11.10.09

Ausência de artigo no Grego Koine

Enviado em Testemunha de Jeová tagged , às 3:06 pm por Marcelo Berti

Nesse artigo vamos tratar da ausência do artigo grego no Novo Testamento. Sua compreensão é essencial para o correto entendimento da sentença grega em João 1.1: “᾿Εν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”. Se bem observado, João não usou o artigo em todas as ocasiões no verso citado, e na terceira sentença podemos perceber que o substantivo Θεὸς veio desacompanhado de artigo. Que implicações podemos retirar desse fato?

A razão de estudarmos a ausência de artigo no grego koiné, é avaliar se a tradução oferecida pela Tradução do Novo Mundo (TNM) está correta. A alegação comum para os TJ`s é que o fato de que o termo Deus na terceira sentença, por não vir acompanhado de artigo (anartro), deve ser entendido como uma declaração iniciada por um artigo indefinido na tradução. Assim, a TNM verte o texto desse modo: “No princípio era o Verbo, o e Verbo estava com Deus e o Verbo era um deus”.

Para conhecer os usos anartros de Θεὸς, sugirou que o leitor leia o artigo O uso anartro de Θεὸς no Novo Testamento, onde observamos diversos usos neotestamentários e suas implicações.

O obejtivo do nosso estudo é verificar se a defesa TJ para a TNM é correta: Será que a ausência de um artigo definido acompanhando um substantivo exige o artigo indefinido na tradução para o português? Nosso artigo visa responder a essa pergunta ao analisar os possíveis usos que a ausência de artigo pode desempenhar no grego koine e verificar se sua ausência sempre implica em uma tradução com o acréscimo de um artigo indefinido.

1. Conceituando o artigo indefinido grego

O que se tem por certo e claro para os estudantes do grego, é que o grego Koiné não possue o artigo indefinido como o português. A.T. Robertson sobre o artigo indefinido diz: “O Sanscrito e o Latin não tem artigo, como o grego não tem artigo indefinido”. Essa característica em si não é uma deficiência na linguagem, mas um exemplo de desenvolvimento tardio do idioma, uma vez que o mesmo autor nos lembra que “nem memos o grego moderno tem o artigo da línguas Teutônicas e Romanas desenvolveram, usando eventualmente εἰς ou τίς com um pouco mais de força que o Inglês um(a) [1]”. Um claro exemplo disso no NT pode ser visto nos seguintes versos:

Lucas 22.50

(GNT) καὶ ἐπάταξεν εἷς τις ἐξ αὐτῶν τὸν δοῦλον τοῦ ἀρχιερέως καὶ ἀφεῖλεν αὐτοῦ τὸ οὖς τὸ δεξιόν

(TNM) E um certo deles até mesmo golpeou o escravo do sumo sacerdote e lhe tirou a orelha direita.

A indefinição do texto é clara: um dentre eles, qualquer um deles golpeou o servo do sumo sacerdote. A ênfase nesse aspecto do texto é exatamente apresentar um relato indefinido, e para tanto o autor usa a expressão “εἷς τις” (lit. um alguém). Outro exemplo que pode acrescer a observação desse princípio apresentado por Robertson encontra-se em Mt.8.19:

Mateus 8.19

(GNT) Καὶ προσελθὼν εἶς γραμματεὺς εἶπεν αὐτῷ· διδάσκαλε, ἀκολουθήσω σοι ὅπου ἐὰν ἀπέρχῃ

(TNM) E certo escriba aproximou-se e disse-lhe: “Instrutor, eu te seguirei para onde quer que fores.”

É interessante notar que nesse caso a TNM demonstrou dificuldades ao traduzir a expressão com “εἷς”. A expressão “εἶς γραμματεὺς” tem duas possibilidades de tradução aqui: (1) ou numéricamente, onde “εἶς” funcionaria com um numeral; (2) ou idefinidademente, onde “εἶς” funcionaria como um artigo indefinido. Isso significa que a tradução “certo escriba” soa mais definido do que o texto grego parece sugerir, mas ainda preserva um pouco do sentido auferido na frase. A ausência da partícula indefinida na tradução, nesse caso, não faz qualquer diferença para o texto, e esse fenômeno não é incomum no NT. Contudo, é importante lembrar que em alguns casos a ênfase do argumento repousa sobre o uso numeral de “εἶς”, veja: “Por que fala este homem dessa maneira? Ele está blasfemando. Quem pode perdoar pecados senão um só, Deus?” (Mc.2.7).

Com isso demonstrado, fica evidente para o leitor que no que refere-se ao artigo indefinido, o grego koiné não o define como em outros idiomas. É por essa razão que eventualmente alguns pensam que a simples ausência de um artigo definido no texto grego implique em uma setença indefinida na tradução. Entretanto, esse fato não é verdadeiro e há diversas demonstrações desse fato no Novo Testamento (cf. O uso anartro de Θεὸς no Novo Testamento).

A verdade a respeito da ausência de artigo no grego neotestamentário é que, ora pode exigir o artigo indefinido na tradução, ora não. Ou seja, via de regra, a ausência de artigo no grego deve ser analisada pelo tradutor, pois “sem artigo, um substantivo pode ser ou não ser indefinido, dependendo do contexto[2]”. Por exemplo, em At.28.6 o contexto permite o uso de um artigo indefinido com o substantivo Θεὸς, ao passo que em 1Co.8.4 isso não acontece. Por essa razão, o leitor fará bem se puder observar abaixo algumas características que a ausência de artigo imprime no NT.

2. A questão da ausência de artigo

A questão da ausência de artigo tem algumas características que merecem nossa atenção: (1) a ausência em si não é uma demonstração de indefinição; (2) a conceituação depende do contexto; (3) existem características que podem ou não exigir um artigo indefinido na tradução de uma sentença anartra.

De fato, sobre a ausência do artigo definido, devemos observar três características básicas: a referência, a função e o uso de preposições. Se, essas três características forem obsevadas o leitor terá capacidade para distinguir a necessidade de inclusão ou não de um artigo indefinido na traducão de uma setença anartra.

A. A questão da referência

Uma das características que nos auxiliam a compreender o modo de tradução de uma sentença ou expressão anartra é a referência que tal ausência faz. Ou seja, quando trata-se de nomes próprios, o grego koiné não exije o artigo indefinido, ou seja, ele não é obrigatório.

Situações similares podem acontecer quando trata-se de títulos de livros, ou sentenças iniciais dos mesmos; quando refere-se a números ordinais e a palavras abstratas. Abaixo observamos com um pouco mais de detalhes cada um desses caso.

1. Nomes Próprios

Atos 19:13

(GNT) ἐπεχείρησαν δέ τινες ἀπὸ τῶν περιερχομένων ᾿Ιουδαίων ἐξορκιστῶν ὀνομάζειν ἐπὶ τοὺς ἔχοντας τὰ πνεύματα τὰ πονηρὰ τὸ ὄνομα τοῦ Κυρίου ᾿Ιησοῦ λέγοντες· ὁρκίζομεν ὑμᾶς τὸν ᾿Ιησοῦν ὃν Παῦλος κηρύσσει.

(TNM) Mas, certos dos judeus itinerantes, que praticavam a expulsão dos demônios, também empreenderam usar por nome o nome do Senhor Jesus para com os que tinham espíritos iníquos, dizendo: “Eu vos advirto solenemente por Jesus, a quem Paulo prega..

Observe nesse texto que dois fenômenos interessantes acontencem: (1) o nome de Jesus é acompanhado por artigo, mais não faz diferença no discruso. Ainda que essa sentença fosse traduzida como “por o Jesus”, ou “pelo Jesus” a sentença não faria diferença. O argumento do autor mantem-se do mesmo modo; (2) Entretanto, o fenômeno contrário acontece com o nome de Paulo. Sabe-se de que Paulo se fala no texto, mas não o entendemos como “o Paulo”, embora saibamos qual deles é descrito aqui. Esse é o caso onde a falta de artigo certamente não implica em uma indefinição. Caso similar acontece nos textos citados abaixo

Mateus 2:7

(GNT) Τότε Ηρῴδης, λάθρᾳ καλέσας τοὺς μάγους ἠκρίβωσε παρ᾿ αὐτῶν τὸν χρόνον τοῦ φαινομένου ἀστέρος,

(TNM) Herodes convocou, então, secretamente os astrólogos e averiguou deles cuidadosamente o tempo do aparecimento da estrela;

1Coríntios 9:6

(GNT) ἢ μόνος ἐγὼ καὶ Βαρνάβας οὐκ ἔχομεν ἐξουσίαν τοῦ μὴ ἐργάζεσθαι;

(TNM) Ou é somente Barnabé e eu que não temos autoridade para nos abster de trabalho [secular]?

Colossenses 4:10

(GNT) ᾿Ασπάζεται ὑμᾶς ᾿Αρίσταρχος ὁ συναιχμάλωτός μου, καὶ Μᾶρκος ὁ ἀνεψιὸς Βαρναβᾶ, περὶ οὗ ἐλάβετε ἐντολάς· ἐὰν ἔλθῃ πρὸς ὑμᾶς, δέξασθε αὐτόν,

(TNM) Aristarco, meu companheiro de cativeiro, manda-vos os seus cumprimentos, e assim também Marcos, primo de Barnabé, (a respeito de quem recebestes mandado para o acolher, se for ter convosco,)

É bem observável que em referência a nomes próprio, o artigo não é necessário, muito embora pudesse acompanhá-los em algumas ocasiões. Observe:

Atos 13:43

(GNT) λυθείσης δὲ τῆς συναγωγῆς, ἠκολούθησαν πολλοὶ τῶν ᾿Ιουδαίων καὶ τῶν σεβομένων προσηλύτων τῷ Παύλῳ καὶ τῷ Βαρνάβᾳ, οἵτινες προσλαλοῦντες αὐτοῖς ἔπειθον αὐτοὺς προσμένειν τῇ χάριτι τοῦ Θεοῦ.

(TNM) Assim, depois de se dissolver a reunião da sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos que adoravam [a Deus] seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falando com eles, começaram a instar com eles para que continuassem na benignidade imerecida de Deus

Com isso entendemos que para o grego o artigo não é essencial para a referência a nomes próprios, pois vimos que ora estão presentes, ora não.

2. Títulos de Livro

De modo similar ao que acontece com os nomes próprios, títulos de livros também não exigem artigos definidos. Observe dois exemplos abaixo:

Marcos 1:1

(GNT) ᾿Αρχὴ τοῦ εὐαγγελίου ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, Υἱοῦ τοῦ Θεοῦ.

(TMN) [O] princípio das boas novas a respeito de Jesus Cristo:

Apocalipse 1:1

(GNT) ᾿Αποκάλυψις ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ἣν ἔδωκεν αὐτῷ ὁ Θεός, δεῖξαι τοῖς δούλοις αὐτοῦ ἃ δεῖ γενέσθαι ἐν τάχει, καὶ ἐσήμανεν ἀποστείλας διὰ τοῦ ἀγγέλου αὐτοῦ τῷ δούλῳ αὐτοῦ ᾿Ιωάννῃ,

(TNM) Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu, para mostrar aos seus escravos as coisas que têm de ocorrer em breve. E ele enviou o seu anjo e [a] apresentou por intermédio dele em sinais ao seu escravo João.

No primeiro exemplo vemos que a TNM acresce ao texto um artigo definido no início da sentença em uma ocasião em que ele não está presente no texto grego nem é necessário na tradução. É bem verdade que não faz qualquer diferença no texto, mas serve como exemplo de que a ausência do artigo pode trazer dificuldades na tradução de um texto.

No segundo exemplo vemos o caso da ausência de artigo correspondente nos dois idiomas: Não trata-se d[a] revelação, como se fosse a única nesse patamar, ou uma revelação como se fosse qualquer; mas trata-se da revelação de Jesus (específica, mas não única), como aquela que tem tal autoridade quanto todas as outras revelações que já teria apresentado. É interessante notar, todavia, que várias versões inglesas acrescentem o artigo definido (ASV, KJV, NIV).

Esses dois casos são exemplos suficientes para demonstrar que a ausência de artigo no texto grego pode trazer diferenças de tradução e que o artigo em si, não é essencial para o discurso. Como evidência disso, podemos observar ocasiões em que sentenças inteiras são escritas sem artigo. Observe o caso de 1 Pedro 1.1-2:

1Pedro 1:1-2

(GNT) Πέτρος, ἀπόστολος ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ἐκλεκτοῖς παρεπιδήμοις διασπορᾶς Πόντου, Γαλατίας, Καππαδοκίας, ᾿Ασίας καὶ Βιθυνίας, κατὰ πρόγνωσιν Θεοῦ πατρός, ἐν ἁγιασμῷ Πνεύματος, εἰς ὑπακοὴν καὶ ῥαντισμὸν αἵματος ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ· χάρις ὑμῖν καὶ εἰρήνη πληθυνθείη.

(TNM) Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos residentes temporários espalhados por Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, aos escolhidos segundo a presciência de Deus, o Pai, com santificação pelo espírito, com o objetivo de que sejam obedientes e sejam aspergidos com o sangue de Jesus Cristo. Benignidade imerecida e paz vos sejam aumentada.

Nesse caso, nenhum artigo grego foi utilizado, muito embora o sentido da frase não seja encobrido por esse fenômeno linguístico. Mas, por que o grego koiné permite esse tipo de situação? Na verdade, no grego koiné, diferente do português, o substantivo é regido por declinações e no grego, essas declinações regem as funções que os termos exercem em uma frase. Assim, uma sentença grega, tão grande quanto 1Pe.1.1-2, pode ser escrita sem artigo sem que isso implique em qualquer complicação para a compreensão do texto. Isso é evidência de que o artigo não é essencial para o discurso.

3. Números Ordinais

Quando o grego trata de numerais, os artigos não são necessário, como já observamos em outros contextos. Observe:

Lucas 2:2

(GNT) αὕτη ἡ ἀπογραφὴ πρώτη ἐγένετο ἡγεμονεύοντος τῆς Συρίας Κυρηνίου.

(TNM) este primeiro registro ocorreu quando Quirino era governador da Síria. (cf. Mc.15.2)

João 19:14

(GNT) ἦν δὲ παρασκευὴ τοῦ πάσχα, ὥρα δὲ ὡσεὶ ἕκτη. καὶ λέγει τοῖς ᾿Ιουδαίοις· ἴδε ὁ βασιλεὺς ὑμῶν.

(TNM) Ora, era a preparação da páscoa; era cerca da sexta hora. E ele disse aos judeus.

Efésios 6:2

(GNT) τίμα τὸν πατέρα σου καὶ τὴν μητέρα, ἥτις ἐστὶν ἐντολὴ πρώτη ἐν ἐπαγγελίᾳ,

(TNM) Honra a teu pai e [a tua] mãe”, que é o primeiro mandado com promessa (cf. At.2.15)

No primeiro exemplo a ausência de artigo foi observada em ambos os idiomas, sem que a indefinição fosse regente em ambos idiomas. Entretanto, nos outros dois casos percebemos que a ausência de artigo em grego foi compreendido definidamente em portugês. Em Efésios esse caso é observado com intensidade em português: “Esse é O primeiro mandamento com promessa”. Nesse caso, não há outro primeiro mandamento com promessa: Esse é O primeiro. É interessante notar que essa definição específica não vem acompanhada de artigo em grego, sem que seu sentido fosse minimizado. Mais uma evidência de que o artigo não é essencial para o discurso.

4. Palavras Abstratas

Em outras ocasiões o grego também não exige a presença do artigo: esse é o caso de palavras abstratas. Observe os casos abaixo:

Gálatas 5:20

(GNT) εἰδωλολατρία, φαρμακεία, ἔχθραι, ἔρις, ζῆλοι, θυμοί, ἐριθείαι, διχοστασίαι, αἱρέσεις,

(TNM) idolatria, prática de espiritismo, inimizades, rixa, ciúme, acessos de ira, contendas, divisões, seitas,

Romanos 1:29

(GNT) πεπληρωμένους πάσῃ ἀδικίᾳ, πορνείᾳ πονηρίᾳ πλεονεξίᾳ κακίᾳ, μεστοὺς φθόνου φόνου ἔριδος δόλου κακοηθείας, ψιθυριστάς,

(TNM) já que estavam cheios de toda a injustiça, iniqüidade, cobiça, maldade, cheios de inveja, assassínio, rixa, fraude, disposição maldosa, sendo cochichadores

Nesses dois exemplos vemos que a ausência de artigo com substantivos abstratos não foram traduzidas idefinidamente nenhuma vez. Ou seja, a ausência no grego também pode ser entendida como uma ausência em português sem que isso minimize o sentido da frase. Entretanto é interessante notar que, tal ausência pode ser compreendida definidamente em outras ocasiões. Veja o exemplo abaixo:

Apocalipse 5:12

(GNT) λέγοντες φωνῇ μεγάλῃ· ἄξιόν ἐστι τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν.

(TNM) dizendo com voz alta: “O Cordeiro que foi morto é digno de receber o poder, e as riquezas, e a sabedoria, e a força, e a honra, e a glória, e a bênção.. (veja 7.12)

Note que a tradução em português acresceu um artigo definido para cada substantivo, muito embora não se tenha a presença de nenhum artigo grego em toda a sentença. É interessante que várias versões em português não optaram por fazer o mesmo que a TNM aqui (ARA, ARC, ACF, BRP).

Isso exemplifica a situação do artigo grego na tradução: ora pode ser definido, indefinido ou correlato (sem artigo em ambos idiomas). Ou seja, a cada passo que damos no estudo da ausência do artigo comprovamos que Bergmann está correto quando disse: “sem artigo, um substantivo pode ser ou não ser indefinido, dependendo do contexto”. Mas, seria válido acrescer que, além do contexto, algumas características favorecem esse dilema, como já temos visto até aqui.

B. A questão da função

Esse é um caso de um pouco mais de complexidade do idioma grego, pois dependendo da função sintática de um substantivo, o grego não exige artigo, independendo da classe ou espécie do substantivo ou adjetivo.

1. Predicado

Quando um substantivo anarto exerce a função de predicado em uma frase ele normalmente não usa artigo. A.T. Robertson sobre isso diz: “Como regra o predicado não tem o artigo, mesmo quando o sujeito o usa[3]”. Essa é uma regra de identificação: ela não é sem exceções mais reposponde pela vasta maioria dos casos. Observe alguns exemplos:

Marcos 9:50

(GNT) Καλὸν τὸ λας· ἐὰν δὲ τὸ ἅλας ναλον γένηται, ἐν τίνι αὐτὸ ἀρτύσετε; ἔχετε ἐν ἑαυτοῖς ἅλας καὶ εἰρηνεύετε ἐν ἀλλήλοις.

(TNM) O sal é excelente; mas, se o sal perder a sua força, com que é que o temperareis? Tende sal em vós mesmos e mantende a paz entre vós.

Lucas 7:8

(GNT) καὶ γὰρ ἐγὼ νθρωπός εἰμι ὑπὸ ἐξουσίαν τασσόμενος, ἔχων ὑπ᾿ ἐμαυτὸν στρατιώτας, καὶ λέγω τούτῳ, πορεύθητι, καὶ πορεύεται, καὶ ἄλλῳ, ἔρχου, καὶ ἔρχεται, καὶ τῷ δούλῳ μου, ποίησον τοῦτο, καὶ ποιεῖ.

(TNM) Pois eu também sou homem sujeito à autoridade, tendo soldados sob as minhas ordens, e digo a este: ‘Vai!’ e ele vai, e a outro: ‘Vem!’ e ele vem, e ao meu escravo: ‘Faze isto!’ e ele o faz.”.

Esse é um caso interessantíssimo: A sentença em destaque no texto grego está toda no nominativo e o predicato está colocado antes do verbo (predicado nominativo pré-verbal –  também conhecido como PN – sobre ele estudaderemos oportunamente). Essa é uma construção interessante e a tradução mais acertada não é nem “o homem” ou “um homem”, mas como foi demonstrado aqui: “homem”, um caso de tradução correlata. Esse tipo de situação não é incomum no grego do NT: Um predicado nominativo pré-verbal é definido em aproximadamente 87% dos casos no NT[4], e correlato em vários outros casos. Ou seja, salvo ocasiões definidas por contexto a regra de A.T. Robertson é verdadeira. (Para outros casos, veja: Jo.1.14; 1Jo.4.16; Mt.13.39; Jo.17.17; Rm.7.7).

2. Equiparação

No grego, quando o autor deseja fazer completa correspondência entre dois substantivos, em uma sentença com verbos de ligação, normalmente ele o faz usando artigos com o sujeito e o predicativo do sujeito. Observe o exemplo abaixo:

Mateus 13:38

(GNT) ὁ δὲ ἀγρός ἐστιν ὁ κόσμος· τὸ δὲ καλὸν σπέρμα, οὗτοί εἰσιν οἱ υἱοὶ τῆς βασιλείας· τὰ δὲ ζιζάνιά εἰσιν οἱ υἱοὶ τοῦ πονηροῦ·

(TNM) o campo é o mundo; quanto à semente excelente, estes são os filhos do reino; mas o joio são os filhos do iníquo;

Nesse texto vemos um caso típico de completa correspondência: O campo é o mundo do mesmo modo que o mundo é o campo. Essa construção acontece quando é a intenção do autor de equivaler dois substantivos. Nesses casos, não faz qualquer diferença que substantivo é o sujeito ou o predicado (quando ambos estão no nominativo).

Esse tipo de situação nos serve para compreendermos que, embora o artigo não seja essencial para o discurso, sua presença em alguns casos denota extrema importância. Esse é o caso de uma sentença formada com verbos de ligação e dois substantivos nominativos, observe:

1João 4:8

(GNT) ὁ μὴ ἀγαπῶν οὐκ ἔγνω τὸν Θεόν, ὅτι ὁ Θεὸς ἀγάπη ἐστίν.

(TNM) Quem não amar[5], não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é amor.

Nesse verso temos, na sentença em destaque, dois substantivos nominativos em uma sentença com verbo de ligação. Diferente do português, a ordem das palavras não é fundamental para sua compreensão, assim a setença Deus é amor, foi escrita literalmente desse modo: “o Deus amor é”. Então, como sabemos qual substantivo é o sujeito e qual é o predicativo do sujeito nessa sentença em que ambos estão no nominativo? Normalmente, o predicado vem sem artigo e o sujeito é marcado pela presença dele. Assim, traduzir essa sentença como o Amor é Deus, é uma tradução equivocada. Ou seja, não há completa correspondência entre sujeito e predicativo do sujeito como aconteceu em Mt 13.38. Em casos similares a esses, o sujeito é o predicativo do sujeito, mas o inverso não é verdadeiro.

Existem diversos exemplos desses no NT, mas o conceito aqui apresentado nesse caso parece suficiente para nosso diálogo. Entretanto, vamos observar casos diferentes desses já apresentados:

Mateus 13:39

(GNT) [1] ὁ δὲ ἐχθρὸς ὁ σπείρας αὐτά ἐστιν ὁ διάβολος· [2] ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν· [3] οἱ δὲ θερισταὶ γγελοί εἰσιν.

(TNM) e o inimigo que o semeou é o Diabo. A colheita é a terminação dum sistema de coisas e os ceifeiros são os anjos.

Três sentenças interessantes sao apresentadas nesse verso. Observe que ns primeira a correspondência é completa: Tanto o inimigo é o Diabo quanto o inverso. A presença de artigos em ambos os substantivo no nominativo indicam isso. Já nas outras duas sentenças isso não ocorre. Ou seja, a terminação dum sistema de coisas não é a ceifa, por assim dizer, nem os ceifeiros sempre são anjos. Ou seja, nesse contexto, a ceifa representa a terminação dum sistema de coisas, mas não o é em essencia, do mesmo modo que nesse caso os anjos são ceifeiros, mas é certo que os ceifeiros não são angélicos em todos os casos.

Note que a TNM tornou indefinido o que o texto grego é claramente definido: “A colheita é a terminação dum sistema de coisas” (ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν). Fora a má tradução de αἰων[6], vemos que a TMN ignorou a presença do artigo definido no texto grego. Tal indefinição só pode ter sido acrescida aqui por motivos teológicos, pois não existem critérios semânticos, gramáticos ou contextuais que possam explicar esse fenômeno. O medo da verdadeira escatologia é certamente o motivo russelita dessa tradução.

O que vemos aqui é: que embora o artigo não seja essencial para o discurso (note que nem sempre é traduzido), em ocasiões como essas (sujeito e predicativo do sujeito nominativos em uma sentença com verbo de ligação) ele desempenha um papel sintático fundamental. Observe outro exemplo:

Marcos 7:26

(GNT) ἡ δὲ γυνὴ ν Ελληνίς, Συροφοινίκισσα τῷ γένει· καὶ ἠρώτα αὐτὸν ἵνα τὸ δαιμόνιον ἐκβάλῃ ἐκ τῆς θυγατρὸς αὐτῆς.

(PJFA) (ora, a mulher era grega, de origem siro-fenícia) e rogava-lhe que expulsasse de sua filha o demônio.

Em casos de completa equivalência, já vimos que tanto o sujeito como o predicativo do sujeito vem acompanhado de artigo. Entretanto, quando não é essa a intenção do autor, normalmente o predicado vem sem artigo, como no caso demonstrado acima. Nessas ocasiões a ausência de artigo é correspondente em grego e em português. A tradução dessa sentença, certamente não é “a mulher era uma grega” como se a ênfase fosse na indefinição, mas era grega de nacionalidade. Exemplos como esse também são comuns no NT e estes servem como exemplo do conceito apresentado.

3. Com Genitivo

Quando um substantivo é escrito no caso genitivo, normalmente ele não exige a presença do artigo mas a tradução a fará presente. Observe:

Mateus 16:18

(GNT) κἀγὼ δέ σοι λέγω ὅτι σὺ εἶ Πέτρος, καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν, καὶ πύλαι δου οὐ κατισχύσουσιν αὐτῆς.

(TNM) Também, eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta rocha construirei a minha congregação, e os portões do Hades não a vencerão.

Note que a inserção do artigo não é sempre necessária:

Atos 23:6

(GNT) Γνοὺς δὲ ὁ Παῦλος ὅτι τὸ ἓν μέρος ἐστὶ Σαδδουκαίων, τὸ δὲ ἕτερον Φαρισαίων, ἔκραξεν ἐν τῷ συνεδρίῳ· ἄνδρες ἀδελφοί, ἐγὼ Φαρισαῖός εἰμι, υἱὸς Φαρισαίου· περὶ ἐλπίδος καὶ ἀναστάσεως νεκρῶν ἐγὼ κρίνομαι.

(TNM) Ora, quando Paulo notou que uma parte era dos saduceus, mas a outra dos fariseus, passou a clamar no Sinédrio: “Homens, irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus. É por causa da esperança da ressurreição dos mortos que estou sendo julgado.

Veja outros exemplos (cf. 1Co.15.10; 1Ts.2.13; 1Co.10.21; At.13.10).

C. A questão das preposições

De alguma forma, as orações preposicionadas parecem não exigir a presença de um artigo definido. Observe:

Rom 2:23

(GNT) ὃς ἐν νόμῳ καυχᾶσαι, διὰ τῆς παραβάσεως τοῦ νόμου τὸν Θεὸν ἀτιμάζεις;

(TNM) Tu, que te orgulhas da lei, desonras a Deus pela tua transgressão da Lei?

Efésios 4:24

(GNT) καὶ ἐνδύσασθαι τὸν καινὸν ἄνθρωπον τὸν κατὰ Θεὸν κτισθέντα ἐν δικαιοσύνῃ καὶ ὁσιότητι τῆς ἀληθείας.

(TNM) e que vos deveis revestir da nova personalidade, que foi criada segundo a vontade de Deus, em verdadeira justiça e lealdade.

1Coríntios 11:34

(GNT) εἴ δέ τις πεινᾷ, ἐν οἴκῳ ἐσθιέτω, ἵνα μὴ εἰς κρίμα συνέρχησθε. Τὰ δὲ λοιπὰ ὡς ἂν ἔλθω διατάξομαι.

(TNM) Se alguém tiver fome, coma em casa, para que não vos reunais para julgamento. Mas os demais assuntos porei em ordem quando for aí.

Confira mais alguns exemplos abaixo com preposições específicas:

Ἀνὰ

1Coríntios 14:27

(GNT) εἴτε γλώσσῃ τις λαλεῖ, κατὰ δύο ἢ τὸ πλεῖστον τρεῖς, καὶ ἀνὰ μέρος, καὶ εἷς διερμηνευέτω·

(TNM) E, se alguém falar numa língua, seja isso limitado a dois ou no máximo três, e por turnos; e traduza alguém.

Ἀπο

Hebreus 12:25

(GNT) Βλέπετε μὴ παραιτήσησθε τὸν λαλοῦντα, εἰ γὰρ ἐκεῖνοι οὐκ ἔφυγον τὸν ἐπὶ τῆς γῆς παραιτησάμενοι χρηματίζοντα, πολλῷ μᾶλλον ἡμεῖς οἱ τὸν ἀπ᾿ οὐρανῶν ἀποστρεφόμενοι·

(TNM) Cuidai de que não vos escuseis daquele que está falando. Porque, se não escaparam aqueles que se escusaram daquele que dava aviso divino na terra, muito menos ainda nós, se nos desviarmos daquele que fala desde os céus

(cf. Mc.15.21; Mc.7.4; Lc.17.29).

Διὰ

Atos 5:19

(GNT) ἄγγελος δὲ Κυρίου διὰ νυκτὸς ἤν ἤνοιξε τὰς θύρας τῆς φυλακῆς, ἐξαγαγών τε αὐτοὺς εἶπε·

(TNM) Mas, durante a noite, o anjo de Jeová abriu as portas da prisão, trouxe-os para fora e disse

(cf. Lc.4.30; Lc.17.11)

Εἰς

1Pedro 3:22

(GNT) ὅς ἐστιν ἐν δεξιᾷ τοῦ Θεοῦ πορευθεὶς εἰς οὐρανόν, ὑποταγέντων αὐτῷ ἀγγέλων καὶ ἐξουσιῶν καὶ δυνάμεων.

(TNM) Ele está à direita de Deus, pois foi para o céu; e foram-lhe sujeitos anjos, e autoridades, e poderes.

(cf. At.2.27; Mc.16.12; Mt.17.27; Mc.3.20)

Ἐν

Colossenses 2:20

(GNT) Εἰ οὖν ἀπεθάνετε σὺν τῷ Χριστῷ ἀπὸ τῶν στοιχείων τοῦ κόσμου, τί ὡς ζῶντες ἐν κόσμῳ δογματίζεσθε,

(TNM) Se morrestes junto com Cristo para com as coisas elementares do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais ainda aos decretos

(cf. Mt.6.20; Hb.12.23; Lc.2.14; Hb.1.3; Lc.15.25)

Ἐξ

João 6:64

(GNT) ἀλλ᾿ εἰσὶν ἐξ ὑμῶν τινες οἳ οὐ πιστεύουσιν. ᾔδει γὰρ ἐξ ἀρχῆς ὁ ᾿Ιησοῦς τίνες εἰσὶν οἱ μὴ πιστεύοντες καὶ τίς ἐστιν ὁ παραδώσων αὐτόν.

(TNM) Mas, há alguns de vós que não crêem.” Pois Jesus sabia desde [o] princípio quem eram os que não criam e quem era o que o havia de trair.

(cf. 1Co.12.27; Ef.6.6; At.26.4; Mt.27.39)

Ἐως

Atos 28:23

(GNT) Ταξάμενοι δὲ αὐτῷ ἡμέραν ἧκον πρὸς αὐτὸν εἰς τὴν ξενίαν πλείονες, οἷς ἐξετίθετο διαμαρτυρόμενος τὴν βασιλείαν τοῦ Θεοῦ πείθων τε αὐτοὺς τὰ περὶ τοῦ ᾿Ιησοῦ ἀπό τε τοῦ νόμου Μωϋσέως καὶ τῶν προφητῶν ἀπὸ πρωῒ ως ἑσπέρας.

(TNM) Combinaram assim um dia com ele e vieram em maior número ter com ele na sua pousada. E ele lhes explicou o assunto por dar cabalmente testemunho a respeito do reino de Deus e por usar de persuasão para com eles concernente a Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos Profetas, de manhã até à noite

(cf. Mt.11.23; Mt.24.27; 1Co.1.8)

Ἐπὶ

Mateus 24:33

(GNT) οὕτω καὶ ὑμεῖς ὅταν ἴδητε πάντα ταῦτα, γινώσκετε ὅτι ἐγγύς ἐστιν ἐπὶ θύραις.

(TNM) Do mesmo modo, também, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo às portas

(cf. Lc.2.14; Lc.5.12)

Κατα

Gálatas 3:1

(GNT) ῏Ω ἀνόητοι Γαλάται, τίς ὑμᾶς ἐβάσκανε τῇ ἀληθείᾳ μὴ πείθεσθε, οἷς κατ᾿ ὀφθαλμοὺς ᾿Ιησοῦς Χριστὸς προεγράφη ἐν ὑμῖν ἐσταυρωμένος;

(TNM) insensatos gálatas! Quem é que vos submeteu à influência má, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi retratado abertamente como pregado numa estaca?

(cf. At.27.12; At.8.26; Hb.1.10; At.15.16)

Μέχρι

Atos 20:7

(GNT) ᾿Εν δὲ τῇ μιᾷ τῶν σαββάτων συνηγμένων τῶν μαθητῶν κλάσαι ἄρτον, ὁ Παῦλος διελέγετο αὐτοῖς, μέλλων ἐξιέναι τῇ ἐπαύριον, παρέτεινέ τε τὸν λόγον μέχρι μεσονυκτίου.

(TNM) No primeiro dia da semana, quando estávamos ajuntados para uma refeição, Paulo começou a dissertar para eles, visto que ia partir no dia seguinte; e ele prolongou as suas palavras até à meia-noite. Hb.3.6

Παρὰ

Atos 10:32

(GNT) πέμψον οὖν εἰς ᾿Ιόππην καὶ μετακάλεσαι Σίμωνα ὃς ἐπικαλεῖται Πέτρος· οὗτος ξενίζεται ἐν οἰκίᾳ Σίμωνος βυρσέως παρὰ θάλασσαν· ὃς παραγενόμενος λαλήσει σοι.

(TNM) Envia, portanto, a Jope e manda chamar Simão, que é cognominado Pedro. Este homem está sendo hospedado na casa de Simão, o curtidor, à beira do mar. (cf.At.16.13)

Περὶ

João 3.25

(GNT) ᾿Εγίνετο οὖν ζήτησις ἐκ τῶν μαθητῶν ᾿Ιωάννου μετὰ ᾿Ιουδαίου περὶ καθαρισμοῦ,

(TNM) Surgiu assim da parte dos discípulos de João uma disputa com um judeu, a respeito da purificação.

Πρὸ

Mateus 8:29

(GNT) καὶ ἰδοὺ ἔκραξαν λέγοντες· τί ἡμῖν καὶ σοί, ᾿Ιησοῦ υἱὲ τοῦ Θεοῦ; ἦλθες ὧδε πρὸ καιροῦ βασανίσαι ἡμᾶς;

(TNM) E eis que bradavam, dizendo: “Que temos nós contigo, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo designado?”

Πρὸς

1 João 5.16

(GNT) ᾿Εάν τις ἴδῃ τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ ἁμαρτάνοντα ἁμαρτίαν μὴ πρὸς θάνατον, αἰτήσει, καὶ δώσει αὐτῷ ζωήν, τοῖς ἁμαρτάνουσι μὴ πρὸς θάνατον. ἔστιν ἁμαρτία πρὸς θάνατον· οὐ περὶ ἐκείνης λέγω ἵνα ἐρωτήσῃ

(TNM) Se alguém avistar seu irmão cometendo um pecado que não incorre em morte, pedirá, e ele lhe dará vida, sim, aos que pecarem sem incorrer em morte. Há um pecado que incorre em morte. A respeito deste pecado não lhe digo que faça solicitação.

(cf. Lc.24.29)

Ὑπὸ

Lucas 17:24

(GNT) ὥσπερ γὰρ ἡ ἀστραπὴ ἀστράπτουσα ἐκ τῆς ὑπ᾿ οὐρανὸν εἰς τὴν ὑπ᾿ οὐρανὸν λάμπει, οὕτως ἔσται καὶ ὁ Υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐν τῇ ἡμέρᾳ αὐτοῦ.

(TNM) Pois assim como o relâmpago, com o seu lampejo, brilha duma parte sob o céu à outra parte sob o céu, assim será o Filho do homem

3. Conclusão

O que vimos até aqui é que a ausência de artigo não é um exercício arbitrário: existem considerações gramaticais que podem auxiliar a presença ou ausência do artigo na tradução. Vimos também que a idéia de que a ausência no texto grego não é sempre uma questão de indefinição, mas que dependendo do contexto, além de indefinido, pode ser correlato ou até mesmo definida.

Ou seja, considerando os usos anartros de θεος no NT e as observações sobre a ausência de artigo no grego neotestamentário, temos que manter a pergunta: Por que razão a TNM mantém o artigo indefinido na tradução de Jo.1.1c?


[1] ROBERTSON, A.T., A Short Grammar of the Greek New Testament. pp.68

[2] REGA, Lourenço, BERGMANN, Johannes, Noções do grego Bíblico, pp.72.

[3] ROBERTSON, A.T., A Grammar of the New Testament, pp.767.

[4] CARSON, D.A., A exegese e suas falácias. pp.80-1

[5] Observe a má tradução do particípio (presente, ativo, nominativo, masculino singular – ὁ ἀγαπῶν) e do verbo conhecer (3ª pes. Do singular, aoristo, indicativo, ativo – ἔγνω). O sentido não é alterado, mas é um claro exemplo de paráfrase.

[6] Observe que a sentença “ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν” foi traduzida como “A colheita é a terminação dum sistema de coisas”. A idéia de terminação não é distante do campo semântico de συντέλεια. Entretanto, “sistema de coisas” não é uma tradução aceitável para αἰων, que normalmente está relacionada a conceitos temporais. A ênfase no texto é claramente escatológica, mas teve de ser mascarada pela teologia malfadada dos russelitas (TJs).

11.05.09

A desonestidade da Brochura “Deve-se crer na Trindade?”

Enviado em Testemunha de Jeová tagged , , , às 10:14 am por Marcelo Berti

Há poucos dias navegando pela Internet encontrei acidentalmente um artigo que apresenta ponto por ponto como o material Testemunha de Jeová “Deve-se crer na Trindade” é desonesto.

Após lê-lo, imaginei que os leitores do Teologando seriam bem instruídos por esse documento e por essa razão o transcrevo aqui. O artigo foi traduzido por Emerson de Oliveira que cuida do site apologético:  LOGOS – Apologética Cristã.

Bom Proveito!

==================================

A desonestidade da Brochura “Deve-se Crer na Trindade?”

Por: Jehovah’s Witnesses: a critical analysis
Tradução: Emerson de Oliveira

En 1989 a Sociedade da Torre de Vigia (STV) publicou uma Brochura de 32 páginas chamada “Deve-se Crer na Trindade?”. O objetivo desta publicação era desacreditar a doutrina cristã da natureza triúna de Deus.
O método que a Sociedade usava para atingir esta meta era citar de uma pletora de recursos, seculares e religiosos, como os dicionários, enciclopédias, livros e literatura histórica escritos por autores individuais. De fato, na contracapa da revista Sentinela de 1 de outubro de 1990, tinha um anúncio para a brochura que alardeava que sua força estava na multidão de “evidências” contra a doutrina da Trindade.

É verdade que há uma grande abundância de citações na Brochura. Mas o que está brilhantemente ausente do leitor é qualquer detalhada notação de onde estas citações realmente vieram. Restava aos investigadores cavar nas páginas da Brochura e localizar as fontes originais das citações. O resultado de minha pesquisa individual é dado logo abaixo.

Depois de examinar a evidência, o leitor deveria se perguntar: “Por que um grupo religioso, que diz ser a organização de Deus, falsifica descaradamente as informações para refutar um ensino que eles consideram ser falso?”

——————-

p.4 – ENCICLOPÉDIA AMERICANA

Brochura: “a doutrina da Trindade é tida como estando “além da compreensão da razão humana.”
Fonte: a citação completa é:
“Sabe-se que EMBORA a doutrina está além da compreensão da razão humana, é, como muitas das fórmulas da ciência física, não contrária à razão, e pode ser aceita (apesar de não poder ser compreendida) pela mente humana.”

(Assim, a Enciclopédia está comparando os graus de percepção mental, apreensão X compreensão, e não diz que a doutrina é “contrária” à razão – mas que ela está ALÉM de nossa compreensão.)

Os escritores da Torre de Vigia também ignoraram uma declaração na mesma página da Enciclopédia que disputa a idéia que a doutrina de Trindade é pagã. Diz:
“Provavelmente é um erro pensar que a doutrina foi o resultado da intrusão de metafísicas ou filosofias gregas no pensamento cristão; pela data em que a doutrina se estabeleceu e também suas tentativas mais antigas de formulação, é muito mais antiga que o encontro da igreja com a filosofia grega.”

p.4 – A Dictionary of Religious Knowledge (Dicionário do Conhecimento Religioso)

Brochura: “Quanto a precisamente o que é essa doutrina, ou exatamente como deve ser explicada, os trinitaristas ainda não chegaram a um acordo.”
Fonte: Pouco antes desta declaração o livro diz:
“É certo, no entanto, que desde os tempos apostólicos eles prestaram culto ao Pai, Filho e Espírito Santo, dirigindo-se a eles em suas orações e os incluindo em suas doxologias.”

p.5 – O Novo Dicionário da Bíblia

Brochura: “A palavra ‘trindade’ não pode ser encontrada na Bíblia . . . não encontrou lugar formal na teologia da Igreja senão já no quarto século.”
Fonte: O dicionário adiciona estas três declarações:
(a) “Apesar de não ser uma doutrina bíblica no sentido que qualquer formula dela possa ser encontrada na Bíblia, pode ser vista por estar sob a revelação de Deus, implícita no Velho Testamento e explícita no Novo Testamento. Por isto queremos dizer que, apesar de não podermos falar confiantemente da revelação da Trindade no Velho Testamento, há uma  substância revelada da doutrina no Novo Testamento e podemos ler muitas implicações dela no Velho Testamento”.
(b) “Até mesmo nas páginas iniciais do Velho Testamento somos ensinados atribuir a evidência e origem de todas as coisas a uma tripla fonte (não 3 fontes separadas).
(c) “por via de contraste temos que lembrar que o Velho Testamento foi escrito antes da revelação da doutrina da Trindade ser claramente demonstrada no Novo Testamento”.

p.6 – Nova Enciclopédia Católica

Brochura: “A doutrina da Santíssima Trindade não é ensinada no V[elho] T[estamento].”
Fonte: “No Novo Testamento a evidência mais antiga está nas epístolas paulinas…”
“Em muitos lugares do Velho Testamento, porém, são usadas expressões nas quais alguns dos Pais da Igreja viram referências da Trindade”.

p.6 -  EDMUND FORTMANN – “THE TRIUNE GOD” (O Deus Triúno)

Brochura: “O Velho Testamento não diz nada explicitamente ou por implicação de um Deus triúno que é Pai, Filho e Espírito Santo…não há nenhuma evidência que qualquer escritor sagrado escritor inclusive suspeitou da existência de uma [Trindade] dentro da Divindade…”
Fonte: Pouco antes desta declaração o livro diz:
“Como sacerdote católico e um crente firme no Deus Triúno…e convencido que a doutrina é uma doutrina cristã que se originou e só poderia ter se originado da revelação divina, começarei o estudo do registro autêntico da revelação divina que se encontra nas Sagradas Escrituras do Velho e Novo Testamento.”

p.6 – A Short History of Christian Doctrine (Breve História da Doutrina Cristã):

Brochura: “No que tange ao Novo Testamento, não se encontra nele uma real doutrina da Trindade.”
Fonte: No entanto, o artigo continua na p.38 e p. 39:
“Em outras passagens do Novo Testamento o predicado ‘Deus’ é sem dúvida aplicado a Cristo. Os cristãos expressaram sua fé que não foi meramente algum ser celestial que eles encontraram em Jesus Cristo, mas próprio Deus.”

 

OS PAIS PRÉ-NICENOS

Na página 7, sob o título “O Que os Pais Pré-Nicéia Ensinaram”, a Brochura diz isto sobre estes grandes homens:
“OS PAIS Pré-Nicéia são reconhecidos como tendo sido destacados instrutores religiosos dos primeiros séculos após o nascimento de Cristo. O que eles ensinaram é de interesse”.

Assim, parece que a STV considera os escritos dos Pais representantes válidos do que a Igreja cristã primitiva acreditava. O que eles REALMENTE ensinaram é de interesse.

JUSTINO MÁRTIR

Brochura: Justino, o Mártir, falecido por volta de 165 EC, chamou o pré-humano Jesus de um anjo criado que “não é o mesmo que Deus, que fez todas as coisas”. Ele disse que Jesus era inferior a Deus e “nunca fez nada exceto o que o Criador . . . queria que ele fizesse e dissesse.

(Note que as palavras anjo criado e inferior a Deus não estão com aspas. Isto é porque estas palavras NÃO estão em qualquer escrito de Justino).
O que Justino realmente disse sobre a divindade de Cristo e a Trindade:

Fontes: Primeira Apologia; Diálogo com Trifão

Citações:
“O Pai do Universo tem um Filho, que também sendo a primera Palavra gerada de Deus, é igual a Deus”. – Primera Apologia, cap. 63

“Cristo é chamado de Deus e Senhor das hostes.” -  Diálogo com Trifão. cap.36

[Trifão a Justino]” …vós dizeis que este Cristo existiu como Deus antes de todos os tempos e que Ele o fez nascer e se tornar homem” – Diálogo com Trifão, cap. 48

Justino cita Hb. 1:8 para demostrar a Divindade de Cristo. “Teu trono, ó Deus, é para sempre e sempre” – Diálogo com Trifão, cap. 56
(Note que a TNM alterou a leitura deste versículo também)

“Portanto estas palavras testificam explícitamente que Ele (Cristo) é testemunhado por aquele que estabeleceu estas coisas, como merecedor de ser adorado, como Deus e como Cristo”. – Diálogo com Trifão, cap. 63

Justino declarou a Trifão “pois se vós tivésseis entendido o que foi escrito pelos profetas, não teríeis negado que Ele fosse Deus”.  Diálogo com Trifão, cap. 63
“O Pai da retidão…e o Filho que veio Dele…e o Espírito profético, nós rendemos culto e adoramos”.  – Primera Apologia. 6
compare com:
“Só Deus deve ser adorado”. – Primeira Apologia, caps. 16,17

IRINEU

Brochura: Irineu, falecido por volta de 200 EC, disse que o pré-humano Jesus tivera uma existência distinta de Deus e que era inferior a este. Ele mostrou que Jesus não é igual ao “Um só verdadeiro e único Deus”, que “é supremo sobre todos, à parte de quem não há outro”.

(Preste atenção de novo nas palavras que estão com aspas e nas que não estão)

Fontes: Refutação de Todas as Heresias

Citações:
(Citando Jo.1.1) “‘…e o Verbo era Deus’, é claro, pois o que se gera de Deus é Deus.” – livro I, cap. 8, sec. 5

“Cristo Jesus é nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei.” – livro I, cap. 10, sec. 1,

“Mas o Filho, co-existindo eternamente com o Pai, desde o princípio, sempre revela o Pai aos anjos, arcanjos, poderes, virtudes…”  -  livro II, cap. 30, sec. 9,
[Se Jesus pre-existisse como um arcanjo, então como revelar Ele a Ele mesmo?]

“As provas das escrituras Apostólicas, que Jesus Cristo foi um e o mesmo, o único Filho Unigênito de Deus, Deus perfeito e homem perfeito.” – livro III, cap. 16 [o Título do capítulo]

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Brochura: Clemente de Alexandria, falecido por volta de 215 EC, chamou Deus de “o incriado e imperecível Deus e único Deus verdadeiro”. Disse que o Filho “vem logo depois do único Pai onipotente”, mas não é igual a ele.

(As frases entre aspas são muito poucas para encontrarmos suas posições nos escritos patrísticos. Mas Clemente nunca fez as afirmações que a Sociedade sugere).

Fontes: Exortação aos Pagãos; O Pedagogo; Fragmentos De Cassiodoro; Protréptico

Citações:
“O Verbo Divino, Ele que é verdadeiramente a Divindade manifesta, Ele que é igual ao Senhor do Universo…” – Exortação, cap. 10

“O Filho de Deus que é igual em substância, um com o Pai, é eterno e incriado”. -  Fragmentos, parte III, i,1,

“Este Filho Jesus, o Verbo de Deus, é nosso Pedagogo. Ele é Deus e Criador.” – O Pedagogo, cap. 11

“O Verbo, o Cristo, estava em Deus. Ele só é Deus e homem. Ele é adorado como o Deus vivo. Ele verdadeiramente é Deus manifestado.” – Protréptico, i, x,

TERTULIANO

Brochura: Tertuliano, falecido por volta de 230 EC, ensinou a supremacia de Deus. Disse ele: “O Pai é diferente do Filho (outra pessoa), uma vez que é maior; assim como quem gera é diferente de quem é gerado; quem envia, diferente de quem é enviado.” Ele disse também: “Houve tempo em que o Filho não existia. . . . Antes de todas as coisas virem a existir, Deus estava sozinho.”.

[A Torre de Vigia afirma que Tertuliano disse: "Houve tempo em que o Filho não existia. . . . Antes de todas as coisas virem a existir, Deus estava sozinho". Na verdade, a frase: "Houve um tempo quando o Filho não existia" não é do próprio Tertuliano, mas uma expressão usada por um estudioso em seus escritos sobre Tertuliano. (Pais Pré-Nicéia, Vol.3, p.629)
A frase "Antes de todas as coisas virem a existir, Deus estava sozinho" aparece em uma obra totalmente diferente na qual Tertuliano diz que a Palavra existiu eternamente ao lado de Deus e era igual a Ele. (Pais Pré-Nicéia, Vol. 3, pp.600-601) Todos os Pais da Igreja acreditaram que a Palavra Eterna não se tornou Filho até a encarnação. Ele nunca foi chamado de Filho antes disso exceto em um sentido profético.]

Fontes: Contra Praxéias

Citações:
“Sempre acreditamos em um Deus, identificado como o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Todos são um pela unidade de substância que dispõe a unidade em uma Trindade …igual em qualidade, substância e poder [não três qualidades, substâncias e poderes]” – Contra Praxéias, cap. 2

“Pois antes de todas as coisas virem a existir Deus, estava sozinho, mas não tão só porque Ele tinha com Ele algo que possuia, sua própria Razão…que os gregos chamam de ‘Logos’ que é designado ‘Palavra’. – Contra Praxéias, ch. 5

“Todas as Escrituras dão prova clara da Trindade, e são destas de onde é deduzido nosso princípio…que a Trindade é claramente mostrada” – Contra Praxéias, cap. 11

“[Deus fala no plural 'façamos o homem a nossa imagem'] porque já ali se atou a Seu Filho, ma segunda pessoa, sua própria Palavra e um terceiro, o Espírito na Palavra…a substância de um em três pessoas coerentes. Eles eram o Pai, o Filho e o Espírito”. – Contra Praxéias, cap. 12

“O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito é Deus. Cada um é Deus. Todavia nós nunca temos dado abertura às frases ‘dois deuses ou dois senhores’”.  – Contra Praxéias, cap. 13

HIPÓLITO

Brochura: Hipólito, falecido por volta de 235 EC, disse que Deus é “o Deus uno, o primeiro e o Único, o Fazedor e Senhor de tudo”, que “nada tinha de coevo [contemporâneo] com ele . . . Mas ele era Um Só, sozinho; que, querendo-o, trouxe à existência o que não existia antes”, como o pré-humano Jesus, que foi criado.

[A descrição "o pré-humano Jesus" não está com aspas porque não está em nenhum escrito de Hipólito]

Fontes: Refutação de Todas as Heresias; Contra Noeto

Citações:
“Aquele que é sobre todos, Deus bendito, nasceu e se fez homem. Ele é para sempre Deus. Por este motivo João (Ap. 1.8) chamou Cristo de Todo-Poderoso”. – Contra Noeto, parte 6

“Deus, enquanto existia exclusivamente antes da criação do mundo, existiu em pluralidade”. – Contra Noeto, parte 10

“Segundo a tradição dos Apóstolos, Deus o Verbo desceu do céu…entrou no mundo e, em corpo, se mostrou ser Deus”. – Contra Noeto, Parta 17

“Só o Verbo é De Si mesmo e é por consiguinte também Deus e tem a substância de Deus”. – Refutação 10:33

“Pois Cristo é Deus sobre todos…” – Refutação 10: 34

ORÍGENES

Brochura: Orígenes, falecido por volta de 250 EC, disse que “o Pai e o Filho são duas substâncias . . . duas coisas quanto à sua essência”, e que “comparado com o Pai, [o Filho] é uma luz pequenina”.

[Orígenes aceitou a doutrina cristã ortodoxa até cair na influência de Luciano. Depois, Orígenes ensinou uma "unidade genérica" e não numérica, quer dizer, que ele cria que eles eram da mesma substância mas eram separados e que o Filho era um ser subordinado. Isto abriu caminho para o arianismo que mais tarde ensinou que o Filho foi criado]

Fontes: Contra Celso; Dos Princípios; Comentários sobre João

Citações:
“O Salvador às vezes concernente a si como um homem e ás vezes como uma natureza humana mais divina, uma natureza que é uma com a natureza incriada do Pai”  – Comentários sobre João, xix 2

“Ele quem nós cremos ser Deus e o Filho de Deus do princípio…”  - Contra Celso, iii 41

“As Sagradas Escrituras mostram que o Filho de Deus é mais antigo que todas as coisas criadas”. – Contra Celso, V, 37,

“Não deve haver nenhuma questão de mais ou de menos na Trindade” . – Dos Princípios, i, iii, 7,

No livro “O Deus Triúno”, de Edmund Fortmann, que é citado na Brochura, diz de Orígenes: “Orígenes é trinitário em suas idéias” (p.58).

CONCLUSÃO

Todos estes homens viveram e morreram nos séc. II e III e ensinaram que Deus era um Deus triúno, apesar da Sociedade Torre de Vigia declarar na página 8 da brochura que a doutrina não foi formulada até o século IV.
Você acredita que a Bíblia foi inspirada por Deus? Os Pais da Igreja eram os homens que determinaram o que era canônico (inspirado) e o que não era. Dos primeiros 200 anos da igreja, estes mesmos homens escreveram sobre a Divindade de Cristo, a personalidade do Espírito Santo, a completa ressurreição de Cristo (e nossa), a natureza da alma, inferno e castigo eterno. Assim, como você pode concordar que a Bíblia foi inspirada mas rejeita os mesmos homens cujas existência e escritos foram necessários para estabelecer a autenticidade destes livros bíblicos?

A Sentinela disse melhor isto quando enfatizou:

“Mentir é repugnante a Jeová. Eles não terão lugar no novo mundo de Deus. Uma religião que ensina mentiras não pode ser verdadeira“.

Sentinela, 15 de agosto de 1991, p.22 e Sentinela, 1 de dezembro de 1991, pág. 7

10.24.09

Usos anartros de θεος no Novo Testamento

Enviado em Testemunha de Jeová tagged , , , , às 4:51 pm por Marcelo Berti

Em grego, a palavra artigo é “αρθρον” (artron). Portanto, “anartro” é a designição para uma palavra desacompanhada de artigo. Nesse artigo iremos observar os usos anartros de θεος no Novo Testamento. A intenção é notar os modos como esse substantivo é usado sem artigo para verificar se a acusação dos Testemunhas de Jeová sobre o uso anartro em Jo1.1c é verdadeira.

A acusação é simples: Como em Jo.1.1c (e o Verbo era Deus – TNM) João usa o substantivo θεος sem artigo ele não estaria fazendo indicação de que o Logos é Deus, e portanto o traduzem como um deus. Para sustentar essa opinião afirmam que sempre que o substativo θεος é usado sem artigo ele não faz referência ao Deus Pai, ou a Jeová como eles preferem dizer.

A questão, portanto, é: O Novo Testamento suporta essa visão? Todos os usos anartros de θεος não são referências a Deus? Isso é mesmo verdadeiro? É isso que vamos verificar.

No Novo Testamento o substativo θεος é usado cerca de 1319 vezes sendo que aproximadamente 283 vezes ele acontece sem artigo. É interessante notar que apenas em 16 ocasiões a TNM traduz o termo ou de modo indefinido, qualitativo ou plural. Ou seja, em apenas seis porcento das vezes a TNM é fiel ao princípio que defende em Jo.1.1.

Se observado atentamente, notar-se-á que o substantivo θεος anartro no Novo Testamento é usado de quatro modos diferentes: (1) Quando uma clara relação de contraste entre o que é humano, terreno, e o que é divino celestial; (2) quando a expressão está na boca de um não cristão ou um judeu (3) quando uma qualidade ou atributo de Deus é anunciado; (4) quando usa-se o termo como nome próprio. Há largas evidências dessas distinções no Novo Testamento e abaixo, consideraremos alguns desses casos.

1. Relação de Contraste

Quando a divindade é contrastada com o que é humano, ou com o universo como distinto do Seu Criador, ou com a natureza ou com os atos dos espíritos malignos o Novo Testamento pode empregar o substantivo θεος anartro.

Um exemplo bem interessante desse tipo de uso no NT é encontrado em Rm.8.7-9:

Rom 8:7-8: “διότι τὸ φρόνημα τῆς σαρκὸς ἔχθρα εἰς Θεόν· τῷ γὰρ νόμῳ τοῦ Θεοῦ οὐχ ὑποτάσσεται· οὐδὲ γὰρ δύναται· οἱ δὲ ἐν σαρκὶ ὄντες Θεῷ ἀρέσαι οὐ δύνανται”

A TNM assim verte o texto: “por que a mentalidade segundo a carne significa inimizado com Deus, visto que não está em sujeição a Deus, de fato, nem pode estar. De modo que os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus[1].

Nesse caso notamos que a distinção entre o que é de Deus e humano é tão clara que poderia-se dizer que o artigo não é necessário. Mais interessante do que isso é que a TNM entende que, mesmo anartro, θεος aqui é uma referência a Deus Pai (Jeová para eles).

Vamos observar um outro caso onde isso é evidente:

Mateus 4.4

(GNT) ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπε· γέγραπται, οὐκ ἐπ᾿ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ἄνθρωπος, ἀλλ᾿ ἐπὶ παντὶ ῥήματι ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος Θεοῦ.

(TNM) Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová[2]

Esse verso é especial, pois Jeová é a tradução de θεος anartro. Não há dúvidas que a TNM entende que esse uso anarto é uma referência a Deus Pai. Esse tipo de ocasião acontece diversas vezes no NT, confira: Mt.6.24; 19.26; Lc.12.21; At,5.29; Rm 9.5; 1Co.10.20.

2. Voz de judeus e pagãos

Quando não cristãos falam de Deus, isso pode acontece sem artigo. Se observarmos as ocasiões em que um não cristão não judeu usa o termo θεος veremos que ele o faz sem artigo. Observe:

Act 12:22

(GNT) ὁ δὲ δῆμος ἐπεφώνει· Θεοῦ φωνὴ καὶ οὐκ ἀνθρώπου.

(TNM) O povo reunido por sua vez, começou a gritar: A voz de um deus e não de homem.

Esse é um caso interessante: A multidão aclama Herodes deus enquanto está ascentado na cadeira do juiz, fazendo discurso publico. É bem provável que alguns judeus fizessem parte dessa multidão, até por que Flávio Josefo descreve que alguns dos judeus tinha essa percepção sobre Herodes:

“E seus bajuladores gritaram, um de um lugar, e outro de outro (embora não no que é bom), que ele era um deus, e acrescentou: “Sê misericordioso para nós, porque embora tenhamos ti até reverenciado apenas como um rei, ainda vamos doravante ti próprio como superior à natureza mortal

Mas, eu gostaria de charmar sua atenção para o fato de que tanto θεος quanto ἄνθρωπος estão sem artigo, mas são traduzidos de modo diferente pela TNM. Não haveria qualquer demérito em dizer um homem, mas é ao menos interessante que essa tradução evitasse usar um modo de tradução que para eles é tão fundamental em Jo.1.1.

Em outras ocasiões, os apóstolos são confundidos com divindades gentílicas após realizarem alguns atos que os não cristãos não judeus não teriam entendido. Observe:

Act 28:6

(GNT) οἱ δὲ προσεδόκων αὐτὸν μέλλειν πίμπρασθαι ἢ καταπίπτειν ἄφνω νεκρόν. ἐπὶ πολὺ δὲ αὐτῶν προσδοκώντων καὶ θεωρούντων μηδὲν ἄτοπον εἰς αὐτὸν γινόμενον, μεταβαλόμενοι ἔλεγον Θεόν αὐτὸν εἶναι.

(TNM) Mas eles esperavam que fosse inchar com uma inflamação ou cair repentinamente morto. Depois de terem esperado por muito tempo e terem observado que nada nocivo lhe acontecia, mudaram de idéia e começaram a dizer que ele era um deus

Essa é uma declaração interessante: diante de uma crença politeísta, alguém afirmar que uma pessoa é um deus não é contraditória com sua própria crença. A situação a que Paulo havia sido exposto na ocasição, fez com que aqueles não cristãos que não tinham um pano de fundo judaico ou monoteísta pensassem que Paulo era uma divindade na terra. Essa não era a primeira ocasião que isso acontecia com Paulo:

Atos 14:11

(GNT) οἱ δὲ ὄχλοι ἰδόντες ὃ ἐποίησεν ὁ Παῦλος ἐπῆραν τὴν φωνὴν αὐτῶν Λυκαονιστὶ λέγοντες· οἱ θεοὶ ὁμοιωθέντες ἀνθρώποις κατέβησαν πρὸς ἡμᾶς·

(TNM) E as multidões, vendo o que Paulo tinha feito, elevaram suas vozes, dizendo na língua licaônica: Os deuses tornaram-se iguais a humanos e desceram a nós.

É bem interessante que nesse caso o texto grego ofereça o artigo definido para descrevê-los. Sabe-se que diante do panteão gentílico, Zeus e Hermens não eram os únicos deuses e portanto o artigo definido aqui não é um modo de apresentar a exclusividade desses dois deuses.

Considerando essas situações é observável que para gentios, a idéia de um deus entre muitos não é nem um pouco problemática e parece que era isso que eles estavam vendo em ambas as ocasiões cf. At.5.39; 17.23).

Contudo, temos que considerar com mais cautela quando vemos a declaração de um judeu a usar o vocábulo θεος anartro. Em algumas ocasiões a presença de Jesus entre os judeus dividiam as opiniões, observe:

João 9:16

(GNT) ἔλεγον οὖν ἐκ τῶν Φαρισαίων τινές· οὗτος ὁ ἄνθρωπος οὐκ ἔστι παρὰ Θεοῦ, ὅτι τὸ σάββατον οὐ τηρεῖ. ἄλλοι ἔλεγον· πῶς δύναται ἄνθρωπος ἁμαρτωλὸς τοιαῦτα σημεῖα ποιεῖν; καὶ σχίσμα ἦν ἐν αὐτοῖς.

(TNM) Portanto, alguns dos fariseus começaram a dizer: Este homem não é de Deus por que não observa o sábado. Outros começaram a dizer: Como pode um homem, que é pecador, realizar sinais desta sorte. De modo que havia uma divisão entre eles.

A visão que os judeus tinham a seu respeito era clara: ele era um homem. Entretanto, os religiosos o viam como alguém que não era de Deus, pelo fato de que, do ponto de vista deles, Jesus não guardava o sábado. Contudo, alguns, vendo o que ele fazia não poderiam acreditar que um homem pecador pudesse realizar o que Ele realizava.

É interessante nesse caso que embora o texto traga o verbete θεος anartro, é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Como monoteístas não faria sentido aos judeus imaginar que Jesus não era de alguma divindade pagã, mas o texto teria todo sentido se falasse de Jeová. O fato de θεος estar sem artigo não desmerece a referência a Deus feita nesse verso (cf. Jo.9.24).

É por isso, que pouco à frente no texto vemos um uso interessante do mesmo vocábulo:

João 10:33

(GNT) ἀπεκρίθησαν αὐτῷ οἱ ᾿Ιουδαῖοι λέγοντες· περὶ καλοῦ ἔργου οὐ λιθάζομέν σε, ἀλλὰ περὶ βλασφημίας, καὶ ὅτι σὺ ἄνθρωπος ὢν ποιεῖς σεαυτὸν Θεόν.

(TNM) Os judeus responderam-lhe: Nós te apedrejamos, não por uma obra excelente, mas por blasfêmia, sim, por que tu, embora sejas homem, te fazes deus.

Nesse texto temos que fazer algumas observações:

  1. Embora o substantivo θεος esteja desacompanhado de artigo, os tradutores não ousaram verter esse texto com o acréscimo do artigo indefinido. É válido dizer que o acréscimo desse artigo indefinido seria interessante para o argumento cristológico TJ: Por não ser igual a Deus, Jesus fazia-se igual a um deus. Contudo, essa expressão não caberia na boca dos judeus que argumentavam contra Jesus.
  2. Ou seja, uma vez que o texto não pode dizer “um deus”, por que os tradutores não usaram a expressão: “Jeová”, ou ao menos o D maiúsculo na palavra deus? Faria muito mais sentido se o texto dissesse que os judeus estavam a apedrejar Jesus pelo fato de ele estar se fazendo igual ao Deus de Israel, Jeová. Aliás, é isso o que o texto diz, mas não é essa a impressão que a TNM transmite ao texto. Esse é mais um caso onde a teologia TJ coordena a tradução de modo pernicioso: Ela até traduz de modo correto, mas não pode atribuir uma letra maiúscula ao termo Deus, pois isso poderia por em risco sua teologia.
  3. Mas, a grande questão aqui é: Quem os judeus tinham em mente? Será que uma espécie de deus intermediário? Não parece esse o motivo do ódio contra Jesus. Eles buscavam o apedrejar por blasfêmia, ou seja, a busca de igualdade com Deus.

O fato observado nesse texto é a confusão que Jesus estava a causar entre os judeus: Eles tinham convicção que Ele era humano, mas suas alegações de igualdade com Deus (que eram entendidas assim) o faziam parecer um blasfemo. É interessante notar que um judeu no primeiro século poderia entender perfeitamente as alegações de Jesus. O fato apresentado nesse texto não é a incapacidade de compreender, mas de aceitar.

3. Uso como nome próprio ou título

Quando o substantivo Deus é usado como um nome, o autor pode usá-lo sem artigo. Isso acontece extensivamente no NT. Esse uso pode ser feito em referência a Cristo e aos cristãos. Abaixo transcrevo algumas ocasiões em que esse tipo de uso diz respeito a cristãos:

Mateus 5.9

(GNT) μακάριοι οἱ εἰρηνοποιοί, ὅτι αὐτοὶ υἱοὶ Θεοῦ κληθήσονται.

(TNM) Felizes os pacíficos, por que serão chamados filhos de Deus

João 1:12

(GNT) ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτόν, ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα Θεοῦ γενέσθαι, τοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ,

(TNM) No entanto, a tantos quantos o receberam, a estes deu autoridade para se tornarem filhos de Deus, por que exerciam fé no seu nome

Romanos 8:14

(GNT) ὅσοι γὰρ Πνεύματι Θεοῦ ἄγονται, οὗτοι εἰσιν υἱοὶ Θεοῦ.

(TNM) Pois todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus.

Vários são os textos desse tipo no NT, e com esses não vamos nos ocupar, pois está claro que, embora seja anartro o uso de , a referência é a Deus Pai (Jeová). Vamos concentrar nossa atenção às ocasiões em que expressões desse tipo se referem ou a Jesus Cristo ou a Deus:

Mateus 14:33

(GNT) οἱ δὲ ἐν τῷ πλοίῳ ελθόντες προσεκύνησαν αὐτῷ λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς εἶ.

(TNM) Então os que estavam no barco prestaram-no homenagem, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.

Esse é um daqueles casos interessantes: (1) O que os discípulos tinham em mente ao chamarem Jesus de Filho de Deus? (2) O que significa a expressão “προσκυνεω”?

De fato, a resposta da primeira repousa na resposta da segunda. O conceito προσκυνεω de tem sido debatido entre cristãos e TJs por algum tempo já. Normalmente, os TJs que tem acesso a léxicos citam que essa expressão era comum entre povos orientais de respeito. De fato, o Thayer`s Greek Lexicon apresenta essa opção para o termo. Entretanto, esse não era o único modo como esse termo era entendido. O léxico Lidell-Scott também apresenta diversas ocasiões onde esse termo é usado fora do NT para descrever a adoração a divindades pagãs, inclusive, ele apresenta ocasiões onde isso é realizado em adoração a lugres sagrados. O Louw-Nida acredita que o termo seja usado no NT em referência a atitude de alguém diante de um divindade em adoração, veneração. É interessante notar que em diversas ocasiões é exatamente esse o sentido auferido pelo termo. Observe:

Atos 7:43

(GNT) καὶ ἀνελάβετε τὴν σκηνὴν τοῦ Μολὸχ καὶ τὸ ἄστρον τοῦ Θεοῦ ὑμῶν ῾Ρεμφάν, τοὺς τύπους οὓς ἐποιήσατε προσκυνεῖν αὐτοῖς· καὶ μετοικιῶ ὑμᾶς ἐπέκεινα Βαβυλῶνος.

(TNM).Mas, acolheste para vós a tende de Moloque e a estrela do deus Refã, as figuras que fizestes para adorá-las. Consquentemente, eu vos deportarei para além da Babilônia.

É interessante que um judeu usasse a o termo “προσκυνεω” para descrever a idolatria de seu povo. Mais interessante é que ele está a citar Amós 5.25-26 como descrição dessa idolatria. Ou seja, quando esse termo era usado para descrever o ato de prostrar-se ante idolos, o sentido é claramente o de adoração. Entretanto, é válido observar outros dois exemplos:

Mateus 4:9

(GNT) καὶ λέγει αὐτῷ· ταῦτά πάντα σοι δώσω, ἐὰν πεσὼν προσκυνήσῃς μοι.

(TNM) e disse-lhe: Todas estas coisas te darei se te prostrares e me fizeres um ato de adoração

Nesse verso vemos dois termos interessantes: prostar e adorar. A palavra que descreve o ato de colocar-se de joelhos perante alguém (prostrar) é “πιπτω” e adorar é a palavra “προσκυνεω”. Ou seja, o grego tem mais de uma palavra para descrever o ato de reverência perante uma pessoa. Por isso, é interessante que “προσκυνεω” tenha sido usado aqui apenas em referência à adoração que Satanás esperava receber de Jesus Cristo.

Esse é um momento oportuno para perguntar se Satanás queria mesmo uma adoração. Seguindo o modo de raciocínio TJ, o uso desse termo significaria apenas o ato de reverenciar, ou de prestar homenagem a Satanás. Contudo, a resposta de Jesus demonstra exatamente o contrário:

Mateus 4:10

(GNT) τότε λέγει αὐτῷ ὁ ᾿Ιησοῦς· ὕπαγε, Σατανᾶ· γέγραπται γάρ, Κύριον τὸν Θεόν σου προσκυνήσεις καὶ αὐτῷ μόνῳ λατρεύσεις.

(TNM) Jesus disse-lhe então: Vai-te Satanás! Pois está escrito: É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.

Muito interessante nesse texto é que Jesus entende a proposta de Satanás como uma violação de Deuteronomio 6.13. A proposta era adoração como reconhecimento de Divindade, como merecedor de prostrar-se para cultuar.

Agora a pergunta, por que que a reação dos discípulos ao προσεκύνησαν (adorar) a Jesus, a TNM traduziu como “prestar homenagem[3]? Certamente por que não podem admitir que Cristo possa receber adoração.

O que temos a dizer do texto de Mt.14.33, quando os discípulos o chamaram de Filho de Deus? Que os discípulos o adoraram por reconhecer sua Divindade e a expressão Filho de Deus é a confirmação desse fato.

É importante demosntrar que essa não é a única ocasião em que isso acontecem em referência a Cristo. Observe alguns textos:

Mateus 27:54 (cf. Mc.14.39)

(GNT) ῾Ο δὲ ἑκατόνταρχος καὶ οἱ μετ᾿ αὐτοῦ τηροῦντες τὸν ᾿Ιησοῦν, ἰδόντες τὸν σεισμὸν καὶ τὰ γενόμενα ἐφοβήθησαν σφόδρα λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς ἦν οὗτος.

(TNM) Mas o oficial do exército e os que estavam com ele vigiavam sobre Jesus, quando viram o terremoto e as coisas que aconteciam, ficaram com muito medo, dizendo: Este certamente era o Filho de Deus

Lucas 1:35

(GNT) καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ· Πνεῦμα ῞Αγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ, καὶ δύναμις ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται υἱὸς Θεοῦ.

(TNM) O anjo disse-lhe em resposta: Espirito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te encobrirá. Por esta razão, também, o nascido será chamado santo, Filho de Deus.

João 1:18

(GNT) Θεὸν οὐδεὶς ἑώρακε πώποτε· μονογενὴς θεος ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρὸς, ἐκεῖνος ἐξηγήσατο.

(TNM) Nenhum homem jamais viu a Deus; o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado.

Embora muitos outros exemplos pudessem ser demontrados, esses são suficientes. Os dois primeiros refletem o que já temos demonstrado. Entretanto, o último verso merece nosso atenção por dois motivos: (1) O termo θεος é anartro quando está em referência a Deus Pai (Jeová) e (2) é anartro em referência ao Filho.

Não há qualquer dúvida de que o Deus Pai é mencionado no início do verso, aliás, o texto mostra claramente que o Filho é quem explica (apresenta, demosntra) o Pai. A questão é como entender o título μονογενὴς θεος oferecido a Cristo.

Como já tenho escrevido largamente sobre o assunto, recomento ao leitor visitar o artigo “O que dizer do problema textual de Jo.1.18?”. Mas, ainda vale uma resposta a pergunta acima mencionada: μονογενὴς θεος é o modo pelo qual João apresenta a divindade do Filho, o chamando claramente de Deus. Isso é tão evidente que a TNM traz um artigo definido para identificá-lo, entretanto, o faz em letra minúscula, pois não pode admitir que o texto diga que Jesus é Deus.

O termo μονογενὴς enfatiza a singularidade de Cristo de modo que só Ele é Filho de Deus como Ele é. Ele é o único em sua espécie, o mais amado dentre todos: Por que ele é θεος.

Como é bem evidente até aqui, o uso anartro de θεος não diz muito sobre como o texto deve ser entendido. Existem diversos outros exemplos desse tipo de uso do termo no NT e o leitor fará bem se os conhecer. (Algumas ocorrencias: Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16… etc)

4. Descrição da divindade

Em muitas ocasiões no NT quandos os autores tem a intenção de qualificar, ou seja atribuir qualidades a Deus, eles podem fazê-lo com o substantivo θεος anartro. Esse uso é frequente em Paulo e o NT é repleto desse tipo de uso.

Só no primeiro capítulo de Romanos, Paulo faz sete (Rm.1.1, 7, 16, 17, 18, 23) usos de θεος anartro, e em três ocasiões vemos esse tipo de uso. Vamos observar abaixo:

Romanos 1:16

(GNT) Οὐ γὰρ ἐπαισχύνομαι τὸ εὐαγγέλιον τοῦ Χριστοῦ· δύναμις γὰρ Θεοῦ ἐστίν εἰς σωτηρίαν παντὶ τῷ πιστεύοντι, ᾿Ιουδαίῳ τε πρῶτον καὶ ῞Ελληνι.

(TNM) Pois eu não me envergonho das boas novas; são de fato, o poder de Deus para a salvação de todo aquele aquele que tem fé, primeiro para o judeu e também para o grego.

Romanos 1:17 (cf. Rm.3.5, 21-22)

(GNT) δικαιοσύνη γὰρ Θεοῦ ἐν αὐτῷ ἀποκαλύπτεται ἐκ πίστεως εἰς πίστιν, καθὼς γέγραπται· ὁ δὲ δίκαιος ἐκ πίστεως ζήσεται.

(TNM) pois nelas é que se revela a justiça de Deus em razão da fé e para com a fé, assim como está escrito: O justo viverá pela fé.

Romanos 1:18

(GNT) ᾿Αποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ Θεοῦ ἀπ᾿ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων,

(TNM) Pois o furor de Deus está sendo revelado desde o céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade de modo injusto.

É interessante notar que todas as vezes que Deus foi caracterizado nesses versos Paulo não usou artigo para referir-se a Deus. É bem verdade que em outras ocasiões ele o fez de modo articulado. Mas, é importante notar que em sua mente não há qualquer divisão de referência sobre quem é indicado com artigo ou sem artigo: Ele dirige-se a Deus Pai (Jeová) com e sem artigo.

Esse fato é claramente observado nos escritos paulinos, observe:

Romanos 13:1

(GNT) Πᾶσα ψυχὴ ἐξουσίαις ὑπερεχούσαις ὑποτασσέσθω. οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ· αἱ δὲ οὖσαι ἐξουσίαι ὑπὸ τοῦ Θεοῦ τεταγμέναι εἰσίν·

(TNM) Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; pois não há autoridade exceto por Deus; as autoridades existentes acham-se colocadas por Deus nas suas posições relativas.

Fora a má tradução da sentença “οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ·”, é interessante notar o uso intercambiável de artigo quando Paulo fala sobre Deus Pai (Jeová). Na primeira referência feita a Deus, Paulo usa a expressão “ὑπὸ Θεοῦ·” ao passo que usa “ὑπὸ τοῦ Θεοῦ”. No texto é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Se a regra do θεος anarto de Jo.1.1c for usada aqui, teríamos que entender que ora o texto fala de Deus, ora de um deus, mas sabemos que isso não é verdadeiro.

É também interessante notar que algumas descrições de Deus, que o mostram como exclusivo, também são feitas sem artigo, observe:

Romanos 16:27:

(GNT) μόνῳ σοφῷ Θεῷ διὰ ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ᾧ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· ἀμήν.

(TNM) a Deus, único sábio, seja a glória por intermédio de Jesus Cristo, para sempre. Amém.

A TNM aqui suaviza a expressão grega “μόνῳ σοφῷ Θεῷ”. Se tomada literalmente poderá dizer: “Ao único sábio Deus”. A idéia da exclusividade nesse texto é claramente observado pelo adjetivo “μόνος”, mas toda a sentença é escrita sem artigo. Certamente isso não faz qualquer demérito a quem Deus é, mas por que o faria em relação a Cristo em Jo.1.1c? A argumentação TJ nesse quesito começa a mostrar-se insuficiente: Não há qualquer razão para o uso anartro de θεος significar “um deus”.

Apesar de serem muitos os casos como esses no NT, gostaria de apresentar apenas mais um, encontrado em 1Coríntios:

1Coríntios 8:4

(GNT) Περὶ τῆς βρώσεως οὖν τῶν εἰδωλοθύτων, οἴδαμεν ὅτι οὐδὲν εἴδωλον ἐν κόσμῳ, καὶ ὅτι οὐδεὶς Θεὸς ἕτερος εἰ μὴ εἷς.

(TNM) Ora, acerca de comer alimentos oferecidos a ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há Deus senão um só.

1Coríntios 8:5

(GNT) καὶ γὰρ εἴπερ εἰσὶ λεγόμενοι θεοὶ εἴτε ἐν οὐρανῷ εἴτε ἐπὶ τῆς γῆς, ὥσπερ εἰσὶ θεοὶ πολλοὶ καὶ κύριοι πολλοί,

(TNM) Pois, embora haja os que se chamem deuses, quer no céu quer na terra, assim como há muitos deuses e senhores

1Coríntios 8:6

(GNT) ἀλλ᾿ ἡμῖν ες Θεὸς ὁ πατήρ, ἐξ οὗ τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς εἰς αὐτόν, καὶ εἷς Κύριος ᾿Ιησοῦς Χριστός, δι᾿ οὗ τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς δι᾿ αὐτοῦ.

(TNM) para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas e nós para ele; e há um só Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem sõ todas as coisas, e nós por intermédio dele.

Nesse breve texto vemos três usos interessantes do substantivo θεος anartro. No primeiro vemos a clara declaração de que não existe qualquer outro Deus (Jeová). Esse uso está em conformidade Romanos 16.27. Nessa caso, não temos qualquer dúvida de que a ênfase aqui é o Deus Pai (Jeová).

Contudo, no segundo verso vemos o uso de anartro θεος no plural. Essa afirmação merece nossa atenção: Paulo afirma que não existe apenas um Deus, depois diz que existem aqueles que se dizem deuses e que esses são muitos. A idéia aqui é que Paulo fala da caracterização que poderia ser encontrada em uma cidade pagã como Corínto: a idolatria era algo forte na cidade, e por isso, era possível encontrar ao redor dos cristãos coisas ou pessoas denominadas deuses, mas que de fato não o eram. Eram divindades por nomenclatura não por essência. Mas, é interessante notar que a TNM não atribui artigo indefinido nesse usos anartro de θεος, em nenhuma das duas ocasiões que acontecem aqui: A TNM traduziu para o português sem qualquer artigo, o que sabemos que é uma boa tradução aqui. Mas, mais uma vez, a regra do θεος anartro de Jo.1.1.c não é usada.

Mas, vamos ao último verso mencionado: Note que a tradução da TNM diz: “há realmente um só Deus, o Pai”. Nesse verso, Paulo faz uso do termo “εἷς” como numeral para evidenciar a singularidade de Deus ante aos muitos deuses de Corinto. Outro fato interessante é que ele chama esse único Deus de ὁ πατήρ, o Pai. Esse único Deus, o Pai (Jeová) é aquele mesmo Deus do verso quatro que é descrito sem artigo grego. Ou seja, não há qualquer demérito conceitual a Deus pelo fato de que o substantivos θεος é anartro.

Conclusão

O que podemos dizer da TNM em ocasiões em que o substantivo θεος é usado sem artigo?

  1. Podemos dizer com certeza que ela opta por acrescer o artigo indefinido nas ocasiões em que um não cristão fala, como vimos nos exemplos de Atos.
  2. Também vimos que em nenhuma ocasião em que o termos faz referência a Deus Pai (Jeová) veio acompanhada de artigo indefinido da tradução para o Português.
  3. Também vimos que, traduções diferentes dessas apenas ocorreram quando o substantivos θεος anartro estava no plural, ocasiões que tem-se por certo não tratar de Deus.
  4. É válido lembrar que também vimos duas ocasiões (Jo.1.18; 10.33) onde o substantivo θεος anartro é usado em referência a Cristo e a TNM não ousou acrescer artigo indefino na sentença.

Em outras palavras, a TNM só optou por acrescer artigo indefinido em tradução ao substantivo θεος anartro em uma ocasião distinta e específica: João 1.1c. Normalmente os TJ afirmam que sua tradução é livre de apelos teológicos, mas nosso estudo demonstrou exatamente o contrário: Na tradução de João 1.1c ela foi parcial e motivada por teologia, não por gramática ou coerência de critérios de tradução.

Por isso, podemos dizer asseguradamente diante das evidências apresentadas: No NT o uso anarto de θεος não implica em uso de artigo indefinido na tradução, como se isso fosse uma regra. Muito pelo contrário, são raras e poucas as ocasiões em que isso acontece, e normalmente é devido a um fator contextual.

Assim, nossa pergunta permanece: Por que a TNM mantém o artigo indefinido em Jo.1.1c?


[1] Vamos considerar o modo de tradução da TNM nesses versos:

  1. Ao traduzir a expressão “τῆς σαρκὸς” os tradutores optaram por acrescer a expressão “segundo”. Essa tradução reflete uma certa inabilidade dos tradutores, pois para que essa tradução fosse possível era necessário que a expressão estivesse no acusativo acompanhado da preposição “κατὰ”. Essa simples alteração remove o peso do argumento de Paulo nesses versos. O Genitivo aqui é de posse, ou seja, a mentalidade que pertence à carne (a mentalidade da carne).
  2. Ao traduzir a expressão “εἰς Θεόν” os tradutores minimizaram o impacto do contraste oferecido na primeira senteça. O conceito de “εἰς” aqui foi abrandado e o contraste foi suavizado. Como a intenção de Paulo nesse texto é apresentar o claro contraste entre o que é de Deus e o que é natural do homem decaído em pecado: Por isso, uma tradução mais adequada seria: “inimizade contra Deus”.
  3. Ao traduzir “ἐν σαρκὶ” os tradutores alteração o status da pessoa que Paulo descreve aqui. Se observado com atenção, Paulo fala sobre os que estão na carne, uma condição anterior a salvação. Entretanto, a TNM verte como se Paulo estivesse falando de uma situação. A questão não é sobre estar em harmonia (palavra que nem consta no texto) com a carne, mas estar em uma condição: na carne. Considerando essas pequenas modificações, o texto passa a dizer algo diametralmente oposto ao que Paulo quis que ele dissesse.

[2] A tradução de “ζήσεται” oferecida nesse texto é mais circunstancial que gramatical. Ele é apresentado como presente histórico, mas está claramente no futuro, sendo melhor traduzido por “viverá”.

[3] Observe que o mesmo acontece em Mt.2.2

Usos Anartros de θεος no Novo Testamento

Em grego, a palavra artigo é “αρθρον” (artron). Portanto, “anartro” é a designição para uma palavra desacompanhada de artigo. Nesse artigo iremos observar os usos anartros de θεος no Novo Testamento. A intenção é notar os modos como esse substantivo é usado sem artigo para verificar se a acusação dos Testemunhas de Jeová sobre o uso anartro em Jo1.1c é verdadeira.

A acusação é simples: Como em Jo.1.1c (e o Verbo era Deus – TNM) João usa o substantivo θεος sem artigo ele não estaria fazendo indicação de que o Logos é Deus, e portanto o traduzem como um deus. Para sustentar essa opinião afirmam que sempre que o substativo θεος é usado sem artigo ele não faz referência ao Deus Pai, ou a Jeová como eles preferem dizer.

A questão, portanto, é: O Novo Testamento suporta essa visão? Todos os usos anartros de θεος não são referências a Deus? Isso é mesmo verdadeiro? É isso que vamos verificar.

No Novo Testamento o substativo θεος é usado cerca de 1319 vezes sendo que aproximadamente 283 vezes ele acontece sem artigo. É interessante notar que apenas em 16 ocasiões a TNM traduz o termo ou de modo indefinido, qualitativo ou plural. Ou seja, em apenas seis porcento das vezes a TNM é fiel ao princípio que defende em Jo.1.1.

Se observado atentamente, notar-se-á que o substantivo θεος anartro no Novo Testamento é usado de quatro modos diferentes: (1) Quando uma clara relação de contraste entre o que é humano, terreno, e o que é divino celestial; (2) quando a expressão está na boca de um não cristão ou um judeu (3) quando uma qualidade ou atributo de Deus é anunciado; (4) quando usa-se o termo como nome próprio. Há largas evidências dessas distinções no Novo Testamento e abaixo, consideraremos alguns desses casos.

1. Relação de Contraste

Quando a divindade é contrastada com o que é humano, ou com o universo como distinto do Seu Criador, ou com a natureza ou com os atos dos espíritos malignos o Novo Testamento pode empregar o substantivo θεος anartro.

Um exemplo bem interessante desse tipo de uso no NT é encontrado em Rm.8.7-9:

Rom 8:7-8: διότι τὸ φρόνημα τῆς σαρκὸς χθρα εἰς Θεόν· τῷ γὰρ νόμῳ τοῦ Θεοῦ οὐχ ὑποτάσσεται· οὐδὲ γὰρ δύναται· οἱ δὲ ἐν σαρκὶ ντες Θεῷ ἀρέσαι οὐ δύνανται

A TNM assim verte o texto: “por que a mentalidade segundo a carne significa inimizado com Deus, visto que não está em sujeição a Deus, de fato, nem pode estar. De modo que os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus[1].

Nesse caso notamos que a distinção entre o que é de Deus e humano é tão clara que poderia-se dizer que o artigo não é necessário. Mais interessante do que isso é que a TNM entende que, mesmo anartro, θεος aqui é uma referência a Deus Pai (Jeová para eles).

Vamos observar um outro caso onde isso é evidente:

Mateus 4.4

(GNT) ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπε· γέγραπται, οὐκ ἐπ᾿ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ἄνθρωπος, ἀλλ᾿ ἐπὶ παντὶ ῥήματι ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος Θεοῦ.

(TNM) Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová[2]

Esse verso é especial, pois Jeová é a tradução de θεος anartro. Não há dúvidas que a TNM entende que esse uso anarto é uma referência a Deus Pai. Esse tipo de ocasião acontece diversas vezes no NT, confira: Mt.6.24; 19.26; Lc.12.21; At,5.29; Rm 9.5; 1Co.10.20.

2. Voz de judeus e pagãos

Quando não cristãos falam de Deus, isso pode acontece sem artigo. Se observarmos as ocasiões em que um não cristão não judeu usa o termo θεος veremos que ele o faz sem artigo. Observe:

Act 12:22

(GNT) ὁ δὲ δῆμος ἐπεφώνει· Θεοῦ φωνὴ καὶ οὐκ ἀνθρώπου.

(TNM) O povo reunido por sua vez, começou a gritar: A voz de um deus e não de homem.

Esse é um caso interessante: A multidão aclama Herodes deus enquanto está ascentado na cadeira do juiz, fazendo discurso publico. É bem provável que alguns judeus fizessem parte dessa multidão, até por que Flávio Josefo descreve que alguns dos judeus tinha essa percepção sobre Herodes:

“And presently his flatterers cried out, one from one place, and another from another (though not for his good), that he was a god; and they added, ‘Be thou merciful unto us; for although we have hitherto reverenced thee only as a king, yet shall we henceforth own thee as a superior to mortal nature”

Mas, eu gostaria de charmar sua atenção para o fato de que tanto θεος quanto ἄνθρωπος estão sem artigo, mas são traduzidos de modo diferente pela TNM. Não haveria qualquer demérito em dizer um homem, mas é ao menos interessante que essa tradução evitasse usar um modo de tradução que para eles é tão fundamental em Jo.1.1.

Em outras ocasiões, os apóstolos são confundidos com divindades gentílicas após realizarem alguns atos que os não cristãos não judeus não teriam entendido. Observe:

Act 28:6

(GNT) οἱ δὲ προσεδόκων αὐτὸν μέλλειν πίμπρασθαι καταπίπτειν ἄφνω νεκρόν. ἐπὶ πολὺ δὲ αὐτῶν προσδοκώντων καὶ θεωρούντων μηδὲν ἄτοπον εἰς αὐτὸν γινόμενον, μεταβαλόμενοι ἔλεγον Θεόν αὐτὸν εἶναι.

(TNM) Mas eles esperavam que fosse inchar com uma inflamação ou cair repentinamente morto. Depois de terem esperado por muito tempo e terem observado que nada nocivo lhe acontecia, mudaram de idéia e começaram a dizer que ele era um deus

Essa é uma declaração interessante: diante de uma crença politeísta, alguém afirmar que uma pessoa é um deus não é contraditória com sua própria crença. A situação a que Paulo havia sido exposto na ocasição, fez com que aqueles não cristãos que não tinham um pano de fundo judaico ou monoteísta pensassem que Paulo era uma divindade na terra. Essa não era a primeira ocasião que isso acontecia com Paulo:

Atos 14:11

(GNT) οἱ δὲ ὄχλοι ἰδόντες ὃ ἐποίησεν ὁ Παῦλος ἐπῆραν τὴν φωνὴν αὐτῶν Λυκαονιστὶ λέγοντες· οἱ θεοὶ ὁμοιωθέντες ἀνθρώποις κατέβησαν πρὸς ἡμᾶς·

(TNM) E as multidões, vendo o que Paulo tinha feito, elevaram suas vozes, dizendo na língua licaônica: Os deuses tornaram-se iguais a humanos e desceram a nós.

É bem interessante que nesse caso o texto grego ofereça o artigo definido para descrevê-los. Sabe-se que diante do panteão gentílico, Zeus e Hermens não eram os únicos deuses e portanto o artigo definido aqui não é um modo de apresentar a exclusividade desses dois deuses.

Considerando essas situações é observável que para gentios, a idéia de um deus entre muitos não é nem um pouco problemática e parece que era isso que eles estavam vendo em ambas as ocasiões cf. At.5.39; 17.23).

Contudo, temos que considerar com mais cautela quando vemos a declaração de um judeu a usar o vocábulo θεος anartro. Em algumas ocasiões a presença de Jesus entre os judeus dividiam as opiniões, observe:

João 9:16

(GNT) ἔλεγον οὖν ἐκ τῶν Φαρισαίων τινές· οὗτος ὁ ἄνθρωπος οὐκ ἔστι παρὰ Θεοῦ, ὅτι τὸ σάββατον οὐ τηρεῖ. ἄλλοι ἔλεγον· πῶς δύναται ἄνθρωπος ἁμαρτωλὸς τοιαῦτα σημεῖα ποιεῖν; καὶ σχίσμα ἦν ἐν αὐτοῖς.

(TNM) Portanto, alguns dos fariseus começaram a dizer: Este homem não é de Deus por que não observa o sábado. Outros começaram a dizer: Como pode um homem, que é pecador, realizar sinais desta sorte. De modo que havia uma divisão entre eles.

A visão que os judeus tinham a seu respeito era clara: ele era um homem. Entretanto, os religiosos o viam como alguém que não era de Deus, pelo fato de que, do ponto de vista deles, Jesus não guardava o sábado. Contudo, alguns, vendo o que ele fazia não poderiam acreditar que um homem pecador pudesse realizar o que Ele realizava.

É interessante nesse caso que embora o texto traga o verbete θεος anartro, é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Como monoteístas não faria sentido aos judeus imaginar que Jesus não era de alguma divindade pagã, mas o texto teria todo sentido se falasse de Jeová. O fato de θεος estar sem artigo não desmerece a referência a Deus feita nesse verso (cf. Jo.9.24).

É por isso, que pouco à frente no texto vemos um uso interessante do mesmo vocábulo:

João 10:33

(GNT) ἀπεκρίθησαν αὐτῷ οἱ ᾿Ιουδαῖοι λέγοντες· περὶ καλοῦ ἔργου οὐ λιθάζομέν σε, ἀλλὰ περὶ βλασφημίας, καὶ ὅτι σὺ ἄνθρωπος ὢν ποιεῖς σεαυτὸν Θεόν.

(TNM) Os judeus responderam-lhe: Nós te apedrejamos, não por uma obra excelente, mas por blasfêmia, sim, por que tu, embora sejas homem, te fazes deus.

Nesse texto temos que fazer algumas observações:

1. Embora o substantivo θεος esteja desacompanhado de artigo, os tradutores não ousaram verter esse texto com o acréscimo do artigo indefinido. É válido dizer que o acréscimo desse artigo indefinido seria interessante para o argumento cristológico TJ: Por não ser igual a Deus, Jesus fazia-se igual a um deus. Contudo, essa expressão não caberia na boca dos judeus que argumentavam contra Jesus.

2. Ou seja, uma vez que o texto não pode dizer “um deus”, por que os tradutores não usaram a expressão: “Jeová”, ou ao menos o D maiúsculo na palavra deus? Faria muito mais sentido se o texto dissesse que os judeus estavam a apedrejar Jesus pelo fato de ele estar se fazendo igual ao Deus de Israel, Jeová. Aliás, é isso o que o texto diz, mas não é essa a impressão que a TNM transmite ao texto. Esse é mais um caso onde a teologia TJ coordena a tradução de modo pernicioso: Ela até traduz de modo correto, mas não pode atribuir uma letra maiúscula ao termo Deus, pois isso poderia por em risco sua teologia.

3. Mas, a grande questão aqui é: Quem os judeus tinham em mente? Será que uma espécie de deus intermediário? Não parece esse o motivo do ódio contra Jesus. Eles buscavam o apedrejar por blasfêmia, ou seja, a busca de igualdade com Deus.

O fato observado nesse texto é a confusão que Jesus estava a causar entre os judeus: Eles tinham convicção que Ele era humano, mas suas alegações de igualdade com Deus (que eram entendidas assim) o faziam parecer um blasfemo. É interessante notar que um judeu no primeiro século poderia entender perfeitamente as alegações de Jesus. O fato apresentado nesse texto não é a incapacidade de compreender, mas de aceitar.

3. Uso como nome próprio ou título

Quando o substantivo Deus é usado como um nome, o autor pode usá-lo sem artigo. Isso acontece extensivamente no NT. Esse uso pode ser feito em referência a Cristo e aos cristãos. Abaixo transcrevo algumas ocasiões em que esse tipo de uso diz respeito a cristãos:

Mateus 5.9

(GNT) μακάριοι οἱ εἰρηνοποιοί, ὅτι αὐτοὶ υἱοὶ Θεοῦ κληθήσονται.

(TNM) Felizes os pacíficos, por que serão chamados filhos de Deus

João 1:12

(GNT) ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτόν, ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα Θεοῦ γενέσθαι, τοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ,

(TNM) No entanto, a tantos quantos o receberam, a estes deu autoridade para se tornarem filhos de Deus, por que exerciam fé no seu nome

Romanos 8:14

(GNT) ὅσοι γὰρ Πνεύματι Θεοῦ ἄγονται, οὗτοι εἰσιν υἱοὶ Θεοῦ.

(TNM) Pois todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus.

Vários são os textos desse tipo no NT, e com esses não vamos nos ocupar, pois está claro que, embora seja anartro o uso de , a referência é a Deus Pai (Jeová). Vamos concentrar nossa atenção às ocasiões em que expressões desse tipo se referem ou a Jesus Cristo ou a Deus:

Mateus 14:33

(GNT) οἱ δὲ ἐν τῷ πλοίῳ ελθόντες προσεκύνησαν αὐτῷ λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς εἶ.

(TNM) Então os que estavam no barco prestaram-no homenagem, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.

Esse é um daqueles casos interessantes: (1) O que os discípulos tinham em mente ao chamarem Jesus de Filho de Deus? (2) O que significa a expressão “προσκυνεω”?

De fato, a resposta da primeira repousa na resposta da segunda. O conceito προσκυνεω de tem sido debatido entre cristãos e TJs por algum tempo já. Normalmente, os TJs que tem acesso a léxicos citam que essa expressão era comum entre povos orientais de respeito. De fato, o Thayer`s Greek Lexicon apresenta essa opção para o termo. Entretanto, esse não era o único modo como esse termo era entendido. O léxico Lidell-Scott também apresenta diversas ocasiões onde esse termo é usado fora do NT para descrever a adoração a divindades pagãs, inclusive, ele apresenta ocasiões onde isso é realizado em adoração a lugres sagrados. O Louw-Nida acredita que o termo seja usado no NT em referência a atitude de alguém diante de um divindade em adoração, veneração. É interessante notar que em diversas ocasiões é exatamente esse o sentido auferido pelo termo. Observe:

Atos 7:43

(GNT) καὶ ἀνελάβετε τὴν σκηνὴν τοῦ Μολὸχ καὶ τὸ ἄστρον τοῦ Θεοῦ ὑμῶν ῾Ρεμφάν, τοὺς τύπους οὓς ἐποιήσατε προσκυνεῖν αὐτοῖς· καὶ μετοικιῶ ὑμᾶς ἐπέκεινα Βαβυλῶνος.

(TNM).Mas, acolheste para vós a tende de Moloque e a estrela do deus Refã, as figuras que fizestes para adorá-las. Consquentemente, eu vos deportarei para além da Babilônia.

É interessante que um judeu usasse a o termo “προσκυνεω” para descrever a idolatria de seu povo. Mais interessante é que ele está a citar Amós 5.25-26 como descrição dessa idolatria. Ou seja, quando esse termo era usado para descrever o ato de prostrar-se ante idolos, o sentido é claramente o de adoração. Entretanto, é válido observar outros dois exemplos:

Mateus 4:9

(GNT) καὶ λέγει αὐτῷ· ταῦτά πάντα σοι δώσω, ἐὰν πεσὼν προσκυνήσῃς μοι.

(TNM) e disse-lhe: Todas estas coisas te darei se te prostrares e me fizeres um ato de adoração

Nesse verso vemos dois termos interessantes: prostar e adorar. A palavra que descreve o ato de colocar-se de joelhos perante alguém (prostrar) é “πιπτω” e adorar é a palavra “προσκυνεω”. Ou seja, o grego tem mais de uma palavra para descrever o ato de reverência perante uma pessoa. Por isso, é interessante que “προσκυνεω” tenha sido usado aqui apenas em referência à adoração que Satanás esperava receber de Jesus Cristo.

Esse é um momento oportuno para perguntar se Satanás queria mesmo uma adoração. Seguindo o modo de raciocínio TJ, o uso desse termo significaria apenas o ato de reverenciar, ou de prestar homenagem a Satanás. Contudo, a resposta de Jesus demonstra exatamente o contrário:

Mateus 4:10

(GNT) τότε λέγει αὐτῷ ὁ ᾿Ιησοῦς· ὕπαγε, Σατανᾶ· γέγραπται γάρ, Κύριον τὸν Θεόν σου προσκυνήσεις καὶ αὐτῷ μόνῳ λατρεύσεις.

(TNM) Jesus disse-lhe então: Vai-te Satanás! Pois está escrito: É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.

Muito interessante nesse texto é que Jesus entende a proposta de Satanás como uma violação de Deuteronomio 6.13. A proposta era adoração como reconhecimento de Divindade, como merecedor de prostrar-se para cultuar.

Agora a pergunta, por que que a reação dos discípulos ao προσεκύνησαν (adorar) a Jesus, a TNM traduziu como “prestar homenagem[3]? Certamente por que não podem admitir que Cristo possa receber adoração.

O que temos a dizer do texto de Mt.14.33, quando os discípulos o chamaram de Filho de Deus? Que os discípulos o adoraram por reconhecer sua Divindade e a expressão Filho de Deus é a confirmação desse fato.

É importante demosntrar que essa não é a única ocasião em que isso acontecem em referência a Cristo. Observe alguns textos:

Mateus 27:54 (cf. Mc.14.39)

(GNT) ῾Ο δὲ ἑκατόνταρχος καὶ οἱ μετ᾿ αὐτοῦ τηροῦντες τὸν ᾿Ιησοῦν, ἰδόντες τὸν σεισμὸν καὶ τὰ γενόμενα ἐφοβήθησαν σφόδρα λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς ἦν οὗτος.

(TNM) Mas o oficial do exército e os que estavam com ele vigiavam sobre Jesus, quando viram o terremoto e as coisas que aconteciam, ficaram com muito medo, dizendo: Este certamente era o Filho de Deus

Lucas 1:35

(GNT) καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ· Πνεῦμα ῞Αγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ, καὶ δύναμις ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται υἱὸς Θεοῦ.

(TNM) O anjo disse-lhe em resposta: Espirito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te encobrirá. Por esta razão, também, o nascido será chamado santo, Filho de Deus.

João 1:18

(GNT) Θεὸν οὐδεὶς ἑώρακε πώποτε· μονογενὴς θεος ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρὸς, ἐκεῖνος ἐξηγήσατο.

(TNM) Nenhum homem jamais viu a Deus; o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado.

Embora muitos outros exemplos pudessem ser demontrados, esses são suficientes. Os dois primeiros refletem o que já temos demonstrado. Entretanto, o último verso merece nosso atenção por dois motivos: (1) O termo θεος é anartro quando está em referência a Deus Pai (Jeová) e (2) é anartro em referência ao Filho.

Não há qualquer dúvida de que o Deus Pai é mencionado no início do verso, aliás, o texto mostra claramente que o Filho é quem explica (apresenta, demosntra) o Pai. A questão é como entender o título μονογενὴς θεος oferecido a Cristo.

Como já tenho escrevido largamente sobre o assunto, recomento ao leitor visitar o artigo “O que dizer do problema textual de Jo.1.18?”. Mas, ainda vale uma resposta a pergunta acima mencionada: μονογενὴς θεος é o modo pelo qual João apresenta a divindade do Filho, o chamando claramente de Deus. Isso é tão evidente que a TNM traz um artigo definido para identificá-lo, entretanto, o faz em letra minúscula, pois não pode admitir que o texto diga que Jesus é Deus.

O termo μονογενὴς enfatiza a singularidade de Cristo de modo que só Ele é Filho de Deus como Ele é. Ele é o único em sua espécie, o mais amado dentre todos: Por que ele é θεος.

Como é bem evidente até aqui, o uso anartro de θεος não diz muito sobre como o texto deve ser entendido. Existem diversos outros exemplos desse tipo de uso do termo no NT e o leitor fará bem se os conhecer. (Algumas ocorrencias: Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16… etc)

4. Descrição da divindade

Em muitas ocasiões no NT quandos os autores tem a intenção de qualificar, ou seja atribuir qualidades a Deus, eles podem fazê-lo com o substantivo θεος anartro. Esse uso é frequente em Paulo e o NT é repleto desse tipo de uso.

Só no primeiro capítulo de Romanos, Paulo faz sete (Rm.1.1, 7, 16, 17, 18, 23) usos de θεος anartro, e em três ocasiões vemos esse tipo de uso. Vamos observar abaixo:

Romanos 1:16

(GNT) Οὐ γὰρ ἐπαισχύνομαι τὸ εὐαγγέλιον τοῦ Χριστοῦ· δύναμις γὰρ Θεοῦ ἐστίν εἰς σωτηρίαν παντὶ τῷ πιστεύοντι, ᾿Ιουδαίῳ τε πρῶτον καὶ ῞Ελληνι.

(TNM) Pois eu não me envergonho das boas novas; são de fato, o poder de Deus para a salvação de todo aquele aquele que tem fé, primeiro para o judeu e também para o grego.

Romanos 1:17 (cf. Rm.3.5, 21-22)

(GNT) δικαιοσύνη γὰρ Θεοῦ ἐν αὐτῷ ἀποκαλύπτεται ἐκ πίστεως εἰς πίστιν, καθὼς γέγραπται· ὁ δὲ δίκαιος ἐκ πίστεως ζήσεται.

(TNM) pois nelas é que se revela a justiça de Deus em razão da fé e para com a fé, assim como está escrito: O justo viverá pela fé.

Romanos 1:18

(GNT) ᾿Αποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ Θεοῦ ἀπ᾿ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων,

(TNM) Pois o furor de Deus está sendo revelado desde o céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade de modo injusto.

É interessante notar que todas as vezes que Deus foi caracterizado nesses versos Paulo não usou artigo para referir-se a Deus. É bem verdade que em outras ocasiões ele o fez de modo articulado. Mas, é importante notar que em sua mente não há qualquer divisão de referência sobre quem é indicado com artigo ou sem artigo: Ele dirige-se a Deus Pai (Jeová) com e sem artigo.

Esse fato é claramente observado nos escritos paulinos, observe:

Romanos 13:1

(GNT) Πᾶσα ψυχὴ ἐξουσίαις ὑπερεχούσαις ὑποτασσέσθω. οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ· αἱ δὲ οὖσαι ἐξουσίαι ὑπὸ τοῦ Θεοῦ τεταγμέναι εἰσίν·

(TNM) Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; pois não há autoridade exceto por Deus; as autoridades existentes acham-se colocadas por Deus nas suas posições relativas.

Fora a má tradução da sentença “οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ·”, é interessante notar o uso intercambiável de artigo quando Paulo fala sobre Deus Pai (Jeová). Na primeira referência feita a Deus, Paulo usa a expressão “ὑπὸ Θεοῦ·” ao passo que usa “ὑπὸ τοῦ Θεοῦ”. No texto é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Se a regra do θεος anarto de Jo.1.1c for usada aqui, teríamos que entender que ora o texto fala de Deus, ora de um deus, mas sabemos que isso não é verdadeiro.

É também interessante notar que algumas descrições de Deus, que o mostram como exclusivo, também são feitas sem artigo, observe:

Romanos 16:27:

(GNT) μόνῳ σοφῷ Θεῷ διὰ ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ͅ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· ἀμήν.

(TNM) a Deus, único sábio, seja a glória por intermédio de Jesus Cristo, para sempre. Amém.

A TNM aqui suaviza a expressão grega “μόνῳ σοφῷ Θεῷ”. Se tomada literalmente poderá dizer: “Ao único sábio Deus”. A idéia da exclusividade nesse texto é claramente observado pelo adjetivo “μόνος”, mas toda a sentença é escrita sem artigo. Certamente isso não faz qualquer demérito a quem Deus é, mas por que o faria em relação a Cristo em Jo.1.1c? A argumentação TJ nesse quesito começa a mostrar-se insuficiente: Não há qualquer razão para o uso anartro de θεος significar “um deus”.

Apesar de serem muitos os casos como esses no NT, gostaria de apresentar apenas mais um, encontrado em 1Coríntios:

1Coríntios 8:4

(GNT) Περὶ τῆς βρώσεως ον τῶν εἰδωλοθύτων, οδαμεν τι οὐδὲν εδωλον ἐν κόσμῳ, καὶ τι οὐδεὶς Θεὸς τερος εἰ μὴ ες.

(TNM) Ora, acerca de comer alimentos oferecidos a ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há Deus senão um só.

1Coríntios 8:5

(GNT) καὶ γὰρ επερ εἰσὶ λεγόμενοι θεοὶ ετε ἐν οὐρανῷ ετε ἐπὶ τῆς γῆς, σπερ εἰσὶ θεοὶ πολλοὶ καὶ κύριοι πολλοί,

(TNM) Pois, embora haja os que se chamem deuses, quer no céu quer na terra, assim como há muitos deuses e senhores

1Coríntios 8:6

(GNT) ἀλλ᾿ ἡμῖν ες Θεὸς ὁ πατήρ, ἐξ ο τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς εἰς αὐτόν, καὶ ες Κύριος ᾿Ιησοῦς Χριστός, δι᾿ ο τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς δι᾿ αὐτοῦ.

(TNM) para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas e nós para ele; e há um só Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem sõ todas as coisas, e nós por intermédio dele.

Nesse breve texto vemos três usos interessantes do substantivo θεος anartro. No primeiro vemos a clara declaração de que não existe qualquer outro Deus (Jeová). Esse uso está em conformidade Romanos 16.27. Nessa caso, não temos qualquer dúvida de que a ênfase aqui é o Deus Pai (Jeová).

Contudo, no segundo verso vemos o uso de anartro θεος no plural. Essa afirmação merece nossa atenção: Paulo afirma que não existe apenas um Deus, depois diz que existem aqueles que se dizem deuses e que esses são muitos. A idéia aqui é que Paulo fala da caracterização que poderia ser encontrada em uma cidade pagã como Corínto: a idolatria era algo forte na cidade, e por isso, era possível encontrar ao redor dos cristãos coisas ou pessoas denominadas deuses, mas que de fato não o eram. Eram divindades por nomenclatura não por essência. Mas, é interessante notar que a TNM não atribui artigo indefinido nesse usos anartro de θεος, em nenhuma das duas ocasiões que acontecem aqui: A TNM traduziu para o português sem qualquer artigo, o que sabemos que é uma boa tradução aqui. Mas, mais uma vez, a regra do θεος anartro de Jo.1.1.c não é usada.

Mas, vamos ao último verso mencionado: Note que a tradução da TNM diz: “há realmente um só Deus, o Pai”. Nesse verso, Paulo faz uso do termo “ες” como numeral para evidenciar a singularidade de Deus ante aos muitos deuses de Corinto. Outro fato interessante é que ele chama esse único Deus de ὁ πατήρ, o Pai. Esse único Deus, o Pai (Jeová) é aquele mesmo Deus do verso quatro que é descrito sem artigo grego. Ou seja, não há qualquer demérito conceitual a Deus pelo fato de que o substantivos θεος é anartro.

Conclusão

O que podemos dizer da TNM em ocasiões em que o substantivo θεος é usado sem artigo?

1. Podemos dizer com certeza que ela opta por acrescer o artigo indefinido nas ocasiões em que um não cristão fala, como vimos nos exemplos de Atos.

2. Também vimos que em nenhuma ocasião em que o termos faz referência a Deus Pai (Jeová) veio acompanhada de artigo indefinido da tradução para o Português.

3. Também vimos que, traduções diferentes dessas apenas ocorreram quando o substantivos θεος anartro estava no plural, ocasiões que tem-se por certo não tratar de Deus.

4. É válido lembrar que também vimos duas ocasiões (Jo.1.18; 10.33) onde o substantivo θεος anartro é usado em referência a Cristo e a TNM não ousou acrescer artigo indefino na sentença.

Em outras palavras, a TNM só optou por acrescer artigo indefinido em tradução ao substantivo θεος anartro em uma ocasião distinta e específica: João 1.1c. Normalmente os TJ afirmam que sua tradução é livre de apelos teológicos, mas nosso estudo demonstrou exatamente o contrário: Na tradução de João 1.1c ela foi parcial e motivada por teologia, não por gramática ou coerência de critérios de tradução.

Por isso, podemos dizer asseguradamente diante das evidências apresentadas: No NT o uso anarto de θεος não implica em uso de artigo indefinido na tradução, como se isso fosse uma regra. Muito pelo contrário, são raras e poucas as ocasiões em que isso acontece, e normalmente é devido a um fator contextual.

Assim, nossa pergunta permanece: Por que a TNM mantém o artigo indefinido em Jo.1.1c?


[1] Vamos considerar o modo de tradução da TNM nesses versos:

1. Ao traduzir a expressão “τῆς σαρκὸς” os tradutores optaram por acrescer a expressão “segundo”. Essa tradução reflete uma certa inabilidade dos tradutores, pois para que essa tradução fosse possível era necessário que a expressão estivesse no acusativo acompanhado da preposição “κατὰ”. Essa simples alteração remove o peso do argumento de Paulo nesses versos. O Genitivo aqui é de posse, ou seja, a mentalidade que pertence à carne (a mentalidade da carne).

2. Ao traduzir a expressão “εἰς Θεόν” os tradutores minimizaram o impacto do contraste oferecido na primeira senteça. O conceito de “εἰς” aqui foi abrandado e o contraste foi suavizado. Como a intenção de Paulo nesse texto é apresentar o claro contraste entre o que é de Deus e o que é natural do homem decaído em pecado: Por isso, uma tradução mais adequada seria: “inimizade contra Deus”.

3. Ao traduzir “ἐν σαρκὶ” os tradutores alteração o status da pessoa que Paulo descreve aqui. Se observado com atenção, Paulo fala sobre os que estão na carne, uma condição anterior a salvação. Entretanto, a TNM verte como se Paulo estivesse falando de uma situação. A questão não é sobre estar em harmonia (palavra que nem consta no texto) com a carne, mas estar em uma condição: na carne. Considerando essas pequenas modificações, o texto passa a dizer algo diametralmente oposto ao que Paulo quis que ele dissesse.

[2] A tradução de “ζήσεται” oferecida nesse texto é mais circunstancial que gramatical. Ele é apresentado como presente histórico, mas está claramente no futuro, sendo melhor traduzido por “viverá”.

[3] Observe que o mesmo acontece em Mt.2.2

10.05.09

Conclusão

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , às 12:54 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

Se as análises realizadas nesse estudo são verdadeiras, a Cristologia Testemunha de Jeová não poderia sustentar-se. É interessante notar que em todas as facetas dessa disputa textual, os teólogos reconhecem que o texto com “μονογενὴς θεός” poderia reforçar a divindade de Cristo. Aliás, para Ehrman isso é tão evidente que ele tem que supor que isso é uma corrupção da ortodoxia posterior ao texto.

Contudo, é de se admirar que a Tradução do Novo Mundo use exatamente essa leitura em suas traduções. Eu tenho a impressão que com o passar do tempo, eles deixarão essa leitura variante e passarão a adotar a outra, em funções teológicas. Os unicistas supostamentes bíblicos já fizeram isso (cf. John 1.18). Contudo, compreendendo o dilema teológico por traz dessa expressão, os tradutores mau intencionados usaram letras minúsculas para descrever o Logos: “o deus unigênito”. Para manter a malfadada teologia TJ, não alteraram o texto aqui, apenas o verteram com sua teologia exposta. Longe de ser um fraude piedosa, essa alteração é uma perversão descarada da verdade do texto que eles se propuseram a traduzir.

Evidências Internas

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:51 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

Da mesma forma que a análise das evidências externas, na análise das evidências internas vamos observar que a interpretação textual move-se para ambas as leituras. Aliás, a leitura que pareceu favorável nas evidências externas, é atacada com mais intensidade aqui. E à semelhança da análise já realizada, aqui trataremos dos dilemas à medida que conhecemos os argumentos de cada lado da disputa.

CONSISTÊNCIA DA LEITURA

O principal argumento contra a leitura “μονογενὴς θεός” é que ela parece inconsistente com a literatura joanina. Do ponto de vista da estatística, na literatura joanina μονογενὴς refere-se exclusivamente ao Filho (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.19). No Novo Testamento, à exceção de uma passagem (Hb.11.17), todos os usos de μονογενὴς  fazem referência a um filho que é único (Lc.7.12; 8.42; 9.38).

O segundo argumento é que a frase “μονογενὴς θεός“ não é encontrada em nenhum outro lugar no Novo Testamento e é estranha a ele. O fato de que há relativo silencio neotestamentário para essa terminologia, faz com que os defensores da leitura com Filho defendam sua inconsistência. Outro detalhe que acresce-se a esse é que é muito incomum uma declaração à divindade de Cristo tão clara no NT.  Ou seja, existe um “quase” silêncio teológico clarividente no NT que pudesse suportar essa visão.

O terceiro argumento atesta que, do ponto de vista do estilo, a leitura com Filho parece mais natural ao texto, uma vez que o termo Deus é usado no início e o termo Pai no final. Em outras palavras, supõe-se que a repetição do termo “Deus” seria um inconveniente sintático para o texto e por isso uma construção relativamente difícil para João.

Entretanto, no que se refere à consistência da leitura, os dois primeiros argumentos desfavoráveis à “μονογενὴς θεός” não parecem consistentes. Muito embora exista razão e lógica nos argumentos, ele não é consistente. Vamos tomar o primeiro argumento como exemplo. Se a consistência com o autor é fator decisivo, alguém poderia alegar que Jo.5.4 poderia ser consistente com a terminologia joanina, pois não apenas a construção é similar como usa termos recorrentes. Entretanto, as evidências externas nesse caso são completamente desfavoráveis ao verso. Ou seja, a validade do argumento é dependente da soma das análises. Contudo, o mais importante a ser dito sobre essa argumentação é que ela exclui a possibilidade de uma expressão ocorrer uma única só vez no NT.

Sobre o segundo argumento é importante que se diga que João tem diversas expressões fundamentais para a Teologia Cristã que não são encontradas em nenhum outro lugar no NT. Por exemplo, João é o único que descreve Jesus Cristo como Logos eterno, pré-existente e divino (Jo.1.1), como único em espécie (Jo.1.14 – monogenes absoluto), como Logos encarnado (Jo.1.14). Em termos de proporção, parece que João está inovando sob muitos aspectos em sua apresentação da divindade. Se considerarmos válido o segundo argumento, teríamos que suspeitar de todo o prólogo, o que muitos teólogos já tem feito mesmo sem qualquer evidência textual para suportar suas convicções. Muito embora o argumento pareça sólido, mais uma vez ele é erigido sob uma frágil argumentação.

O mais audaz dos argumentos é o terceiro. Segundo os defensores da Velha Ortodoxia (Pickering, José Pedro M. de Almeida), do ponto de vista do estilo, a leitura mais natural seria o Filho: “A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação[24]”. Entretanto, deve-se notar que o termo Filho não é usado nenhuma vez no prólogo, ao passo que tanto μονογενὴς como θεός já teriam sido apresentados. Porém, é bem verdade que o uso de “Pai” na seqüência parece supor o uso de “Filho” antes, exceto que, se João tivesse usado uma segunda vez o termo θεός, usá-lo uma terceira vez seria uma grande redundância. Portanto, no que se refere à consistência da variante, os argumentos normalmente apresentados não são consistente. Ao contrário, favorecem à leitura de θεός.

Uma das convicções que sem tem obtido no estudo da crítica textual é que os copistas tinham certa tendência para facilitar um texto ao invés de complicá-lo. Também era comum que eles tentassem harmonizar passagens para que fossem sinérgicas. No caso de Jo.1.18, se considerarmos a leitura com θεός  a leitura original, não era difícil que alguém ousasse facilitar a leitura por substituí-lo por υἱός. Se o motivo não fosse o facilitar a leitura do texto, certamente poderia ter sido uma questão de harmonização com a terminologia do autor. Essa observação é importante, pois nos auxilia a compreender qual das leituras parece ser responsável pela outras. Sobre isso, Metzger tem uma opinião interessante:

“A leitura μονογενὴς υἱός, que é indubitavelmente mais fácil que μονογενὴς θεός, é resultado de uma assimilação escribal a Jo.3.16,8; 1Jo.4.9. O uso anartro de θεός (cf. 1.1) parece ser o mais primitivo. Não há razão para que o artigo fosse deletado, e quando υἱός suplantou θεός,ele certamente foi adicionado. A menor leitura, ὁ μονογενής, enquanto é atrativa por causa de considerações internas, é muito pobremente atestada para ser aceito como texto[25]

Diante das considerações de Metzger, observa-se que a leitura favorecida é consistente com as possibilidades de transcrição histórica do texto. Diante disso, podemos assumir que μονογενὴς θεός é a leitura mais provável do ponto de vista da transcrição histórica. Contudo, isso não a torna imediatamente mais consiste com o contexto.

Sobre a consistência com o contexto, é importante lembrar-se da opinião de A.T. Robertson:

“O escrito já havia dito em 1.1 que o Verbo era Deus e no 1.14 que o Verbo se fez carne. Agora ele combina as duas idéias no texto correto de 1.18: ‘Deus-unigênito’. Somente o Deus-homem poderia revelar a Deus completamente ao homem. Ele é Deus e Homem, e pode e atua como intérprete de Deus para o homem[26]

É interessante que no clímax do prólogo, João combine duas idéias chocantes já apresentadas para concluir o que tem a dizer. Se isso é tomado como verdadeiro, nota-se grande coesão estrutural no pensamento joanino[27]. Aliás, Martin Vincent parece defender exatamente isso:

“A última leitura [μονογενὴς θεός ] meramente combina em uma frase dois atributos do verbo já indicados – Deus (v.1) e unigênito (v.14)’; o sentido é o ser único que é tanto Deus como Unigênito[28]

Vale a pena ressaltar que, tanto no verso 1 (θεός), como no verso 14 (μονογενὴς), encontramos as declarações desacompanhadas de artigo, o que parece favorecer a leitura μονογενὴς θεός. Ou seja, do ponto de vista da consistência da análise interna, a leitura majoritariamente alexandrina é claramente favorecida.

PROBLEMAS TEOLÓGICOS

No que se refere a problemas teológicos, os adeptos da leitura com “θεός” parecem não identificar qualquer problema com qualquer uma das variantes. Harris, que tem preferência por “θεός” em função de sua antiguidade e dificuldade, diz que “de modo geral, eu não acredito que nenhuma das leituras altera de modo sério o sentido do texto[29]”.

Entretanto, os defensores da leitura “υἱός”, insistem que a leitura variante não é possível, pois introduz problemas teológicos sérios. Estranhamente, Ehrman é um desses que entende que existe um problema teológico na leitura com “θεός”. Muito embora isso não fizesse qualquer diferença para o autor (exceto para sua defesa de corrupção ortodoxa), Ehrman alega que Jesus só poderia ser o único Deus, se não houvesse outro Deus, o que o contexto imediato já rejeita: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Essa argumentação é bem similar à aquela que os defensores da Velha Ortodoxia apresentam.

Entretanto, para Pickering, acredita que o texto traz ainda um problema mais grave: “se Cristo recebeu sua divindade no processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade”. Ou seja, Pickering, embora concorde com a leitura sugeria por Ehrman, não pode concordar com a tese de Ehrman. Em parte, Pickering está dizendo que existe um conceito de geração na expressão e se a divindade de Cristo está em sua geração, então um sério problema teológico é auferido. Por outro lado, ele concorda com a possibilidade de que “υἱός”, como texto original, é uma defesa teológica ao adocionismo (!).

Normalmente, a Velha Ortodoxia sugere que a leitura “θεός” é uma forma de influência gnóstica no texto, como se existissem diversas divindades: Deus, o Deus unigênito, o Pai, o Logos. José Pedro de Almeida, um desses defensores zelosos da Velha Ortodoxia, diz:

Por não crerem na pre-existência do Filho [os gnósticos], eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)[30]

A acusação é séria: hereges alteraram o texto para acomodar suas convicções teológicas, como se fossem aceitas pelas escrituras. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.

Tendo considerado isso, temos que admitir que, à exceção de Ehrman, os cristãos zelosos da Velha Ortodoxia demonstram sua preocupação com a contaminação das escrituras. Entretanto, os seus argumentos não passam de uma opção zelosa. Em resposta a Almeida gostaria de apresentar três pontos de atenção:

  1. Se um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbal nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Tê-lo feito em Jo.1.18 não teria ajudado muito.
  2. Se um gnóstico escriba quisesse negar a encarnação do Verbo, teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Se o suposto escriba houvesse feito isso apenas em 1.18, teria feito um péssimo trabalho.
  3. Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Se a questão gnóstica realmente fosse rejeitar a divindade de Cristo, era mais fácil acrescer ou retirar informações do verso 1. Mas, isso também não aconteceu.

Já Pickering, parece não ter atentado muito bem para o termo “μονογενὴς”. Para ele, esse termo deve ser diferente de “μονος” (único) e no NT não existem evidências para que se entenda “μονογενὴς” com essa idéia. Contudo, o uso do termo em Hb.11.17 deveria tê-lo feito pensar nessa concusão: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas”. O texto diz que Isaque era o unigênito de Abraão, entretanto, ele não era o único filho gerado de Abraão: Ele era o Filho mais Amado de Abraão. Em Gênesis temos exatamente essa visão: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (22.2). O termo hebraico para descrever Isaque como único filho é o termo “Yachiyd” que é traduzido na Septuaginta por “agapetós” (o amado de modo especial). Não é à toa que Rudolf Bultmann defende que “a designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[31]”. Ou seja, “μονογενὴς[32]” não é usado apenas com o sentido de geração como parece sugerir Pickering[33], mas com sentido de único, especial, amado. Portanto, a dificuldade apresentada por ele não parece válida.

Contudo, Ehrman entende o termo dentro de um escopo mais abrangente e o define como “único”, assim como tenho defendido. Sobre isso, ele diz: “Por definição pode apenas existir um μονογενὴς: a palavra significa ‘único’, ‘único em sua espécie’. O problema, é claro, é que Jesus poderia ser o único Deus apenas se não houvesse outro Deus; mas no quarto evangelho, o Pai é Deus da mesma forma[34]”. Entretanto, Ehrman parece não usar o conceito de sua própria definição adequadamente. Se o termo significa “único em sua espécie”, não há qualquer dificuldade de compreensão: O Logos, como único em sua espécie, amado de modo especial é o único que poderia tornar Deus conhecido em sua essência, como Jo.1.18 parece estar a ensinar. Portanto, a ênfase recai sobre sua SINGULARIDADE (ninguém é como Ele) e não sobre sua EXCLUSIVIDADE (não há mais ninguém).

PARECER PESSOAL

A mim me parece que as argumentações em descrédito da variante preferida na análise de evidências externas não são consistentes, e minha preferências pela leitura “μονογενὴς θεός” parece bem evidente a essa altura. No que se refere consistência, tenho a impressão que essa leitura é mais consistente. No que se refere às possibilidades de transcrição, entendo que essa justifica mais adequadamente o surgimento das outras, sem contar que teologicamente, “μονογενὴς θεός” é certamente a leitura mais difícil. Assim, tenho acredito que essa leitura é, muito provavelmente, a leitura original desse verso.

Evidências Externas

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:50 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

A análise da evidência externa nesse tem diversos dilemas, e à medida que observamos as evidências e as informações disponíveis ao autor, vamos tentar tratar desses dilemas com cautela.

DATA

No que se refere a data das leituras variantes, as diferentes escolas tem apresentado sua opinião. Alguns ortodoxos ecleticistas têm suas preferências para a leitura com θεὸς em função da descoberta de dois papiros do segundo século que trazem essa leitura. Bruce Metzger defende essa opinião: “Com a aquisição de P66 [≈200 d.C] e P75 [início do terceiro século], ambos leem θεός , o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecida[16]”. Kostenberger and Swain demonstram mesma opinião: “Com a aquisição de P66 e P75, em que ambas lêem μονογενς θες, a preponderancia da evidência agora nos leva em direção da última leitura [μονογενς θες] [17]”.

Entretanto, Pickering defende P75 tem uma leitura conflada[18]. A leitura que P75 traz é “ μονογενς θες” e Pickering entende que ela é resultado da leitura das outras duas leituras possíveis para o texto: “μονογενς θες” e “ μονογενς υἱὸς”. Em outras palavras, como “μονογενὴς” é um adjetivo (para ele) e não é modificado por artigo, algum copista deve ter adaptado a leitura das duas leituras para produzir a leitura de P75. Se Pickering está certo, ambas as leituras são atestadas com mesma antiguidade.

Já Ehrman entende que P66 e P75 não são tão significativos para a crítica textual nesse verso. Segundo ele, a descoberta dessas duas testemunhas fez pouco para a consideração das evidências documentais, e não fez “nada para alterar o quadro[19]” da crítica nesse verso, pois eles acabaram por demonstrar algo que já era conhecido pelos críticos: documentos do segundo (Diatessaron), ou terceiro século (Orígenes, Versões Copta Boárica) já traziam essa leitura.

Essa argumentação em favor da antiguidade da data de ambas as leituras é percebida pelas citações dos pais da Igreja: Herácleto, Ptolomeu, Irineu, Clemente e Orígenes já no segundo e terceiro século usavam a leitura com “Deus”; enquanto Teódoto, Tertuliano, Hipólito, Irineu, Clemente e Orígenes citavam a leitura com “Filho”. O fato de que o mesmo Pai da Igreja tenha citado as duas possibilidades nos faz pensar no contexto em que teriam usado, ou qual das leituras teriam apoiado. Porém, neste, ressaltaremos apenas o caráter cronológico das evidências. Ou seja, seja qual for a leitura que Irineu, Clemente ou Orígenes tenham preferência, o fato é que ambas as leituras estavam disponíveis desde a segunda metade do segundo século. Portanto, podemos dizer que, do ponto de vista da idade da leitura, ambas parecem consistentemente conhecidas já no segundo século.

Contudo, temos que ter alguma reserva quanto a objeção de Ehrman sobre P66 e P75. Muito embora outros cristãos ortodoxos concordem com ele (cf. Brian Write), em termos de atestação documental, o P66 é o mais antigo manuscrito nessa disputa. Ainda que os pais da igreja, nesse mesmo período, já conhecessem ambas as leituras, P66 acresce valor documental à análise. Enquanto um pai da Igreja poderia aludir um texto, ou citá-lo de memória e com isso apresentar um texto longe de sua forma original, ou até mesmo disponível ao autor, um Papiro tem sua leitura claramente apresentada. Ou seja, para que P66 não tenha valor nessa discussão tem que se assumir que P66 é uma fraude nesse verso, o que não parece o caso (como demonstraremos com mais detalhes).

Ou seja, do ponto de vista documental, parece mais plausível que a leitura predominantemente alexandrina, “μονογενὴς θεός”, seja a mais primitiva das leituras.

TIPO-TEXTO e GEOGRAFIA

Outro dilema para esse texto é que os defensores da leitura “ μονογενς υἱὸς” afirmam que a leitura com “θεός” não é consistente fora da tradição alexandrina. Pickering defende que a leitura com “θεός” tem origem no Egito. Ehman defende que todas as famílias de texto (Ocidental, Bizantina e Cesarena) estão coesas na defesa da leitura de “Filho” enquanto a variante com “Deus” parece isolada na família alexandrina.

Sobre a tradição alexandrina nesse verso, não há dúvidas que o arquétipo textual é a leitura com “θεός”, e não conheço alguém que ousasse discordar dessa opinião: Os mais antigos papiros (P66 e P75) e o mais antigo uncial (B) suportam essa leitura. Entretanto, a pergunta que cabe aqui é: Essa leitura é exclusivamente alexandrina?

Que a maioria dos manuscritos seguem a tradição bizantina, não há qualquer dúvida. Que a leitura bizantina (Filho) é atestada com mais solidez nas diferentes famílias textuais, também não há qualquer dúvida. A questão que precisa ser melhor analisada é a suposta solidão alexandrina na defesa de “θεός”.

Um dos fatos que parecem ter sido ignorados por Ehrman e Pickering é que o Códice Sinaítico traz a leitura com “θεός”. Em geral, o Sinaítico acompanha a leitura do Códice Vaticano e de P75, e por isso é reconhecido como representante da tradição alexandrina. Contudo, o Sinaítico “também tem uma força definida de leitura do tipo-texto Ocidental[20]”. Gordon Fee, após analisar as evidências do Sinaítico em comparação com outros documentos, chegou a seguinte conclusão: “O Códice Sinaítico é um grande representante grego da tradição textual Ocidental em João 1.1-8.38[21]”. Se Fee está correto em sua análise, o Códice Sinaítico é o mais antigo representante da tradição Ocidental no dilema de Jo.1.18. Isso significa que, é possível que a leitura com “θεός” represente o arquétipo Ocidental.

Essa informação parece colocar as teorias de Ehrman e Pickering sob suspeita. Uma vez que as mais antigas leituras Ocidentais e Alexandrinas estão apontado para a mesma leitura, temos forte evidência de que a forma mais primitiva do texto lia “μονογενὴς θεός”.

Outro fato que nos surpreende na análise das evidências disponíveis é que a Peshita (syrp), que é reconhecida como favorável à tradição bizantina nos evangelhos, apóia a leitura “μονογενὴς θεός”. A versão Georgiana, que normalmente é reconhecida como representante da tradição Cesareana, também concorda com Peshita. O mesmo acontece com as versões copta. Ou seja, as mais antigas versões do NT não fazem menção à leitura com “υἱός”.

Dessa forma, se considerarmos a antiguidade da leitura “μονογενὴς θεός”, e sua atestação geográfica, podemos assumir que é provável que essa tenha sido a leitura seja a forma mais primitiva do texto que dispomos. Se considerarmos a qualidade dos documentos que atestam essa leitura, ela é certamente favorecida. Segue-se que, a conclusão mais plausível até aqui é que “μονογενὴς θεός” é a leitura mais primitiva do texto.

DEBATES TEOLÓGICOS

Alguns acreditam que a leitura “μονογενὴς θεός” teria surgido como uma reação ortodoxa à teologia ariana. Entretanto, tal afirmação não faz o menor sentido, uma vez que, segundo Epifânio, o próprio Ário teria usado essa passagem com essa leitura. Outro detalhe importante é que Ário, como os Testemunha de Jeová, não tem o menor problema em chamar o Logos de Deus. Em uma carta a Eusébio, bispo de Nicomédia, Ário escreveu: “Mas, o que dizemos e pensamos? O que temos dito e ensinado? Que o Filho não é não-gerado ou uma parte do Não-Gerado em nenhuma forma ou substrato, mas que pela vontade e conselho do Pai ele subsiste antes do tempo e das eras, cheio de graça e verdade, Deus, o unigênito, imutável[22]”.

Outro fato que merece atenção, é que, para que essa acusação pudesse ser levada em conta, dever-se-ia comprovar que essa leitura teria surgido no período da controvérsia ariana, entretanto, já se demonstrou que ela é anterior. Isso, sem contar que, alterar o prólogo do evangelho e permitir mais três outras citações da expressão “Filho unigênito” na literatura joanina não faz o menor sentido. Caso um copista almejasse resolver a controvérsia ariana alterando o texto do NT, ele teria feito um péssimo trabalho alterando apenas uma ocorrência de quatro. Esse argumento não faz o menor sentido.

Há ainda, outro argumento para se rejeitar a leitura “μονογενὴς θεός”. Ehrman argumenta que essa variante é fruto de uma alteração ortodoxa anti-adocionista. Uma vez que para Ehrman a leitura com “Filho” lhe parece original, a explicação que ele oferece é que um copista, visando defender a divindade de Cristo alterou o texto[23]. O conceito é o mesmo que o anterior, entretanto, Ehrman é um pouco mais acurado cronologicamente. No segundo século o ebionismo já era conhecido e combatido pelos Pais da Igreja. Tertuliano e Orígenes já teriam escrito sobre eles no fim do segundo século início do terceiro.

Contudo, parece novamente improvável que um copista alterasse o texto justamente essa parte do texto para promover a defesa da divindade de Cristo. Só nos primeiros versos, o Logos já havia sido chamado de pré-existente, criador e Deus. Sem contar que não existe qualquer conotação adocionista na nomenclatura de Filho do Logos. A questão adocionista parece muito mais ligada ao “quando” essa filiação aconteceu do que ao fato de o Logos é Filho.

Ou seja, defender a leitura “μονογενὴς θεός” como uma alteração ortodoxa do texto para validar a divindade de Cristo em Jo.1.18, não parece aceitável.

PARECER PESSOAL

Em resumo às considerações levantadas acima, podemos dizer que:

  1. Ambas as leituras eram conhecidas no segundo século, considerando apenas que do ponto de vista documental, P66 traz relativa vantagem à leitura “μονογενὴς θεός”.
  2. No que se refere à distribuição geográfica há incontestável vantagem da leitura “ὁ μονογενὴς υἱὸς”, entretanto, as mais primitivas fontes que dispomos apontam para “μονογενὴς θεός” e são importantes representantes do tipo texto Ocidental (Sinaítico), Bizantino (Peshita) e Cesareana (Geo2).
  3. Do ponto de vista da qualidade documental, “μονογενὴς θεός” é claramente favorecida.
  4. Em relação aos ataques de corrupção ortodoxa, seja para combater o arianismo ou o adocionismo, a argumentação é primária e inconsistente e não minimiza a leitura “μονογενὴς θεός” em nenhum sentido.
  5. Portanto, ainda que as evidências externas não possam definir a questão, é bem provável que a leitura “μονογενὴς θεός” seja a melhor leitura para o texto.

Ortodoxia Eclético-Racional

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:48 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

No que se refere ao cristicismo no NT, há uma escola chamado ecleticismo racional, que defende que cada caso é um caso a ser analisado individualmente. Normalmente são favorávesis ao Texto Crítico (TC) e normalmente favoráveis às alexandrinas, por sua antiguidade e qualidade do material. Entre esses, existem os cristão verdadeiros que adotam esse modo de crítica e defendem suas posições com a preocupação de compreender e defender a fé.

Esses, em oposição à Velha Ortodoxia e à Nova Escola, defendem que a leitura “Deus Unigênito” é a leitura original e que, como essa expressão não acontece em nenhum lugar no NT foi harmonizada com tantas outras que trazem “Filho Unigênito” (Jo.3.16, 18; 1Jo.4.19). Nesse caso, tanto a leitura original (Deus) como a variante (Filho) teria sido produzida por cristãos.

A.T. Robertson defende essa opinião:

“Os melhores manuscritos antigos (Aleph, B, C, L) lêem monogenes theós (Deus Unigênito) que indubitavelmente é a leitura verdadeira do texto. Provavelmente algum escriba teria alterado para ‘ho monogenes huiós’ para suavizar a crua declaração da deidade de Cristo e para harmonizar com Jo.3.16[15]

Entretanto, o modo como se traduz o texto com essa variante é foco de constante ataque. Tanto Ehrman, quanto Pickering tem suas opiniões sobre a impossibilidade de que a fraseologia “μονογενής θεός” seja de fato joanina. Ou seja, os que adotam essa leitura ainda têm apresentar de modo claro e convincente sua defesa gramatical para que essa leitura possa ser aceita. Para quem está nessa posição, tem obrigação dobrada: além do dilema textual, tem que entrar em um debate gramatical.

*             *             *

O que se pode dizer até aqui é que, independente da leitura adotada, teólogos liberais, agnósticos e cristãos tem sua opinião sobre o que aconteceu com o texto. Mais interessante do que isso é os motivos estampados na defesa da Velha Ortodoxia e da Nova Escola são antagônicos: o primeiro rejeita a leitura com “θεός” por que é uma corrupção aparentemente gnóstica, enquanto o segundo a rejeita por ser uma leitura muito ortodoxa.

A verdade é que o consenso nesse texto é: esse é um dilema de difícil resolução. Por essa razão, vamos observar as evidências para considerar qual das opiniões supracitadas parece mais adequada.

Nova Escola

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:47 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

A Nova Escola é o nome normalmente atribuído ao movimento teológico não necessariamente cristão. Liberais, agnósticos e ateus podem defender suas “novas” idéias de “releitura” das escrituras do ponto de vista histórico. Trata-se de Teologia, pois no estudo ainda fala-se sobre Deus, entretanto Ele não é o foco nesse estudo. Entre esses, Bart Ehrman tem-se mostrado influente. Em seu livro The Orthodox Corruption of the Scripture, Ehrman se propõe a demonstrar como os ortodoxos do passado alteraram o NT para que ele defendesse o que eles entendiam por ortodoxia.

Para ele, Jo.1.18 é um claro exemplo disso: Os cristãos ortodoxos alteraram a leitura original “Filho Unigênito” para defender a divindade do Logos. Nas palavras de Ehrman:

A leitura variante da tradição Alexandrina, que substitui ‘Filho’ por ‘Deus’, representa uma corrupção ortodoxa, onde a completa divindade do Filho é afirmada: O único Deus que está no seio de Deus, esse o fez conhecido[12]

Na posição completamente oposta da Velha Ortodoxia, Ehrman acaba por concordar com ela nesse verso, pois ambos suportam que “Filho unigênito” é a leitura original. O que me fascina é que a razão pela qual ele opta por essa leitura: A defesa da divindade de Cristo. Como agnóstico, Ehrman não tem qualquer compromisso em defender a Fé Ortodoxa, e por isso supõe que  uma declaração tão estampada da divindade de Cristo só pode ser uma fraude.

Do ponto de vista das evidências externas, Ehrman reconhece que os críticos normalmente tem suas preferência pelos leitura Alexandrina nesse texto, até por que os principais unciais (א , B, C) e os mais antigos documentos (P66 e P75) favorecem essa leitura. Entretanto, para ele, nesse caso seria um erro entender que as evidências externas como obrigatórias.

Do ponto das evidências internas, ele chega a dizer:

“O problema mais comum para aqueles que optam por [oJ] μονογενής θεός, mas que reconhecem que isso deve ser traduzido como ‘o único Deus’, é que isso é virtualmente impossível no contexto joanino, é como se entendesse o adjetivo substantivamente, e construir a segunda parte intera de João 1.18 como uma série de aposições[13]

Por isso, a conclusão de Ehrman é:

“O resultado de assumir o termo μονογενής θεός como dois substantivos estando em aposição produz uma sintaxe quase impossível, enquanto que a construção do relacionamento entre elas não produz sentido algum[14]”.

Velha Ortodoxia

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:45 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

Nesse artigo, passo a chamar Velha Ortodoxia o posicionamento de cristãos ortodoxos que defendem ou o Texto Recebido (TR) ou o Texto Majoritário (TM) e são normalmente favoráveis à leituras mais Bizantinas. Chamo velho não por estarem desatualizados, nem por representarem uma determinada faixa etária, mas por se tratar de um grupo que tem perdido sua expressão com o avanço do Texto Crítico. Os defensores do TR são certamente cristãos genuínos que por zelo (eventualmente exagerado) tendem a considerar a influencia Alexandrina no texto do NT como fermento e corrupção. E, portanto, entendem toda aproximação dos textos alexandrinos como perversão da verdade[8].

Para esse grupo a leitura “Deus unigênito” é uma perversão. Wilburn Pickering, que escreveu um excelente livro sobre crítica textual[9], defende essa posição. Segundo ele, nesse texto uma anomalia séria é introduzida, pois “Deus como Deus, não é gerado”. Sobre o assunto ele diz:

’Um deus unigênito’ é tão deliciosamente gnóstico que a origem egípcia aparente desta leitura a faz duplamente suspeita. Também seria possível traduzir a segunda leitura como “unigênito deus!”, enfatizando a qualidade [de ser Divino], e isto tem atraído muitos que aí vêem uma forte afirmação da divindade de Cristo. No entanto, se Cristo recebeu Sua “Divindade” através do processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade. Também “unigênito” não é análogo a “primogênito”, que se refere à prioridade de posição — isto poria o Filho acima do Pai. Não importa como a encaremos, a redação da UBS introduz uma anomalia séria[10]

Em outras palavras, o que Pickering quer dizer com isso é que, a anomalia produzida acresce uma pessoa à Trindade, pois se o texto diz “Deus unigênito” não pode fazer referência a Jesus Cristo. Mas, o que me chama mais a atenção é que para ele, tal variante é deliciosamente gnóstica. Com isso, estamos falando de um copista alterando o texto para apoiar suas próprias convicções e com isso defendendo uma opinião gnóstica.

É interessante que para Pickering, o conceito de “monogenes” tem que significa mais que apenas monos, e com isso ele não acredita que os usos do NT justifiquem a tradução “único” para o termo grego. Com isso, entendemos que ele apóia o entendimento de geração em “monogenes”. Por isso, não é de se espantar que ele considere a leitura da NIV (God the One and Only) como uma “fraude piedosa”.

Como nota-se, para a Velha Ortodoxia, as evidências são claras e em maior peso: A leitura Filho Unigênito é a original, enquanto, “Deus Unigênito” é uma alteração possivelmente gnóstica. Sem contar que, no que se refere a quantidade de evidência (que para eles é fundamental) há incomparável vantagem.

Também devemos atentar para o lembrete de Scrivener sobre esse texto: “Aqueles que irão recorrer exclusivamente a evidências antigas para a recensão do texto, provavelmente ficarão perplexos lidando com essa passagem. Os mais velhos manuscritos, versões e escritores estão desesperadamente divididos[11]”. Essa consideração é importante especialmente para aqueles que consideram a data como fator predominante para a tomada de decisão.

Identificando as Variantes

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:44 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

Brian J. Write sobre o assunto diz: “Todas as variantes (…) são divididas em dois grupos distintos ou lendo υἱὸς ou θεὸς. Se a última opção é escolhida, a decisão final depende da presença ou ausência do artigo[2]”. De qualquer forma, é importante que se diga que, para a Teologia do Novo Testamento, ambas as leituras não trazem dificuldade alguma[3], [4].

É interessante que um dilema tão difícil como esse possa ter nascido na alteração de apenas uma letra. Nos antigos unciais acontece um fenômeno bem recorrente que é o uso da Nomina Sacra, que nada mais é do que a abreviação das formas substantivas relacionadas à divindade. No caso, θεὸς e υἱὸς eram escritos como θC  e UC respectivamente. Ou seja, a simples troca de U por θ seria capaz de produzir tal mudança[5]. Para demonstrar como esse fato, veja abaixo a foto do Códice Vaticano e do Washingtonensis nesse trecho[6]:

Jo118Jo118 (W)

Entretanto, apesar de parecer muito simples e sutil essa alteração, as evidência demonstram que a compreensão de como isso poderia ter acontecido é muito mais complexo. A questão não limita-se apenas à alteração de uma letra, mas de como ela aconteceu: Quando aconteceu a primeira alteração, para qual opção teria sido? Por que razão? Era uma defesa ou ataque teológico? Será que trata-se de uma corrupção do texto original influenciado pelas heresias? Seria uma alteração apologética feita pelos ortodoxos? É possível que tenha acontecido por desatenção?

Ao certo, a resposta a essas perguntas depende da análise crítica das variantes, e é necessário que se diga que por mais acurada que uma análise possa ser, ela não é a garantia da verificação da verdade: Trata-se apenas de uma tentativa de compreender a verdade expostas nesses dilemas.

O primeiro passo que tomaremos nesse estudo é o reconhecimento das variantes textuais. Abaixo separo cada uma das variantes com os documentos que as suportam:

Leituras Possíveis[7]

Documentos

μονογενὴς θεὸς

Deus Unigênito

p66 א* B C* L pc syrp syrh(mg) geo2 Diatessarona Valentiniansaccording to Irenaeus Valentiniansaccording to Clement Ptolemy Heracleon Origengr(2/4) Ariusaccording to Epiphanius Apostolic Constitutions Didymus Ps-Ignatius Synesiusaccording to Epiphanius Cyril1/4

ὁ μονογενὴς θεὸς

O Deus Unigênito

p75 א2 33 pc copbo Theodotusaccording to Clement(1/2) Clement2/3 Origengr(2/4) Eusebius3/7 Serapion1/2 Basil1/2 Gregory-Nyssa Epiphanius Cyril3/4

ὁ μονογενὴς υἱὸς

O Filho Unigênito

A C E F G H K Wsupp X Δ Θ Π Ψ 063 0141 f1 f13 28 157 180 205 565 579 597 700 892 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1216 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 Byz Lect ita itaur itb itc ite itf itff2 itl vg syrc syrh syrpal arm eth geo1 slav Theodotusaccording to Clement(1/2) Theodotus Irenaeuslat(1/3) Clement1/3 Tertullian Hippolytus Origenlat(1/2) Letter of Hymenaeus Alexander Eustathius Eusebius4/7 Hegemonius Ambrosiaster Faustinus Serapion1/2 Victorinus-Rome Hilary5/7 Athanasius Titus-Bostra Basil1/2 Gregory-Nazianzus Gregory-Elvira Phoebadius Ambrose10/11 Chrysostom Synesius Jerome Theodore Augustine Nonnus Cyril1/4 Proclus Varimadum Theodoret Fulgentius Caesarius John-Damascus Ps-Priscillian ς

μονογενὴς υἱὸς θεοῦ

Filho Unigênito de Deus

itq (copsa? θεὸς) Irenaeuslat(1/3) Ambrose1/11(vid)

ὁ μονογενὴς

O Unigênito

vgms Diatessaron Jacob-Nisibis Ephraem Cyril-Jerusalem Ps-Ignatius Ps-Vigilius1/2 Nonnus Nestorius

Tendo demonstrado quais são as leituras variantes e os documentos que a suportam, gostaria de apresentar como se tem interpretado as evidências disponíveis. A verdade é que, diferentes teólogos têm interpretado de modo diferente as evidências disponíveis, e conhecer seus argumentos certamente enriquecerá nosso entendimento do dilema.

Introdução

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:43 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

——————————————————–

Um dos problemas textuais mais controvertidos é provavelmente o encontrado em Jo.1.18: Liberais e Ortodoxos tem suas impressões sobre ele, e todos tem seus motivos bem declarados. Aos que têm em mãos várias versões bíblicas já puderam perceber as possíveis leituras desse texto:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (ACF)

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (TNM)

“Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (BJ)

“Ninguém nunca viu a Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou” (NTHL)

“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (ARA)

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (NVI)

“A Dios nadie Le vio jamás; el unigênito Hijo, que está em el seno del Padre, el Le há dado a conocer” (ACR)

“Dios nadie lo ha visto nunca; el Hijo unigénito, que es Dios y que vive en unión íntima con el Padre, nos lo ha dado a conocer” (NVI)

“No man hath seen God at any time; the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him” (KJV)

“No one has ever seen God, but God the One and Only, who is at the Father’s side, has made him known” (NIV)

“No one has ever seen God. The only Son, God, who is at the Father’s side, has revealed him” (NAB)

“No one has ever seen God. The only one, himself God, who is in the presence of the Father, has made God known” (NET)

Diante da diversidade das versões, mesmo em português, nos perguntamos: Qual dessas traduções traz a leitura correta? O que é fato assumido como certeza nessa discussão é que apenas uma das leituras variantes pode ser a original. Provavelmente, essa é a única certeza que temos quanto a esse dilema textual[1].

A disputa nesse verso está entre cinco leituras encontradas em manuscritos gregos:

  1. monogenes théos: lit. Deus Unigênito
  2. ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
  3. ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
  4. monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
  5. ho monogenes: lit. o Unigênito

Muito embora sejam cinco as leituras variantes, normalmente tomam-se apenas como duas opções de fato: as duas primeiras testemunham a mesma leitura enquanto a quarta e a quinta são tão improváveis (do ponto de vista das evidências externas) que quase não são consideradas. Sobre isso iremos falar mais adiante. Por ora, vamos conhecer melhor as leituras disponíveis e os documentos que trazem tais leituras.

08.03.09

O que dizer do problema textual de Jo.1.18?

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , , às 5:44 pm por Marcelo Berti

Marcelo Berti

Um dos problemas textuais mais controvertidos é provavelmente o encontrado em Jo.1.18: Liberais e Ortodoxos tem suas impressões sobre ele, e todos tem seus motivos bem declarados. Aos que têm em mãos várias versões bíblicas já puderam perceber as possíveis leituras desse texto:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (ACF)

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (TNM)

“Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (BJ)

“Ninguém nunca viu a Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou” (NTHL)

“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (ARA)

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (NVI)

“A Dios nadie Le vio jamás; el unigênito Hijo, que está em el seno del Padre, el Le há dado a conocer” (ACR)

“Dios nadie lo ha visto nunca; el Hijo unigénito, que es Dios y que vive en unión íntima con el Padre, nos lo ha dado a conocer” (NVI)

“No man hath seen God at any time; the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him” (KJV)

“No one has ever seen God, but God the One and Only, who is at the Father’s side, has made him known” (NIV)

“No one has ever seen God. The only Son, God, who is at the Father’s side, has revealed him” (NAB)

“No one has ever seen God. The only one, himself God, who is in the presence of the Father, has made God known” (NET)

Diante da diversidade das versões, mesmo em português, nos perguntamos: Qual dessas traduções traz a leitura correta? O que é fato assumido como certeza nessa discussão é que apenas uma das leituras variantes pode ser a original. Provavelmente, essa é a única certeza que temos quanto a esse dilema textual[1].

A disputa nesse verso está entre cinco leituras encontradas em manuscritos gregos:

  1. monogenes théos: lit. Deus Unigênito
  2. ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
  3. ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
  4. monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
  5. ho monogenes: lit. o Unigênito

Muito embora sejam cinco as leituras variantes, normalmente tomam-se apenas como duas opções de fato: as duas primeiras testemunham a mesma leitura enquanto a quarta e a quinta são tão improváveis (do ponto de vista das evidências externas) que quase não são consideradas. Sobre isso iremos falar mais adiante. Por ora, vamos conhecer melhor as leituras disponíveis e os documentos que trazem tais leituras.

Identificando as possíveis variantes

Brian J. Write sobre o assunto diz: “Todas as variantes (…) são divididas em dois grupos distintos ou lendo υἱὸς ou θεὸς. Se a última opção é escolhida, a decisão final depende da presença ou ausência do artigo[2]”. De qualquer forma, é importante que se diga que, para a Teologia do Novo Testamento, ambas as leituras não trazem dificuldade alguma[3], [4].

É interessante que um dilema tão difícil como esse possa ter nascido na alteração de apenas uma letra. Nos antigos unciais acontece um fenômeno bem recorrente que é o uso da Nomina Sacra, que nada mais é do que a abreviação das formas substantivas relacionadas à divindade. No caso, θεὸς e υἱὸς eram escritos como θC  e UC respectivamente. Ou seja, a simples troca de U por θ seria capaz de produzir tal mudança[5]. Para demonstrar como esse fato, veja abaixo a foto do Códice Vaticano e do Washingtonensis nesse trecho[6]:

Jo118Jo118 (W)

Entretanto, apesar de parecer muito simples e sutil essa alteração, as evidência demonstram que a compreensão de como isso poderia ter acontecido é muito mais complexo. A questão não limita-se apenas à alteração de uma letra, mas de como ela aconteceu: Quando aconteceu a primeira alteração, para qual opção teria sido? Por que razão? Era uma defesa ou ataque teológico? Será que trata-se de uma corrupção do texto original influenciado pelas heresias? Seria uma alteração apologética feita pelos ortodoxos? É possível que tenha acontecido por desatenção?

Ao certo, a resposta a essas perguntas depende da análise crítica das variantes, e é necessário que se diga que por mais acurada que uma análise possa ser, ela não é a garantia da verificação da verdade: Trata-se apenas de uma tentativa de compreender a verdade expostas nesses dilemas.

O primeiro passo que tomaremos nesse estudo é o reconhecimento das variantes textuais. Abaixo separo cada uma das variantes com os documentos que as suportam:

Leituras Possíveis[7]

Documentos

μονογενὴς θεὸς

Deus Unigênito

p66 א* B C* L pc syrp syrh(mg) geo2 Diatessarona Valentiniansaccording to Irenaeus Valentiniansaccording to Clement Ptolemy Heracleon Origengr(2/4) Ariusaccording to Epiphanius Apostolic Constitutions Didymus Ps-Ignatius Synesiusaccording to Epiphanius Cyril1/4

ὁ μονογενὴς θεὸς

O Deus Unigênito

p75 א2 33 pc copbo Theodotusaccording to Clement(1/2) Clement2/3 Origengr(2/4) Eusebius3/7 Serapion1/2 Basil1/2 Gregory-Nyssa Epiphanius Cyril3/4

ὁ μονογενὴς υἱὸς

O Filho Unigênito

A C E F G H K Wsupp X Δ Θ Π Ψ 063 0141 f1 f13 28 157 180 205 565 579 597 700 892 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1216 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 Byz Lect ita itaur itb itc ite itf itff2 itl vg syrc syrh syrpal arm eth geo1 slav Theodotusaccording to Clement(1/2) Theodotus Irenaeuslat(1/3) Clement1/3 Tertullian Hippolytus Origenlat(1/2) Letter of Hymenaeus Alexander Eustathius Eusebius4/7 Hegemonius Ambrosiaster Faustinus Serapion1/2 Victorinus-Rome Hilary5/7 Athanasius Titus-Bostra Basil1/2 Gregory-Nazianzus Gregory-Elvira Phoebadius Ambrose10/11 Chrysostom Synesius Jerome Theodore Augustine Nonnus Cyril1/4 Proclus Varimadum Theodoret Fulgentius Caesarius John-Damascus Ps-Priscillian ς

μονογενὴς υἱὸς θεοῦ

Filho Unigênito de Deus

itq (copsa? θεὸς) Irenaeuslat(1/3) Ambrose1/11(vid)

ὁ μονογενὴς

O Unigênito

vgms Diatessaron Jacob-Nisibis Ephraem Cyril-Jerusalem Ps-Ignatius Ps-Vigilius1/2 Nonnus Nestorius

Tendo demonstrado quais são as leituras variantes e os documentos que a suportam, gostaria de apresentar como se tem interpretado as evidências disponíveis. A verdade é que, diferentes teólogos têm interpretado de modo diferente as evidências disponíveis, e conhecer seus argumentos certamente enriquecerá nosso entendimento do dilema.

Posições Conhecidas

Velha Ortodoxia

Nesse artigo, passo a chamar Velha Ortodoxia o posicionamento de cristãos ortodoxos que defendem ou o Texto Recebido (TR) ou o Texto Majoritário (TM) e são normalmente favoráveis à leituras mais Bizantinas. Chamo velho não por estarem desatualizados, nem por representarem uma determinada faixa etária, mas por se tratar de um grupo que tem perdido sua expressão com o avanço do Texto Crítico. Os defensores do TR são certamente cristãos genuínos que por zelo (eventualmente exagerado) tendem a considerar a influencia Alexandrina no texto do NT como fermento e corrupção. E, portanto, entendem toda aproximação dos textos alexandrinos como perversão da verdade[8].

Para esse grupo a leitura “Deus unigênito” é uma perversão. Wilburn Pickering, que escreveu um excelente livro sobre crítica textual[9], defende essa posição. Segundo ele, nesse texto uma anomalia séria é introduzida, pois “Deus como Deus, não é gerado”. Sobre o assunto ele diz:

’Um deus unigênito’ é tão deliciosamente gnóstico que a origem egípcia aparente desta leitura a faz duplamente suspeita. Também seria possível traduzir a segunda leitura como “unigênito deus!”, enfatizando a qualidade [de ser Divino], e isto tem atraído muitos que aí vêem uma forte afirmação da divindade de Cristo. No entanto, se Cristo recebeu Sua “Divindade” através do processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade. Também “unigênito” não é análogo a “primogênito”, que se refere à prioridade de posição — isto poria o Filho acima do Pai. Não importa como a encaremos, a redação da UBS introduz uma anomalia séria[10]

Em outras palavras, o que Pickering quer dizer com isso é que, a anomalia produzida acresce uma pessoa à Trindade, pois se o texto diz “Deus unigênito” não pode fazer referência a Jesus Cristo. Mas, o que me chama mais a atenção é que para ele, tal variante é deliciosamente gnóstica. Com isso, estamos falando de um copista alterando o texto para apoiar suas próprias convicções e com isso defendendo uma opinião gnóstica.

É interessante que para Pickering, o conceito de “monogenes” tem que significa mais que apenas monos, e com isso ele não acredita que os usos do NT justifiquem a tradução “único” para o termo grego. Com isso, entendemos que ele apóia o entendimento de geração em “monogenes”. Por isso, não é de se espantar que ele considere a leitura da NIV (God the One and Only) como uma “fraude piedosa”.

Como nota-se, para a Velha Ortodoxia, as evidências são claras e em maior peso: A leitura Filho Unigênito é a original, enquanto, “Deus Unigênito” é uma alteração possivelmente gnóstica. Sem contar que, no que se refere a quantidade de evidência (que para eles é fundamental) há incomparável vantagem.

Também devemos atentar para o lembrete de Scrivener sobre esse texto: “Aqueles que irão recorrer exclusivamente a evidências antigas para a recensão do texto, provavelmente ficarão perplexos lidando com essa passagem. Os mais velhos manuscritos, versões e escritores estão desesperadamente divididos[11]”. Essa consideração é importante especialmente para aqueles que consideram a data como fator predominante para a tomada de decisão.

Nova Escola

A Nova Escola é o nome normalmente atribuído ao movimento teológico não necessariamente cristão. Liberais, agnósticos e ateus podem defender suas “novas” idéias de “releitura” das escrituras do ponto de vista histórico. Trata-se de Teologia, pois no estudo ainda fala-se sobre Deus, entretanto Ele não é o foco nesse estudo. Entre esses, Bart Ehrman tem-se mostrado influente. Em seu livro The Orthodox Corruption of the Scripture, Ehrman se propõe a demonstrar como os ortodoxos do passado alteraram o NT para que ele defendesse o que eles entendiam por ortodoxia.

Para ele, Jo.1.18 é um claro exemplo disso: Os cristãos ortodoxos alteraram a leitura original “Filho Unigênito” para defender a divindade do Logos. Nas palavras de Ehrman:

A leitura variante da tradição Alexandrina, que substitui ‘Filho’ por ‘Deus’, representa uma corrupção ortodoxa, onde a completa divindade do Filho é afirmada: O único Deus que está no seio de Deus, esse o fez conhecido[12]

Na posição completamente oposta da Velha Ortodoxia, Ehrman acaba por concordar com ela nesse verso, pois ambos suportam que “Filho unigênito” é a leitura original. O que me fascina é que a razão pela qual ele opta por essa leitura: A defesa da divindade de Cristo. Como agnóstico, Ehrman não tem qualquer compromisso em defender a Fé Ortodoxa, e por isso supõe que  uma declaração tão estampada da divindade de Cristo só pode ser uma fraude.

Do ponto de vista das evidências externas, Ehrman reconhece que os críticos normalmente tem suas preferência pelos leitura Alexandrina nesse texto, até por que os principais unciais (א , B, C) e os mais antigos documentos (P66 e P75) favorecem essa leitura. Entretanto, para ele, nesse caso seria um erro entender que as evidências externas como obrigatórias.

Do ponto das evidências internas, ele chega a dizer:

“O problema mais comum para aqueles que optam por [oJ] μονογενής θεός, mas que reconhecem que isso deve ser traduzido como ‘o único Deus’, é que isso é virtualmente impossível no contexto joanino, é como se entendesse o adjetivo substantivamente, e construir a segunda parte intera de João 1.18 como uma série de aposições[13]

Por isso, a conclusão de Ehrman é:

“O resultado de assumir o termo μονογενής θεός como dois substantivos estando em aposição produz uma sintaxe quase impossível, enquanto que a construção do relacionamento entre elas não produz sentido algum[14]”.

Ortodoxia Eclético-Racional

No que se refere ao cristicismo no NT, há uma escola chamado ecleticismo racional, que defende que cada caso é um caso a ser analisado individualmente. Normalmente são favorávesis ao Texto Crítico (TC) e normalmente favoráveis às alexandrinas, por sua antiguidade e qualidade do material. Entre esses, existem os cristão verdadeiros que adotam esse modo de crítica e defendem suas posições com a preocupação de compreender e defender a fé.

Esses, em oposição à Velha Ortodoxia e à Nova Escola, defendem que a leitura “Deus Unigênito” é a leitura original e que, como essa expressão não acontece em nenhum lugar no NT foi harmonizada com tantas outras que trazem “Filho Unigênito” (Jo.3.16, 18; 1Jo.4.19). Nesse caso, tanto a leitura original (Deus) como a variante (Filho) teria sido produzida por cristãos.

A.T. Robertson defende essa opinião:

“Os melhores manuscritos antigos (Aleph, B, C, L) lêem monogenes theós (Deus Unigênito) que indubitavelmente é a leitura verdadeira do texto. Provavelmente algum escriba teria alterado para ‘ho monogenes huiós’ para suavizar a crua declaração da deidade de Cristo e para harmonizar com Jo.3.16[15]

Entretanto, o modo como se traduz o texto com essa variante é foco de constante ataque. Tanto Ehrman, quanto Pickering tem suas opiniões sobre a impossibilidade de que a fraseologia “μονογενής θεός” seja de fato joanina. Ou seja, os que adotam essa leitura ainda têm apresentar de modo claro e convincente sua defesa gramatical para que essa leitura possa ser aceita. Para quem está nessa posição, tem obrigação dobrada: além do dilema textual, tem que entrar em um debate gramatical.

*             *             *

O que se pode dizer até aqui é que, independente da leitura adotada, teólogos liberais, agnósticos e cristãos tem sua opinião sobre o que aconteceu com o texto. Mais interessante do que isso é os motivos estampados na defesa da Velha Ortodoxia e da Nova Escola são antagônicos: o primeiro rejeita a leitura com “θεός” por que é uma corrupção aparentemente gnóstica, enquanto o segundo a rejeita por ser uma leitura muito ortodoxa.

A verdade é que o consenso nesse texto é: esse é um dilema de difícil resolução. Por essa razão, vamos observar as evidências para considerar qual das opiniões supracitadas parece mais adequada.

Análise das Evidências

Evidências Externas

A análise da evidência externa nesse tem diversos dilemas, e à medida que observamos as evidências e as informações disponíveis ao autor, vamos tentar tratar desses dilemas com cautela.

DATA

No que se refere a data das leituras variantes, as diferentes escolas tem apresentado sua opinião. Alguns ortodoxos ecleticistas têm suas preferências para a leitura com θεὸς em função da descoberta de dois papiros do segundo século que trazem essa leitura. Bruce Metzger defende essa opinião: “Com a aquisição de P66 [≈200 d.C] e P75 [início do terceiro século], ambos leem θεός , o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecida[16]”. Kostenberger and Swain demonstram mesma opinião: “Com a aquisição de P66 e P75, em que ambas lêem μονογενς θες, a preponderancia da evidência agora nos leva em direção da última leitura [μονογενς θες] [17]”.

Entretanto, Pickering defende P75 tem uma leitura conflada[18]. A leitura que P75 traz é “ μονογενς θες” e Pickering entende que ela é resultado da leitura das outras duas leituras possíveis para o texto: “μονογενς θες” e “ μονογενς υἱὸς”. Em outras palavras, como “μονογενὴς” é um adjetivo (para ele) e não é modificado por artigo, algum copista deve ter adaptado a leitura das duas leituras para produzir a leitura de P75. Se Pickering está certo, ambas as leituras são atestadas com mesma antiguidade.

Já Ehrman entende que P66 e P75 não são tão significativos para a crítica textual nesse verso. Segundo ele, a descoberta dessas duas testemunhas fez pouco para a consideração das evidências documentais, e não fez “nada para alterar o quadro[19]” da crítica nesse verso, pois eles acabaram por demonstrar algo que já era conhecido pelos críticos: documentos do segundo (Diatessaron), ou terceiro século (Orígenes, Versões Copta Boárica) já traziam essa leitura.

Essa argumentação em favor da antiguidade da data de ambas as leituras é percebida pelas citações dos pais da Igreja: Herácleto, Ptolomeu, Irineu, Clemente e Orígenes já no segundo e terceiro século usavam a leitura com “Deus”; enquanto Teódoto, Tertuliano, Hipólito, Irineu, Clemente e Orígenes citavam a leitura com “Filho”. O fato de que o mesmo Pai da Igreja tenha citado as duas possibilidades nos faz pensar no contexto em que teriam usado, ou qual das leituras teriam apoiado. Porém, neste, ressaltaremos apenas o caráter cronológico das evidências. Ou seja, seja qual for a leitura que Irineu, Clemente ou Orígenes tenham preferência, o fato é que ambas as leituras estavam disponíveis desde a segunda metade do segundo século. Portanto, podemos dizer que, do ponto de vista da idade da leitura, ambas parecem consistentemente conhecidas já no segundo século.

Contudo, temos que ter alguma reserva quanto a objeção de Ehrman sobre P66 e P75. Muito embora outros cristãos ortodoxos concordem com ele (cf. Brian Write), em termos de atestação documental, o P66 é o mais antigo manuscrito nessa disputa. Ainda que os pais da igreja, nesse mesmo período, já conhecessem ambas as leituras, P66 acresce valor documental à análise. Enquanto um pai da Igreja poderia aludir um texto, ou citá-lo de memória e com isso apresentar um texto longe de sua forma original, ou até mesmo disponível ao autor, um Papiro tem sua leitura claramente apresentada. Ou seja, para que P66 não tenha valor nessa discussão tem que se assumir que P66 é uma fraude nesse verso, o que não parece o caso (como demonstraremos com mais detalhes).

Ou seja, do ponto de vista documental, parece mais plausível que a leitura predominantemente alexandrina, “μονογενὴς θεός”, seja a mais primitiva das leituras.

TIPO-TEXTO e GEOGRAFIA

Outro dilema para esse texto é que os defensores da leitura “ μονογενς υἱὸς” afirmam que a leitura com “θεός” não é consistente fora da tradição alexandrina. Pickering defende que a leitura com “θεός” tem origem no Egito. Ehman defende que todas as famílias de texto (Ocidental, Bizantina e Cesarena) estão coesas na defesa da leitura de “Filho” enquanto a variante com “Deus” parece isolada na família alexandrina.

Sobre a tradição alexandrina nesse verso, não há dúvidas que o arquétipo textual é a leitura com “θεός”, e não conheço alguém que ousasse discordar dessa opinião: Os mais antigos papiros (P66 e P75) e o mais antigo uncial (B) suportam essa leitura. Entretanto, a pergunta que cabe aqui é: Essa leitura é exclusivamente alexandrina?

Que a maioria dos manuscritos seguem a tradição bizantina, não há qualquer dúvida. Que a leitura bizantina (Filho) é atestada com mais solidez nas diferentes famílias textuais, também não há qualquer dúvida. A questão que precisa ser melhor analisada é a suposta solidão alexandrina na defesa de “θεός”.

Um dos fatos que parecem ter sido ignorados por Ehrman e Pickering é que o Códice Sinaítico traz a leitura com “θεός”. Em geral, o Sinaítico acompanha a leitura do Códice Vaticano e de P75, e por isso é reconhecido como representante da tradição alexandrina. Contudo, o Sinaítico “também tem uma força definida de leitura do tipo-texto Ocidental[20]”. Gordon Fee, após analisar as evidências do Sinaítico em comparação com outros documentos, chegou a seguinte conclusão: “O Códice Sinaítico é um grande representante grego da tradição textual Ocidental em João 1.1-8.38[21]”. Se Fee está correto em sua análise, o Códice Sinaítico é o mais antigo representante da tradição Ocidental no dilema de Jo.1.18. Isso significa que, é possível que a leitura com “θεός” represente o arquétipo Ocidental.

Essa informação parece colocar as teorias de Ehrman e Pickering sob suspeita. Uma vez que as mais antigas leituras Ocidentais e Alexandrinas estão apontado para a mesma leitura, temos forte evidência de que a forma mais primitiva do texto lia “μονογενὴς θεός”.

Outro fato que nos surpreende na análise das evidências disponíveis é que a Peshita (syrp), que é reconhecida como favorável à tradição bizantina nos evangelhos, apóia a leitura “μονογενὴς θεός”. A versão Georgiana, que normalmente é reconhecida como representante da tradição Cesareana, também concorda com Peshita. O mesmo acontece com as versões copta. Ou seja, as mais antigas versões do NT não fazem menção à leitura com “υἱός”.

Dessa forma, se considerarmos a antiguidade da leitura “μονογενὴς θεός”, e sua atestação geográfica, podemos assumir que é provável que essa tenha sido a leitura seja a forma mais primitiva do texto que dispomos. Se considerarmos a qualidade dos documentos que atestam essa leitura, ela é certamente favorecida. Segue-se que, a conclusão mais plausível até aqui é que “μονογενὴς θεός” é a leitura mais primitiva do texto.

DEBATES TEOLÓGICOS

Alguns acreditam que a leitura “μονογενὴς θεός” teria surgido como uma reação ortodoxa à teologia ariana. Entretanto, tal afirmação não faz o menor sentido, uma vez que, segundo Epifânio, o próprio Ário teria usado essa passagem com essa leitura. Outro detalhe importante é que Ário, como os Testemunha de Jeová, não tem o menor problema em chamar o Logos de Deus. Em uma carta a Eusébio, bispo de Nicomédia, Ário escreveu: “Mas, o que dizemos e pensamos? O que temos dito e ensinado? Que o Filho não é não-gerado ou uma parte do Não-Gerado em nenhuma forma ou substrato, mas que pela vontade e conselho do Pai ele subsiste antes do tempo e das eras, cheio de graça e verdade, Deus, o unigênito, imutável[22]”.

Outro fato que merece atenção, é que, para que essa acusação pudesse ser levada em conta, dever-se-ia comprovar que essa leitura teria surgido no período da controvérsia ariana, entretanto, já se demonstrou que ela é anterior. Isso, sem contar que, alterar o prólogo do evangelho e permitir mais três outras citações da expressão “Filho unigênito” na literatura joanina não faz o menor sentido. Caso um copista almejasse resolver a controvérsia ariana alterando o texto do NT, ele teria feito um péssimo trabalho alterando apenas uma ocorrência de quatro. Esse argumento não faz o menor sentido.

Há ainda, outro argumento para se rejeitar a leitura “μονογενὴς θεός”. Ehrman argumenta que essa variante é fruto de uma alteração ortodoxa anti-adocionista. Uma vez que para Ehrman a leitura com “Filho” lhe parece original, a explicação que ele oferece é que um copista, visando defender a divindade de Cristo alterou o texto[23]. O conceito é o mesmo que o anterior, entretanto, Ehrman é um pouco mais acurado cronologicamente. No segundo século o ebionismo já era conhecido e combatido pelos Pais da Igreja. Tertuliano e Orígenes já teriam escrito sobre eles no fim do segundo século início do terceiro.

Contudo, parece novamente improvável que um copista alterasse o texto justamente essa parte do texto para promover a defesa da divindade de Cristo. Só nos primeiros versos, o Logos já havia sido chamado de pré-existente, criador e Deus. Sem contar que não existe qualquer conotação adocionista na nomenclatura de Filho do Logos. A questão adocionista parece muito mais ligada ao “quando” essa filiação aconteceu do que ao fato de o Logos é Filho.

Ou seja, defender a leitura “μονογενὴς θεός” como uma alteração ortodoxa do texto para validar a divindade de Cristo em Jo.1.18, não parece aceitável.

PARECER PESSOAL

Em resumo às considerações levantadas acima, podemos dizer que:

  1. Ambas as leituras eram conhecidas no segundo século, considerando apenas que do ponto de vista documental, P66 traz relativa vantagem à leitura “μονογενὴς θεός”.
  2. No que se refere à distribuição geográfica há incontestável vantagem da leitura “ὁ μονογενὴς υἱὸς”, entretanto, as mais primitivas fontes que dispomos apontam para “μονογενὴς θεός” e são importantes representantes do tipo texto Ocidental (Sinaítico), Bizantino (Peshita) e Cesareana (Geo2).
  3. Do ponto de vista da qualidade documental, “μονογενὴς θεός” é claramente favorecida.
  4. Em relação aos ataques de corrupção ortodoxa, seja para combater o arianismo ou o adocionismo, a argumentação é primária e inconsistente e não minimiza a leitura “μονογενὴς θεός” em nenhum sentido.
  5. Portanto, ainda que as evidências externas não possam definir a questão, é bem provável que a leitura “μονογενὴς θεός” seja a melhor leitura para o texto.

Evidências Internas

Da mesma forma que a análise das evidências externas, na análise das evidências internas vamos observar que a interpretação textual move-se para ambas as leituras. Aliás, a leitura que pareceu favorável nas evidências externas, é atacada com mais intensidade aqui. E à semelhança da análise já realizada, aqui trataremos dos dilemas à medida que conhecemos os argumentos de cada lado da disputa.

CONSISTÊNCIA DA LEITURA

O principal argumento contra a leitura “μονογενὴς θεός” é que ela parece inconsistente com a literatura joanina. Do ponto de vista da estatística, na literatura joanina μονογενὴς refere-se exclusivamente ao Filho (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.19). No Novo Testamento, à exceção de uma passagem (Hb.11.17), todos os usos de μονογενὴς  fazem referência a um filho que é único (Lc.7.12; 8.42; 9.38).

O segundo argumento é que a frase “μονογενὴς θεός“ não é encontrada em nenhum outro lugar no Novo Testamento e é estranha a ele. O fato de que há relativo silencio neotestamentário para essa terminologia, faz com que os defensores da leitura com Filho defendam sua inconsistência. Outro detalhe que acresce-se a esse é que é muito incomum uma declaração à divindade de Cristo tão clara no NT.  Ou seja, existe um “quase” silêncio teológico clarividente no NT que pudesse suportar essa visão.

O terceiro argumento atesta que, do ponto de vista do estilo, a leitura com Filho parece mais natural ao texto, uma vez que o termo Deus é usado no início e o termo Pai no final. Em outras palavras, supõe-se que a repetição do termo “Deus” seria um inconveniente sintático para o texto e por isso uma construção relativamente difícil para João.

Entretanto, no que se refere à consistência da leitura, os dois primeiros argumentos desfavoráveis à “μονογενὴς θεός” não parecem consistentes. Muito embora exista razão e lógica nos argumentos, ele não é consistente. Vamos tomar o primeiro argumento como exemplo. Se a consistência com o autor é fator decisivo, alguém poderia alegar que Jo.5.4 poderia ser consistente com a terminologia joanina, pois não apenas a construção é similar como usa termos recorrentes. Entretanto, as evidências externas nesse caso são completamente desfavoráveis ao verso. Ou seja, a validade do argumento é dependente da soma das análises. Contudo, o mais importante a ser dito sobre essa argumentação é que ela exclui a possibilidade de uma expressão ocorrer uma única só vez no NT.

Sobre o segundo argumento é importante que se diga que João tem diversas expressões fundamentais para a Teologia Cristã que não são encontradas em nenhum outro lugar no NT. Por exemplo, João é o único que descreve Jesus Cristo como Logos eterno, pré-existente e divino (Jo.1.1), como único em espécie (Jo.1.14 – monogenes absoluto), como Logos encarnado (Jo.1.14). Em termos de proporção, parece que João está inovando sob muitos aspectos em sua apresentação da divindade. Se considerarmos válido o segundo argumento, teríamos que suspeitar de todo o prólogo, o que muitos teólogos já tem feito mesmo sem qualquer evidência textual para suportar suas convicções. Muito embora o argumento pareça sólido, mais uma vez ele é erigido sob uma frágil argumentação.

O mais audaz dos argumentos é o terceiro. Segundo os defensores da Velha Ortodoxia (Pickering, José Pedro M. de Almeida), do ponto de vista do estilo, a leitura mais natural seria o Filho: “A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação[24]”. Entretanto, deve-se notar que o termo Filho não é usado nenhuma vez no prólogo, ao passo que tanto μονογενὴς como θεός já teriam sido apresentados. Porém, é bem verdade que o uso de “Pai” na seqüência parece supor o uso de “Filho” antes, exceto que, se João tivesse usado uma segunda vez o termo θεός, usá-lo uma terceira vez seria uma grande redundância. Portanto, no que se refere à consistência da variante, os argumentos normalmente apresentados não são consistente. Ao contrário, favorecem à leitura de θεός.

Uma das convicções que sem tem obtido no estudo da crítica textual é que os copistas tinham certa tendência para facilitar um texto ao invés de complicá-lo. Também era comum que eles tentassem harmonizar passagens para que fossem sinérgicas. No caso de Jo.1.18, se considerarmos a leitura com θεός  a leitura original, não era difícil que alguém ousasse facilitar a leitura por substituí-lo por υἱός. Se o motivo não fosse o facilitar a leitura do texto, certamente poderia ter sido uma questão de harmonização com a terminologia do autor. Essa observação é importante, pois nos auxilia a compreender qual das leituras parece ser responsável pela outras. Sobre isso, Metzger tem uma opinião interessante:

“A leitura μονογενὴς υἱός, que é indubitavelmente mais fácil que μονογενὴς θεός, é resultado de uma assimilação escribal a Jo.3.16,8; 1Jo.4.9. O uso anartro de θεός (cf. 1.1) parece ser o mais primitivo. Não há razão para que o artigo fosse deletado, e quando υἱός suplantou θεός,ele certamente foi adicionado. A menor leitura, ὁ μονογενής, enquanto é atrativa por causa de considerações internas, é muito pobremente atestada para ser aceito como texto[25]

Diante das considerações de Metzger, observa-se que a leitura favorecida é consistente com as possibilidades de transcrição histórica do texto. Diante disso, podemos assumir que μονογενὴς θεός é a leitura mais provável do ponto de vista da transcrição histórica. Contudo, isso não a torna imediatamente mais consiste com o contexto.

Sobre a consistência com o contexto, é importante lembrar-se da opinião de A.T. Robertson:

“O escrito já havia dito em 1.1 que o Verbo era Deus e no 1.14 que o Verbo se fez carne. Agora ele combina as duas idéias no texto correto de 1.18: ‘Deus-unigênito’. Somente o Deus-homem poderia revelar a Deus completamente ao homem. Ele é Deus e Homem, e pode e atua como intérprete de Deus para o homem[26]

É interessante que no clímax do prólogo, João combine duas idéias chocantes já apresentadas para concluir o que tem a dizer. Se isso é tomado como verdadeiro, nota-se grande coesão estrutural no pensamento joanino[27]. Aliás, Martin Vincent parece defender exatamente isso:

“A última leitura [μονογενὴς θεός ] meramente combina em uma frase dois atributos do verbo já indicados – Deus (v.1) e unigênito (v.14)’; o sentido é o ser único que é tanto Deus como Unigênito[28]

Vale a pena ressaltar que, tanto no verso 1 (θεός), como no verso 14 (μονογενὴς), encontramos as declarações desacompanhadas de artigo, o que parece favorecer a leitura μονογενὴς θεός. Ou seja, do ponto de vista da consistência da análise interna, a leitura majoritariamente alexandrina é claramente favorecida.

PROBLEMAS TEOLÓGICOS

No que se refere a problemas teológicos, os adeptos da leitura com “θεός” parecem não identificar qualquer problema com qualquer uma das variantes. Harris, que tem preferência por “θεός” em função de sua antiguidade e dificuldade, diz que “de modo geral, eu não acredito que nenhuma das leituras altera de modo sério o sentido do texto[29]”.

Entretanto, os defensores da leitura “υἱός”, insistem que a leitura variante não é possível, pois introduz problemas teológicos sérios. Estranhamente, Ehrman é um desses que entende que existe um problema teológico na leitura com “θεός”. Muito embora isso não fizesse qualquer diferença para o autor (exceto para sua defesa de corrupção ortodoxa), Ehrman alega que Jesus só poderia ser o único Deus, se não houvesse outro Deus, o que o contexto imediato já rejeita: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Essa argumentação é bem similar à aquela que os defensores da Velha Ortodoxia apresentam.

Entretanto, para Pickering, acredita que o texto traz ainda um problema mais grave: “se Cristo recebeu sua divindade no processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade”. Ou seja, Pickering, embora concorde com a leitura sugeria por Ehrman, não pode concordar com a tese de Ehrman. Em parte, Pickering está dizendo que existe um conceito de geração na expressão e se a divindade de Cristo está em sua geração, então um sério problema teológico é auferido. Por outro lado, ele concorda com a possibilidade de que “υἱός”, como texto original, é uma defesa teológica ao adocionismo (!).

Normalmente, a Velha Ortodoxia sugere que a leitura “θεός” é uma forma de influência gnóstica no texto, como se existissem diversas divindades: Deus, o Deus unigênito, o Pai, o Logos. José Pedro de Almeida, um desses defensores zelosos da Velha Ortodoxia, diz:

Por não crerem na pre-existência do Filho [os gnósticos], eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)[30]

A acusação é séria: hereges alteraram o texto para acomodar suas convicções teológicas, como se fossem aceitas pelas escrituras. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.

Tendo considerado isso, temos que admitir que, à exceção de Ehrman, os cristãos zelosos da Velha Ortodoxia demonstram sua preocupação com a contaminação das escrituras. Entretanto, os seus argumentos não passam de uma opção zelosa. Em resposta a Almeida gostaria de apresentar três pontos de atenção:

  1. Se um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbal nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Tê-lo feito em Jo.1.18 não teria ajudado muito.
  2. Se um gnóstico escriba quisesse negar a encarnação do Verbo, teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Se o suposto escriba houvesse feito isso apenas em 1.18, teria feito um péssimo trabalho.
  3. Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Se a questão gnóstica realmente fosse rejeitar a divindade de Cristo, era mais fácil acrescer ou retirar informações do verso 1. Mas, isso também não aconteceu.

Já Pickering, parece não ter atentado muito bem para o termo “μονογενὴς”. Para ele, esse termo deve ser diferente de “μονος” (único) e no NT não existem evidências para que se entenda “μονογενὴς” com essa idéia. Contudo, o uso do termo em Hb.11.17 deveria tê-lo feito pensar nessa concusão: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas”. O texto diz que Isaque era o unigênito de Abraão, entretanto, ele não era o único filho gerado de Abraão: Ele era o Filho mais Amado de Abraão. Em Gênesis temos exatamente essa visão: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (22.2). O termo hebraico para descrever Isaque como único filho é o termo “Yachiyd” que é traduzido na Septuaginta por “agapetós” (o amado de modo especial). Não é à toa que Rudolf Bultmann defende que “a designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[31]”. Ou seja, “μονογενὴς[32]” não é usado apenas com o sentido de geração como parece sugerir Pickering[33], mas com sentido de único, especial, amado. Portanto, a dificuldade apresentada por ele não parece válida.

Contudo, Ehrman entende o termo dentro de um escopo mais abrangente e o define como “único”, assim como tenho defendido. Sobre isso, ele diz: “Por definição pode apenas existir um μονογενὴς: a palavra significa ‘único’, ‘único em sua espécie’. O problema, é claro, é que Jesus poderia ser o único Deus apenas se não houvesse outro Deus; mas no quarto evangelho, o Pai é Deus da mesma forma[34]”. Entretanto, Ehrman parece não usar o conceito de sua própria definição adequadamente. Se o termo significa “único em sua espécie”, não há qualquer dificuldade de compreensão: O Logos, como único em sua espécie, amado de modo especial é o único que poderia tornar Deus conhecido em sua essência, como Jo.1.18 parece estar a ensinar. Portanto, a ênfase recai sobre sua SINGULARIDADE (ninguém é como Ele) e não sobre sua EXCLUSIVIDADE (não há mais ninguém).

PARECER PESSOAL

A mim me parece que as argumentações em descrédito da variante preferida na análise de evidências externas não são consistentes, e minha preferências pela leitura “μονογενὴς θεός” parece bem evidente a essa altura. No que se refere consistência, tenho a impressão que essa leitura é mais consistente. No que se refere às possibilidades de transcrição, entendo que essa justifica mais adequadamente o surgimento das outras, sem contar que teologicamente, “μονογενὴς θεός” é certamente a leitura mais difícil. Assim, tenho acredito que essa leitura é, muito provavelmente, a leitura original desse verso.

Conclusão

Se as análises realizadas nesse estudo são verdadeiras, a Cristologia Testemunha de Jeová não poderia sustentar-se. É interessante notar que em todas as facetas dessa disputa textual, os teólogos reconhecem que o texto com “μονογενὴς θεός” poderia reforçar a divindade de Cristo. Aliás, para Ehrman isso é tão evidente que ele tem que supor que isso é uma corrupção da ortodoxia posterior ao texto.

Contudo, é de se admirar que a Tradução do Novo Mundo use exatamente essa leitura em suas traduções. Eu tenho a impressão que com o passar do tempo, eles deixarão essa leitura variante e passarão a adotar a outra, em funções teológicas. Os unicistas supostamentes bíblicos já fizeram isso (cf. John 1.18). Contudo, compreendendo o dilema teológico por traz dessa expressão, os tradutores mau intencionados usaram letras minúsculas para descrever o Logos: “o deus unigênito”. Para manter a malfadada teologia TJ, não alteraram o texto aqui, apenas o verteram com sua teologia exposta. Longe de ser um fraude piedosa, essa alteração é uma perversão descarada da verdade do texto que eles se propuseram a traduzir.


[1] Exceto se você for defensor do TR (Filho unigênito) ou da TNM (deus unigênito), pois para ambos as decisões já estão tomadas e consideradas como certas, mesmo que cada um esteja em um dos lados desse dilema (alguém continua errado).

[2] WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org).

[3] Exceto para a Cristologia Testemunha de Jeová, que se desfaz caso a leitura “monogenes theós” seja verdadeira.

[4] VINCENT, Martin, Vincent`s Word Studies. Vol.2 (Quickverse).

[5] HARIS, W.H., Prologue (John 1.1-18). (Bible.org)

[6] À esquerda, Codex Sinaítico do site Bible Researcher, por Michael Marlowe: Only Begoten Son or God?; à direita, Codex Washingtonensis adaptado de The Center for Study of New Testament Manuscript. Para ver o original, clique aqui.

[7] Informações retiradas do site www.laparola.net.

[8] Para ver como um cristão da Velha Ortodoxia se posiciona ante ao dilema de Jo.1.18, leia o artigo: Quem está mentindo em Jo.1.18?. Para ler meu posicionamento sobre esse artigo, leia: Xiitismo Textual.

[9] Seu livro pode ser baixado gratuitamente na internet: Clique aqui.

[10] PICKERING, Wilbur, Qual é o texto do Novo Testamento. Pp.209.

[11] Scrivener, Introduction to the Criticism of the New Testament. pp.525. IN: ROBERTSON, A.T., Word Pictures in the New Testament. (Quickverse).

[12] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.78

[13] Idem, pp.81.

[14] Idem, Ibid.

[15] ROBERTSON, A.T., Word Pictures in the New Testament. (Quickverse).

[16] METZGER, Bruce, A textual Commentary on the Greek New Testament. pp.198.

[17] Kostenberger, Swain, Father, Son and Spirit. pp.78 IN: WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org)

[18] PICKERING, Wilbur, Qual o texto do Novo Testamento? pp.209.

[19] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.79

[20] METZGER, Bruce, The Text of the New Testament. pp.46.

[21] FEE, Gordon, Studies in the Theory and Method of New Testament Textual Criticism. pp.243

[22] RUSH, William, The Trinitarian Controversy. pp.29-30 IN: WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org)

[23] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.78-82

[24] ALMEIDA, José Pedro de, Quem está mentindo em Jo.1.18: É “Deus Unigênito” ou “Filho Unigênito”.

[25] METZGER, Bruce, A textual Commentary on the Greek New Testament. pp.198.

[26] ROBERTSON, A.T., The Divinity of Christ in the Gospel of John. pp.45. Veja Também: ROBERTSON, A.T., Word Pictures in the New Testament. (Quickverse); e BLUM, Edwin A., The Bible Knolodge Commentary: John. (Quickverse).

[27] JAMIESSON, FAUSSET, BROWN, New Commentary on the Whole Bible. (Quickverse)

[28] VINCENT, Martin, Vincent`s Word Studies. Vol.2 (Quickverse).

[29] HARIS, W.H., Prologue (John 1.1-18). (Bible.org)

[30] ALMEIDA, José Pedro de, Quem está mentindo em Jo.1.18: É “Deus Unigênito” ou “Filho Unigênito”.

[31] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.

[32] Como título Cristológico, “μονογενὴς” assemelhasse a “ἀγαπητός” em sua aplicação. Isso é também percebido pelo fato de que os autores dos evangelhos sinóticos utilizarem “ἀγαπητός” como o título cristológico (Mt.3.17; 12.18; 17.5; Mc.1.11; 9.7; 3.22).

[33] Veja também o artigo: BERTI, Marcelo, O uso de monogenes em referência a Cristo. O debate semântico de monogenes repousa na construção do termo. Três possibilidades são reconhecidas:

(1) monos e gennao: nesse caso monogenes deveria ser entendido como único gerado, uma vez que genao significa gerar (Friberg Lexicon). Caso essa opção fosse válida, o termo deveria ser monogennes, com o acréscimo de um “n”;

(2) monos e gnomai: nessa forma o termo deveria ser entendido único nascido (Liddel-Scot, Strong`s); Contudo, não há qualquer uso no NT ou LXX que pareça justificar essa posição. Nem mesmo a estrutura do termo parece indicar essa opção.

(3) monos e genós: se essa possibilidade está certa, a tradução seria único em espécie, uma vez que genós descreve classe, espécie (BDAG, Thayer`s, Louw-Nida, DITNT)

[34] EHRMAN, Bart, Orthodox Corruption of the Scripture. pp.80.

06.15.09

O que dizer da versão copta saídica?

Enviado em Crítica Textual, Testemunha de Jeová às 1:46 pm por Marcelo Berti

Marcelo Berti

Esse artigo foi escrito para aqueles que já ouviram falar do dilema de tradução de Jo.1.1c: “e o verbo era Deus“. Aos que conhecem a Tradução do Novo Mundo (o NT TJ) sabem que eles traduzem com o acréscimo de um artigo indefinido antes de Deus, como tentativa de disfarçar a Real Divindade do Verbo.

Entretanto, o fundamento para essa leitura, segundo os TJ`s,  é suportada pela existência de uma versão copta do quarto século que traduz o texto com o acréscimo do artigo indefinido. Para eles, isso é evidência de que a correta tradução do texto deve trazer o artigo indefinido. Mas, será isso verdadeiro? Essa é a pergunta que tento responder nesse artigo. Para tanto, convido os leitores a uma viagem aos textos cristãos antigos para procurar evidências de como esse texto era lido e interpretado antes do quarto século.

O artigo está assim dividido: (clique nos temas e leia os textos)

(Veja o artigo completo em PDF)

Faça um bom proveito!

==============================================

Como nem todos terão tempo disponível para a leitura de todo o artigo, deixo abaixo o resumo (conclusão) do artigo: (caso fique interessado por um tema, use os links)

O que temos a dizer sobre o exemplar copta saídico e sua tradução?

(1)      Em primeiro lugar, a versão copta saídica não é a única evidência que dispomos sobre como deve ser lido e interpretado o texto de Jo.1.1c antes do quarto século; Também encontramos versões latinas e sírias nesse período que merecem atenção.

(2)      Em segundo lugar, a tradição dos pais da igreja (latinos, sírios, gregos) do segundo ao quarto século não ousa supor que a leitura correta teria o acréscimo do artigo indefinido, ou que o texto é uma evidência de que João estava falando em dois deuses. Vale dizer que nem mesmo os hereges conhecidos desse período ousaram traduzir ou interpretar o texto assim, mesmo quando era conveniente para suas heresias.

(3)      Em terceiro lugar, a tradução da versão copta saídica não foi devidamente apresentada pelos defensores da TNM. É bem possível que ela tenha outro sentido, e não defenda a leitura da TNM.

(4)      Em quarto lugar, se a tradução copta saídica fosse, sem sombras de dúvidas, “e o verbo era um deus” ainda teríamos o testemunho dos Pais da Igreja apontando para outra direção, o que faria dessa evidência uma voz solitária na multidão.

(5)      Em quinto lugar, ainda que a tradução copta saídica fosse, sem sombras de dúvidas, “e o verbo era um deus”, teríamos evidências suficientes para demonstrar que tal leitura estava localizada em um período específico, em um região específica, e falaria mais sobre a situação do cristianismo nessa região do que sobre a forma como deveria ter sido traduzido o texto.

(6)      Em sexto lugar, muito embora zelosa seja a iniciativa de buscar uma versão antiga para respaldar uma tradução, ela é sem valor, pois a questão mais importante não é como o texto foi traduzido ou interpretado em outros idiomas, mas como ele deve ser traduzido a partir do texto grego.

Portanto, é seguro afirmar que as investidas dos defensores da TNM sobre esse documento não defende as idéias que pretendem para o texto. É uma opinião erigida na omissão de informações e é bem provável que seja equivocada em todas as suas premissas e conclusões (antiguidade, tradução).

06.12.09

O que dizer da tradução da versão copta saídica?

Enviado em Crítica Textual, Testemunha de Jeová, Tradução às 10:35 am por Marcelo Berti

=======================

ESBOÇO DO ARTIGO COMPLETO:

=======================

Marcelo Berti

O que demonstramos até agora é que o idioma copta saídico tem a peculiaridade de ter tanto o artigo defino quanto o indefinido, como o Português. Além disso, sabemos que foi provavelmente o primeiro idioma a traduzir o grego koinê a ter essa peculiaridade. Também sabemos que o texto de Jo.1.1 traz tanto o artigo definido como o indefinido em referência a Deus. Mas, o que isso significa? Será que a tradução de Landers está correta? Vamos olhar  com mais atenção ao texto:

Copta

Legenda: WHO – Westcott; TGE – Texto Grego Egípcio; VCS – Versão Copta Saídica

Se tem alguém que merece ser considerado na busca pela tradução de Jo.1.1 é  George Willian Horner, por ter-se dedicado a traduzir e realizar crítica no Novo Testamento Copta. Em sua tradução de Jo.1.1c, Horner trouxe a seguite leitura: “e o Verbo era [um] Deus” e em nota à tradução acrescentou: “Os colchetes implicam em palavras usadas pelo copta mas não requeridas pelo inglês” (HORNER, pp.376).

Isso é um pouco diferente do que Landers parece supor em sua análise da leitura copta saídica de Jo.1.1c. É bem verdade que ele afirma que isso não é uma questão de gramática, mas de teologia: “Os gramáticos do idioma copta estão em acordo quanto ao que a leitura copta diz literalmente. Mas, os pressupostos teológicos de alguns gramáticos não os permite ficar satisfeitos com essa leitura” (LANDERS, Solomon, The coptic evidence. Material não publicado, 2006, p.1). Mas, será que isso é verdadeiro?

A resposta para essa questão repousa sobre o uso do artigo no idioma copta. Layton Bentley em sua obra A coptic Grammar with chrestomathu and glossary – Sahidic Dialect, afirma que o uso do artigo indefinido no dialeto saídico pode ser usado em referência a classe ou a qualidade (p.43). Observe suas colocações:

O artigo indefinido é parte do padrão sintático copta. Esse padrão pode ser tanto qualitativo [divino] ou de entidade [um Deus]; o leitor decide que leitura atribuir a isso. O padrão copta não atribui equivalência com o nome próprio Deus; em copta, Deus é sempre, sem exceção, suprido com o artigo definido. A ocorrência de um substantivo anartro nesse padrão seria muito estranho” (Grifo pessoal)

O que Bentley sugere com isso é que, quando a declaração é em referência ao nome próprio de Deus a versão copta usa sempre o artigo definido e jamais deixaria sem artigo, como o grego, o latim e o siríaco poderiam fazer. Willians, sobre isso diz: “Nós podemos observar como o copta evita substantivos sem artigos. Em conseqüência disso ou eles adicionam um artigo definido ‘O Deus é o Amor’ (1Jo.4.8) ou o indefinido em Jo.1.1”. Ou seja, para que o substantivo grego anartro Θεὸς pudesse ser traduzido, era necessário usar um artigo (cf. Jo.1.33 e3.6 na tradução de Horner representam usos qualitativos).

Portanto, o uso do artigo indefinido em referência a Deus não é necessariamente uma demonstração de que os tradutores da versão copta saídica tinham em mente [um] deus, pois poderia ter sido entendido qualitativamente, o que alguns teólogos chegam a admitir com uma leitura possível para o texto grego de Jo.1.1 (WALLACE, Daniel, Greek Grammar Beyond the Basics. Zondervan, 1996. pp. 269).

Ou seja, o tradutor copta não estava equivalendo o Verbo com Deus (e o Verbo é O Deus), mas pode estar pensando qualitativamente (o Verbo é divino). O que é fato, segundo Bentley sugere é que a decisão repousa sobre o leitor. Mas, será que existem evidências para que se descarte a leitura e o Verbo era um deus na versão copta saídica?

Tenho a impressão que sim, pois o texto grego tem mais um uso anartro do substantivo Θεὸς em referência a Cristo. Em Jo.1.18 lemos: “Θεὸν οὐδεὶς ἑώρακε πώποτε μονογενὴς Θεὸς ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρός, ἐκεῖνος ἐξηγήσατο” (Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou – ARA).

O primeiro uso de Θεὸς é uma clara referência à Pessoa do Deus Pai e é anartro em grego. Entretanto, acompanha o artigo definido em copta: “pnoute”. A expressão “μονογενὴς Θεὸς” é uma clara declaração em referência a Cristo. No texto grego essa expressão também não traz artigo, nem para “μονογενὴς” nem para “Θεὸς”, mas a versão copta saídica traz o artigo definido aqui: “pnoute pShre”. Diante disso temos que nos perguntar: Como um mesmo tradutor diria que o Verbo é um deus em Jo.1.1c e o chamaria de O Deus em Jo.1.18[1]?

Provavelmente por que Jo.1.1c foi entendido no sentido qualitativo e não literal como Landers supõe. É interessante que essa opinião é bem reconhecida entre os gramáticos do dialeto saídico. Ariel Shisha-Halevy sobre o assunto diz: “Em copta ounoute pode significar um deus ou aquele que tem natureza divina. Na passagem em referência [Jo.1.1c] a melhor interpretação é qualitativa”.

Mesmo J.Warren Wells que já foi citado nesse trabalho parece não concordar com a opinião de Landers. Embora já tenha citado que Wells entende que literalmente a tradução de Jo.1.1c é “e o verbo era um deus”, ele entende que essa não é a melhor opção de tradução para o texto, exatamente pelo mesmo motivo que já apresentamos: o artigo definido em Jo.1.18. Sobre isso ele diz: “Para mim o sentido da passagem de Jo.1 é uma descrição do Logos em relação a Deus. À grosso modo, uma leitura poderia ser: O Logos estava no princípio. O Logos estava com Deus, O Logos é como Deus (divino); com ênfase em sua natureza, não em sua pessoa”.

Ou seja, quando Landers diz que a tradução literal de Jo.1.1c é “e o verbo era um deus” ele não está dizendo toda a verdade, e ao suprimir essas informações ele condiciona a conclusão dos seus leitores.

Diante disso, o que temos a dizer sobre o exemplar copta saídico e sua tradução?

(1)      Em primeiro lugar, a versão copta saídica não é a única evidência que dispomos sobre como deve ser lido e interpretado o texto de Jo.1.1c antes do quarto século; Também encontramos versões latinas e sírias nesse período que merecem atenção.

(2)      Em segundo lugar, a tradição dos pais da igreja (latinos, sírios, gregos) do segundo ao quarto século não ousa supor que a leitura correta teria o acréscimo do artigo indefinido, ou que o texto é uma evidência de que João estava falando em dois deuses. Vale dizer que nem mesmo os hereges conhecidos desse período ousaram traduzir ou interpretar o texto assim, mesmo quando era conveniente para suas heresias.

(3)      Em terceiro lugar, a tradução da versão copta saídica não foi devidamente apresentada pelos defensores da TNM. É bem possível que ela tenha outro sentido, e não defenda a leitura da TNM.

(4)      Em quarto lugar, muito embora zelosa seja a iniciativa de buscar uma versão antiga para respaldar uma tradução, ela é sem valor, pois a questão mais importante não é como o texto foi traduzido ou interpretado em outros idiomas, mas como ele deve ser traduzido a partir do texto grego.

(5)      Em quinto lugar, se a tradução copta saídica fosse, sem sombras de dúvidas, “e o verbo era um deus” ainda teríamos o testemunho dos Pais da Igreja apontando para outra direção, o que faria dessa evidência uma voz solitária na multidão.

(6)      Em sexto lugar, ainda que a tradução copta saídica fosse, sem sombras de dúvidas, “e o verbo era um deus”, teríamos evidências suficientes para demonstrar que tal leitura estava localizada em um período específico, em um região específica, e falaria mais sobre a situação do cristianismo nessa região do que sobre a forma como deveria ter sido traduzido o texto.

Portanto, é seguro afirmar que as investidas dos defensores da TNM sobre esse documento não defende as idéias que pretendem para o texto. É uma opinião erigida na omissão de informações e é bem provável que seja equivocada em todas as suas premissas e conclusões (antiguidade, tradução).


[1] Landers afirma que a pergunta citada é lógica, mas faz parte da lógica invertida. Para ele, uma vez que a opção um deus é a correta ele entende que o artigo definido de Jo.1.18 é uma referência àquele que é um deus. Entretanto, sua opinião não faz o menor sentido, pois não corresponde ao que a versão copta está a afirmar em Jo.1.18. A verdade é que o artigo indefinido pode ser entendido qualitativamente, enquanto o artigo definido tem sido entendido apenas como tal. Ou seja, para que Landers esteja certo é necessário realizar um adendo à gramática copta, sugerindo que o artigo definido pode ser lido como indefinido. O que não faz o menor sentido, pois em um idioma onde ambos os artigos são disponíveis, se o tradutor quisesse usar um artigo indefinido em Jo.1.18 ele o teria usado.

Como os Pais Gregos da Igreja citam e interpretam Jo.1.1?

Enviado em Crítica Textual, Testemunha de Jeová às 10:30 am por Marcelo Berti

=======================

ESBOÇO DO ARTIGO COMPLETO:

=======================

Marcelo Berti

Antes de iniciarmos propriamente nossa análise dos Pais da Igreja do quarto século e anteriores a ele, é importante demonstrar um pouco da tradição textual grega do Novo Testamento, até por que, todas as versões foram produzidas a partir de cópias gregas dos autógrafos.

A. Considerações introdutórias à tradição grega do Novo Testamento

Até aqui muito foi dito sobre as versões antigas, que representam parte da história da tradução do texto do Novo Testamento para outros idiomas. Mas, não podemos deixar de lembrar que existiu uma tradição grega de manutenção do texto responsável pela produção de todas as outras versões. Essa tradição é fundamental, pois ela representa a língua em que originalmente foram escritos os autógrafos. Portanto, a mais fidedigna fonte de informações textuais que dispomos são os manuscritos gregos.

Craig A. Evans, em seu livro “Fabricating Jesus” cita os mais antigos papiros que preservam o evangelho de João. Dentre os citados, dois merecem nossa atenção, pois são significativos em diversas questões textuais relacionadas ao primeiro capítulo do Evangelho de João.

(1)     P66 (Papiro 66): Também conhecido como Papiro Bodmer II é datado no início segundo século. Trata-se do mais antigo testemunho textual do Novo Testamento e contém Jo.1.1- 6.11; 6.35b-14.26, 29-30; 15.2-26; 16.2-4, 6-7, 16.10-20:20, 22-23, 20.25-21.9, 12, 17.

(2)     P75 (Papiro 75): Também conhecido como Papiro Bodmer XIV e XV é datado no segundo século. É, em geral, concordante com P66 e P45. Originalmente deveria ter tido 144 páginas das quais 102 sobreviveram, ainda que em partes. Ambos os papiros são fundamentais para a crítica textual e são considerados quase decisivos em leituras divergentes no Evangelho de João.

Com essas informações em mãos, podemos nos lembrar que no período de produção de versões do Novo Testamento, o texto grego, idioma original do NT era mantido em regiões diferentes do mundo, e esse material é que servia de suporte para as versões posteriores.

Entretanto, no que refere-se ao idioma original do Novo Testamento, devemos nos lembrar dos Pais da Igreja de tradição grega, pois além de apresentarem suas leituras, também deixaram suas interpretações. É importante notar que, se nenhum manuscrito grego tivesse sobrevivido ao tempo, as citações dos Pais da Igreja seriam suficientes para remontar todo o Novo Testamento (METZGER, pp.86). Se considerássemos apenas Orígenes isso já seria quase possível (PAROSCHI, pp.67).

Portanto, voltaremos nossos olhos para os Pais da Igreja anteriores ao quarto século para observarmos como eles liam e interpretavam Jo.1.1 no idioma original do Novo Testamento.

B. Inácio de Antioquia

As informações sobre nascimento e morte de Inácio não são tão exatas como os dos Pais posteriores. Em geral, seu nascimento é atestado antes do ano 50, mas há quem defenda que teria sido por volta do ano 35 d.C. Sobre sua morte, o assunto também é controverso, pois há quem defenda que Inácio teria morrido ainda no primeiro século (97d.C), outros dizem que seria próximo ao ano 117 d.C. Seja como for, alem da proximidade temporal com os apóstolos, é possível ainda que ele tivesse sido ensinado pelo Apóstolo João. Se Eusébio está certo (História Eclesiástica, II, ii, 22), Inácio teria sido o terceiro bispo de Antioquia após Evódio e o Apóstolo Pedro. Se Teodoret está certo (Dial. Immutab., I, iv, 33a), o próprio Pedro teria apontado Inácio como possível bispo de Antioquia.

Inácio de Antioquia é provavelmente o mais antigo Pai da Igreja ao citar Jo.1.1. A primeira citação é assim declarada:

“Como podemos chamá-lo de mero homem, recebendo sua existência de Maria e não de Deus, a Palavra, o unigênito Filho? Pois, ‘no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Aos Tarsianos, Cap.6)

Em sua carta “Aos antiloquianos”, Inácio inicia sua carta com a pretensão de alertar seus leitores das distorções do cristianismo. Sobre isso ele diz:

“Mas, vocês receberam a doutrina dos apóstolos e acreditam tanto na lei como nos profetas. Assim vocês rejeitam os erros dos judeus e dos gentios, e não introduzem uma multiplicidade de Deus, nem ainda negam a Cristo debaixo da alegação da manutenção da unidade de Deus” (Aos Antiolquianos, 1)

Após essa declaração, Inácio passa a descrever a respeito da verdadeira doutrina de Deus e Cristo. Por isso, ele defende a unidade de Deus nas palavras de Moisés (Aos Antiloquianos, 2; cf. Dt.6.4), Isaías (Aos Antiloquianos, 3; cf. Is.44.6) e do Apóstolo João (Aos Antiloquianos, 4; cf. Jo.17.3). Para Inácio não existe como negociar essas informações pois elas são ensinadas pela Lei, Profetas e pelos Apóstolos. Mas, no que se refere ao Filho, Inácio quando o apresenta cita Is.9.6 como evidência de sua identidade com Deus. Ele também fala sobre sua encarnação (Aos Antiloquianos, 3 cf. Is.7.14, Mt.1.23) e paixão (Aos Antiloquianos, 3; cf. Is.53.7; Jr.11.19).

Após tantas informações em tão pouco espaço, Inácio pretende demonstrar que as verdades anunciadas pelos Profetas também é demonstrada pelo ensino apostólico de tal forma que eles não têm qualquer embaraço em defender a encarnação, ou paixão do verbo. Sobre isso ele diz:

“O Evangelista, também declara que o Pai é o único e verdadeiro Deus, mas não omite o que é concernente ao nosso Senhor, mas diz: ‘No princípio era o verbo e o verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele mesmo estava no início com Deus e todas as coisas foram feitas por meio Dele, e sem Ele nada do que foi feito se fez’. Com relação a encarnação do Verbo diz: O Verbo se fez carne e habitou entre nós’. E novamente: ‘Livro da genealogia de Jesus Cristo, o Filho de Davi, Filho de Abraão’. E os mesmos apóstolos que afirmam que existe apenas um Deus, também falam sobre o único Mediador entre Deus e os Homens” (Aos Antiloquianos, cap.4)

É interessante notar que tão cedo Inácio já teria falado sobre a relação da informação de que Deus é Um, mas que Cristo também é Deus e não outra entidade. Para Inácio, isso seria uma afronta à Lei e aos Profetas. Muito embora, nessas citações a divindade de Cristo tenha ficado implícito, a opinião de Inácio sobre o assunto não era. Observe o que ele diz: “Nosso Deus, Jesus Cristo, tomou carne no seio de Maria, segundo o plano de Deus” (Aos Efésios, 18,2). Em sua Carta aos Romanos, ele inicia assim:

“Inácio, à Igreja amada e iluminada segundo a fé e a caridade, de Jesus Cristo nosso Deus, deseja todo o bem e irrepreensível alegria em Cristo Jesus Nosso Deus”

É bem interessante que, mesmo sendo bem anterior a Tertuliano, Inácio também já tinha uma boa visão da Trindade:

“Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus. Sejam submissos ao bispo e também uns aos outros, assim como Jesus Cristo se submeteu, na carne, ao Pai, e os apóstolos se submeteram a Cristo, ao Pai e ao Espírito, a fim de que haja união, tanto física como espiritual” (Aos Magnésios, 13, 1-2)

Ao que se pode ver com clareza é que bem cedo, a concepção da Divindade de Cristo já era declarada e uma visão da Trindade já esboçada, muito antes do Concílio que a oficializou como Doutrina do Cristianismo. Mas interessante é que mesmo Inácio já utilizava Jo.1.1 como evidência da divindade de Cristo em um ambiente em que defendia a Unidade do Mesmo com Deus. Portanto, um leitor de grego não viu uma outra entidade, ou um outro deus em Jo.1.1 e assim ensinou em conformidade com o ensino da Lei, Profetas e dos Apóstolos.

C. Irineu

Irineu é mais um daqueles Pais da Igreja cujas informações não apresentada em suas obras são, quando não escassas, conflitantes. Sobre seu nascimento não existe consenso: 115, 125, 130, 140 d.C. Diz-se que em sua juventude ouviu o Bispo Policarpo em Esmirna. Entretanto, sabe-se com certeza que durante a perseguição de Marcos Aurélio, Irineu era pastor da Igreja de Lion. Tornou-se Segundo Bispo da mesma cidade após o martírio de Pothinus. Durante o período de paz religiosa, focou seu trabalho entre as atividades pastorais, missionárias e apologéticas. O maior grupo de informações que temos a seu respeito, entretanto, são suas obras apologéticas, em geral direcionadas contra o gnosticismo. É famoso pela obra Contra Heresias. Irineu teria morrido por volta do ano 202 d.C., mas não se tem certeza sobre essa data.

Irineu faz duas citações de Jo.1.1, ambas na obra Contra Heresias. Em uma delas, ele tece alguns insights sobre a trindade:

“O Pai é sem dúvidas, sobre todos, e Ele é o Cabeça de Cristo; mas o Verbo é mediante todas as coisas, e Ele mesmo é o Cabeça da Igreja; enquanto o Espírito está em todos nós, e Ele é a água viva, que o Senhor garante àqueles que corretamente crêem Nele, e o amam, e sabem que há um Pai, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Contra Heresias, Livro 1, cap.18, 2)

No entendimento de Irineu, na Trindade existe uma relação hierárquica do ponto de vista da funcionalidade de cada um. Fato comprovado pelas escrituras que o ensinam. Entretanto, para ele, a prova para a parte referente a Cristo como Deus é vista em Jo.1.1: “E sobre essas coisas, João o discípulo do Senhor, também testemunha quando nos fala no evangelho: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus’.”

Além de Irineu ter a clara visão da divindade de Cristo, me é interessante o fato de que em uma citação tão curta, tantos nomes lhe tenha sido atribuído. Note que Jesus é chamado de Cristo, Verbo, Cabeça e Senhor. Diante disso, é evidente que, na mente de Irineu Jesus Cristo é Deus. Talvez essa afirmação soe um pouco sem fundamento, para tanto, observe que ele diz no capítulo 8, verso 5 da mesma obra:

“E ele se expressa assim: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus; o mesmo estava no princípio com Deus (…) Tendo primeiro de tudo distinguido esses três – Deus, o princípio e a Palavra – ele novamente os une, de modo que ele apresenta a produção de cada um deles, isto é,  do Filho, a Palavra, e ao mesmo tempo demonstra sua união um com o outro com o Pai.. No princípio ele está no Pai, ao mesmo tempo que a Palavra está no princípio e além do princípio. Apropriadamente, então, ele diz: ‘No princípio era a Palavra’ por que Ele estava no Filho; “e a Palavra estava com Deus’ por que Ele estava no princípio; ‘e a palavra era Deus’ claro, por que aquele é gerado de Deus é Deus

Para Irineu, o defensor da ortodoxia cristã contra as investidas gnósticas, Jesus Cristo era Deus e Jo.1.1 era evidência desse fato. O fato de ler e escrever em grego e não encontrar a indefinição no substantivo anartro “Θεὸς” é mais uma evidência de que o texto não deveria ser lido assim. É verdade que alguém poderia dizer que ele era um herege e que lia o que intencionava ler nesse verso. Entretanto, para que isso fosse verdadeiro, teríamos de chamar todos os outros pais da igreja de tradição grega não apenas de hereges, mas analfabetos.

D. Clemente de Alexandria

Nascido em Atenas por volta do ano 150, Clemente de Alexandria é reconhecido como escritor grego e teólogo além de fundador da escola de Teologia de Alexandria. É conhecido por unir, ou tentar unir a filosofia grega com as tradições cristãs. É também lembrado como Professor de Orígenes. Clemente teria morrido por volta de 215d.C.

Clemente de Alexandria cita duas vezes o texto de Jo.1.1 e em ambas a leitura é claramente “καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”. Em sua obra “Exortação a Heathen” no primeiro capítulo ele diz:

“Você tem as promessas de Deus; você tem Seu Amor: tornou-se participante de Sua Graça. E não suponha que a música da salvação para ser nova como o vaso ou a casa é nova. Pois ‘antes da manhã estrela era’ e ‘no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus’. O erro parece antigo, mas a verdade uma nova coisa”

A citação aqui é simples, mas como ele entendia a expressão e o Verbo era Deus: “Por que os dois são um – isto é Deus. Por isso ele diz ‘No princípio o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus’” (O Instrutor, Livro I, cap.8). A citação, provavelmente de memória aqui, é uma clara demonstração que para Clemente de Alexandria a leitura falava sobre a identificação do Verbo com o Deus Pai. Essa visão é de tal forma verdadeira que pouco à frente ele conclui que, pelo fato de o Pai ser amor, o Verbo também o é.

Embora, Clemente não nos acresça novas informações, é interessante notar que sua leitura era concordante com os outros Pais da Igreja. Portanto, é evidente que para ele o texto não fala sobre um outro deus à parte do Deus Pai.

E. Hipólito:

Hipólito nasceu por volta de 160 d.C em uma família nobre. Foi instruído teologicamente tornando-se forte defensor das doutrinas da Igreja. Foi presbítero em Roma, quando Zeferino era Papa (199-217). É considerado o primeiro Anti-papa, por opor-se a escolha de Calisto. Sua principal discordância com Calisto era relacionado ao perdão dos pecados para morte. Em função desse confronto, Hipólito suportou grande disciplina e se separou da Igreja por aproximadamente 20 anos. É reconhecido por sua produções teológicas e denominado Doutor da Igreja. Veio a falecer em 13 de Agosoto de 235. Sobre suas obras é importante dizer que, embora fosse de Roma, escreveu suas obras todas em grego, fato que o manteve em obscuro entre os seus contemporâneos ocidentais.

Hipólito não faz largas citações do Jo.1.1 como outros Pais da Igreja. Ele o faz apenas três vezes, e em uma delas, apesar de ser exatamente igual às muitas citações patrísticas, é usada em um contexto de pouca relevância para nosso estudo aqui (cf. Refutação a Todas as Heresias, Livro 5, Cap.11), muito embora seja coerente com a tradição grega do texto do Evangelho de João.

Entretanto, em duas citações podemos compreender como esse teólogo do fim do segundo século e início do terceiro compreendia o texto.

Hipólito escreveu um livro chamado Contra a Heresia de Noeto, que foi considerado o chefe dos Patripassionistas, grupo que negava a trindade. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo, por afirmar que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem).

No décimo segundo parágrafo dessa obra, Hipólito passa a demonstrar para Noeto que o Verbo teria sido feito manifesto entre os homens. E sobre o Verbo pergunta: “Quem o Pai enviou, e em quem Ele demonstrou o aos homens o poder procedente do Pai?” Para responder essa pergunta, Hipólito diz:

Ele [João] acresce às informações que os profetas haviam dito e demonstra que este é o Verbo, por meio de quem todas as coisas foram feitas. Sobre ele fala assim: ‘No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. E abaixo diz: ‘O mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu; veio para os que eram seus mas os seus não o receberam’

A exposição de Hipólito nesse caso fala sobre a manifestação histórica do Verbo, mas não é interessante a relação que ele apresenta sobre a relação do Pai e do Filho? Apesar de citar Jo.1.1 como a declaração da Divindade de Cristo, Jo.1.11 como sua manifestação histórica, ele compreende uma submissão do Filho para com o Pai a tal ponto que reconhece que Jesus Cristo demonstrava o poder do Pai aos homens. Tal visão, também é vista pelos unicistas modernos, mas eles interpretam Jo.1.1c com o acréscimo do artigo indefinido antes de Deus. Mas, Hipólito não entende assim.

É bom lembrar que, tal como Hipólito, grande parte dos teólogos ortodoxos dos nossos dias também reconhecem a submissão do Filho ao Pai, até por que Jesus Cristo é chamado de Filho, e em uma relação de Pai e Filho, é evidente que existe uma hierarquia. Mesmo Tertuliano entendia assim. Entretanto, Hipólito difere dos cristãos ortodoxos modernos, de Tertuliano e provavelmente dos unicistas quando diz no mesmo parágrafo: “Em conformidade com isso, Nós vemos e o Verbo encarnado, e por meio dele nós conhecemos o Pai, e nós acreditamos no Filho, e adoramos o Espírito Santo”.

A concepção da relação entre Pai, Filho e Espírito Santo para Hipólito não era ainda tão bem elaborada como vimos em outros Pais da Igreja. Para Hipólito, Deus era manifesto em duas Pessoas (Pai – Filho), mas acreditava em uma nova administração, ou até mesmo disposição, dessas pessoas chamada “a sua graça Espírito Santo” (cf. ver.14). As implicações disso ainda não são exatamente reconhecidas, mas o que podemos dizer é que isso é certamente diferente do que temos ouvido sobre a relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Porém, é fundamental dizer que Hipólito era convicto da Divindade de Jesus Cristo. Uma das evidências nas escrituras que ele apresenta é a ocasião em que Pedro apresenta o evangelho para o Centurião Cornélio. Em sua citação comentada, Hipólito diz: “Deus enviou sua palavra aos filhos de Israel pela pregação de Jesus Cristo. Este é Deus e Senhor sobre todos” (At.10.36; cf. ver.14).

É bem possível que Hipólito aqui não estivesse transcrevendo uma informação de um documento, mas estivesse citando de memória um texto. Observe que ele não cita uma parte central do versículo: “anunciando a paz”, da mesma forma que acresce informações na parte final do texto: “Este é Deus”. Talvez a inclusão da palavra “Deus” no texto de Hipólito fosse uma tentativa de explicação do conceito de Senhor, mas sobre isso apenas podemos especular. Contudo, a citação como um todo deixa evidente que sua opinião sobre o Verbo é que ele era Deus. Não é à toa que pouco à frente ele diz:

“Todas essas coisas, irmãos, são declaradas pelas Escrituras. E o abençoado João no testemunho do seu evangelho, nos dá informações sobre essa economia e reconhece que o Verbo era Deus, quando diz: ‘No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus’. Se, então, o Verbo estava com Deus e também era Deus, o que se conclui? Alguém poderia dizer que ele fala em dois deuses? Eu jamais falaria em dois deuses, mas em um, em duas Pessoas, entretanto.

Muito embora a visão de Hipólito sobre a Trindade, ou a relação entre suas Pessoas, não era tão bem definida, ele tem uma sólida convicção: Não se pode falar em dois deuses em Jo.1.1. Isso é significativo, pois encontramos na história da igreja alguém que é denominado Pai da Igreja, que tem opiniões pouco diferentes da ortodoxia em geral sobre um assunto importante, mas não consegue traduzir, ou mesmo interpretar Jo.1.1c como a evidência de um segundo deus.

Ou seja, essa é mais uma evidência de que a tradução, ou até mesmo interpretação, de Jo.1.1c como [um] deus não era vista em outras regiões do mundo.

F. Orígenes

Orígenes (185-254) é mais um dos doutores do cristianismo antigo e provavelmente o mais controverso Pai da Igreja. De uma exegese que tende à alegoria, de clara influência grega foi o primeiro a notar diferenças entre os manuscritos do Novo Testamento. É importantíssimo para a História da Teologia, pois suas obras abriram portas para os teólogos posteriores: Escreveu diversos comentários bíblicos, traduziu do Hebraico o Velho Testamento, escreveu um organizado manual de teologia, escreveu uma das obras mais fortes sobre a defesa da fé (Contra Celso), além da Hexapla uma versão comparativa em seis idiomas do VT.

Orígenes cita Jo.1.1 em diversas ocasiões, e por essa razão podemos dizer com certeza que lia o texto desse modo: “καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”. Vamos observar como ele lia e interpretava Jo.1.1 em cada uma das Obras em que cita o referido texto.

De Principiis

Na obra chamada De Principiis Orígenes escreve uma ordenado relato da doutrina Cristã que incluía claras demonstrações de sua visão das escrituras (VT e NT), apresentado a Deus como o Criador, o Filho como Preexistente e a Divindade do Espírito Santo. É interessante que Orígenes escreve muito antes de Calcedônia, mas com declarações trinitárias muito bem definidas. É bem verdade que, em função dessa obra Orígenes tornou-se divergente da ortodoxia posterior tendo sido atacado, inclusive por outros Pais da Igreja (Jerônimo, Justino I).

Mas, no que refere-se à essa obra, Orígenes cita o verso duas vezes. A primeira ele fala sobre a realidade da criação dos seres racionais (corpóreos e incorpóreos). Quando fala sobre esse assunto diz:

“Todas as almas e naturezas racionais, seja santo ou caída, foram formadas ou criadas, e todas essas, de acordo com sua própria natureza são incorpóreas; mas, apesar de incorpórea, eles foram criados, por que todas as coias foram feiras por Deus por meio de Cristo, como João ensina de modo geral no seu Evangelho, dizendo: ‘No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele mesmo estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez’.” (Livro I, Cap.7, v1)

No segundo livro dessa obra, no capítulo 9 ainda falando sobre esse assunto, Orígenes cita novamente Jo1.1. como evidência de que Cristo é o Criador. Entretanto, nessa citação ele associa dois outros textos: Cl.1.16 e Sl.104.24.

“Todas as coisas foram criadas, foram feitas por meio de Cristo e em Cristo, como o Apóstolo Paulo claramente indica quando fala: ‘nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele’ e como no Evangelho de João aponta para o mesmo fato, dizendo: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele mesmo estava no princípio com Deus e todas as coisas foram feitas por Ele e sem Ele nada do que foi feito se fez’ e como em Salmos também é escrito: ‘Em sabedoria Tu as fizeste’”

Nessa obra, esse é o contexto em que Orígenes cita Jo1.1. No que se refere a interpretação de Orígenes sobre a criação não temos do que discordar, aliás, outros Pais da Igreja já utilizaram esse texto com esses objetivos. Entretanto, o que fica claro para Orígenes é que o Filho não tem início: é preexistente. Ele é o criador de todas as coisas, visíveis e as invisíveis, ou como ele costuma chamar, corpóreas ou incorpóreas.

Contra Celso

A maior defesa do Cristianismo de uma heresia pagã acontece com Orígenes na Obra Contra Celso, escrito provavelmente no ano de 248. Parágrafo por parágrafo, Orígenes defende a verdadeira doutrina Contra Celso, a principal fonte dos acadêmicos para a visão anti-cristã desse período.

Nessa obra Orígenes cita nosso texto em duas ocasiões, embora em nenhuma delas a ênfase esteja sobre a divindade de Cristo. Na primeira citação (Livro 5, cap.24), Orígenes demonstra a identidade do Pai com o Filho, pois visa demonstrar que o Logos é a razão de todas as coisas:

“De acordo com Celso, Deus mesmo é a razão de todas as coisas, enquanto de acordo com nossa visão é o Filho que é, de quem nós falamos em linguagem filosófica ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus’”

Na segunda citação (Livro 5, cap.65) a ênfase recai sobre aqui sobre a possibilidade do Deus Pai ser expresso em palavras. Sobre isso Orígenes diz”

“Eu também admito que Deus não é alcançado pelas palavras [logos]. Se, porém, nós atentarmos para a passagem ‘No princípio era o Verbo [Logos], e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus’ nós temos a opinião que Deus é alcançado por essa Palavra [Logos] e é compreendido não apenas por Ele, mas por qualquer um que Ele quiser revelar o Pai. E com isso provamos a falsidade da afirmação de Celso, quando diz: ‘Deus não pode ser alcançado por palavras’”

Muito embora Orígenes não tenha com essas citações trabalho com a idéia da expressão “e o Verbo era Deus”, fica claro que dispunha do texto e o usava em suas Obras.

Comentário ao Evangelho de João

Entre os muitos comentários que escreveu, Orígenes dedicou seus esforços para compreender o Evangelho de João. Nesse comentário, além de realizar a exegese do texto, ele o cita mais algumas vezes. Vamos olhá-lo com atenção.

No segundo livro dessa obra, no primeiro capítulo Orígenes diz:

“Ele é Deus, apenas por que Ele está com Deus. E provavelmente é assim pelo fato de que ele [João] viu tamanha ordem no Logos, que João não colocou a clausula ‘e o Verbo era Deus’ antes da setença ‘O Verbo estava com Deus’”

Para Orígenes a ordem das sentenças é fundamental. Ele chama de axioma cada uma das sentenças. Ou seja, o primeiro axioma fundamental é o fato de que o Verbo já existia no princípio. O segundo, que esse mesmo Verbo estava com Deus. Portanto, a conclusão é que o Verbo é Deus. Em sua conclusão, Orígenes diz: “É por isso que nós vemos o Verbo estando com Deus o faz Deus”.

Explicando o mesmo verso, pouco à frente Orígenes diz: “Na primeira premissa nós aprendemos onde o logos estava: Ele estava no princípio. Então nós aprendemos com quem Ele estava; com Deus. Depois nós aprendemos que Ele era: e Ele era Deus” (Livro 2, cap.4; cf. cap.5). Para Orígenes não há dúvidas de sua leitura do texto: Para Ele O Verbo é Deus.

A princípio não sabemos de onde Orígenes teria escrito esse comentário: Se em Alexandria onde passou grande parte de sua vida, ou em Cesaréia, para onde foi após um desentendimento com o Bispo Demétrio. Mas, é interessante que temos um escritor do fim do segundo século, início do terceiro educado em Alexandria (norte do Egito) e que defende veementemente a Divindade de Cristo no mesmo período em que o exemplar copta está em produção. A proximidade histórica e geográfica faz disso um excelente ponto de comparação, pois Orígenes, como todas as suas peculiaridades, está com a ortodoxia teológica nesse ponto em um local onde supostamente a tradução copta estava sendo realizada com uma visão bem diferente da sua (considerando que a suposta tradução de Landers esteja correta). Isso é mais uma evidência que aponta para a solidão da versão copta (se estiver sido bem traduzida).

G. Eusébio de Cesaréia:

Eusébio nasceu por volta do ano 260, mas ninguém sabe ao certo onde. Ele é conhecido como Eusébio “de Cesaréia”, não por ter nascido lá, mas porque foi bispo desta cidade. Ele é reconhecido por sua obra História Eclesiásticas, pois foi o primeiro a refletir e lançar luz sobre a história da igreja nos três primeiros séculos. Em 315 foi ordenado bispo de Cesaréia e durante esse período teria simpatizado dom a doutrina Ariana. Embora Eusébio não adotasse as idéias de Ário, mas a teria entendido incorretamente apenas, foi expulso de sua posição por Alexandre em 318, sob a acusação de negar a divindade de Cristo. No Sínodo de Antioquia foi excomungado sob acusação de ser arianista. Entretanto, no fim do mesmo ano, foi convocado por Constantino para se explicar no Concílio de Nicéia e teve suas punições suspensas pelo Imperador, ao defender a Divindade de Cristo, como veremos melhor à frente. Eusébio veio a falecer em 30 de Maio de 339.

Eusébio faz apenas duas citações de Jo.1.1, e em ambos contextos defende a visão ortodoxa das escrituras. O que se precisa dizer, dado o foco e objetivo desse trabalho, é que a leitura do texto que estamos a averiguar, também era conhecida na região da Cesaréia, de onde Eusébio escreve. Logo, ele teve acesso a um tipo de texto que serviu como base para suas obras, e nesse texto que lhe era disponível, como ele lia e entendida Jo.1.1? Abaixo, transcrevo suas considerações:

“Para aquele que está ao lado do Pai pode ser claramente entendido como a Luz que existe antes do mundo, a intelectual sabedoria intelectual que existe antes dos tempos, o Verbo vivo que estava no princípio com Deus e que era Deus, o primeiro e único gerado de Deus, que é antes de todas as criaturas, criação visível e invisível, o Mestre das hostes racionais e imortais do céu, o mensageiro do grande concílio, o executor da vontade não anunciada do Pai, o criador com o Pai de todas as coisas e segunda causa do universo depois do Pai, o verdadeiro e único gerado Filho de Deus, o Senhor, Deus e Rei de todas as coisas criadas, Aquele que recebeu o domínio e o poder, sendo ele mesmo divino, cuja força e poder procedem do Pai; como é dito a seu respeito na mística passagem das Escrituras que declara sua divindade: ‘No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. (História Eclesiástica, Livro, Cap.2)

“Universal assim é a agência do Verbo de Deus: presente em todos os lugares, permeando todas as coisas pelo poder da sua inteligência, ele olha acima ao Seu Pai, e governa toda a criação abaixo, e inferior a ele, e conseqüente acima dele mesmo, de acordo com sua vontade, como o Preservador de todas as coisas. Intermediário, como se estivesse atraindo as coisas criadas à não criada Essência, esse Verbo de Deus existe como um laço inquebrável entre os dois, unindo coisas mais diferentes por um inseparável vínculo. Ele é a Providência que governa o universo, o guardião e diretor de Tudo: Ele é Poder e Sabedoria de Deus, o unigênito Deus, o Verbo gerado do próprio Deus. Por isso ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus’” (Oração de Eusébio Panfílio, Cap.12)

H. João Crisóstomo

João Crisóstomo nasceu em 347 em Antioquia, a segunda cidade mais importante do Ocidente no Império Romano nessa ocasião. É chamado Crisóstomo, não por um nome de família, mas por ser considerado muito eloqüente. A palavra grega “Χρυσόστομος” significa literalmente “boca de ouro” e provavelmente esse título teria sido atribuído a ele após sua morte.

João Crisóstomo já ultrapassa um pouco a data que temos em consideração nesse trabalho, entretanto, sua análise nesse texto merece nossa atenção. A leitura que Crisóstomo dispõe do texto é claramente “καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος” e ele apresenta essa leitura várias vezes. Na sua décima sexta homilia do Evangelho de Mateus, João Crisóstomo diz:

“Muitas vezes, tendo dito muitas coisas em Sua Pessoa sem muito falar sobre Ele mesmo, deixa as grandes coisas serem ditas por outros. No entanto, quando discutia com o judeus, Ele disse: ‘Antes de Abraão vir a ser, EU SOU’. Mas, seu discípulo não faz diferente: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”

Mas, ainda mais interessante que sua leitura do texto é sua exegese do mesmo. Em sua quarta homilia no Evangelho de João, ele se propõe a fazê-lo assim:

“‘Como’ alguém pode perguntar, ‘João defini um início por dizer: ‘No princípio era’? Me diga, você prestou atenção à expressão ‘No princípio’ e ao verbo ‘era’ e não entende a expressão ‘o Verbo era’? O que! Quando o profeta diz: ‘de eternidade a eternidade, tu és Deus’ ele diz isso para evidenciar Seus limites? Não, mas para declarar sua eternidade. Agora, considere que o caso aqui é semelhante. Ele não sua a expressão como definição de limites, por que ele não diz ‘teve um princípio’, mas ‘era no princípio’. Como a palavra ‘era’ o carrega à idéia de que o Filho não tem início. ‘Mas, observe’ ele diz ‘o Pai é nomeado com a adição de um artigo, mas o Filho sem ele’”

Aqui vemos a contribuição das citações de João Crisóstomo, pois ele observa que alguém teria visto o texto de Jo.1.1 e identificado a falta de artigo em referência ao Verbo quando usa o termo “Θεὸς”. As idéias aqui combatidas por João Crisóstomo são semelhantes aos que os arianos modernos costumam fazer. É como se a falta de artigo estivesse sugerindo que Cristo fosse menor que o próprio Deus. Mas, como João Crisóstomo entendia a falta de artigo? Observe:

“O que então, o apóstolo quis dizer quando disse: ‘O grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo’? E novamente ‘O que é sobre todos Deus’? É verdade que aqui ele menciona o Filho, sem artigo, mas ele faz o mesmo quando fala do Pai em sua epístola aos Filipenses: ‘sendo em forma de Deus, não julgou como roubo o ser igual a Deus’, e novamente [na epístola] aos Romanos: ‘Graça a vocês e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo’. (…) Falando a respeito do Pai, ele diz: ‘Deus é Espírito’, e nós não negamos a Natureza Espiritual de Deus, apesar de que o artigo não está unido a ‘Espírito’; então, em função de que o artigo não é anexado ao Filho, o Filho não é apresentado como menos Deus”

É bem interessante que Crisóstomo, nem seu referido herege, teriam visto aqui uma outra divindade. Aliás, como o ataque de Crisóstomo consiste na defesa de que Cristo não é menos Deus que o Pai, podemos perceber que esse era o teor do ataque. É interessante que não se fala em um outro deus, mas no Filho sendo Inferior ao Pai. Mas, por que isso? Crisóstomo responde:

“Por que dizer ‘Deus’ e novamente ‘Deus’, ele não nos revela nenhuma diferença em sua Divindade, mas ao contrário; por ter dito ‘e o Verbo era Deus’ ninguém pode supor que a Divindade do Filho é inferior, pois ele imediatamente adiciona características da verdadeira Divindade, incluindo Eternidade (por que Ele era no princípio com Deus, ele diz) e atribui a Ele o ofício de Criador: ‘por meio dele todas as coisas foram feitas e sem Ele nada do que foi feito se fez”

Ou seja, para Crisóstomo, a falta de artigo não pode demonstrar a inferioridade de Cristo a Deus Pai por duas razões:

(1)   Gramaticalmente não é incomum encontrar situações em que Deus é apresentado sem artigo e nem por isso o autor quer dizer que Ele é menor. É também comum encontrar características de Deus apresentadas sem artigo sem que isso implicasse na falta da totalidade da atribuição qualitativa. Esse é o caso da sentença “πνεῦμα ὁ Θεός” (Deus é Espírito), onde ninguém procura negar a Natureza Espiritual de Deus muito embora temos a falta de artigo em “πνεῦμα” (Espírito).

(2)   Contextualmente João acresce informações que o identificam claramente com Deus Pai. Ele cita duas ocasiões: Em primeiro lugar ele é Eterno, pois ele já era no princípio e não veio a ser criado. Em segundo lugar, ele mesmo é o Criador.

Portanto é evidente na mente de João Crisóstomo que não se pode falar em inferioridade de Cristo em relação ao Pai, no sentido de ser menos Deus. Mas, ainda mais interessante é que João não se contrapõe a idéia de um outro deus em Jo.1.1. Ainda que comentasse sobre a falta do artigo, ele, nem seu herege opositor, teria encontrado aqui a evidência de uma segunda divindade. E falando ainda sobre a falta de artigo, em seu comentário à Epístola de Gálatas, no primeiro capítulo ele diz:

“Aqui, novamente, está uma clara refutação dos hereges que afirmam que João no início do seu Evangelho, onde ele diz: ‘e o Verbo era Deus’ usa a palavra ‘Θεὸς’ sem artigo para defender a inferioridade da Divindade do Filho; e o que Paulo não menciona o Pai quando ele diz que o Filho era ‘forma de Deus’ por que a palavra ‘Θεὸς’ estava sem artigo. Mas, o que eles conseguem dizer aqui, quando Paulo fala ‘καὶ Θεοῦ πατρὸς’ e não ‘καὶ τοῦ Θεοῦ πατρὸς’?”

O que João Crisóstomo afirma com isso? É que se a ausência de artigo é evidência para inferioridade de Cristo, a Teologia no Novo Testamento deve reinterpretar todas as ocasiões em que Deus é apresentado sem artigo, ou ocasiões que descrições da pessoa de Deus fossem apresentadas sem artigo, o que não faz sentido, nem para Crisóstomo nem para nós.

O que se conclui da análise exegética de Crisóstomo? Que, embora os hereges vissem a inferioridade de Cristo para com o Pai, não poderiam ter encontrado outra divindade à parte de Deus Pai; e que, a leitura do texto com um todo demonstra exatamente o oposto, pois o Verbo recebe atributos da Divindade do Pai, sem contar nas outras ocasiões onde é claramente apresentado como Deus.

*          *          *

Para citações exaustivas dos Pais da Igreja antes do século V, ver:

Como os Pais da Igreja citam Jo.1.1?

*          *          *

Bom, depois de tantas citações, que até seguem um determinado padrão, é importante perceber que nenhum dos Pais da Igreja citados fazem qualquer menção da possibilidade de que a leitura do texto deveria acrescer o artigo indefinido [um] antes de Deus. É interessante notar que mesmo quando combatem os “hereges”, não mencionam que alguém teria ousado entender o texto com acréscimo de um artigo na tradução ou interpretação.

Ao contrário, em seus comentários eles evidenciam que a compreensão do texto era muito próxima da forma como nós o temos compreendido. É bem verdade que algumas das definições já não são exatamente como as nossas, mas evidencia-se a manutenção da doutrina ortodoxa das escrituras em suas citações. Além disso, temos que considerar que pais da igreja supracitados são falantes do grego koinê escrevendo na língua que conhecem, mas nenhum deles ousou usar o texto de Jo.1.1 como evidência da não divindade real de Jesus Cristo, ou do absurdo de chamá-lo outro deus. Muito pelo contrário, o texto é normalmente utilizado para justamente evidenciar sua Divindade e Igualdade com Deus. Isso é significativo.

Por isso é bem importante demonstrar que, para que a tradução da TNM de Jo.1.1 ou da suposta tradução da versão copta ser aceitável, é necessário que todos os Pais da Igreja estejam equivocados[1]. Portanto, se a suposta tradução da versão copta saídica citada está correta (o que temos algumas razões para duvidar) ela não me parece evidência suficiente para suportar o que pretendem os defensores da TNM.

Conclusão

Quando nós colocamos as versões coptas dentro do cenário da histórica textual do Novo Testamento podemos dizer com certeza que ela é uma parte de um todo muito rico. Por isso, suprimir todas as outras evidências para exaltar uma única leitura que parece suportar uma opinião teológica, não parece nem um pouco adequado. Aliás, isso mostrou-se incorreto.

Se as versões coptas fossem as mais importantes leituras (que não são), ou as mais antigas (que não são) ou as que representassem melhor a tradução do grego neotestamentário (que também não são) ainda estariam sujeitas à análises de caráter geográfico. A análise do ponto da vista da geografia visa compreender como determinada leitura ou tradução era encontrada no mundo antigo. Caso fosse uma leitura sem representatividade em outras regiões demonstrar-se-ia que tal leitura não era familiar a outras regiões do mundo. Isso inevitavelmente ou iria colocar todo o resto do mundo antigo desprovido da verdade, ou nos faria pensar que a mesma era a leitura equivocada.

Porém, deve-se dizer que isso seria aplicado caso a tradução das versões coptas fossem realmente problemáticas. Mas, será que elas podem ser assim definidas? Por isso, abaixo passamos a observar a tradução da versão copta saídica.

PRÓXIMO


[1] Alguns comentaristas Testemunhas de Jeová tem dito exatamente isso. Hal Flemings, que se propõe a evidenciar isso com detalhes na interpretação da trindade nos pais da igreja, diz: “Antes de considerarmos isso com detalhes, vamos primeiro estabelecer que o sistema de corrupção dos primeiros anos da igreja foi predito pelas escrituras gregas. O apóstolo Pedro escreveu seu aviso por volta de 62 da E.C. [era comum= d.C.]: “No passado surgiram falsos profetas no meio do povo, como também surgirão entre vocês falsos mestres. Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. uitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda” (2Pe.2.1-3)” (FLEMINGS, Hal, Examining the Doctrines of the Trinity and the Person of Jesus Christ in the Eyes of the Apostolic and Ante-Nicene Father). É bem verdade que eu mesmo usaria esse verso em referência a Flemings.

Como os Pais Sírios da Igreja citam e interpretam Jo.1.1?

Enviado em Crítica Textual, Testemunha de Jeová às 10:23 am por Marcelo Berti

=======================

ESBOÇO DO ARTIGO COMPLETO:

=======================

Marcelo Berti

Pouca notícia se tem de Teólogos de fala síria na história da Igreja, mas o que temos em mãos pode ser elucidativo.

A. Taciano, o Assírio

Taciano, conhecido pela história da Igreja como Taciano o Assírio, é mais um daqueles representantes dos Pais da Igreja que pouca coisa se sabe com certeza. Ele nasceu na Assíria, muito embora não se saiba precisar quando, mas veio a falecer, provavelmente, em 185 d.C. Por ter ido à Roma, tornou-se discípulo de Justino, o Mártir e provavelmente foi seu aluno no período em que combatia os sofistas gregos. Após a morte de Justino, pouco se sabe sobre ele. Irineu diz que após a morte de Justino, Taciano deixou Roma, em função de sua visão asceta e por ter juntado-se ao movimento de Valentino, um líder gnóstico. Eusébio diz que ele é o fundador da seita Encratita (gr. Autocontrole), que se abstinha de vinho, carne de animais e do casamento. Entretanto, não se sabe muito além disso. O que o torna reconhecido é sua obra chamada Diatessaron (gr. através dos quatro [evangelhos] – METZGER, pp.89), que é a primeira harmonia do evangelhos que se tem conhecimento.

O Diassetaron é datado entre 150-160 d.C. (T.Nicol acredita em uma data posterior a 170 d.C, ISBE)e representa uma das grande obras da tradição síria do cristianismo. É bem verdade que existe certa disputa sobre em que língua teria sido escrita essa obra, pois os remanescentes mais antigos são fragmentos sírios e gregos. Entretanto, é possível remontá-lo no idioma sírio quase completamente pelos comentários feitos por Efraim da Síria no Diatessaron. Esse documento também é encontrado em latim, armênio e árabe em versões posteriores. A grande dificuldade de se remontar o texto do Diatessaron é que no quinto século, quanto o Pai da Igreja Teodoret tornou-se bispo de Ciro na Síria, ele encontrou algumas cópias desse matérial em sua diocese. Pelo fato de Taciano ter sido identificado como um herege no fim de sua vida e por pensar que os cristão estavam em perigo com sua obra, Teodoret mandou destruir tantas obras quanto fossem encontradas.

Apesar de Taciano ser um Pai da Igreja de história controvertida, e de sua principal obra ser rodeada de dificuldades históricas, o mais importante em nossa análise é a que forma de Jo.1.1 ele teve acesso. Sua versão desse verso é assim encontrada:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo

A ordem da última sentença parece deslocada, em relação a tantas outras que já vimos, até por que entendemos que essa não é uma tradução possível para o texto grego. É como se Taciano estivesse lendo um artigo definido antes do substantivo Deus: “καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος” (lit. e O Deus era O Verbo). Como sabemos que esse artigo não estava lá, podemos apenas supor que esse era o entendimento de Taciano. Na pior das hipóteses, Taciano teria lido o texto desse modo, mas isso já um pouco mais improvável, uma vez que essa leitura só foi encontrada no manuscrito alexandrino tardio L, do oitavo século. O que é evidente, por outro lado, é que nem em seu entendimento, ou do “suposto” texto que tinha disponível, parecia enxergar aqui um outro Deus.

B. Efraim da Síria

Efraim da Síria é, provavelmente, o único representante da História da Igreja reconhecido como teólogo-poeta.  Ele nasceu por volta do ano 306 d.C. na cidade de Nisíbis filho de um líder pagão do deus Abnil ou Abizal. Foi introduzido ao cristianismo pelo Bispo de sua cidade, Tiago (Jacó). Efraim foi batizado por ele com 18 anos e provavelmente tornou-se um filho da aliança , uma forma não usual do proto-monasticismo Sírio. Também foi designado professor e diácono por Tiago. Tornou-se hábil na composição de hinos e na produção de comentários bíblicos. Escreveu muitos hinos de caráter didático, ricos em poesia e fundamentado nas escrituras, além de uma série de Hinos Contra Heresias, que apresenta poeticamente a encarnação do Verbo como Deus-homem. Suas obras foram escritas exclusivamente em Sírio, entretanto as cópias mais antigas desses materiais são encontrados em Grego, Copta, Georgiano e Armênio, sendo que muitas de suas obras são apenas encontrados no último.

Em uma obra intitulada “Sermão da Transfiguração do nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo”, Efraim defende uma visão ortodoxa da cristologia. Nessa obra ele apresenta claramente o conceito da Trindade: “Pai, o Filho e o Espírito Santo são um em natureza, poder, essência e relacionamento” (v.14); da união hipostática: “Eu confesso o mesmo [que Cristo] é perfeito Deus e perfeito homem, reconhecendo nele duas naturezas unidas hipostaticamente, mas em pessoa, [ele] é indivisível, sem confusão, e imutável” (v.17).  Pouco à frente no mesmo documento ele poeticamente atesta: “Ele é ao mesmo tempo, terreno e celeste, temporal e eterno, com início e sem início, atemporal e sujeito ao tempo, nascido e não criado, passível e impassível, Deus e homem, perfeito nos dois, um em dois, dois em um”.

A opinião de Efraim é claramente ortodoxa e não precisaríamos de outras evidências para que isso seja verificado. Por isso não é de estranhar que o fundamento para essas declarações, além daquelas que encontra no relato da transfiguração, esteja em Jo.1.1. Sobre isso ele fala:

“Mas os profetas falaram a verdade e seus testemunhos não mentem. O Espírito Santo falou por meio deles o que deveriam escrever. E João o puro também, que reclinou-se no peito do fogo, reforçando a voz dos profetas, falando da parte de Deus no Evangelho, falando conosco diz: ‘No princípio era o verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus, todas as coisas foram feitas por meio dele e sem Ele nada do Que foi feito se fez’. ‘E o verbo se fez carne e habitou entre nós’.”

Efraim, seguindo a tradição síria também não encontra no texto de Jo.1.1 a idéia de que existe um outro Deus, ao contrário, para ele Jo.1.1 é a demonstração de que o Verbo é Deus e Efraim o reconhece como Deus filho.

*          *          *

Contudo, além das diferentes versões e da tradição síria e latina dos Pais da Igreja, faltam ser observados os Pais da Igreja de Tradição grega. Seu estudo é fundamental, pois teremos leitores de grego lendo e interpretando Jo.1.1 no idioma que dominam. Assim, temos novas informações sobre como leitores e intérpretes reconhecidos pela história entendiam esse verso.

PRÓXIMO

Como os Pais Latinos da Igreja citam e interpretam Jo.1.1?

Enviado em Crítica Textual, Testemunha de Jeová às 10:20 am por Marcelo Berti

=======================

ESBOÇO DO ARTIGO COMPLETO: