição da parte de Deus é que “seu povo se lembrasse da noite do seu livramento[7]” como uma comemoração que se estenderia aos limites do tempo, como podemos perceber em suas instruções no versículo 14. (cf.26-27). Em suma, a Páscoa pode ser definida como a festividade essencialmente israelita em memória da libertação e expiação proporcionada por Deus em tempo da escravidão no Egito.
Contudo, existe grande valor histórico a ser ressaltado aqui, pois existe um acréscimo no conteúdo do significado da salvação, pois diante de tudo o que havia sido revelado, sobre esse assunto, a idéia de sangue estava presente, a idéia de substituição havia sido apresentada, mas na Páscoa a idéia de expiação é clara, bem como da substituição. Outro detalhe, é que a conseqüência dessa Páscoa é a liberdade, o que sugere que, na progressão do significado da salvação, a expiação por meio do sangue do Cordeiro sem Mácula e a substituição pelo Cordeiro precedem a liberdade, e não o inverso.
Como a Páscoa é um evento e não uma pessoa, a identificação das quatro linhas de atuação na salvação (Escolha, Atuação especial, Auto-revelação e Revelação de Seu Plano Soberano) não é tão clara, embora possa ser percebida, mas no parâmetro geral podemos destacar que Deus faz:
(1) A Seleção de algum objetivo concreto a ser executado, que neste caso pode ser identificado a Liberdade, como objetivo imediato; e a expansão do significado da salvação como objetivo maior.
(2) A escolha de meios apropriados, que neste caso inclui a morte do Cordeiro sem Mácula, sua substituição e expiação.
(3) E a aplicação eficaz desses meios para atingir o fim proposto, que neste caso é o Êxodo e a progressão da História da Salvação.
Assim, diante das estipulações dadas por Deus e pela obediência de seus servos podemos contemplar o resultado imediato dessa demonstração de apreço e cuidado da parte de Deus: Israel, como povo.
E. Israel, o Resultado Imediato
Tão-somente o SENHOR se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê. (Dt.10.15)
Israel, como nação, é separada por Deus desde Abrão, como quem constituiu uma aliança. A este, Deus revelou que este povo a quem escolhera passaria por escravidão mas seria liberto por Ele (Gn.15.12-16). Durante o decorrer da história pode-se notar com clareza que Deus Revela-se aos homens a quem escolhera, para por meio dele realizar seu Plano. Isso pode ser visto com Isaque (Gn.24.27; 25.21), Jacó (Gn.25.23; 27.28-29; 28.2-4, 13-15) , José (Gn.37.5-10, 21-28; 39.1-6, 20-23; 41.39-44; 45.1-8, 17-20; 50.20), Moisés (Ex.2.1-4.31), e de alguma forma com a Nação de Israel, mas por meio de seus líderes (Dt.10.15; cf. Ex.19.4-6).
O que se pode notar na História é que Deus resolve atuar por meio de uma Nação, entre outras nações, a fim de tornar Seu Nome conhecido diante do mundo. E sobre isso podemos levantar dois exemplos:
a. Raabe: Raabe era uma prostituta em Jericó, nação Inimiga a qual o Senhor entregara nas mãos de Josué. Este, enviara a esta Cidade dois espias para que andassem na cidade e observassem a cidade, e Raabe pela fé (Hb.11.31) acolheu-os em sua casa escondendo-os dos Oficiais da cidade, pois sabia ela que o Senhor, que é poderoso, lhes tinha entregado aquela terra, como se percebe em Js.2.9-11:
Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra
b. Rute: Rute é uma moabita e toma uma decisão de fé, em considerar o povo de Noemi como seu povo e o mesmo com o Deus de Noemi. Com está escrito: “Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Por que aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei; o teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus” (Rt 1.16). A declaração de Rute não é apenas de fidelidade da Noemi, mas é um reconhecimento do verdadeiro Deus.
Em ambos casos, houve um reconhecimento do verdadeiro Deus. Raabe afirma que Deus é Deus em cima dos céus em embaixo da terra. Rute afirma que o Deus de Noemi é o seu Deus, pois reconhece que Ele é o verdadeiro Deus. E assim podemos notar que Deus na administração do Seu Plano em relação a Salvação conduz os homens para uma Nação, que havia sido separada por Ele ser um canal de bênçãos.
Assim, a Nação de Israel é considerada no Velho Testamento como o centro das atividades salvíficas de Deus, não que isso não inclua outros povos (Nínive, com Jonas por exemplo), mas que por meio de Israel a multiforme sabedoria de Deus era apresentada ao mundo.
[1] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, pp.718
[2] Idem, pp. 717
[3] CHAMPLIN, Russel Norman, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.
[4] XXXX, Xxxx, Dicionário Bíblico Vida Nova.
[5] HOFF, Paulo, O Pentateuco.
[6] CAHMPLIN, Russel Norman, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.
[7] HOFF, Paulo, O Pentateuco.
Questões Anteriores
“Duas coisas são indisputáveis: Deus é soberano, o homem é responsável. Ressaltar a soberania de Deus, sem acentuar, ao mesmo tempo, que a criatura é responsável, tende ao fatalismo; preocupar-se tanto em manter a responsabilidade do homem, ao ponto de perder a soberania de Deus, é exaltar a criatura e rebaixar o Criador”[1].
A.W. Pink
A colocação de Pink é fundamental para o início de nosso estudo sobre a salvação, pois não temos a intenção de superestimar apenas aspectos verdadeiros do todo da verdade. Contudo, o real entendimento da Soberania de Deus, e da responsabilidade do homem é fundamental para a compreensão da salvação.
Por isso, antes de qualquer progresso com o estudo mais detalhado da salvação, vamos buscar compreender os dois grandes pilares dela, a saber: Deus e o homem. Por uma questão de ordem lógica, vamos observar primeiro a Deus, e então o homem.
A. Quem é Deus?
Definir a Deus, é sempre um problema de grandes proporções, pois é impossível defini-lo exaustivamente. Uma mente finita não pode conceber completamente um Deus Eterno, sem princípio, sem fim. Entretanto, é possível defini-lo corretamente, em linhas gerais, sem que sua dignidade seja ofendida. Assim: “Deus é, no mínimo, a soma integral de todos os Seus Atributos“. Essa definição, apesar de simples, reconhece os atributos de Deus de forma que não existe um atributo maior que outro e que, estes, sendo revelados, tornam possível o conhecimento de Deus. Ou seja, para uma compreensão correta de Deus, é necessário conhecer Seus Atributos.
Contudo, nessa altura do estudo teológico, não faremos um estudo exaustivo dos atributos de Deus, visto que isso já foi realizado anteriormente. Por isso, vamos ressaltar os atributos de Deus que têm sido mais desprezados pelos cristãos de todo o mundo: a SOBERANIA e a JUSTIÇA.
Deus é Soberano
Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina (Pr.21.1)
Todos os cristãos conseguem afirmar que Deus é Soberano, mas muitos não podem admitir que Ele o seja de fato. Na Igreja, as pregações enfatizam apenas o que o público quer ouvir, e não o que eles necessitam ouvir. Não se ouve pregações sobre pecado do homem e suas conseqüências, nem mesmo a Soberania de Deus e sua abrangência. Ou seja, a igreja abandonou o conceito saudável e salutar da SOBERANIA de Deus, e sobre isso McArthur chega a dizer:
“Não existe doutrina mais desprezada pela mente natural do que a verdade de que Deus é absolutamente soberano. O orgulho humano odeia a idéia de que Deus a tudo ordena, a tudo controla e reina sobre tudo[2]“.
Contudo, por uma questão de coerência com a Bíblia é necessário afirmar que Deus é absolutamente Soberano na totalidade do Seu Ser. Ou seja, Deus é Soberano no exercício de Seu Poder, na concessão de sua misericórdia, no exercício de Sua Justiça, na demonstração de Sua Santidade. Mas sem esse reconhecimento, sempre nos perguntaremos: “Por que Deus faz isso?” E para essa resposta nunca haverá outra opção, senão: “Por que Deus é Soberano, Ele faz o que quer, quando Ele quer, por que Ele quer“.
“Por que Deus é soberano, Ele faz o que bem lhe apraz”
Ou seja, não existem limites para a execução da vontade de Deus, por que afirmar que Deus é Soberano é asseverar que Ele é Onipotente. Afirmar que Deus é Soberano é afiançar a Supremacia de Deus, que Ele é o Altíssimo, e em última análise, que Deus é Deus. Portanto, Deus não é sujeito a ninguém, não influenciado por nada, absolutamente independente e infinitamente mais elevado do que a mais eleva das criaturas. Ele é Deus.
Deus é Justo
Por isso, o SENHOR cuidou em trazer sobre nós o mal e o fez vir sobre nós; pois justo é o SENHOR, nosso Deus, em todas as suas obras que faz, pois não obedecemos à sua voz. (Dn.9.14)
A Justiça, nos nossos dias, tem tomado sentido errado em função da estulta tentativa de aproximar a Justiça de Deus com o parâmetro errôneo da justiça humana. Ou seja, Deus não pode demonstrar sua Ira para com os homens, por que Ele é como o bondoso velhinho do natal capitalista, sempre perdoa e concede presentes a quem quer que seja. Rebaixar Deus a esse padrão é mais degradante que desconsiderar sua existência.
Por isso, uma consideração correta de Deus exige a compreensão adequada de sua Justiça, que pode ser demonstrada com duas ênfases:
É relacionado com o Governo Legal de Deus, e refere-se ao caráter essencial do Seu governo. Ou seja, Deus Rege o Universo de maneira Justa.
Por conseqüência disto, a Justiça de Deus está diretamente vinculado e dependente do caráter Santo de Deus. Ou seja, a Lei de Deus reflete Sua Santidade, e quando a Lei é infringida, a santidade de Deus o obriga a manifestar-se de forma justa, em Ira.
Por que Deus é Santo ele não pode deixar de punir o pecado. Esta punição é vista na Bíblia como Deus derramando a sua IRA contra os pecadores. Deus deixa isto estampado claramente na Bíblia, por mais que pessoas tentem esconder essa verdade diante dos seus olhos. “É como tampar o Sol com a Peneira” (Dt.32.39-43; Ex.22.23, 24; Nm.11.1, 10, 32, 33; 1Sm.15.3 cf. Dt.7.2-8; Rm.1.18). Deus odeia o pecado por que é Santo; e por que odeia, seu furor se acende:
Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias. Se o homem não se converter, afiará Deus a sua espada; já armou o arco, tem-no pronto; para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas inflamadas. (Sl.7.11-13).
Muitos cristãos não gostam de ouvir essas palavras. Muitos consideram que se Deus executar sua Justiça, como a Bíblia afirma, Deus seria injusto e que tal atitude não está em conformidade com o amor de Deus. Contudo, sobre isso Paulo fala: “Porventura, será Deus injusto por aplicar a sua ira? Certo que não. Do contrário, como julgará Deus o mundo?” (Rm.3.5-6). Ou seja, se Deus não demonstrar sua Ira, Ele será injusto consigo mesmo, por negará sua própria santidade, o que é impossível, por que Deus não pode fazer nada que negue o seu próprio caráter (2Tm.2.13).
“Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb.10.31).
A conclusão a que se chega após essa síntese sobre esses atributos esquecidos de Deus é que, se Ele resolver condenar todos os homens ao Inferno, Ele estaria exercendo soberanamente sua justiça, de modo que ninguém poderia queixar-se disso, ou teria mérito ou prestígio para tal.
B. Quem é o homem?
Responder a essa pergunta é, de fato, muito mais simples, pois trata de nós mesmo. É válido lembrar que o homem foi criado por Deus de maneira especial, como já foi estudado. Entretanto, este estado original já foi corrompido. Por isso, três conclusões podem ser lançadas:
O homem é totalmente depravado
“O homem, devido à sua queda num estado de pecado, perdeu completamente toda capacidade para querer algum bem espiritual que acompanhe a salvação. É assim que, como homem natural que está inteiramente oposto ao bem e morto no pecado, não pode, por sua própria força converter-se ou preparar-se para isso”.
Sobre isso, a confissão de Westminster é clara, não existe mérito ou dignidade no homem que o faça merecer a salvação. O homem por si só está perdido, morto em seus delitos e pecados. E nada pode fazer, por suas próprias forças, para sair dessa situação. (Ef.4.17-19).
O homem é totalmente incapaz de agradar a Deus
Além de totalmente corrompido, o homem natural, não regenerado, é incapaz de agradar a Deus. Nada que, porventura, ele venha a fazer seja suficiente para conseguir a aprovação de Deus. A inconformidade do homem com as exigências morais da Lei de Deus faz com que ele seja impossibilitado de agradar a Deus (Rm.8.8; Hb.11.6).
O homem não é livre, é escravo do pecado
Se absolutamente todos os homens estão corrompidos, e essa corrupção atinge cada aspecto do seu ser, é impossível que o homem seja livre. Enquanto o homem está debaixo do pecado, sujeito a ele, escravizado por ele, não pode ser livre. Apenas quando este conhece a verdade, ele é retirado, pela verdade, da escravidão para a liberdade (Jo.8.32; cf. 14.6; 17.17). Paulo diz que na salvação o homem muda de senhorio: do pecado à para Deus (Rm.6.18, 22). Contudo, a submissão a Deus não aprisiona ninguém, muito pelo contrário, abre portas para a liberdade (Gl.5.1, 13).
O homem é totalmente responsável por sua condição
A Bíblia nunca coloca sobre Deus a responsabilidade da prática ou da culpa do pecado, mas antes, sobre aqueles que praticam o mal é que sobrevém a culpa, a punição e o peso dessa infração da lei moral de Deus. Isso se chama responsabilidade. Assim, o homem natural, não regenerado, além de desprovido da Graça, de ser incapaz de agradar a Deus, escravo do pecado, é responsável por cada uma de suas ofensas a Deus. Nunca uma ação individual pecaminosa pode ter sua culpa ou responsabilidade lançada sobre outro dentro da perspectiva bíblica. Isso pode ser claramente observado no Texto de Rm.1.18-32, onde todos os verbos relacionados às práticas dos homens são ativos.
[1] PINK, A.W. Deus é Soberano. pp.05
[2] MCARTHUR, Jonh F. Com Vergonha do Evangelho. pp.178
Introdução à Soteriologia
Soteriologia é por definição é a parte da teologia que trata especificamente da salvação, conforme efetuada por Jesus Cristo. A palavra Soteriologia vem da palavra “sotérion” (soth,rion) que significa salvação; é relacionada, também com “sotér” (swte,r), salvador; e com “sozo” (sw,zw), salvar.
A doutrina da Salvação tem grande lugar na teologia e na prática ministerial, contudo não tem devida evidência na atualidade. O descrédito atual pelo conceito correto da salvação tem causado grandes problemas para a Igreja em geral. Em nossos dias a Igreja está centralizando suas atividades evangelísticas em entretenimento, sociabilidade, projetos sociais, contextualização, enquanto se esquece do primordial: “A salvação é pela Graça“. Não é suficiente conquistar multidões para dentro das paredes da Igreja, é necessário que o indivíduo reconheça que é pecador, separado de Deus e que por suas próprias forças não pode resolver seu problema, para que então possa entender a realidade da salvação.
Portanto concluímos que, para se compreender conceito correto da salvação, é necessário reconhecer sua miséria e necessidade de salvação e que apenas Deus, em sua Soberana Misericórdia, pode provê-la. Segue-se que, o conceito correto da salvação é fundamento em dois grandes ponto: Quem Deus é, e quem o Homem é. Uma compreensão incorreta de um dos pontos leva diretamente a conceituação é errada da salvação, e toda a prática ministerial é abalada. Assim, devemos ter muita cautela no estudo teológico da Salvação, pois disto depende nossa práxis ministerial.
“A religião cristã ensina, pois, conjuntamente aos homens essas duas verdades: que há um Deus, de que os homens são capazes, e que há uma corrupção na natureza, que os torna indignos desse Deus. Aos homens importa igualmente conhecer um e outro desses pontos; [pois] é tão perigoso para o homem conhecer a Deus sem conhecer sua própria miséria, como conhecer sua miséria sem conhecer o Redentor que dela pode curar. Um só desses conhecimentos faz, ou a soberba dos filósofos, que conheceram a Deus e não a sua própria miséria, ou o desespero dos ateus, que conheceram sua miséria sem Redentor”.
Blaise Pascal
“Qual é a heresia de Roma, senão acrescentar algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, ou seja, trazer obras da carne, para ajudarem na justificação? E qual é a heresia do arminianismo, senão acrescentar alguma coisa à obra do Redentor? Toda heresia, analisada com profundidade, se descobrirá aqui [na doutrina da salvação]“.
Charles H Spurgeon
Nessa seção de Estudos vamos tratar de:
-
-
Na Queda um anúncio
-
Com Noé uma ilustração
-
Com Abraão um fato
-
Na Páscoa a sombra
-
Em Israel o resultado Imediato
-
-
-
Eleição Universal
-
Eleição Prevista
-
Eleição Incondicional
-
02.10.09
Era Judas Iscariotes Salvo?
Judas Iscariotes
(Ish Karioth – Homem de Queriote)
Informações sobre sua vida
- Judas deixou tudo para se tornar discípulo de Cristo (Mt.19.27; Mt.10.1-4; Mc.3.13-19; Lc.6.12-16)
- Isso implica que ele teve acesso aos mesmos privilégios e aprendizados que todos os outros discípulos:
- Judas recebeu autoridade da parte de Cristo sobre espíritos imundos, para expulsá-los e para curar toda sorte de doença (Mt.10.1; Mc.3.15);
- Judas foi chamado para ser enviado a pregar[1] (Mc.3.14)
- Isso significa que ele foi separado dentre uma multidão que seguia a Cristo para ser considerado seu discípulo/apóstolo:
- O ato de selecionar Judas da parte de Cristo foi antecedido por uma noite de oração (Lc.6.12)
- A seleção aconteceu entre vários dos discípulos de Cristo. Judas foi pessoalmente selecionado por Cristo dentre várias possibilidades (Lc.6.13)
- Judas foi denominado por Cristo como apóstolo[2]. O termo apóstolo po de significar “enviado” e “contém em si um elemento de autoridade concedida e reconhecida por aquele que envia[3]“
- Isso não significa que essa seleção não tenha em si o pré-conhecimento de Cristo e sua predeterminação para a função a que ele desempenharia
- Jesus escolheu 12 entre os discípulos, mas reconheceu que um era o diabo (Jo.6.70-71). Essa afirmação não é necessariamente definitiva para a não salvação de Judas, pois Jesus teria feito algo muito semelhante a Pedro (Mt.16.22-23; Mc.8.32-33)
- Judas traiu sob influencia e domínio do Diabo (Lc.22.3-6; Jo.13.2)
- Isso implica que ele teve acesso aos mesmos privilégios e aprendizados que todos os outros discípulos:
- Judas andou por três anos lado a lado com Jesus, e teve a oportunidade de ouvir ensinamentos que outros seguidores Dele não puderam ouvir (Mc.4.34; Mt.13.36ss; ).
- Judas foi testemunha ocular dos sinais e milagres realizado por Cristo (Mt.8.23-27; Mt.9.18-26; Mt.15.32ss; etc.).
- Judas foi selecionado como administrador dos recursos que sustentavam a Jesus e seus discípulos durante o ministério de Jesus. (Jo.12.1-6). Também foi considerado como ladrão.
- Judas foi contado entre os apóstolos e parte do ministério deles realizado com Cristo (At.1.16)
- Judas foi o responsável pela entrega de Cristo à morte
- A entrega de Cristo envolveu suborno[4] (Mt.26.14-16; Mc.14.10-11; Lc.22.4-6)
- Judas estava debaixo da influência do Diabo na execução dessa traição (Lc.22.3-6; Jo.13.2)
- Debaixo do conhecimento do que haveria de sofrer, Jesus recomenda que Judas faça o que tem que fazer depressa (Jo.13.27). Isso assegura que a ação de Judas estava debaixo do conhecimento de Cristo e predeterminação de Deus (At.2.22-23)
Judas e o dilema do Mal
- Judas foi escolhido para ser o traidor?
- Se foi escolhido com esse propósito, ele não realizou a vontade de Deus? Isso não o torna melhor que os outros discípulos, que além de não se envolverem no processo (à exceção de Pedro) o abandonaram?
- Mas, Judas estava sob domínio e posse do Diabo. Isso significa que isso aconteceu debaixo da permissão e decreto de Deus. Como Deus pode usar o mal sem tornar-se culpado por ele?
- Qual é a diferença entre o que fez Judas e Pedro?
- Judas pode ter estar na Eternidade com Deus no futuro? Por quê?
Tabela de possibilidade de Salvação de Judas
|
Argumentos a Favor |
Réplica |
1. Judas foi selecionado por Cristo para ser discípulo e apóstolo.
|
A seleção de Judas não implica em que tenha sido chamado à salvação. O chamado de Judas pode evidenciar a pretrição salvífica.§ Ele poderia ter sido enquadrado como aquele que foi “parakaleomai” (chamado), mas não “eklegomai” (escolhido) (Mt.22.14). § É também possível que Judas tenha sido escolhido por Cristo para ser o traidor (Jo.6.70-71; 13.18). |
2. Judas exerceu funções ministeriais como os outros discípulos e apóstolos, debaixo da autoridade e autorização de Cristo:
|
Jesus teria ensinado que nem todos que exerceram funções ministeriais são de fato salvos.Funções ministeriais nunca definiram a salvação:
|
3. As definições ministeriais de Judas, também são definições do trabalho desempenhado por Cristo:
|
|
|
|
5. A Judas Iscariotes foi prometido que estaria, no Reino, e que se assentaria em um dos doze tronos que julgaria a nação de Israel, no futuro.
|
Vamos fazer a réplica desse argumento em duas etapas:.
|
| 6. Jesus concedeu acesso ao perdão divino a todos os que estavam envolvidos na cena da crucifixão, por que Judas estaria de fora? (Lc.23.34) | O fato de o perdão estar acessível, não significa que ele tenha sido aproveitado. Acaso, os romanos envolvidos na crucifixão de Cristo estavam automaticamente salvos por terem ouvido essas palavras? Acaso a fé não lhes foi necessária? |
7. O suicídio de Judas não autentica sua não salvação. Aliás, parece que Pedro também não o destinou ao inferno (At.1.25):
|
O suicídio pode não indicar que Judas era um não salvo, mas também não evidencia sua salvação.A questão de ter-se transviado, não significa que ele fora salvo e caiu em pecado, mas que abandonou o posto de discípulo e apóstolo. De fato, pode significar que ele esteve sincero na presença de Cristo seu seguidor. Mas, desde quando sinceridade no seguir a Cristo é requisito para salvação? |
|
|
|
|
Argumentos Contra |
Réplica |
1. Durante o ministério de Cristo, Ele anunciou abertamente que entre seus seguidores havia pessoas que, embora estivessem com Ele, não eram de fato dele:
|
. |
2. Judas também é citado por Jesus nos seus últimos momentos e fica evidente nesse momento que Judas nunca fez parte da salvação, muito embora isso não fosse perceptível, mesmo entre os que estavam com Jesus.
|
. |
3. Jesus havia ensinado que aqueles quem o Pai teria dado a Ele, de modo nenhum ele jogaria fora (Jo.6.37):
|
. |
4. Jesus teria dito que a pessoas que resistiam ao seu ensino que eles pertenciam ao Diabo (Jo.8.44):
|
. |
[1] O termo grego empregado no texto de Marcos é muito significativo, pois não tratava-se de uma pregação qualquer, mas do “kerigma” (o que é pregado, a mensagem) do evangelho. A pregação apostólica ficou conhecida como o KERIGMA da Igreja Primitiva. Já o ato de proclamar é identificado pelo verbo cognato “kerusso“, usado nesse texto de modo a dar a entender que Judas também estava escalado como um proclamador autorizado do reino e do evangelho de Cristo.
[2] A palavra “apóstolos” é utilizada nos evangelhos designar aqueles que estavam com Jesus, que foram eleitos por Ele para o acompanharem e que foram enviados por Ele (cf. Mt.10.2-5; Lc.6.13; Lc.11.49). Já em Atos pode-se notar que a referida palavra tem seu significado estendido, sendo atribuída àqueles que têm autoridade para ministrar, são ligados diretamente a Jesus (At.1.26; 2.37, 43; 4.33, 35-37; 5.12, 29), tem autoridade doutrinária (At.2.42), tem autoridade conciliar (At.15.2, 4, 6, 22-23) e são escolhidos pelo próprio Senhor Jesus (At.1.2). Essas são as características atribuídas a Judas, quando selecionado por Cristo para ser APÓSTOLO.
[3] PINTO, Carlos Osvaldo, Análise Exegética de Tito 1.1-2. Material não Publicado.
[4] Como Judas era familiar com o roubo, podemos dizer que tinha problemas com a sedução do dinheiro.