10.02.09

Definindo a Obra da Criação

Enviado em Gênesis, Teologia Própria tagged , , , , às 4:11 pm por Marcelo Berti

Assumir que Deus é um Deus Criador, exige de nós alguns reconhecimentos: (1) que Deus é livre para exercer sua vontade de criar; (2) que é poderoso para exercer poder suficiente para criar; (3) que é anterior e superiror a Sua criação; (4) que Sua criação é posterior e inferior a Si mesmo; (5) se Ele é o Deus criador Ele é o criador de todas as coisas; (6) e que fez o que fez para evidenciar sua Glória.

Tendo considerado isso, devemos admitir que O Deus apresentado pelas escrituras é sobremodo nobre e grande, pois é aquele que da inexistência trouxe o Universo. Por isso, definir a criação é de alguma forma também definir a Deus. Portanto, entendo que a Obra da Criação é a fruto da livre da ação do Deus trino em exercer seu poder em trazer à existência tudo o que existe do nada para louvor da sua Glória.

A. Triunidade de Deus

As escrituras são claras quando falam sobre a Criação e demonstram por fato que Deus Pai é ativo na criação: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn.1.1); “Assim diz o Senhor, teu Redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra” (Is.44.24). O Deus criador é uma grande ênfase na revelação, até por que, esse reconhecimento estabelece por fato a superioridade de Yahweh aos outros deuses: Enquanto os deuses eram criados pela atividade criativa e desesperada do seres humanos (Is.44.14-17), Yahweh é o Supremo Criador dos seres humanos: “Porque todos os deuses dos povos são ídolos; mas o Senhor fez os céus” (Sl.96.5); “Os deuses que não fizeram os céus e a terra, esses perecerão da terra e de debaixo dos céus. Ele fez a terra pelo seu poder; ele estabeleceu o mundo por sua sabedoria e com a sua inteligência estendeu os céus” (Jr.10.11-12).

É evidente nas escrituras que o Deus Pai seja o protagonista na obra da criação, mas é fundamental demonstrar que essa obra é também claramente reconhecida como obra do Filho e do Espírito Santo. O Novo Testamento é claro em demonstrar que Jesus Cristo é ativo na criação: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo.1.3); “porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl.1.16); “nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo” (Hb.1.2).

As escrituras também apontam para a Obra do Espírito Santo na criação: “A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas” (Gn.1.2). Alguns tem visto nessa afirmação apenas uma declarção de um poder ou atividade do próprio Deus, como se o Espírito de Deus fosse uma manifestação do próprio Deus. Entretanto, é importante reconhecer a terminologia empregada por Moisés aqui. O uso da expressão hebraica “ruach elohim” em outros lugares no Velho Testamento parecem sugerir que o autor fala de uma pessoa e não uma qualidade, especialmente por desempenhar funções que são atribuídas claramente ao Espírito Santo no Novo Testamento. Em Gn.41.38 o “ruach elohim” é apresentado  como aquele que estava em José em sagacidade e sabedoria. Em Ex.31.3 (cf. Ex.35.31) vemos o Senhor (YHWH) dizer a Moiséis que havia enchido Bezaleel com o “ruach elohim”. Certamente aqui, como no caso anterior, significa uma unção especial, uma comunicação especial de qualidades, que nesse caso se refere à sabedoria, conhecimento para exercer funções artísiticas na construção do Tabernáculo. É interessante notar que no Novo Testamento o Espírito Santo seja o responsável por conduzir os cristão ao desempenho do serviço a Deus em situações de dificuldades (At.2.4; 4.31; 6.3). Em 2Cr.24.20 (cf. Nm.24.2; 1Sm.10.10; 19.20; 2Cr.15.1) vemos o “ruach elohim” ser usado para levar a Palavra de Deus. Essa manifestação especial de Deus para demonstrar sua palavra é claramente atribuida a ação do Espírito Santo no Novo Testamento: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (2Pe.1.21); “Aos quais foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos bem desejam atentar” (1Pe.1.12).

Outro detalhe que parece reforçar essa sugestão é o uso neotestamentário da palavra grega “pneuma” para descrever o Espírito Santo. O termo hebraico “ruach” também significa ar, respiração, vento como o termo neotestamentário “pneuma”. A equivalência desses dois termos nos faz pensar que os autores neotestamentários tinham razões léxicas e escrituristicas para preferirem o termo grego que usaram para descrever o “ruach elohim”. É interessante notar que a LXX trouxe a declaração, para Gn.1.2, como o “pneuma Theou” (o Espírito de Deus).

Assim sendo, é possível perceber outras ocasiões em que o “ruach” (pneuma; Espírito) é apresentado como criador: “Pelo seu Espírito clareou os céus e a sua mão traspassou a serpente fugitiva” (Jo.26.13): “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jo.33.4); “Quem mediu com o seu punho as águas, e tomou a medida dos céus aos palmos, e recolheu numa medida o pó da terra e pesou os montes com pesos e os outeiros em balanças, Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro o ensinou?” (Is.40.12).

Tendo admitido que a Trindade estava ativa na criação é importante lembrar que Filho e Espírito Santo não poderes manifestos de Deus, ou agentes intermdiários, mas participantes ativos com o Pai na Obra da Criação. Portanto, podemos dizer que a Criação é uma Obra do Pai, por meio do Filho com o Espírito Santo.

B. Liberdade de Deus

Eventualmente a criação é apresentada como um ato de necessidade de Deus, como se dependesse da criação para ser Soberano Deus, ou para acalentar sua solidão cósmica. Em outras palavras, afirmar que o Deus das escrituras não era nem estava completo antes da criação, e por isso cria para poder se relacionar. Portanto, essa necessidade relacional do criador seria o motivo pelo qual o Deus teria iniciado o processo criativo.

Contudo, as escrituras não apresentam Deus desse modo. As escrituras afirmam que desde a eternidade passada Deus já estava em um relacionamento de com Cristo. Observe as palavras de Cristo: “Agora, pois, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo.17.5). Nesse texto é evidente que o Filho já estava com o Pai antes da existência do mundo em um estado exaltado. Isso é importante ser ressaltado como evidência da não solidão cósmica do Criador. Ao contrário, desde a Eternidade passada Deus é Trino em sua Existência e Completo como Deus Soberano. As escrituras também afirmam que Deus, Cristo e o próprio Deus coexistiam em um relacionamento de amor desde a eternidade passada: “Pai, desejo que onde eu estou, estejam comigo também aqueles que me tens dado, para verem a minha glória, a qual me deste; pois que me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). De fato, as escrituras apresentam com clarividência que Deus desde a eternidade passada coexistia de modo trino e, portanto, a criação não poderia ser considerada com um ato de necessidade de Deus perante sua suposta solidão.

Existe ainda a necessidade que se demonstre que o Espírito Santo estivesse antes da fundação do mundo. E sobre isso é válido lembrar que o autor de Hebreus o denomina “Espírito Eterno” em 9.14. assim, pode-se conconrdar com a premissa que era necessário que a Triunidade de Deus fosse antes mesmo da criação.

A idéia de que Deus tem vida em si mesmo (Jo.5.26) também nos auxilia a compreender a não necessidade de Deus em criar: Ele é indenpendente da criação e não tem nela sua expressão de necessidade. Assim, ele independe do universo criado e é assim apresentado: como Soberano Criador que no exercício de Seu Poder e Liberdade (Rm.9.21) trouxe à existência todas as coisas. Ele é aquele que de nada necessita, mas a tudo traz a existência: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas” (At.17.24-25).

Então, que dizer da razão pela qual Deus teria feito o universo? As escrituras respondem essa pergunta por afirmar que a declarada vontade do Criador assim o quis: “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas” (Ap.4.11). A humanidade nada lhe acrescenta a existência (Jo.22.2), do mesmo modo que nem todo universo pode tornar Deus mais Deus ou mais exaltado do que Ele mesmo o é. Contudo, por decreto de sua livre vontade Deus traz a existência tudo o que existe para que o propósito de sua Graça fosse exercido Soberanamente em sua Criação: “havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef.1.11).

C. O Poder de Deus e a Criação Ex-nihilo

As Escrituras iniciam com uma declaração interessante: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn.1.1). O verbo hebraico utilizado nesta sentença mosaica é bara’. Alguns teólogos afirmam que a utilização deste vocábulo implique diretamente na utilização de matéria preexistente para a criação, em função das demais utilizações do verbo no contexto (cf.Gn.2.7; Sl.51.10). O verbo aparece em três ocasiões: (1) para denotar a criação do universo, (2) para a criação dos grandes monstros e (3) para a criação do homem. O que pode-se concluir, seguindo esse raciocínio, é que Deus remoldou matéria preexistente para criar o universo, os grandes animais e o homem.

Porém, a utilização do verbo hebraico, por si só, não indica a utilização de matéria preexistente (cf.Is.65.18). Aliás, parece muito sensato observar que o verbo é apenas utilizado no Qal e aplicado exclusivamente às atividades criativas de Deus e sempre desacompanhada de uma referência a um material preexistente.  Ou seja, o verbo bara’ (criar, formar) não pode sustentar a idéia de que Deus tenha se utilizado de material preexistente para criar o universo.

Ainda, faz-se necessário demonstrar que a utilização dos verbo hebraico é intercambiável nas escrituras. Outros verbos além de bara’ são utilizados para expressar a idéia da criação, como asah (Gn.2.4) a respeito da criação dos céus e terra e yatzar (cf.Is.45.18). Com relação ao homem, em Gn.1.27 encontramos o bara’, mas em 1.26 e 9.6 encontramos asah e em 2.7 yatzar. Mas alguns textos são ainda mais interessantes, como Is.43.7 que utiliza as três formas de uma só vez: “…a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória, e que formei, e fiz”.

Criar, formar e fazer correspondem respectivamente aos vocábulos hebraicos bara’, yatzar e asah. Outro exemplo interessante é que em Is.45.12 lemos que Deus asah a terra e bara’ o homem, mas em Gn.1.1 Deus bara’ a terra e em 9.6 asah o homem. Em Is.44.2 utiliza-se asah e yatzar em relação ao homem, e Gn.1.27 utiliza bara’. Em Gn.5.2 lemos que Deus criou o homem, “homem e mulher os bara’”, mas em 2.22 lemos que “da costela ele asah uma mulher”.
Ou seja, fundamentar uma teoria da preexistencia da matéria, ou da eternidade desta, e que Deus apenas moldou sua forma baseado na literatura bíblica e a utilização de seus vocábulos é inconsistente.

A fim de que se confirme a veracidade bíblica da criação a partir do nada, é necessário trazer à tona que a criação marco o início das atividades temporais. Ou seja, “a criação divina é fixado como começo absoluto, não como obra realizada em algo que já existia”.

Outro fator que deve ser relembrado a favor da criação ex-nihilo (a partir do nada) é que no versículo dois a terra estava em uma situação rudimentar, mas ainda é chamada de Terra. As duas palavras hebraicas, tohû e bôhû, dão idéia de que a terra está mais que vazia e sem forma, como encontrado na tradução ARA, mas de absolutamente sem forma e vazia, ou em um estado de vacuidade como sugere o BDB Lexicon. Embora essa situação parece caótica, é a situação do mundo em sua forma elementar.

É digno de nota, ainda, que a própria cultura hebraica com todas as suas tradições, ensinos e literatura pareciam ser mergulhadas na idéia de uma Criação da parte de Deus, a partir do nada. Esse fato pode ser testemunhado pelas expressões encontradas nos livros hebraicos considerados apócrifos, como por exemplo o livro de Macabeus. Em 2Mac.7.28 encontramos a seguinte afirmação sobre os céus e a terra: “por que não foi de coisas existentes que Deus os fez, e que também o homem foi feito da mesma forma”. Esta sentença é apresentada da seguinte maneira para o latin: “quia ex nihilo fecit illa Deus et hominum genus”. Nesta citação é que encontra-se a expressão “do nada” para a criação de Deus. Por mais que o livro em si não seja fonte mais confiável de informações é observável que a cultura hebraica, impulsionada por seus escritos, tradições e informações, não duvidava de maneira nenhuma da criação de Deus a partir do nada, ou como sugere a Vulgata, ex nihilo.

As escriturasm também testemunha que o Universo veio a existir por meio da palavra de Deus: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo sopro da sua boca (…) Pois ele falou, e tudo se fez; ele mandou, e logo tudo apareceu” (Sl.33.6, 9). Todas as coisas foram feitas por Deus: “Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar, e tudo o que neles há” (At.4.24); “Porque assim diz o Senhor, que criou os céus, o Deus que formou a terra, que a fez e a estabeleceu” (Is.45.18).

Mas, a fim de que a discução possa ser exterminada, no que diz respeito as referências bíblicas da criação, é mister ressaltar o versículo de Hebreus 11.3, que assevera: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. O fato ressaltado pelo autor de Hebreus é que o mundo não foi feito da matéria perceptível aos sentidos ou preexistente, mas pelo ato direto da onipotência de Deus. Vale, ainda, ressaltar que o verbo utilizado para exprimir “veio a existir” é “ginomai”. A tradução mais literal traria a seguinte forma: “veio a ser”. Isso implica em afirmar que o Universo não era até a intervenção de Deus, mas veio a ser o que é por meio da ação criativa do Deus Trino.

D. A Eternidade de Deus e a Temporalidade do Universo

Como já foi demonstrado, o universo veio a ser por meio a ação criativa de Deus, e portanto, podemo concluir que Deus é anterior e superior a Sua Criação. Logo, Deus é eterno e o universo temporal. As escrituras favorecem essa conclusão com forte clareza, observe: “… desde o princípio do mundo que Deus criou” (Mc.13.19). Aqui podemos perceber a limitação temporária do mundo, pois refere-se ao seu princípio. Ora, quem tem princípio não desfruta de um estado de eterna exisência ou ausência de limitações temporais. Se o universo, como criação, teve um princípio, certamente é limitado pelo tempo, e está cronologicamente fadado ao tempo.

Assim, não se pode afirmar que Deus, para a criação do mundo, utilizou-se matéria preexistente, ou eterna, pois é marcado um início para a existência de sua criação. O Velho Testamento também parece corroborar com essa idéia, observe as seguintes orações: “...antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, sim , de eternidade a eternidade tú és Deus” (Sl.90.2); “O Senhor me possuía [sabedoria] no início de sua obra, antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da terra” (Pr.8.22, 23). Podemos observar claramente que Deus, que é eterno, estava presente antes do começo da terra, e até mesmo Sua Sabedoria é demonstrada como anterior à existência da terra.
Outro detalhe, não menor que os anteriores, é que a origem do universo é atriuida a Deus. Em Ef.3.9 lemos: “Deus, que tudo criou”; Em Jo.1.3: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele”, “através de que também fez os mundos” (Hb.1.2). Portanto, a Deus é anterior e superior a Sua Criação.

E. O Objetivo de Deus

Em tudo o que faz, Deus demonstra seu supremo propósito: A sua própria Glória. Isso é evidenciado claramente nas escrituras: “nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para o louvor da glória da sua graça” (Ef.1.5, 6); “com o fim de sermos para o louvor da sua glória, nós, os que antes havíamos esperado em Cristo” (Ef.1.12); “para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória” (Ef.1.14); “E todos os do teu povo serão justos; para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” (Is.60.21). Não é à toda que as Escrituras dizem que tudo que é e foi feito, para Sua Glória o é: “Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm.11.36).

Isso não poderia ser diferente sobre a criação: “todo aquele que é chamado pelo meu nome, e que criei para minha glória, e que formei e fiz” (Is.43.7); “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas” (Ap.4.11).

F. A Relação entre Criação e Redenção

Para algumas pessoas a queda do ser humano, a entrada do pecado na Criação de alguma forma frustraram os planos de Deus para sua criação. Depois de todo trabalho exercido em benefício de suas Criaturas, o pecado insurge como uma barreira ao propósito de Deus. É como se essas pessoas dissessem: Deus, como mal planejador que é, não foi capaz de inibir a entrada do pecado. Em uma única colocação ignoram a onisciência e onipotência de Deus.

De fato, as escrituras não nos ensinam assim. Aliás, é digno de nota que algumas declarações bíblicas nos levam a compreender que quando Deus se propos a criar ele se propos a redimir. Uma dessas ocasiões é quando João diz que a morte de Cristo era conhecida desde a fundação do mundo: “E adora-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap.13.8). A expressão grega “apó kataboles kosmou” sugere que, desde que há mundo, o Cordeiro foi morto.

É possível que algumas pessoas tomem isso de modo equivocado, e por isso é necessário que se compreenda aqui que, a morte de Cristo aconteceu como Decreto Divino na fundação do mundo, e não como ato. Àquele que tem o tempo como indivisívil em presente contínuo, seus decretos são enunciados antes de serem executados. Essa percepção é claramente observada nas seguintes palavras de Pedro: “mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo, o qual, na verdade, foi conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto no fim dos tempos por amor de vós” (1P2.1.19-20). A morte de Cristo, como Decreto, já estava determinada desde a eternidade passada, contudo foi manifesta no tempo em uma ocasião oportunida: plenitude dos tempos, por ocasião da Vontade Soberana de Deus.

As escrituras são claras em apresentar a morte de Cristo como um decreto eterno de Deus, e sobre isso não há qualquer dúvida: “Porque, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que esta determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!” (Lc.22.22); “Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos” (At.2.22-23). Ou seja, mesmo antes de existir o Universo, o Plano Redentor já estava estabelecido, por Soberana Graça do Criador.

Mas, é importante demonstrar que tal Decreto não inclui apenas a Cristo como Redentor, mas também a aplicação eficiente de Sua Morte para os eleitos de Deus, pois da mesma forma que Cristo é apresentado como morto antes da fundação do mundo, os cristãos são apresentados pelas escrituras como eleitos antes da fundação do mundo: “como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele” (Ef.1.4).

Alguém poderia objetar por dizer que tal eleição é destinada à santidade e não à salvação. De fato, é essa mesmo a declaração do texto, mas gostaria de saber como alguém poderia ser eleito à santidade sem ser salvo. Outra dúvida que acompanharia essa afirmação seria: então Deus escolheu dentre os cristãos uns para serem santos enquanto outros o farão por suas forças ou serão excluídos dessa bem-aventurança? Isso certamente não é verdadeiro, até por que, na mesma carta, Paulo se refere a seus leitores como “santos que vivem em Éfeso”, contrariando tal declaração.

Mas, diante do todo as escrituras, temos consciência que a Eleição é para salvação: “porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts.5.9); “Mas nós devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos, amados do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade, e para isso vos chamou pelo nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts.2.13).

Assim, diante de tal informação das escrituras, podemos compreender que, quando Deus se propos a criar Ele se propos a Redimir. Portanto, Criar e Redimir são duas facetas de uma mesma Obra de Deus e sua auto-revelação assim nos ensina.

06.19.09

A Cabana – Abrigo para Alma ou Barraco Teológico?

Enviado em Teologia, Teologia Própria tagged , , , , às 12:08 pm por Marcelo Berti

Por Carlos Osvaldo Cardoso Pinto

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Resenha de A Cabana, de William Paul Young.

Publicado em 2008 pela Editora Sextante, tradução de The Shack, publicado por Windblown Media em 2007.

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Esta resenha incorpora elementos do original inglês e da tradução em português, visando destacar elementos positivos e negativos do livro. Seu título ficará evidente ao longo da leitura. Um subtítulo poderia ser Jó contra Mackenzie Allen Phillips.

A Cabana já vendeu mais dois milhões de cópias mundo afora, está em listas de mais vendidos no Brasil, e foi um sucesso surpreendente, inclusive para seu autor, que em entrevistas declarou que seu propósito original era instruir seus próprios filhos (6). É, assim, um fenômeno literário sem paralelo nos dias atuais e deu ao seu autor uma projeção mundial que poucos autores conseguem no seu primeiro livro. Também em suas entrevistas Paul Young (ele prefere ser chamado pelo segundo nome) indica que há um quê de auto-biográfico no livro (“Eu sou Mack e Mack é eu”). Presumo que, como ele não perdeu nenhum de seus filhos, apenas suas lutas espirituais estejam refletidas na difícil peregrinação de Mack (cf. a contra-capa da EI). Apesar da informação constante em seu site sobre uma série de tragédias experimentadas por sua família maior, o leitor, e particularmente o resenhista, se pergunta se e como um filho de missionários poderia identificar-se com o filho de um bêbado e espancador doméstico. Talvez essas informações surjam quando Young escrever de novo ou algum biógrafo descubra e relate sua vida emocional (as cartas enviadas ao seu site www.windrumors.com).

Para não estragar a leitura dos que ainda pretendem ler o livro, farei um mini-resumo. Mack, o personagem central, é casado com Nan e eles têm cinco filhos. Durante um passeio, a filha mais nova, Missy, é raptada e, depois de investigações, dada por morta, ainda que seu corpo jamais tenha sido encontrado. Esse evento precipita em Mack uma violenta crise que ele chama de A Grande Tristeza. Depois de algum tempo, recebe um bilhete convidando-o a voltar à cabana onde vestígios de sangue de sua filha tinham sido achados. Relutante, resolve ir ao local onde tem um encontro com ninguém menos do que o Deus trino. O restante do livro narra os diálogos entre Mack e as três pessoas da Trindade, bem como a transformação interior desse homem. O final, relativamente previsível, relata o retorno de Mack à sua família e as mudanças experimentadas como resultado de seu encontro com Deus.

Leia a resenha completa de A Cabana
por Carlos Osvaldo Cardoso Pinto
Reitor – Seminário Bíblico Palavra da Vida

TEXTO EXTRAÍDO DE: sbpvcremblog.wordpress.com

03.30.09

Doutrina da Trindade e Soteriologia

Enviado em Teologia Própria tagged , , às 2:32 pm por Marcelo Berti

Essa pergunta é extremamente pertinente, e para vou respondê-la em quatro etapas.

  • Ninguém pode ser salvo sem a Trindade. Efésios capítulo 1 nos ajuda a compreender essa verdade de forma muito clara, pois as três pessoas da Trindade estão ativas na salvação dos homens. Deus Pai é responsável por todas as bênçãos celestiais e pela eleição e predestinação: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos” (Ef.1.3-5). Já o Filho é o meio (critério, instrumento) pelo qual essa eleição e predestinação é realizada: “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5). Entretanto é em Cristo que temos a Redenção e Graça: “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef.1.6-7). E o Espírito Santo é a garantia de que essa salvação será terminada no futuro, pois é Ele quem sela o salvo: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef.1.13-14). Essa breve exposição de Efésios capítulo um nos auxilia a compreender o papel de cada pessoa da Trindade na salvação do homem de modo que a afirmação inicial mostra-se verdadeira: Ninguém pode ser salvo sem a Trindade.
  • Eu acredito que uma pessoa pode ser salva sem entender a Trindade. Não acredito que a salvação esteja restrita àqueles que compreendem corretamente a Trindade, ou a divindade como um todo. Esse é o caso das crianças que por depositarem sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador estão salvas sem que mesmo tenham conseguido definir a Trindade. Ou seja, sofreram a ação da Trindade, muito embora não a possam explicar. Esse é o caso da pessoa simples que atende ao chamado eficaz da Graça de Deus, deposita sua fé em Cristo como exclusivo Redentor e está salvo, muito embora, a complexidade da Trindade não lhe seja de completamente compreensível. Contam-se inumeráveis os cristãos que demonstram dificuldade em expressar sua visão da Trindade, embora creiam nela.
  • Em terceiro lugar, eu acredito que uma pessoa possa ser salva sem crer na Trindade. Ao observar as mensagens evangelísticas dos apóstolos em Atos não consigo ver uma ênfase se quer na doutrina da Trindade. Na primeira mensagem evangelística registrada em Atos e pessoa vemos algo quase incomum: Tanto o Espírito Santo tem parte significativa na pregação. Ele é apresentado como profecia de Deus no Velho Testamento (v.16-21) e é apresentado como aquele que batiza (v.38). Muito embora eles sejam citados, isso não se constitui uma definição de Trindade. O apelo não foi, creiam em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo e sejam salvos? Muito pelo contrário, o apelo foi pelo arrependimento e aceitação de Jesus como Cristo (v.36). A evidência da salvação seria o batismo. Mas, no decorrer do livro de Atos, vemos que isso passa a não acontecer mais, especialmente quando o evangelho chegou à regiões gentílicas. A própria pregação de Pedro a Cornélio (um prosélito) menciona rapidamente o Espírito Santo, mas nenhuma doutrina parece ser claramente ensinada. Mas nesse caso, temos certeza que seus ouvintes foram salvos. Isso também vale para as pregações de Paulo, que muito embora não fizesse uma apologia da Trindade, apresentava a Jesus Cristo como Salvador e muito criam e eram salvos. Vale ainda dizer que é bem provável que os cristãos dos dois primeiros séculos não tivessem uma formulação da Trindade, e ainda assim eram salvos. Ainda é válido acrescentar que são inúmeras as passagens que anunciam a centralidade de Cristo para salvação e não da doutrina da Trindade. Em Romanos 10.9, lemos: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo“. Muito embora a divindade de Cristo e a ação de Deus seja demonstrada aqui, a centralidade da fé soteriológica repousa sobre Cristo. Nada é mencionado sobre a Pessoa do Espírito Santo aqui, e isso não impede que as pessoas que tomarem de serem salvas. Paulo quando lembra os Coríntios do evangelho que promove a salvação (1Co.15.1-2) ele faz claras declarações da Pessoa de Cristo (1Co.15.3-4) e algumas inferências ao Deus Pai e nenhuma citação do Espírito Santo. A própria apresentação de Paulo da Salvação em Efésios 2 apresenta a Deus como rico em misericórdia, amoroso (v.4), doador da vida por meio da graça juntamente com Cristo (v.5), e com Cristo ele ressuscita e faz assentar nas regiões celestiais em Cristo (v.6) como demonstração para o futuro da sua rica graça (v.7). Ou seja, muito embora a ação do Pai e do Filho esteja claramente anunciada, o Espírito Santo novamente não é mencionado. Por isso acredito que aqueles que tiveram acesso à essas informações apostólicas podem ter acesso a salvação sem conseguir sistematizar a doutrina da Trindade. Por isso, quando digo que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade penso na doutrina, no conteúdo da fé sistematizada, e não acredito haver fundamento para a salvação apenas pela fé trinitária.
  • Isso me leva a uma última consideração: não é possível alguém ser salvo e rejeitar a Trindade. Isso é diferente do que não crer. Essa distinção é importante, pois não crer pode significar não ter tido acesso à doutrina formalizada, como deve ser o caso de diversas etnias indígenas, que embora tenham Cristo como Salvado não tiveram um conhecimento sistematizado da Trindade. Por outro lado, rejeitar implica em ter conhecimento, mesmo que inadequado, e ainda assim ter completa antipatia a ele. Esse é o caso do Harold Bloom, que por mais impressionado que possa ficar com o conceito da Trindade afirma que ele é um absurdo. Mas, então, por que a salvação não pode ser desfrutada por pessoas que rejeitam a Trindade? Por que é impossível rejeitar a Trindade sem diminuição das pessoas da Trindade e quando isso ocorre com a pessoa de Cristo, a salvação está invariavelmente perdida. Esse é o caso do Testemunha de Jeová, que por atribuir a Cristo uma posição não divina, não pré-existente acaba por ser enquadrado entre aqueles que “negam que Jesus é o Cristo” (1Jo.2.22) e que por isso não tem nem o Pai nem o Filho. Esse é o caso dos gnósticos do passado que negavam a encarnação do Logos (1Jo.4.2) e também são chamados de impostores (gr. antíchristos) e falsos profetas (gr. pseudoprofétes).

Portanto, ainda que a doutrina da Trindade tenha grande valor soteriológico, não creio que a doutrina sistematizada seja o cerne conteúdo da fé soteriológica. A centralidade do conteúdo da fé que leva à salvação está sobre a Pessoa de Cristo e Sua Obra.

Base Bíblica da Doutrina da Trindade

Enviado em Teologia Própria tagged , , , às 2:29 pm por Marcelo Berti

“A doutrina da trindade é explicitamente ensinada no Novo Testamento?”

Bart Ehrman – O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Pp. 218.

 

Palco de discussão teologia quanto a definição e compreensão por parte dos cristãos e completa rejeição por parte dos que estudam a teologia sem fé, a Trindade é fundamental para a cosmovisão, teologia e prática cristã. Mais importante do que isso: A doutrina da Trindade é claramente ensinada nas escrituras.

 

1.      Definição Pessoal Da Trindade

O conceito da Trindade é fundamento na compreensão da existência de três pessoas divinas distintas (diferente do unitarismo), que tem sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas escrituras (diferente da nova escola). Considerando isso, abaixo passo a demonstrar ocasiões no Novo Testamento que apontam para a comprovação da sentença.

 

2.      Evidências Neo-Testamentárias

Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.

Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).

Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.

No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho.  A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.

Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”[16].

Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?

A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.

No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai[17]

É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.

Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?

Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade[18].

Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.

Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.

Bom, com a exposição já feita até aqui fica clarividente a existência de um Triunidade apresentada no Novo Testamento. Mas será que essa apresentação é uma criação dos autores neo-testamentários? Será que essa doutrina é uma rejeição ao monoteísmo judaico e uma aproximação (ainda que distante) do politeísmo grego? Será que o Velho Testamento pode nos ajudar a compreender a Trindade?

 

3.      Evidências Vétero-Testamentárias

A visão da teologia história sobre a Trindade no Velho Testamento é bem diversa. Berkhof nos lembra que para alguns Pais da igreja a Trindade teria sido completamente apresentada no Velho Testamento ao passo que os arminianos afirmam que não há dessa doutrina no VT. Ele também considera as duas opções erradas e complementa: “O Antigo Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela[19]“. É bem provável que Berkhof esteja certo, mas vamos observar o que o VT tem a nos informar sobre o assunto.

Normalmente a Trindade é defendida pela forma como Deus é apresentado no primeiro capítulo de Gênesis. Alguns teólogos apontam para o fato de que a pessoa de Deus está descrita no plural (Elohim). Uma vez que os judeus têm lido esse texto durante séculos e não apontaram a existência de vários deuses, podemos considerar isso uma situação interessante. McClaren sobre o assunto chegou a dizer: “O plural Elohim não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza divina em sua totalidade completa, incluindo uma pluralidade de pessoalidades[20]“. Entretanto, nos lembra Berkhof que embora o plural contenha a idéia de pluralidade de pessoas, não aponta para sua triunidade[21].

Ainda no primeiro capítulo de Gênesis uma expressão nos chama a atenção: “Façamos o homem” (v.26). Uma vez que vemos que existe uma pluralidade, não é de se espantar que use a primeira pessoa do plural para realizar algo tão majestoso como o homem. É bem verdade que é possível que esse plural seja um plural majestático. Entretanto, é interessante perceber que os autores neo-testamentários entendiam que Cristo tenha sido ativo na criação: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb.1.1-2). Em João 1.3 ainda lemos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez“. Em nenhum momento vemos os autores neo-testamentários atribuírem tal idéia à Gênesis capítulo 1, isso é bem verdade, mas isso parece subentendido no seu parecer.

Assim, não considero um exagero encontrar um alusão à trindade aqui, até por que o Espírito de Deus também é mencionado nesse capítulo: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn1.2). A ação atribuída aqui ao Espírito de Deus é muito interessante, pois, ainda que denote a idéia de sobrevoar ela também descreve uma forma de proteção. Em Deuteronômio 32.11-12, onde essa palavra é novamente usada, lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”. Considerando isso, é bem possível que essa seja uma alusão à participação criativa do ES no início, pelo menos essa é a opinião de Ryrie[22].

Outra situação, ainda em Gênesis que merece nossa atenção é vista na cena da queda: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn.3.22). Uma vez que o autor dessa expressão é o mesmo que escreveu o shema de Deuteronômio 6.4, não podemos supor que ele entenda a existência de muitos deuses. Mais uma vez, a pluralidade de Deus ficou evidente, muito embora não delineada em quantidade ou diferença de pessoa. Mas será que no VT temos algum indicativo disso?

Para responder a essa indagação podemos citar um texto que parece elucidar essa questão: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” (Is.48.16). Essa parece uma indicação muito interessante da Trindade no Velho Testamento, uma vez que o texto fala do Messias como enviado da parte de Deus com o Espírito. Em outro caso, o Messias fala sobre sua unção do Espírito e de Deus: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1; cf. Lc.4.18). Isso parece deixar evidências nas páginas da teología histórica que apontam para uma compreensã primitiva do conceito da Trindade. Essa conclusão está em acordo com a revelação progressiva das escrituras.

 *   *   *

Até aqui, vemos que as escrituras defendem a doutrina da Trindade de modo muito peculiar. Por isso é importante se considerar a interação entre os dois testamentos e progressão da revelação. Para ilustrar esse princípio, cito mais uma vez Berkhof: “Se no Antigo Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador de Seu povo (…) no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade (…) E se no Antigo Testamento é Jeová que habita em Israel e nos corações dos que temem (…) no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na Igreja”. Assim, podemos ver que aquelas atividades que são apresentadas a Deus no Velho Testamentos são especificadas a pessoas diferentes no Novo Testamento e isso atesta tanto a divindade do Filho e do Espírito como sua própria unidade com Deus.

Mas, uma vez que fica evidente a doutrina ensinada pelas escrituras, precisamos fazer de sua aplicação. Pois, é possível que alguém possa ser salvo sem entender a Trindade? É possível que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade? O que as escrituras nos ensinam?

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Conceituações Teológicas da Trindade

Enviado em Teologia Própria tagged , , às 2:28 pm por Marcelo Berti

“Pretendo aqui expor o mistério da trindade, o melhor que posso fazê-lo, ao mesmo tempo que, de um lado, deixo clara a minha admiração pelo brilhantismo criativo e cognitivo do conceito e, de outro, afirmo minha perplexidade diante do atrevimento e do escândalo inerentes a esse mesmo dogma”

Harold Bloom – Jesus e Javé. Pp. 119.

 

Harold Bloom é professor na Yale University e na New York University e famoso crítico de poesia. Crítico a fé cristã como judeu de nasceimento, mas sem considerar-se como da Aliança (religião), escreve um conturbado livro para expor sua visão sobre a relação entre Javé (o Deus judeus do VT) e Jesus (o Deus cristão do NT). Esse livro, além de reconhecimento mundial, também levou a fama de um brilhante e provocativo estudo[1].

Para ele, a doutrina da trindade é uma grande invenção da criatividade cristão antiga, uma tentativa de conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão. Para Bloom, quando Constantino unificou o império ele “astutamente reconheceu em Jesus Cristo a continuidade da tradição pagã[2]“. De opinião forte e grande influência, Bloom é uma espécie de representante da crítica a fé cristã nos nossos dias feita por pessoas fora da oikia da teologia, mas não é o único nem o primeiro ou o último.

Na bem da verdade, a doutrina da Trindade, desde que foi sistematizada tem sido palco para discussões e controvérsias teológicas. Lous Berkhof acredita que por influência da mentalidade judaica na raiz do cristianismo, que enfatizava exclusivamente a unidade de Deus, a distinção entre as pessoas da Divindade foi ou eliminada por alguns ou apresentada sem devida justiça à segunda ou terceira pessoa da trindade[3]. Já Tillich lembra que em algumas obras teológicas do passado a Trindade chegou a ser tratada de modo quase binária, em função do rebaixamento da dignidade da pessoa do Espírito Santo. Em outros casos, chegou a ser tratada quase que como uma quatrindade pela forma que tratavam a substância comum entre as três pessoas da trindade[4].

De qualquer forma, desde que Tertuliano formulou a expressão “Trindade[5]  ela tem sido objeto de divergência de opiniões. A Nova Escola[6] eventualmente ataca a doutrina por afirmar que tal conceito é uma invenção da Igreja instituição no passado. Bart Ehrman é um bom exemplo dessa escola.

Em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? ele apresenta grandes interrogações na manutenção histórica do texto das escrituras, mas sua intenção não e apenas levantar objeções à ação de Deus em manter o texto, mas de atacar a Cristologia do NT e da fé cristã. Uma das formas com que faz isso é colocando em dúvida a doutrina da Trindade.

Sua dúvida sobre o ensino da Trindade não é uma mera rejeição à idéia do cristianismo como religião, é (segundo a nova escola) uma conclusão acadêmica, fruto de estudos coerentes com a pesquisa científica de documentos escritos no passado. Segundo Ehrman, um dos trunfos que esteve a disposição dos cristãos históricos foi a passagem de 1 João 5.7-8 (também conhecida como parêntesis joanino): “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um]. E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. A parte entre chaves e em itálico no texto é fruto de um problema de crítica textual, que muitos acadêmicos dos nossos dias, inclusive os cristãos entendem que não faz parte do texto original[7]. Sobre isso ele diz que esse parêntesis “representa a ocorrência mais óbvia de corrupção motivada por teologia em toda tradição manuscrita do Novo Testamento[8]“.

Ehrman ainda nos lembra que Erasmo na primeira edição do seu texto grego (1516) não havia encontrado registros desse verso nos materiais que teve acesso e por isso havia retirado do texto. Além disso, ele acrescenta que é bem provável que essa leitura seja uma produção desse período histórico, onde alguém tomou essa sentença do texto latino[9]. Seja como for, temos a impressão que a falta explícita da palavra trindade, ou da sistematização em uma única sentença do seu conceito faz a nova escola crer e ensinar a existência de um mito trinitário.

Embora a academia teológica dos nossos dias tenha dificuldades com o conceito, isso não é mérito da nossa era. Sabélio[10], um “cristão” do terceiro século ensinava que o Pai havia se encarnado no Filho e que o próprio Pai havia padecido na cruz[11]. Essa ideologia foi também representada nos ensinos de Práxeas[12]. Seu principal oponente foi Tertuliano que denominou a teoria de Patripassionismo[13]. Em tempos posteriores essa ideologia tomou novas formas, muito embora sob a responsabilidade de Sabélio. O Sabelianismo também é uma forma de aludir a um conhecimento da Trindade sobre o qual as pessoas da trindade não são vistas como pessoas, mas como modos de atuação de Deus. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo. Tal ideologia afirma que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem)[14].

É importante frisar que religiões “cristãs” dos nossos dias também têm suas próprias opiniões sobre a Trindade. Existem aqueles que denominam cristãos antitrinitários, como o caso dos Cristadélfos. Essa doutrina é bem conhecida pela obra Um Manual de Estudo revelando a alegria e a paz do verdadeiro cristianismo escrita por Duncan Heaster. Para eles, nem a palavra trindade nem seu conceito aparecem nas escrituras e por isso não pode ser verdadeira. Deus Pai é o Deus supremo, mais poderoso e exaltado que o Filho. Como unitaristas[15] acreditam que o Filho não existia eternamente, mas passou a existir ao nascer de Maria. Embora, quando assim anunciada, a doutrina dos cristadélfos seja similar à doutrina dos Testemunhas de Jeová ela tem outras peculiaridades, como a não crença no tormento eterno e outras rejeições menos importantes para nosso estudo aqui.

Vale a pena dizer que os Testemunhas de Jeová também podem ser incluídos entre os grupos contemporâneos de rejeição do conceito da Trindade, pois o consideram antibíblico e pagão. Para eles apenas o Jeová é o Deus verdadeiro e único. Jesus Cristo é considerado uma espécie de Deus, ou como sua tradução das escrituras, ele é [um] Deus. Já o Espírito santo é chamado de força ativa de Deus. Não precisamos fazer uma distinção entre pessoa e força para notarmos como eles tratam com desprezo o Espírito Santo.

Essa complexidade de conceituação e percepção teológica não ficou retida nos ambientes da crítica da fé, pois há ainda quem diga que mesmo entre os pais da igreja, a conceituação da Trindade era palco de pequenas diferenças. Os pais gregos viam uma essência e três substâncias enquanto os latinos viam uma essência e três pessoas, opção que veio a ser mais aceita e reconhecida. O que podemos perceber hoje é que, mesmo dentro do cristianismo ortodoxo vão encontrar suas distinções de conceito, ênfase e fundamento bíblico.

E, tendo dito isso, é possível conceituar a Trindade a partir das escrituras, ou será que é verdade que a Trindade é fruto da produção criativa da mentalidade cristão do passado? É possível encontrar alguma referência à Trindade no Velho Testamento? E o Novo Testamento, o que fala sobre o assunto? Abaixo, passo a focalizar o que entendo que as escrituras apresentam sobre a Trindade.

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03.20.09

Observações à Doutrina da Trindade

Enviado em Teologia Própria tagged , , , às 11:10 am por Marcelo Berti

“Quando falamos em Trindade de Deus, nos referimos a uma trindade em unidade e em uma unidade que é trina”

Louis Berkhof, Teologia Sistemática. Pp.80

 

“A doutrina da trindade não afirma o absurdo lógico de que três é um e um é três. Ela descreve, em termos dialéticos, o movimento interno da vida divina como uma eterna separação de si mesma e o retorno a si mesma”

Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.54

 

“Podemos definir a doutrina da Trindade do seguinte modo: Deus existe eternamente como três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – e cada pessoa é plenamente Deus e existe apenas um Deus”

Wayne Gruden, Teologia Sistemática. Pp.165

 

“O monoteísmo trinitário não é uma questão com o número três. É uma caracterização qualitativa e não quantitativa de Deus. É uma tentativa de falar do Deus vivo: o Deus em quem estão unidos o último e o concreto”

Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.193.

 

Ao observar essas citações confrontativas, percebemos que o conceito da Trindade embora seja aceito por grande parte dos Teólogos Cristãos é expressa de modo diferente. Isso nos ajuda a compreender um pouco do dilema que ainda em nossos dias a doutrina da Trindade causa. Por isso, vamos observar abaixo um pouco da doutrina da Trindade na conceituação teológica e nas escrituras, com a intenção de lançar luz ao conhecimento de Deus. Também citaremos brevemente algumas teorias sobre a Trindade, a relação entre Unidade e Diversidade na Trindade para finalmente trataremos da relação da Trindade e da Salvação.

 

A.     Conceituações Teológicas

“Pretendo aqui expor o mistério da trindade, o melhor que posso fazê-lo, ao mesmo tempo que, de um lado, deixo clara a minha admiração pelo brilhantismo criativo e cognitivo do conceito e, de outro, afirmo minha perplexidade diante do atrevimento e do escândalo inerentes a esse mesmo dogma”

Harold Bloom – Jesus e Javé. Pp. 119.

 

Harold Bloom é professor na Yale University e na New York University e famoso crítico de poesia. Crítico a fé cristã como judeu de nasceimento, mas sem considerar-se como da Aliança (religião), escreve um conturbado livro para expor sua visão sobre a relação entre Javé (o Deus judeus do VT) e Jesus (o Deus cristão do NT). Esse livro, além de reconhecimento mundial, também levou a fama de um brilhante e provocativo estudo[1].

Para ele, a doutrina da trindade é uma grande invenção da criatividade cristão antiga, uma tentativa de conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão. Para Bloom, quando Constantino unificou o império ele “astutamente reconheceu em Jesus Cristo a continuidade da tradição pagã[2]“. De opinião forte e grande influência, Bloom é uma espécie de representante da crítica a fé cristã nos nossos dias feita por pessoas fora da oikia da teologia, mas não é o único nem o primeiro ou o último.

Na bem da verdade, a doutrina da Trindade, desde que foi sistematizada tem sido palco para discussões e controvérsias teológicas. Lous Berkhof acredita que por influência da mentalidade judaica na raiz do cristianismo, que enfatizava exclusivamente a unidade de Deus, a distinção entre as pessoas da Divindade foi ou eliminada por alguns ou apresentada sem devida justiça à segunda ou terceira pessoa da trindade[3]. Já Tillich lembra que em algumas obras teológicas do passado a Trindade chegou a ser tratada de modo quase binária, em função do rebaixamento da dignidade da pessoa do Espírito Santo. Em outros casos, chegou a ser tratada quase que como uma quatrindade pela forma que tratavam a substância comum entre as três pessoas da trindade[4].

De qualquer forma, desde que Tertuliano formulou a expressão “Trindade[5]  ela tem sido objeto de divergência de opiniões. A Nova Escola[6] eventualmente ataca a doutrina por afirmar que tal conceito é uma invenção da Igreja instituição no passado. Bart Ehrman é um bom exemplo dessa escola.

Em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? ele apresenta grandes interrogações na manutenção histórica do texto das escrituras, mas sua intenção não e apenas levantar objeções à ação de Deus em manter o texto, mas de atacar a Cristologia do NT e da fé cristã. Uma das formas com que faz isso é colocando em dúvida a doutrina da Trindade.

Sua dúvida sobre o ensino da Trindade não é uma mera rejeição à idéia do cristianismo como religião, é (segundo a nova escola) uma conclusão acadêmica, fruto de estudos coerentes com a pesquisa científica de documentos escritos no passado. Segundo Ehrman, um dos trunfos que esteve a disposição dos cristãos históricos foi a passagem de 1 João 5.7-8 (também conhecida como parêntesis joanino): “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um]. E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. A parte entre chaves e em itálico no texto é fruto de um problema de crítica textual, que muitos acadêmicos dos nossos dias, inclusive os cristãos entendem que não faz parte do texto original[7]. Sobre isso ele diz que esse parêntesis “representa a ocorrência mais óbvia de corrupção motivada por teologia em toda tradição manuscrita do Novo Testamento[8]“.

Ehrman ainda nos lembra que Erasmo na primeira edição do seu texto grego (1516) não havia encontrado registros desse verso nos materiais que teve acesso e por isso havia retirado do texto. Além disso, ele acrescenta que é bem provável que essa leitura seja uma produção desse período histórico, onde alguém tomou essa sentença do texto latino[9]. Seja como for, temos a impressão que a falta explícita da palavra trindade, ou da sistematização em uma única sentença do seu conceito faz a nova escola crer e ensinar a existência de um mito trinitário.

Embora a academia teológica dos nossos dias tenha dificuldades com o conceito, isso não é mérito da nossa era. Sabélio[10], um “cristão” do terceiro século ensinava que o Pai havia se encarnado no Filho e que o próprio Pai havia padecido na cruz[11]. Essa ideologia foi também representada nos ensinos de Práxeas[12]. Seu principal oponente foi Tertuliano que denominou a teoria de Patripassionismo[13]. Em tempos posteriores essa ideologia tomou novas formas, muito embora sob a responsabilidade de Sabélio. O Sabelianismo também é uma forma de aludir a um conhecimento da Trindade sobre o qual as pessoas da trindade não são vistas como pessoas, mas como modos de atuação de Deus. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo. Tal ideologia afirma que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem)[14].

É importante frisar que religiões “cristãs” dos nossos dias também têm suas próprias opiniões sobre a Trindade. Existem aqueles que denominam cristãos antitrinitários, como o caso dos Cristadélfos. Essa doutrina é bem conhecida pela obra Um Manual de Estudo revelando a alegria e a paz do verdadeiro cristianismo escrita por Duncan Heaster. Para eles, nem a palavra trindade nem seu conceito aparecem nas escrituras e por isso não pode ser verdadeira. Deus Pai é o Deus supremo, mais poderoso e exaltado que o Filho. Como unitaristas[15] acreditam que o Filho não existia eternamente, mas passou a existir ao nascer de Maria. Embora, quando assim anunciada, a doutrina dos cristadélfos seja similar à doutrina dos Testemunhas de Jeová ela tem outras peculiaridades, como a não crença no tormento eterno e outras rejeições menos importantes para nosso estudo aqui.

Vale a pena dizer que os Testemunhas de Jeová também podem ser incluídos entre os grupos contemporâneos de rejeição do conceito da Trindade, pois o consideram antibíblico e pagão. Para eles apenas o Jeová é o Deus verdadeiro e único. Jesus Cristo é considerado uma espécie de Deus, ou como sua tradução das escrituras, ele é [um] Deus. Já o Espírito santo é chamado de força ativa de Deus. Não precisamos fazer uma distinção entre pessoa e força para notarmos como eles tratam com desprezo o Espírito Santo.

Essa complexidade de conceituação e percepção teológica não ficou retida nos ambientes da crítica da fé, pois há ainda quem diga que mesmo entre os pais da igreja, a conceituação da Trindade era palco de pequenas diferenças. Os pais gregos viam uma essência e três substâncias enquanto os latinos viam uma essência e três pessoas, opção que veio a ser mais aceita e reconhecida. O que podemos perceber hoje é que, mesmo dentro do cristianismo ortodoxo vão encontrar suas distinções de conceito, ênfase e fundamento bíblico.

E, tendo dito isso, é possível conceituar a Trindade a partir das escrituras, ou será que é verdade que a Trindade é fruto da produção criativa da mentalidade cristão do passado? É possível encontrar alguma referência à Trindade no Velho Testamento? E o Novo Testamento, o que fala sobre o assunto? Abaixo, passo a focalizar o que entendo que as escrituras apresentam sobre a Trindade.

 

B.     Quais são as bases bíblicas da doutrina?

“A doutrina da trindade é explicitamente ensinada no Novo Testamento?”

Bart Ehrman – O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Pp. 218.

 

Palco de discussão teologia quanto a definição e compreensão por parte dos cristãos e completa rejeição por parte dos que estudam a teologia sem fé, a Trindade é fundamental para a cosmovisão, teologia e prática cristã. Mais importante do que isso: A doutrina da Trindade é claramente ensinada nas escrituras.

 

1.      Definição Pessoal Da Trindade

O conceito da Trindade é fundamento na compreensão da existência de três pessoas divinas distintas (diferente do unitarismo), que tem sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas escrituras (diferente da nova escola). Considerando isso, abaixo passo a demonstrar ocasiões no Novo Testamento que apontam para a comprovação da sentença.

 

2.      Evidências Neo-Testamentárias

Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.

Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).

Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.

No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho.  A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.

Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”[16].

Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?

A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.

No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai[17]

É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.

Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?

Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade[18].

Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.

Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.

Bom, com a exposição já feita até aqui fica clarividente a existência de um Triunidade apresentada no Novo Testamento. Mas será que essa apresentação é uma criação dos autores neo-testamentários? Será que essa doutrina é uma rejeição ao monoteísmo judaico e uma aproximação (ainda que distante) do politeísmo grego? Será que o Velho Testamento pode nos ajudar a compreender a Trindade?

 

3.      Evidências Vétero-Testamentárias

A visão da teologia história sobre a Trindade no Velho Testamento é bem diversa. Berkhof nos lembra que para alguns Pais da igreja a Trindade teria sido completamente apresentada no Velho Testamento ao passo que os arminianos afirmam que não há dessa doutrina no VT. Ele também considera as duas opções erradas e complementa: “O Antigo Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela[19]“. É bem provável que Berkhof esteja certo, mas vamos observar o que o VT tem a nos informar sobre o assunto.

Normalmente a Trindade é defendida pela forma como Deus é apresentado no primeiro capítulo de Gênesis. Alguns teólogos apontam para o fato de que a pessoa de Deus está descrita no plural (Elohim). Uma vez que os judeus têm lido esse texto durante séculos e não apontaram a existência de vários deuses, podemos considerar isso uma situação interessante. McClaren sobre o assunto chegou a dizer: “O plural Elohim não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza divina em sua totalidade completa, incluindo uma pluralidade de pessoalidades[20]“. Entretanto, nos lembra Berkhof que embora o plural contenha a idéia de pluralidade de pessoas, não aponta para sua triunidade[21].

Ainda no primeiro capítulo de Gênesis uma expressão nos chama a atenção: “Façamos o homem” (v.26). Uma vez que vemos que existe uma pluralidade, não é de se espantar que use a primeira pessoa do plural para realizar algo tão majestoso como o homem. É bem verdade que é possível que esse plural seja um plural majestático. Entretanto, é interessante perceber que os autores neo-testamentários entendiam que Cristo tenha sido ativo na criação: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb.1.1-2). Em João 1.3 ainda lemos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez“. Em nenhum momento vemos os autores neo-testamentários atribuírem tal idéia à Gênesis capítulo 1, isso é bem verdade, mas isso parece subentendido no seu parecer.

Assim, não considero um exagero encontrar um alusão à trindade aqui, até por que o Espírito de Deus também é mencionado nesse capítulo: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn1.2). A ação atribuída aqui ao Espírito de Deus é muito interessante, pois, ainda que denote a idéia de sobrevoar ela também descreve uma forma de proteção. Em Deuteronômio 32.11-12, onde essa palavra é novamente usada, lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”. Considerando isso, é bem possível que essa seja uma alusão à participação criativa do ES no início, pelo menos essa é a opinião de Ryrie[22].

Outra situação, ainda em Gênesis que merece nossa atenção é vista na cena da queda: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn.3.22). Uma vez que o autor dessa expressão é o mesmo que escreveu o shema de Deuteronômio 6.4, não podemos supor que ele entenda a existência de muitos deuses. Mais uma vez, a pluralidade de Deus ficou evidente, muito embora não delineada em quantidade ou diferença de pessoa. Mas será que no VT temos algum indicativo disso?

Para responder a essa indagação podemos citar um texto que parece elucidar essa questão: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” (Is.48.16). Essa parece uma indicação muito interessante da Trindade no Velho Testamento, uma vez que o texto fala do Messias como enviado da parte de Deus com o Espírito. Em outro caso, o Messias fala sobre sua unção do Espírito e de Deus: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1; cf. Lc.4.18). Isso parece deixar evidências nas páginas da teología histórica que apontam para uma compreensã primitiva do conceito da Trindade. Essa conclusão está em acordo com a revelação progressiva das escrituras.

 *   *   *

Até aqui, vemos que as escrituras defendem a doutrina da Trindade de modo muito peculiar. Por isso é importante se considerar a interação entre os dois testamentos e progressão da revelação. Para ilustrar esse princípio, cito mais uma vez Berkhof: “Se no Antigo Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador de Seu povo (…) no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade (…) E se no Antigo Testamento é Jeová que habita em Israel e nos corações dos que temem (…) no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na Igreja”. Assim, podemos ver que aquelas atividades que são apresentadas a Deus no Velho Testamentos são especificadas a pessoas diferentes no Novo Testamento e isso atesta tanto a divindade do Filho e do Espírito como sua própria unidade com Deus.

Mas, uma vez que fica evidente a doutrina ensinada pelas escrituras, precisamos fazer de sua aplicação. Pois, é possível que alguém possa ser salvo sem entender a Trindade? É possível que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade? O que as escrituras nos ensinam?

 

C.     A Doutrina da Trindade e a Salvação

Essa pergunta é extremamente pertinente, e para vou respondê-la em quatro etapas.

  • Ninguém pode ser salvo sem a Trindade. Efésios capítulo 1 nos ajuda a compreender essa verdade de forma muito clara, pois as três pessoas da Trindade estão ativas na salvação dos homens. Deus Pai é responsável por todas as bênçãos celestiais e pela eleição e predestinação: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos” (Ef.1.3-5). Já o Filho é o meio (critério, instrumento) pelo qual essa eleição e predestinação é realizada: “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5). Entretanto é em Cristo que temos a Redenção e Graça: “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef.1.6-7). E o Espírito Santo é a garantia de que essa salvação será terminada no futuro, pois é Ele quem sela o salvo: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef.1.13-14). Essa breve exposição de Efésios capítulo um nos auxilia a compreender o papel de cada pessoa da Trindade na salvação do homem de modo que a afirmação inicial mostra-se verdadeira: Ninguém pode ser salvo sem a Trindade.

 

  • Eu acredito que uma pessoa pode ser salva sem entender a Trindade. Não acredito que a salvação esteja restrita àqueles que compreendem corretamente a Trindade, ou a divindade como um todo. Esse é o caso das crianças que por depositarem sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador estão salvas sem que mesmo tenham conseguido definir a Trindade. Ou seja, sofreram a ação da Trindade, muito embora não a possam explicar. Esse é o caso da pessoa simples que atende ao chamado eficaz da Graça de Deus, deposita sua fé em Cristo como exclusivo Redentor e está salvo, muito embora, a complexidade da Trindade não lhe seja de completamente compreensível. Contam-se inumeráveis os cristãos que demonstram dificuldade em expressar sua visão da Trindade, embora creiam nela.

 

  • Em terceiro lugar, eu acredito que uma pessoa possa ser salva sem crer na Trindade. Ao observar as mensagens evangelísticas dos apóstolos em Atos não consigo ver uma ênfase se quer na doutrina da Trindade. Na primeira mensagem evangelística registrada em Atos e pessoa vemos algo quase incomum: Tanto o Espírito Santo tem parte significativa na pregação. Ele é apresentado como profecia de Deus no Velho Testamento (v.16-21) e é apresentado como aquele que batiza (v.38). Muito embora eles sejam citados, isso não se constitui uma definição de Trindade. O apelo não foi, creiam em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo e sejam salvos? Muito pelo contrário, o apelo foi pelo arrependimento e aceitação de Jesus como Cristo (v.36). A evidência da salvação seria o batismo. Mas, no decorrer do livro de Atos, vemos que isso passa a não acontecer mais, especialmente quando o evangelho chegou à regiões gentílicas. A própria pregação de Pedro a Cornélio (um prosélito) menciona rapidamente o Espírito Santo, mas nenhuma doutrina parece ser claramente ensinada. Mas nesse caso, temos certeza que seus ouvintes foram salvos. Isso também vale para as pregações de Paulo, que muito embora não fizesse uma apologia da Trindade, apresentava a Jesus Cristo como Salvador e muito criam e eram salvos. Vale ainda dizer que é bem provável que os cristãos dos dois primeiros séculos não tivessem uma formulação da Trindade, e ainda assim eram salvos. Ainda é válido acrescentar que são inúmeras as passagens que anunciam a centralidade de Cristo para salvação e não da doutrina da Trindade. Em Romanos 10.9, lemos: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo“. Muito embora a divindade de Cristo e a ação de Deus seja demonstrada aqui, a centralidade da fé soteriológica repousa sobre Cristo. Nada é mencionado sobre a Pessoa do Espírito Santo aqui, e isso não impede que as pessoas que tomarem de serem salvas. Paulo quando lembra os Coríntios do evangelho que promove a salvação (1Co.15.1-2) ele faz claras declarações da Pessoa de Cristo (1Co.15.3-4) e algumas inferências ao Deus Pai e nenhuma citação do Espírito Santo. A própria apresentação de Paulo da Salvação em Efésios 2 apresenta a Deus como rico em misericórdia, amoroso (v.4), doador da vida por meio da graça juntamente com Cristo (v.5), e com Cristo ele ressuscita e faz assentar nas regiões celestiais em Cristo (v.6) como demonstração para o futuro da sua rica graça (v.7). Ou seja, muito embora a ação do Pai e do Filho esteja claramente anunciada, o Espírito Santo novamente não é mencionado. Por isso acredito que aqueles que tiveram acesso à essas informações apostólicas podem ter acesso a salvação sem conseguir sistematizar a doutrina da Trindade. Por isso, quando digo que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade penso na doutrina, no conteúdo da fé sistematizada, e não acredito haver fundamento para a salvação apenas pela fé trinitária.

 

  • Isso me leva a considerar a uma última consideração: não é possível alguém ser salvo e rejeitar a Trindade. Isso é diferente do que não crer. Essa distinção é importante, pois não crer pode significar não ter tido acesso à doutrina formalizada, como deve ser o caso de diversas etnias indígenas, que embora tenham Cristo como Salvado não tiveram um conhecimento sistematizado da Trindade. Por outro lado, rejeitar implica em ter conhecimento, mesmo que inadequado, e ainda assim ter completa antipatia a ele. Esse é o caso do Harold Bloom, que por mais impressionado que possa ficar com o conceito da Trindade afirma que ele é um absurdo. Mas, então, por que a salvação não pode ser desfrutada por pessoas que rejeitam a Trindade? Por que é impossível rejeitar a Trindade sem diminuição das pessoas da Trindade e quando isso ocorre com a pessoa de Cristo, a salvação está invariavelmente perdida. Esse é o caso do Testemunha de Jeová, que por atribuir a Cristo uma posição não divina, não pré-existente acaba por ser enquadrado entre aqueles que “negam que Jesus é o Cristo” (1Jo.2.22) e que por isso não tem nem o Pai nem o Filho. Esse é o caso dos gnósticos do passado que negavam a encarnação do Logos (1Jo.4.2) e também são chamados de impostores (gr. antíchristos) e falsos profetas (gr. pseudoprofétes).

Portanto, ainda que a doutrina da Trindade tenha grande valor soteriológico, não creio que a doutrina sistematizada seja o cerne conteúdo da fé soteriológica. A centralidade do conteúdo da fé que leva à salvação está sobre a Pessoa de Cristo e Sua Obra.

 


[1] É bem apropriado lembrar que o livro não se enquadra na categoria de estudo. Ele é melhor categorizado como um ataque.

[2] BLOOM, Harold, Jesus e Javé. Pp.121

[3] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. Pp.79

[4] TILLICH, Paul, Teologia Sistemática. Pp.193-4.

[5] A definição de Tertuliano ainda parece bem equilibrada. No segundo capítulo da obra Contra Práxeas ele afirmou: “while the mystery of the dispensation is still guarded, which distributes the Unity into a Trinity, placing in their order the three Persons – the Father, the Son, and the Holy Ghost: three, however, not in condition, but in degree; not in substance, but in form; not in power, but in aspect; yet of one substance, and of one condition, and of one power, inasmuch as He is one God, from whom these degrees and forms and aspects are reckoned, under the name of the Father, and of the Son, and of the Holy Ghost“.

[6] Nova escola é uma expressão utilizada em referência a um modo de fazer teologia que ultrapassa os limites da fé (religiosa) e produz um novo modo de reflexão da divindade. Trata-se quase de uma visão humanista da religião e sua literatura sem qualquer compromisso com o aprendizado prático. Eventualmente é levada adiante por pessoas que rejeitam a idéia da divindade, ou que não afirmam haver relação entre o divino e o humano.

[7] GRUDEM, Wayne, Teologia Sistemática. Pp.169.

[8] EHRMAN, Bart, The Orthodox Corruption of the Scriptures. Pp.45

[9] EHRMAN, Bart, O que Jesus disse? O que Jesus não disse?. Pp. 91-2

[10] Sabélio foi um teólogo cristão, provavelmente nascido na Líbia ou Egito. Começou a tornar-se famoso quando foi para Roma e tornou-se líder daqueles que aceitaram a doutrina do monarquianismo modalista. Ele foi excomungado pelo Papa Calixto I no ano de 220.

[11] Vale a pena dizer que todas as concepções cristológicas não concordantes com o ensino apostólico também acabam por colocar em cheque a  doutrina da Trindade. Seja pela exclusiva humanidade, ou divindade, ou pela má compreensão do relacionamento do Pai com o Filho, a doutrina da trindade também é ferida.

[12] Sobre Práxeas, Tertulianos disse: “Com isto Praxeas fez um duplo serviço para o diabo em Roma: ele desviou a profecia para longe e a trouxe em heresia; pôs em vôo o Paracleto [Espírito Santo] e crucificou o Pai“.

[13] Patripassionismo significa o sofrimento do Pai (patris – pai; passus – sofrer)

[14] Esse tipo de visão é apresentada no livro Jesus e Javé de Harold Bloom. Nesse livro Bloom afirma divindade parece ser vista como o Deus legislador do passado, na existência de Jesus na história e na presença do Espírito Santo no presente.

[15] Conceito diferente de unicistas, que apresentam uma doutrina mais parecida com o Modalismo de Sabélio do que o Unitarismo judaico.

[16] Fora da literatura paulina, vemos exemplos similares em 1Pe.1.2; Judas 20-21.

[17] GRUDEN, Wayne, Teologia Sistemática. Pp.170

[18] Veja também: Jo.14.16; 15.26; At.8.29; 13.2; 15.28; 16.7-8; Rm.8.16; 26-27; 1Co.2.10, 11; 12.11; Ef.4.30

[19] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. Pp.82.

[20] IN: BRANCOFT, Emery H., Teologia Elementar. Pp.43

[21] Idem.

[22] RYRIE, Charles, Bíblia Anotada.

05.07.08

Deus é Luz

Enviado em 1João, Teologia Própria tagged , , , às 5:25 pm por Marcelo Berti

Na teologia joanina vemos a preocupação do apóstolo por apresentar traços do Seu caráter, que são conhecidos, em parte, na primeira epístola pela palavra luz (fôs): “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma“. (1.5; cf. 2.29).  A idéia de luz é bem conhecida na literatura joanina, mas, o que nos faz pensar que essa declaração atesta sobre seu caráter e não sobre suas obras? Para responder a essa indagação precisamos conhecer o uso que João faz desse termo para avaliarmos qual a intenção de João por denominá-lo como tal.

 

Uso do termo “skotia” (trevas) em João

Em primeiro lugar vale o lembrete que João utiliza de um modo de escrever que transparece um dualismo muito forte, de modo que em muitas de suas declarações podemos encontrar antíteses aproximadas. Observe no verso mencionado a pouco que Deus é luz, e nele não há treva nenhuma. Dessa forma, podemos compreender o que Deus não é, pois não tem. Logo, trevas deve ser uma forma ou estado de oposição a Deus. Na literatura Joanina podemos perceber claramente que trevas é uma declaração de oposição a Deus, quer em estado como na prática:

 

  • 1. Estado: No evangelho, Cristo atesta que Ele é a luz do mundo com o objetivo que “todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo.12.46). Nessa expressão podemos perceber que trevas pode ser o ESTADO que se encontra a pessoa que não depositou sua fé em Cristo. Com isso subentende-se que em estado, essa pessoa é oposta a Deus, visto que o mesmo é luz. Da declaração de trevas como estado, podemos notar que ela deve ser consoante de pecado do homem que precisa ser liberto por Cristo. Segue-se que trevas como estado é uma declaração de oposição a Deus que reflete sua falta de retidão, justiça e santidade posicional, logo deve ser parte do reflexo do caráter daquele que está nessa condição. Em Jo.8.12 lemos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida“. Mais uma vez nota-se o conceito do Estado de trevas em oposição aquele que segue a Cristo. Nesse texto vemos evidente o paralelo entre luz e salvação, de modo que trevas resume-se ao que não está relacionado a Salvação e a Deus.

 

  • 2. Prática: No quinto verso da primeira epístola vemos que Deus é luz e não tem treva nenhuma. Logo na seqüência vemos a seguinte declaração: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (1.6). Nesse texto vemos que o andar em trevas é antitético com o praticar a verdade, o que deixa evidente que na prática são ações desconformes com a natureza de Deus. Outro detalhe é que “quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (Jo.12.35) por que “as trevas lhe cegaram os olhos” (2.11)[1]. Em reforço a essa conclusão, João diz o seguinte em Jo.3.19: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más“. A razão do repúdio da luz, oferecida em Cristo, segundo João eram as obras más dos homens. Assim, a rejeição da luz, o amor as trevas e a prática do mal são reflexos da prática pecaminosa do homem.

 

  • 3. Insuficiência: Outro uso interessante do termo é visto em João é a supremacia da luz em relação às trevas: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo.1.5). Nesse verso vemos que o ambiente de iluminação da luz é as trevas (en te skotia), e que as trevas não podem ofuscar (lit. vencer) a luz. Nesse sentido, embora moral e posicionalmente prejudicial, as trevas não tem poder suficiente em relação à luz (Jo.8.12). Esse conceito é também visto em 1Jo.2.8: “Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha“. Provavelmente, o maior destaque nesse ponto está na Obra de Cristo, como a única capaz de destruir as trevas (Jo.12.42; 8.12).

 

Uso do termo “fôs” (luz) em João

Vale o lembre-te que o uso do termo fôs é antitético ao termo skotia, mas sua conceituação pode nos auxiliar a compreender o caráter de Deus em conformidade com a teologia de João. Em geral, o termo “fôs” na literatura joanina apresenta a Cristo (Jo.8.12; 9.5; 12.36, 46) como verdadeira luz (Jo.1.9) enviado da parte de Deus (Jo.3.19; 12.46) e foi testificada pelos apóstolos (Jo.1.7, 8; cf. 1Jo.1.1-3). Entretanto, alguns usos do termo podem nos ajudar a compreender melhor a visão de João ao denominar Deus como luz.

Um dos usos que nos chamam a atenção é a expressão “andar na luz” utilizada em 1Jo.1.7: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado“. O verbo andar em João é usado de modo normal, como o ato de mover-se, andar, caminhar (Jo.1.36; 5.8, 9, 11, 12; 6.19 entre outros) e como descrição de modo de vida. Esse é o caso desse verso: “aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (1Jo.2.6). Ou seja, aquele que afirma ser cristão deve andar como Cristo andou, ou viver como Ele viveu. A partir desse ponto podemos estabelecer duas relações interessantes dessa expressão:

 

  • 1. Sinonímia: Em João vemos que a expressão andar na Luz é similar a expressão “andar na verdade“: “Fiquei sobremodo alegre em ter encontrado dentre os teus filhos os que andam na verdade, de acordo com o mandamento que recebemos da parte do Pai” (2Jo.1.4; cf. 3Jo.1.3). Ou seja, essas pessoas que foram encontradas por João são pessoas que vivem suas vidas em conformidade com o ensino das escrituras, e por essa razão podem ser denominadas como pessoas que andam na verdade. Esse fato para João é motivo de grande alegria: “Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade” (3Jo.1.4). É ainda possível que essa relação inclua a expressão: “andar em amor”: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor” (2Jo.1.6). Outra relação de sinonímia interessante é a “prática da verdade“. Em 1Jo.1.6 vemos: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade“. A negativa para a expressão é muito significativa, pois do modo como foi redigida apresenta a idéia de sinonímia com “andar em trevas“. Se isso é verdadeiro, “praticar a verdade” não é um modo de andar na luz, mas o próprio ato. Talvez essa seja a conclusão em Jo.3.21: Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus” Em todos os casos, as expressões apresentam o sentido de modo de vida em conformidade com Deus, logo, falam sobre a vida obediente do cristão. Assim, a vida na luz, está em equiparada com a esfera da manifestação de Deus em 1Jo.1.7: “andarmos na luz, como ele está na luz“.

 

  • 2. Antagonia: Por outro lado, podemos perceber que João também estabelece uma relação de antagonia quando fala de “andar em trevas”: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade“. Assim, andar em trevas é oposta a comunhão com Deus, é relativa a mentira e referente a um modo de viver antagônico à verdade. Esse modo de vida é visto em cristãos: “Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo.2.6). Nesse caso vemos que a falta de demonstração de amor de um irmão evidencia que ele anda em trevas, e está em trevas. Nesse caso, nota-se que a mediocridade cristã é forte evidência da imaturidade e falta de Deus na vida de indivíduos. Note que as expressões que caracterizam esse cristão, são expressões que João usa para falar de não cristãos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo.8.12); “Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; e quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (Jo.12.35; cf. v.36).

 

Diante dessas observações podemos auferir que, a expressão “Deus é luz” acarreta nas seguintes conclusões: 

  • 1. Padrão: Deus é o padrão de Santidade, pois Ele é Luz e está na luz
    • a. Posicionalmente significa que não existe alguém (fora da Trindade) que se equipare a Ele em termos de Santidade. Ele não tem treva alguma em seu Ser, Ele é plenamente santo em todos os aspectos.
    • b. Praticamente significa que tudo o que faz é permeado por sua Santidade, sendo que não faz nada antagônico à sua posição de santidade. Suas obras são obras de verdade, amor e claridade, pois sabe o que faz e para onde vai.

 

  • 2. Poder: Significa apresentar sua onipotência ante ao mal e o pecado, pois não pode ser vencido pelas trevas.

 

  • 3. Comunhão: A comunhão com esse Deus exige santidade. Assim, qualquer forma de treva (prática isolada ou modo de vida) acarreta na impossibilidade de relacionamento entre o homem e Deus. É por essa razão que faz-se tão necessário o perdão Dele após conversão. O resultado da comunhão com Deus é a comunhão com os irmãos.

 


[1] Alguns teólogos ao lerem esse tipo de expressão nos escritos joaninos logo têm apontado para a possibilidade de que João utilizasse uma linguagem conceitualmente gnóstica para apresentar ao mundo helenista de sua época os conceitos sobre a teologia cristão, que era majoritariamente judaica (Assunto tratado com mais atenção no artigo “A relação de similaridade entre Paulo e João” e será melhor debatido em um artigo futuro sobre questões introdutórias a 1João).

Entretanto, ao realizarem essa afirmação ignoram a própria corrente ideológica vista dentro do judaísmo, que tratava do seu conhecimento de modo antitético, em uma linguagem similar as encontrada nos escritos proto-gnósticos da época de João. Exemplo disso vemos no manuscrito encontrado no Mar Morto (1QsIII) que apresenta o conceito antitético entre Luz e Trevas, onde Luz refere-se ao que é da parte de Deus, e trevas ao maligno. Da mesma forma que apresenta o conceito da verdade em antítese moral à falsidade. Colocações que parecem conceitualmente similares as que João apresenta em sua literatura. Se isso é verdadeiro, temos evidências que apontam para o fato de que não existe necessariamente uma tradução do conceito judaico para o mundo helenistico na apresentação de Deus como Luz. Desse modo, fica evidente que não temos aqui apenas uma declaração valiosa sobre nossa compreensão sobre Deus, que não tem, nem envolve-se com o pecado, ou seja, é Santo.

04.11.08

Cognocibilidade de Deus em 1João

Enviado em 1João, Teologia Própria tagged , , , , às 2:55 pm por Marcelo Berti

O conhecimento de Deus é sempre visto nas escrituras e por essa razão cativa seus leitores a um envolvimento mais intenso e profundo com esse Deus. O estudo da teologia própria não é só fascinante por apresentar características de Deus, detalhá-las e apresentar efetivamente nas escrituras, mas por abrir portas para uma forma de conhecimento que não se dá em conceitos, mas em experiência pessoal.

Talvez esse seja um ponto alto da concepção joanina sobre Deus exposto em sua primeira epístola: Deus pode ser conhecido pessoalmente, pois é possível existir um relacionamento entre um ser humano regenerado e seu Redentor. Entretanto, mais importante do que essa observação, é que para João essa cognicibilidade em Deus pode ser verifica como certeza. Observe: “Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai” (2.14). Nesse texto, João apresenta de modo convicto que seus leitores primários já haviam estabelecido um relacionamento com Deus. O verbo que descreve essa certeza é “gnosko“, que pode contribuir em muito com nossa compreensão dessa afirmação joanina.

De modo geral, o termo em conceituação é visto nas escrituras como sinônimo de saber (oida) e normalmente traduzido como conhecer (Jo.8.32; 14.17; ), ou outros termos que representem o reconhecimento (1Jo.4.12; cf. Gl.4.9), ter conhecimento (Rm.2.18) ou entendimento (Jo.3.10; 8.43). Fora da literatura joanina, já foi utilizado (especialmente na LXX em tradução ao termo hebraico yadá) como um intercurso sexual (Mt.1.25; Lc.1.34), um uso particularmente incomum no novo testamento e estranho à literatura de João.

Na primeira epístola de João temos algumas indicações sobre o significado dessa expressão quando relacionada com Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (4.7). Na relação entre o amor de Deus é que podemos notar alguma relação com a certeza do conhecimento de Deus, pois aquele que demonstra o amor que do Pai recebeu evidencia que é Filho Dele e tem um relacionamento pessoal com Deus. De uma forma mais simples, a prática cristã segundo Cristo evidencia (não promove) esse relacionamento com o Pai.

É possível, ainda, que essa expressão de conhecimento do Pai tenha estrita relação com o recebimento do ensino dos apóstolos: “Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve[1]; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve” (4.6). Em sua discussão sobre o problema do surgimento das heresias sobre Cristo que assolavam a comunidade primitiva a quem João endereçara sua carta, ele transparece com intensidade que esses “anticristos” teriam saído de meio da comunidade cristã, mas evidenciam com seu ensino pernicioso que nunca fizeram parte dessa comunidade (2.19). João chega a identificá-los como pessoas que negam o Pai e o Filho (2.22), e ainda são apresentados como pessoas que não tem o Pai por negarem o Filho (2.23). Pouco a frente João ainda incentiva os cristãos a não darem ouvidos para outras pessoas[2] com ensinos contraditórios (4.1) ao que ouviram do próprio João (2.20).

Dessa forma, João afirma que as pessoas que tem inclinação ao ensino dos apóstolos são pessoas que apresentam um relacionamento pessoal com Deus. Assim, esse conhecimento não é mero acúmulo de informações teológicas, mas a prática cristã saudável da busca pela vida com Deus. Por isso que é evidente na visão de João que aquele que não demonstra amor, não pode conhecer a Deus: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8). Isso não significa que essas pessoas não tem acesso a salvação, mas que por sua imaturidade não tem um relacionamento consistente estabelecido com Deus, ou que por sua falta de relacionamento com Deus permanecem em sua imaturidade.

Portanto, a possibilidade de experimentar com Deus um relacionamento, está aberto a todos os que creem em Cristo, são considerados como filhos, amados de modo especial por Deus, mas apenas os cristãos crescentes em maturidade é que tem desfrutado Dele. Evidência para isso é que a prática cristão é colocada como realce desse conhecimento experiencial (4.6-7). Alías, como João poderia perceber que dentre as pessoas que ele escreve ele teria convicção do seu conhecimento de Deus, se não pudesse observar?

 


[1] A expressão “nos ouve” parece estar ligado ao conceito plural de redação visto na introdução da epístola, que parece não apontar necessariamente a uma autoria coletiva, mas refletir o envolvimento, ensino e influência apostólico na conceituação da teologia cristã.

[2] Eu entendo particularmente que o uso de “pneuma” nos primeiros versos do capítulo 4 refere-se a outras pessoas e não a entidades espirituais, por algumas razões:

  • Confissão: no verso 2 João aponta para um problema similar ao apresentado no capítulo 2: Esses espíritos não confessam que Jesus teria vindo em carne;
  • Nominação: esse espírito é nominado como “espírito do anticristo” em consonância com a nomenclatura do capítulo 2 para os falsos mestres.
  • Identificação: No verso 4 fica explícito que sua intenção é falar sobre “falsos profetas“, que falam da parte do mundo.
  • Procedência: Esses falsos profetas, segundo o verso 5, procedem do mundo. Ora se a origem é natural não há por que esperar que sejam sobrenaturais esses espíritos.
  • Correlação: no verso 6 João associa pessoas que escutam a mensagem dos apóstolos com o espírito da verdade, de modo que fica evidente que o uso do termo espírito pode ser usado para pessoas.

04.09.08

A relação entre o amor agápe e Deus em 1João

Enviado em 1João, Teologia Própria tagged , , , , , às 4:55 pm por Marcelo Berti

Talvez o mais interessante conceito sobre Deus na Teologia joanina seria o amor de Deus. No quarto capítulo dessa epístola encontramos mais vezes o termo amor que em qualquer outro capítulo nas escrituras. Isso nos leva a concluir que sua visão sobre esse assunto é fundamental para a compreensão correta do cristianismo. Por essa razão vamos nos dedicar a observar esse assunto com atenção nessa epístola.

Deus é amor (agápe)

Talvez a mais importante descrição sobre Deus na Teologia de João seja a que Deus é agápe. Por duas vezes o autor faz isso: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8); “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (4.16).
Entretanto, mais que identificar a colocação da expressão dentro dos escritos joaninos é compreender o que de fato isso significa. Por isso, precisamos observar alguns fatos sobre o Amor de Deus para tentar compreender seu real significado prático e conceitual.

1. O amor de Deus é completo e independente da criação:

É fundamental compreender esse fato, visto que é comum que pessoas interpretem a criação como uma necessidade de Deus para expressão do Seu amor. Entretanto, a teologia joanina apresenta o fato que o amor de Deus já era ativo antes mesma da criação: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Dessa forma vemos que o amor de Deus era ativo em direção àquele que é o “Uiós tou Theou”. Outro detalhe é que embora indefinido no tempo, o verbo amou na sentença grega está completo no passado e ativo no presente, o que também sugere que esse amor está além do tempo, e permanece ativo: “Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor” (Jo.15.9); “O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo.3.35 cf. 10.17). E mais interessante que isso é que o Filho também tem amor ativo e presente pelo Pai: “contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou” (Jo.14.31). Dessa forma, podemos notar que o amor de Deus é independente da criação, completo e ativo.

 

2. O amor de Deus é perfeito:

Uma das declarações que soam interessantes quando falamos em perfeição é que Deus é o modelo último e máximo da perfeição, independente do campo ou ambiente do que se trata. Quando fala em unidade, Cristo pede a Deus que os cristãos sejam aperfeiçoados na unidade (Jo.17.23), e sempre remete ao padrão da perfeição da união da trindade (v.22). No que diz respeito ao amor, na teologia de João podemos encontrar indícios de que o amor de Deus é perfeito, no sentido que nada lhe falta, completo e final. Uma das evidências que temos para isso é que o amor de Deus pode ser aperfeiçoado no cristão, na medida que busca aproximar-se de Deus: “Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus” (2.5); “Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (4.12); “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança” (4.16-17). Se o amor que procede de Deus pode ser aperfeiçoado na vida do cristão, se ele pode chegar a ser completo em sua vida, deve supor que a fonte de onde ele sai carrega as mesmas características. Se isso é verdadeiro, logo o amor de Deus é completo.

 

3. O amor de Deus é imenso:

Quando falamos que o amor de Deus é imenso, estamos nos referindo ao fato de que Seu amor não tem como ser medido. Deve ser por essa razão que eventualmente João utiliza a idéia de que esse amor é grande: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai” (3.1). A palavra grega para grande (potapós) é sempre utilizada em contexto onde o maravilhar-se está presente, de forma que a expressão em si tem um ar de magnitude. Dessa forma, notamos que o amor que Deus tem é imenso. Outros textos contribuem para essa conclusão: “se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros” (4.11; cf.Jo.3.16). O modo com que Deus amou ao mundo é tão intenso e tão forte, que não foi descrito com uma forma ou quantidade definida, antes, João utiliza um termo que pressupõe a magnitude do mesmo.

 

4. O amor procede de Deus:

Na teologia joanina não existe outra fonte para o amor, se não de Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (4.7). A expressão grega deixa bem evidente que o amor vem, procede, sai, emana de Deus (ek tou Theou estin).

 

5. O amor de Deus é manifesto ao mundo:

Uma das verdades sobre o amor de Deus é que, apesar de completo, ativo e independente da criação, Deus decide fazê-lo conhecido ao mundo: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Dessa forma, todos os que são criaturas de Deus podem compreender e conhecer o amor de Deus, até por que o procedimento de Cristo visava testificar esse fato ao mundo (Jo.14.31) e sua história é prova viva desse interesse de Deus.

 

6. O amor de Deus é conhecido em Cristo:

Para João essa verdade é contundentemente clara: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9). Essa mensagem está em consonância com a verdade sobre o Filho e a Obra Redentora realizada por Deus por intermédio de Jesus Cristo. Além do mais: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos”

 

7. O amor de Deus é manifesto aos cristãos:

Uma importante observação à essa altura é que esse amor é apresentado de modo especial para aqueles que o Pai traz a Cristo (Jo.6.37, 44). Em sua oração, Jesus pede ao Pai que seus discípulos sejam unidos e cresçam na unidade com o objetivo que “o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo.17.23). A unidade entre os discípulos, o que incluí tanto os onze que estavam com Ele naquele momento e todos os que vieram após eles (Jo.17.20-21) seria o testemunho eficaz de que Cristo havia sido envidado da parte de Deus para esse mundo, e que Deus ama os seguidores de Cristo da mesma forma como ama a Cristo. Essa declaração parece fazer alguma distinção entre o amor que Deus atribui ao mundo e a Seus filhos.

 

8. O amor de Deus é primeiro:

Vale a pena ressaltar que o amor de Deus, que era presente desde a eternidade passada em Jesus Cristo, manifesto Nele e direcionado a Ele, é também direcionado aos que são cristãos: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (4.19). Não pode-se dizer, então, diante da teologia joanina que fomos considerados como filhos por termos sido escolhidos por Deus em função de uma pré-disposição, ou pré-visão de um amor para com Deus, mas sim que, Ele nos amou antes que pudéssemos esboçar qualquer tipo de amor. Aliás, diante da teologia de João fica evidente que não poderíamos esboçar amor a Deus sem que seu amor tivesse sido direcionado e efetivo em nós.

 

9. O amor de Deus é definido em Cristo:

Em alguns lugares na literatura joanina podemos encontrar algumas sentenças que parecem tecer partes da definição desse amor que Deus tem: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (4.10). O amor de Deus consiste em sua ação primeira manifesta completamente em Cristo. Embora não tenhamos uma informação de quando isso aconteceu com certeza, vemos pelo verbo amou que isso aconteceu em algum momento do passado (amou – aoristo). Por outro lado, esse amor é direcionado aos cristãos (nos) de modo que a ação de Cristo foi em favor desses que tem nEle a propiciação dos pecados (Vale o lembrete que essa ação da parte de Deus é estendida ao mundo inteiro -  1Jo.2.2). Outra afirmação que merece nossa observação é que João ainda complementa a idéia do amor de Deus da seguinte forma: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (3.16). O amor de Deus é definido pela auto-doação de Cristo pelos cristãos, que deveriam fazer o mesmo. A afirmação final desse verso parece estender em um pouco a concepção de que o amor de Deus é também definido pelo amor que os cristãos devem manifestar.

 

10. O amor de Deus é percebido pela prática cristã:

A literatura joanina apresenta em diversos lugares a preocupação de que aquele que crêem em Cristo como Salvador deveriam esboçar esse amor de Deus nos seus relacionamentos, e que isso seria evidência suficiente do amor de Deus (Jo.17.20-24). Entretanto, parece não ser essa a única preocupação de João, visto que o amor de Deus é que em parte é percebido pelos cristãos: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9). O fato de Deus ter enviado Seu Filho ao mundo é um fato conhecido na teologia joanina, mas a consistência do amor de Deus também está no objetivo a que Ele enviou Seu Filho: Para que os cristãos pudessem viver por meio Dele. Com esse adendo, notamos que o amor de Deus é, por um lado definido por seu envio do Filho, e por outro pelo reflexo deste na comunidade dos que crêem Nele. Contudo, podemos ainda inferir que essa não é toda a concepção que João tem sobre esse assunto: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos” (5.3). Nesse ponto notamos que parte da definição do amor de Deus está na obediência do cristão, sendo isso ainda verificado na segunda epístola de João: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor”. Nesse texto ainda temos a inclusão de que os cristãos deveriam andar nesse amor.

 

11. A questão da posse e da permanência:

Uma das verdades apresentadas com solidez pela teologia joanina é que o não cristão não possui o amor de Deus: “sei, entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus” (Jo.5.42). Essa definição apresenta um detalhe sobre o amor de Deus, que mesmo embora seja manifesto ao mundo, não seja efetivo em todos os seres humanos, pois existem aqueles que não tem o amor de Deus. Outro detalhe é que o amor com que Deus amou a Cristo parece ser direcionado de modo específico aos que crêem: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja” (Jo.17.26). Essa afirmação é direcionada para aqueles que compreenderam que Deus havia enviado a Cristo (v.25), que foram dados por Deus a Cristo (v.24) e estão nele (v.23), são objetos do amor de Deus (v.23) e que crêem em Cristo por meio da palavra de Deus (v.20). Portanto, confirma-se que o amor de Deus é manifesto de modo especial no cristão. Porém, deve-se ressaltar que esse amor pode não estar no cristão: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (3.17). De algum modo, o cristão pode deixar de ser aperfeiçoado no amor de Deus a ponto de não ter o amor de Deus presente em sua vida. É o que acontece com o cristão que ama ao mundo ou às coisas que estão no mundo: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (2.15). Por essa razão que espera-se que o cristão ame não apenas com palavras, mas “de fato e de verdade” (3.18). Assim, o cristão também deve persistir na permanência no amor de Deus, visto que essa prática é também a garantia da permanência em Deus (4.16).

 

Conclusão

Considerando as informações sobre o amor na literatura joanina, podemos assumir que ao referir-se a Deus como amor, tem todos esses conceitos em mente. Portanto, cremos que de alguma forma a definição de Deus inclui todos esses aspectos, não de forma a limitá-lo, mas na forma de compreendê-lo como Deus. Se isso é verdadeiro, concluímos que Deus é

1. É completo e independente da criação
2. É perfeito
3. É imenso
4. É auto-existente
5. Manifesta-se ao mundo
6. É conhecido por meio de Cristo
7. Manifesta-se de modo especial aos cristãos
8. É ativo e primeiro em sua ação
9. É visto em Cristo
10. É percebido pela prática cristã (madura)
11. Relaciona-se com mais intensidade com o cristão maduro

Dessa forma, podemos compreender um pouco sobre o que João intencionava ensinar ao falar que Deus é agápe.