10.05.09

Conclusão

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , às 12:54 pm por Marcelo Berti

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Se as análises realizadas nesse estudo são verdadeiras, a Cristologia Testemunha de Jeová não poderia sustentar-se. É interessante notar que em todas as facetas dessa disputa textual, os teólogos reconhecem que o texto com “μονογενὴς θεός” poderia reforçar a divindade de Cristo. Aliás, para Ehrman isso é tão evidente que ele tem que supor que isso é uma corrupção da ortodoxia posterior ao texto.

Contudo, é de se admirar que a Tradução do Novo Mundo use exatamente essa leitura em suas traduções. Eu tenho a impressão que com o passar do tempo, eles deixarão essa leitura variante e passarão a adotar a outra, em funções teológicas. Os unicistas supostamentes bíblicos já fizeram isso (cf. John 1.18). Contudo, compreendendo o dilema teológico por traz dessa expressão, os tradutores mau intencionados usaram letras minúsculas para descrever o Logos: “o deus unigênito”. Para manter a malfadada teologia TJ, não alteraram o texto aqui, apenas o verteram com sua teologia exposta. Longe de ser um fraude piedosa, essa alteração é uma perversão descarada da verdade do texto que eles se propuseram a traduzir.

Evidências Internas

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:51 pm por Marcelo Berti

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Da mesma forma que a análise das evidências externas, na análise das evidências internas vamos observar que a interpretação textual move-se para ambas as leituras. Aliás, a leitura que pareceu favorável nas evidências externas, é atacada com mais intensidade aqui. E à semelhança da análise já realizada, aqui trataremos dos dilemas à medida que conhecemos os argumentos de cada lado da disputa.

CONSISTÊNCIA DA LEITURA

O principal argumento contra a leitura “μονογενὴς θεός” é que ela parece inconsistente com a literatura joanina. Do ponto de vista da estatística, na literatura joanina μονογενὴς refere-se exclusivamente ao Filho (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.19). No Novo Testamento, à exceção de uma passagem (Hb.11.17), todos os usos de μονογενὴς  fazem referência a um filho que é único (Lc.7.12; 8.42; 9.38).

O segundo argumento é que a frase “μονογενὴς θεός“ não é encontrada em nenhum outro lugar no Novo Testamento e é estranha a ele. O fato de que há relativo silencio neotestamentário para essa terminologia, faz com que os defensores da leitura com Filho defendam sua inconsistência. Outro detalhe que acresce-se a esse é que é muito incomum uma declaração à divindade de Cristo tão clara no NT.  Ou seja, existe um “quase” silêncio teológico clarividente no NT que pudesse suportar essa visão.

O terceiro argumento atesta que, do ponto de vista do estilo, a leitura com Filho parece mais natural ao texto, uma vez que o termo Deus é usado no início e o termo Pai no final. Em outras palavras, supõe-se que a repetição do termo “Deus” seria um inconveniente sintático para o texto e por isso uma construção relativamente difícil para João.

Entretanto, no que se refere à consistência da leitura, os dois primeiros argumentos desfavoráveis à “μονογενὴς θεός” não parecem consistentes. Muito embora exista razão e lógica nos argumentos, ele não é consistente. Vamos tomar o primeiro argumento como exemplo. Se a consistência com o autor é fator decisivo, alguém poderia alegar que Jo.5.4 poderia ser consistente com a terminologia joanina, pois não apenas a construção é similar como usa termos recorrentes. Entretanto, as evidências externas nesse caso são completamente desfavoráveis ao verso. Ou seja, a validade do argumento é dependente da soma das análises. Contudo, o mais importante a ser dito sobre essa argumentação é que ela exclui a possibilidade de uma expressão ocorrer uma única só vez no NT.

Sobre o segundo argumento é importante que se diga que João tem diversas expressões fundamentais para a Teologia Cristã que não são encontradas em nenhum outro lugar no NT. Por exemplo, João é o único que descreve Jesus Cristo como Logos eterno, pré-existente e divino (Jo.1.1), como único em espécie (Jo.1.14 – monogenes absoluto), como Logos encarnado (Jo.1.14). Em termos de proporção, parece que João está inovando sob muitos aspectos em sua apresentação da divindade. Se considerarmos válido o segundo argumento, teríamos que suspeitar de todo o prólogo, o que muitos teólogos já tem feito mesmo sem qualquer evidência textual para suportar suas convicções. Muito embora o argumento pareça sólido, mais uma vez ele é erigido sob uma frágil argumentação.

O mais audaz dos argumentos é o terceiro. Segundo os defensores da Velha Ortodoxia (Pickering, José Pedro M. de Almeida), do ponto de vista do estilo, a leitura mais natural seria o Filho: “A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação[24]”. Entretanto, deve-se notar que o termo Filho não é usado nenhuma vez no prólogo, ao passo que tanto μονογενὴς como θεός já teriam sido apresentados. Porém, é bem verdade que o uso de “Pai” na seqüência parece supor o uso de “Filho” antes, exceto que, se João tivesse usado uma segunda vez o termo θεός, usá-lo uma terceira vez seria uma grande redundância. Portanto, no que se refere à consistência da variante, os argumentos normalmente apresentados não são consistente. Ao contrário, favorecem à leitura de θεός.

Uma das convicções que sem tem obtido no estudo da crítica textual é que os copistas tinham certa tendência para facilitar um texto ao invés de complicá-lo. Também era comum que eles tentassem harmonizar passagens para que fossem sinérgicas. No caso de Jo.1.18, se considerarmos a leitura com θεός  a leitura original, não era difícil que alguém ousasse facilitar a leitura por substituí-lo por υἱός. Se o motivo não fosse o facilitar a leitura do texto, certamente poderia ter sido uma questão de harmonização com a terminologia do autor. Essa observação é importante, pois nos auxilia a compreender qual das leituras parece ser responsável pela outras. Sobre isso, Metzger tem uma opinião interessante:

“A leitura μονογενὴς υἱός, que é indubitavelmente mais fácil que μονογενὴς θεός, é resultado de uma assimilação escribal a Jo.3.16,8; 1Jo.4.9. O uso anartro de θεός (cf. 1.1) parece ser o mais primitivo. Não há razão para que o artigo fosse deletado, e quando υἱός suplantou θεός,ele certamente foi adicionado. A menor leitura, ὁ μονογενής, enquanto é atrativa por causa de considerações internas, é muito pobremente atestada para ser aceito como texto[25]

Diante das considerações de Metzger, observa-se que a leitura favorecida é consistente com as possibilidades de transcrição histórica do texto. Diante disso, podemos assumir que μονογενὴς θεός é a leitura mais provável do ponto de vista da transcrição histórica. Contudo, isso não a torna imediatamente mais consiste com o contexto.

Sobre a consistência com o contexto, é importante lembrar-se da opinião de A.T. Robertson:

“O escrito já havia dito em 1.1 que o Verbo era Deus e no 1.14 que o Verbo se fez carne. Agora ele combina as duas idéias no texto correto de 1.18: ‘Deus-unigênito’. Somente o Deus-homem poderia revelar a Deus completamente ao homem. Ele é Deus e Homem, e pode e atua como intérprete de Deus para o homem[26]

É interessante que no clímax do prólogo, João combine duas idéias chocantes já apresentadas para concluir o que tem a dizer. Se isso é tomado como verdadeiro, nota-se grande coesão estrutural no pensamento joanino[27]. Aliás, Martin Vincent parece defender exatamente isso:

“A última leitura [μονογενὴς θεός ] meramente combina em uma frase dois atributos do verbo já indicados – Deus (v.1) e unigênito (v.14)’; o sentido é o ser único que é tanto Deus como Unigênito[28]

Vale a pena ressaltar que, tanto no verso 1 (θεός), como no verso 14 (μονογενὴς), encontramos as declarações desacompanhadas de artigo, o que parece favorecer a leitura μονογενὴς θεός. Ou seja, do ponto de vista da consistência da análise interna, a leitura majoritariamente alexandrina é claramente favorecida.

PROBLEMAS TEOLÓGICOS

No que se refere a problemas teológicos, os adeptos da leitura com “θεός” parecem não identificar qualquer problema com qualquer uma das variantes. Harris, que tem preferência por “θεός” em função de sua antiguidade e dificuldade, diz que “de modo geral, eu não acredito que nenhuma das leituras altera de modo sério o sentido do texto[29]”.

Entretanto, os defensores da leitura “υἱός”, insistem que a leitura variante não é possível, pois introduz problemas teológicos sérios. Estranhamente, Ehrman é um desses que entende que existe um problema teológico na leitura com “θεός”. Muito embora isso não fizesse qualquer diferença para o autor (exceto para sua defesa de corrupção ortodoxa), Ehrman alega que Jesus só poderia ser o único Deus, se não houvesse outro Deus, o que o contexto imediato já rejeita: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Essa argumentação é bem similar à aquela que os defensores da Velha Ortodoxia apresentam.

Entretanto, para Pickering, acredita que o texto traz ainda um problema mais grave: “se Cristo recebeu sua divindade no processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade”. Ou seja, Pickering, embora concorde com a leitura sugeria por Ehrman, não pode concordar com a tese de Ehrman. Em parte, Pickering está dizendo que existe um conceito de geração na expressão e se a divindade de Cristo está em sua geração, então um sério problema teológico é auferido. Por outro lado, ele concorda com a possibilidade de que “υἱός”, como texto original, é uma defesa teológica ao adocionismo (!).

Normalmente, a Velha Ortodoxia sugere que a leitura “θεός” é uma forma de influência gnóstica no texto, como se existissem diversas divindades: Deus, o Deus unigênito, o Pai, o Logos. José Pedro de Almeida, um desses defensores zelosos da Velha Ortodoxia, diz:

Por não crerem na pre-existência do Filho [os gnósticos], eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)[30]

A acusação é séria: hereges alteraram o texto para acomodar suas convicções teológicas, como se fossem aceitas pelas escrituras. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.

Tendo considerado isso, temos que admitir que, à exceção de Ehrman, os cristãos zelosos da Velha Ortodoxia demonstram sua preocupação com a contaminação das escrituras. Entretanto, os seus argumentos não passam de uma opção zelosa. Em resposta a Almeida gostaria de apresentar três pontos de atenção:

  1. Se um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbal nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Tê-lo feito em Jo.1.18 não teria ajudado muito.
  2. Se um gnóstico escriba quisesse negar a encarnação do Verbo, teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Se o suposto escriba houvesse feito isso apenas em 1.18, teria feito um péssimo trabalho.
  3. Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Se a questão gnóstica realmente fosse rejeitar a divindade de Cristo, era mais fácil acrescer ou retirar informações do verso 1. Mas, isso também não aconteceu.

Já Pickering, parece não ter atentado muito bem para o termo “μονογενὴς”. Para ele, esse termo deve ser diferente de “μονος” (único) e no NT não existem evidências para que se entenda “μονογενὴς” com essa idéia. Contudo, o uso do termo em Hb.11.17 deveria tê-lo feito pensar nessa concusão: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas”. O texto diz que Isaque era o unigênito de Abraão, entretanto, ele não era o único filho gerado de Abraão: Ele era o Filho mais Amado de Abraão. Em Gênesis temos exatamente essa visão: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (22.2). O termo hebraico para descrever Isaque como único filho é o termo “Yachiyd” que é traduzido na Septuaginta por “agapetós” (o amado de modo especial). Não é à toa que Rudolf Bultmann defende que “a designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[31]”. Ou seja, “μονογενὴς[32]” não é usado apenas com o sentido de geração como parece sugerir Pickering[33], mas com sentido de único, especial, amado. Portanto, a dificuldade apresentada por ele não parece válida.

Contudo, Ehrman entende o termo dentro de um escopo mais abrangente e o define como “único”, assim como tenho defendido. Sobre isso, ele diz: “Por definição pode apenas existir um μονογενὴς: a palavra significa ‘único’, ‘único em sua espécie’. O problema, é claro, é que Jesus poderia ser o único Deus apenas se não houvesse outro Deus; mas no quarto evangelho, o Pai é Deus da mesma forma[34]”. Entretanto, Ehrman parece não usar o conceito de sua própria definição adequadamente. Se o termo significa “único em sua espécie”, não há qualquer dificuldade de compreensão: O Logos, como único em sua espécie, amado de modo especial é o único que poderia tornar Deus conhecido em sua essência, como Jo.1.18 parece estar a ensinar. Portanto, a ênfase recai sobre sua SINGULARIDADE (ninguém é como Ele) e não sobre sua EXCLUSIVIDADE (não há mais ninguém).

PARECER PESSOAL

A mim me parece que as argumentações em descrédito da variante preferida na análise de evidências externas não são consistentes, e minha preferências pela leitura “μονογενὴς θεός” parece bem evidente a essa altura. No que se refere consistência, tenho a impressão que essa leitura é mais consistente. No que se refere às possibilidades de transcrição, entendo que essa justifica mais adequadamente o surgimento das outras, sem contar que teologicamente, “μονογενὴς θεός” é certamente a leitura mais difícil. Assim, tenho acredito que essa leitura é, muito provavelmente, a leitura original desse verso.

Evidências Externas

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:50 pm por Marcelo Berti

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A análise da evidência externa nesse tem diversos dilemas, e à medida que observamos as evidências e as informações disponíveis ao autor, vamos tentar tratar desses dilemas com cautela.

DATA

No que se refere a data das leituras variantes, as diferentes escolas tem apresentado sua opinião. Alguns ortodoxos ecleticistas têm suas preferências para a leitura com θεὸς em função da descoberta de dois papiros do segundo século que trazem essa leitura. Bruce Metzger defende essa opinião: “Com a aquisição de P66 [≈200 d.C] e P75 [início do terceiro século], ambos leem θεός , o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecida[16]”. Kostenberger and Swain demonstram mesma opinião: “Com a aquisição de P66 e P75, em que ambas lêem μονογενς θες, a preponderancia da evidência agora nos leva em direção da última leitura [μονογενς θες] [17]”.

Entretanto, Pickering defende P75 tem uma leitura conflada[18]. A leitura que P75 traz é “ μονογενς θες” e Pickering entende que ela é resultado da leitura das outras duas leituras possíveis para o texto: “μονογενς θες” e “ μονογενς υἱὸς”. Em outras palavras, como “μονογενὴς” é um adjetivo (para ele) e não é modificado por artigo, algum copista deve ter adaptado a leitura das duas leituras para produzir a leitura de P75. Se Pickering está certo, ambas as leituras são atestadas com mesma antiguidade.

Já Ehrman entende que P66 e P75 não são tão significativos para a crítica textual nesse verso. Segundo ele, a descoberta dessas duas testemunhas fez pouco para a consideração das evidências documentais, e não fez “nada para alterar o quadro[19]” da crítica nesse verso, pois eles acabaram por demonstrar algo que já era conhecido pelos críticos: documentos do segundo (Diatessaron), ou terceiro século (Orígenes, Versões Copta Boárica) já traziam essa leitura.

Essa argumentação em favor da antiguidade da data de ambas as leituras é percebida pelas citações dos pais da Igreja: Herácleto, Ptolomeu, Irineu, Clemente e Orígenes já no segundo e terceiro século usavam a leitura com “Deus”; enquanto Teódoto, Tertuliano, Hipólito, Irineu, Clemente e Orígenes citavam a leitura com “Filho”. O fato de que o mesmo Pai da Igreja tenha citado as duas possibilidades nos faz pensar no contexto em que teriam usado, ou qual das leituras teriam apoiado. Porém, neste, ressaltaremos apenas o caráter cronológico das evidências. Ou seja, seja qual for a leitura que Irineu, Clemente ou Orígenes tenham preferência, o fato é que ambas as leituras estavam disponíveis desde a segunda metade do segundo século. Portanto, podemos dizer que, do ponto de vista da idade da leitura, ambas parecem consistentemente conhecidas já no segundo século.

Contudo, temos que ter alguma reserva quanto a objeção de Ehrman sobre P66 e P75. Muito embora outros cristãos ortodoxos concordem com ele (cf. Brian Write), em termos de atestação documental, o P66 é o mais antigo manuscrito nessa disputa. Ainda que os pais da igreja, nesse mesmo período, já conhecessem ambas as leituras, P66 acresce valor documental à análise. Enquanto um pai da Igreja poderia aludir um texto, ou citá-lo de memória e com isso apresentar um texto longe de sua forma original, ou até mesmo disponível ao autor, um Papiro tem sua leitura claramente apresentada. Ou seja, para que P66 não tenha valor nessa discussão tem que se assumir que P66 é uma fraude nesse verso, o que não parece o caso (como demonstraremos com mais detalhes).

Ou seja, do ponto de vista documental, parece mais plausível que a leitura predominantemente alexandrina, “μονογενὴς θεός”, seja a mais primitiva das leituras.

TIPO-TEXTO e GEOGRAFIA

Outro dilema para esse texto é que os defensores da leitura “ μονογενς υἱὸς” afirmam que a leitura com “θεός” não é consistente fora da tradição alexandrina. Pickering defende que a leitura com “θεός” tem origem no Egito. Ehman defende que todas as famílias de texto (Ocidental, Bizantina e Cesarena) estão coesas na defesa da leitura de “Filho” enquanto a variante com “Deus” parece isolada na família alexandrina.

Sobre a tradição alexandrina nesse verso, não há dúvidas que o arquétipo textual é a leitura com “θεός”, e não conheço alguém que ousasse discordar dessa opinião: Os mais antigos papiros (P66 e P75) e o mais antigo uncial (B) suportam essa leitura. Entretanto, a pergunta que cabe aqui é: Essa leitura é exclusivamente alexandrina?

Que a maioria dos manuscritos seguem a tradição bizantina, não há qualquer dúvida. Que a leitura bizantina (Filho) é atestada com mais solidez nas diferentes famílias textuais, também não há qualquer dúvida. A questão que precisa ser melhor analisada é a suposta solidão alexandrina na defesa de “θεός”.

Um dos fatos que parecem ter sido ignorados por Ehrman e Pickering é que o Códice Sinaítico traz a leitura com “θεός”. Em geral, o Sinaítico acompanha a leitura do Códice Vaticano e de P75, e por isso é reconhecido como representante da tradição alexandrina. Contudo, o Sinaítico “também tem uma força definida de leitura do tipo-texto Ocidental[20]”. Gordon Fee, após analisar as evidências do Sinaítico em comparação com outros documentos, chegou a seguinte conclusão: “O Códice Sinaítico é um grande representante grego da tradição textual Ocidental em João 1.1-8.38[21]”. Se Fee está correto em sua análise, o Códice Sinaítico é o mais antigo representante da tradição Ocidental no dilema de Jo.1.18. Isso significa que, é possível que a leitura com “θεός” represente o arquétipo Ocidental.

Essa informação parece colocar as teorias de Ehrman e Pickering sob suspeita. Uma vez que as mais antigas leituras Ocidentais e Alexandrinas estão apontado para a mesma leitura, temos forte evidência de que a forma mais primitiva do texto lia “μονογενὴς θεός”.

Outro fato que nos surpreende na análise das evidências disponíveis é que a Peshita (syrp), que é reconhecida como favorável à tradição bizantina nos evangelhos, apóia a leitura “μονογενὴς θεός”. A versão Georgiana, que normalmente é reconhecida como representante da tradição Cesareana, também concorda com Peshita. O mesmo acontece com as versões copta. Ou seja, as mais antigas versões do NT não fazem menção à leitura com “υἱός”.

Dessa forma, se considerarmos a antiguidade da leitura “μονογενὴς θεός”, e sua atestação geográfica, podemos assumir que é provável que essa tenha sido a leitura seja a forma mais primitiva do texto que dispomos. Se considerarmos a qualidade dos documentos que atestam essa leitura, ela é certamente favorecida. Segue-se que, a conclusão mais plausível até aqui é que “μονογενὴς θεός” é a leitura mais primitiva do texto.

DEBATES TEOLÓGICOS

Alguns acreditam que a leitura “μονογενὴς θεός” teria surgido como uma reação ortodoxa à teologia ariana. Entretanto, tal afirmação não faz o menor sentido, uma vez que, segundo Epifânio, o próprio Ário teria usado essa passagem com essa leitura. Outro detalhe importante é que Ário, como os Testemunha de Jeová, não tem o menor problema em chamar o Logos de Deus. Em uma carta a Eusébio, bispo de Nicomédia, Ário escreveu: “Mas, o que dizemos e pensamos? O que temos dito e ensinado? Que o Filho não é não-gerado ou uma parte do Não-Gerado em nenhuma forma ou substrato, mas que pela vontade e conselho do Pai ele subsiste antes do tempo e das eras, cheio de graça e verdade, Deus, o unigênito, imutável[22]”.

Outro fato que merece atenção, é que, para que essa acusação pudesse ser levada em conta, dever-se-ia comprovar que essa leitura teria surgido no período da controvérsia ariana, entretanto, já se demonstrou que ela é anterior. Isso, sem contar que, alterar o prólogo do evangelho e permitir mais três outras citações da expressão “Filho unigênito” na literatura joanina não faz o menor sentido. Caso um copista almejasse resolver a controvérsia ariana alterando o texto do NT, ele teria feito um péssimo trabalho alterando apenas uma ocorrência de quatro. Esse argumento não faz o menor sentido.

Há ainda, outro argumento para se rejeitar a leitura “μονογενὴς θεός”. Ehrman argumenta que essa variante é fruto de uma alteração ortodoxa anti-adocionista. Uma vez que para Ehrman a leitura com “Filho” lhe parece original, a explicação que ele oferece é que um copista, visando defender a divindade de Cristo alterou o texto[23]. O conceito é o mesmo que o anterior, entretanto, Ehrman é um pouco mais acurado cronologicamente. No segundo século o ebionismo já era conhecido e combatido pelos Pais da Igreja. Tertuliano e Orígenes já teriam escrito sobre eles no fim do segundo século início do terceiro.

Contudo, parece novamente improvável que um copista alterasse o texto justamente essa parte do texto para promover a defesa da divindade de Cristo. Só nos primeiros versos, o Logos já havia sido chamado de pré-existente, criador e Deus. Sem contar que não existe qualquer conotação adocionista na nomenclatura de Filho do Logos. A questão adocionista parece muito mais ligada ao “quando” essa filiação aconteceu do que ao fato de o Logos é Filho.

Ou seja, defender a leitura “μονογενὴς θεός” como uma alteração ortodoxa do texto para validar a divindade de Cristo em Jo.1.18, não parece aceitável.

PARECER PESSOAL

Em resumo às considerações levantadas acima, podemos dizer que:

  1. Ambas as leituras eram conhecidas no segundo século, considerando apenas que do ponto de vista documental, P66 traz relativa vantagem à leitura “μονογενὴς θεός”.
  2. No que se refere à distribuição geográfica há incontestável vantagem da leitura “ὁ μονογενὴς υἱὸς”, entretanto, as mais primitivas fontes que dispomos apontam para “μονογενὴς θεός” e são importantes representantes do tipo texto Ocidental (Sinaítico), Bizantino (Peshita) e Cesareana (Geo2).
  3. Do ponto de vista da qualidade documental, “μονογενὴς θεός” é claramente favorecida.
  4. Em relação aos ataques de corrupção ortodoxa, seja para combater o arianismo ou o adocionismo, a argumentação é primária e inconsistente e não minimiza a leitura “μονογενὴς θεός” em nenhum sentido.
  5. Portanto, ainda que as evidências externas não possam definir a questão, é bem provável que a leitura “μονογενὴς θεός” seja a melhor leitura para o texto.

Ortodoxia Eclético-Racional

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:48 pm por Marcelo Berti

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No que se refere ao cristicismo no NT, há uma escola chamado ecleticismo racional, que defende que cada caso é um caso a ser analisado individualmente. Normalmente são favorávesis ao Texto Crítico (TC) e normalmente favoráveis às alexandrinas, por sua antiguidade e qualidade do material. Entre esses, existem os cristão verdadeiros que adotam esse modo de crítica e defendem suas posições com a preocupação de compreender e defender a fé.

Esses, em oposição à Velha Ortodoxia e à Nova Escola, defendem que a leitura “Deus Unigênito” é a leitura original e que, como essa expressão não acontece em nenhum lugar no NT foi harmonizada com tantas outras que trazem “Filho Unigênito” (Jo.3.16, 18; 1Jo.4.19). Nesse caso, tanto a leitura original (Deus) como a variante (Filho) teria sido produzida por cristãos.

A.T. Robertson defende essa opinião:

“Os melhores manuscritos antigos (Aleph, B, C, L) lêem monogenes theós (Deus Unigênito) que indubitavelmente é a leitura verdadeira do texto. Provavelmente algum escriba teria alterado para ‘ho monogenes huiós’ para suavizar a crua declaração da deidade de Cristo e para harmonizar com Jo.3.16[15]

Entretanto, o modo como se traduz o texto com essa variante é foco de constante ataque. Tanto Ehrman, quanto Pickering tem suas opiniões sobre a impossibilidade de que a fraseologia “μονογενής θεός” seja de fato joanina. Ou seja, os que adotam essa leitura ainda têm apresentar de modo claro e convincente sua defesa gramatical para que essa leitura possa ser aceita. Para quem está nessa posição, tem obrigação dobrada: além do dilema textual, tem que entrar em um debate gramatical.

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O que se pode dizer até aqui é que, independente da leitura adotada, teólogos liberais, agnósticos e cristãos tem sua opinião sobre o que aconteceu com o texto. Mais interessante do que isso é os motivos estampados na defesa da Velha Ortodoxia e da Nova Escola são antagônicos: o primeiro rejeita a leitura com “θεός” por que é uma corrupção aparentemente gnóstica, enquanto o segundo a rejeita por ser uma leitura muito ortodoxa.

A verdade é que o consenso nesse texto é: esse é um dilema de difícil resolução. Por essa razão, vamos observar as evidências para considerar qual das opiniões supracitadas parece mais adequada.

Nova Escola

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:47 pm por Marcelo Berti

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A Nova Escola é o nome normalmente atribuído ao movimento teológico não necessariamente cristão. Liberais, agnósticos e ateus podem defender suas “novas” idéias de “releitura” das escrituras do ponto de vista histórico. Trata-se de Teologia, pois no estudo ainda fala-se sobre Deus, entretanto Ele não é o foco nesse estudo. Entre esses, Bart Ehrman tem-se mostrado influente. Em seu livro The Orthodox Corruption of the Scripture, Ehrman se propõe a demonstrar como os ortodoxos do passado alteraram o NT para que ele defendesse o que eles entendiam por ortodoxia.

Para ele, Jo.1.18 é um claro exemplo disso: Os cristãos ortodoxos alteraram a leitura original “Filho Unigênito” para defender a divindade do Logos. Nas palavras de Ehrman:

A leitura variante da tradição Alexandrina, que substitui ‘Filho’ por ‘Deus’, representa uma corrupção ortodoxa, onde a completa divindade do Filho é afirmada: O único Deus que está no seio de Deus, esse o fez conhecido[12]

Na posição completamente oposta da Velha Ortodoxia, Ehrman acaba por concordar com ela nesse verso, pois ambos suportam que “Filho unigênito” é a leitura original. O que me fascina é que a razão pela qual ele opta por essa leitura: A defesa da divindade de Cristo. Como agnóstico, Ehrman não tem qualquer compromisso em defender a Fé Ortodoxa, e por isso supõe que  uma declaração tão estampada da divindade de Cristo só pode ser uma fraude.

Do ponto de vista das evidências externas, Ehrman reconhece que os críticos normalmente tem suas preferência pelos leitura Alexandrina nesse texto, até por que os principais unciais (א , B, C) e os mais antigos documentos (P66 e P75) favorecem essa leitura. Entretanto, para ele, nesse caso seria um erro entender que as evidências externas como obrigatórias.

Do ponto das evidências internas, ele chega a dizer:

“O problema mais comum para aqueles que optam por [oJ] μονογενής θεός, mas que reconhecem que isso deve ser traduzido como ‘o único Deus’, é que isso é virtualmente impossível no contexto joanino, é como se entendesse o adjetivo substantivamente, e construir a segunda parte intera de João 1.18 como uma série de aposições[13]

Por isso, a conclusão de Ehrman é:

“O resultado de assumir o termo μονογενής θεός como dois substantivos estando em aposição produz uma sintaxe quase impossível, enquanto que a construção do relacionamento entre elas não produz sentido algum[14]”.

Velha Ortodoxia

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:45 pm por Marcelo Berti

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Nesse artigo, passo a chamar Velha Ortodoxia o posicionamento de cristãos ortodoxos que defendem ou o Texto Recebido (TR) ou o Texto Majoritário (TM) e são normalmente favoráveis à leituras mais Bizantinas. Chamo velho não por estarem desatualizados, nem por representarem uma determinada faixa etária, mas por se tratar de um grupo que tem perdido sua expressão com o avanço do Texto Crítico. Os defensores do TR são certamente cristãos genuínos que por zelo (eventualmente exagerado) tendem a considerar a influencia Alexandrina no texto do NT como fermento e corrupção. E, portanto, entendem toda aproximação dos textos alexandrinos como perversão da verdade[8].

Para esse grupo a leitura “Deus unigênito” é uma perversão. Wilburn Pickering, que escreveu um excelente livro sobre crítica textual[9], defende essa posição. Segundo ele, nesse texto uma anomalia séria é introduzida, pois “Deus como Deus, não é gerado”. Sobre o assunto ele diz:

’Um deus unigênito’ é tão deliciosamente gnóstico que a origem egípcia aparente desta leitura a faz duplamente suspeita. Também seria possível traduzir a segunda leitura como “unigênito deus!”, enfatizando a qualidade [de ser Divino], e isto tem atraído muitos que aí vêem uma forte afirmação da divindade de Cristo. No entanto, se Cristo recebeu Sua “Divindade” através do processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade. Também “unigênito” não é análogo a “primogênito”, que se refere à prioridade de posição — isto poria o Filho acima do Pai. Não importa como a encaremos, a redação da UBS introduz uma anomalia séria[10]

Em outras palavras, o que Pickering quer dizer com isso é que, a anomalia produzida acresce uma pessoa à Trindade, pois se o texto diz “Deus unigênito” não pode fazer referência a Jesus Cristo. Mas, o que me chama mais a atenção é que para ele, tal variante é deliciosamente gnóstica. Com isso, estamos falando de um copista alterando o texto para apoiar suas próprias convicções e com isso defendendo uma opinião gnóstica.

É interessante que para Pickering, o conceito de “monogenes” tem que significa mais que apenas monos, e com isso ele não acredita que os usos do NT justifiquem a tradução “único” para o termo grego. Com isso, entendemos que ele apóia o entendimento de geração em “monogenes”. Por isso, não é de se espantar que ele considere a leitura da NIV (God the One and Only) como uma “fraude piedosa”.

Como nota-se, para a Velha Ortodoxia, as evidências são claras e em maior peso: A leitura Filho Unigênito é a original, enquanto, “Deus Unigênito” é uma alteração possivelmente gnóstica. Sem contar que, no que se refere a quantidade de evidência (que para eles é fundamental) há incomparável vantagem.

Também devemos atentar para o lembrete de Scrivener sobre esse texto: “Aqueles que irão recorrer exclusivamente a evidências antigas para a recensão do texto, provavelmente ficarão perplexos lidando com essa passagem. Os mais velhos manuscritos, versões e escritores estão desesperadamente divididos[11]”. Essa consideração é importante especialmente para aqueles que consideram a data como fator predominante para a tomada de decisão.

Identificando as Variantes

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:44 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

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Brian J. Write sobre o assunto diz: “Todas as variantes (…) são divididas em dois grupos distintos ou lendo υἱὸς ou θεὸς. Se a última opção é escolhida, a decisão final depende da presença ou ausência do artigo[2]”. De qualquer forma, é importante que se diga que, para a Teologia do Novo Testamento, ambas as leituras não trazem dificuldade alguma[3], [4].

É interessante que um dilema tão difícil como esse possa ter nascido na alteração de apenas uma letra. Nos antigos unciais acontece um fenômeno bem recorrente que é o uso da Nomina Sacra, que nada mais é do que a abreviação das formas substantivas relacionadas à divindade. No caso, θεὸς e υἱὸς eram escritos como θC  e UC respectivamente. Ou seja, a simples troca de U por θ seria capaz de produzir tal mudança[5]. Para demonstrar como esse fato, veja abaixo a foto do Códice Vaticano e do Washingtonensis nesse trecho[6]:

Jo118Jo118 (W)

Entretanto, apesar de parecer muito simples e sutil essa alteração, as evidência demonstram que a compreensão de como isso poderia ter acontecido é muito mais complexo. A questão não limita-se apenas à alteração de uma letra, mas de como ela aconteceu: Quando aconteceu a primeira alteração, para qual opção teria sido? Por que razão? Era uma defesa ou ataque teológico? Será que trata-se de uma corrupção do texto original influenciado pelas heresias? Seria uma alteração apologética feita pelos ortodoxos? É possível que tenha acontecido por desatenção?

Ao certo, a resposta a essas perguntas depende da análise crítica das variantes, e é necessário que se diga que por mais acurada que uma análise possa ser, ela não é a garantia da verificação da verdade: Trata-se apenas de uma tentativa de compreender a verdade expostas nesses dilemas.

O primeiro passo que tomaremos nesse estudo é o reconhecimento das variantes textuais. Abaixo separo cada uma das variantes com os documentos que as suportam:

Leituras Possíveis[7]

Documentos

μονογενὴς θεὸς

Deus Unigênito

p66 א* B C* L pc syrp syrh(mg) geo2 Diatessarona Valentiniansaccording to Irenaeus Valentiniansaccording to Clement Ptolemy Heracleon Origengr(2/4) Ariusaccording to Epiphanius Apostolic Constitutions Didymus Ps-Ignatius Synesiusaccording to Epiphanius Cyril1/4

ὁ μονογενὴς θεὸς

O Deus Unigênito

p75 א2 33 pc copbo Theodotusaccording to Clement(1/2) Clement2/3 Origengr(2/4) Eusebius3/7 Serapion1/2 Basil1/2 Gregory-Nyssa Epiphanius Cyril3/4

ὁ μονογενὴς υἱὸς

O Filho Unigênito

A C E F G H K Wsupp X Δ Θ Π Ψ 063 0141 f1 f13 28 157 180 205 565 579 597 700 892 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1216 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 Byz Lect ita itaur itb itc ite itf itff2 itl vg syrc syrh syrpal arm eth geo1 slav Theodotusaccording to Clement(1/2) Theodotus Irenaeuslat(1/3) Clement1/3 Tertullian Hippolytus Origenlat(1/2) Letter of Hymenaeus Alexander Eustathius Eusebius4/7 Hegemonius Ambrosiaster Faustinus Serapion1/2 Victorinus-Rome Hilary5/7 Athanasius Titus-Bostra Basil1/2 Gregory-Nazianzus Gregory-Elvira Phoebadius Ambrose10/11 Chrysostom Synesius Jerome Theodore Augustine Nonnus Cyril1/4 Proclus Varimadum Theodoret Fulgentius Caesarius John-Damascus Ps-Priscillian ς

μονογενὴς υἱὸς θεοῦ

Filho Unigênito de Deus

itq (copsa? θεὸς) Irenaeuslat(1/3) Ambrose1/11(vid)

ὁ μονογενὴς

O Unigênito

vgms Diatessaron Jacob-Nisibis Ephraem Cyril-Jerusalem Ps-Ignatius Ps-Vigilius1/2 Nonnus Nestorius

Tendo demonstrado quais são as leituras variantes e os documentos que a suportam, gostaria de apresentar como se tem interpretado as evidências disponíveis. A verdade é que, diferentes teólogos têm interpretado de modo diferente as evidências disponíveis, e conhecer seus argumentos certamente enriquecerá nosso entendimento do dilema.

Introdução

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:43 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

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Um dos problemas textuais mais controvertidos é provavelmente o encontrado em Jo.1.18: Liberais e Ortodoxos tem suas impressões sobre ele, e todos tem seus motivos bem declarados. Aos que têm em mãos várias versões bíblicas já puderam perceber as possíveis leituras desse texto:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (ACF)

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (TNM)

“Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (BJ)

“Ninguém nunca viu a Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou” (NTHL)

“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (ARA)

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (NVI)

“A Dios nadie Le vio jamás; el unigênito Hijo, que está em el seno del Padre, el Le há dado a conocer” (ACR)

“Dios nadie lo ha visto nunca; el Hijo unigénito, que es Dios y que vive en unión íntima con el Padre, nos lo ha dado a conocer” (NVI)

“No man hath seen God at any time; the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him” (KJV)

“No one has ever seen God, but God the One and Only, who is at the Father’s side, has made him known” (NIV)

“No one has ever seen God. The only Son, God, who is at the Father’s side, has revealed him” (NAB)

“No one has ever seen God. The only one, himself God, who is in the presence of the Father, has made God known” (NET)

Diante da diversidade das versões, mesmo em português, nos perguntamos: Qual dessas traduções traz a leitura correta? O que é fato assumido como certeza nessa discussão é que apenas uma das leituras variantes pode ser a original. Provavelmente, essa é a única certeza que temos quanto a esse dilema textual[1].

A disputa nesse verso está entre cinco leituras encontradas em manuscritos gregos:

  1. monogenes théos: lit. Deus Unigênito
  2. ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
  3. ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
  4. monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
  5. ho monogenes: lit. o Unigênito

Muito embora sejam cinco as leituras variantes, normalmente tomam-se apenas como duas opções de fato: as duas primeiras testemunham a mesma leitura enquanto a quarta e a quinta são tão improváveis (do ponto de vista das evidências externas) que quase não são consideradas. Sobre isso iremos falar mais adiante. Por ora, vamos conhecer melhor as leituras disponíveis e os documentos que trazem tais leituras.

08.03.09

O que dizer do problema textual de Jo.1.18?

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , , às 5:44 pm por Marcelo Berti

Marcelo Berti

Um dos problemas textuais mais controvertidos é provavelmente o encontrado em Jo.1.18: Liberais e Ortodoxos tem suas impressões sobre ele, e todos tem seus motivos bem declarados. Aos que têm em mãos várias versões bíblicas já puderam perceber as possíveis leituras desse texto:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (ACF)

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (TNM)

“Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (BJ)

“Ninguém nunca viu a Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou” (NTHL)

“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (ARA)

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (NVI)

“A Dios nadie Le vio jamás; el unigênito Hijo, que está em el seno del Padre, el Le há dado a conocer” (ACR)

“Dios nadie lo ha visto nunca; el Hijo unigénito, que es Dios y que vive en unión íntima con el Padre, nos lo ha dado a conocer” (NVI)

“No man hath seen God at any time; the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him” (KJV)

“No one has ever seen God, but God the One and Only, who is at the Father’s side, has made him known” (NIV)

“No one has ever seen God. The only Son, God, who is at the Father’s side, has revealed him” (NAB)

“No one has ever seen God. The only one, himself God, who is in the presence of the Father, has made God known” (NET)

Diante da diversidade das versões, mesmo em português, nos perguntamos: Qual dessas traduções traz a leitura correta? O que é fato assumido como certeza nessa discussão é que apenas uma das leituras variantes pode ser a original. Provavelmente, essa é a única certeza que temos quanto a esse dilema textual[1].

A disputa nesse verso está entre cinco leituras encontradas em manuscritos gregos:

  1. monogenes théos: lit. Deus Unigênito
  2. ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
  3. ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
  4. monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
  5. ho monogenes: lit. o Unigênito

Muito embora sejam cinco as leituras variantes, normalmente tomam-se apenas como duas opções de fato: as duas primeiras testemunham a mesma leitura enquanto a quarta e a quinta são tão improváveis (do ponto de vista das evidências externas) que quase não são consideradas. Sobre isso iremos falar mais adiante. Por ora, vamos conhecer melhor as leituras disponíveis e os documentos que trazem tais leituras.

Identificando as possíveis variantes

Brian J. Write sobre o assunto diz: “Todas as variantes (…) são divididas em dois grupos distintos ou lendo υἱὸς ou θεὸς. Se a última opção é escolhida, a decisão final depende da presença ou ausência do artigo[2]”. De qualquer forma, é importante que se diga que, para a Teologia do Novo Testamento, ambas as leituras não trazem dificuldade alguma[3], [4].

É interessante que um dilema tão difícil como esse possa ter nascido na alteração de apenas uma letra. Nos antigos unciais acontece um fenômeno bem recorrente que é o uso da Nomina Sacra, que nada mais é do que a abreviação das formas substantivas relacionadas à divindade. No caso, θεὸς e υἱὸς eram escritos como θC  e UC respectivamente. Ou seja, a simples troca de U por θ seria capaz de produzir tal mudança[5]. Para demonstrar como esse fato, veja abaixo a foto do Códice Vaticano e do Washingtonensis nesse trecho[6]:

Jo118Jo118 (W)

Entretanto, apesar de parecer muito simples e sutil essa alteração, as evidência demonstram que a compreensão de como isso poderia ter acontecido é muito mais complexo. A questão não limita-se apenas à alteração de uma letra, mas de como ela aconteceu: Quando aconteceu a primeira alteração, para qual opção teria sido? Por que razão? Era uma defesa ou ataque teológico? Será que trata-se de uma corrupção do texto original influenciado pelas heresias? Seria uma alteração apologética feita pelos ortodoxos? É possível que tenha acontecido por desatenção?

Ao certo, a resposta a essas perguntas depende da análise crítica das variantes, e é necessário que se diga que por mais acurada que uma análise possa ser, ela não é a garantia da verificação da verdade: Trata-se apenas de uma tentativa de compreender a verdade expostas nesses dilemas.

O primeiro passo que tomaremos nesse estudo é o reconhecimento das variantes textuais. Abaixo separo cada uma das variantes com os documentos que as suportam:

Leituras Possíveis[7]

Documentos

μονογενὴς θεὸς

Deus Unigênito

p66 א* B C* L pc syrp syrh(mg) geo2 Diatessarona Valentiniansaccording to Irenaeus Valentiniansaccording to Clement Ptolemy Heracleon Origengr(2/4) Ariusaccording to Epiphanius Apostolic Constitutions Didymus Ps-Ignatius Synesiusaccording to Epiphanius Cyril1/4

ὁ μονογενὴς θεὸς

O Deus Unigênito

p75 א2 33 pc copbo Theodotusaccording to Clement(1/2) Clement2/3 Origengr(2/4) Eusebius3/7 Serapion1/2 Basil1/2 Gregory-Nyssa Epiphanius Cyril3/4

ὁ μονογενὴς υἱὸς

O Filho Unigênito

A C E F G H K Wsupp X Δ Θ Π Ψ 063 0141 f1 f13 28 157 180 205 565 579 597 700 892 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1216 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 Byz Lect ita itaur itb itc ite itf itff2 itl vg syrc syrh syrpal arm eth geo1 slav Theodotusaccording to Clement(1/2) Theodotus Irenaeuslat(1/3) Clement1/3 Tertullian Hippolytus Origenlat(1/2) Letter of Hymenaeus Alexander Eustathius Eusebius4/7 Hegemonius Ambrosiaster Faustinus Serapion1/2 Victorinus-Rome Hilary5/7 Athanasius Titus-Bostra Basil1/2 Gregory-Nazianzus Gregory-Elvira Phoebadius Ambrose10/11 Chrysostom Synesius Jerome Theodore Augustine Nonnus Cyril1/4 Proclus Varimadum Theodoret Fulgentius Caesarius John-Damascus Ps-Priscillian ς

μονογενὴς υἱὸς θεοῦ

Filho Unigênito de Deus

itq (copsa? θεὸς) Irenaeuslat(1/3) Ambrose1/11(vid)

ὁ μονογενὴς

O Unigênito

vgms Diatessaron Jacob-Nisibis Ephraem Cyril-Jerusalem Ps-Ignatius Ps-Vigilius1/2 Nonnus Nestorius

Tendo demonstrado quais são as leituras variantes e os documentos que a suportam, gostaria de apresentar como se tem interpretado as evidências disponíveis. A verdade é que, diferentes teólogos têm interpretado de modo diferente as evidências disponíveis, e conhecer seus argumentos certamente enriquecerá nosso entendimento do dilema.

Posições Conhecidas

Velha Ortodoxia

Nesse artigo, passo a chamar Velha Ortodoxia o posicionamento de cristãos ortodoxos que defendem ou o Texto Recebido (TR) ou o Texto Majoritário (TM) e são normalmente favoráveis à leituras mais Bizantinas. Chamo velho não por estarem desatualizados, nem por representarem uma determinada faixa etária, mas por se tratar de um grupo que tem perdido sua expressão com o avanço do Texto Crítico. Os defensores do TR são certamente cristãos genuínos que por zelo (eventualmente exagerado) tendem a considerar a influencia Alexandrina no texto do NT como fermento e corrupção. E, portanto, entendem toda aproximação dos textos alexandrinos como perversão da verdade[8].

Para esse grupo a leitura “Deus unigênito” é uma perversão. Wilburn Pickering, que escreveu um excelente livro sobre crítica textual[9], defende essa posição. Segundo ele, nesse texto uma anomalia séria é introduzida, pois “Deus como Deus, não é gerado”. Sobre o assunto ele diz:

’Um deus unigênito’ é tão deliciosamente gnóstico que a origem egípcia aparente desta leitura a faz duplamente suspeita. Também seria possível traduzir a segunda leitura como “unigênito deus!”, enfatizando a qualidade [de ser Divino], e isto tem atraído muitos que aí vêem uma forte afirmação da divindade de Cristo. No entanto, se Cristo recebeu Sua “Divindade” através do processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade. Também “unigênito” não é análogo a “primogênito”, que se refere à prioridade de posição — isto poria o Filho acima do Pai. Não importa como a encaremos, a redação da UBS introduz uma anomalia séria[10]

Em outras palavras, o que Pickering quer dizer com isso é que, a anomalia produzida acresce uma pessoa à Trindade, pois se o texto diz “Deus unigênito” não pode fazer referência a Jesus Cristo. Mas, o que me chama mais a atenção é que para ele, tal variante é deliciosamente gnóstica. Com isso, estamos falando de um copista alterando o texto para apoiar suas próprias convicções e com isso defendendo uma opinião gnóstica.

É interessante que para Pickering, o conceito de “monogenes” tem que significa mais que apenas monos, e com isso ele não acredita que os usos do NT justifiquem a tradução “único” para o termo grego. Com isso, entendemos que ele apóia o entendimento de geração em “monogenes”. Por isso, não é de se espantar que ele considere a leitura da NIV (God the One and Only) como uma “fraude piedosa”.

Como nota-se, para a Velha Ortodoxia, as evidências são claras e em maior peso: A leitura Filho Unigênito é a original, enquanto, “Deus Unigênito” é uma alteração possivelmente gnóstica. Sem contar que, no que se refere a quantidade de evidência (que para eles é fundamental) há incomparável vantagem.

Também devemos atentar para o lembrete de Scrivener sobre esse texto: “Aqueles que irão recorrer exclusivamente a evidências antigas para a recensão do texto, provavelmente ficarão perplexos lidando com essa passagem. Os mais velhos manuscritos, versões e escritores estão desesperadamente divididos[11]”. Essa consideração é importante especialmente para aqueles que consideram a data como fator predominante para a tomada de decisão.

Nova Escola

A Nova Escola é o nome normalmente atribuído ao movimento teológico não necessariamente cristão. Liberais, agnósticos e ateus podem defender suas “novas” idéias de “releitura” das escrituras do ponto de vista histórico. Trata-se de Teologia, pois no estudo ainda fala-se sobre Deus, entretanto Ele não é o foco nesse estudo. Entre esses, Bart Ehrman tem-se mostrado influente. Em seu livro The Orthodox Corruption of the Scripture, Ehrman se propõe a demonstrar como os ortodoxos do passado alteraram o NT para que ele defendesse o que eles entendiam por ortodoxia.

Para ele, Jo.1.18 é um claro exemplo disso: Os cristãos ortodoxos alteraram a leitura original “Filho Unigênito” para defender a divindade do Logos. Nas palavras de Ehrman:

A leitura variante da tradição Alexandrina, que substitui ‘Filho’ por ‘Deus’, representa uma corrupção ortodoxa, onde a completa divindade do Filho é afirmada: O único Deus que está no seio de Deus, esse o fez conhecido[12]

Na posição completamente oposta da Velha Ortodoxia, Ehrman acaba por concordar com ela nesse verso, pois ambos suportam que “Filho unigênito” é a leitura original. O que me fascina é que a razão pela qual ele opta por essa leitura: A defesa da divindade de Cristo. Como agnóstico, Ehrman não tem qualquer compromisso em defender a Fé Ortodoxa, e por isso supõe que  uma declaração tão estampada da divindade de Cristo só pode ser uma fraude.

Do ponto de vista das evidências externas, Ehrman reconhece que os críticos normalmente tem suas preferência pelos leitura Alexandrina nesse texto, até por que os principais unciais (א , B, C) e os mais antigos documentos (P66 e P75) favorecem essa leitura. Entretanto, para ele, nesse caso seria um erro entender que as evidências externas como obrigatórias.

Do ponto das evidências internas, ele chega a dizer:

“O problema mais comum para aqueles que optam por [oJ] μονογενής θεός, mas que reconhecem que isso deve ser traduzido como ‘o único Deus’, é que isso é virtualmente impossível no contexto joanino, é como se entendesse o adjetivo substantivamente, e construir a segunda parte intera de João 1.18 como uma série de aposições[13]

Por isso, a conclusão de Ehrman é:

“O resultado de assumir o termo μονογενής θεός como dois substantivos estando em aposição produz uma sintaxe quase impossível, enquanto que a construção do relacionamento entre elas não produz sentido algum[14]”.

Ortodoxia Eclético-Racional

No que se refere ao cristicismo no NT, há uma escola chamado ecleticismo racional, que defende que cada caso é um caso a ser analisado individualmente. Normalmente são favorávesis ao Texto Crítico (TC) e normalmente favoráveis às alexandrinas, por sua antiguidade e qualidade do material. Entre esses, existem os cristão verdadeiros que adotam esse modo de crítica e defendem suas posições com a preocupação de compreender e defender a fé.

Esses, em oposição à Velha Ortodoxia e à Nova Escola, defendem que a leitura “Deus Unigênito” é a leitura original e que, como essa expressão não acontece em nenhum lugar no NT foi harmonizada com tantas outras que trazem “Filho Unigênito” (Jo.3.16, 18; 1Jo.4.19). Nesse caso, tanto a leitura original (Deus) como a variante (Filho) teria sido produzida por cristãos.

A.T. Robertson defende essa opinião:

“Os melhores manuscritos antigos (Aleph, B, C, L) lêem monogenes theós (Deus Unigênito) que indubitavelmente é a leitura verdadeira do texto. Provavelmente algum escriba teria alterado para ‘ho monogenes huiós’ para suavizar a crua declaração da deidade de Cristo e para harmonizar com Jo.3.16[15]

Entretanto, o modo como se traduz o texto com essa variante é foco de constante ataque. Tanto Ehrman, quanto Pickering tem suas opiniões sobre a impossibilidade de que a fraseologia “μονογενής θεός” seja de fato joanina. Ou seja, os que adotam essa leitura ainda têm apresentar de modo claro e convincente sua defesa gramatical para que essa leitura possa ser aceita. Para quem está nessa posição, tem obrigação dobrada: além do dilema textual, tem que entrar em um debate gramatical.

*             *             *

O que se pode dizer até aqui é que, independente da leitura adotada, teólogos liberais, agnósticos e cristãos tem sua opinião sobre o que aconteceu com o texto. Mais interessante do que isso é os motivos estampados na defesa da Velha Ortodoxia e da Nova Escola são antagônicos: o primeiro rejeita a leitura com “θεός” por que é uma corrupção aparentemente gnóstica, enquanto o segundo a rejeita por ser uma leitura muito ortodoxa.

A verdade é que o consenso nesse texto é: esse é um dilema de difícil resolução. Por essa razão, vamos observar as evidências para considerar qual das opiniões supracitadas parece mais adequada.

Análise das Evidências

Evidências Externas

A análise da evidência externa nesse tem diversos dilemas, e à medida que observamos as evidências e as informações disponíveis ao autor, vamos tentar tratar desses dilemas com cautela.

DATA

No que se refere a data das leituras variantes, as diferentes escolas tem apresentado sua opinião. Alguns ortodoxos ecleticistas têm suas preferências para a leitura com θεὸς em função da descoberta de dois papiros do segundo século que trazem essa leitura. Bruce Metzger defende essa opinião: “Com a aquisição de P66 [≈200 d.C] e P75 [início do terceiro século], ambos leem θεός , o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecida[16]”. Kostenberger and Swain demonstram mesma opinião: “Com a aquisição de P66 e P75, em que ambas lêem μονογενς θες, a preponderancia da evidência agora nos leva em direção da última leitura [μονογενς θες] [17]”.

Entretanto, Pickering defende P75 tem uma leitura conflada[18]. A leitura que P75 traz é “ μονογενς θες” e Pickering entende que ela é resultado da leitura das outras duas leituras possíveis para o texto: “μονογενς θες” e “ μονογενς υἱὸς”. Em outras palavras, como “μονογενὴς” é um adjetivo (para ele) e não é modificado por artigo, algum copista deve ter adaptado a leitura das duas leituras para produzir a leitura de P75. Se Pickering está certo, ambas as leituras são atestadas com mesma antiguidade.

Já Ehrman entende que P66 e P75 não são tão significativos para a crítica textual nesse verso. Segundo ele, a descoberta dessas duas testemunhas fez pouco para a consideração das evidências documentais, e não fez “nada para alterar o quadro[19]” da crítica nesse verso, pois eles acabaram por demonstrar algo que já era conhecido pelos críticos: documentos do segundo (Diatessaron), ou terceiro século (Orígenes, Versões Copta Boárica) já traziam essa leitura.

Essa argumentação em favor da antiguidade da data de ambas as leituras é percebida pelas citações dos pais da Igreja: Herácleto, Ptolomeu, Irineu, Clemente e Orígenes já no segundo e terceiro século usavam a leitura com “Deus”; enquanto Teódoto, Tertuliano, Hipólito, Irineu, Clemente e Orígenes citavam a leitura com “Filho”. O fato de que o mesmo Pai da Igreja tenha citado as duas possibilidades nos faz pensar no contexto em que teriam usado, ou qual das leituras teriam apoiado. Porém, neste, ressaltaremos apenas o caráter cronológico das evidências. Ou seja, seja qual for a leitura que Irineu, Clemente ou Orígenes tenham preferência, o fato é que ambas as leituras estavam disponíveis desde a segunda metade do segundo século. Portanto, podemos dizer que, do ponto de vista da idade da leitura, ambas parecem consistentemente conhecidas já no segundo século.

Contudo, temos que ter alguma reserva quanto a objeção de Ehrman sobre P66 e P75. Muito embora outros cristãos ortodoxos concordem com ele (cf. Brian Write), em termos de atestação documental, o P66 é o mais antigo manuscrito nessa disputa. Ainda que os pais da igreja, nesse mesmo período, já conhecessem ambas as leituras, P66 acresce valor documental à análise. Enquanto um pai da Igreja poderia aludir um texto, ou citá-lo de memória e com isso apresentar um texto longe de sua forma original, ou até mesmo disponível ao autor, um Papiro tem sua leitura claramente apresentada. Ou seja, para que P66 não tenha valor nessa discussão tem que se assumir que P66 é uma fraude nesse verso, o que não parece o caso (como demonstraremos com mais detalhes).

Ou seja, do ponto de vista documental, parece mais plausível que a leitura predominantemente alexandrina, “μονογενὴς θεός”, seja a mais primitiva das leituras.

TIPO-TEXTO e GEOGRAFIA

Outro dilema para esse texto é que os defensores da leitura “ μονογενς υἱὸς” afirmam que a leitura com “θεός” não é consistente fora da tradição alexandrina. Pickering defende que a leitura com “θεός” tem origem no Egito. Ehman defende que todas as famílias de texto (Ocidental, Bizantina e Cesarena) estão coesas na defesa da leitura de “Filho” enquanto a variante com “Deus” parece isolada na família alexandrina.

Sobre a tradição alexandrina nesse verso, não há dúvidas que o arquétipo textual é a leitura com “θεός”, e não conheço alguém que ousasse discordar dessa opinião: Os mais antigos papiros (P66 e P75) e o mais antigo uncial (B) suportam essa leitura. Entretanto, a pergunta que cabe aqui é: Essa leitura é exclusivamente alexandrina?

Que a maioria dos manuscritos seguem a tradição bizantina, não há qualquer dúvida. Que a leitura bizantina (Filho) é atestada com mais solidez nas diferentes famílias textuais, também não há qualquer dúvida. A questão que precisa ser melhor analisada é a suposta solidão alexandrina na defesa de “θεός”.

Um dos fatos que parecem ter sido ignorados por Ehrman e Pickering é que o Códice Sinaítico traz a leitura com “θεός”. Em geral, o Sinaítico acompanha a leitura do Códice Vaticano e de P75, e por isso é reconhecido como representante da tradição alexandrina. Contudo, o Sinaítico “também tem uma força definida de leitura do tipo-texto Ocidental[20]”. Gordon Fee, após analisar as evidências do Sinaítico em comparação com outros documentos, chegou a seguinte conclusão: “O Códice Sinaítico é um grande representante grego da tradição textual Ocidental em João 1.1-8.38[21]”. Se Fee está correto em sua análise, o Códice Sinaítico é o mais antigo representante da tradição Ocidental no dilema de Jo.1.18. Isso significa que, é possível que a leitura com “θεός” represente o arquétipo Ocidental.

Essa informação parece colocar as teorias de Ehrman e Pickering sob suspeita. Uma vez que as mais antigas leituras Ocidentais e Alexandrinas estão apontado para a mesma leitura, temos forte evidência de que a forma mais primitiva do texto lia “μονογενὴς θεός”.

Outro fato que nos surpreende na análise das evidências disponíveis é que a Peshita (syrp), que é reconhecida como favorável à tradição bizantina nos evangelhos, apóia a leitura “μονογενὴς θεός”. A versão Georgiana, que normalmente é reconhecida como representante da tradição Cesareana, também concorda com Peshita. O mesmo acontece com as versões copta. Ou seja, as mais antigas versões do NT não fazem menção à leitura com “υἱός”.

Dessa forma, se considerarmos a antiguidade da leitura “μονογενὴς θεός”, e sua atestação geográfica, podemos assumir que é provável que essa tenha sido a leitura seja a forma mais primitiva do texto que dispomos. Se considerarmos a qualidade dos documentos que atestam essa leitura, ela é certamente favorecida. Segue-se que, a conclusão mais plausível até aqui é que “μονογενὴς θεός” é a leitura mais primitiva do texto.

DEBATES TEOLÓGICOS

Alguns acreditam que a leitura “μονογενὴς θεός” teria surgido como uma reação ortodoxa à teologia ariana. Entretanto, tal afirmação não faz o menor sentido, uma vez que, segundo Epifânio, o próprio Ário teria usado essa passagem com essa leitura. Outro detalhe importante é que Ário, como os Testemunha de Jeová, não tem o menor problema em chamar o Logos de Deus. Em uma carta a Eusébio, bispo de Nicomédia, Ário escreveu: “Mas, o que dizemos e pensamos? O que temos dito e ensinado? Que o Filho não é não-gerado ou uma parte do Não-Gerado em nenhuma forma ou substrato, mas que pela vontade e conselho do Pai ele subsiste antes do tempo e das eras, cheio de graça e verdade, Deus, o unigênito, imutável[22]”.

Outro fato que merece atenção, é que, para que essa acusação pudesse ser levada em conta, dever-se-ia comprovar que essa leitura teria surgido no período da controvérsia ariana, entretanto, já se demonstrou que ela é anterior. Isso, sem contar que, alterar o prólogo do evangelho e permitir mais três outras citações da expressão “Filho unigênito” na literatura joanina não faz o menor sentido. Caso um copista almejasse resolver a controvérsia ariana alterando o texto do NT, ele teria feito um péssimo trabalho alterando apenas uma ocorrência de quatro. Esse argumento não faz o menor sentido.

Há ainda, outro argumento para se rejeitar a leitura “μονογενὴς θεός”. Ehrman argumenta que essa variante é fruto de uma alteração ortodoxa anti-adocionista. Uma vez que para Ehrman a leitura com “Filho” lhe parece original, a explicação que ele oferece é que um copista, visando defender a divindade de Cristo alterou o texto[23]. O conceito é o mesmo que o anterior, entretanto, Ehrman é um pouco mais acurado cronologicamente. No segundo século o ebionismo já era conhecido e combatido pelos Pais da Igreja. Tertuliano e Orígenes já teriam escrito sobre eles no fim do segundo século início do terceiro.

Contudo, parece novamente improvável que um copista alterasse o texto justamente essa parte do texto para promover a defesa da divindade de Cristo. Só nos primeiros versos, o Logos já havia sido chamado de pré-existente, criador e Deus. Sem contar que não existe qualquer conotação adocionista na nomenclatura de Filho do Logos. A questão adocionista parece muito mais ligada ao “quando” essa filiação aconteceu do que ao fato de o Logos é Filho.

Ou seja, defender a leitura “μονογενὴς θεός” como uma alteração ortodoxa do texto para validar a divindade de Cristo em Jo.1.18, não parece aceitável.

PARECER PESSOAL

Em resumo às considerações levantadas acima, podemos dizer que:

  1. Ambas as leituras eram conhecidas no segundo século, considerando apenas que do ponto de vista documental, P66 traz relativa vantagem à leitura “μονογενὴς θεός”.
  2. No que se refere à distribuição geográfica há incontestável vantagem da leitura “ὁ μονογενὴς υἱὸς”, entretanto, as mais primitivas fontes que dispomos apontam para “μονογενὴς θεός” e são importantes representantes do tipo texto Ocidental (Sinaítico), Bizantino (Peshita) e Cesareana (Geo2).
  3. Do ponto de vista da qualidade documental, “μονογενὴς θεός” é claramente favorecida.
  4. Em relação aos ataques de corrupção ortodoxa, seja para combater o arianismo ou o adocionismo, a argumentação é primária e inconsistente e não minimiza a leitura “μονογενὴς θεός” em nenhum sentido.
  5. Portanto, ainda que as evidências externas não possam definir a questão, é bem provável que a leitura “μονογενὴς θεός” seja a melhor leitura para o texto.

Evidências Internas

Da mesma forma que a análise das evidências externas, na análise das evidências internas vamos observar que a interpretação textual move-se para ambas as leituras. Aliás, a leitura que pareceu favorável nas evidências externas, é atacada com mais intensidade aqui. E à semelhança da análise já realizada, aqui trataremos dos dilemas à medida que conhecemos os argumentos de cada lado da disputa.

CONSISTÊNCIA DA LEITURA

O principal argumento contra a leitura “μονογενὴς θεός” é que ela parece inconsistente com a literatura joanina. Do ponto de vista da estatística, na literatura joanina μονογενὴς refere-se exclusivamente ao Filho (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.19). No Novo Testamento, à exceção de uma passagem (Hb.11.17), todos os usos de μονογενὴς  fazem referência a um filho que é único (Lc.7.12; 8.42; 9.38).

O segundo argumento é que a frase “μονογενὴς θεός“ não é encontrada em nenhum outro lugar no Novo Testamento e é estranha a ele. O fato de que há relativo silencio neotestamentário para essa terminologia, faz com que os defensores da leitura com Filho defendam sua inconsistência. Outro detalhe que acresce-se a esse é que é muito incomum uma declaração à divindade de Cristo tão clara no NT.  Ou seja, existe um “quase” silêncio teológico clarividente no NT que pudesse suportar essa visão.

O terceiro argumento atesta que, do ponto de vista do estilo, a leitura com Filho parece mais natural ao texto, uma vez que o termo Deus é usado no início e o termo Pai no final. Em outras palavras, supõe-se que a repetição do termo “Deus” seria um inconveniente sintático para o texto e por isso uma construção relativamente difícil para João.

Entretanto, no que se refere à consistência da leitura, os dois primeiros argumentos desfavoráveis à “μονογενὴς θεός” não parecem consistentes. Muito embora exista razão e lógica nos argumentos, ele não é consistente. Vamos tomar o primeiro argumento como exemplo. Se a consistência com o autor é fator decisivo, alguém poderia alegar que Jo.5.4 poderia ser consistente com a terminologia joanina, pois não apenas a construção é similar como usa termos recorrentes. Entretanto, as evidências externas nesse caso são completamente desfavoráveis ao verso. Ou seja, a validade do argumento é dependente da soma das análises. Contudo, o mais importante a ser dito sobre essa argumentação é que ela exclui a possibilidade de uma expressão ocorrer uma única só vez no NT.

Sobre o segundo argumento é importante que se diga que João tem diversas expressões fundamentais para a Teologia Cristã que não são encontradas em nenhum outro lugar no NT. Por exemplo, João é o único que descreve Jesus Cristo como Logos eterno, pré-existente e divino (Jo.1.1), como único em espécie (Jo.1.14 – monogenes absoluto), como Logos encarnado (Jo.1.14). Em termos de proporção, parece que João está inovando sob muitos aspectos em sua apresentação da divindade. Se considerarmos válido o segundo argumento, teríamos que suspeitar de todo o prólogo, o que muitos teólogos já tem feito mesmo sem qualquer evidência textual para suportar suas convicções. Muito embora o argumento pareça sólido, mais uma vez ele é erigido sob uma frágil argumentação.

O mais audaz dos argumentos é o terceiro. Segundo os defensores da Velha Ortodoxia (Pickering, José Pedro M. de Almeida), do ponto de vista do estilo, a leitura mais natural seria o Filho: “A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação[24]”. Entretanto, deve-se notar que o termo Filho não é usado nenhuma vez no prólogo, ao passo que tanto μονογενὴς como θεός já teriam sido apresentados. Porém, é bem verdade que o uso de “Pai” na seqüência parece supor o uso de “Filho” antes, exceto que, se João tivesse usado uma segunda vez o termo θεός, usá-lo uma terceira vez seria uma grande redundância. Portanto, no que se refere à consistência da variante, os argumentos normalmente apresentados não são consistente. Ao contrário, favorecem à leitura de θεός.

Uma das convicções que sem tem obtido no estudo da crítica textual é que os copistas tinham certa tendência para facilitar um texto ao invés de complicá-lo. Também era comum que eles tentassem harmonizar passagens para que fossem sinérgicas. No caso de Jo.1.18, se considerarmos a leitura com θεός  a leitura original, não era difícil que alguém ousasse facilitar a leitura por substituí-lo por υἱός. Se o motivo não fosse o facilitar a leitura do texto, certamente poderia ter sido uma questão de harmonização com a terminologia do autor. Essa observação é importante, pois nos auxilia a compreender qual das leituras parece ser responsável pela outras. Sobre isso, Metzger tem uma opinião interessante:

“A leitura μονογενὴς υἱός, que é indubitavelmente mais fácil que μονογενὴς θεός, é resultado de uma assimilação escribal a Jo.3.16,8; 1Jo.4.9. O uso anartro de θεός (cf. 1.1) parece ser o mais primitivo. Não há razão para que o artigo fosse deletado, e quando υἱός suplantou θεός,ele certamente foi adicionado. A menor leitura, ὁ μονογενής, enquanto é atrativa por causa de considerações internas, é muito pobremente atestada para ser aceito como texto[25]

Diante das considerações de Metzger, observa-se que a leitura favorecida é consistente com as possibilidades de transcrição histórica do texto. Diante disso, podemos assumir que μονογενὴς θεός é a leitura mais provável do ponto de vista da transcrição histórica. Contudo, isso não a torna imediatamente mais consiste com o contexto.

Sobre a consistência com o contexto, é importante lembrar-se da opinião de A.T. Robertson:

“O escrito já havia dito em 1.1 que o Verbo era Deus e no 1.14 que o Verbo se fez carne. Agora ele combina as duas idéias no texto correto de 1.18: ‘Deus-unigênito’. Somente o Deus-homem poderia revelar a Deus completamente ao homem. Ele é Deus e Homem, e pode e atua como intérprete de Deus para o homem[26]

É interessante que no clímax do prólogo, João combine duas idéias chocantes já apresentadas para concluir o que tem a dizer. Se isso é tomado como verdadeiro, nota-se grande coesão estrutural no pensamento joanino[27]. Aliás, Martin Vincent parece defender exatamente isso:

“A última leitura [μονογενὴς θεός ] meramente combina em uma frase dois atributos do verbo já indicados – Deus (v.1) e unigênito (v.14)’; o sentido é o ser único que é tanto Deus como Unigênito[28]

Vale a pena ressaltar que, tanto no verso 1 (θεός), como no verso 14 (μονογενὴς), encontramos as declarações desacompanhadas de artigo, o que parece favorecer a leitura μονογενὴς θεός. Ou seja, do ponto de vista da consistência da análise interna, a leitura majoritariamente alexandrina é claramente favorecida.

PROBLEMAS TEOLÓGICOS

No que se refere a problemas teológicos, os adeptos da leitura com “θεός” parecem não identificar qualquer problema com qualquer uma das variantes. Harris, que tem preferência por “θεός” em função de sua antiguidade e dificuldade, diz que “de modo geral, eu não acredito que nenhuma das leituras altera de modo sério o sentido do texto[29]”.

Entretanto, os defensores da leitura “υἱός”, insistem que a leitura variante não é possível, pois introduz problemas teológicos sérios. Estranhamente, Ehrman é um desses que entende que existe um problema teológico na leitura com “θεός”. Muito embora isso não fizesse qualquer diferença para o autor (exceto para sua defesa de corrupção ortodoxa), Ehrman alega que Jesus só poderia ser o único Deus, se não houvesse outro Deus, o que o contexto imediato já rejeita: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Essa argumentação é bem similar à aquela que os defensores da Velha Ortodoxia apresentam.

Entretanto, para Pickering, acredita que o texto traz ainda um problema mais grave: “se Cristo recebeu sua divindade no processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade”. Ou seja, Pickering, embora concorde com a leitura sugeria por Ehrman, não pode concordar com a tese de Ehrman. Em parte, Pickering está dizendo que existe um conceito de geração na expressão e se a divindade de Cristo está em sua geração, então um sério problema teológico é auferido. Por outro lado, ele concorda com a possibilidade de que “υἱός”, como texto original, é uma defesa teológica ao adocionismo (!).

Normalmente, a Velha Ortodoxia sugere que a leitura “θεός” é uma forma de influência gnóstica no texto, como se existissem diversas divindades: Deus, o Deus unigênito, o Pai, o Logos. José Pedro de Almeida, um desses defensores zelosos da Velha Ortodoxia, diz:

Por não crerem na pre-existência do Filho [os gnósticos], eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)[30]

A acusação é séria: hereges alteraram o texto para acomodar suas convicções teológicas, como se fossem aceitas pelas escrituras. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.

Tendo considerado isso, temos que admitir que, à exceção de Ehrman, os cristãos zelosos da Velha Ortodoxia demonstram sua preocupação com a contaminação das escrituras. Entretanto, os seus argumentos não passam de uma opção zelosa. Em resposta a Almeida gostaria de apresentar três pontos de atenção:

  1. Se um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbal nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Tê-lo feito em Jo.1.18 não teria ajudado muito.
  2. Se um gnóstico escriba quisesse negar a encarnação do Verbo, teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Se o suposto escriba houvesse feito isso apenas em 1.18, teria feito um péssimo trabalho.
  3. Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Se a questão gnóstica realmente fosse rejeitar a divindade de Cristo, era mais fácil acrescer ou retirar informações do verso 1. Mas, isso também não aconteceu.

Já Pickering, parece não ter atentado muito bem para o termo “μονογενὴς”. Para ele, esse termo deve ser diferente de “μονος” (único) e no NT não existem evidências para que se entenda “μονογενὴς” com essa idéia. Contudo, o uso do termo em Hb.11.17 deveria tê-lo feito pensar nessa concusão: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas”. O texto diz que Isaque era o unigênito de Abraão, entretanto, ele não era o único filho gerado de Abraão: Ele era o Filho mais Amado de Abraão. Em Gênesis temos exatamente essa visão: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (22.2). O termo hebraico para descrever Isaque como único filho é o termo “Yachiyd” que é traduzido na Septuaginta por “agapetós” (o amado de modo especial). Não é à toa que Rudolf Bultmann defende que “a designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[31]”. Ou seja, “μονογενὴς[32]” não é usado apenas com o sentido de geração como parece sugerir Pickering[33], mas com sentido de único, especial, amado. Portanto, a dificuldade apresentada por ele não parece válida.

Contudo, Ehrman entende o termo dentro de um escopo mais abrangente e o define como “único”, assim como tenho defendido. Sobre isso, ele diz: “Por definição pode apenas existir um μονογενὴς: a palavra significa ‘único’, ‘único em sua espécie’. O problema, é claro, é que Jesus poderia ser o único Deus apenas se não houvesse outro Deus; mas no quarto evangelho, o Pai é Deus da mesma forma[34]”. Entretanto, Ehrman parece não usar o conceito de sua própria definição adequadamente. Se o termo significa “único em sua espécie”, não há qualquer dificuldade de compreensão: O Logos, como único em sua espécie, amado de modo especial é o único que poderia tornar Deus conhecido em sua essência, como Jo.1.18 parece estar a ensinar. Portanto, a ênfase recai sobre sua SINGULARIDADE (ninguém é como Ele) e não sobre sua EXCLUSIVIDADE (não há mais ninguém).

PARECER PESSOAL

A mim me parece que as argumentações em descrédito da variante preferida na análise de evidências externas não são consistentes, e minha preferências pela leitura “μονογενὴς θεός” parece bem evidente a essa altura. No que se refere consistência, tenho a impressão que essa leitura é mais consistente. No que se refere às possibilidades de transcrição, entendo que essa justifica mais adequadamente o surgimento das outras, sem contar que teologicamente, “μονογενὴς θεός” é certamente a leitura mais difícil. Assim, tenho acredito que essa leitura é, muito provavelmente, a leitura original desse verso.

Conclusão

Se as análises realizadas nesse estudo são verdadeiras, a Cristologia Testemunha de Jeová não poderia sustentar-se. É interessante notar que em todas as facetas dessa disputa textual, os teólogos reconhecem que o texto com “μονογενὴς θεός” poderia reforçar a divindade de Cristo. Aliás, para Ehrman isso é tão evidente que ele tem que supor que isso é uma corrupção da ortodoxia posterior ao texto.

Contudo, é de se admirar que a Tradução do Novo Mundo use exatamente essa leitura em suas traduções. Eu tenho a impressão que com o passar do tempo, eles deixarão essa leitura variante e passarão a adotar a outra, em funções teológicas. Os unicistas supostamentes bíblicos já fizeram isso (cf. John 1.18). Contudo, compreendendo o dilema teológico por traz dessa expressão, os tradutores mau intencionados usaram letras minúsculas para descrever o Logos: “o deus unigênito”. Para manter a malfadada teologia TJ, não alteraram o texto aqui, apenas o verteram com sua teologia exposta. Longe de ser um fraude piedosa, essa alteração é uma perversão descarada da verdade do texto que eles se propuseram a traduzir.


[1] Exceto se você for defensor do TR (Filho unigênito) ou da TNM (deus unigênito), pois para ambos as decisões já estão tomadas e consideradas como certas, mesmo que cada um esteja em um dos lados desse dilema (alguém continua errado).

[2] WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org).

[3] Exceto para a Cristologia Testemunha de Jeová, que se desfaz caso a leitura “monogenes theós” seja verdadeira.

[4] VINCENT, Martin, Vincent`s Word Studies. Vol.2 (Quickverse).

[5] HARIS, W.H., Prologue (John 1.1-18). (Bible.org)

[6] À esquerda, Codex Sinaítico do site Bible Researcher, por Michael Marlowe: Only Begoten Son or God?; à direita, Codex Washingtonensis adaptado de The Center for Study of New Testament Manuscript. Para ver o original, clique aqui.

[7] Informações retiradas do site www.laparola.net.

[8] Para ver como um cristão da Velha Ortodoxia se posiciona ante ao dilema de Jo.1.18, leia o artigo: Quem está mentindo em Jo.1.18?. Para ler meu posicionamento sobre esse artigo, leia: Xiitismo Textual.

[9] Seu livro pode ser baixado gratuitamente na internet: Clique aqui.

[10] PICKERING, Wilbur, Qual é o texto do Novo Testamento. Pp.209.

[11] Scrivener, Introduction to the Criticism of the New Testament. pp.525. IN: ROBERTSON, A.T., Word Pictures in the New Testament. (Quickverse).

[12] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.78

[13] Idem, pp.81.

[14] Idem, Ibid.

[15] ROBERTSON, A.T., Word Pictures in the New Testament. (Quickverse).

[16] METZGER, Bruce, A textual Commentary on the Greek New Testament. pp.198.

[17] Kostenberger, Swain, Father, Son and Spirit. pp.78 IN: WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org)

[18] PICKERING, Wilbur, Qual o texto do Novo Testamento? pp.209.

[19] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.79

[20] METZGER, Bruce, The Text of the New Testament. pp.46.

[21] FEE, Gordon, Studies in the Theory and Method of New Testament Textual Criticism. pp.243

[22] RUSH, William, The Trinitarian Controversy. pp.29-30 IN: WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org)

[23] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.78-82

[24] ALMEIDA, José Pedro de, Quem está mentindo em Jo.1.18: É “Deus Unigênito” ou “Filho Unigênito”.

[25] METZGER, Bruce, A textual Commentary on the Greek New Testament. pp.198.

[26] ROBERTSON, A.T., The Divinity of Christ in the Gospel of John. pp.45. Veja Também: ROBERTSON, A.T., Word Pictures in the New Testament. (Quickverse); e BLUM, Edwin A., The Bible Knolodge Commentary: John. (Quickverse).

[27] JAMIESSON, FAUSSET, BROWN, New Commentary on the Whole Bible. (Quickverse)

[28] VINCENT, Martin, Vincent`s Word Studies. Vol.2 (Quickverse).

[29] HARIS, W.H., Prologue (John 1.1-18). (Bible.org)

[30] ALMEIDA, José Pedro de, Quem está mentindo em Jo.1.18: É “Deus Unigênito” ou “Filho Unigênito”.

[31] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.

[32] Como título Cristológico, “μονογενὴς” assemelhasse a “ἀγαπητός” em sua aplicação. Isso é também percebido pelo fato de que os autores dos evangelhos sinóticos utilizarem “ἀγαπητός” como o título cristológico (Mt.3.17; 12.18; 17.5; Mc.1.11; 9.7; 3.22).

[33] Veja também o artigo: BERTI, Marcelo, O uso de monogenes em referência a Cristo. O debate semântico de monogenes repousa na construção do termo. Três possibilidades são reconhecidas:

(1) monos e gennao: nesse caso monogenes deveria ser entendido como único gerado, uma vez que genao significa gerar (Friberg Lexicon). Caso essa opção fosse válida, o termo deveria ser monogennes, com o acréscimo de um “n”;

(2) monos e gnomai: nessa forma o termo deveria ser entendido único nascido (Liddel-Scot, Strong`s); Contudo, não há qualquer uso no NT ou LXX que pareça justificar essa posição. Nem mesmo a estrutura do termo parece indicar essa opção.

(3) monos e genós: se essa possibilidade está certa, a tradução seria único em espécie, uma vez que genós descreve classe, espécie (BDAG, Thayer`s, Louw-Nida, DITNT)

[34] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.80.

02.11.09

O Conceito de “kosmós” em João

Enviado em Teologia de João tagged , , às 1:24 pm por Marcelo Berti

“A pregação de João consiste na mensagem de que Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu Filho ‘unigênito’ – não para julgá-lo, e sim para salvá-lo (3.16s; 1Jo.4.9, 14). Bem que ele merecia o juízo, pois o mundo inteiro jaz no maligno (1Jo.5.9); mas é da salvação que ele carece”

Rudolf Bultmann

Teologia do Novo Testamento pp.443

 O conceito de “kosmós” tem grande lugar na Teologia Joanina, sendo isto confirmado não apenas pelo uso constante do termo (78x no evangelho e 24x nas cartas; 185 é o número total), mas pelo papel teológico que ele desempenha. Como podemos perceber pela citação de RB, existe uma ligação muito grande entre o amor de Deus e o mundo. Alias a compreensão de mundo para João pode apresentar um sentido ainda mais especial para esse amor de Deus.

O que se pode perceber com clareza é que o termo tem papel fundamental na compreensão da relação que existe entre Deus e o ser humano. Por essa razão, abaixo sistematizo alguns usos do termo na teologia de João:

 Pode ser usado em referência a um local:

  1.  Criado por Deus (1.3). Em paralelo com o uso nos sinóticos, pode referir-se a ordem criada como um todo (universo – Jo.17.5, 24; cf. Mt.13.35; 24.21; 25.34; Lc.11.50)
  2. Pode referir-se à terra em particular (Jo.11.9; 16.21; 25.25; cf. Mt.14.9; Lc.12.30; Mt.4.8; 13.48). A terra é referida como o lugar da habitação dos homens, sentido percebido pelas expressões (DITNT pp.2501):
    • “Vindo ao mundo” (6.14; 9.39; 11.27; 18.37), também entendido como nascido
    • “Estando no mundo” (9.5), também entendido como “existir”
    • “Partindo do mundo” (13.1; 16.28), também entendido como morrer.
  3. No que se refere à criação, não há evidências de alguma coisa má a respeito do mundo (1.3). “O mundo criado continua a ser o mundo de Deus” (Ladd, pp.211)

 Pode referir-se aos habitantes desse mundo (metonímia):

  1. O gênero humano (12.19; 18.20; 7.4; 14.22), criado por Deus (1.10)
  2. Não é usado com a intenção de designar todos os homens que habitam a terra, mas o ser humano em geral (12.19)
  3. O amor de Deus é demonstrado para o gênero humano:
    • Deus ama o mundo (3.16)
    • Ele enviou seu Filho para salvar o mundo (3.17; 12.47)
    •  Jesus é o Salvador do Mundo (4.42)
    • Ele veio para tirar o pecado do Mundo (1.29)
    • E dar sua vida ao mundo (6.33)

 Pode referir-se ao caráter moral/espiritual do ser humano natural:

Em referência ao gênero humano, pode referir-se ao fato de serem considerados pecadores, rebeldes e alienados de Deus como humanidade decaída. Isso não implica que a humanidade tenha algo de maligno intrinsecamente, mas é mau pelo fato de ter-se afastado de Deus. Nesse quesito, o mundo é visto como:

  1. Impiedade (7.7)
  2. Não conhecedor de Deus (17.25)
  3. Não conhecedor de Cristo (1.10)
  4. Aquele que manifesta seu ódio contra o Filho de Deus (7.7; 15.18) que veio para salvá-lo.
  5. Dominado por satanás:
    • O poder maligno escravizou o mundo em sua rebelião para com Deus
    • Satanás detém o poder das trevas e da mentira
    • Satanás detém o poder do pecado e da morte
    • Satanás é príncipe deste mundo[1] (12.31; 14.30; 16.11; 1Jo.5.19) e dele descendem:
      • Os judeus descrentes (8.44)
      • Os pecadores em geral (1Jo.3.8,10)
  6. f. A natureza desse “kosmos” pode ser identificada como:
    • Trevas como uma fatalidade (1.10 + 1.5; cf. 8.12; 12.35, 46; 1Jo.1.5s; 2.8s,11). Em função disso, os seres humanos são cegos, sem que saibam ou queiram admitir (9.39-41; cf. 12.40; 1Jo.2.11)
    • Mentira
      • Conclusão retirada de afirmações indiretas (18.37; cf. 8.32; 1.17; 14.6; 1Jo.2.21; 3.19)
      • Conclusão retirada de afirmações diretas (8.42-45; cf. 1Jo.2.21, 27)
      • Aquele que não conhece a Jesus como o Messias é mentiroso (1Jo.2.22)
    • Um poder escravizador conhecido através da promessa de libertação pela verdade (8.32). “Kosmos é por natureza a existência na escravidão” (Rudolf Bultmann, pp.444)
  7. Assim, estar no mundo significa estar morto, pois quem crê em Cristo já passou da morte para a vida (5.24)[2].
  8. O ponto mais horrendo da morte é a inimizade do mundo contra a vida.
    • Como satanás é assassino por natureza (8.44), assim também são os que dele descendem;
      • Caim (1Jo.3.12)
      • Incrédulos (Jo.8.40)
    • O ódio ao irmão é a identificação com essa natureza assassina própria do Diabo (1Jo.3.15 cf. 2,9,11)[3].
  9. Por essa razão, esse mundo é contrastado com os discípulos de Cristo
    • Eles pertenceram ao Mundo, mas foram escolhidos do mundo para estar com Cristo (17.6)
    • Mas continuam a viver no mundo (13.1; 17.11, 15)
    • Não participam mais do caráter do mundo por que receberam a Cristo e sua Palavra (17.14)
    • Seus objetivos não são mais terrenos, mas centrados em Deus (15.19; 17.14) o que evidencia que não são mais do mundo

 Pode expressar a cosmovisão de João sobre a humanidade:

  1. A vinda de Cristo criou uma divisão entre os homens:
    • i. Deus escolheu homens dentre as pessoas do mundo (15.19) para que formassem uma nova comunhão centrada em Cristo (17.15).
    • ii. O mundo odiou a Jesus e também odiará seus seguidores (15.18; 17.14)
  2. Os discípulos não devem retirar-se do mundo, mas viver no mundo, motivados pelo amor de Deus ao invés do amor ao mundo (1Jo.2.15)
    • i. Eles deveriam dar continuidade na missão de Cristo (17.18)
    • ii. Como Cristo entregou-se ao cumprimento da vontade de Deus, os discípulos não deveriam encontrar satisfação e segurança no nível humano, como o mundo tenta fazer, mas na dedicação ao propósito de redenção de Deus (17.17, 19).
    • iii. Deviam guardar-se do mal (17.15)
  3. Essa divisão não é uma divisão absoluta. Os homens podem ser transferidos para a condição de Filho de Deus por ouvir a mensagem de Jesus (17.6; 3.16).
  4. Assim, o ministério de Cristo é perpetuado por meio de seus seguidores (20.31)
    • O mundo não pode receber o ES (14.17)
    • Mas muitos dele serão por Ele convencido (16.8) e aceitarão o testemunho dos discípulos de Jesus (17.21) 
    • E crerão nele, mesmo sem nunca tê-lo visto (20.39).

[1]       Quando apresentado em oposição a Deus, João usa a expressão “este mundo” (kosmos houtos; 8.23; 9.39; 11.9; 12.25, 31; 13.1; 16.11; 18.36; 1Jo.4.17)

[2]       Por isso é que Cristo traz a água da vida e o pão da vida (4.10; 6.27ss); é a luz da vida (8.12), ressureição e a vida (11.25; 14.6).

[3]       Por isso o novo mandamento de Jesus é o do amor ao irmão (13.34s; 1Jo.2.7s) e a demonstração desse amor é uma evidência de ter passado da morte para a vida.

04.28.08

O uso de monogenes em referência a Cristo

Enviado em Teologia de João tagged , , às 9:08 pm por Marcelo Berti

 Talvez o assunto mais controvertido na Teologia Joanina no escopo da cristologia deva ser o uso e aplicação do termo gr. “monogenes” a Jesus Cristo. Em primeira João vemos o termo acontecer em 4.9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele[1]. Nesse texto o que podemos perceber é que a manifestação do amor de Deus consiste no envio de seu filho ao mundo com o objetivo de que os que depositam sua fé nEle vivam por meio dEle. A expressão “unigênito” nesse verso é a tradução do termo gr. “monogenes” e tal como foi traduzido pode ser compreendido como único gerado. Tal compreensão tem causado grandes dificuldades na compreensão da Pessoa de Cristo e desafiado teólogos por toda a história a compreenderem seu real significado.

 

A estrutura do termo monogenes

A estrutura do termo tem sido palco de grande discussão:

  • 1. Gennäo: Uma das possibilidades de estrutura desse termo é a junção do substantivo “monós” (único) com o verbo “gennäo” (gerar) traduzindo a idéia de “único gerado”. O Friberg Lexicon oferece entre muitas opções a possibilidade de que João tivesse utilizado o termo com essa construção, traduzindo-o como único gerado (unigênito)[2]. Além disso, existem muitas evidências históricas para afirmar que teólogos acreditavam que o termo em pauta é derivado da junção do termo “monos” com “gennäo”, o que traria exatamente a idéia de “único gerado”. O Holman Bible Dictionary afirma o seguinte sobre o termo: “A expressão ‘unigênito’ deriva diretamente de Jerônimo (340?-420) que substituiu o termo unicius (único), a leitura do latim antigo, com unigenetus (único gerado) enquanto traduzia a Vulgata Latina[3]“. Talvez essa leitura tenha influenciado a construção do Credo de Nicéia (325d.C.), que foi revisado em Constantinopla em 381d.C., que traz a seguinte declaração sobre Cristo: “Em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos[4]“. Acredita-se que Jerônimo teria substituido o termo por intencionar combater ensinos arianos sobre Cristo, que ensinava que havia sido feito pelo Pai. Outros teólogos falam desse termo de modo compatível com essa construção do termo. Esse é o caso de Chafer, que diz que quando o termo é utilizado em relação ao Filho no NT traz a idéia de que “Ele é o Filho de Deus como ninguém poderia ser porque o único gerado foi ele, e já existia no estado perfeito que Ele desfruta eternamente[5]“. Essa é a visão mais tradicional do termo e está em conformidade com a expressão histórica referente a Cristo que foi “eternamente gerado da substância do Pai” encontrado no vigésimo nono ponto do credo atribuído a Atanásio[6]. Quem parece compartilhar essa opinião é Jonatas Edwards. Sobre o assunto, ele diz: “O Filho é a Deidade gerada pelo entendimento do Pai, ou tendo uma idéia de si mesmo e subsistindo nessa idéia[7]“. Em outro lugar também diz ele fala da “geração eterna do Filho” e completa dizendo que “gostaria de adicionar que a geração eterna do Filho consiste no Pai ter uma idéia perfeita dele, que é o Filho[8]“.

 

  • 2. Ginomai: Segundo o Strong`s o termo “monogenes” (G3439) é resultado da junção de “monós” (G3441) com “ginomai” (G1096). Segundo esse mesmo léxico, a definição é exatamente único nascido, podendo ser também aplicado como “único filho”[9]. Fato semelhante é encontrado no Liddel-Scott Lexicon que sugere alguma relação de monogenes com o uso Épico “mouno-genés” em Heródoto, Hesíodo e outros, que deriva-se de ginomai. Sendo que ainda é utilizado em Eurípedes em relação a um laço familiar: “monogenes aima” (do mesmo sangue)[10].

 

  • 3. Genós: Por outro lado, é possível que o termo seja resultado da junção de “monós” com “genós”, o que forneceria uma leitura completamente diferente do termo. “Genós” pode significar espécie, tipo, classe. Caso essa seja a construção do termo, veríamos nessa expressão uma indicação da unicidade de Cristo como Filho de Deus. Essa opção é compartilhada por BDAG Lexicon, Thayer`s Greek Lexicon, UBS Lexicon, Louw-Nida Lexicon, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Chave Lingüística do Novo Testamento Grego, além de alguns comentaristas e teólogos. Embora não considere que o conceito de “monogenes” seja muito claro no Novo Testamento, Ladd diz: “De qualquer modo, João declara Jesus ser o único, o exclusivo Filho de Deus“. Pouco a frente acrescenta: “João pretende dizer que Jesus é o único de sua classe. Outros podem tornar-se filhos de Deus, mas a filiação de Jesus permanece distinta[11]“. Sttot diz o seguinte: “Aplicado a Jesus, o termo indica sua singularidade; Ele é ‘o Filho’ no sentido absoluto[12]“. Westtcot afirma o seguinte sobre o termo: “Monogenes descreve a absoluta e única relação entre Pai e Filho em sua natureza divina[13]“. Rees acredita que monogenes enfatiza mais “a Sua unicidade que a sua Filiação, embora os dois conceitos estejam presentes[14]“. Marshall afirma: “Jesus refere-se ao Pai como único Deus verdadeiro (Jo.17.3; cf. Jo.5.44). Não existe lugar para nenhum outro ser ocupar uma tal posição em relação ao Pai. O adjetivo ‘monogenes’ (Jo.1.14, 18; 3.16, 18) enfatiza tal restrição e destaca o papel de Jesus como o único Revelador e Salvador[15]

 

Portanto, podemos perceber que o termo tem sido compreendido de modo muito controvertido por léxicos e teólogos. Entretanto, parece-nos mais sensato que a última opção seja a mais razoável, pelos seguintes fatos:

  • 1. A primeira opção pode ser identificada como possibilidade, mas alguns comentaristas têm sugerido que caso fosse a construção do termo uma junção de “monós” com “gennäo” dever-se-ia encontrar um outro “n” no termo: “monogennes”[16].
  • 2. A segunda opção (ginomai) parece de tão pouco respaldo que não verifica-se nenhum uso do termo na LXX ou NT que justifique qualquer ligação entre “monós” e “ginomai”.
  • 3. A terceira opção sagra-se favorita pelo grande número de declarações diretas que recebe. Todos os léxicos mencionados nessa opção declaram que objetivamente que o termo deriva do substantivo “genes” e não do verbo “gennäo”. Essa é a opinião de F.F. Bruce: “Etimologicamente, a palavra significa o único (monós) do seu tipo (genós)”. Entretanto, pouco a frente, o mesmo autor reconhece que é possível que João tivesse realizado um uso diferenciado para o termo quando aplica a Jesus Cristo: “Com referência a Jesus como Filho de Deus, a tradução tradicional ‘unigênito’(do latim unigenetus) é mantida, talvez por que o evangelista tenha associado -genes com o verbo gennäo (usado no v.13), tomando, assim, o composto monogenes no sentido ou de ‘único gerado’ ou ‘gerado Único’[17]“. Isso nos remete à seguinte conclusão: Etimologicamente parece evidente que o termo derive da junção de “monós” com “genós”, mas há ainda a possibilidade de o termo ser utilizado de outro modo.

 

Segue-se que a etimologia não determina necessariamente o tipo de uso do substantivo, pois é possível que alguém faça uso do termo considerando a penas sua aplicação e não sua origem. Até por que, a origem de um termo aponta para nada mais que sua origem.

Por esta razão que é necessário observar usos específicos do termo para tentar compreender como esse termo pode ser utilizado, para então nos aproximarmos do seu uso na literatura joanina e conceituarmos seu uso em referência a Cristo.

 

O uso de Monogenes na LXX

O termo “monogenes” foi utilizado cerca de 4x na LXX[18] em tradução do termo hebraico “Yachiyd” (Jz.11.34; Sl.21.20; 25.16; 35.17). O termo hebraico é utilizado cerca de 12x em todo o Velho Testamento, sendo que em 7x a LXX traz o verbo gr. “agapetós” (Gn.22.2, 12, 16; Pv.4.3; Jr.6.26; Am.8.10; Zc.12.10) como tradução. Existe outro termo gr. que faz alguma correlação com o termo hebraico “yachiyd”, que é utilizado em Sl.67.7 na LXX (Sl.68.5 ARA) que é o termo “monotrópos” que denota o sentido de sozinho, solitário, mas parece não ter direta conexão com “monogenes”. O termo foi utilizado de três modos diferente na LXX:

 

  • 1. Como indicação de um único filho: Nos apócrifos podemos ressaltar alguns usos do termo que podem nos ajudar a compreender seu uso. Em Tobias 3.15, vemos uma declaração interessante: “Sou filha única do meu pai, ele não tem outro filho para herdar, não tem junto a si irmão algum, nem parente a quem eu me deva reservar“. O termo em destaque representa o verbete “monogenes”. O uso do termo nesse contexto parece consoante com o uso de Jz.11.34: “Vindo, pois, Jefté a Mispa, a sua casa, saiu-lhe a filha ao seu encontro, com adufes e com danças; e era ela filha única; não tinha ele outro filho nem filha“. Em ambos os casos vemos que além do emprego do termo, houve um acréscimo de informação para não deixar dúvidas sobre o que se pretende dizer com o emprego do termo (cf. Tobias 6.11; 8.17 – mesmo uso do termo)

 

  • 2. Como definição de um único filho gerado: Outro uso interessante para o termo na nas versões gregas de textos apócrifos encontra-se nos Salmos de Salomão 18.4: “A tua instrução está sobre nós como sobre um filho primogênito e unigênito, para redimir a dócil alma dos pecados cometidos na ignorância“. O uso aproximado e equivalente de “monogenes” e “prototokós” antecedidos pelo termo “huiós” em um texto antigo[19] parece apontar para o fato que o termo poderia ser entendido como “único filho gerado”.

 

  • 3. Como definição de unicidade: Entretanto, outro uso é encontrado em livros apócrifos que nos auxiliam a compreender a diversidade de significados que termo pode englobar: “Nela há um espírito inteligente, santo, único, multiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo” (Sabedoria de Salomão 7.22). Nesse texto podemos perceber com clareza que o uso intencionado era a idéia de “sem igual”, “incomparável”, uma possibilidade para o termo. Ou seja, na LXX, o que podemos perceber é que o uso é diverso, e pode significar um filho único, um único filho gerado, como alguém que é único.

 

O que se pode perceber aqui é que o uso do temo expressa um pouco mais que sua origem. Os autores da LXX conceituaram de modo diferente o termo, em ocasiões diferentes, isso confirma o que já se havia dito: A etimologia não define necessariamente o modo de uso de um termo.

Contudo, com uma análise mais apurada, podemos traçar um paralelo entre os dois termos mais utilizados na LXX para “yachiyd” para definirmos uma possível relação sinônima entre ele. Aliás, a grande proximidade entre “monogenós” e “agapetós” é tão grande (em referência a Cristo) que Rudolf Bultmann fala que “A designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[20]“. Para ele a relação não é apenas de proximidade léxica, mas de proximidade de definição, tal como verificada na LXX.

F.F.Bruce apresenta esse conceito quando observa o uso do termo hebraico “yachiyd” em Gn.22.2: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (cf. v.12; 16). Ele diz: “Isaque não era literalmente o ‘único’ filho de Abraão, mas era seu filho mais amado, ‘especial’, a quem ele dava tudo o que tinha[21]“.

Entretanto, o termo hebraico per si pode oferecer algum suporte para a compreensão do termo grego utilizado por João em referência a Cristo. Essa é a opinião dos editores do DITVT: “Teologicamente, yachiyd é importante pelas marcas que deixa na cristologia do NT[22]“. Para o DITVT, a compreensão o termo hebraico suporta a compreensão do termo neotestamentário. É por essa razão que chega a afirmar que existe alguma ligação entre o fato acontecido com Abraão e o que aconteceu com Cristo. Ao considerar Isaque como “agapetós” Gilchrist lembra-nos que Cristo também teve esse mesmo título (Mt.3.17; 17.5, Mc.1.1; 9.7; Lc.3.22; 2Pe.1.17). Dever ser por isso que o R. Laird Harris chega a concluir: “É, portanto, justificada a idéia de que em João o termo monogenes não se refere ao fato de que o Filho procede do Pai, como nas famílias humanas, mas à singularidade e ao amor do relacionamento trinitário[23]“.

Desse modo, fica evidente que a relação entre o termo hebraico e o grego podem auxiliar a conceituar o uso de “monogenes” em relação a Cristo. Nos falta, então, observar o uso neotestamentário e verificar sua contribuição.

 

O uso de Monogenes no NT

No Novo Testamento não encontramos tantos usos do termo, mas os usos encontrados podem contribuir com o que já foi demonstrado da LXX. Predominantemente no Evangelho de Lucas encontramos o termo “monogenes” em referência a filhos que são únicos: “Como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela” (Lc.7.12; cf. 8.42). Talvez, no evangelho de Lucas o uso que traga alguma contribuição encontra-se em Lc.9.38: “E eis que, dentre a multidão, surgiu um homem, dizendo em alta voz: Mestre, suplico-te que vejas meu filho, porque é o único“. Muito embora fique explícito no contexto que o termo é aplicado a um filho que é único, a construção grega nos sugere que Lucas tenha empregado o termo “monogenes” especificamente como “único”. O texto grego diz: “hoti monogenes moi estin“. Como o termo “huiós” está presente na sentença não é de se esperar que Lucas faça uso do termo com esse significa, ainda que incluso. Porém, ainda assim, vemos um uso aplicado a expressão de um único filho.

Talvez o uso mais interessante no Novo Testamento, fora da literatura de João encontra-se em Hebreus 11.17: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas“. Aqui, caso semelhante ao encontrado na LXX (Gn.22.2) é visto no NT. Isaque não era o filho único, no sentido de único filho gerado, mas o filho especial, amado, aquele que herdaria as promessas feitas a Abraão. Nesse caso, vemos que “monogenes” tem uma aproximação muito forte com “agapetós” e confirma-se o que havia sido observado pelo Rudolf Bultmann.

O DITNT afirma que o termo monogenes “é encontrado como título cristológico somente em João. Mateus e Marcos empregam o termo “agapetós’[24]“. Novamente verifica-se a correlação existente entre os dois termos. Pouco à frente, o mesmo dicionário diz: “Monogenes se emprega para destacar Jesus de modo sem igual, acima de todos os seres terrestres e celestiais; no emprego desta palavra, o significado presente, soteriológico se ressalta de modo mais forte que sua origem[25]“. Westcott parece completar o sentido quando diz que “monogenes” “se centraliza na existência Pessoal do Filho, e não na geração do Filho[26]“.

Como é possível perceber, o uso de “monogenes” pode ser aplicado ao Filho em expressão a sua Unicidade com Deus, como único autorizado a expressar: “Eu e o Pai somos um”, como tem sido demonstrado pela estrutura do termo, seu uso na LXX e no Novo Testamento. Resta-nos, então, compreender o uso do termo nos escritos de João.

 

O uso de Monogenes na Teologia de João

Como já foi bem evidenciado, o termo tem diferentes usos em diferentes contextos. Entretanto, pode-se afirmar que existe uma coerência entre o uso da LXX e do NT, visto serem comuns em alguns casos. Isso nos habilita a afirmar que o termo pode ser compreendido dentro da especifidade do seu uso em contextos específicos. Isso nos leva a buscar compreender como esse termo foi utilizado em referência a Cristo na literatura de João.

O termo na literatura joanina pode ter três conotações interessantes:

  • Monogenes auxilia a compreensão da grandiosidade do amor de Deus: O primeiro ponto a ser percebido é que o termo “monogenes” como sinônimo de “agapetós” pode ser compreendido como a expressão do amor de Deus quando observado dentro do escopo soteriológico de João. Observe o que diz 1Jo.4.9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele“. O envio de Deus de seu Filho que é “monogenes” ao mundo é manifestação do amor de Deus. Ou seja, esse Filho que é de modo especial amado, que é único em sua classe, que é Filho como ninguém mais é habilitado a ser, que tem relacionamento especial com Deus Pai, é ofertado como pagamento propiciatório para o mundo. Da mesma forma que Abraão oferece seu único filho (amado de modo especial) Cristo é ofertado. Esse Filho (huiós) é agora o modelo de vida para todos os filhos (tékna) de Deus recebidos adotados pela fé no sacrifício vicário de Cristo. Deve ser por isso que Lutero chega a dizer: “Deus tem muitos filhos, mas apenas um ‘monogenes’, por meio de quem são feitas todas as coisas e todos os outros filhos[27]“. O Filho unigênito é a maior prova do amor de Deus, e o termo “monogenes” o ressalta de modo especial, como fica evidente nesse verso: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Esse é o único verso em toda a escritura que apresenta objetivamente, com termos declarados, que Deus amou ao mundo. Vemos afirmações nas escrituras sobre o amor de Deus ao mundo, mas esse é a única vez que encontramos o verbo amar ligado ao substantivo mundo. O elo nessa ligação é certamente o Filho Único, amado de modo especial. F.F. Bruce fala sobre esse verso: “O amor de Deus não tem limites; ele engloba toda a humanidade. Nenhum sacrifício foi grande demais para trazer sua intensidade sem medidas a homens e a mulheres: o melhor que Deus tinha para dar, ele deu – seu único Filho, tão amado[28]” A compreensão da pessoa de Cristo, qualificada nesse verso como “monogenes”, nos habilita a entender o grandiosidade do amor de Deus em sua disposição de ofertar seu Filho Amado de modo especial. É por essa razão que fica evidente que o termo “monogenes” nos auxilia a compreender a grandiosidade do amor de Deus em João.

 

  • Monogenes expressa parte do carater soteriológico de Cristo: Monogenes como caracterização de Cristo é visto em João de modo claramente soteriológico: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Nesse texto fica evidente a conexão entre “pistis”  (fé) e  a “zoen aionion” (vida eterna) como antítese de “apóllumi” (perecer). Pouco a frente na literatura joanina lemos: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). Mais uma vez o termo aparece em um contexto de definições soteriológicas para João, e estabelece-se outro termo importante no contexto da fé salvífica, pois quem cre não é “krino” (julgado), outro termo bem soteriológico em João. Ou seja, alvo da fé salvífica deve ser centrada no Filho que é “monogenes”. Deve, portanto, existir uma singularidade especial nesse Filho por sua Obra e caracterização. Como já foi mencionado por Marshall, que Jesus é o “único Revelador e Salvador“. Ou seja, no que se refere a Soteriologia joanina, o termo monogenes enfatiza a singularidade de Cristo, talvez da mesma forma que Paulo o faz em 1Tm.2.5.

 

  • Monogenes expressa a divindade de Cristo: Aqui talvez esteja o ponto mais interessante do uso de “monogenes” em João. Dois textos poderiam ser utilizados como paralelo para essa informação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14) e “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo.1.18). Rudolf Bultmann diz o seguinte sobre o primeiro verso: “O monogenes absoluto de Jo.1.14 deve provir da mitologia gnóstica[29]“. É provável que essa opinião aconteça pois Bultmann não vê o uso do termo de modo absoluto em nenhum outro lugar na literatura religiosa judaica ou cristã. Entretanto, esse uso absoluto faz uma referência interessante se considerar como a influência de João na compreensão de Cristo, e não na influência gnóstica na visão de João, pois, embora único uso, parece bem respaldado pelo contexto a referência que faz nesse verso. O verbo é chamado de unigênito. Essa relação, reforça o conceito da divindade de Cristo já esboçada nos primeiros versos do capítulo. Essa relação de proximidade entre “logos” e “monogenes” parecem reforçar a divindade do Filho, conclusão antagônica a retirada desse texto pelos arianos modernos (TJ). Em reforço à essa idéia, vemos o debate textual sobre o verso 18. Onde leu-se “Filho unigênito”, é possível que seja lido “Deus unigênito”, o que levaria às últimas conseqüências o conceito da proximidade entre “monogenes” e “logos” no verso 14. Em seu comentário aos dilemas textuais, Bruce Metzger afirma: “Com a aquisição de P66 e P75, onde ambos lêem theos, o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecido[30]“. Robertson afirma que a leitura de “monogenes theos é indubitavelmente a leitura verdadeira do texto[31]“. Vincent, mesmo que aponte para a dificuldade de definição do texto, afirma: “Muitos dos principais manuscritos e um grande grupo de evidencias antigas suportam a leitura monogenes theos[32]” F.F. Bruce textifica: “O peso da evidência textual favorece aqui a versão ‘monogenes theos’, Deus unigênito[33]“. Essa leitura foi considerada como “quase certa” pelos editores da quarta edição do texto grego da UBS. Aliás, essa é a opção do Nestle-Aland. Por ser tão bem aceita, é vista na ARA, NVI, NIV, que traduziu a expressão mo o único Deus. Considerando o verso 14 com sua conexão com o logos, o termo monogenes no verso 18 reafirma categoriamente a divindade de Cristo.

 


 

[1] No evangelho de João vemos o termo ser utilizado em mais quatro ocorrências (cf. Jo.1.14, 18; 3.16;18).

[2] FRIBERG, Timothy, FRIBERG, Barbara, MILLER, Neva, Analytical Lexicon of the Greek New Testament.

[3] BUTLER, Trent, Holman Bible Dictionary. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.

[4] CREDO DE NICÉIA, In: GRUDEN, Wayne, Teologia Sistemática. Vida Nova:1999, pp.996.

[5] CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistemática. Hagnos:2008, Vol.VII, pp.272

[6] O Credo de Atanásio, subscrito pelos três principais ramos da Igreja Cristã, é geralmente atribuído a Atanásio, Bispo de Alexandria (século IV), mas estudiosos do assunto conferem a ele data posterior (século V). Sua forma final teria sido alcançada apenas no século VIII. O texto grego mais antigo deste credo provém de um sermão de Cesário, no início do século VI.

[7] EDWARD, Jonathan, Works. IN: CRAMPTON, Gary, A conversation with Jonathan Edwards. Reformation Heritage Books, pp.70

[8] Idem

[9] STRONG, James. Strong`s Hebrew and Greek Dictionaries. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.

[10] LIDELL, Henry George; SCOTT, Robert, A Greek-English Lexicon. Bibleworks, 2003

[11] LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento. Exodus:1997, pp.232.

[12] STOTT, John, I, II, III João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1988, pp.140

[13] WESTCOTT, Brooke, Commentary on Hebrews, IN: ISBE. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.

[14] ISBE. Parsons Tecnology, Iowa, 1998.

[15] MARSHALL, I. Howard, Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:2007, pp.446

[16] MCCORD, Hugo, Gospel advocate.

[17] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.46 (nota de rodapé 82).

[18] Sem contar as aparições em livros apócrifos: Tobias 3.15; 6.11; 8.17; Tobit 6.15; Odes.14.13; Sabedoria de Salomão 7.22; Salmos de Salomão 18.4

[19] O texto denominado “Salmos de Salomão” é um conjunto de 18 salmos escritos nos moldes do livro de Salmos e atribuídos a Salomão. Entretanto, tem-se chegado a conclusão que esses textos são conjuntos de escritos de cristãos do primeiro ou segundo século.

[20] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.

[21] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.46.

[22] HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason Jr.; WALTKE, Bruce, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:1998, pp.608.

[23] Idem, pp.609.

[24] COENEN, Lothar; BROWN, Colin, O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:1983, Vol. IV, pp.672.

[25] Idem.

[26] WESTCOTT, Brooke, The Epistles of St. John, IN: COENEN, Lothar; BROWN, Colin, O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:1983, Vol. IV, pp.673

[27] LUTERO, Martinho IN: CHAMPLIN, Russel Norman, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Voz Bíblica, Vol. 2, pp.274

[28] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.87.

[29] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.

[30] METZGER, Bruce, Textual Commentary on the Greek New Testament. UBS:1971, pp.198.

[31] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.5

[32] VINCENT, Marvin R., Vincent`s Word Studies. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.2

[33] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.50

04.11.08

Temas teológicos em 1João

Enviado em 1João, Teologia de João tagged , , , às 2:53 pm por Marcelo Berti

Primeira Epístola de João

 

Vs

TEXTO

TEMA TEOLÓGICO

Capítulo 1

1

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida Cristologia

  • § Eterno (pré-exisitente)
  • § Humano
  • o Audível
  • o Visível
  • o Palpável
  • o Logos

2

A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada Cristologia:

  • § Manifestação da vida
  • § Vida eterna
  • § Divino (estava com o Pai)
  • § Revelação de Deus

 

Kerigma apostólico

  • § Cristo visto pessoalmente
  • § Cristo como centro do Kerigma e testemunho

3

Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo Kerigma apostólico:

  • § Centrado nas obras realizadas por Cristo e no seu ensino
  • § Com objetivo de que outras pessoas tenham comunhão com os apóstolos
  • § A comunhão dos apóstolos é com o Pai e o Filho.

4

Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa Kerigma apostólico:

  • § Objetivo era a alegria completa

5

Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma Kerigma apostólico

  • § Originada em Cristo
  • § Destinada a cristãos
  • § Conteúdo:
  • o Deus é Santo (luz)
  • o Deus é isento de mácula (trevas)

Dualismo Joanino

  • § Referente a Deus: Luz e Trevas= Santidade x Pecado

6

Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Dualismo Joanino

  • § Referente a vida cristã: Aplicação do conceito de Luz e Trevas.

 

Vida Cristã:

  • § Mentir = não praticar a verdade
  • § Ter comunhão exige verdade

7

Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Teologia Própria

  • § Deus está na luz

 

Vida Cristã

  • § Andar em luz gera unidade entre irmãos

 

Cristologia

  • § Sangue como purificação
  • § Resultado do andar na luz e ter comunhão

8

Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Vida Cristã

  • § Não estamos sem pecados
  • § Quem acredita nisso a si mesmo se engana
  • § Aquele que acredita nessa mentira não está na verdade

9

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Vida Cristã

  • § Confissão dos pecados pressupões pecado
  • § Deus perdoa o pecado e purifica de toda injustiça o cristão confesso

 

  • o Portanto, sua fidelidade exige seu perdão e sua purificação do crente confesso
  • § Deus é justo no perdão e na purificação
  • o Se é justo é por que seu perdão e purificação é um débito que tem a suprir
  • o Portanto, sua justiça demanda sua intervenção perdoadora e purificadora

10

Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós Vida Cristã

  • § Dizer-se isento de pecado é blasfêmia; não há quem não peque.

 

Vs

TEXTO

TEMA TEOLÓGICO

Capítulo 2

1

Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo Destinatários

  • § Filhinhos: Possivelmente cristãos “gerados” por João

 

Objetivo da Escrita

  • § Para que seus leitores não pequem

 

Cristologia

  • § Intercessor junto ao pai [parákletos]
  • § Justo
  • § Disponível ao cristão que peca

2

Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo Cristologia

  • § Cristo e a propiciação pelos pecados
  • § É possível que o plural sugira ações

3

Sabemos que o conhecemos, se obedecemos aos seus mandamentos Vida Cristã

  • § A obediência é a primeira evidência de conhecer a Cristo.
  • § Ela provê certeza ao cristão

4

Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele Vida Cristã

  • § A afirmação não é suficiente
  • § Obediência é exigência
  • § O que contradiz sua afirmação com a conduta [hipócrita] não tem a verdade

5

Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele Vida Cristã

  • § O amor de Deus é aperfeiçoado na obediênica

6

aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou. Vida Cristã

  • § O verdadeiro cristão não é hipócrita: fala o que vive
  • § O verdadeiro cristão conforma seu modo de viver com a forma com que Cristo viveu

7

Amados, não lhes escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que vocês têm desde o princípio: a mensagem que ouviram. Advertência apostólica

  • § A mensagem é a mesma, não trata-se de outra mensagem, por isso não é novo mandamento [mesmo evangelho]

8

No entanto, o que lhes escrevo é um mandamento novo, o qual é verdadeiro nele e em vocês, pois as trevas estão se dissipando e já brilha a verdadeira luz. Advertência apostólica

  • § Mas é nova a mensagem no que diz respeito a santificação

9

Quem afirma estar na luz mas odeia seu irmão, continua nas trevas. Vida Cristã

  • § Ódio a outros cristão é evidência de vida em pecado

10

Quem ama seu irmão permanece na luz, e nele não há causa de tropeço. Vida Cristã

  • § O amor aos irmãos é a segunda evidência de vida em comunhão com Deus
  • § No cristão que ama não encontra-se causa de tropeço para outros cristãos.

11

Mas quem odeia seu irmão está nas trevas e anda nas trevas; não sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram Vida Cristã

  • § O cristão odioso está sem comunhão com Deus e anda em pecado.
  • § Está cego e desorientado por causa da convivência com o pecado, ou com um ambiente pecaminoso.

12

Filhinhos, eu lhes escrevo porque os seus pecados foram perdoados, graças ao nome de Jesus. Destinatários

  • § Filhinhos.

 

Objetivo

  • § Escreve a seus “filhos” por que os pecados deles foram perdoados

 

Cristologia

  • § O nome de Cristo é o responsável pelo perdão

13

Pais, eu lhes escrevo porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu lhes escrevo porque venceram o Maligno Destinatários

  • § Pais: Por que conhecem a Cristo
  • § Jovens: Por que venceram o maligno

 

Cristologia

  • § Pré-existente

 

Satanologia

  • § Satanás,o diabo foi denominado como “o maligno” [aquele cuja essência é o mal]

14

Filhinhos, eu lhes escrevi porque vocês conhecem o Pai. Pais, eu lhes escrevi porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece e vocês venceram o Maligno.  

15

Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele Vida Cristã

  • § O cristão não deve amar ao mundo nem o que está no mundo. Quem ama o mundo não tem o amor de Deus.
  • § O amor ao mundo é antagônico ao amor do Pai.

Dualismo

  • § Mundo x Deus

16

Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provém do Pai, mas do mundo Hamartiologia

  • § Cobiça da carne
  • § Cobiça dos olhos
  • § Ostentação de bens [soberba da vida]
  • § Procede do mundo
  • § São antagônicas a Deus

17

O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre Dualismo

  • § Mundo + cobiça x Deus

 

Vida cristã

  • § Aquele que faz a vontade do Pai tem uma vida que permanece para sempre.

18

Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora Escatologia

  • § Estamos na última hora;
  • § Próximos a chegada do anti-cristo

 

Eclesiologia

  • § Falsos mestres na igreja são chamados anti-cristos.

19

Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos Eclesiologia

  • § Falsos mestre saem da própria igreja
  • § Mas, nunca fizeram parte da igreja
  • § O fato de saírem da igreja [pregação de nova doutrina] explicita que nunca foram cristãos [dos nossos]

20

Mas vocês têm uma unção que procede do Santo, e todos vocês têm conhecimento Vida Cristã

  • § Todos os cristãos tem uma unção da parte de Deus [unção pelo Espírito Santo]
  • § Os cristãos a quem destinou-se essa carta, haviam sido instruídos e por isso tinham conhecimento

 

Teologia própria

  • § Deus é Santo

21

Não lhes escrevo porque não conhecem a verdade, mas porque vocês a conhecem e porque nenhuma mentira procede da verdade. Eclesiologia

  • § Nenhuma heresia sai das escrituras. Elas provém da deturpação movida por corações perversos.

22

Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo: aquele que nega o Pai e o Filho Vida Cristã

  • § Qualquer um pode opor-se a Cristo, basta negar que Jesus é o Cristo.
  • § Qualquer um pode ser um anti-cristo, basta negar o Pai e o Filho

23

Todo o que nega o Filho também não tem o Pai; quem confessa publicamente o Filho tem também o Pai. Vida Cristã

  • § Negar o Filho implica em não ser salvo
  • § Confissão pública a confirma

24

Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai. Vida Cristã

  • § Demanda-se cuidado por manter a mensagem original intacta e com o cristão
  • § Essa é a garantia de que nós permanecemos no Filho e no Pai

25

E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna Vida Crista

  • § A vida eterna é uma promessa feita pelo Pai.

26

Escrevo-lhes estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar Objetivo da Escrita

  • § Alerta a cristãos fiéis para que saibam quem são os que deturpam a fé

27

Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou Vida Cristã

  • § A unção de Deus permanece no Espírito Santo
  • § Esses cristãos não eram carentes de ensino (cf. 2.20).
  • § A unção é verdadeira (não produz a mentira)
  • § Essa unção ensina o cristão a respeito de todas as coisas referentes a salvação
  • § Por isso devemos permanecer em Cristo como ele mesmo havia ensinado

28

Filhinhos, agora permaneçam nele para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dele na sua vinda Advertência apostólica

  • § Permanecer em Cristo é garantia de não sermos envergonhados em sua volta.

 

Cristologia – Escatologia

  • § Cristo se manifestará
  • § Cristo voltará

29

Se vocês sabem que ele é justo, saibam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele Cristologia

  • § Cristo é justo

 

Vida Cristã

  • § Quem pratica a justiça testifica que é nascido de Cristo.

 

Vs

TEXTO

TEMA TEOLÓGICO

Capítulo 3

1

Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu Teologia Própria

  • § O amor de Deus é grande
  • § Adotou-nos como filhos
  • § Nem Deus nem seu amor é conhecido pelo mundo

 

Vida Cristã

  • § Somos amados pelo grande amor de Deus
  • § Somos chamados de filhos dele.
  • § O mundo não nos conhece como tal

 

Dualismo

  • § Deus x Mundo

2

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é Vida Cristã

  • § Somos filhos de Deus
  • § Mas não somos como seremos [santificação em processo]
  • § Alvo final: Cristo [apenas com intervenção divina]
  • § Seremos como Cristo apenas quando ele se manifestar
  • § O veremos como ele é

 

Cristologia – Escatologia

  • § Cristo voltará [manifestar]. O objetivo da 2ª. Vinda é sermos como ele é: PUROS.
  • § Transformação final dos pecadores
  • § Manifestação visível e real

3

Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro Vida Cristã

  • § Quem mantém essa esperança purifica-se

 

Cristologia

  • § Cristo é isento de pecado [puro]

4

Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei Vida Cristã

  • § Quem peca é transgressor da Lei e passível de suas punições

 

Hamartiologia

  • § Pecado = Transgressão da Lei de Deus

5

Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado Cristologia

  • § O objetivo da 1ª. vinda de Cristo era para tirar nossos pecados (manifestou)
  • § Cristo foi isento de pecados

6

Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu Vida Cristã

  • § Quem está em Cristo não está no pecado.
  • § Quem está no pecado não conheceu a Cristo

 

Dualismo

  • § Pecado x Permanência com Cristo

7

Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo Vida Cristã

  • § Justos praticam justiça e se identificam com Cristo que Justo é.

8

Aquele que pratica o pecado é do Diabo, porque o Diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo Vida Cristã

  • § Pecadores provém do Diabo.

 

Dualismo

  • § Pecado x Justiça
  • § Deus x Diabo
  • § Cristo x Diabo [do princípio sem pecado e pecador desde o princípio]

 

Satanologia

  • § O Diabo é a origem do pecador e possuidor do mesmo
  • § Ele é pecador desde o princípio

 

Cristologia

  • § Objetivo da 1ª. vinda: destruir as obras do Diabo

9

Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus Vida Cristã

  • § Quem é nascido de Deus não pratica o pecado
  • § Tem a semente de Deus
  • § Não pode estar no pecado

10

Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão Vida Cristã

  • § Se praticamos a justiça e amamos os irmãos somos de fato cristãos.

11

Esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns aos outros Vida Cristã

  • § Devemos amar os cristãos

 

Kerigma Apostólico

  • § Os apóstolos, desde o início da proclamação do evangelho, atestam que os cristãos devem amar uns aos outros

12

Não sejamos como Caim, que pertencia ao Maligno e matou seu irmão. E por que o matou? Porque suas obras eram más e as de seu irmão eram justas Vida Cristã

  • § Obras más são como evidência de pertencer ao Maligno.
  • § Justos podem sofrer injustamente

 

Satanologia

  • § Satanás é o dono daquele que realiza obras más.

13

Meus irmãos, não se admirem se o mundo os odeia Vida Cristã

  • § Não é surpresa que o mundo nos odeia, pelo menos não deveria ser.

14

Sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte Vida Cristã

  • § Certeza pessoal da salvação = amar irmãos
  • § Quem não ama não é salvo.

15

Quem odeia seu irmão é assassino, e vocês sabem que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo Vida Cristã

  • § O ódio é próprio do assassino
  • § Assassinos não tem a vida eterna em si mesmos

16

Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos Cristologia

  • § Jesus é a demonstração final do amor
  • § Cristo sacrificou-se pelos cristãos
  • § É o exemplo final de cristianismo: Amor e doação da vida.

 

Vida Cristã

  • § Devemos seguir o exemplo de Cristo no amor e na auto-doação pelos irmãos.
  • § Essas são características do verdadeiro cristão.

17

Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? Vida Cristã

  • § A verdadeira vida cristã exige intervenção, ação em direção as necessidades do irmão necessitado
  • § Se alguém se diz cristão e tem condições, mas não ajuda seu irmão, neste o amor de Deus não permanece.

18

Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade Vida Cristã

  • § A vida cristã autêntica deve ser vivida em ação e em verdade.

19

Assim saberemos que somos da verdade; e tranqüilizaremos o nosso coração diante dele Vida Cristã

  • § A demonstração do amor aos irmãos e a auto-doação é evidência suficiente para termos certeza da salvação pessoal.

20

quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas Vida Cristã

  • § Cristãos verdadeiros podem ter momentos de culpa e dúvida de sua fé.
  • § Mas pode ser tranqüilizado quando sabe que é da verdade (ama os irmãos, se doa aos irmãos).
  • § Deus nos permite termos convicção sobre nossa posição com ele.

 

Teologia Própria

  • § Deus é maior que todas as situações conflitantes da fé
  • § Deus é maior que todos os dilemas pessoais
  • § Deus é onisciente, sabe todas as coisas.

21

Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus Antropologia

  • § Coração como centro intelectual
  • § Visão bem hebraica da humanidade.

22

e recebemos dele tudo o que pedimos, porque obedecemos aos seus mandamentos e fazemos o que lhe agrada Vida Cristã

  • § Oração vista como petição
  • § A garantia do recebimento de uma petição é sua conformidade com a obediência e boas obras.
  • § Realizar boas obras e obediência tem focos diferenciados

23

E este é o seu mandamento: Que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros, como ele nos ordenou. Vida Cristã

  • § Os mandamentos fundamentais dos quais se exigem do cristão é:
  • o Crer no nome de Cristo
  • o Amar uns aos outros
  • § Isso é uma ordem.

 

Soteriologia

  • § Salvação apenas pelo nome de Cristo.

24

Os que obedecem aos seus mandamentos nele permanecem, e ele neles. Do seguinte modo sabemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu. Vida Cristã

  • § Viver em obediência aos mandamentos é prova de que permanecemos em Deus e Deus em nós.
  • § O Espírito é o modo que sabemos que ele permanece em nós.

 

Vs

TEXTO

TEMA TEOLÓGICO

Capítulo 4

1

Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo Vida Cristã

  • § Não podemos dar crédito a qualquer um
  • § Devemos examiná-los para saber se eles são da parte de Deus.
  • § Devemos tomar cuidado, pois existem muitos falsos profetas.

 

Eclesiologia

  • § Existem falsos profetas que assolam a igreja
  • § Eles devem ser reconhecidos como tal, após exame.

2

Vocês podem reconhecer o Espírito de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus Vida Cristã

  • § O exame é simples: basta que ele reconheça que Cristo veio em carne.
  • § Isso é evidência de procedência confirmada

 

Cristologia

  • § Cristo veio em carne, foi humano.

3

mas todo espírito que não confessa Jesus não procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo, acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo. Kerigma Apostólico

  • § A proclamação apostólica envolveu o aspecto da escatologia que apresenta o anticristo.

 

Escatologia

  • § O espírito do anticristo virá no futuro
  • § O espírito do anticristo já está no mundo
  • § Seu ensino deturpa a pessoa de Cristo
  • § Ele não procede de Deus

4

Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo Vida Cristã

  • § Somos de Deus por que ele está em nós
  • § Por isso somos habilitados a vencer os falsos profetas.

 

Teologia Própria

  • § Deus é maior que o espírito do anticristo.

5

Eles vêm do mundo. Por isso, o que falam procede do mundo, e o mundo os ouve Dualismo

  • § Mundo x Deus

6

Nós viemos de Deus, e todo aquele que conhece a Deus nos ouve; mas quem não vem de Deus não nos ouve. Dessa forma reconhecemos o Espírito da verdade e o espírito do erro Dualismo

  • § O que procede do mundo é ouvido pelo mundo.
  • § Os que procedem de Deus são ouvidos pelos que conhecem a Deus
  • § Quem não conhece a Deus não ouve quem Dele procede.
  • § Espírito da Verdade x Espírito do Erro

7

Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus Dualismo

  • § Amor e Ódio
  • § Deus x Diabo

 

Vida Cristã

  • § Se procedemos de Deus devemos amar, pois o amor procede Dele.
  • § Quem ama procede de Deus e o conhece

 

Teologia Própria

  • § O amor procede de Deus

8

Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor Teologia Própria

  • § Deus é amor; amor é sua essência.

 

Vida Cristã

  • § Quem não ama não conhece a Deus

9

Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Teologia Própria

  • § Deus é o emissor do Filho
  • § Deus manifestou seu amor com o envio do Filho
  • o Direção: para o mundo
  • o Objetivo: Para que os cristãos pudessem viver por meio de Cristo.

 

Cristologia

  • § Cristo é a manifestação do amor de Deus
  • § Cristo é o Filho Unigênito

10

Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados Teologia Própria

  • § Deus é a causa primeira do amor
  • § O amor de Deus foi exercido antes que pudéssemos saber de sua existência
  • § Pecadores são foco do amor de Deus.

 

Cristologia

  • § Cristo foi enviado da parte de Deus como propiciação pelos nossos pecados.

11

Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros Teologia Própria

  • § O amor de Deus é a referência para o amor entre os cristãos.
  • o Incondicional
  • o Proveniente
  • o Previdente
  • o Sacrificial

 

Vida Cristã

  • § Devemos amar os cristãos como Deus nos amou

12

Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós Teologia Própria

  • § Deus não pode ser visto
  • § Deus permanece entre os cristãos que demonstram amor uns para com os outros
  • § Seu amor pode ser aperfeiçoado nos relacionamentos

 

Vida Cristã

  • § Devemos crescer em proximidade com os irmãos para sermos aperfeiçoados no amor de Deus

13

Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito Teologia Própria

  • § Deus é aquele que concede o Seu Espírito

 

Pneumatologia

  • § O Espírito é a garantia da nossa permanência em Deus e de Deus em nós.

14

E vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo Kerigma Apostólico

  • § O Filho foi enviado para ser o Salvador do mundo
  • § Ele foi visto e testemunhado assim.

 

Cristologia

  • § O Filho foi enviado para ser o Salvador do mundo

15

Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus Vida Cristã

  • § Confissão pública testifica sobre a permanência de Deus no confesso e do mesmo em Nele.

 

Cristologia

  • § Jesus é o Filho de Deus
  • § Isso atesta sua divindade

16

Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele Teologia Própria

  • § Deus é amor
  • § Seu amor por nós pode ser conhecido e confiado

17

Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. Escatologia

  • § É possível ter confiança no dia do Juízo, se o amor de Deus está aperfeiçoado entre os cristãos.
  • § Viver escatológico: Neste mundo somos como ele.

18

No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor Vida Cristã

  • § Amor e Medo são antagônicos
  • § Medo produz tormento
  • § Quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.

19

Nós amamos porque ele nos amou primeiro Vida Cristã

  • § Somos habilitados a demonstrar amor pelo fato que fomos alvo do amor de Deus

 

Teologia Própria

  • § Deus amou primeiro o pecador, não o inverso.

20

Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Teologia Própria

  • § Deus não pode ser visto

 

Vida Cristã

  • § Afirmação desassociada com prática é mentira
  • § Amar ao irmão é evidência do amor a Deus

21

Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão Vida Cristã

  • § Amar a Deus é um mandamento em igualdade com o amar aos irmãos.
  • § Amar aos irmãos é conseqüência do amor a Deus.

 

Vs

TEXTO

TEMA TEOLÓGICO

Capítulo 5

1

Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, e todo aquele que ama o Pai ama também o que dele foi gerado Soteriologia

  • § Crer quem Jesus é o Cristo é suficiente para ser nascido de Deus
  • § Todo aquele que ama foi gerado da parte de Deus

2

Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus e obedecendo aos seus mandamentos Vida Cristã

  • § O amor a outros cristãos é visto pelo amor a Deus e a obediência aos seus mandamentos

3

Porque nisto consiste o amor a Deus: em obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados Vida Cristã

  • § Definição de amor ao próximo: Obediência aos mandamentos de Deus
  • § Seus mandamentos não são pesados.

4

O que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé Vida Cristã

  • § Aquele que crê que Jesus é o Cristo vence o mundo.
  • § A fé é a nossa vitória

5

Quem é que vence o mundo? Somente aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus Vida Cristã

  • § Só vence o mundo quem crê que Jesus é o Filho de Deus

6

Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo: não somente por água, mas por água e sangue. E o Espírito é quem dá testemunho, porque o Espírito é a verdade Cristologia

  • § Cristo veio como humano e morreu como tal
  • § Água = Batismo?
  • § Sangue = Sacrifício?

 

Pneumatologia

  • § O Espírito testifica a vinda de Cristo em carne.
  • § O Espírito é a verdade

7

Há três que dão testemunho  

8

o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes  

9

Nós aceitamos o testemunho dos homens, mas o testemunho de Deus tem maior valor, pois é o testemunho de Deus, que ele dá acerca de seu Filho. Teologia Própria

  • § O testemunho de Deus tem mais valor
  • § Ele testifica sobre seu Filho

 

Pneumatologia

  • § Equiparação funcional com Deus Pai.

10

Quem crê no Filho de Deus tem em si mesmo esse testemunho. Quem não crê em Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca de seu Filho Vida Cristã

  • § O crente tem em si mesmo o testemunho de que o Filho veio em carne
  • § O que não crê, torna Deus é mentiroso, por que Deus dá esse testemunho

11

E este é o testemunho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho Vida Cristã

  • § Deus é o doador da vida eterna
  • § A vida está em Jesus Cristo

12

Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida Vida Cristã

  • § Só há vida eterna em Cristo

 

Cristologia

  • § Vida eterna apenas por intermédio de Cristo

13

Escrevi-lhes estas coisas, a vocês que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna Objetivo da Escrita

  • § Para que os cristãos saibam que tem a vida eterna

14

Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a vontade de Deus, ele nos ouvirá Vida Cristã

  • § Podemos nos aproximar de Deus com confiança
  • § Deus promete que ouvirá as orações que forem feitas de acordo com sua vontade.

15

E se sabemos que ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que temos o que dele pedimos Vida Cristã

  • § Se Deus nos ouve, sabemos que receberemos o que pedimos

16

Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus dará vida ao que pecou. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este Hamartiologia

  • § Existem diferentes tipos de pecados
  • o Para morte: por esse nem devemos orar pelo transgressor
  • o E não para morte: Devemos orar e Deus dará vida ao que pecou
  • § Isso significa em pesos diferentes para pecados (nada de graça barata)

17

Toda injustiça é pecado, mas há pecado que não leva à morte Hamartiologia

  • § Qualquer espécie de injustiça é uma violação da lei de Deus
  • § Mas existem pecados que não levam a morte

18

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge Vida Crista

  • § Quem é nascido de Deus não pode não ser salvo
  • § Esse está protegido por Deus
  • § O Diabo não o pode atingir

 

19

Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo está sob o poder do Maligno Vida Cristã

  • § Dadas as informações sobre a certeza da vida eterna, estamos certos que somos de Deus
  • § O mundo todo está debaixo do poder do Diabo

 

Dualismo

  • § Deus x Diabo
  • § Cristãos x Mundo todo

20

Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna Cristologia

  • § Filho de Deus veio ao mundo
  • § Nos deu entendimento para que conheçamos a Jesus Cristo o Verdadeiro
  • § Jesus Cristo é o Verdadeiro Deus e a Vida Eterna

21

Filhinhos, guardem-se dos ídolos Vida Cristã

  • § Guardar-se dos ídolos.

 

04.09.08

A relação de similaridade entre Paulo e João

Enviado em Teologia de João tagged , , , às 5:58 pm por Marcelo Berti

Observações ao texto de Rudolf Bultmann (Teologia do Novo Testamento) 

Segundo RB, a visão de que a teologia joanina é o desenrolar áureo da teologia paulina é um erro. Observe o que diz: “A observação de que em João a discussão paulina sobre a lei é de somenos importância, levou muitas vezes, à conclusão errada de que João deveria ser compreendido como o auge do desenvolvimento que vai além de Paulo, no qual as discussões em torno da lei pertencem ao passado (pp.433)“. Para RB a teologia cristã não teve um desenvolvimento monolinear[1].

A similaridade: RB acredita que existe uma similaridade entre os autores em pauta no que diz respeito a atmosfera histórico-religiosa. “Ambos se encontram no espaço helenístico impregnado pela corrente gnóstica, de modo que certa consonância a terminologia não causa admiração (pp.433-4)“.

  1. O uso de “kosmós”: Tanto Paulo quanto João usam o termo no sentido dualista depreciativo. Existe unanimidade quanto ao fato de que kósmos representa o mundo dos humanos.
  2. Redação antitética: João impregna sua redação com afirmações paradoxais e pensamentos essencialmente antitéticos, o que deixa sua obra ainda mais admirável. Entretanto algumas dessas construções antitéticas fazem alguma relação com a teologia paulina:
    • por que não tem a verdade nele, por isso, quando fala a mentira fala do que lhe é próprio] (Jo.8.44); não escrevi a vocês por que vocês não sabem a verdade, mas por que sabem e por que nenhuma mentira provém da verdade (1Jo2.21). Essa característica, forte em João, é perceptível, mesmo em grau menor, na literatura paulina. Em Rm1.25 podemos encontrar a expressão: transformaram a verdade de Deus em mentira. Esse contraste entre o que é da parte de Deus e o que é do mundo, fora de Deus, é perceptível em ambos autores.
    • e a luz brilha nas trevas e as trevas não suportam ela] (Jo.1.5); Eu sou a luz do mundo. Aquele que me segue não andará em trevas] (Jo.8.12). Paralelo parecido é visto também em Paulo: “Das trevas resplandecerá a luz” (2Co.4.6). Ambos exemplos demonstrados aqui tratam apenas de similaridades ocasionais e não recorrentes.
    • e falei de coisas terrenas a vocês e vocês não creram, como crerão se falar a vocês sobre coisas celestiais (Jo.3.12). para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra e debaixo da terra (Fp.2.10).
  3. Cristologia: RB acredita que tanto João quanto Paulo escrevem sobre Cristo influenciados pelo “mito gnóstico da redenção[2]:
    • O Envio do Filho de Deus preexistente em figura humana: Fp.2.6-11 e Jo.1.14
    • O envio do Redentor como evento escatológico: Jo.3.19; 9.39; Gl.4.4. Entretanto, as terminologias empregadas não são correlativas:
      • Paulo não usa expressões escatológicas joaninas como [vir], [ir] (Jo.8.14) e [ser elevado]
      • João também não usa algumas expressões características ca concepção apocalíptica judaica que ocorrem com freqüência em Paulo: [este século] [(Co1.20); [plenitude do tempo] (Gl.4.4); [nova criação] (2Co.5.17; Gl.6.15).
  4. Coincidência na terminologia cristã comum: RB acredita que, devido aos pontos já citados, não é de se admirar que tal coincidência aconteça:
    • Vida Eterna: Ambos autores falam da vida eterna como o bem salvífico. Entretanto, não se fala do reino de Deus (3.3, 5)
    • Caracterização do bem salvífico: Ambos caracterizam o bem salvífico com termos como [alegria] (Jo.17.13; Rm.14.17) e [paz] (Jo.14.27; Rm.14.17). Esses termos são usados por João de maneira singular, “sendo que alegria, paz aparecem como dádivas de despedida de Jesus à comunidade que remanesce no mundo” (pp.434).
  5. Similaridade de vocabulário específico: É consoante entre os autores o uso de termos como [enviar] e [mandar] para o envio de Jesus (Gl.4.4; Rm.8.3), [dar] para sua entrega (Jo.3.6; Rm.8.32) e [glória] (Jo.17.5; Fp.2.9; Jo.3.21) para a concepção da elevação de Jesus a Senhor na glória. Embora seja muito similar o uso desses termos, RB acredita que isso não traça um relacionamento especial entre os autores, apenas reafirma a terminologia cristã comum.

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 Este artigo é resultado da reflexão do autor deste blog sobre parte do artigo do Rudolf Bultmann sobre a Teologia de João

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 [1] Isso é perceptível pelas inúmeras fontes antigas sobre a discussão da teologia e a existência de materiais teológicos não consoantes. O desenvolvimento da teologia sofreu deformidades ao longo do tempo e sua construção estava fadada a especulação humana e preferência pessoal de uma cúpula de pessoas que teriam autoridade para montar a teologia cristã. A diversidade de pensamento no desenvolvimento da teologia cristã é a prova final que foi conturbada sua concepção e polêmica sua definição até os moldes atuais. O que definiu, entretanto, a ortodoxia teológica sempre foi a busca pela defesa das escrituras, e sempre com ela ficamos em todo o processo. Embora, mesmo o desenvolvimento da ortodoxia não tenha sido monolinear, o fundamento básico é o mesmo: Apresso a escritura. Isso é o pressuposto do qual não abro mão.

[2] Quando RB fala do mito gnóstico, acredito que ele tem em mente a terminologia envolvida na proclamação da salvação. Ele afirma: “A terminologia gnóstica serviu sobretudo para expor com clareza o evento salvífico. Segundo ela, o redentor aparece como uma figura cósmica, como o ser divino preexistente, o filho do Pai, que desceu do céu e assumiu figura de ser humano, que de sua atividade terrena, foi elevado à glória celestial e conquistou o domínio sobre os poderes espirituais” (pp.230). Para RB essa construção é vista tanto em Fl.2.6-11 quando em 2Co.8.9. Segundo RB a mensagem do verdadeiro Deus e de Jesus, do Messias-Filho do ser humano, a mensagem escatológica do juízo e salvação que eram propagados com linguagem veterotestamentária deveria necessariamente ser traduzida para uma linguagem que fosse familiar ao mundo helenista. Por essa razão RB acredita que existiu influência na compreenssão da mensagem cristã e no desdobramento no cristianismo helenista por meio da terminologia gnóstica. “Por natureza, um processo desses não acontece sem influência de conteúdo. E assim como o cristianismo helenista foi envolvido no processo sincretista por meio da formação do culto ao ku,rioj, tanto mais isso aconteceu pela formação da doutrina da redenção sob influência gnóstica.” (pp.218).

Distância entre João e os sinóticos

Enviado em Teologia de João às 4:30 pm por Marcelo Berti

Observações ao texto de Rudolf Bultmann (Teologia do Novo Testamento)

Para determinar a posição histórica de João é necessário levantar uma comparação entre os evangelhos sinóticos e o evangelho de João. RB em uma nota de roda pé aponta para a possibilidade de que o autor do evangelho não seja necessariamente o autor das epístolas. Também considera a possibilidade de que poderia ter sido fruto da escola de João. Embora não possa demonstrar, RB acredita que João não teria conhecido qualquer dos evangelhos sinóticos. Entretanto, “ele conhece a tradição trabalhada neles” (pp.431). Evidências desse ponto são percebidas em alguns ensinos de Jesus, alguns milagres e especialmente na história da paixão.

a. Redação a partir de fontes em estágio avançado: Em relação a teologia dos sinóticos, o relato dos milagres (em especial) parece ter sofrido um desenvolvimento além do que é relatado nos evangelhos sinóticos. O ponto de partida dessa informação está no estilo da redação: Os milagres que eram narrados nos sinóticos como fatos, em João tomam um sentido simbólico ou alegórico, sendo que, tais fatos servem de ponto de partida para discursos ou discussões. Essa estrutura literária traça um quadro totalmente diferente dos encontrados nos relatos sinóticos.

b. Estrutura do relato das conversas e discursos de Jesus: Nos sinóticos vemos breves diálogos “didáticos ou de controvérsia, nos quais Jesus dá a resposta aos que tem perguntas honestas ou aos adversários com um breve dito categórico” (pp.431). Entretanto, João valoriza os discursos de Jesus com discursos prolongados, que além de serem introduzidos por milagres (em geral), são constituídos por afirmações paradoxais (aqui usei o termo paradoxal em preferência ao termo usado por RB “ambíguos”): nascido do alto (3.3), água vida (4.10) entre outros. Nos sinóticos vemos ditos encadeados. Em João eles são exposições coesas sobre determinados temas. Nesses discursos é possível perceber, entretanto, a influência da tradição sinótica: 2.19; 4.44; 12.25ss; 13.16, 20; 15.20.

c. Temas diferentes dos tratados nos sinóticos: Segundo RB, em João Jesus não se apresenta como Rabi (mestre da lei), interessado nas discussões sobre a lei, nem como profeta que anuncia o Reino de Deus. Ele é, acima de tudo, Aquele que fala de sua pessoa como do revelador que Deus enviou. Não fala sobre assuntos “judaicos” por excelência como pureza, divórcio, contra a justiça própria ou a inverdade, mas aponta para a natureza de sua missão que traz paz ao mundo, e denuncia a falta de fé nele, como Aquele que é o salvador do mundo. Mesmo em situações próximas as testemunhadas nos sinóticos, como na acusação da transgressão do mandamento do sábado (cp. 5 e 9), podemos perceber alguma diferença: O foco. Nos sinóticos a discussão parece centrada na questão da lei e de sua validade para o ser humano (Mc.2.23-3.6), que no evangelho de João é centrada na autoridade de Jesus como Filho de Deus.

d. Ausência de Parábolas: Nos sinóticos a presença das parábolas é parte integrante dos discursos, o que eventualmente constituem os discursos de Jesus. Em João as parábolas faltam totalmente. Em contrapartida em João temos grandes discursos figurados, como o do pastor (cp.10) e o da videira (cp.15). RB acredita que na “imagem simbólica, apresentam Jesus como revelador. Eles pertencem ao grupo de palavras e discursos que recebem seu caráter pelo  ‘evgw, evimi’ do revelador, e que não tem analogias nos sinóticos” (pp.432).

e. Reestrutura do relato da paixão: Fato interessante nesse ponto é que percebemos similares diferenças entre os sinóticos e o 4º. evangelho, pois mesmo onde soam parecidos percebemos diferenças. Nos sinóticos vemos na cena da ceia que antecede a prisão de Jesus, como a oportunidade para instituir a celebração da ceia, mas no 4º. evangelho é o início de grandes discursos de despedida que não tem ponto de comparação nos sinóticos. “Os diálogos perante o sinédrio e Pilatos são totalmente modificados, bem como o relato da crucificação, que termina como o tete,lestai do revelador”.

f. Distinção do papel de João Batista: Nos sinóticos João Batista é o pregador do arrependimento, enquanto em João é a testemunha a favor de Jesus como Filho de Deus.

g. Distinções sobre a comunidade primitiva: Enquanto nos sinóticos percebe-se alguma preocupação com o destino, problemas e a fé da comunidade primitiva, em João não nota-se nada disso. As questões sobre a validade da lei, a vinda do Reino de Deus não estão presentes. Não parece mais atual o problema da missão aos gentios (compare Jo.4.46-54 e Mt.8.5-18 e Lc.7.1-9). A história da mulher samaritana, que poderia ter sido explorada do ponto de vista dos sinóticos (a validade da missão aos gentios como parte legítima da obra de Cristo), foi apresentada como a relação entre fé e milagre.

h. Distinção de ênfase no que se refere às profecias: Segundo RB, o cumprimento das profecias parece insignificante (em comparação com os sinóticos). Esse assunto está presente apenas em 2.17; 12.142, 38, 40; 13.18; 15.25; 19.24, 36s. É possível que esteja presente também em 6.31, 45.

i. Foco geral: Para RB o foco sobre o qual é constituído o evangelho de João é a situação atual da comunidade primitiva, cujo problema está na desavença entre Judaísmo e Cristianismo e seu tema é a fé em Jesus como Filho de Deus. Tal fato é claramente percebido pela própria apresentação de Jesus como alguém já destituído da própria nacionalidade, pois fala da lei dos judeus (“vossa lei”) como um estranho a ela (cf. 8.17; 10.34; 7.19, 22). Não existe em João uma distinção clara entre tipo de judeus (pecadores, publicanos, escriba pescadores) mas são tratados como vIoudaioi diferenciados somente entre ov,cloj e nos líderes, também distintos entre av,rcountej ou av,rciepeij ou Farisaioi, que são identificados como autoridades públicas (7.45, 47s; 11.47, 57). “Além disso, para João os ‘judeus’ são os representantes do ‘mundo’ por excelência, que nega a fé a Jesus” (pp.433)