04.27.09
Fé e Obediência
“De início pode-se dizer simplesmente que a pistis é a condição para o recebimento da dikaiosyne, que vem a substituir os erga nos quais, segundo a compreensão judaica, consiste aquela condição. De início também deve ser dito simplesmente que essa pistis, de acordo com o uso lingüístico do cristianismo helenista formado na missão, é a aceitação da mensagem cristã. A compreensão dessa aceitação ou o conceito da pistis, desenvolvido múltiplas vezes também nas demais passagens além de por Paulo, foi cunhada por ele de modo decisivo” – Rudolf Bultman, Teologia do Novo Testamento, pp.383.
A compreensão de Paulo do conceito de fé passa pelo conceito de obediência. É provável que existe um ponto de partida para Paulo, no quesito de fé, que é apoiado primariamente pelo conceito de obediência. Deve ser daí que o paralelo entre Rm.1.8 e Rm.16.19 pode ser traçado. Isso seria suficiente para compreender a expressão “hypakoè pistéos” de Rm.1.5. Esse sentido é visto claramente em Rm.15.18: “Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em ação, a fim de levar os gentios a obedecerem a Deus“. Aqui é evidente a consideração de Paulo sobre o início da fé como obediência a Deus.
Essa co-relação é também exposta em sentido negativo, pois Paulo quando refere-se a judeus não convertidos ele diz: “Porquanto, ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se submeteram à justiça de Deus“. A não sujeição, ou desobediência à Justiça que vem de Deus (dikaousyne theou) os judeus estão fora da participação da fé salvadora. De modo semelhante, Paulo diz em Rm.10.16: “No entanto, Mas nem todos obedeceram ao evangelho“.
Esse conceito é bem visto na conhecida declaração de Paulo sobre os gentios e judeus, antes e depois da fé, em Rm.11.30-32: “Assim como vocês, que antes eram desobedientes a Deus mas agora receberam misericórdia, graças à desobediência deles, assim também agora eles se tornaram desobedientes, a fim de que também recebam agora misericórdia, graças à misericórdia de Deus para com vocês. Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos”.
Em 2Co.9.13 a fé é vista como a submissão da confissão do evangelho de Cristo: “glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo”. Nesse texto a NVI traduziu a obediência que acompanha a confissão, o que segmenta o conceito de “obediência como demonstração de fé” em “obediência que segue a confissão“. Caso seja isso verdadeiro, a fé acontece antes da obediência, o que nos soa muito mais sensato.
O que isso nos instrui é que, para Paulo, a aceitação da mensagem aparece com um ato de obediência, pois a mensagem do evangelho está centrada no reconhecimento de Cristo morto e ressurreto como Senhor além de exigir a renúncia da autocompreensão antes da fé, e a inversão da direção volitiva. (RB, TNT pp.384).
Essa obediência da fé é de fato a obediência verdadeira, aquela que a lei havia exigido, mas pelo mau uso da lei os judeus a reprimiram e instituíram a hidia dikaiosyne (justiça própria) como meio para se gloriarem nas érgon nomôu (obras da lei). Contudo, a atitude do homem debaixo da fé é radicalmente antagônica a do judeu, observe: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Co.4.7). Isso por que a Salvação oferecida por Deus tem por objetivo “que ninguém se glorie” (1Co.1.29; Ef.2.8-9), mas “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Co.1.31; 2Co.10.10), como o fez Abraão (Rm.4.20).
“A pístis como a renúncia radical à obra, como a obediente sujeição ao caminho da salvação determinada por Deus, como a aceitação da cruz de Cristo, é o livre ato da obediência, no qual se constitui o novo eu no lugar do velho. Como tal decisão, ela é um ato no verdadeiro sentido, no qual o ser humano aparece como ele próprio, enquanto no ergon ele se contra ao lado aquilo que faz” (RB, TNT, pp.385).
Vale a pena ser dito que a OBEDIÊNCIA a que se refere aqui não é uma obediência às ordens de Deus em si, ou a prática de suas delimitações, mas a submissão a Deus como condição para recebimento da fé. Ou seja, não é uma conquista, como a hidia dikaousyne como motivo para kauxastai (gloriar-se), mas é a completa e plena submissão a Cristo como Senhor. Esse aspecto da fé, pode ser considerado o primeiro ponto da verdadeira fé.
A implicação dessa submissão a Cristo como Senhor para participação da fé, não significa que a salvação vem pelo reconhecimento do senhorio de Cristo, mas implica na inabilidade da ergon autou para a salvação. É o reconhecimento humilde da impossibilidade de auto-salvação, e a plena dependência aos méritos de Cristo como único mediador entre Deus e os homens. Em outras palavras, crer é obedecer, ou submeter-se-á. Com essa compreensão em mente, podemos compreender o que Paulo que dizer quando chamou os judeus de rebeldes em Rm.15.31.
Nesse sentido, a concepção de Paulo afirma que a fé não acontece primariamente com arrependimento e conversão (demonstrado pelo pouco uso que essas palavras tem na literatura paulina), mas com a obediência que renuncia a justiça própria.
04.01.09
Como entender Filipenses 3.11?
“Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo, ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”
Paulo de Tarso, Carta aos Filipenses. 3.8-11
O versículo em negrito no texto acima tem sido entendido das mais diversas formas, seja pela exegese aprofundada ou pelo comentário superficial, teólogos tem divido sua opinião sobre esse texto. B.W. Johnson, por exemplo, sobre o texto apenas diz: “This great consummation of a glorious resurrection to a heavenly life is worth attaining by every sacrifice, and by every possible means[1]“. Embora aponte para a ressurreição final como foco do texto nada fala sobre a salvação ou a possibilidade de perder-la. Já B.H. Carrol diz que o significado do texto está sobre a ressurreição dentre os mortos e não meramente no levantamento da morte, pois para ele é nessa ocasião que a salvação é completa e a santificação perfeita[2].
Seja como for, a interpretação desse verso tem levado comentaristas a navegar em duas doutrinas fundamentais da Fé Cristã: A soteriologia e a escatologia. No que refere-se à salvação, alguns comentaristas acreditam que a expressão “de algum modo alcançar a ressurreição” explicita dúvidas da parte do apóstolo sobre sua posição futura. Há quem diga que Paulo aqui põe em cheque sua própria convicção sotereiológica. Já no que tange à escatologia, comentaristas tem interpretado a expressão “ressurreição dentre os mortos” com indicativo de uma certeza futura, entretanto sob diferentes ênfases. No caso da opinião de Carrol já citada, nota-se que sua preocupação está na expressão “dentre” os mortos, ao passo que Jonhson apenas aponta para o estágio final da fé, sem qualquer consideração sobre quando isso poderia acontecer.
O que se sabe com certeza é que Paulo é o campeão das doutrinas da graça. No que se refere à salvação sua convicção é estampada com clarividência em seus escritos (Ef.1). É também verdade que para Paulo a ressurreição dos mortos é uma verdade inegociável, tema que discorre com alguma freqüência em seus escritos (1Co.15). Entretanto, em Romanos capítulo 8 as duas convicções são estampadas lado a lado: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm.8.29-30). Aqui a segurança da salvação é assegurada pela inscrição dos verbos no passado, como se o estado futuro já estivesse entregue ao cristão, embora ainda não desfrutasse dele. Em complementação, o estágio futuro é uma realidade inegociável aqui: Existe um estágio de glorificação que a Teologia de Paulo relaciona com a ressurreição dos mortos: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” (1Co.15.51-52).
A relação de interdependência da salvação e o estágio futuro é tão grande que se a primeira for derruba a segunda é desnecessária, e vice-versa. Portanto, uma compreensão sadia do dilema de Filipenses 3.11 é fundamental para a saúde da compreensão soteriológica e escatológica do Novo Testamento. Por isso, passo abaixo a considerar as implicações soteriológicas e escatológicas desse verso, segundo entendo ser saudável.
A. Implicações Soteriológicas
A interpretação da expressão “para, de algum modo alcançar” tem sido interpretada de três formas diferentes. Alguns comentaristas acreditam que o texto enfatiza o desfrute presente de uma bênção divina, ou seja, a ressurreição efetuada na salvação (Ef.2.4-6). Por outro lado, outros acreditam que Paulo expressa humildade e esperança com essa frase e não dúvida. Há ainda um terceiro grupo que entende a dúvida que Paulo apresenta nesse texto não repousa sobre a ação de Deus mas à sua própria pessoa. É bem verdade que esse grupo pode ser identificado em duas possibilidades, mas sobre isso falaremos mais à frente. Por ora, passo a descrever tais opções e a apresentar os comentaristas que parecem favoráveis a cada uma delas.
Expressão de humildade/esperança/maravilhamento e não dúvida
Em tentativa de compreender a expressão grega “ei pos”, comentaristas tem chegado à conclusão de que o sentido da mesma está relacionado esperança de apóstolo e não a sua dúvida[3]. Lightfoot, por exemplo, diz sobre o “apóstolo atesta não uma promessa positiva, mas uma modesta esperança[4]“. De modo similar Kent diz: “É possível considerar que a clausula expressa mais expectativa que dúvida”. Para esse modo de interpretar, a conclusão é certa: há ressurreição, e a sentença “para de algum modo” expressa sua expectativa nesse fato.
Por outro lado, outros comentaristas têm visto nisso uma manifestação da humildade de Paulo. Champlin parece advogar essa opinião: “Trata-se de uma expressão de humildade; mas é errado vermos aqui qualquer idéia de dúvida no espírito de Paulo[5]“. MacArthur sobre a expressão de qualquer modo diz que ela “não expressa dúvida da parte de Paulo, mas humildade (…) pois Paulo está confiante que irá alcançar a ressurreição dos mortos e desfrutar da Glória de Cristo[6]“. De modo similar, Lawrence O. Richards diz: “a frase ‘para de algum modo’ expressa não dúvida, mas maravilhamento[7]“. Já Calvino afirma: “A frase ‘para de algum modo’ não indica dúvida, mas expressa dificuldade[8]“. Seja como for, parece evidente que não trata-se de dúvida de Paulo, o que seria contraposto ao conhecimento paulino expresso em outras epístolas e na própria epistola de Filipenses.
Implicações Presentes de uma Benção Futura
Outro modo de interpretar a questão está na aplicação presente de uma bem-aventurança futura. Essa perspectiva é advogada por aqueles que compreendem a aplicação da eternidade já na vida presente: a vida escatológica. Paulo nesse trecho apresenta sua perspectiva de vida presente quando diz: “para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte” (v.10). Essa expectativa não é uma expressão de confiança para o futuro, muito pelo contrário, o conformar-se com Cristo em Sua morte não se trata de passar pela experiência da morte física, mas por meio da morte de Cristo sermos habilitados a morrermos para nosso velho homem, tal como o mesmo autor teria ensinado em Romanos: “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado” (6.4-7). Muito embora a expectativa para o futuro esteja presente, o olhar está sobre o presente, na novidade de vida.
Sobre isso, Robert Gundry menciona que Paulo havia considerado como refugo sua ascendência religiosa para que “pudesse experimentar uma crescente experiência de união com Cristo, nos sofrimentos, na morte e na ressurreição[9]“. Já Howard Marshal, parece acreditar que o texto fala da ressurreição futura quando diz: “Nessa espécie de resumo de Romanos 6, Paulo diz que a fé é uma atitude na qual as pessoas estão de tal modo unidas a Cristo que elas participam em sua morte e ressurreição e podem esperar para experimentar uma ressurreição final dos mortos[10]“. Entretanto, continua por dar a entender que trata-se da vida presente: “A morte é uma experiência complexa de morrer para o pecado, para as razões egoístas e as ações decorrentes. A ressurreição leva a uma nova vida de obediência a Deus pelo poder do Espírito que ressuscitou Jesus dos mortos[11]“.
Essa visão do “já” mas “ainda não” vista na visão de Marshal é compartilhada Rudolf Bultmann. Para ele, tais descrições apresentam “o paradoxo dos cristãos, (…) ou seja, como situação entre um ‘não mais’ e um ‘ainda não’[12]“. Para explicar sua visão desse paradoxo “Não Mais” e um “Ainda não”, ele adiciona: “Não mais: a decisão de fé eliminou o passado; no entanto, como decisão autêntica, é preciso sustentá-la, isto é, tem que ser tomada de novo constantemente. No caráter do superado, o passado está sempre presente, e a lembrança dele como a constate ameaça justamente faz parte da fé. O ‘esquecer’ não é um tirar da cabeça, mas sim um reprimir constante, um não deixar-se prender por ele. ‘Ainda não’: a renúncia ao antigo como uma posse que pretensamente oferece garantia, exclui justamente a troca por nova posse. Com vistas ao ser humano, não se pode falar de um ter obtido; não obstante um ‘já agora’ com vistas ao ser obtido por Cristo Jesus[13]“. E sua conclusão sobre o assunto é que “a morte e ressurreição de Cristo são fenômenos cósmicos e não acontecimentos únicos que pertencem ao passado. Por meio dele, o velho éon e seus poderes foram, em princípio, privados de seu poder; eles já foram desfeitos (1Co.2.6), embora no presente a vida dos crentes ainda não seja visível, e sim oculta sob a máscara da morte (2Co.4.7-12)[14]“.
Desconfiança Pessoal
Willian Hendriksen também parece acreditar nessa possibilidade, mas estende uma nova compreensão quando diz: “Ele escreveu no espírito de profunda humildade e de louvável desconfiança de si mesmo[15]“. Essa idéia apresentada por Hendriksen não lhe é exclusiva e a opinião dos comentaristas nesse assunto varia em dois modos distintos:
- O primeiro grupo acredita que Paulo tem dúvida sobre sua postura de santidade. Champlim sobre isso diz: “A dúvida girava em torno de si mesmo, embora tivesse plena confiança em Deus”. Kennedy expressa sentimento similar ao dizer que a aparente incerteza de Paulo “não indica que ele desconfiava de Deus, antes, desconfiava de si mesmo. Isso enfatiza a necessidade que sentia de vigiar, de esforçar-se constantemente, a fim de que, tendo pregado a outros, não viesse a ser desqualificado”. Muito embora seja frágil tal posição, ela tem respaldo na experiência do apóstolos. É bem provável (na opinião do autor desse artigo) que tal possibilidade é tão remota que beira a impossibilidade.
- O segundo grupo tem dúvidas sobre sua compreensão da própria morte. Ralph P. Martin parece advogar essa possibilidade quando diz: “O elemento de dúvida na frase para de algum modo não se refere à realidade da sua ressurreição, como se Paulo ficasse imaginando se ele poderia, um dia, obtê-la, mas refere-se à maneira pela qual a ressurreição lhe pertencerá, isto é, se pelo martírio, ou em época mais distante”. Para esse caso há alguma consistência, veja por exemplo Fp.1.20-26. Essa visão parece bem mais plausível, pois é certo que Paulo em Filipenses expressa seu desejo por partir e estar com Cristo, o que evidencia nenhuma dúvida soteriológica.
Parecer Pessoal
Diante das opções listadas, posso dizer que, à exceção da primeira opção do grupo da desconfiança pessoal, as outras alternativas são plausíveis e não são necessariamente auto-excludentes. Por outro lado, é bem possível que todas as possibilidades não estivessem na mente de Paulo quando escreveu o que escreveu. Muito embora tenha certo apresso pela opinião de Bultmann e Gundry, não entendo que o verso em paute testemunhe exatamente o que eles observaram ali. Na interpretação do verso 10, até posso assimilar com tranqüilidade suas conclusões, mas tenho dificuldades sobre toda a conclusão auferida por eles.
Já à opinião que refere-se à humildade ou esperança, a não ser que uma evidência lingüística esteja submersa na sentença grega de tal modo que não a possa encontrar, acredito que seja uma fuga da realidade da dúvida do apóstolo. Não posso afirmar com propriedade qual a intenção dos seus defensores em apresentarem suas opiniões desse modo, mas a mim me parece que trata-se de um medo de encontrar no apóstolo alguma espécie de dúvida.
Isso me leva a concluir que a dúvida[16], que está estampada no texto no meu modo de ver, fala mais sobre sua condição ante a morte do que sua própria santidade. Parece plausível que Paulo tivesse alguma dúvida sobre o “como” seria sua morte (visto que isso é inerente a humanidade) e por isso apresenta sua dúvida sobre o como passaria por ela.
B. Implicações Escatológicas
Para analisarmos as implicações escatológicas desse texto, precisaremos passar por duas considerações iniciais: (1) uma do ponto de vista lingüística, para buscar averiguar os termos que Paulo emprega; (2) e outra do ponto de vista da crítica textual, pois detectamos uma variante textual em ponto importante do texto.
Para nossa avaliação lingüística temos que considerar que, quando Paulo fala do arrebatamento ele usa uma palavra não utilizada em nenhum outro lugar na literatura do Novo Testamento[17] (hapax legomena). O verbo mais usado por Paulo para descrever o ressuscitar é o verbo “egeirö” (Rm.4.24;, 25; 6.4, 9; 7.4; 8.11, 34; 10.9; 1Co.6.14; 15.4, 12-17; 20, 29, 32, 35, 42, 43, 44, 52, 2Co.1.9; 4.14, 5.15; Gl.1.1; Ef.1.20; 5.14; 2.12; 1Ts.1.10; 2Tm.2.8), e pode significar ser levantado, despertar, ressuscitar. Já o substantivo mais comum na literatura paulina para ressurreição é “anástesis” (Rm.1.4; 6.5; 1Co.15.12, 13, 21, 42; Fl.3.10; 2Tm.2.18), e é sobre esse termo que Paulo cria o termo que usa em Filipenses 3.11: “exanástesis“. A adição da preposição “ek” no termo tem sido interpretada não apenas como ênfase, mas como a descrição de um evento escatológico distinto. Sobre isso falaremos abaixo.
A segunda observação que devemos fazer sobre esse texto é sobre sua leitura mais provável: quando o texto fala sobre a ressurreição dos mortos duas leituras são possíveis: “para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (ARA); “para ver se, de alguma maneira, eu possa chegar à ressurreição dos mortos” (ARC). A distinção entre as duas traduções não é apenas uma questão de opção idiomática, na verdade trata-se da inclusão ou não da preposição “ek” (dentre) antes de “nekron” (mortos). O Textus Receptus traz o texto sem a preposição em pauta, e por isso a ARC não inclui “dentre” na sua tradução. Já o texto crítico traz a inclusão e usa influência é vista nas traduções mais modernas (ARA, NVI). Na edição que Scriviner e Stephanus fizeram do texto, ambos mantiveram a leitura do texto recebido aqui, mas Tischendorf (na oitava edição) já trazia a inclusão da preposição por julgar ser a leitura original[18]. Por considerar que a leitura é verdadeira as edições críticas modernas (Nestlé; UBS) incluem a preposição sem necessitar qualquer discussão sobre sua inclusão. O que parece verdadeiro é que diante das evidências a inclusão da preposição é mais acertada que sua ausência.
Feitas essas duas considerações, podemos apresentar as duas categorias maiores de interpretação desse verso, sendo ambas são referentes ao problema crítico e a observação lingüística.
Ressurreição Futura da Humanidade
A primeira interpretação para esse texto é que Paulo fala sobre a ressurreição dos mortos. Se a preposição “ek” não for encontrada no texto, essa é a tradução literal do texto, e assim é que deve ser entendida. Provavelmente essa deve ter sido a leitura que Marvin Vincent teve acesso, ou considerou como verdadeira, pois sobre o texto ele diz: “A ressurreição dos mortos é uma frase genérica, denotando a ressurreição geral dos mortos, sejam bons ou maus[19]“. Essa expectativa é comum em Paulo e não seria anormal encontrá-la aqui, desde que, essa fosse a leitura original do texto.
Entretanto, tal interpretação não é exclusiva dos que lêem o texto sem a preposição em pauta. Lightfoot, discípulo de Westtcot, em sua edição de revisão do texto crítico com comentários incluía a preposição, mas sobre a interpretação do texto diz: “A ressurreição dentre os mortos é a ressurreição final para uma nova e glorificada vida” Sobre o problema crítico diz: “A leitura oferecida ‘tön nekron‘ para ‘ten ek nekron‘ apesar de ser fragilmente suportada, ignora qualquer distinção[20]“.
Ressureição dos Cristão – Arrebatamento
Para os comentaristas que favorecem a inclusão da preposição “ek” no texto[21], a leitura esperada seria: “dentre os mortos“. A primeira obsevação é que Paulo falaria de uma ressurreição futura, física, de um grupo dentre a totalidade de mortos. Ou seja, após essa ressurreição, ainda haveiram mortos após essa ressurreição. Isso fez comentaristas avaliarem essa descrição de Paulo como a ressurreição dos cristãos. Sobre isso A.T. Roberston diz: “Aparentemente Paulo está pensando aqui apenas na ressurreição dos cristãos dentre os mortos[22]“.
Que é verdadeiro que Paulo expressa essa esperança em suas epístolas, não podemos negar. E por isso, tantos comentaristas tem visto nesse verso a expectativa de Paulo de participar do Arrebatamento do cristãos, seja em vida, seja após sua morte (1Co.15.51). Sobre isso Lawrence O. Richards diz: “Provavelmente Paulo esta usando essa palavra para se referir ao Arrebatamento, por expressar sua esperança de que o Senhor vai voltar durante sua vida[23]“.
Jonh MacArthur parece expressar mesma convicção quando diz: “Os cristãos serão retirados dentre os outros mortos, que não serão ressurretos até o fim do Reino Milenar, e na transformação na imagem de Cristo[24]“. Pouco antes, teria dito: “O cristãos irão alcançar a ressurreição no Arrebatamento, quando ‘nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade’ (1Co.15.51-53)”
Parecer Pessoal
Ao que tudo indica, a preposição “ek” faz parte do texto e por isso, a interpretação do arrebatamento dos cristãos parece mais plausível. É válido dizer que a inclusão da mesma preposição no substantivo “anástasis” favorece tal interpretação, pois por ela entendemos que a expectativa de Paulo é de uma ressurreição para fora dentre os mortos. Essa é a opinião de Carlos Osvaldo Pinto sobre esse verso, e sobre ele comenta: “Esta palavra incomum (hapax legonema) sugere que Paulo tinha em mente um evento especial no qual sua participação não era certa, não por causa de mérito insuficiente, mas devido ao seu tempo de vida insuficiente. A esta altura na vida de sua vida, Paulo ainda esperava estar vivo para segunda vinda de Cristo (1Ts.4.15; 1Co.15.52) embora tenha percebido posteriormente (2Tm.4.6-8) que sua morte chegaria primeiro[25]“
[1] JONHSON, B.W., The People’s New Testament. Pp.218
[2] CARROL, B.H., Una Interpretación de la Biblia. Pp.286.
[3] ROBERTSON, A.T., Words Pictures in the New Testament. Quick Verse.
[4] LIGHTFOOT, J.B., St. Paul’s Epistle to the Philippians. Pp.151.
[5] CHAMPLIM, Russel Norman, Novo Testamente Interpretado Versículo por Versículo. Vol.5 pp. 51.
[6] MACARTHUR, Jonh. Philippians. Libronix.
[7] RICAHRDS, Lawrence O., The Vitctor Bible Background Commentary – New Testament. Quick Verse.
[8] CALVIN, Jonh, Commentary on Philippeans. Calvin College PDF. Pp.68
[9] GUNDRY, Robert, Panorama do Novo Testamento. Pp.356.
[10] MARSHAL, I. Howard, Teologia do Novo Testamento. Pp.303.
[11] Idem.
[12] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Pp.147.
[13] Idem, pp.393
[14] Idem, pp.365.
[15] HENDRIKSEN, Willian, Comentário do Novo Testamento – Filipenses. Pp.220.
[16] Observe que o uso da expressão grega “ei pös” em outros textos no NT expressa claramente o sentimento de dúvida: At.27.17; Rm.1.10; 11.14.
[17] Esse termo também é encontrado em escassez na literatura extra NT. Sobre o assunto, ver BDAG, Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature.
[18] Em seu aparato crítico, Tischendorf alega ter encontrado a preposição em a01 A02 B03 D06 E06abs1 P025 17.33. 31.104. 71.1912. 73.441. 442. 80.436. 137.263. 213.1952. d e f g vg go syrutr Basspir sa 28 Chr Euthalcod Dam Irint 309 Orint 4,459 Tertres carn 23 Leif198 etc. Praeterea Fgr010 Ggr012. Champlin também apresenta uma lista, veja noVol.5, pp.51.
[19] VINCENT, Marvin, The Epistles of Paul. Quick Verse.
[20] LIGHTFOOT, J.B., St. Paul’s Epistle to the Philippians. Pp.151.
[21] Outros Versículos com a expressão ressurreição ek nekron: Ressurreição Espiritual (Rm.6.4, 13; Cl.2.12; Ef.2.5); Ressurreição Física (Rm.11.15; 1Co.15.12, 20; e Ressurreição de Cristo (Rm.4.24; 6.9; 7.4; 8.11; 8.34; 10.7; 10.9; 1Co.15.12, 20; Gl.1.1; Ef.1.20; 2Tm.2.8)
[22] ROBERTSON, A.T., Words Pictures in the New Testament. Quick Verse.
[23] RICAHRDS, Lawrence O., The Vitctor Bible Background Commentary – New Testament. Quick Verse.
[24] MACARTHUR, Jonh. Philippians. Libronix.
[25] PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Novo Testamento. Pp.365.
02.11.09
Questões Introdutórias – Efésios
Antes de qualquer comentário exegético ou teológico, é necessário conhecer alguns aspectos anteriores com respeito a essa epístola. Assim, demonstrar-se-á dados a respeito do autor, da localidade a que escreve, bem como os problemas subseqüentes de ambos. Isto uma vez feito, ressaltar-se-á fatos gerais da epístola que marcam o propósito pelo qual o autor escreve o que escreve, enquanto destacar-se-á o conteúdo desta.
1 Autor
Embora não seja de comum acordo, o que pode ser afirmado por ora é que o autor desta epístola é Paulo (Sobre supostos problemas com a autoria desta epístola veja Ponto 2.3). Este, nasceu em Tarso, uma das principais cidades da Cilícia, que atualmente refere-se à costa sul da Turquia (At.9.11; 21.39; 22.3). Este região, a Cilícia, abrange uma área relativamente grande e, como é de se esperar, é formada de regiões extremamente distintas. Segundo F.F. Bruce, na região:
Havia a planície fértil no leste chamada de Cilícia Pedias, entre as montanhas Tauro e o mar; a rota de comércio da Síria para a Ásia Menor passava por ela, atravessando o monte Amano pelas Portas Sírias e cruzando a cadeia de montanhas do Tauro, pelas Portas da Cilícia, para o centro da Ásia Menor. A oeste destas ficava a região costeira montanhosa da Cilícia Tracheia (Cilícia acidentada), onde a cadeia do Tauro desce para o mar[1]
De acordo com o relato de F.F.Bruce é impossível não reconhecer a importância da região do ponto de vista comercial, pois era localizada no ponto de encontro entre a ligação comercial da Síria com a Ásia Menor. Por essa razão, o desenvolvimento da região era, em relação a realidade das demais regiões, avançada. E, nesta região encontrava-se a cidade de Tarso, que na concepção do próprio apóstolo Paulo, é uma “cidade não insignificante” (At.21.39). A cidade de Tarso além de ter grande importância comercial, teve relevância intelectual, visto ter uma universidade cuja fama rivalizava com a de Atenas e Alexandria.
Paulo, por ter nascido nessa região, poderia ter cursado nesta universidade onde absorveria um pouco da cultura e língua grega. Entretanto, segundo suas próprias considerações, recebeu sua principal educação em Jerusalém (At.22.3). Mas, sobre a possibilidade de absorção da cultura e língua, sua própria convivência na região se encarregaria desse fato.
Um ponto interessante na vida do Apóstolo é que ele é, ao mesmo tempo um judeu e cidadão romano. Em At.22.27 Paulo afirma que tem cidadania romana por nascimento. Como não se contesta a validade dessa afirmação, é possível que seu pai já fosse um cidadão romano e que por direito hereditário teria assumido tal cidadania. É de comum acordo que a cidade de Tarso possuísse benefícios ante ao Império Romano, como a isenção de impostos imperiais durante o governo de Augusto, o que facilitaria com que pessoas nascidas em Tarso pudessem comprar seu direito de cidadania, ou recebê-lo por mérito a uma atividade em benefício do Império. Não se sabe ao certo como seu pai, ou avô, pudesse ter recebido esse direito, mas é acima de suspeita que Paulo possuísse tal cidadania, e que como tal participava da elite social da cidade.
Entretanto, é importante notar que Paulo também se apresenta como “hebreu dos hebreus”, no sentido de descendente de Abraão (Fp.3.5). Ou seja, sua ascendência é naturalmente judaica. Assim, por mais que sua família pudesse ter sido totalmente enraizada na cultura grega, a religião de seus antepassados sempre falou mais alto, e a ela dedicou toda sua devoção, como lê-se em At.22.3: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus“. Em Fp.3.5 pode-se encontrar mais informações ainda: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu“.
Portanto, Paulo é considerado como um homem de influência no judaísmo, e de respeito perante o Império Romano. E, em posse desses direitos, e impulsionado pelo seu zelo para com Deus, o fariseu de nome hebraico Saulo empenha-se em perseguir aqueles que corrompem a verdade que considera inequívoca. Como ele mesmo afirma: “quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Fp.3.6).
O que provavelmente impulsionou Paulo nessa perseguição à igreja foi sua própria concepção de que era impossível que o Ungido de Deus, o Messias libertador da nação, pudesse sofrer tamanha indignidade como morrer em uma cruz. Isso era claramente demonstrado pela lei: “porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus” (Dt.21.23). Assim, aquele que perante a lei se considera irrepreensível, não podia aceitar essa informação. Contudo, essa era a mensagem anunciada pelos discípulos de Jesus. Pedro, em seu primeiro sermão em Atos faz a seguinte colocação: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo“.
Diante dessa realidade, Paulo como fariseu e zeloso pelos ensinos de Deus, não podia conter-se, deveria mover-se contra tal difamação da verdade que tanto crê. E prova de que tamanho era o zelo de Paulo contra o cristianismo, é que é possível encontrá-lo na cena do apedrejamento de Estevão (At.8.1), quando consente com sua morte[2]. Além de “consentir” com a morte de Estevão, pouco depois é apresentado como aquele que “assolava a igreja, entrando pelas casas, e, arrastando homens e mulheres e encerrava-os no cárcere” (At.8.3).
Sobre a dedicação de Paulo para com o judaísmo é assim expresso por John Sttot: “Seu zelo é demonstrado por sua disposição de realizar uma longa viagem para desarraigar todos os adeptos desse ‘Caminho’ nocivo[3]“. Paulo é aquele que, segundo ele mesmo, não só perseguia a Igreja, mas a detestava (Gl.1.13), enquanto respirava “ameaças de morte contra os discípulos do Senhor (At.9.1). Dessa forma, “Paulo se tornou um dos maiores líderes dos opressores da igreja[4]“.
Mas, todo esse zelo em prol do judaísmo não poderia durar por toda sua existência. Sua busca por defender os fatos em conformidade com verdade do próprio Deus, não poderia cerrar seus olhos para a mais sublime verdade já conhecida: “O Cristo ressurreto”.
Seu encontro com a verdade estava próximo, e a caminho de Damasco o inesperado acontece:
Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? (At.9.4)
Em Hebraico Paulo ouve seu nome e uma pergunta (At.26.14). E, como qualquer um em sua situação, questiona: “Quem és tu?”. Atordoado com o evento, não conseguia nem discernir quem falava com ele. Mas a resposta não deixa dúvidas: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At.9.4s; 22.7s; 26.14s). Após esse fato, cego por causa do fulgor daquela luz, Paulo é encaminhado para Damasco, onde Ananias, como muito temor, seria convidado por Deus para impor-lhe as mãos. Com certeza a situação é tensa, mas Deus Deus é claro em afirmar Seu propósito:
Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel, pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome.
Em uma conversa com Ananias, o que lhe tampava a vista, cai como que escamas dos seus olhos e torna a ver, e ao levantar-se foi batizado. Agora, o tão poderoso perseguidor do evangelho reúne-se aos perseguido e “logo pregava nas sinagogas a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus” (At.9.20). Transformado pela graça de Deus, dedica-se a anunciá-la. Como ele mesmo chegou a dizer:
A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor, pelo qual temos ousadia e acesso com confiança, mediante a fé nele. (Ef.3.8-12)
Agora uma mudança sem precedentes acontece na vida de Paulo, perseguidor para perseguido. Toda a intensidade que tinha em defender o judaísmo é agora aplicada em propagar o evangelho da salvação pela graça. Paulo, agora, é cônscio de sua tarefa: pregar aos gentios o evangelho de Cristo, enquanto aprende a sofrer pelo nome de Deus.
Além desses fatos anunciados, Paulo, após recuperar sua visão, ainda mudou sua visão com respeito a Jesus, pois afirma que ele é o Messias; mudou sua visão da lei, passou a questionar o todo seu procedimento como fariseu, tendo em mente que a lei o incitou a perseguir o próprio Messias; mudou sua visão da salvação, pois nada mais do que pudesse realizar poderia garanti-la; e assim, como um hebreu dos hebreus, cidadão romano, decidido e zeloso naquilo que crê, dedica sua vida em prol da causa de Cristo. E, talvez, deve ser essa a razão pelo qual, ao lembrar do passado chega a dizer:
Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes, e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (1Co.1.27-29).
A sabedoria de Deus deve ser exaltada na experiência da salvação de Paulo, pois este que era a “pedra no sapato” do evangelho, vem a ser de fundamental importância para a propagação do evangelho. Um judeu, conhecedor da lei e das tradições, com grande instrução, conhecedor não só da língua mas como da filosofia grega, universalizou o evangelho com suas epístolas na língua que todos poderiam ter acesso, com verdades que apenas ele parecia dispor.
Deve-se isso à graça de Deus que transformou, não apenas sua visão, mas sua vida, fazendo com que sua cosmovisão fosse nova, sua missão diferente, diante de uma perspectiva correta, produzindo uma teologia sadia e digna de autoridade e respeito, enquanto empenhava-se em auxiliar a igreja a portar-se corretamente. De missão em missão, dificuldades e problemas, a ponto de experimentar o cárcere, por algumas vezes, por assim dizer, aprende aos poucos o que significava sofre pelo evangelho. E preso, dedica-se a escrever cartas àqueles que durante suas missões conhecera; às igrejas que ele mesmo lançou o fundamento, buscando informá-los sobre a realidade do evangelho, e sua importância na prática vivencial.
É o que acontece com a mensagem contida na epístola aos Efésios, que é marcada pela graça de Deus, que ele pessoalmente teria experimentado. Graça que o alcançou a despeito de seu zelo fariseu para com a lei, concedendo-lhe a justificação diante de Deus, a redenção em Cristo, e o selo do Espírito que é a garantia de sua herança.
2 Destino
Como é comum na maioria dos documentos neotesta-mentários, existem problemas na epístola em pauta que dificultam a identificação satisfatória do rumo que ela teria tomado, e a quem teria sido enviada (Sobre essa discussão veja ponto 2.4). Entretanto, nesta altura considerar-se-á apenas Éfeso como destino desta carta, pois é certo que tenha chegado até lá. O intuito desta consideração é tomar como Éfeso modelo social e cultural da região para onde esta epístola possa ter ido, para ressaltar algumas informações que auxiliem a identificação do propósito pelo qual Paulo escreve o que escreve nesta epístola.
Assim, não é necessário ler muito para encontrar a seguinte oração: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, aos santos que vivem em Éfeso“. Éfeso, pertencia à região da Ásia, que “foi formada pelo reino de Pérgamo, quando Atalo III morreu em 133 a.C. e deixou seu território para o senado e o povo de Roma[5]” e a região da Mísisa, Lídia, Caria, Lícia, e parte da Frígia.
Posteriormente, parte da costa da Ásia, a Jônia, foi inserida à Lídia, e após diversos conflitos sobre o domínio da região, acaba dominada pelos gregos, que vêem a ser denominados gregos jônios. Dentre as principais cidades dessa região, que possuíam autonomia cívica, Éfeso, na foz do Caístro, era a mais ilustre, chegando a ser considerada como “a cidade mais importante da província romana da Ásia[6]“.
A cidade era adentrada e cortada por uma magnífica estrada com aproximadamente 22 metros de largura adornada com colunas esculturais, que chegava até o porto, que servia tanto como grande centro exportador como escala natural para quem viajava para a capital do império. Devido a esse fato, a economia era crescente, e a cidade era de extrema importância para o comércio, também crescente naquele tempo.
Sua grandiosidade como cidade não é apenas marcada pela sua proeminência comercial, nem mesmo pela sua fama com os direitos cívicos, mas era o centro de adoração da deusa pagã Diana. Homero, em A Ilíada, apresenta Diana como senhora e protetora da vida selvagem[7], e na Grécia era conhecida como a virgem caçadora. O templo de Diana, situado em uma planície próxima à entrada da cidade pela porta Magnesiana, guardava a imagem da deusa que tinha muitos seios que, segundo as crenças, teria caído do céu (At.19.35). A veneração dessa deusa teria se espalhado pelo mundo antigo (At.19.27), e em função disso a cidade orgulhava-se de ser a Guardiã do templo de Diana. Entretanto, uma espécie de multiformidade ideológica marcava a cultura religiosa da região, pois segundo Walter Elwell e Robert Yarbrough a cidade “era dominada pela adoração do imperador, pela idolatria, e as artes negras de ocultismo e espiritismo[8]“.
E a esta cidade é que o apóstolo Paulo chegou, próximo ao fim do verão de 52.d.C. e ficou durante quase três anos. O evangelho parece ter nascido nesta cidade fruto dos esforços de Priscila e Áquila, em um momento de grande expansão do cristianismo, que se espalhou com igrejas pelo vale do Lico (cf. Cl.1.7; 2.1). É provável que, de Éfeso Paulo tenha mantido contato com a Igreja de Corinto, e que, segundo G.S. Duncan, nesta cidade é que Paulo ficou aprisionado pro três vezes e que de lá teria escrito suas epístolas de prisão[9]. Entretanto, poucas evidencias apóiam tal hipótese.
O que é certo é que durante o ministério de Paulo uma comunidade cristã tenha crescido e se fortalecido na região após o encontro de Paulo com alguns discípulos de João (At.19.1ss), e por meio dessa comunidade, o evangelho espalhou-se pela província da Ásia. Outro fato que deve ser ressaltado é que a esta comunidade, poucos anos depois, Paulo tenha dirigido uma epístola, embora sem referências diretas a pessoas, a conhecida epístola de Paulo aos Efésios.
3 Problemas com a Autoria
Entrementes, essa consideração não é simples assim. A epístola de Efésios é normalmente atribuída a Paulo como autor, embora alguns teólogos modernos tentam atribuir a epístola a um pseudônimo, devido a algumas discrepâncias literárias, teológicas e de vocabulário ao que se refere aos outros escritos paulinos. Tal dificuldade tem impulsionado alguns comentaristas a não conseguirem expressar opinião concreta, como Arthur G. Patzia, que ao levantar dados sobre o fato parece não fechar a questão da autoria. Para ele, “todas as questões internas e externas que rodeiam esta carta não nos deveriam distrair de sua beleza e valor essenciais, e completa autoridade que ela tem para a igreja[10]“.
Assim, é de fundamental importância conhecer os argumentos que favorecem ou desfavorecem a autoria paulina para que uma conclusão sólida, concreta, consistente e digna de confiança possa ser levantada, com o propósito de não atribuir suspeitas no que tange a fidedignidade e veracidade do texto.
3.1 Argumentos contra a autoria paulina
Sobre os argumentos contra a autoria paulina pode-se ressaltar pelo menos 3 pontos: vocabulário e estilo, doutrina e semelhança com Colossenses.
Vocabulário e Estilo:
Neste ponto, as afirmações parecem muito subjetivas. O primeiro grande argumento lançado é que em Efésios existem oitenta duas palavras que não ocorrem em nenhum outro escrito de Paulo, e que trinta e oito não se encontram em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Desse grupo de palavras pode-se destacar avswti,a (dissolução) e politei,a (comunidade). Outro detalhe é que em Efésios algumas marcas registradas de Paulo são alteradas, como por exemplo: sua referência ao céu (oiv ouvranoi,) é cunhada como “nos lugares celestiais” (evn toij evpourani,oij); a expressão normalmente utilizado por Paulo para designar sua atividade de “dar graças” (ca,rij di,domi) é apresentada pelo verbo “conceder graciosamente” (carito,w); normalmente Paulo refere-se a Satanás, mas em Efésios como “diabo”. No que tange ao estilo, apenas duas colocações são importantes; a primeira diz respeito às orações normais de Paulo, que são curtas, concisas e formadas por orações breves, o que não acontece em Efésios; em Efésios o autor tem o costume de ligar termos sinônimos o que não ocorre nos outros escritos paulinos. Segue-se, que à luz desses argumentos pode-se reforçar a idéia de um autor pseudônimo.
Doutrina:
A doutrina expressa em Efésios parece muito organizada para a época que é comumente atribuída. Um exemplo disso é a doutrina relacionada à Igreja, pois é normal que Paulo se refira à igreja como uma comunidade individual, ou igreja local. Porém, em Efésios encontra-se o conceito claramente universal da igreja, pensamento encontrado por volta do início do segundo século. Patzia sugere que esse tipo de pensamento é encontrado no início do catolicismo, o que implica em uma carta pós-paulina[11]. Ainda em relação à igreja, o autor de Efésios ilustra a união entre Cristo e a Igreja com a idéia do “casamento”. Mas parece impossível que esse pensamento provenha de Paulo, pois parece conflitante com 1Coríntios 7[12]. A idéia de que na igreja tanto gentios como judeus são incluídos pelo derribamento da “parede de separação” sugere a idéia da destruição do Templo em 70.d.C., visto que na época de Paulo era impossível que gentios e judeus vivessem em harmonia. Outro fator interessante é que Paulo sempre menciona algo referente a “parousia“, sua doutrina favorita[13], e em Efésios isso não acontece nem indiretamente. Pouca ênfase na iminência da Volta de Cristo é encontrada em Efésios, e Paulo costumava referir-se ao futuro e a urgência de uma vida irrepreensível em função desta iminência. Observado esse quadro, é possível sugerir um pseudônimo muito posterior a Paulo, pois apenas assim é que essas tensões podem ser harmonizadas.
Semelhança com Colossenses:
Este argumento é muito interessante, mas não se sabe a quem apóia. Por exemplo, é notória a semelhança entre Efésios e Colossenses, que é uma carta genuinamente paulina. Isso mais atrapalha que auxilia tal argumento, contudo o que se tem sugerido é que Colossenses é uma carta paulina e que um admirador de Paulo a tenha utilizado para redigir Efésios. Argumento um tanto subjetivo e confuso, a não ser que ambas sejam consideradas não paulinas. Contudo, essa similaridade é apenas superficial, pois, embora setenta e cinco dos vocábulos encontrados em Efésios estejam presentes em Colossenses, muitos desses são utilizados de maneira diferente nestas epístolas. A idéia de supremacia de Cristo, denominado o cabeça das potestades (Cl.2.10, 19), em Efésios é aplicado à Igreja, onde Cristo é o cabeça (Ef.4.15-16); o mistério em Colossenses refere-se a “Cristo em vós” (Cl.1.27) e em Efésios a unificação entre judeus e gentios (Ef.3.3, 6); a palavra dispensação em Colossenses denota mordomia (Cl.1.20) e em Efésios refere-se ao plano soberano de Deus (Ef.1.10; 3.2). Assim, um admirador de Paulo pode ter assumido seu nome e alguns de seus termos, para escrever uma carta que fosse aceita pela igreja primitiva, em uma data muito posterior à morte de Paulo. Um fator, mesmo sendo tolo, que apoiaria esse argumento é que as cartas de Paulo circulavam entre as igrejas por meio de cópias, assim é possível que um pseudônimo inserisse uma pseudocarta de Paulo como uma carta sem que ninguém pudesse notar.
Diante dos fatos levantados é possível que a autenticidade da autoria possa ser reavaliada. Mas é ainda necessário conhecer os argumentos a favor da autoria paulina para que tal afirmação possa ser levado a cabo, como alguns tem tentado.
3.2 Argumentos a favor da autoria paulina
Antes de qualquer argumento a favor, é importante demonstrar que dois pontos são interessantes até aqui: (1) O argumento contra a autoria paulina é fundamentado no fato de que o vocabulário, estilo e doutrina são avançados demais para se admitir a autoria paulina, mas são tão semelhantes que é preciso crer que um admirador de Paulo, de seu estilo, vocabulário e doutrina redigisse tal documento; (2) as evidências anteriores apontam para um autor pós Paulo, o que seria ilógico esperar que um admirador escreveria uma carta com o nome de alguém que certamente está morto. Assim, uma conclusão é clara: existe muitos conflitos entre os argumentos contra a autoria paulina, e sua base é muito subjetiva, e a subjetividade não é um bom ponto de partida para um debate tão perigoso como esse.
Após essa breve colocação, é válido lançar um pequeno questionamento: Qual seria o valor e a veracidade das informações espirituais contidas nesta epístola se é baseada na intenção dolosa de algum pseudônimo admirador de Paulo? Se Ef.1.1 é inválido, qual é a validade do resto? Ou toda a epístola é uma mentira, ou as teorias sobre sua autoria o são. Neste trabalho, evidencia-se a clarividência de que a segunda opção é verdadeira, a saber, que as teorias recentes são inválidas. As respostas às possibilidades lançadas no tópico anterior, neste tópico é refutada, como segue abaixo.
No que tange a vocabulário e estilo, a avaliação é inócua. A demonstração de um vocabulário rico não pode garantir que Paulo não o tenha escrito, e por certo este nunca resolveu anotar as suas palavras preferidas para redigir suas cartas com vocábulos exclusivamente seus. É evidente que para ênfases distintas usa-se vocabulário distinto. Assim afirmar que Paulo não escreveu a epistola fundamentado nessa premissa é no mínimo ilógico. Sobre seu estilo diferenciado é novamente uma avaliação superficial, pois é impossível que durante o tempo, tanto vocabulário como estilo, não sejam alterados. Ninguém pode escrever com absolutamente mesmo estilo durante todas as fases da vida. Isso é demonstrável nos próprios escritos de Paulo, pois que conexão existe entre Romanos e 1Coríntios em termos de estilo? Não se pode acusar Shakespeare de escrever poesias e peças, e negar-lhe os sonetos em função do estilo de escrita e vocabulário. Isso ilustra o fato de que, em função de destinatários diferentes, problemas diferentes, pessoalidade diferente uma abordagem diferente nasce, e com ela um estilo literário distinto. Mas não se pode afirmar que Romanos é de Paulo e 1Coríntos não, nem o contrário, pois é certo que ambas pertençam ao mesmo autor, a história da igreja assim o confirma. Do mesmo modo com Efésios e os demais escritos de Paulo.
Sobre a doutrina mesmo problema é encontrado, pois Paulo não pode não mencionar sua doutrina favorita, pois isso iria impossibilitá-lo como autor desta carta, o que é ilógico. Sobre a Igreja universal em Efésios, em Cl.1.18 é clara a consideração da universalidade da Igreja, o que sugere um mesmo autor para ambas (cf. 1Co.4.9; 12.28; 15.9; Gl.1.13; Fl.3.6). As outras sugestões teológicas são também inconsistentes, pois sobre a parede de separação e sua aplicação à queda do templo está mais diretamente relacionado com uma má interpretação do argumento de Paulo naquele texto do que uma alusão a este fato histórico. E para agravar, a queda do templo não auxiliaria em nada essa convivência, pois que relação existiria entre os dois fatos? A impossibilidade anunciada para a convivência entre gentios e judeus não tem respaldo histórico, pois as advertências neotestamentárias sempre abordam essa questão. O que é certo é que esta convivência era por vezes conflitante, não impossível. Outro detalhe importante aqui é que em Rm.9-11 Paulo se importa em demonstrar que o conceito de unidade entre gentios e judeus já fazia parte de seu escopo teológico. Sobre 1Coríntios 7 e a figura do casamento em relação a Cristo e a Igreja é fruto de uma má compreensão de ambos textos, pois não há indícios que um atribua problemas ao outro. Além disso, essa idéia não é proposta pelo Apóstolo, mas é indicada pelo próprio Messias (Mt.25.1-13).
Em relação à sua semelhança com Colossenses, até onde ela é levada, mais confirma a autoria paulina do que a desacata. Como já demonstrado, as supostas discrepâncias não são decisivas, visto serem fruto de má disposição de interpretação. Todos os termos que foram sugeridos como conflitantes estão sendo usados dentro do campo semântico aceito, embora aplicações distintas possam ter sido elaboradas em cada consideração. Com respeito a Cristo ser o cabeça das potestades em Colossenses e o cabeça da Igreja em Efésios não é problemático, pois em Colossenses Cristo também é testemunhado como Cabeça da Igreja (Cl.1.18). Sobre o mistério, a expressão “Cristo em vos” (Cl.1.27) é aplicada a gentios, e mesma ênfase existe em Efésios, contudo de maneira mais detalhada, o que não desmerece o texto. Sobre a palavra “dispensação” em ambos os casos referem-se à mordomia ou administração soberana da parte de Deus. Ou seja, todas as afirmações de caráter doutrinário não parecem tão consistente assim, antes contribuem mais para uma autoria paulina do que o contrário. Vale ainda ressalvar que Colossense e Efésios são escritos aproximadamente na mesma época e do mesmo lugar, e segundo tudo indica, pelo mesmo autor. Isso resolve o problema da similaridade.
Sobre a idéia de um imitador, é válido questionar: Se ele era um admirador de Paulo, por que razão não procurou utilizar outras cartas de Paulo na sua redação? Por que utilizou apenas Colossenses? Sobre isso, Hendriksen cita E.F. Scott que diz:
Quando um escritor tira de si mesmo, ele faz o que quer de seu próprio material. Ele não pode deixar de fazer revisões e modificações em cada frase. Somente o imitador desonesto é o que percebe que precisa atentar bem ao seu original se não quiser trair a si mesmo[14]
À luz dessas respostas é necessário demonstrar as evidência à favor da autoria paulina.
História Eclesiástica:
Dentro das informações recolhidas pela história a Epístola é reconhecida como Paulina. Sua aceitação no Cânon deu-se em função do reconhecimento da autoria paulina. Marcion, mesmo sendo um herege, incluiu Efésios no seu Cânon particular, embora sob o título de “aos Laodicenses“. Policarpo, martirizado em 168, faz alusões dessa epístola como escrito de Paulo Irineu, no segundo século já reconhecia tal epístola. O Cânon Muratoriano também incluía a epístola em questão, reconhecendo a autoria paulina. O mesmo acontece com Clemente de Alexandria e Orígenes. Eusébio de Cesaréia reconhece Efésios como epístola paulina quando se refere aos textos considerados como Escritura[15]. Se aqueles que estavam mais próximos reconheciam a autoridade do texto é válido considerar como autêntico. Ainda é importante demonstrar que até o século dezesseis “pende completamente para o lado Paulino quanto a questão da autoria[16]“. O que se pode notar é que existe um forte apoio externo e uma certa unanimidade presente na igreja primitiva.
Autoridade das Escrituras:
Em primeiro lugar deve-se ressaltar que o autor da epístola se identifica, não apenas uma vez mas duas (1.1; 3.1). A não ser que existam muitas provas do contrário é válido aceitar a carta pela sugestão deixada nela mesma. Um detalhe importante é que os receptores da carta deveriam reconhecer o escrito em pauta pelas sugestões deixadas na própria epístola, tal como a oração do autor pelos receptores (1.15), chama-se de “o prisioneiro de Cristo” (3.1; 4.1) e pelos pedidos de orações deixados (6.19-20). Se algum pseudônimo assumisse a identidade de Paulo, notas com uma certa pessoalidade seriam evitados. Se o caso desta epístola fosse de falsificação de autoria ela seria, sem sombra de dúvidas, retirada do cânon aceito.
Semelhança teológica consigo mesmo:
Dentre os temas tratados em Efésios, muitos são encontrados nos documentos inconteste de Paulo: Domínio da carne nos não regenerados; O papel da graça na salvação; a obra de Cristo como reconciliação; o papel dos judeus e da lei; isso, ao menos, sugere que o mesmo autor as tenha escrito.
3.3 Conclusão
Diante das informações recolhidas é impossível que se atribua a Epístola ao Efésios a um admirador, ou imitador do Apóstolo Paulo. As sugestões que nascem para colocar em “cheque” a autoria paulina podem ser utilizadas para validá-la. Tais argumentos, além de incoerentes, são inconsistentes com a realidade da epístola. Assim, é incontestável que a autoria seja paulina.
4. Problemas com o destino
O problema em relação ao destino desta epístola nasce logo no início da Epístola: “Pau/loj avpo,stoloj Cristou/ VIhsou/ dia. qelh,matoj qeou/ toi/j a’gi,oij toi/j ou=sin Îevn VEfe,sw|Д. Como se observa, a expressão que indica o destino desta epístola está entre colchetes, ou seja, não consta em manuscritos importantes. Se isso é correto, é possível que “em Éfeso” não indica que Paulo tenha endereçado esta epístola à comunidade de Éfeso (maiores detalhes textuais sobre a expressão, veja Apêndice 1). O papiro mais antigo P46, considerado o mais confiável, e em alguns outros documentos antigos (a, B, 424c, 1739) não constam tal expressão, o que sugere que ela não estivesse no autógrafo.
Entretanto é válido demonstrar que não se sabe afirmar para quem tais documentos são mais importantes. Tal título é mantido pela idade de tais documentos, e que por serem antigos devem estar mais próximos do autógrafo. Contudo, as evidências a favor da inclusão de “em Éfeso” são devastadoramente maiores numericamente, regionalmente, textualmente com boas evidências patrísticas. O argumento que favorece a não inclusão deve sua força a esse fato, que parece não resolver a questão, pois é notório que na história da igreja as cópias dignas de confiança foram mantidas, e as demais, rejeitadas. Assim, afirmar que documentos antigos são mais próximos do original pode ser um risco muito grande, pois existem duas hipóteses válidas para documentos antigos: (1) foram perdidos no decorrer do tempo ou (2) foram deixados de lado. Para qualquer uma das duas hipóteses é certo que não existia qualquer valor textual, por que a igreja não deixaria cópias dignas de confiança serem esquecidas ou perdidas no tempo. Assim, é certo que as evidências que desacreditam o destino para Éfeso não podem ser tão conclusivas.
Além deste problema textual nesse assunto, é possível notar certa incoerência no relacionamento de Paulo com os efésios durante seu ministério e o tom impessoal da carta a eles dirigida: “tendo ouvido a fé que há entre vós” (1.15); “se é que tendes ouvido…” (3.2; 4.21). Como foi demonstrado, Paulo não apenas passou por Éfeso, mas esteve nesta cidade durante três anos (At.19.8; 20.31), e a estes se despede com tom de muita amizade, comunhão e carinho (At.20.17-38), como se pode ler:
Tendo dito essas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles. Então houve grande pranto entre todos e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que dissera, que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até o navio (v.36-38)
Se tamanha pessoalidade é encontrada entre Paulo e os efésios, por que não existe nenhum reflexo disto em sua epístola, uma vez que ela foi endereçada a eles? A resposta a esta questão parece não favorecer a inclusão do destino, e assim “é muito difícil imaginar que Paulo teria escrito uma carta tão seca e impessoal a amigos tão queridos[17]“, sem contar que, é possível que essa seja a carta mais impessoal do apóstolo Paulo.
A questão pode ser ainda pior quando uma análise patrística é aplicada a esse problema. Sobre isso Broadus David Hale afirma:
Tertuliano, em seu debate corrente contra Marcião, citou o título, mas não se referiu à locução “em Éfeso”, contida em 1.1. Quando Orígenes escreveu sobre esta carta, está evidente em sua exposição de 1.1 que a expressão não estava no manuscrito que ele usou. Muito mais tarde, Basílio escreveu que seus predecessores haviam omitido a locução[18].
Relevando ainda a questão patristica, é possível que o cânon de Marcião contivesse essa mesma epístola sob a referência de “aos Laodicenses”. Mas, se era verdadeira tal indicação, por que motivo foi descartada? A essa pergunta, não existe resposta histórica. Então, se as evidências levantadas acima são verdadeiras, bem como a autoria paulina, pode-se assegurar que ela não tenha sido endereçada a Éfeso. Contudo, essa conclusão descarta a veracidade do conteúdo dês epístola, pois, se o destino dela é uma incógnita, ou uma falácia má intencionada, que se dirá de seu conteúdo?
Ante a essas perguntas, possivelmente sem resposta, deve-se ter em mente que dois destinos a uma mesma carta nunca foi problema para ninguém, pois se pode endereçar a mesma carta a dois ou mais destinos distintos. A questão do destino da carta pode ser bem explicada pela possibilidade de que Paulo tenha escrito uma carta circular, e que Éfeso, como a cidade proeminente da região a que escreve teve seu título mantido no decorrer da história. Entretanto, não se abraça a idéia de uma carta sem destino, ou com uma lacuna para se preencher, visto que não existe nenhuma outra indicação na antiguidade de que isso tenha acontecido.
Em prol da opinião da carta circular, é válido afirmar que a tradução expressa pela ARA para Ef.3.2 (“se é que tendes ouvido“), que retira a dignidade de Paulo como autor e Éfeso como destino, não expressa o sentido da frase grega “ei; ge hvkou,sate”. A palavra “ge” é uma partícula de ênclise, e não corresponde diretamente a nenhuma palavra em Latim ou em Português, mas indica que o significado da palavra a qual pertence tem proeminência especial. Ou seja, uma vez conectada à preposição “eiv”, ela eleva a uma condição de ênfase tal preposição. Dessa forma, “eiv” não expressa dúvida, mas uma suposição que é dada por garantida. Logo, a sentença pode ser assim traduzida: “visto que tendes ouvido”. Ou seja, tal versículo não é respaldo para a negar a autoria de Paulo, ou o destino a Éfeso, antes dignifica a possibilidade que tal documento tenha sido escrito como um encíclica que, certamente, chegou a Éfeso.
Se a carta é uma encíclica para ser lida em diversas igrejas, não existe nenhuma prova que possa desmerecer o conteúdo, autoria ou até mesmo o destino. É válido lembrar que, se a carta foi endereça da à Laodicéia e nenhum dos manuscritos foi mantido com essa referência, é possível que a tradição da igreja o tenha retirado, pela conexão direta com Marcião que isso traria. Dessa forma conclui-se que, a carta apesar de ter sido destinada a várias regiões da Ásia, chegou até Éfeso, e possivelmente a partir desta é que se estenderam as cópias posteriores mantendo-a até os dias de hoje.
5. Propósito geral da Carta
Certa dificuldade cerca esta epístola por que, normalmente, o propósito da redação está intimamente ligado à circunstância específica dos destinatários. E, como observado, na Epístola aos Efésios existem muitas dificuldades no que tange aos destinatários bem como a circunstâncias vividas por eles. Mas é válido ressaltar que: (1) a carta chegou até Efésos, e que esta cidade serve como modelo sócio-cultural e religioso dentre todas as possíveis Igrejas que receberam tal epístola; (2) considera-se que esta epístola seja encíclica, assim releva-se um propósito mais abrangente do que as demais cartas de Paulo; (3) a carta é proveniente de Roma, como a ortodoxia tem se preocupado em defender, chegando aos destinatários por volta do ano 61 d.C.; Segue-se que é possível compreender o propósito de Paulo nesta epístola.
Contudo, as premissas (1) e (2) já foram bem demonstradas, o que não ocorre com (3). Mas, não é sem provas que tal conclusão é aceita, pois Paulo esteve em Roma sob confinamento em uma casa alugada (At.28.16, 30, 31) com certa liberdade tanto para locomover-se como para escrever; as evidências das outras epístolas de prisão (Fp.1.7; Cl.4.10; Fm.9) apontam para a primeira prisão em Roma, o que sugere que não seria diferente com Efésios, visto ser normalmente enquadrada na mesma época que as demais; a narrativa do Livro de Atos também favorece essa conclusão; ou seja, a premissa (3) é válida.
Portanto, diante dessas evidências, pode-se levantar fatos que demonstrem o propósito. É possível a considerar três pontos altos nessa epístola, que cooperam entre si, para a identificação do propósito maior desta, as saber: Paulo tem interesse em expressar satisfação pelo testemunho dos cristãos a que escreve; impulsioná-los a demonstrar a graça de Deus manifesta na salvação deles visando assim glorificar a Deus; e por fim estabelecer um conceito sólido tanto da salvação como da Igreja para que os cristãos, convictos de sua nova posição em Cristo, pudessem viver de maneira irrepreensível diante de Deus.
Expressar satisfação: Nesta carta, embora com poucas referências pessoais, Paulo deixa evidente que a postura dos gentios cristãos, em relação a fé em Cristo e no amor para com os santos (1.15, 16), está correta, e assim louva a Deus por isso, embora peça que Deus lhes dê espírito de sabedoria e revelação para que eles possam compreender o poder de Deus manifesto na salvação deles.
Estimular a propagação da graça de Deus: Nesta carta é evidente que Paulo estimula seus leitores a serem uma eterna demonstração da graça de Deus (1.12; 2.7, 10; 4.1-3; 5.1). A intenção é que os gentios compreendessem a graça de Deus na salvação deles, da realidade da inclusão deles no plano histórico de Deus, com o objetivo de que não vivam mais como viviam antes da salvação (4.17-19).
Estabelecer conceitos corretos: Com obviedade, a epístola de Paulo aos efésios inclui um caráter didático muito forte e coeso, mas diretamente ligado à práxis vivencial do cristão. Neste ponto nota-se a base para tudo o que é levantado na carta, pois Paulo compreende que apenas a partir de conceitos corretos pode-se levantar uma conduta correta. Assim, a demonstração do conceito correto da salvação de Paulo conduz os gentios a conclusão da isenção de mérito para o recebimento desta bênção, e os conclama à humildade, pois não podem alegar mérito da salvação, mas devem relembrar da sua condição antes da atuação de Deus e que por meio de Cristo foram aproximados deste plano histórico e inseridos na comunidade dos santos, podendo, a partir de então, desfrutar desta nova posição em Cristo como santos em busca da santidade.
Segue-se que, segundo essas informações pode-se sintetizar o propósito da Epístola de Paulo ao Efésios nas seguintes palavras: “Conscientizar cristãos gentios da sua posição em Cristo, bem como da nova comunidade que participam, a Igreja, para que entendam a postura digna que devem ter diante de Deus, dos judeus e do mundo“.
[1] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça. Shedd Publicações:São Paulo, 2003. pp.27
[2] A idéia presente neste texto é que Paulo aprovava em sentimento comum com outros o assassinato de Estevão como um blasfemador.
[3] STTOT, Jonh. Homens com uma mensagem. Cristã Unida:São Paulo, 1996, pp.88.
[4] DOUGLAS, J.D and COMFORT, Philip W. Who’s who in Christian History. Tyndale House: Illinois, 1997.
[5] BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça. Shedd Publicações:São Paulo, 2003. pp.279
[6] DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vida Nova:São Paulo, 1962. Vol I. pp.459.
[7] HOMERO, A Ilíada. Martin Claret:São Paulo, 1998, pp.470.
[8] ELWEEL, Walter e YABROUGH, Robert. Descobrindo o Novo Testamento. Cultura Cristã:São Paulo. 2002, pp.309.
[9] DUNCAN, G.S. St. Paul’s Ephesian Ministry. In: DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Vida Nova:São Paulo, 1962. Vol I. pp.460
[10] PATZIA, Arthur. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Vida:São Paulo, 1995. pp.137.
[11] Idem, pp.139.
[12] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 1997. pp.338
[13] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.273
[14] SCOTT, E.F, Epístola de Paulo aos Colossenses, a Filemom e aos Efésios. In: HENDRISKSEN, William, Comentário do Novo Testamento. Casa Presbiteriana:São Paulo, 1992. pp.38
[15] EUSÉBIO, História Eclesiástica. CPAD:São Paulo, 1997. pp.235
[16] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.275
[17] CARSON, D.A, MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 1997. pp.340
[18] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Juerp:Rio de Janeiro, 1983. pp.275