12.07.09

A Criação do Homem

Enviado em Antropologia, Gênesis tagged , , às 9:40 am por Marcelo Berti

O homem é criado por Deus (cf. Mt.19.4; Rm.5.12-19; 1Co.15.45-49; 1Tm.2.13). Somente Deus seria a causa suficiente e razoável para explicar a complexidade da vida humana. Somente na palavra de Deus pode-se encontrar uma revelação especial das atividades de Deus na CRIAÇÃO do universo e de tudo o que nele existe. “Nenhuma outra literatura no mundo é tão repleta de revelação direta destinada a informar a mente do homem e orientar pesquisas científicas como essas primeiras páginas da Bíblia[1]”.

A criação é relatada em dois textos distintos em Gênesis: 1.26,27 e 2.7, 21-23. Essa duplicidade de relatos tem feito com que alguns teólogos questionem sua validade e veracidade. Alguns afirmam que existe certa contradição entre os relatos ou até que existem duas fontes na qual o autor deve ter pesquisado. “A alta crítica é de opinião que o escritor de Gênesis juntou duas narrativas da criação (…) e que as duas são independentes e contraditórias[2]”.

No entanto, seguindo o plano do autor de Gênesis nota-se que a segunda narração trata-se de uma descrição mais detalhada da criação. “O primeiro registro da criação do homem reporta com simplicidade sublime um tema muito difícil”, mas não de maneira insuficiente. “No detalhe acrescentado que caracteriza o segundo registro, está declarado que homem e mulher são parecidos no aspecto físico, por ter sido diretamente – como no caso do homem – e indiretamente – como no caso da mulher – do pó da terra[3]”.

Para os cristãos convictos pouco importa se a ciência afirma, em caráter científico bem fundamentado ou não que a historicidade de terra é bem maior que a sustentada por alguns teólogos, visto que não viola o texto bíblico de maneira nenhuma. “Seja num tempo ou noutro, permanece verdadeiro que Deus Criou o homem imediata e diretamente[4]”. Segue-se, então que é possível concordar com Strong quando se propõe a definir o ato da criação da seguinte maneira:

“Criação é o ato livre do Deus trino pelo qual, no princípio, para sua glória, ele fez, sem uso de matéria preexistente, todo o universo visível e invisível[5]”.

Criação pode ser compreendida como origem com desígnio, pois é impossível que o homem tenha capacidade de imaginar um Ser Pessoal como criador, sem que o tenha conhecido como tal. Outro fato interessante, é que na criação Deus preocupou-se em formar todos os outros seres vivos a fim de que o homem pudesse ter o ambiente perfeito para viver. Ou seja, tudo o que era essencial para a existência do homem já havia sido criado por Deus.

Introdução – A Literalidade de Gênesis

Este tópico visa detalhar ainda um pouco mais que as informações colhidas nos tópicos anteriores podem ser verídicas pelo fato de que o texto base para tal é literal e demonstrado com real diante das demais Escrituras.

1.         Jardim Literal

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…) Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”  (Gn.2.8,9,15)

Após o ato imediato da criação do homem, nota-se o seguinte texto que demonstra claramente a criação do Ambiente do Primeiro homem. Nota-se que Deus é a causa primeira deste Jardim que está localizado na terra, que já havia sido criada. A localização descrita pelo autor bíblico sugere que este Jardim estava situado na região da Palestina. Nos versículos que seguem podemos notar esse fato:

E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços (…) O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates” (Gn2.10, 14)

Dois dos nomes de rios mencionados neste texto são muito bem conhecidos e Norman Geisler chega a sugerir que a Bíblia situa os rios na Assíria, atual Iraque. As informações bíblicas são muito bem arranjadas, e isso faz com que alguns teólogos acreditem em uma inserção de informações posteriores. Mas tal informação é especulativa, visto não existir informações que sustentem essa opinião.

Por causa das especulações teológicas colocadas sobre o texto de Gênesis, é importante demonstrar que as evidências dão suporte para a interpretação normal do texto, que neste caso é literal.

Normalmente as objeções lançadas sobre a mitologia relacionada com o Jardim do Éden é colocada em função da inexistência de artefatos arqueológicos que evidenciem tal existência. Contudo, é necessário que se demonstre que após a queda Deus selou o Jardim (Gn.3.24), isso impossibilitaria que qualquer evidência arqueológica fosse encontrada. Outro detalhe que merece atenção é que não existem evidências de que Adão ou Eva tenham se aplicado à produção de artefatos neste Jardim, nem mesmo se empenhado a qualquer espécie de construção. Ou seja, sem tais fatos é impossível que se encontre evidências arqueológicas. Se existisse, ainda, qualquer evidência, com o Dilúvio elas seriam destruídas (Gn.6-9; cf. 2Pe.3.5, 6).

A inclusão dos rios Tigre e Eufrates, que são reais, parece sugerir que o Jardim seja igualmente literal. A preocupação do autor bíblico em demonstrar os rios deve reportar-se ao fato de que tal Jardim seja também real.

Um ponto que merece destaque dentre os mencionados, é que o Novo Testamento testemunha sobre os fatos relacionados ao Jardim como reais. Fala da criação de Adão e Eva (Mt.19.4; 1Tm.2.13) e de seu pecado original (1Tm.2.13; Rm.5.12) . Assim, esses eventos reais precisam de um Ambiente Real para acontecer, um lugar geográfico.

2.         Adão Histórico-literal

A argumentação que proporciona a interpretação mítica ou irreal é a consideração de que o autor utiliza-se de um estilo poético, repleto de paralelismo com outros mitos antigos e a suposta contradição entre o relato e a ciência. No entanto, para os escritores bíblicos, tanto Adão quanto Eva, são personagens históricos, e encontrados em uma leitura literal de Gênesis.

O primeiro fato que evidencia a condição histórica de Adão é a própria narrativa de Gênesis. Embora muita discussão exista neste ponto, para aqueles que consideram o texto como fonte fidedigna de informações é o ponto de partida. Observe que o autor sempre demonstra Adão como uma pessoa real. Se Adão fosse irreal não poderia ter gerado filhos, e na narrativa de Gênesis ele perpetua a espécie humana, gerando filhos à sua imagem (Gn.5.3).

Outro detalhe importante dentro da narrativa de Gênesis é que a sentença “Este é o registro”, ou “são estas as gerações” encontradas para registrar a história do povo hebreu (cf. Gn.6.9; 10.1; 11.10, 27; 25.12, 19) é usada para o registro da Criação (2.4) e para Adão e Eva e seus descendentes (5.1).

Fora da narrativa de Gênesis é possível encontrar Adão como personagem histórico. Na cronologia encontrada em 1Cr.1.1, Adão encabeça a genealogia mais extensa das escrituras (1.1 – 9.44), que demonstra a historicidade das tribos de Israel e a importância da linhagem davídica. Mas para que esta genealogia tenha valor real é necessário que os personagens envolvidos seja igualmente reais.

O Novo Testamento testemunha a favor da historicidade de Adão. Em Lc.3.38 Adão é designado como um ancestral literal de Jesus,  e este, posteriormente, referiu-se a Adão e Eva como os primeiros “homem e mulher” literais, fazendo da união deles a base para o casamento (Mt.19.4).

Paulo em Romanos declara que a morte foi trazida ao mundo por um homem real (Rm.5.12, 14). Em Coríntios, Paulo faz uma comparação entre Cristo e Adão (1Co.15.45). Para Timóteo, Paulo afirma que primeiro foi criado o homem e depois a mulher (1Tm.2.13, 14). Ou seja, se as comparações e citações paulinas sobre os diversos assuntos que aborda fossem baseadas em mitologia, as asseverações morais seriam nada mais do que afirmações equivocadas e inválidas. Entretanto, não parece ser esse o caráter que Paulo escreve. Tanto ele, como os autores do Novo Testamento tem por certo de que os acontecimentos narrados em Gênesis são fatos. Assim, é impossível não crer na historicidade de Adão.

A.     Conceituações gerais da Criação do homem

Três características são percebidas em relação a criação do homem: (1) Ele foi criado diretamente por Deus; (2) Em distinção das outras criaturas e (3) colocado em uma posição exaltada.

1.         O homem foi criado diretamente por Deus

Ao observar o primeiro relato bíblico da criação, não se pode chegar à outra conclusão senão que o homem é resultado da intervenção direta de Deus. Observe o versículo: “Criou Deus, pois, o homem…” (Gn.1.27). Esse versículo inibe a possibilidade da utilização de um processo evolutivo para a formação do homem. Deus não utilizou formas “preexistentes” ou subumanas de vida para formar Adão. Assim Deus não soprou o fôlego da vida em um “macaco-quase-homem” que veio a ser o primeiro homem.

No segundo relato da criação podemos percebem que Deus não se utilizou de formas orgânicas menos desenvolvidas para formar o homem, mas “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra”. Dessa maneira podemos dizer que “essa passagem reforça o fato da criação especial a partir de materiais inorgânicos, não apoiando a idéia de uma criação derivada de alguma forma de vida prévia[6]”.

Entretanto alguns atestam que a referência ao pó da terra pode ser considerado como uma forma alegórica para um ser vivo preexistente. Mas devemos desconsiderar essa possibilidade, pois o próprio Deus afirmou que o homem voltaria ao pó quando morresse, mas o homem nunca volta a um estado animal na sua morte (Gn.3.19).

Portanto, temos que admitir, se cremos que a Palavra de Deus é infalível e inerrante como ela afirma ser, que não existe outra possibilidade verdadeira para a origem do homem fora das escrituras. Deus criou o homem de fato, e isso não pode ser negado.

2.         O homem foi criado em distinção das outras criaturas

Outro fato que deve ser percebido na criação do homem é que ele não foi criado nem derivado de outras criaturas. Na descrição de Gênesis, Deus cria o reino vegetal distinto do animal, e o homem distinto de ambos. Observe:

“E disse: Produza a terra relva, ervas, que dêem fruto semente, e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cujo a semente esteja nele” (Gn.1.11)

Essa identificação exata de Deus em relação ao reino vegetal inclui até mesmo a condição da semente do fruto das árvores. Mas não se encontra aqui nenhuma referência ou semelhança com os animais ou o homem, mas declara que sua reprodução é única e exclusiva segundo a sua espécie, ou como declara o próximo versículo “conforme a sua espécie”. Fato similar acontece com os animais marinhos e as aves:

“Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies” (Gn.1.21)

Note que cada ser criado por Deus é criado segundo a sua espécie. E o mesmo acontece com os animais selváticos:

“E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie.” (Gn.1.25)

Assim, cada categoria de animal foi criada em conformidade com sua própria espécie, bem como a sua reprodução de acordo com essa conformidade. Segue-se que não se pode afirmar a partir do relato bíblico que houve nalgum momento da criação um processo evolutivo, mas cada animal foi criado segundo a sua espécie.

E, tendo isso como fundamento, na criação do homem não podemos atribuir a utilização de um outro ser vivo para a sua formação. Pois além de ser criado a partir do pó da terra, não pertence à espécie de nenhum outro ser vivo. Portanto, o homem é distinto de qualquer outra forma de vida.

3.         O homem foi colocado numa posição exaltada

O fato de que o homem não pertence à categoria dos animais pode ser percebido em função da criação distinta dos outros seres vivos, como uma espécie distinta de ser vivo e pela posição distinta que tem das demais criaturas. Esse distinção em termos de posição pode ser observada na declaração:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toa a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn.1.26)

Essa identificação demonstra que existe algo especial, não somente na criação, mas na formação. Além da intervenção especial, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Isso faz toda diferença entre o homem e os outros seres vivos. Mas é ainda reforçado por sua posição exaltada, pois é criado para ter domínio sobre todos os outros seres vivos. Portanto, o homem está colocado numa posição privilegiada em relação a demais criaturas.

Essa posição exaltada é ainda demonstrada de forma poética em Salmos, quando Davi escreve uma exaltação das obras de Deus dizendo:

“Quando contemplo os teus céus, obra de teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras de tua mão, e sob teus pés tudo lhe puseste” (Sl.8.3-6)

Portanto, o homem é considerado como ápice da criação, a coroa da criação, e por isso tem sua distinção de todas as outras criações e criaturas e está acima de todas elas.  Outro fator que evidencia essa verdade é que como a criação do homem a Obra Criativa de Deus chegou ao fim. Isso pode ser observado pela frase dita pelo próprio Deus após a criação do homem: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn.1.31).

B.     A dignidade do homem (1.26-31)[7]

Desde que o capítulo dois é construído sobre os detalhes básicos de 1:26-31, vamos começar por considerar esses versos mais cuidadosamente. O homem, como dissemos anteriormente, é a coroa do programa criativo de Deus. Isto fica evidente em muitos pormenores.

Primeiro, o homem é a última das criaturas de Deus. Todo o relato é montado para a criação do homem. Segundo, só o homem é criado à imagem de Deus. Enquanto há considerável discussão do que isso significa, muitas coisas estão implícitas no próprio texto. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus em sua sexualidade:

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn. 1:27)

Isso não quer dizer que Deus seja homem ou mulher, mas que Deus é ambos unidade e diversidade. O homem e a mulher no casamento se tornam um e ainda assim são distintos um do outro. Unidade na diversidade como refletida na relação do homem com sua mulher reflete uma faceta da personalidade de Deus.

Também, o homem, de alguma forma, é parecido com Deus naquilo que o distingue do mundo animal. O homem, enquanto distinto dos animais, é feito à imagem e semelhança de Deus. O que distingue o homem dos animais deve então ser uma parte de seu reflexo de Deus. A habilidade do homem de raciocinar, de se comunicar e de tomar decisões morais deve ser uma parte dessa distinção.

Ainda mais, o homem reflete a Deus no fato de que ele domina sobre a criação de Deus. Deus é o Dirigente Soberano do universo. Ele delegou uma pequena porção de Sua autoridade ao homem no domínio da criação. Nesse sentido, também, o homem reflete a Deus.  Repare também que é o homem e a mulher que dominam: “… dominem eles…” (Gn. 1:26, cf. v. 28).

Ele se refere ao homem e a mulher, não somente aos homens que Ele fez. Enquanto que Adão tem a função de liderar (como evidenciado em sua prioridade na criação[8], seu ser a origem de sua esposa [9], e a nomeação de Eva[10]), a função de Eva era ser a auxiliadora de seu marido. Nesse sentido ambos estão no domínio da criação de Deus.

Mas, mais importante que isso é o fato de que a dignidade e o valor do homem não são imputados por ele mesmo, mas são intrínsecos a ele como aquele que foi criado à imagem de Deus. O valor do homem está diretamente relacionado à sua origem. Não é de se admirar que hoje estejamos ouvindo tais propostas éticas e morais assustadoras.

Qualquer opinião a respeito da origem do homem que não o veja como produto do projeto e desígnio divino, não pode atribuir a ele o valor que Deus lhe dá. Para colocar de outra forma, nossa avaliação do homem é diretamente proporcional à nossa opinião a respeito de Deus. O sólido princípio sobre o qual tais decisões devem ser tomadas, em minha opinião, é o fato de que todos os homens são criados à imagem de Deus. Sob essa luz, agora posso ver porque nosso Senhor pôde resumir todo o Velho Testamento em dois mandamentos:

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt. 22:37-40)

A atitude do futuro parece ser amar apenas aqueles “próximos” que são contribuidores na sociedade, apenas aqueles que podem ser considerados vantajosos. Quão diferente é o sistema de valores de nosso Deus, que disse:

“O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt. 25:40).

Em minha opinião, eis onde nós cristãos seremos colocados à prova. Alguns estão fortemente sugerindo que, aqueles que nosso Senhor chamou de “pequeninos”, são justamente aqueles que devem ser eliminados da sociedade. Possa Deus nos ajudar a ver que a dignidade do homem é aquela que é divinamente determinada.

C.     O dever do homem (2.4-17)[11]

Enquanto Gênesis um descreve a progressão do caos para o cosmos, ou da desordem para a ordem, o capítulo dois segue um padrão diferente. Talvez a linha literária que permeie toda a passagem seja aquela da atividade criativa de Deus em complemento àquelas coisas que estão ausentes.

O verso 4 serve como introdução aos versos restantes. H.C. Leupold, em seu livro, Exposition of Genesis, defende que o uso de “toledoth” expressa exatamente isso, observe:

“Hoje é um fato bem conhecido que o livro de Gênesis é dividido em 10 seções por seu próprio autor, que dá a cada uma o título de “estória” (toledoth); cf. 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1, (9); 37:2. Apenas esta circunstância, mais o uso do número dez redondo, apontariam definitivamente para o fato de que, aqui, a expressão “estes são toledeth” deva também ser um cabeçalho. Em todos os outros exemplos de seu uso em outros livros o mesmo fato é observável; cf. Nm. 3:1; Rt 4:18; I Cr. 1:29; ele está sempre como um cabeçalho[12]

O verso 5 nos informa quais são as ausências que são supridas nos versos 6 e 7: sem arbusto, sem planta, sem chuva e sem o homem. Estas são preenchidas pela neblina (verso 6), pelos rios (versos 10 e 14), o homem (verso 7), e o jardim (versos 8 e 9).

A ausência dos versos 18 a 25 é simplesmente afirmada “nenhuma auxiliadora idônea para Adão” (cf. versos 18, 20). Esta auxiliadora é providenciada de uma linda maneira na parte final do capítulo dois.

Outra vez, deixe-me enfatizar que Moisés não pretendia nos dar aqui uma ordem cronológica dos eventos, mas uma ordem lógica, ao menos essa parece a opinião de Leupold:

“O verso 4b nos leva de volta ao tempo da obra da criação, mais especificamente ao tempo antes da obra do terceiro dia começar, e chama nossa atenção para certos detalhes que, sendo detalhes, dificilmente teriam sido inseridos no capítulo um: o fato de que certos tipos de planta, isto é, as espécies que requerem um cuidado maior e mais atento por parte do homem, não tinham brotado. Aparentemente, toda a obra do terceiro dia está na mente do escritor[13]”.

Seu propósito é mais especificamente descrito na criação do homem, de sua esposa, e o contexto no qual eles são colocados. Estes se tornam o fator chave na queda que ocorre no capítulo três.  Embora até agora não houvesse chovido, Deus providenciava a água que era necessária à vida das plantas. “Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.” (Gn. 2:6).

Há alguma discussão a respeito da palavra “neblina”. Poderia significar uma névoa ou neblina, como alguns afirmam.[14] A Septuaginta usou a palavra grega πηγὴ (pegè) que significa “fonte”. Alguns entendem a palavra hebraica como sendo derivada de uma palavra suméria, se referindo a águas subterrâneas. . Young, sobre isso diz:

“O que entendemos por “ed”? Não uma neblina! A palavra está aparentemente relacionada à palavra suméria. Parece se referir a águas subterrâneas, e o que temos aqui ou é um rompimento de água de algum lugar abaixo do solo, ou possivelmente um rio transbordando de seu leito. Não acho que possamos ser dogmáticos aqui[15]

Derek Kidner, também parece ter opinião similar, observe:

“Apenas subia constantemente (6, o bervo está no imperfeito) uma neblina ou provavelmente uma enchente, de modo que toda a cena era uma devastação de águas – pois o sentido de regava pode variar de um sentido benéfico, como em 10, para o de uma inundação completa (cf. Ez.32.6) e o último parece mais coerente com o contexto[16]

Pode ser que fontes fluíssem para fora do solo e que a vegetação talvez fosse regada por irrigação ou canais. Isto poderia explicar, em parte, o trabalho de Adão na manutenção do jardim. A água sendo suprida, Deus criou o jardim, que seria o lugar da morada do homem, e objeto de sua atenção. Era bem suprido com muitas árvores que proviam beleza e comida:

“Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9).

Especificamente duas árvores são mencionadas, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última árvore foi a única coisa proibida ao homem.

“E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás,” (Gênesis 2:16-17).

É interessante que, aparentemente, só para Adão é dito por Deus que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não devia ser comido. Alguém pode conjecturar em como a ordem de Deus para Adão foi comunicada a Eva. Poderia isto explicar a avaliação imprecisa de Eva em 3:2-3?

O homem foi colocado dentro desse paraíso. Note que a palavra hebraica Éden, significa exatamente isso:

“A palavra “Éden” em hebraico pode significar deleite ou prazer. Não estou certo de que é isto o que significa aqui. Há uma palavra suméria que significa estepe, ou planície, vasta planície, e a leste desta planície Deus plantou o jardim. Sem ser categórico dou minha opinião de que é isto o que “Éden” significa. Assim o jardim é plantado[17]”.

Apesar de certamente se regozijar nesse país das maravilhas, ele também estava lá para cultivá-lo. Olhe outra vez o verso 5:

“Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.” (Gn. 2:5)

Quando colocado no jardim, Adão teve que trabalhar lá: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” (Gn. 2:15)

A criação de Adão é descrita mais amplamente em 2:7 do que no capítulo um. Ele foi formado[18] do pó da terra:

“O verbo aqui empregado está mais de acordo com o caráter de “Senhor” de Deus; yatsar significa “moldar” ou “formar”. É a palavra que descreve especificamente a atividade do oleiro (Jr. 18:2 e ss). A idéia a ser enfatizada é aquela do cuidado especial e atenção pessoal que esse oleiro dá ao seu trabalho. Deus dá toques de Seu interesse no homem, Sua criatura, ao moldá-lo como Ele o faz”.

Ainda que isso seja um fato humilhante, é óbvio também que a origem do homem não é do mundo animal, nem o homem é criado da mesma maneira que os animais. Em parte, a dignidade de Adão provém do fato de que seu fôlego de vida foi soprado por Deus (verso 7).

Este não foi jardim mítico. Todas as partes da descrição deste paraíso nos levam a entender que foi um jardim real numa localização geográfica especial. São dados pontos de referência específicos. Quatro rios são nomeados, dois dos quais são conhecidos ainda hoje. Não deveríamos nos surpreender que pudessem ter ocorrido mudanças, especialmente depois do evento cataclísmico do dilúvio, o que tornaria impossível sua localização precisa.

O que acho mais interessante é que o paraíso do Éden foi um lugar um pouco diferente daquilo que visualizamos hoje. Prá começar, foi um lugar de trabalho. Os homens hoje pensam no paraíso como uma rede pendurada entre dois coqueiros numa ilha deserta, onde o trabalho nunca mais será encarado. Além do mais, o céu é tido como o fim de todas as proibições. O céu freqüentemente é confundido com hedonismo. É puro egocentrismo e auto-satisfação. Enquanto que o estado de Adão foi de beleza e felicidade, não se pode pensar que foi de prazer irrestrito. O fruto proibido também era uma parte do Paraíso. O céu não é experimentar todos os desejos, mas a satisfação de desejos benéficos e sadios.

A subserviência não é um conceito novo no Novo Testamento. Serviço significativo dá satisfação e significado à vida. Deus descreve Israel como um jardim cultivado, uma vinha (Isaías 5:1-2 ss). Jesus falou de si mesmo como uma Videira e nós como os ramos. O Pai ternamente cuida de Sua vinha (João 15:1 e ss). Paulo descreve o ministério como o trabalho de um lavrador (II Timóteo 2:6).

Ainda que a igreja do Novo Testamento possa ser melhor descrita como um rebanho, ainda assim a imagem do jardim não é inapropriada. Há um trabalho a ser feito pelo filho de Deus. E esse trabalho não é penoso, nenhum dever a ser relutantemente cumprido. É uma fonte de alegria e satisfação. Hoje muitos não têm senso real de sentido e propósito porque não estão fazendo o trabalho que Deus designou para que façam.

D.     O deleite do homem (2.18-25)[19]

Ainda resta uma ausência. Agora há água adequada, a bela e generosa provisão do jardim, e o homem para cultivá-lo. Mas ainda não há uma companhia apropriada para o homem. Esta necessidade é encontrada nos versos 18 a 25. O jardim, com seus prazeres e provisões para alimento e atividade significativa não era suficiente a menos que os deleites pudessem ser compartilhados. Deus daria a Adão aquilo que ele mais necessitava.

“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18)

A companheira de Adão deveria ser uma criação muito especial, uma “auxiliadora idônea para ele” (verso 18). Ela deveria ser uma “auxiliadora”, não uma escrava, não uma inferior. A palavra hebraica ezer é muito interessante. Era uma palavra que Moisés obviamente gostava, pois Êxodo 18:4 diz que este foi o nome que ele deu a um de seus filhos.

“e o outro, Eliézer, pois disse: o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.” (Êxodo 18:4).

Ainda três outras vezes encontramos ezer sendo usada por Moisés em Deuteronômio (33:7, 26, 29), e se refere a Deus como auxiliador do homem. Como também nos Salmos (20:2, 33:20, 70:5, 89:19, 115:9, 121:1-2, 124:8, 146:5).

A característica da palavra mais empregada no Velho Testamento é que o auxílio não implica absolutamente em inferioridade. De uma maneira compatível com seu uso, Deus está auxiliando o homem através da mulher. Que belo pensamento. Como isso é superior a algumas concepções. Então, ela é também uma auxiliadora que “corresponde a” Adão. Em certa tradução se lê: “…Farei uma auxiliadora como ele.”[20]

Ainda que isto seja o que muitas vezes consideramos a mulher perfeita – alguém que é exatamente como nós, é precisamente o oposto da questão. Muitas vezes a incompatibilidade está no desígnio divino. Como Dwight Hervey Small corretamente observa:

A incompatibilidade é um dos propósitos do casamento! Deus designa conflitos e sobrecargas como lições para o crescimento espiritual. Estes existem para que haja submissão aos altos e santos propósitos.[21]

Assim como Eva foi feita para se ajustar a Adão de uma forma física, ela também o completava socialmente, intelectualmente, espiritualmente e emocionalmente.

Em conseqüência, quando aconselho àqueles que planejam se casar, não procuro descobrir tantas características semelhantes quanto possível. Em vez disso, preocupo-me com que cada parceiro tenha uma visão acurada do que o outro realmente é, e que eles se comprometam com o fato de que Deus os tenha unido permanentemente. O reconhecimento de que Deus fez o homem e a mulher diferentes por desígnio, e a determinação em atingir a unidade nessa diversidade é essencial para um casamento sadio.

Antes de criar sua contraparte, Deus primeiro aguçou o apetite de Adão. As criaturas que Deus criara agora são trazidas a Adão para que ele lhes dê nomes. Esta nomeação refletia o domínio de Adão sobre as criaturas, como Deus planejara (cf. 1:28). Isto provavelmente envolveu um cuidadoso estudo por parte de Adão para registrar as características particulares de cada criatura.[22]

Este processo de nomeação deve ter tomado algum tempo. No processo, Adão observaria que nenhuma simples criatura poderia preencher o vazio de sua vida. Mais ainda, eu usaria um pouco de santa imaginação para supor que Adão observou cada criatura com sua companheira, uma contraparte maravilhosamente designada. Adão deve ter percebido que ele, só ele, estava sem uma companheira.

Nesse momento de intensa necessidade e desejo, Deus colocou Adão num sono profundo[23], e de sua costela e carne [24] formou a mulher [25] Ele então deu a mulher de presente ao homem.

Que excitamento há na resposta entusiástica de Adão:

“E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.” (Gênesis 2:23).

Gosto da maneira como a versão ARA traduz a resposta inicial de Adão: “…afinal…[26]. Nessa expressão há uma mistura de alívio, êxtase e deleitosa surpresa. “Esta (pois Adão ainda não lhe tinha dado nome) é agora osso dos meus ossos e carne de minha carne” (verso 23a). O nome da companheira de Adão é mulher. A tradução em inglês agradavelmente capta o jogo de sons semelhantes. Em hebraico, homem seria pronunciado ‘ish; mulher seria ‘ishshah. Embora os sons sejam semelhantes, as raízes das duas palavras são diferentes. Convenientemente ‘ish pode vir de uma raiz paralela arábica, levando à idéia de “exercendo o poder”, enquanto o termo ‘ishshah pode ser derivado de um paralelo arábico, significando “ser suave[27]”. O comentário divinamente inspirado do verso 24 é extremamente importante:

“Por isso deixa o homem pai e mãe e se uma à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24).

Por este texto é imperativo que o homem deixe sua mãe e seu pai e se uma à sua mulher. Qual é a relação entre este mandamento de deixar e se unir e a criação da mulher? O verso 24 começa “Por isso…” Qual é a causa disto? Podemos compreender a razão apenas quando explicamos o mandamento. O homem deixa seus pais, não no sentido de evitar sua responsabilidade para com eles (cf. Mc. 7:10-13, Ef. 6:2-3), mas no sentido de ser dependente deles. Ele deve parar de viver sob sua liderança e começar a agir sozinho, como cabeça de um novo lar[28].

A mulher não recebe o mesmo mandamento porque simplesmente ela é transferida de uma liderança para outra. Enquanto uma vez ela esteve sujeita a seu pai, agora ela está unida a seu marido. O homem, no entanto, tem uma transição mais difícil. Ele, como uma criança, era dependente e submisso a sua mãe e a seu pai.

Quando um homem se casa, ele deve passar pela transição mais radical de um dependente filho submisso para um líder independente (de seus pais), que age como o cabeça de seu lar.

Como muitos observam, a relação marido e mulher é permanente, enquanto a relação pai e filho é temporária. Mesmo se os pais forem relutantes em encerrar a relação dependente de seus filhos, o filho é responsável por fazê-lo. Falhar em agir assim é recusar uma espécie de vínculo necessário com sua esposa.

Agora, talvez, estejamos em posição de ver a relação deste mandamento com o relato da criação. Qual é a razão para sua menção aqui em Gênesis? Antes de mais nada, não há pais dos quais Adão e Eva tenham nascido. A origem de Eva é diretamente de seu marido, Adão. A união ou vínculo entre Adão e sua esposa, é a união que vem de uma só carne (a carne de Adão) e se torna uma só carne (numa união física). Esse vínculo é maior do que aquele entre pai e filho. Uma mulher, é claro, é o produto de seus pais, como o homem é dos seus. Mas a união original não envolvia pais, e a esposa era uma parte da carne de seu marido. Este primeiro casamento, então, é a evidência da primazia da relação marido e mulher sobre a relação pai e filho.

O último verso não é incidental. Ele nos diz muito do que precisamos saber. “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.” (Gênesis 2:25).

Aprendemos, por exemplo, que o lado sexual desta relação era uma parte da experiência do paraíso. O sexo não se originou com ou depois da queda. A procriação e intimidade física foram intencionadas desde o princípio (cf. 1:28). Também vemos que o sexo podia ser apreciado em sua amplitude no plano divino. Desobediência a Deus não intensifica o prazer sexual; o diminui. Hoje, o mundo quer acreditar que inventou o sexo e que Deus apenas tenta impedi-lo. Mas sexo, sem Deus, não é o que poderia ou deveria ser.

Ignorância, se me perdoam dizê-lo, é felicidade. Em nossa geração somos bacanas, ou se preferir, sofisticados, apenas se sabemos (por experiência) tudo o que há para saber sobre sexo. “Que ingênuos são aqueles que nunca tiveram sexo antes do casamento”, somos levados a crer. Há muitas coisas que é melhor não saber. O sexo nunca foi tão apreciado como quando era uma doce ignorância.

A revelação posterior lança muita luz sobre este texto. Nosso Senhor, significativamente, cita o capítulo um e o capítulo dois de Gênesis como se fosse um único relato (Mt. 19:4-5), um golpe fatal aos críticos do documento original.

A origem divina do casamento significa que não é uma mera invenção social ou convenção, mas uma instituição divina para o homem. Porque Deus une um homem e uma mulher em casamento, ela é uma união permanente: “O que Deus uniu, não o separe o homem.” (Mt. 19:6).

O fato de que Adão precedeu sua esposa na criação e de que Eva foi feita de Adão, também estabelece as razões pelas quais o marido está no exercício da liderança sobre sua mulher no casamento (cf. I Co. 11:8-9, I Tm. 2:13). O papel das mulheres na igreja não é apenas idéia de Paulo restrita ao tempo e à cultura dos cristãos de Corinto. O papel bíblico da mulher é estabelecido no relato bíblico da criação (cf. também I Co. 14:34).


[1] CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. II pp.545

[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã:São Paulo, 2001. pp.167

[3] Chafer, Vol. II, pp546.

[4] Idem, pp.547.

[5] STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. I, pp.547

[6] RYRIE, Charles. Teologia básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp.271.

[7] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[8] I Timóteo 2:13.

[9] I Coríntios 11:8,12..

[10] Gênesis 2:23.

[11] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[12] H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 110.- Veja também: PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23; YOUNG, Edward, Introdução ao Antigo Testamento. pp.54-68; ARHCER, Gleason, Merece Confiança o Antigo Testamento, pp.200.

[13] Idem, p. 112

[14] Tal parece ser o ponto de vista Leupold, I, pp. 113-114.

[15] Young, pp. 67-68.

[16] Derek Kidner, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.56.

[17] Young, p. 71.

[18] Leupold, p. 115.

[19] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[20] Cf. Leupold, p. 129.

[21] Dwight Hervey Small, Design For Christian Marriage (Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell, 1971), p. 58. Em outro lugar Small observa: “Como Elton Trueblood sugere, um casamento de sucesso não é aquele no qual duas pessoas, que combinam perfeitamente, encontram um ao outro e seguem adiante sempre felizes, por causa de sua afinidade inicial. É, em vez disso, um sistema por meio do qual pessoas que são pecaminosas e briguentas são então alcançadas por um sonho e um propósito maior do que eles mesmos, que trabalham ao longo dos anos, a despeito de repetidos desapontamentos, para tornar o sonho verdadeiro.” p. 28.

[22] “Pois a expressão “dar nomes”, no uso hebraico da palavra “nome”, envolve uma designação expressiva da natureza ou caráter daquele que é nomeado. Esta não foi uma fábula rude, onde, de acordo com a opinião hebraica, os nomes para o futuro foram tirados de exclamações acidentais à vista de uma nova e estranha criatura.” Leupold, p. 131.

[23] “Tardemah é, de fato, um “sono profundo”, não um estado de êxtase, como os tradutores gregos apresentam; nem um “transe hipnótico”(Skinner), pois vestígios de hipnose não são encontrados nas Escrituras. Um “transe”pode ser permissível. A raiz, no entanto, é aquela do verbo usado em referência a Jonas quando adormeceu profundamente durante a tempestade.” Ibid, p. 134.

[24] “A palavra tsela traduzida por “costela”, definitivamente contém esse significado (contra V. Hofman), apesar de não ser necessário pensar apenas em osso puro; pois, sem dúvida, osso e carne foram usados por ela daquele homem que posteriormente disse: “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). Ibid.

[25] “A atividade de Deus no modo de tomar a costela do homem é descrita como uma construção (wayyi ‘bhen). Antes de ser uma indicação da obra de um autor diferente, o verbo desenvolve a situação como sendo a mais apropriada. Não teria sido próprio usar yatsar, um verbo aplicável no caso do barro, não da carne. “Construir” aplica-se ao modelamento de uma estrutura de alguma importância; envolve esforço construtivo.” Ibid, p. 135.

[26] Ou, como Leupold sugere “Agora, finalmente” (p. 136).

[27] Leupold, pp. 136‑137.

[28] Creio que devemos ter muita cautela na aplicação do princípio de Bill Gothard “corrente de conselho”. Embora o sensato procurará conselho e alguns possam vir de seus pais, dependência é um perigo real. O problema não é tanto com o princípio, mas com a aplicação.

V.    A Criação do Homem

O homem é criado por Deus (cf. Mt.19.4; Rm.5.12-19; 1Co.15.45-49; 1Tm.2.13). Somente Deus seria a causa suficiente e razoável para explicar a complexidade da vida humana. Somente na palavra de Deus pode-se encontrar uma revelação especial das atividades de Deus na CRIAÇÃO do universo e de tudo o que nele existe. “Nenhuma outra literatura no mundo é tão repleta de revelação direta destinada a informar a mente do homem e orientar pesquisas científicas como essas primeiras páginas da Bíblia[1]”.

A criação é relatada em dois textos distintos em Gênesis: 1.26,27 e 2.7, 21-23. Essa duplicidade de relatos tem feito com que alguns teólogos questionem sua validade e veracidade. Alguns afirmam que existe certa contradição entre os relatos ou até que existem duas fontes na qual o autor deve ter pesquisado. “A alta crítica é de opinião que o escritor de Gênesis juntou duas narrativas da criação (…) e que as duas são independentes e contraditórias[2]”.

No entanto, seguindo o plano do autor de Gênesis nota-se que a segunda narração trata-se de uma descrição mais detalhada da criação. “O primeiro registro da criação do homem reporta com simplicidade sublime um tema muito difícil”, mas não de maneira insuficiente. “No detalhe acrescentado que caracteriza o segundo registro, está declarado que homem e mulher são parecidos no aspecto físico, por ter sido diretamente – como no caso do homem – e indiretamente – como no caso da mulher – do pó da terra[3]”.

Para os cristãos convictos pouco importa se a ciência afirma, em caráter científico bem fundamentado ou não que a historicidade de terra é bem maior que a sustentada por alguns teólogos, visto que não viola o texto bíblico de maneira nenhuma. “Seja num tempo ou noutro, permanece verdadeiro que Deus Criou o homem imediata e diretamente[4]”. Segue-se, então que é possível concordar com Strong quando se propõe a definir o ato da criação da seguinte maneira:

“Criação é o ato livre do Deus trino pelo qual, no princípio, para sua glória, ele fez, sem uso de matéria preexistente, todo o universo visível e invisível[5]”.

Criação pode ser compreendida como origem com desígnio, pois é impossível que o homem tenha capacidade de imaginar um Ser Pessoal como criador, sem que o tenha conhecido como tal. Outro fato interessante, é que na criação Deus preocupou-se em formar todos os outros seres vivos a fim de que o homem pudesse ter o ambiente perfeito para viver. Ou seja, tudo o que era essencial para a existência do homem já havia sido criado por Deus.

Introdução – A Literalidade de Gênesis

Este tópico visa detalhar ainda um pouco mais que as informações colhidas nos tópicos anteriores podem ser verídicas pelo fato de que o texto base para tal é literal e demonstrado com real diante das demais Escrituras.

1.         Jardim Literal

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…) Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”  (Gn.2.8,9,15)

Após o ato imediato da criação do homem, nota-se o seguinte texto que demonstra claramente a criação do Ambiente do Primeiro homem. Nota-se que Deus é a causa primeira deste Jardim que está localizado na terra, que já havia sido criada. A localização descrita pelo autor bíblico sugere que este Jardim estava situado na região da Palestina. Nos versículos que seguem podemos notar esse fato:

E saía um rio do Éden para regar o jardim e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços (…) O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates” (Gn2.10, 14)

Dois dos nomes de rios mencionados neste texto são muito bem conhecidos e Norman Geisler chega a sugerir que a Bíblia situa os rios na Assíria, atual Iraque. As informações bíblicas são muito bem arranjadas, e isso faz com que alguns teólogos acreditem em uma inserção de informações posteriores. Mas tal informação é especulativa, visto não existir informações que sustentem essa opinião.

Por causa das especulações teológicas colocadas sobre o texto de Gênesis, é importante demonstrar que as evidências dão suporte para a interpretação normal do texto, que neste caso é literal.

Normalmente as objeções lançadas sobre a mitologia relacionada com o Jardim do Éden é colocada em função da inexistência de artefatos arqueológicos que evidenciem tal existência. Contudo, é necessário que se demonstre que após a queda Deus selou o Jardim (Gn.3.24), isso impossibilitaria que qualquer evidência arqueológica fosse encontrada. Outro detalhe que merece atenção é que não existem evidências de que Adão ou Eva tenham se aplicado à produção de artefatos neste Jardim, nem mesmo se empenhado a qualquer espécie de construção. Ou seja, sem tais fatos é impossível que se encontre evidências arqueológicas. Se existisse, ainda, qualquer evidência, com o Dilúvio elas seriam destruídas (Gn.6-9; cf. 2Pe.3.5, 6).

A inclusão dos rios Tigre e Eufrates, que são reais, parece sugerir que o Jardim seja igualmente literal. A preocupação do autor bíblico em demonstrar os rios deve reportar-se ao fato de que tal Jardim seja também real.

Um ponto que merece destaque dentre os mencionados, é que o Novo Testamento testemunha sobre os fatos relacionados ao Jardim como reais. Fala da criação de Adão e Eva (Mt.19.4; 1Tm.2.13) e de seu pecado original (1Tm.2.13; Rm.5.12) . Assim, esses eventos reais precisam de um Ambiente Real para acontecer, um lugar geográfico.

2.         Adão Histórico-literal

A argumentação que proporciona a interpretação mítica ou irreal é a consideração de que o autor utiliza-se de um estilo poético, repleto de paralelismo com outros mitos antigos e a suposta contradição entre o relato e a ciência. No entanto, para os escritores bíblicos, tanto Adão quanto Eva, são personagens históricos, e encontrados em uma leitura literal de Gênesis.

O primeiro fato que evidencia a condição histórica de Adão é a própria narrativa de Gênesis. Embora muita discussão exista neste ponto, para aqueles que consideram o texto como fonte fidedigna de informações é o ponto de partida. Observe que o autor sempre demonstra Adão como uma pessoa real. Se Adão fosse irreal não poderia ter gerado filhos, e na narrativa de Gênesis ele perpetua a espécie humana, gerando filhos à sua imagem (Gn.5.3).

Outro detalhe importante dentro da narrativa de Gênesis é que a sentença “Este é o registro”, ou “são estas as gerações” encontradas para registrar a história do povo hebreu (cf. Gn.6.9; 10.1; 11.10, 27; 25.12, 19) é usada para o registro da Criação (2.4) e para Adão e Eva e seus descendentes (5.1).

Fora da narrativa de Gênesis é possível encontrar Adão como personagem histórico. Na cronologia encontrada em 1Cr.1.1, Adão encabeça a genealogia mais extensa das escrituras (1.1 – 9.44), que demonstra a historicidade das tribos de Israel e a importância da linhagem davídica. Mas para que esta genealogia tenha valor real é necessário que os personagens envolvidos seja igualmente reais.

O Novo Testamento testemunha a favor da historicidade de Adão. Em Lc.3.38 Adão é designado como um ancestral literal de Jesus,  e este, posteriormente, referiu-se a Adão e Eva como os primeiros “homem e mulher” literais, fazendo da união deles a base para o casamento (Mt.19.4).

Paulo em Romanos declara que a morte foi trazida ao mundo por um homem real (Rm.5.12, 14). Em Coríntios, Paulo faz uma comparação entre Cristo e Adão (1Co.15.45). Para Timóteo, Paulo afirma que primeiro foi criado o homem e depois a mulher (1Tm.2.13, 14). Ou seja, se as comparações e citações paulinas sobre os diversos assuntos que aborda fossem baseadas em mitologia, as asseverações morais seriam nada mais do que afirmações equivocadas e inválidas. Entretanto, não parece ser esse o caráter que Paulo escreve. Tanto ele, como os autores do Novo Testamento tem por certo de que os acontecimentos narrados em Gênesis são fatos. Assim, é impossível não crer na historicidade de Adão.

A.     Conceituações gerais da Criação do homem

Três características são percebidas em relação a criação do homem: (1) Ele foi criado diretamente por Deus; (2) Em distinção das outras criaturas e (3) colocado em uma posição exaltada.

1.         O homem foi criado diretamente por Deus

Ao observar o primeiro relato bíblico da criação, não se pode chegar à outra conclusão senão que o homem é resultado da intervenção direta de Deus. Observe o versículo: “Criou Deus, pois, o homem…” (Gn.1.27). Esse versículo inibe a possibilidade da utilização de um processo evolutivo para a formação do homem. Deus não utilizou formas “preexistentes” ou subumanas de vida para formar Adão. Assim Deus não soprou o fôlego da vida em um “macaco-quase-homem” que veio a ser o primeiro homem.

No segundo relato da criação podemos percebem que Deus não se utilizou de formas orgânicas menos desenvolvidas para formar o homem, mas “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra”. Dessa maneira podemos dizer que “essa passagem reforça o fato da criação especial a partir de materiais inorgânicos, não apoiando a idéia de uma criação derivada de alguma forma de vida prévia[6]”.

Entretanto alguns atestam que a referência ao pó da terra pode ser considerado como uma forma alegórica para um ser vivo preexistente. Mas devemos desconsiderar essa possibilidade, pois o próprio Deus afirmou que o homem voltaria ao pó quando morresse, mas o homem nunca volta a um estado animal na sua morte (Gn.3.19).

Portanto, temos que admitir, se cremos que a Palavra de Deus é infalível e inerrante como ela afirma ser, que não existe outra possibilidade verdadeira para a origem do homem fora das escrituras. Deus criou o homem de fato, e isso não pode ser negado.

2.         O homem foi criado em distinção das outras criaturas

Outro fato que deve ser percebido na criação do homem é que ele não foi criado nem derivado de outras criaturas. Na descrição de Gênesis, Deus cria o reino vegetal distinto do animal, e o homem distinto de ambos. Observe:

“E disse: Produza a terra relva, ervas, que dêem fruto semente, e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cujo a semente esteja nele” (Gn.1.11)

Essa identificação exata de Deus em relação ao reino vegetal inclui até mesmo a condição da semente do fruto das árvores. Mas não se encontra aqui nenhuma referência ou semelhança com os animais ou o homem, mas declara que sua reprodução é única e exclusiva segundo a sua espécie, ou como declara o próximo versículo “conforme a sua espécie”. Fato similar acontece com os animais marinhos e as aves:

“Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies” (Gn.1.21)

Note que cada ser criado por Deus é criado segundo a sua espécie. E o mesmo acontece com os animais selváticos:

“E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, conforme a sua espécie.” (Gn.1.25)

Assim, cada categoria de animal foi criada em conformidade com sua própria espécie, bem como a sua reprodução de acordo com essa conformidade. Segue-se que não se pode afirmar a partir do relato bíblico que houve nalgum momento da criação um processo evolutivo, mas cada animal foi criado segundo a sua espécie.

E, tendo isso como fundamento, na criação do homem não podemos atribuir a utilização de um outro ser vivo para a sua formação. Pois além de ser criado a partir do pó da terra, não pertence à espécie de nenhum outro ser vivo. Portanto, o homem é distinto de qualquer outra forma de vida.

3.         O homem foi colocado numa posição exaltada

O fato de que o homem não pertence à categoria dos animais pode ser percebido em função da criação distinta dos outros seres vivos, como uma espécie distinta de ser vivo e pela posição distinta que tem das demais criaturas. Esse distinção em termos de posição pode ser observada na declaração:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toa a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn.1.26)

Essa identificação demonstra que existe algo especial, não somente na criação, mas na formação. Além da intervenção especial, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Isso faz toda diferença entre o homem e os outros seres vivos. Mas é ainda reforçado por sua posição exaltada, pois é criado para ter domínio sobre todos os outros seres vivos. Portanto, o homem está colocado numa posição privilegiada em relação a demais criaturas.

Essa posição exaltada é ainda demonstrada de forma poética em Salmos, quando Davi escreve uma exaltação das obras de Deus dizendo:

“Quando contemplo os teus céus, obra de teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras de tua mão, e sob teus pés tudo lhe puseste” (Sl.8.3-6)

Portanto, o homem é considerado como ápice da criação, a coroa da criação, e por isso tem sua distinção de todas as outras criações e criaturas e está acima de todas elas.  Outro fator que evidencia essa verdade é que como a criação do homem a Obra Criativa de Deus chegou ao fim. Isso pode ser observado pela frase dita pelo próprio Deus após a criação do homem: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn.1.31).

B.     A dignidade do homem (1.26-31)[7]

Desde que o capítulo dois é construído sobre os detalhes básicos de 1:26-31, vamos começar por considerar esses versos mais cuidadosamente. O homem, como dissemos anteriormente, é a coroa do programa criativo de Deus. Isto fica evidente em muitos pormenores.

Primeiro, o homem é a última das criaturas de Deus. Todo o relato é montado para a criação do homem. Segundo, só o homem é criado à imagem de Deus. Enquanto há considerável discussão do que isso significa, muitas coisas estão implícitas no próprio texto. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus em sua sexualidade:

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn. 1:27)

Isso não quer dizer que Deus seja homem ou mulher, mas que Deus é ambos unidade e diversidade. O homem e a mulher no casamento se tornam um e ainda assim são distintos um do outro. Unidade na diversidade como refletida na relação do homem com sua mulher reflete uma faceta da personalidade de Deus.

Também, o homem, de alguma forma, é parecido com Deus naquilo que o distingue do mundo animal. O homem, enquanto distinto dos animais, é feito à imagem e semelhança de Deus. O que distingue o homem dos animais deve então ser uma parte de seu reflexo de Deus. A habilidade do homem de raciocinar, de se comunicar e de tomar decisões morais deve ser uma parte dessa distinção.

Ainda mais, o homem reflete a Deus no fato de que ele domina sobre a criação de Deus. Deus é o Dirigente Soberano do universo. Ele delegou uma pequena porção de Sua autoridade ao homem no domínio da criação. Nesse sentido, também, o homem reflete a Deus.  Repare também que é o homem e a mulher que dominam: “… dominem eles…” (Gn. 1:26, cf. v. 28).

Ele se refere ao homem e a mulher, não somente aos homens que Ele fez. Enquanto que Adão tem a função de liderar (como evidenciado em sua prioridade na criação[8], seu ser a origem de sua esposa [9], e a nomeação de Eva[10]), a função de Eva era ser a auxiliadora de seu marido. Nesse sentido ambos estão no domínio da criação de Deus.

Mas, mais importante que isso é o fato de que a dignidade e o valor do homem não são imputados por ele mesmo, mas são intrínsecos a ele como aquele que foi criado à imagem de Deus. O valor do homem está diretamente relacionado à sua origem. Não é de se admirar que hoje estejamos ouvindo tais propostas éticas e morais assustadoras.

Qualquer opinião a respeito da origem do homem que não o veja como produto do projeto e desígnio divino, não pode atribuir a ele o valor que Deus lhe dá. Para colocar de outra forma, nossa avaliação do homem é diretamente proporcional à nossa opinião a respeito de Deus. O sólido princípio sobre o qual tais decisões devem ser tomadas, em minha opinião, é o fato de que todos os homens são criados à imagem de Deus. Sob essa luz, agora posso ver porque nosso Senhor pôde resumir todo o Velho Testamento em dois mandamentos:

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt. 22:37-40)

A atitude do futuro parece ser amar apenas aqueles “próximos” que são contribuidores na sociedade, apenas aqueles que podem ser considerados vantajosos. Quão diferente é o sistema de valores de nosso Deus, que disse:

“O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt. 25:40).

Em minha opinião, eis onde nós cristãos seremos colocados à prova. Alguns estão fortemente sugerindo que, aqueles que nosso Senhor chamou de “pequeninos”, são justamente aqueles que devem ser eliminados da sociedade. Possa Deus nos ajudar a ver que a dignidade do homem é aquela que é divinamente determinada.

C.     O dever do homem (2.4-17)[11]

Enquanto Gênesis um descreve a progressão do caos para o cosmos, ou da desordem para a ordem, o capítulo dois segue um padrão diferente. Talvez a linha literária que permeie toda a passagem seja aquela da atividade criativa de Deus em complemento àquelas coisas que estão ausentes.

O verso 4 serve como introdução aos versos restantes. H.C. Leupold, em seu livro, Exposition of Genesis, defende que o uso de “toledoth” expressa exatamente isso, observe:

“Hoje é um fato bem conhecido que o livro de Gênesis é dividido em 10 seções por seu próprio autor, que dá a cada uma o título de “estória” (toledoth); cf. 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1, (9); 37:2. Apenas esta circunstância, mais o uso do número dez redondo, apontariam definitivamente para o fato de que, aqui, a expressão “estes são toledeth” deva também ser um cabeçalho. Em todos os outros exemplos de seu uso em outros livros o mesmo fato é observável; cf. Nm. 3:1; Rt 4:18; I Cr. 1:29; ele está sempre como um cabeçalho[12]

O verso 5 nos informa quais são as ausências que são supridas nos versos 6 e 7: sem arbusto, sem planta, sem chuva e sem o homem. Estas são preenchidas pela neblina (verso 6), pelos rios (versos 10 e 14), o homem (verso 7), e o jardim (versos 8 e 9).

A ausência dos versos 18 a 25 é simplesmente afirmada “nenhuma auxiliadora idônea para Adão” (cf. versos 18, 20). Esta auxiliadora é providenciada de uma linda maneira na parte final do capítulo dois.

Outra vez, deixe-me enfatizar que Moisés não pretendia nos dar aqui uma ordem cronológica dos eventos, mas uma ordem lógica, ao menos essa parece a opinião de Leupold:

“O verso 4b nos leva de volta ao tempo da obra da criação, mais especificamente ao tempo antes da obra do terceiro dia começar, e chama nossa atenção para certos detalhes que, sendo detalhes, dificilmente teriam sido inseridos no capítulo um: o fato de que certos tipos de planta, isto é, as espécies que requerem um cuidado maior e mais atento por parte do homem, não tinham brotado. Aparentemente, toda a obra do terceiro dia está na mente do escritor[13]”.

Seu propósito é mais especificamente descrito na criação do homem, de sua esposa, e o contexto no qual eles são colocados. Estes se tornam o fator chave na queda que ocorre no capítulo três.  Embora até agora não houvesse chovido, Deus providenciava a água que era necessária à vida das plantas. “Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.” (Gn. 2:6).

Há alguma discussão a respeito da palavra “neblina”. Poderia significar uma névoa ou neblina, como alguns afirmam.[14] A Septuaginta usou a palavra grega πηγὴ (pegè) que significa “fonte”. Alguns entendem a palavra hebraica como sendo derivada de uma palavra suméria, se referindo a águas subterrâneas. . Young, sobre isso diz:

“O que entendemos por “ed”? Não uma neblina! A palavra está aparentemente relacionada à palavra suméria. Parece se referir a águas subterrâneas, e o que temos aqui ou é um rompimento de água de algum lugar abaixo do solo, ou possivelmente um rio transbordando de seu leito. Não acho que possamos ser dogmáticos aqui[15]

Derek Kidner, também parece ter opinião similar, observe:

“Apenas subia constantemente (6, o bervo está no imperfeito) uma neblina ou provavelmente uma enchente, de modo que toda a cena era uma devastação de águas – pois o sentido de regava pode variar de um sentido benéfico, como em 10, para o de uma inundação completa (cf. Ez.32.6) e o último parece mais coerente com o contexto[16]

Pode ser que fontes fluíssem para fora do solo e que a vegetação talvez fosse regada por irrigação ou canais. Isto poderia explicar, em parte, o trabalho de Adão na manutenção do jardim. A água sendo suprida, Deus criou o jardim, que seria o lugar da morada do homem, e objeto de sua atenção. Era bem suprido com muitas árvores que proviam beleza e comida:

“Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9).

Especificamente duas árvores são mencionadas, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última árvore foi a única coisa proibida ao homem.

“E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás,” (Gênesis 2:16-17).

É interessante que, aparentemente, só para Adão é dito por Deus que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não devia ser comido. Alguém pode conjecturar em como a ordem de Deus para Adão foi comunicada a Eva. Poderia isto explicar a avaliação imprecisa de Eva em 3:2-3?

O homem foi colocado dentro desse paraíso. Note que a palavra hebraica Éden, significa exatamente isso:

“A palavra “Éden” em hebraico pode significar deleite ou prazer. Não estou certo de que é isto o que significa aqui. Há uma palavra suméria que significa estepe, ou planície, vasta planície, e a leste desta planície Deus plantou o jardim. Sem ser categórico dou minha opinião de que é isto o que “Éden” significa. Assim o jardim é plantado[17]”.

Apesar de certamente se regozijar nesse país das maravilhas, ele também estava lá para cultivá-lo. Olhe outra vez o verso 5:

“Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.” (Gn. 2:5)

Quando colocado no jardim, Adão teve que trabalhar lá: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” (Gn. 2:15)

A criação de Adão é descrita mais amplamente em 2:7 do que no capítulo um. Ele foi formado[18] do pó da terra:

“O verbo aqui empregado está mais de acordo com o caráter de “Senhor” de Deus; yatsar significa “moldar” ou “formar”. É a palavra que descreve especificamente a atividade do oleiro (Jr. 18:2 e ss). A idéia a ser enfatizada é aquela do cuidado especial e atenção pessoal que esse oleiro dá ao seu trabalho. Deus dá toques de Seu interesse no homem, Sua criatura, ao moldá-lo como Ele o faz”.

Ainda que isso seja um fato humilhante, é óbvio também que a origem do homem não é do mundo animal, nem o homem é criado da mesma maneira que os animais. Em parte, a dignidade de Adão provém do fato de que seu fôlego de vida foi soprado por Deus (verso 7).

Este não foi jardim mítico. Todas as partes da descrição deste paraíso nos levam a entender que foi um jardim real numa localização geográfica especial. São dados pontos de referência específicos. Quatro rios são nomeados, dois dos quais são conhecidos ainda hoje. Não deveríamos nos surpreender que pudessem ter ocorrido mudanças, especialmente depois do evento cataclísmico do dilúvio, o que tornaria impossível sua localização precisa.

O que acho mais interessante é que o paraíso do Éden foi um lugar um pouco diferente daquilo que visualizamos hoje. Prá começar, foi um lugar de trabalho. Os homens hoje pensam no paraíso como uma rede pendurada entre dois coqueiros numa ilha deserta, onde o trabalho nunca mais será encarado. Além do mais, o céu é tido como o fim de todas as proibições. O céu freqüentemente é confundido com hedonismo. É puro egocentrismo e auto-satisfação. Enquanto que o estado de Adão foi de beleza e felicidade, não se pode pensar que foi de prazer irrestrito. O fruto proibido também era uma parte do Paraíso. O céu não é experimentar todos os desejos, mas a satisfação de desejos benéficos e sadios.

A subserviência não é um conceito novo no Novo Testamento. Serviço significativo dá satisfação e significado à vida. Deus descreve Israel como um jardim cultivado, uma vinha (Isaías 5:1-2 ss). Jesus falou de si mesmo como uma Videira e nós como os ramos. O Pai ternamente cuida de Sua vinha (João 15:1 e ss). Paulo descreve o ministério como o trabalho de um lavrador (II Timóteo 2:6).

Ainda que a igreja do Novo Testamento possa ser melhor descrita como um rebanho, ainda assim a imagem do jardim não é inapropriada. Há um trabalho a ser feito pelo filho de Deus. E esse trabalho não é penoso, nenhum dever a ser relutantemente cumprido. É uma fonte de alegria e satisfação. Hoje muitos não têm senso real de sentido e propósito porque não estão fazendo o trabalho que Deus designou para que façam.

D.     O deleite do homem (2.18-25)[19]

Ainda resta uma ausência. Agora há água adequada, a bela e generosa provisão do jardim, e o homem para cultivá-lo. Mas ainda não há uma companhia apropriada para o homem. Esta necessidade é encontrada nos versos 18 a 25. O jardim, com seus prazeres e provisões para alimento e atividade significativa não era suficiente a menos que os deleites pudessem ser compartilhados. Deus daria a Adão aquilo que ele mais necessitava.

“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18)

A companheira de Adão deveria ser uma criação muito especial, uma “auxiliadora idônea para ele” (verso 18). Ela deveria ser uma “auxiliadora”, não uma escrava, não uma inferior. A palavra hebraica ezer é muito interessante. Era uma palavra que Moisés obviamente gostava, pois Êxodo 18:4 diz que este foi o nome que ele deu a um de seus filhos.

“e o outro, Eliézer, pois disse: o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.” (Êxodo 18:4).

Ainda três outras vezes encontramos ezer sendo usada por Moisés em Deuteronômio (33:7, 26, 29), e se refere a Deus como auxiliador do homem. Como também nos Salmos (20:2, 33:20, 70:5, 89:19, 115:9, 121:1-2, 124:8, 146:5).

A característica da palavra mais empregada no Velho Testamento é que o auxílio não implica absolutamente em inferioridade. De uma maneira compatível com seu uso, Deus está auxiliando o homem através da mulher. Que belo pensamento. Como isso é superior a algumas concepções. Então, ela é também uma auxiliadora que “corresponde a” Adão. Em certa tradução se lê: “…Farei uma auxiliadora como ele.”[20]

Ainda que isto seja o que muitas vezes consideramos a mulher perfeita – alguém que é exatamente como nós, é precisamente o oposto da questão. Muitas vezes a incompatibilidade está no desígnio divino. Como Dwight Hervey Small corretamente observa:

A incompatibilidade é um dos propósitos do casamento! Deus designa conflitos e sobrecargas como lições para o crescimento espiritual. Estes existem para que haja submissão aos altos e santos propósitos.[21]

Assim como Eva foi feita para se ajustar a Adão de uma forma física, ela também o completava socialmente, intelectualmente, espiritualmente e emocionalmente.

Em conseqüência, quando aconselho àqueles que planejam se casar, não procuro descobrir tantas características semelhantes quanto possível. Em vez disso, preocupo-me com que cada parceiro tenha uma visão acurada do que o outro realmente é, e que eles se comprometam com o fato de que Deus os tenha unido permanentemente. O reconhecimento de que Deus fez o homem e a mulher diferentes por desígnio, e a determinação em atingir a unidade nessa diversidade é essencial para um casamento sadio.

Antes de criar sua contraparte, Deus primeiro aguçou o apetite de Adão. As criaturas que Deus criara agora são trazidas a Adão para que ele lhes dê nomes. Esta nomeação refletia o domínio de Adão sobre as criaturas, como Deus planejara (cf. 1:28). Isto provavelmente envolveu um cuidadoso estudo por parte de Adão para registrar as características particulares de cada criatura.[22]

Este processo de nomeação deve ter tomado algum tempo. No processo, Adão observaria que nenhuma simples criatura poderia preencher o vazio de sua vida. Mais ainda, eu usaria um pouco de santa imaginação para supor que Adão observou cada criatura com sua companheira, uma contraparte maravilhosamente designada. Adão deve ter percebido que ele, só ele, estava sem uma companheira.

Nesse momento de intensa necessidade e desejo, Deus colocou Adão num sono profundo[23], e de sua costela e carne [24] formou a mulher [25] Ele então deu a mulher de presente ao homem.

Que excitamento há na resposta entusiástica de Adão:

“E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.” (Gênesis 2:23).

Gosto da maneira como a versão ARA traduz a resposta inicial de Adão: “…afinal…[26]. Nessa expressão há uma mistura de alívio, êxtase e deleitosa surpresa. “Esta (pois Adão ainda não lhe tinha dado nome) é agora osso dos meus ossos e carne de minha carne” (verso 23a). O nome da companheira de Adão é mulher. A tradução em inglês agradavelmente capta o jogo de sons semelhantes. Em hebraico, homem seria pronunciado ‘ish; mulher seria ‘ishshah. Embora os sons sejam semelhantes, as raízes das duas palavras são diferentes. Convenientemente ‘ish pode vir de uma raiz paralela arábica, levando à idéia de “exercendo o poder”, enquanto o termo ‘ishshah pode ser derivado de um paralelo arábico, significando “ser suave[27]”. O comentário divinamente inspirado do verso 24 é extremamente importante:

“Por isso deixa o homem pai e mãe e se uma à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24).

Por este texto é imperativo que o homem deixe sua mãe e seu pai e se uma à sua mulher. Qual é a relação entre este mandamento de deixar e se unir e a criação da mulher? O verso 24 começa “Por isso…” Qual é a causa disto? Podemos compreender a razão apenas quando explicamos o mandamento. O homem deixa seus pais, não no sentido de evitar sua responsabilidade para com eles (cf. Mc. 7:10-13, Ef. 6:2-3), mas no sentido de ser dependente deles. Ele deve parar de viver sob sua liderança e começar a agir sozinho, como cabeça de um novo lar[28].

A mulher não recebe o mesmo mandamento porque simplesmente ela é transferida de uma liderança para outra. Enquanto uma vez ela esteve sujeita a seu pai, agora ela está unida a seu marido. O homem, no entanto, tem uma transição mais difícil. Ele, como uma criança, era dependente e submisso a sua mãe e a seu pai.

Quando um homem se casa, ele deve passar pela transição mais radical de um dependente filho submisso para um líder independente (de seus pais), que age como o cabeça de seu lar.

Como muitos observam, a relação marido e mulher é permanente, enquanto a relação pai e filho é temporária. Mesmo se os pais forem relutantes em encerrar a relação dependente de seus filhos, o filho é responsável por fazê-lo. Falhar em agir assim é recusar uma espécie de vínculo necessário com sua esposa.

Agora, talvez, estejamos em posição de ver a relação deste mandamento com o relato da criação. Qual é a razão para sua menção aqui em Gênesis? Antes de mais nada, não há pais dos quais Adão e Eva tenham nascido. A origem de Eva é diretamente de seu marido, Adão. A união ou vínculo entre Adão e sua esposa, é a união que vem de uma só carne (a carne de Adão) e se torna uma só carne (numa união física). Esse vínculo é maior do que aquele entre pai e filho. Uma mulher, é claro, é o produto de seus pais, como o homem é dos seus. Mas a união original não envolvia pais, e a esposa era uma parte da carne de seu marido. Este primeiro casamento, então, é a evidência da primazia da relação marido e mulher sobre a relação pai e filho.

O último verso não é incidental. Ele nos diz muito do que precisamos saber. “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.” (Gênesis 2:25).

Aprendemos, por exemplo, que o lado sexual desta relação era uma parte da experiência do paraíso. O sexo não se originou com ou depois da queda. A procriação e intimidade física foram intencionadas desde o princípio (cf. 1:28). Também vemos que o sexo podia ser apreciado em sua amplitude no plano divino. Desobediência a Deus não intensifica o prazer sexual; o diminui. Hoje, o mundo quer acreditar que inventou o sexo e que Deus apenas tenta impedi-lo. Mas sexo, sem Deus, não é o que poderia ou deveria ser.

Ignorância, se me perdoam dizê-lo, é felicidade. Em nossa geração somos bacanas, ou se preferir, sofisticados, apenas se sabemos (por experiência) tudo o que há para saber sobre sexo. “Que ingênuos são aqueles que nunca tiveram sexo antes do casamento”, somos levados a crer. Há muitas coisas que é melhor não saber. O sexo nunca foi tão apreciado como quando era uma doce ignorância.

A revelação posterior lança muita luz sobre este texto. Nosso Senhor, significativamente, cita o capítulo um e o capítulo dois de Gênesis como se fosse um único relato (Mt. 19:4-5), um golpe fatal aos críticos do documento original.

A origem divina do casamento significa que não é uma mera invenção social ou convenção, mas uma instituição divina para o homem. Porque Deus une um homem e uma mulher em casamento, ela é uma união permanente: “O que Deus uniu, não o separe o homem.” (Mt. 19:6).

O fato de que Adão precedeu sua esposa na criação e de que Eva foi feita de Adão, também estabelece as razões pelas quais o marido está no exercício da liderança sobre sua mulher no casamento (cf. I Co. 11:8-9, I Tm. 2:13). O papel das mulheres na igreja não é apenas idéia de Paulo restrita ao tempo e à cultura dos cristãos de Corinto. O papel bíblico da mulher é estabelecido no relato bíblico da criação (cf. também I Co. 14:34).


[1] CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. II pp.545

[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã:São Paulo, 2001. pp.167

[3] Chafer, Vol. II, pp546.

[4] Idem, pp.547.

[5] STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Hagnos:São Paulo, 2003. Vol. I, pp.547

[6] RYRIE, Charles. Teologia básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp.271.

[7] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[8] I Timóteo 2:13.

[9] I Coríntios 11:8,12..

[10] Gênesis 2:23.

[11] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[12] H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 110.- Veja também: PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. pp.23; YOUNG, Edward, Introdução ao Antigo Testamento. pp.54-68; ARHCER, Gleason, Merece Confiança o Antigo Testamento, pp.200.

[13] Idem, p. 112

[14] Tal parece ser o ponto de vista Leupold, I, pp. 113-114.

[15] Young, pp. 67-68.

[16] Derek Kidner, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.56.

[17] Young, p. 71.

[18] Leupold, p. 115.

[19] Material adaptado de: From Paradaise to Partriarchs, de Robert L. Deffinbaugh, IN: http://bible.org/seriespage/meaning-man-his-duty-and-his-delight-genesis-126-31-24-25

[20] Cf. Leupold, p. 129.

[21] Dwight Hervey Small, Design For Christian Marriage (Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell, 1971), p. 58. Em outro lugar Small observa: “Como Elton Trueblood sugere, um casamento de sucesso não é aquele no qual duas pessoas, que combinam perfeitamente, encontram um ao outro e seguem adiante sempre felizes, por causa de sua afinidade inicial. É, em vez disso, um sistema por meio do qual pessoas que são pecaminosas e briguentas são então alcançadas por um sonho e um propósito maior do que eles mesmos, que trabalham ao longo dos anos, a despeito de repetidos desapontamentos, para tornar o sonho verdadeiro.” p. 28.

[22] “Pois a expressão “dar nomes”, no uso hebraico da palavra “nome”, envolve uma designação expressiva da natureza ou caráter daquele que é nomeado. Esta não foi uma fábula rude, onde, de acordo com a opinião hebraica, os nomes para o futuro foram tirados de exclamações acidentais à vista de uma nova e estranha criatura.” Leupold, p. 131.

[23] “Tardemah é, de fato, um “sono profundo”, não um estado de êxtase, como os tradutores gregos apresentam; nem um “transe hipnótico”(Skinner), pois vestígios de hipnose não são encontrados nas Escrituras. Um “transe”pode ser permissível. A raiz, no entanto, é aquela do verbo usado em referência a Jonas quando adormeceu profundamente durante a tempestade.” Ibid, p. 134.

[24] “A palavra tsela traduzida por “costela”, definitivamente contém esse significado (contra V. Hofman), apesar de não ser necessário pensar apenas em osso puro; pois, sem dúvida, osso e carne foram usados por ela daquele homem que posteriormente disse: “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). Ibid.

[25] “A atividade de Deus no modo de tomar a costela do homem é descrita como uma construção (wayyi ‘bhen). Antes de ser uma indicação da obra de um autor diferente, o verbo desenvolve a situação como sendo a mais apropriada. Não teria sido próprio usar yatsar, um verbo aplicável no caso do barro, não da carne. “Construir” aplica-se ao modelamento de uma estrutura de alguma importância; envolve esforço construtivo.” Ibid, p. 135.

[26] Ou, como Leupold sugere “Agora, finalmente” (p. 136).

[27] Leupold, pp. 136‑137.

[28] Creio que devemos ter muita cautela na aplicação do princípio de Bill Gothard “corrente de conselho”. Embora o sensato procurará conselho e alguns possam vir de seus pais, dependência é um perigo real. O problema não é tanto com o princípio, mas com a aplicação.

12.04.09

Jason BeDuhn e a TNM

Enviado em Cristologia, Testemunha de Jeová tagged , , , , , às 3:06 pm por Marcelo Berti

Dentre todos os acadêmicos citados como referência, esse provavelmente é um dos poucos que merece ser considerado com atenção em função de sua acessibilidade e simplicidade de leitura. Diferente do outros acadêmicos citados, esse é facilmente encontrado e em uma obra recente.

Jason Beduhn, embora não seja muito conhecido na área da teologia ou tradução, é professor associado de Estudos Religiosos na Northern Arizona University em Flagstaff. Ele é Ph.D em Estudos Comparativos das Religiões pela Indiana University.

Na introdução do seu livro, Beduhn atesta que “a maioria das pessoas interessadas em assumir o árduo trabalho de realizar uma tradução da Bíblia tem investido em um entendimento particular do Cristianismo, e esse investimento afeta sua objetividade[1]”. Em outras palavras, ele acredita que as credenciais religiosas dos tradutores afeta a compreensão do texto de tal modo que não podem ser objetivos. Aliás, essa visão que tem de si mesmo é expandida ainda de modo mais claro quando diz:

“Mas, tão importante [como as qualificações acadêmicas] eu tenho uma atitude que me faz ter distinta vantagem para escrever um livro como esse. Eu sou um historiador comprometido e dedicado a descobrir o que Cristãos disseram dois mil anos atrás. Eu não tenho interesse em provar que esses Cristãos são parecidos com determinada denominação do Cristianismo ou que eles aderiam a doutrinas específicas que se assemelham a cristãos modernos específicos[2]

Muito embora tal sentimento seja vivaz no autor, isso não o torna imediatamente um acadêmico das áreas da tradução. Em outras palavras, DeBuhh afirma que não tem preconceitos teológicos (o que sua obra contradiz), mas não defende se tem credenciais para o trabalho. Apenas por sua formação e área de atuação como professor e pesquisador, sabemos que a gramática grega e a crítica textual não fazem parte de suas especializações.

Segundo tal autor, para traduzir um texto como o NT tudo o que se precisa saber é “saber ler grego, e um tipo específico de grego na qual o Novo Testamento foi originalmente escrito[3]”. Considerando esse fato, Tomas Howe diz:

Mas, BeDuhn não diz nada sobre outras qualificações que são igualmente necessárias. O que dizer sobre lingüística e filosofia da linguagem para analisar uma tradução? O que dizer sobre o estudo do contexto na tradução? Nenhuma dessas áreas de pano de fundo acadêmico são mencionadas por BeDuhn. BeDuhn ainda não menciona nada sobre criticismo textual, hermenêutica e teologia. Infelizmente para a teses de BeDuhn qualquer pessoas pode realizar uma tradução sem competência nessas áreas. Além disso, BeDuhn não menciona nenhuma de suas qualificações nessas áreas[4].

O simplismo leviano de BeDuhn nos faz pensar em suas capacidades pessoais de investir em um trabalho de tradução com tão baixo conceito do trabalho e tão alta visão de sua capacidade pessoal. Essas duas considerações já tem potecial para o desastre completo. Por isso, vamos considerar em detalhes os argumentos de BeDuhn, e verificar quão STV são seus argumentos.

1. A ausência do artigo:

É impressionante que tal acadêmico defenda a tradução indefinida de Jo.1.1c com esse argumento. A análise que já realizamos é complemente suficiente para demonstrar que tal conclusão não é válida (cf. A ausência de artigo no Grego Koiné). Entratanto, por honestidade a BeDuhnm, vamos considerar suas declarações.

O que nos chama a atenção à primeira vista é que BeDuhn inicia seus capítulos, do mesmo modo que muitas TJ gostam de fazer: citando versões bíblicas[5]. É interessante notar que além desse princípio de igualdade, BeDuhn inicia sua argumentação de um modo muito interessante, observe:

O grego tem apenas o artigo definido, como nosso “o(a)”; ele não tem artigo indefinido, como nosso “um(a)”. Assim, de modo geral, um substantivo grego definido tem a forma com artigo definido (ho), o que se torna “o(a)” em Inglês. Um substantivo grego indefinido irá aparecer sem o artigo definido, e será propriamente traduzido em Inglês com “um” ou “uma”. Nós não estamos “adicionando uma palavra” quando traduzimos substantivos Gregos que não tem artigo definido como os substantivos com artigo indefinido em inglês. Nós simplesmente obedecemos as regras da gramática inglesa que nos que nos diz que não podemos dizer “Snoop é cão”, mas “Snoopy é um cão”. Por exemplo, em Jo.1.1c, a clausula que estamos investigando, ho logos é “a palavra”, como todas as traduções acertadamente fizeram. Se isso tivesse sido escrito simplesmente logos, sem o artigo ho, nós teríamos que traduzir como um verbo[6].

Parece-me impressionante que um acadêmico com Ph.D defenda essa opinião como definitiva (observe que mesmo em sua conclusão, esse é o argumento definitivo). Não é à toa que os TJ gostam dele: Além de opiniões similares a superficialidade é comum em ambos. O exemplo oferecido (Snoopy is dog) é sem sombra de dúvidas uma afronta ao texto, e uma forma equivocada de se compreender o que é definido e indefinido.

Ainda que a intenção do autor foi esclarecer um fato por meio de uma comparação, tal comparação não se enquadra no dilema de tradução de Jo.1.1.c, é simplesmente vergonhoso. Deve ser por isso que pouco a frente concluí: “Mas, o que dizer do Θεὸς indefinido de Jo.1.1c? Que isso não corresponde ao substantivo próprio definido ‘Deus’, mas ao substantivo indefinido ‘um deus’[7]”.

Sem querer realizar notas a todas as declarações de BeDuhn, temos que notificar que a daclaração sobre substantivos indefinido nos faz realmente questionar a capacidade gramatical desse autor. Sua conclusão, baseada nas evidências que apresenta já é um grande (bem) feito, mas sua explicação transparece incompetência. Para clarificar esse fato, observe seu adendo:

Se João quisese dizer e “e o Verbo era Deus”, como muitas versões em inglês traduzem, ele poderia ter feito isso facilmente adicionando o artigo definido “o” (ho) à palavra “deus” (Θεὸς), fazendo “o deus” e portanto “Deus”. Ele poderia simplesmente ter escrito ho logos em ho Θεὸς (palavra por palavra: “o verbo era o deus”). Mas ele não fez?[8]

Certamente BeDuhn faltou as aulas de grego instrumental na Idiana University. Tal conclusão não pode ter sido apresentada por alguém que conhece de fato grego. Já temos dito que tal situação (da inclusão do artigo definido com Θεὸς) faria a sentença grega expressar completa equiparação (cf. Mt.13.38; Jo.15.1). Tal conclusão de BeDuhn, certamente nos faz pensar que o nível de conhecimento grego do autor está no nível da leitura, como defendeu no prefácio do seu livro.

2. Influencia da Vulgata

Outro argumento interessante que BeDuhn usa para explicar por que as versões ainda mantinham suas equivocadas leituras sem artigo indefinido, é que a KJV a princípio teria sido traduzida com os olhos na Vulgata:

Assim que o Comite concordou com o texto grego base, a tradução pode iniciar. O bem conhecido valor da Vulgata (do quinto século) preenchia as lacunas quando alguma incerteza a respeito do sentido do grego original[9].

O texto superior base usado hoje nos permite identificar mais uma dúzia de versos incluídos na KJV que não são autênticos ao Novo Testamento. Dúzias de palavras ou frases são incluídas na KJV que tem pouco ou nenhum suporte em manuscritos gregos (…) Muitas dessas diferenças tem sua base na Vulgata Latina, para a qual os tradutores da KJV se voltaram com freqüência para usar como guia[10].

Considerando sua opinião sobre a KJV, BeDuhn infere que tal tal influência chegou a afetar a decisão da omissão voluntária do artigo indefinido na sentença de Jo.1.1c. Sobre isso diz:

Como já disse, os tradutores eram muito mais familiares e confortáveis com sua Vulgata Latina que com o Novo Testamento Grego. (…) Latim não tem artigo, definido nem indefinido. Assim o substantivo definido “Deus” e o indefinido “deus” aparecem precisamente do mesmo modo em Latim, e em Jo.1.1-2 alguém poderia ver três ocorrências do que parecia ser a mesma palavra, ao invés de duas formas distintas usadas em Grego (…) A interpretação de Jo.1.1-2 que agora é vista na maioria das versões em inglês foi bem inserida no pensamento dos tradutores da KJV que se basearam em uma leitura milenar apenas do Latim[11].

Em outras palavras o que esse autor está dizendo é que os tradutores da KJV usaram-na em todo o processo de tradução com referência, inclusive em questões gramaticais. O fato de BeDuhn defender o uso da Vulgata para a produção da KJV não é nenhuma novidade, mas a profundade do uso que BeDuhn defende parece, nesse caso, um exageiro infundado. Se isso é verdade, temos que admitir que as leituras mais confortáveis sem artigo deveriam ter sido mantidas no decorrer do texto de Jo.1, o que não acontece[12]. A argumentação de BeDuhn nesse caso é sem qualquer evidência e fundamento, é simplesmente um exemplo de falta de preparo para lidar com questões de tradução.

3. A ordem da frase é indiferente

Pouco após defender a influência da Vulgata na tradução de Jo.1.1c, DeBuhn passa a analisar algumas defesas da leitura da KJV. Um dos argumentos que BeDuhn tenta apresentar é o dilema gramatical já apresentado: os predicados via de regra não tem artigo. Para DeBuhn isso não é aceitável pelo fato de que pode encontrar quatro ocasiões no evangelho em que o artigo é usado com o predicado. Observe:

Nós precismos de apenas uma olhada no Evangelho de acordo com João para encontrar outras sentenças com verbos de ligação onde ambos os substantivos do sujeito e predicado tem artigo definido, e em nenhum desses casos há conflito entre o sujeito e o predicado[13].

Em uma nota explicativa ele acrescenta:

João 1.4: “A vida era luz dos homens”. Tanto sujeito como predicativo do sujeito tem artigo definido, e ainda assim “a vida” é o sujeito por que na clausula imediatamente anterior João estava falando sobre “a vida” e não “a luz[14]”.

A explicação de BeDuhn sobre o que é sujeito e o que é predicado, em outras palavras, é apenas uma questão de contexto. É por isso que defende que em Jo.1.1c o Verbo é o sujeito, pois nas duas sentenças anteriores ele era o foco do assunto. Certamente DeBuhn apresenta sua completa falta de compreensão da Gramática Grega e fortalece nossa opinião de que apenas poderia ler em grego. Sua conclusão e defesa certamente não tem respaldo na gramática grega.

A conclusão de BeDuhn sobre Jo.1.4 é claramente um equívoco: por não reconhecer a estrutra de equiparação, onde sujeito e predicado tem artigos e o sentido é entendido em ambos os sentidos (A é B do mesmo modo que B é A – cf. Jo.15.1), atribui ao contexto o poder de definição. Novamente, BeDuhn demonstra que seu conhecimento do idioma grego é elementar.

4. Falta de Critérios de Definição

BeDuhn também parece reconhecer que no NT Θεὸς não precisar vir acompanhado de artigo para ser definido, entretanto apresenta algumas declarações referentes a essa condição. Em primeiro lugar BeDuhn defende que o uso anartro de Θεὸς é definido quando está nos casos genitivo ou dativo. Segundo ele, essas são formas que dispensam o uso do artigo, entretanto, o mesmo não acontece com o nominativo, que é mais dependente de artigo para ser definido. Em segundo lugar, DeBuhn defende que existem características que definem o uso definido de Θεὸς no NT: (1) a presença de pronome possessivo (Jo.8.54; 2Co.6.16); (2) o uso do vocativo (Rm.9.5; 1Ts.2.5); (3) a associação com o numeral um (1Co.8.6; Ef.4.6; 1Tm.2.5). Como nenhum desses elementos são encontrados em Jo.1.1c, BeDuhn conclui que a leitura é certamente indefinida[15].

Essa é a primeira ocasião em que um argumento de BeDuhn parece ter fundamento gramatical, mas novamente ele apresenta sua opinião de modo equivocado. A declaração de que o nominativo é mais dependente do que outros casos no Grego Koiné não é nem se quer sugerido por qualquer gramático do grego do NT e nem mesmo verificável no NT[16]. A sua segunda conclusão, de que existem fatores que demonstram o uso definido de Θεὸς no nominativo, ainda que seja acertivo dentro dos exemplos que apresenta, exclui diversos outros. Em outros lugares, nenhum desses elementos é vistos e ainda assim o substantivo anartro no nominativo continua sendo definido. Apesar de já termos demonstrado isso com muitos detalhes no artigo Usos anartros de Θεὸς  no Novo Testamento, considere alguns exemplos:

Gálatas 6:7

(GNT) Μὴ πλανᾶσθε, Θεὸς οὐ μυκτηρίζεται· ὃ γὰρ ἐὰν σπείρῃ ἄνθρωπος, τοῦτο καὶ θερίσει·

(PJFA) Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará.

Filipeneses 2:13

(GNT) Θεὸς γάρ ἐστιν ὁ ἐνεργῶν ἐν ὑμῖν καὶ τὸ θέλειν καὶ τὸ ἐνεργεῖν ὑπὲρ τῆς εὐδοκίας.

(PJFA) porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.

Note nesses dois casos que nenhum dos critérios de definição de BeDuhn estão presentes e ainda assim entendemos o substantivo anartro Θεὸς é definido. Ou seja, BeDuhn ou não era bem informado, ou mal intencionado. O que se pode dizer com certeza é que sua pesquisa não foi adequada.

5. A regra de Colwell está errada

A partir desse momento BeDuhn parece estrapolar um pouco sua defesa. Após apresentar sua concepção da regra de Colwell BeDuhn faz o seguinte comentário:

O primeiro problema é que essa regra não estabelece a definição de um substantivo. O segundo é que a regra está errada[17].

Claramente BeDuhn compreendeu de modo equivocado da regra de Colwell (e provavelmente nunca leu seu artigo), e para mais informações sobre o assunto o leitor deve ler o artigo Jesus é um deus? Será mesmo!?. O que DeBuhn apresenta aqui demonstra que ele está na contramão da gramática grega tal como nós conhecemos. Um dos argumentos que BeDuhn usa para defender sua tese de que a Regra de Colwell não é uma regra são as famosas ocasiões de equivalência, onde sujeito e predicado tem artigo: Jo.6.51; 15.1 ou situações de exceção: Jo.20.15 e 21.12.

A má compreensão de BeDuhn da regra de Colwell faz com que defenda que, por que existem exceções não deve existir uma regra. Em suas palavras BeDuhn diz: “Nós normalmente ouvimos a expressão ‘a exceção prova uma regra’. Mas, de modo geral, exceções disprovam regras[18]”. Contudo tal afirmação é autocontraditória, pois só existem exceções se existem regras a serem excetuadas. Sem regras, não existem excesões. Além de pouco conhcedor de grego, Beduhn agora demonstra problema com a lógica. Sua tentativa de defesa de sua visão do uso indefinido de Θεὸς, passa a demonstrar falta de preparo para falar sobre gramática e tradução.

Thomas Howe afirma que BeDuhn não compreendeu a Regra de Cowell, observe:

BeDuhn não compreendeu a regra em primeiro lugar. Como Daniel Wallace demonstra: ‘Colwell afirmou que um PN definido que precede um verbo é normalmente definido’. O fato de BeDuhn ter cometido esse erro é evidente em seu comentário: ‘O primeiro problema é que a regra não estabelece a definição de um substantivo. O fato é, a regra nunca foi formulada desse modo. A observação de Colwell era concernente a substantivos que se acreditava ser definido para ver como eles era apresentados no texto[19].

Pelas críticas que BeDuhn tece certamente não está familiarizado com a Regra de Colwell. A sensação que temos ao ler suas afirmações é que Colwell criou uma regra para defender o uso definido de Θεὸς em Jo.1.1c., o que sabemos não é verdade[20]. Ou seja, começamos a notar que a suposta falta de identidade teológica que ele apresenta na introdução do seu livro não o permite ser objetivo de modo nenhum.

6. Philip Harner falhou, mas é o mais provável

Outro argumento de BeDuhn é baseado na exposição de Harner. Após apresentar a visão que tem do trabalho de Harner, DeBuhn diz:

Na minha opinião Harner demonstra com sucesso que o caso de substantivos predicados sem artigos colocados antes do verbo tendem a ter função qualitativa. Em outras palavras, esse substantivo descreve ou define o caráter do sujeito da sentença. Mas, Harner falha em demonstrar que essa é sempre a função dos predicados nominativos pré-verbais, ou que essa é a função não encontrada em predicados nominativos após o verbo. Em outras palavras, entendo que Harner detectou um importante uso do predicado nominativo anartro, mas não um que em todos os casos depende da posição do substantivo em relação ao verbo[21].

O que BeDuhn quer dizer com essa afirmação é que, se não for encontrada uma “regra” sem qualquer exceção, a tradução se mantém indefinida. Entretanto, se usarmos o mesmo critério para a “regra” da ausência de artigo, veremos que essa não é uma regra sem exceções. Aliás, já temos demonstrado largas exceções desse fato (cf. Ausência de artigo no Grego Koiné). A relutância de BeDuhn em reconhecer os princípio apresentados por Colwell e Harner certamente o fazem parecer desconhecedor das regras que critica.

Um equívoco que BeDuhn claramente comente é sua confusão entre o sentido indefinido expresso pela TNM e o qualitativo apresentado por Harner. Segundo ele, via de regra, “os substantivos predicados indefinidos, antes ou depois do verbo, servem para identificar classe ou categoria a que um substantivo pertence[22]”. Pouco à frente complementa: “Se o [artigo definido] ‘o’ fosse usado com substantivos predicados, o sentido qualitativo seria perdido. O uso de [artigo indefinido] ‘um’ adequa o sentido qualitativo[23]

Essa afirmação sobre indefinição e sentido qualitativo, claramente demonstra a confusão que DeBuhn tem do assunto. Para ele, esses dois modos de compreensão de um texto são sinônimos, mas claramente não o são, como já temos demonstrado. Outro detalhe que demonstra a má compreensão de BeDuhn é sua investigação para demosntrar as falhas de Harner. Ele cita diversos versículos com análises superficiais como demonstração de seu ponto de vista[24]. Como a grande maioria dos versos já foram observados no capítulo anterior não se faz necessário repetir aqui.

7. BeDuhn e a preferência pela TNM

Após todas essas considerações BeDuhn confirma seu favoritismo pela forma da tradução da TNM:

A tradução de João 1:1 na TNM é superior à outras oito tradução que estamos comparando. Eu não acho que ele é a melhor tradução possível para um leitor moderno Inglês, mas pelo menos ela rompe com a tradição KJV seguido por todos os outros, e o faz na direção certa, prestando atenção à gramática e sintaxe do grego como realmente funciona. Nenhuma tradução de João 1:1 que eu posso imaginar que vai ser perfeitamente clara e evidente em seu significado. João é sutil, e nós fazemos-lhe nenhum serviço, reduzindo a sua sutileza para simplicidade bruta. Tudo o que podemos pedir é que a tradução precisa ser um ponto de partida para a exposição e interpretação. Apenas a TNM consegue isso, como ele soa como provocação ao leitor moderno. As outras traduções cortam a exploração do significado do verso antes mesmo dele começar[25].

É impressionante o peso que BeDuhn oferece à TNM, não é à toa que os TJ o apreciam tanto. Nos chama a atenção a expressão “pelo menos ela rompe com a tradição KJV seguido por todos os outros, e o faz na direção certa, prestando atenção à gramática e sintaxe do grego como realmente funciona”. Depois de uma apresentação cheias de trapalhadas e equívocos sobre a gramática, BeDuhn ressalta que a TNM respeita tais regras de gramática que ele mesmo parece desconhecer. Provavelmente, BeDuhn tem em mente que a única “regra infalível” da gramática grega é que a ausência de artigo exige tradução indefinida. Contudo, sabemos que tal conclusão é equivocada e viola o princípio que defende para rejeitar as opiniões de Colwell e Harner.

Em outras palavras, entendo que o apoio de BeDuhn a TNM presta um desfavor aos TJ: sua análise não parece uma boa defesa nesse caso.

8. BeDuhn suporta a visão da TNM?

Um caso interessante sobre BeDuhn é que apesar de ter apreço pela leitura da TNM (nesse caso), sua teologia difere de modo tão claro da teologia da STV que é impossível que BeDuhn defenda a cristologia TJ. Àquele que leram seu livro até a página 125 estarão convencidos de que sua visão favorece a cristologia TJ. Contudo, pouco após ao seu elogio a TNM, BeDuhn se pergunta: “Como pode existir um deus na Bílbia?”.

BeDuhn inicia sua proposta de resposta por afirmar o seguinte:

“Novo Testamento refere-se absoutamente a Deus, e naturalmente falam sobre Ele mais do que qualquer outro deus (…) Isso é verdade mesmo que ‘Deus’ venha antes ou após o verbo, se é o primeiro ou o último na sentença. Variação na ordem das palavras não tem muito impacto no modo de se referir a Deus[26]

Como evidência disso BeDuhn apresenta alguns dados interessantes: (1) o substantivo Θεὸς é usado cerca de 289 vezes no nominativo e apenas (2) em 24 vezes ele vem sem artigo. Ele também diz que, das 265 em que o substantivo acontece com artigo, apenas em 3 ocasiões a referência não é a Deus (2Co.4.4; Fl.3.19; At.14.11). Tendo dito isso, BeDuhn passa a observar ocasiões em que Θεὸς vem sem artigo[27].

Contudo, antes de acompanhá-lo nesse estudo, por ocasião de nossa tranparência temos que dzer que os dados não são estão corretos se tomamos a versão de WHO. Nessa edição do texto grego, Θεὸς é usado cerca de 307 vezes no nominativo no NT[28], sendo que dessas em 29 vezes Θεὸς é usado sem artigo[29]. Embora na prática isso não faça qualquer diferença ao argumento de BeDuhn é importante demonstrar dados acertados em relação ao texto grego que temos usado como base para nossa análise.

Nos casos em que Θεὸς vem sem artigo, BeDuhn faz suas análises com extrema supercialidade defendendo o uso indefinido neles. O primeiro exemplo oferecido são os textos de Lc.20.38 e Mc.12.27. Em um caso de autocontradição, BeDuhn defende que nesses versos o texto fala sobre “a categoria que o substantivo pertence” e portanto a tradução é indefinida. Contudo, já tinha dito que a ênfase do NT é sobre Deus, e em ambos versos uma declaração sobre ele é oferecida: “[Ele] é Deus vivos não de mortos”. Note que BeDuhn defende a TNM em ambos os texto, pois traduzem como ele.

Infelizmente, em uma análise superficial BeDuhn comente o equívoco mais comum e perigoso: nada falou sobre o contexto do texto, como se o texto não falasse sobre mais nada. Howe explica com clareza:

BeDuhn ignora completamente o contexto literário do verso e discute como se fosse falado em um vazio completo. Na verdade, a noção de que a questão implícita é “Que tipo de Deus é o Deus cristão?” ultrapassa o absurdo, visto que a declaração feita nesta passagem foi feita antes do cristianismo ser estabelecido. No contexto, Jesus está sendo questionado pelos saduceus, e além do fato de que não havia nenhuma igreja cristã, neste momento, os saduceus não teriam qualquer interesse no Deus cristão. Pelo contrário, isso demonstra o fato de que os saduceus negavam vida após a morte e a ressurreição. Jesus está respondendo a sua inquisição. O fato de que este intercâmbio tem a ver com o Deus de Israel, que teria sido o Deus dos saduceus, e este era o Deus sobre quem a questão é colocada, prova que este não pode ser um uso indefinido[30].

As tentativas atrapalhadas de defender os usos indefinidos de Θεὸς no NT continuam com os seguintes textos: (1) 2Co.1.3[31], defendo que o sentido indefinido é o acertivo embora ninguém em sua análise tenha usado; (2) Ap.21.7[32] e 2Ts.2.4[33], onde contraditoriamente defende o princípio de Colwell que predicados nominativos anartros após o verbo devem ser indefinidos; (3) Fl.2.13[34] em função do claro sentido qualitativo do verso, deve ser traduzido de modo indefinido e que Paulo fala de uma força divina e não sobre Deus. A intenção de DeBuhn com sua análise é defender que existe no NT espaço para um deus[35] em contraste com o Deus a que se refere com freqüência no Novo Testamento.

Entretanto, diferente do que se poderia esperar, BeDuhn defende uma espécie de politeísmo no NT um pouco diferente daquela que vemos na tradução de Jo1.1c da TNM, pois em sua análise sobre quem é o Verbo, BeDuhn conclui:

João cuidadosamente afirma que o que encarna é o logos, algo que estavava, próximo ao seio do de Deus (o Pai). Então, o que é o logos? João fala que ele era o agente por meio do qual Deus (o Pai) fez o mundo (…) Ou seja, o Verbo é o poder criativo de Deus em projeto e execução[36].

Após essa definição, BeDuhn afirma que o logos se fez carne na forma de Jesus Cristo, que João o apresenta como o simples Messias, alguém escolhido especialmente para desempenhar uma função atribuída por Deus, que os evangelhos sinóticos apresentam a Cristo como filho adotado em seu batismo, que Paulo também entende assim (Rm.1.4; Fl.2.9) entre outras declarações interessantes.

Aqui sua área de especialidade, o estudo das religiões parece o estar levando a uma análise além daquela proposta por João. Não é à toa que diz:

No mundo de João, a categoria de Deus não era tão acentuadamente distinta [falando sobre a trindade] como para os cristãos modernos, e nela existem todos os tipos de seres ocupando a área cinza entre Deus e mortais. Existem vários anjos e semi-deuses a considerar.

A partir desse ponto, suas influências não reveladas começam a levar o leitor a conclusões claramente equivocadas. Essa visão de uma área cinza na mentalidade de João que incluía anjos e semi-deuses é claramente uma demonstração da disposição mental desse autor, que evidencia por fato que nada conhece sobre João, ou do NT. Observe sua conclusão sobre o assunto:

O verbo não é Cristo no evangelho de João. O Verbo é um ser divino intimamente associado com Deus que em um determinado ponto se faz carne, e apenas então, quando o Verbo é carne, é que podemos dizer que estamos lidando com Cristo[37].

Portanto, esse é mais um caso em que a mesma grafia não representa a mesma ideologia. BeDuhn é, em última análise, não é qualificado para falar sobre tradução, como ele mesmo demonstra em sua obra. Após essa análise de seu argumento, entendemos que sua capacidade como tradutor está de acordo com o que acredita ser necessário para a tarefa: ser leitor do grego koiné. Não é à toa que tantas trabalhadas foram feitas na defesa de suas opiniões


[1] BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. Pp.xv.

[2] Idem, pp.xix

[3] Idem, pp.xvii.

[4] HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp.2

[5] Idem, pp.113-4

[6] Idem, pp.114.

[7] Idem, pp115.

[8] Idem, pp.115-6.

[9] Idem, pp.7

[10] Idem, pp.28.

[11] Idem, pp.116

[12] Um paralelo entre a KJV e a Vulgata demonstra claramente o equívoco de BeDuhn: Em Jo1.4, a Vulgata usa duas vezes o substantivo “vita” (in ipso vita erat et vita erat lux hominum). Entretanto, no texto o primeiro uso é anartro e o segundo é artro (ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων·). Nesse caso a KJV segue literalmente o texto grego (ainda que equivocada no primeiro uso): “In him was life; and the life was the light of men” (lit. Nele estava vida; e a vida era a luz dos homens).

Se BeDuhn estivesse correto sobre a influência da Vulgata em decisões gramaticais simples como o uso de artigo definido em Jo.1.1, o mesmo fenômeno deveria ser encontrado no mesmo texto mais algumas vezes. Mas isso não acontece (cf. 1.6 – homo, ἄνθρωπος, a men, um homem; 1.7 – testimonium; μαρτυρίαν, a witness, uma testemunha; 1.12 – filios Dei, τέκνα Θεοῦ, the sons of God, os filhos de Deus, etc).

[13] Idem. Pp.117

[14] Idem, pp.134 – Ele também cita Jo.6.63; 6.51 e 15.1, que também são casos de equiparação.

[15] Idem, Ibid.

[16] Para uma demonstração clara desse princípio veja o capítulo 2. Para alguns exemplos onde a conclusão de BeDuhn não pode ser verdadeira, veja lista oferecida por Thomas Howe: Mc.12.27; Lc.20.38; Jo.1.18; 8.54; Rm.8.33; 1Co.3.7; 8.4, 6; 2Co.1.3, 21; 5.5, 19; Gl.6.7; Fl.2.13; 1Ts.2.5; 2Ts.2.4; Hb.3.4; Ap.21.7 (pp.63-5).

[17] Idem, pp.118

[18] Idem, pp.119

[19] HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp. 78

[20] Oberve que antes de começar sua análise BeDuhn já tinha dito que os argumentos que ele irá analisar no livro foram levantados “para suportar a tradução da KJV de Jo.1.c ‘e o Verbo era Deus’ e justificar sua repetição nas mais recentes e presumivelmente mais acertadas versões. Nenhum desses argumentos resistem a um exame minuncioso” (pp.116). Esse pressuposto é equivocado: (1) no que se refere na relação da KJV e as demais versões, que em geral são antagônicas em princípios de tradução, texto crítico e público alvo; (2) que tais argumentos foram feitos para defender a leitura da KJV. Na verdade, o estudo da gramática grega foi realizado para se compreender seu funcionamente e normalmente é aplicável a casos como Jo.1.1. Na verdade, BeDuhn está comentendo o erro que acusa: Está distorcendo evidências gramaticais para defender sua leitura de Jo.1.1.

[21] BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. Pp.121

[22] É interessante que nesse caso BeDuhn fale de modo geral, até por que sua conclusão está errada. Mas, se fosse uma ocasião via de regra, ela não era absoluta, como ele esperava da regra de Colwell e das considerações de Harner.

[23] Idem. Pp.121.

[24] As referências usadas por BeDuhn são vistas nas páginas 121-125. Thomas Howe oferece uma excelente apresentação de todos os versos de modo claro e suscinto nas páginas 81-88 de seu artigo.

[25] Idem, pp.133.

[26] Idem, pp.125.

[27] Idem, pp.125-6.

[28] Mt. 1:23 3:9 6:8, 30 15:4 19:6 22:32; Mc. 2:7 10:9, 18 12:26s, 29 13:19 15:34; Lc.1:32, 68 3:8 5:21 7:16 8:39 12:20, 24, 28 16:15 18:7, 11, 13, 19 20:38; Jo.1:1, 18 3:2, 16s, 33s 4:24 6:27 8:42, 54 9:29, 31 11:22 13:31f 20:28; At 2:17, 22, 24, 30, 32, 36, 39 3:13, 15, 18, 21f, 25f 4:10 5:30ss 7:2, 6f, 9, 17, 25, 32, 35, 37, 42, 45 10:15, 28, 34, 38, 40 11:9, 17f 13:17, 21, 23, 30, 32, 37 14:27 15:4, 7f, 12, 14 16:10 17:24, 30 19:11 21:19 22:14 23:3 26:8 27:24; Rm.1:9, 19, 24, 26, 28 2:16 3:4ss, 25, 29s 4:6 5:8 8:3, 28, 31, 33 9:5, 22 10:9 11:1s, 8, 21, 23, 32 12:3 14:3 15:5, 13, 33 16:20; 1Co.1:9, 20s, 27s 2:7, 9s 3:6s, 17 4:9 5:13 6:13f 7:15, 17 8:4, 6 10:5, 13 11:3 12:6, 18, 24, 28 14:25, 33 15:28, 38; 2Co.1:3, 18, 21 4:4, 6 5:5, 19 6:16 7:6 9:7s 10:13 11:11, 31 12:2s, 21 13:11; Gl.1:15 2:6 3:8, 18, 20 4:4, 6 6:7; Ef.1:3, 17 2:4, 10 4:6, 32; Fl.1:8 2:9, 13, 27 3:15, 19 4:9, 19; Cl.1:27 4:3; 1Ts.2:5, 10 3:11 4:7, 14 5:9, 23; 2Ts.1:11 2:4, 11, 13, 16; 1Tm.2:5 4:3; 2Tm.1:7 2:25; Tt.1:2; Hb.1:1, 8s 2:13 3:4 4:4, 10 6:3, 10, 13, 17 9:20 10:7 11:5, 10, 16, 19 12:7, 29 13:4, 16, 20; Tg. 1:13 2:5, 19 4:6; 1Pe. 1:3 4:11 5:5, 10; 2Pe. 2:4; 1Jo. 1:5 3:20 4:8s, 11s, 15s 5:10s, 20; Ap. 1:1, 8 4:8, 11 7:17 11:17 15:3 16:7 17:17 18:5, 8, 20 19:6 21:3, 7, 22 22:5f, 18s

[29] Mc. 12:26 (x2), 27; Jo.1:1, 18; 8:54 10:34; At.19:26; Rm.8:33 9:5; 1Co.3:7 8:4, 5 (x2), 6; 2Co.1:3, 21; 5:5, 19 6:16; Gl.6:7; Ef.4:6; Fl.2.13; 1Ts.2:5; 2Ts.2:4; 1Tm.2:5; Hb.3:4; 11:16; Tg.2:19; Ap.21:7.

[30] HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp. 66-7.

[31] A análise de BeDuhn deixou de considerar que toda a sentença de 2Co.1.3 não tem verbo, note: “Εὐλογητὸς ὁ Θεὸς καὶ πατὴρ τοῦ Κυρίου ἡμῶν ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ὁ πατὴρ τῶν οἰκτιρμῶν καὶ Θεὸς πάσης παρακλήσεως”. Também esqueceu de notificar seus leitores que o substantivo já tinha sido usado com artigo na sentença e que a referência a Deus, o Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo e das Misericórdias. Também esqueceu que Paulo usa a expressão “Deus de consolação” em referência a Deus com artigo em outros lugares (Rm.15.5).

[32] Aqui DeBuhn esqueceu que está traduzindo uma frase dAquele que estava assentado no Trono (21.5), que é o Alfa e o Ômega o princípio e o fim (21.6). Será que a frase “eu serei um deus para ele” cabe na boca do Todo Poderoso? BeDuhn defende isso e condena todas as traduções comparadas.

[33] Mais uma vez sem olhar o contexto, BeDuhn supõe que o Anticristo se considerará (falsamente) da categoria de Deus. Em outras palavras, ele defende que a acusação do Anticristo será idêntica a diversos outros impostores (anti: no lugar de; christós: Cristo) como vemos em 1Jo.2.18. Mais uma vez ele ignora o contexto que sobre o Anticristo fala: Se opõe contra tudo que se chama Deus (anartro); se assentará no Templo de Deus (artro) querendo parecer Deus (anartro). “O fato de se assentar no “Templo” de “Deus” seria não ser apenas a alegação de que ele é “um deus”, mas que ele é o “Deus”” (Howe, pp.73)

[34] Fora o recorrente equívico de associar o sentido indefinido com o qualitativo e da conclusão de que Paulo fala de uma força divina e não humana parecem demonstrar as credenciais teológicas de BeDuhn. Esse é um interessante caso, pois mais uma vez ele se vê sozinho ante às traduções analisadas.

[35] BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. Pp.127

[36] Idem, pp129.

[37] Idem, pp.130.

12.02.09

Jesus é “um deus”? Será mesmo!?

Enviado em Cristologia, Testemunha de Jeová tagged , , , , às 8:23 am por Marcelo Berti

Nesse artigo pretendo investigar outro argumento em favor da tradução indefinida de Jo.1.1c oferecida por TJs em defesa da leitura da TNM. O texto que temos analisado tem diversas características importantes para a gramática grega, e sua tradução depende da correta compreensão desses elementos.

Jo.1.1c em grego é desse modo conhecido: “καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”. Para ajudar o leitor a compreender a composição dessa sentença usei cores para facilitar a visualização. A primeira clausula que gostaria que o leitor observasse é a que vem em laranja: ὁ Λόγος - O Verbo. Note que essa sentença vem acompanhada de artigo ὁ. Em termos morfológicos observamos que essa clausula está no nominativo, masculino e singular, ou seja a tradução deve ser o Verbo, ou a Palavra, ou até mesmo, de modo mais livre, A Mensagem[1]. Essa clausula é o Sujeito da oração.

A segunda partícula que gostaria que o leitor observasse é a expressão em azul ἦν. Essa expressão é o verbo da oração do verbo ειμι (ser, estar). Morfologicamente esse verbo está imperfeito do indicativo na terceira pessoa do singular. Ou seja, trata-se de uma ação ocorrida no passado, era/estava. A que esse verbo no passado faz referência? Contextualmente entendemos que faz referência ao verbo “era” da primeira sentença do verso: “No princípio era o Verbo”. Ou seja, antes do princípio o Verbo já existia.

A última partícula que gostaria de chamar sua atenção é para aquela descrita em vermelho Θεὸς. Morfologicamente esse substantivo também está no nominativo, masculino singular, mas não vem acompanhado de artigo. Esse fenômeno, absolutamente comum no Grego Koinê indica primariamente duas coisas: (1) Que essa partícula é o predicado da oração, uma vez que via de regra os predicados vem desacompanhados de artigo; (2) Que o modo de tradução desse termo deve ser bem avaliado, pois tal ausência não implica necessariamente em indefiniçãocomo.

Do ponto de vista da ordem da frase, notamos que o predicado foi escrito antes do verbo. Essa construção é absolutamente comum ao Grego Koinê. Normalmente em grego a ordem das palavras não altera o significado da oração, pois a função sintática dos substantivos em uma frase é indicada pela declinação do mesmo e não por sua posição. Entretanto, quando um substantivo exercendo o papel de predicado sem artigo está no nominativo, posicionado antes do verbo, chamamos a essa sentença de Predicado Nominativo Anartro e Pré-Verbal e sua construção sintática e gramatical tem alguns detalhes que merecem ser observados.

Por isso, gostaria de deixar de lado por um momento o tão comentado caso de PN anartro pré-verbal de Jo.1.1c e observar outros exemplos menos disputados no Novo Testamento para tentarmos perceber a existência de algum padrão para traduzirmos esse tipo de sentença.

Nesse artigo também colocarei outras versões em português anexadas aos já conhecidos textos de Westcott e Hort (WHO) e da TNM para que o leitor perceba que essas traduções são similares na tradução dos PNs anartros e pré-verbais.

Entretanto, antes de prosseguirmos, é fundamental conceituarmos com mais detalhes e informações o que é um PN anartro e pré-verbal. Por isso, vamo primeiro olhar esse fenômeno lingüístico.

1. Conceituando o PN anartro e pré-verbal

Vamos iniciar nossa conceituação por definir alguns termos dessa setença:

  • Predicado Nominativo (PN): Predicado é a sentença que refere-se ao verbo sintaticamente e define, apresenta características do sujeito. Em grego, os substantivos no nominativo normalmente referem-se ao sujeito de uma oração. Entretanto, eventualmente exerce a função de predicado.
  • Anartro: é a designição para um substantivo desacompanhado de artigo.
  • Pré-verbal: Refere-se ao posicionamento do substantivo em relação ao verbo

Portanto, PN anartro e pré-verbal refere-se a uma construção sintática em que a ordem das palavras é importante do mesmo modo que a declinação e, merece devida atenção dos estudantes de grego koinê. O seu uso no NT é freqüente e acontece em diversas ocasiões teologicamente importantes para a Teologia do NT. Assim, o estudante fará bem se conhecer com mais detalhes esse importante fenônemo do idioma grego.

O estudo desse caso sintático ficou conhecido através do trabalho de E.C. Colwell, que diferente do que muitos pensam, aconteceu em primeiro lugar em sua dissertação de Doutorado “The Character of the Greek of John`s Gospel” (1931). Apenas, dois anos mais tarde Cowell escreveu um artigo chamado “A definitive rule for the use of the article em te Greek New Testament” em 1933 e desde então tem sido chamado como da “Regra de Cowell”.

Segundo Cowell tal regra poderia ser assim escrita: “Um predicado nominativo definido tem artigo quando segue o verbo, o não tem artigo quando precede o verbo[2]”. Essa regra até então não teria nada de especial, uma vez que muito antes dele A.T. Robertson já tinha atestado que “como regra o predicado não tem o artigo, mesmo quando o sujeito o usa[3]”. Entretanto o que é novo em Cowell é que sua pesquisa analisou casos específicos de predicados nominativos.

Como demonstração desse princípio Cowell demonstrou diversos textos, mas um interessante apresentado é o texto de João 19.21:

João 19:21

(WHO) ἔλεγον οὖν τῷ Πιλάτῳ οἱ ἀρχιερεῖς τῶν ᾿Ιουδαίων· μὴ γράφε· ὁ βασιλεὺς τῶν ᾿Ιουδαίων· ἀλλ᾿ ὅτι ἐκεῖνος εἶπεν, βασιλεύς εἰμι τῶν ᾿Ιουδαίων.

(PJFA) Diziam então a Pilatos os principais sacerdotes dos judeus: Não escrevas: O rei dos judeus; mas que ele disse: Sou rei dos judeus.

Note que na primeira ocasião em que o texto usa o termo rei ele vem acompanhado de artigo e segue após o verbo, ao passo que o segundo uso aparece antes do verbo e é anartro e em ambos os casos são entendidos definidamente[4].

Outra análise interessante que Cowell faz é que o uso da expressão Filho de Deus e Filho do Homem aplicados a Cristo no NT. Segundo seu artigo, a primeira expressão ocorre treze vezes como predicado com artigo e em todas elas acontecem após o verbo[5]. Em dez ocasiões essa mesma expressão aparece como predicado nominativo anartro e em nove aparece antes do verbo[6]. A décima ocasião (Mt.27.13) tem o termo Deus no genitivo antes do verbo, o que parece sugestivo.

Para a expressão Filho do Homem Cowell atesta que ela ocorre duas vezes como predicado nominativo e em uma vem acompanhada de artigo e está após o verbo (Mt.13.37) e outra vez sem artigo e está antes do verbo (Jo.5.27)[7].

Outro dado interessante que Cowell nos fornece com sua pesquisa é que no NT predicados definidos após o verbo em 90% dos casos acontece com artigo, e apenas 10% sem artigo. Na mesma pequisa ele acrescentou que Predicados definidos antes do verbo em 87% dos casos acontece sem artigo e apenas 13% com artigo[8].

Pouco à frente Cowell clarifica: “Uma inspeção de alguns substantivos predicados definido sem artigo irá demosntra que eles são definidos mesmo que eles não tenham artigo[9]”. Não é à toa que o nome desse artigo é “A definitive rule for the use of the article em te Greek New Testament”. Sua conclusão sobre o assunto, foi assim descrita por ele mesmo:

“Elas mostram [as informações desse artigo] que um predicado nominativo precede o verbo não pode ser traduzida com um substantivo indefinido ou qualitativo apenas por causa da ausência de artigo se o contexto sugere que o predicado é definido, ele deve ser traduzido definidamente independente da ausência do artigo. No caso de um substantivo predicado que segue o verbo o oposto é verdadeiro: a ausência do artigo nessa posição é muito mais seguro que esse substantivo seja indefinido[10]

Em outras palavras estamos dizendo que Cowell é quem organizou o conhecimento e uso do PN anartro e pré-verbal, e que a Regra de Cowell tem esse nome por que ele descobriu o uso gramático do grego koinê e não por que criou uma regra. Esse reconhecimento é importante por que alguns acreditam que a Regra de Cowell é na verdade uma criação teológica para defender a divindade de Cristo, o que é certamente uma clara demonstração de ignorância.

Aos que já leram o artigo de Cowell sabem que isso é uma injustiça com seu trabalho, pois nas mais de dez páginas de demonstração do funcionamento desse tipo de sentença uma pequena e rápida nota próxima ao fim do artigo inclui uma menção a Jo.1.1c. Ou seja, a o trabalho de Cowell foi auxiliar os futuros gramáticos a apresentarem uma característica do grego koinê que até então não havia sido classificada.

É importante também lembrar que alguns dos nossos acadêmicos trinitários têm ultrapassado o reconhecimento da Regra de Cowell. Daniel Wallace em sua gramática avançada apresenta alguns desses acadêmicos, como Nigel Turner que chega a compreender a sentença de Jo.1.1c como se o termo Deus também estivesse com artigo; ou Walter Martin que exagera ao afirmar que predicados nominativos nunca tem artigo quando precedem o verbo[11], o que Cowell nunca afirmou.

Na mesma gramática, Wallace apresenta outros dois acadêmicos que levaram um pouco adiante as pesquisas de Cowell e perceberam novas nuances na Regra de Cowell. O primeiro deles é o difamado (pelos TJs) Philip Harner (para mais informações veja o artigo Listas de tradução de Jo.1.1). Segundo Harner, Cowell não levou em consideração as ocasiões em que um predicado nominativo anartro e pré-vebal pode ter força qualitativa[12]. O outro acadêmico é Paul Dixon que declarou:

“A regra não diz: um predicado nominativo anarto que precede um verbo é definido. Isso é a conversa da Regra de Cowell e isso não é uma inferência válida. (Da declaração ‘A implica em B’não é válido inferir que ‘B implica em A’. Da declaração ; ‘Substantivos acompanhados de artigo são definidos’ não é a mesma coisa que ‘Substantivos definidos são articulados’. Da mesma forma, da declaração ‘Predicados nominativos precedidos por verbo são anartros’ não é correto inferir que ‘Predicados nominativos e anartros precedidos por verbos são definido[13]”.

Daniel Wallace também acresce informações sobre o estudo de Cowell e suas limitações e implicações, observe:

“Em referência à Regra de Cowell, apenas os predicados nominativos, anartros e pré-verbais foram estudados e previamente determinados com maior probabilidade de ser definido por seus contextos. Não foram estudados todos os casos de predicados nominativos anartros e pré-verbais. Mas, a conversa da regra, comumente realizada na academia do NT assume que todas as construções tenham sido examinadas[14]

Com isso dito entendemos que as informações oferecidas por Cowell são significativas para a compreensão do funcionamento do grego koine, entretanto, nem todos os casos teriam sido avaliados. Na avaliação de Harner, observamos que a conceituação qualitativa não discutida por Cowell é também fundamental para a compreensão dos predicados nominativos anartros e pré-verbais. Já na consideração de Wallace sobre os dois trabalhos, entendemos que a Regra de Cowell fora clarificada por Harner e ampliada por Dixon. Assim, podemos assumir que a conclusão de Wallace é adequada:

“Um PN anartro e pré-verbal é normalmente qualitativo, eventualmente definido e apenas raramente indefinido. Em nenhum dos dois estudos [Cowell e Harner] foram encontrados PN indefinidos. Nós acreditamos que existem alguns no NT, mas, ainda assim é a força semântica mais pobremente atestada nesse tipo de construção[15]

Essa conclusão de Wallace, montada sobre os estudos de Cowell, Harner e Dixon nos oferece um quadro mais claro do PN anartro e pré-verbal no NT. Essa conclusão certamente nos ajudará a observar as traduções desses casos na TNM e verificar se elas foram bem performadas. Em nossa avaliação, iremos buscar as sentenças que são sintaticamente idênticas as de Jo.1.1c e aquelas que são similares. O objetivo dessa busca e avaliação é verificar a validade da tradução da TNM para Jo.1.1c.

2. Ocasiões Sintaticamente Idênticas

O primeiro grupo de versículo que vamos olhar são aqueles sintaticamente idênticos aos de Jo.1.1c. Quando digo idêntico, tenho em mente a construção sintática da sentença, ou seja, por ora vamos observar as sentenças gregas que seguem o seguinte padrão: Predicado Nominativo Anartro + Verbo de ligação + Artigo Nominativo + Substantivo Nominativo.

Em todo o Novo Testamento existem (até onde pude achar) dois casos idênticos aos de Jo.1.1c e o modo de tradução dessas sentenças pode nos ajudar a entender o modo de tradução da TNM:

Atos 28:4

(WHO) ὡς δὲ εἶδον οἱ βάρβαροι κρεμάμενον τὸ θηρίον ἐκ τῆς χειρὸς αὐτοῦ, ἔλεγον πρὸς ἀλλήλους· πάντως φονεύς ἐστιν ὁ νθρωπος οὗτος, ὃν διασωθέντα ἐκ τῆς θαλάσσης ἡ δίκη ζῆν οὐκ εἴασεν.

(TNM) Quando o povo de língua estrangeira avistou a bicha venenosa pendendo da mão dele, começaram a dizer uns aos outros: “Certamente este homem é assassino, e, embora se salvasse do mar, a justiça vingativa não permitiu que permanecesse vivo.”

(ARA) Quando os bárbaros viram a víbora pendente da mão dele, disseram uns aos outros: Certamente, este homem é assassino, porque, salvo do mar, a Justiça não o deixa viver.

(PJFA) Quando os indígenas viram o réptil pendente da mão dele, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, pois, embora salvo do mar, a Justiça não o deixa viver.

É interessante notar que as traduções apresentadas são unânimes: Todas descartam o sentido indefinido para essa sentença. É interessante que mesmo nessa forma de tradução entendemos que o sentido expresso pela frase, e pelo contexto, o PN anartro e pré-verbal não tem força indefinida. Certamente, os bárbaros não estavam pensando que Paulo era O matador como se houvesse apenas um, nem que ele era apenas mais um na multidão de assassinos que pudessem existir: Claramente a ênfase não é sobre a profissão de Paulo (um assassino), mas a que tipo de pessoa Paulo era (matador, homicida).

Nesse caso, a PJFA parece entender com um pouco mais de clareza a sentença escrita deixando a força qualitativa do texto exposta (Segue essa tradução em português as versões ARF, ARC, BRP).

O outro exemplo encontrado no NT expressa o mesmo fato de modo ainda mais claro, observe:

Marcos 2:28

(WHO) ὥστε κύριός ἐστι ὁ Υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου καὶ τοῦ σαββάτου.

(TNM) portanto, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado

(ARA) de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado

(PJFA) Pelo que o Filho do homem até do sábado é Senhor

Esse é um caso interessante: O sujeito da sentença tem adjunto adnominal (τοῦ ἀνθρώπου – do homem) do mesmo modo que o predicado (τοῦ σαββάτου – do sábado). Essa observação é importante para o que o leitor entenda a estrutura da sentença.

O mais interessante em uma cronstrução idêntica a de Jo.1.1c não vemos ninguém objetar que a tradução correlata das versões trinitárias está equivocada. Aliás, a TNM também segue a tradução correlata desse texto sem que qualquer demérito seja feito ao entendimento do texto. Note que a tradução indefinida aqui faria grande diferença: Se o Filho do Homem fosse um Senhor do sábado teríamos que entender que existem outros senhores do sábado, ou ao menos mais um, o que seria a perverção da verdade exposta nesse verso. Essa é a mesma conclusão que retiramos da tradução indefinida de Jo.1.1c.

É interessante observar o mesmo dilema de tradução sem as lentes da teologia, pois podemos observar as nuances da gramática grega. Mas, por que essa sentença não pode ser traduzida indefinidamente? Por que claramente a força desse PN anartro e pré-verbal é definida: Não existe outro Senhor do Sábado além de Jesus Cristo, e quanto a isso não há qualquer dúvida.

*       *       *       *

Quando um texto está fora de debate teológico, fica mais claro o modo como a gramática grega se comporta e podemos observar com mais atenção a ela e dela retirar subsídios para entender outros casos teologicamente mais complicados, como Jo.1.1c. Por isso, vamos observar ocasiões de contruções similares, para que o leitor possa colher mais princípios gramaticais e de tradução dos famosos PN anartos e pré-verbais (doravante chamado de PNAPV) no NT.

Nos dois casos apresentados, vemos com clareza a “Regra” de Cowell, compreendemos a implementação de Harner e Dixon e concordamos com Wallace: “Um PN anartro e pré-verbal é normalmente qualitativo, eventualmente definido e apenas raramente indefinido”.

Um último detalhe importante é que em sentenças idênticas a TNM acompanha as traduções da ARA e PJFA demonstrando que seus tradutores parecem compreender o modo de tradução esperado para casos como os que temos analisados. Ou seja, fora das lentes da teologia a TNM segue a gramática grega. Para verificarmos se essa conclusão estende-se ao NT precisamos ainda observar ocasiões sintaticamente similares as de Jo.1.1c.

3. Ocasiões Sintaticamente Similares

Nesse artigo, chamo de orações sintaticamente similares aquelas que, como a sentença de Jo.1.1c, é formada por PNAPV, independente da ordem de sua composição. Nesse exercício também vou me limitar a alguns exemplos no Evangelho de João, para que o leitor possa entender melhor o modo de comunicação do autor de Jo.1.1c.

A. Com tradução Definida

Em algumas ocasiões a força da senteça é tão claramente definda que parece não haver distinções entre as versões analisadas. Esses versos teologicamente menos controvertidos também nos auxiliarão a perceber que a força definida é claramente estampada nas sentenças, mesmo que o predicado venha desacompanhado de artigo. Observe:

João 1:49

(WHO) ἀπεκρίθη Ναθαναήλ καὶ λέει αὐτῷ· ῥαββί, σὺ εἶ ὁ Υἱὸς τοῦ Θεοῦ, σὺ βασιλεὺς ε τοῦ ᾿Ισραήλ.

(TNM) Natanael respondeu-lhe: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel

(ARA) Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!

(PJFA) Respondeu-lhe Natanael: Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és rei de Israel.

Note que que não há discussão a referência desse PNAPV: Do mesmo modo que Jesus é o Filho de Deus (perceba a presença do Artigo) ele é o Rei dos Judeus (note a fata de artigo). Nesse texto vemos claramente a “Regra” de Cowell: A sentença “ε ὁ Υἱὸς τοῦ Θεοῦ” vem após o verbo e tem artigo, ao passo que a segunda: “σὺ βασιλεὺς ε τοῦ ᾿Ισραήλ” acontece antes do verbo e não tem artigo e ainda assim ambas tem sentido claramente definido, sentido percebido pelas traduções da ARC, ARF e BRP.

A força definida aqui é claramente percebida pelo fato de que o predicado é um substantivo monádico, ou seja, é único em tipo e não necessita de artigo para ser definido. Esse é o caso de substantivos como sol, lua (Lc.21.25), Filho de Deus (Lc.1.35), Diabo (Jo.6.70) e assim por diante. Assim, esse PNAPV é claramente definido e sua força definida é vista, tanto pela construção sintática como pela classe de substantivo que pertenceo termo Rei. Veja mais um caso onde isso acontece:

João 17:17

(WHO) ἁγίασον αὐτοὺς ἐν τῇ ἀληθείᾳ· ὁ λόγος ὁ σὸς ἀλήθειά ἐστι.

(TNM) Santifica-os por meio da verdade; a tua palavra é a verdade

(ARA) Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade

(PJFA) Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade.

Observe que o mesmo tipo de sentença é usada aqui: PNAPV com substantivo monádico. Não há qualquer debate se existe outra verdade além daquela expressa pela Palavra de Deus e as versões em português entendem esse fato com clareza.

Contudo, é fundamental notar que a força definida não depende do uso de substantivos monádicos. No caso já observado tal substantivo acresce valor ao PNAPV. Em outros dois casos no evangelho de João, podemos observar que apenas a construção do PNAPV é suficiente para demonstrar esse fato:

João 3:29

(WHO) ὁ ἔχων τὴν νύμφην νυμφίος ἐστίν· ὁ δὲ φίλος τοῦ νυμφίου, ὁ ἑστηκὼς καὶ ἀκούων αὐτοῦ, χαρᾷ χαίρει διὰ τὴν φωνὴν τοῦ νυμφίου. αὕτη οὖν ἡ χαρὰ ἡ ἐμὴ πεπλήρωται.

(TNM) Quem tem a noiva é o noivo. No entanto, o amigo do noivo, estando em pé e ouvindo-o, tem muita alegria por causa da voz do noivo. Esta alegria minha, por isso, ficou completa

(ARA) O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim.

(PJFA) Aquele que tem a noiva é o noivo; mas o amigo do noivo, que está presente e o ouve, regozija-se muito com a voz do noivo. Assim, pois, este meu gozo está completo.

João 9:5

(WHO) ὅταν ἐν τῷ κόσμῳ ᾦ, φῶς εἰμι τοῦ κόσμου.

(TNM) Enquanto eu estiver no mundo, sou a luz do mundo

(ARA) Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo

(PJFA) Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.

Nos dois casos vemos substantivos não monádicos sendo unanimemente traduzidos com força definida: Ou seja, o PNAPV também expressa sua força definida independente do tipo de substantivo em uso. Esses exemplos no Evangelho de João nos servem de referência para entender a mente do autor da sentença grega de Jo.1.1c (ver outros em João 10:2, 8; 12.31).

Sendo assim, é importante observarmos algumas das diversas ocasiões em que a tradução correlata foi utilizada pela TNM no Evangelho de João e observar suas características.

B. Com Tradução Correlata

Tenho chamado tradução correlata aquela que não tem artigo no grego e no protuguês. Embora nem Cowell, Harner, Dixon ou Wallace tenham falado sobre esse tipo de tradução (até por que pensam na tradução para o inglês) entendo que grande parte dos PNAPV podem ser traduzidos para o português dessa forma sem o que sentido da sentença se perca.

Nesses casos, a tradução correlata é um modo de tradução intermediário entre a tradução definida e qualitatica. Para que esse princípio fique claro, vamos observar alguns exemplos:

1. Tradução Correlata com Força Definida:

Em alguns casos a tradução não venha acompanhada de artigo, como no original, mas a força da sentença nos faz entender tal expressão definidamente, observe:

João 13:35

(WHO) ἐν τούτῳ γνώσονται πάντες ὅτι ἐμοὶ μαθηταί ἐστε, ἐὰν ἀγάπην ἔχητε ἐν ἀλλήλοις.

(TNM) Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós

(ARA) Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros

(PJFA) Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.

Nesse caso vemos claramente que a referência é definida e que a presença do pronome pessoal reforça tal reconhecimento. Mas, como já disse, não é a presença ou ausência de pronome que define essa força definida, mas a construção sintática PNAPV. Observe outros exemplos:

João 18:37

(WHO) εἶπεν οὖν αὐτῷ ὁ Πιλᾶτος· οὐκοῦν βασιλεὺς ε σύ; ἀπεκρίθη ὁ ᾿Ιησοῦς· σὺ λέγεις ὅτι βασιλεύς εἰμι ἐγώ. ἐγὼ εἰς τοῦτο γεγέννημαι καὶ εἰς τοῦτο ἐλήλυθα εἰς τὸν κόσμον, ἵνα μαρτυρήσω τῇ ἀληθείᾳ. πᾶς ὁ ὢν ἐκ τῆς ἀληθείας ἀκούει μου τῆς φωνῆς.

(TMN) Portanto, Pilatos disse-lhe: “Pois bem, és tu rei?” Jesus respondeu: “Tu mesmo estás dizendo que eu sou rei. Para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que está do lado da verdade escuta a minha voz.”

(ARA) Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz

(PJFA) Perguntou-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.

Nesse caso a construção da primeira setentença em destaque é exatamente igual ao texto de Jo.1.49: Pilatos pergunta se Jesus Cristo é o Rei e ele responde exatamente isso. Pela resposta de Cristo, escrita como PNAPV, entendemos que Ele não se considerava um Rei entre tantos, ou como de qualidade Real, mas como O Rei que Natanael havia encontrado. A força desse diálogo exige esse reconhecimento. (Um exemplo similar, envolvendo um substantivo monádico é visto em João 11.49 e 11.51, onde claramente há força definida para o PNAPV sumo sacerdote).

Esse tipo de situação nos auxilia vislumbrar cores no texto grego que geralmente ficam monocromáticas na tradução. Entretanto, gostaria de apresenta mais um exemplo desse tipo de situação para que o leitor perceba que em alguns casos é possível confundir a força definida, ou até mesmo qualitativa, de um PNAPV acrescendo o sentido indefinido ao texto de modo equivocado, observe:

João 8:44

(WHO) ὑμεῖς ἐκ τοῦ πατρὸς τοῦ διαβόλου ἐστὲ, καὶ τὰς ἐπιθυμίας τοῦ πατρὸς ὑμῶν θέλετε ποιεῖν. ἐκεῖνος ἀνθρωποκτόνος ἦν ἀπ᾿ ἀρχῆς καὶ ἐν τῇ ἀληθείᾳ οὐχ ἔστηκεν, ὅτι οὐκ ἔστιν ἀλήθεια ἐν αὐτῷ· ὅταν λαλῇ τὸ ψεῦδος, ἐκ τῶν ἰδίων λαλεῖ, ὅτι ψεύστης ἐστὶ καὶ ὁ πατὴρ αὐτοῦ.

(TNM) Vós sois de vosso pai, o Diabo, e quereis fazer os desejos de vosso pai. Esse foi um homicida quando começou, e não permaneceu firme na verdade, porque não há nele verdade. Quando fala a mentira, fala segundo a sua própria disposição, porque é um mentiroso e o pai da [mentira]

(ARA) Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira

(PJFA) Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira.

Note que as versões em português optaram pela tradução correlata exceto a TNM. Nesse caso entendo que a opção da TNM é uma violação ao texto e da compreensão da “Regra” de Cowell. Observe a sentença grega com atenção: “ὅτι ψεύστης ἐστὶ καὶ ὁ πατὴρ αὐτοῦ”. Em primeiro lugar quero chamar sua atenção para o posicionamento do verbo em relação aos substantivos: (a) o substantivo ψεύστης é um PNAPV ao passo que (b) πατὴρ é um predicado articulado no nominativo e após o verbo. Esses dois reconhecimentos estabelecem que é bem possível que ambas as sentenças sejam definidas (como João 1.49). Em segundo lugar o texto trata do Diabo, que segundo o texto “quando profere mentira fala do que lhe é próprio”, ou seja, ele é Mentiroso. Essa observação contextual demonstra que o texto claramente o denomina O Mentiroso, como o mais excelente em sua espécie, ou de modo como nenhum outro mentiroso o é, pois ele é O Pai da Mentira. Todas essas designações favorecem o entendimento definido desse PNAPV.

2. Tradução Correlata com Força Qualitativa

É interessante que em alguns casos, a tradução foi correlata, mas o sentido é claramente qualitativo e se tal tradução fosse realizada o sentido das sentenças seria melhor compreendido. Veja o exemplo abaixo:

João 3:4

(WHO) λέγει πρὸς αὐτὸν [ὁ] Νικόδημος· πῶς δύναται ἄνθρωπος γεννηθῆναι γέρων ν; μὴ δύναται εἰς τὴν κοιλίαν τῆς μητρὸς αὐτοῦ δεύτερον εἰσελθεῖν καὶ γεννηθῆναι;

(TNM) Nicodemos disse-lhe: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Será que pode entrar pela segunda vez na madre de sua mãe e nascer?”

(ARA) Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?

(PJFA) Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?

Note que todas as traduções entenderam a ausência de artigo com o substantivo “homem” com indicação de indefinição. Essa conclusão é acertiva na expressão dessa setença. Contudo, note que todas as traduções optaram aqui pela tradução de “γέρων” como velho anartro em protuguês, sendo que o sentido apresentado aqui é claramente “idoso”, já avançado em dias. O sentido qualitativo apresenta nuances nesse verso que enriquecem a compreensão do texto (veja exemplos como esse em Jo.8.34 e 48).

3. Tradução Correlata com Força Correlata

Em outras ocasiões o PNAPV é traduzido do modo correlato e tal tradução parece ser a mais plausível para o texto. Veja alguns exemplos:

João 5:10

(WHO) ἔλεγον οὖν οἱ ᾿Ιουδαῖοι τῷ τεθεραπευμένῳ· σάββατόν ἐστιν· οὐκ ἔξεστί σοι ἆραι τὸν κράβαττόν.

(TNM) Os judeus começaram, por isso, a dizer ao homem curado: “É sábado, e não te é lícito carregar a maca

(ARA) Por isso, disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o leito

(PJFA) Pelo que disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o leito.

Nesse caso, alguns gramáticos tem suposto que a força do texto é qualitativa (sabático), entretanto tal opção não parece compatível com o texto do mesmo modo que não há força indefinda no PNAPV. Por conseguinte, a melhor forma de se compreender esse texto é de modo correlato. Assim, não há demérito ao texto nem promoção de equívocos interpretativos. Exemplos similares a esses podem ser vistos em Jo.9.28; 20.14 e 21.4.

C. Com Tradução Qualitativa

Os casos de PNAPV de força qualitativa são as ocasiões onde tal construção e tradução clarifica o texto grego. Observe dois exemplos:

João 3:6

(WHO) τὸ γεγεννημένον ἐκ τῆς σαρκὸς σάρξ ἐστι, καὶ τὸ γεγεννημένον ἐκ τοῦ Πνεύματος πνεῦμά ἐστι.

(TNM) O que tem nascido da carne é carne, e o que tem nascido do espírito é espírito

(ARA) O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito.

(PJFA) O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.

João 6:63

(WHO) τὸ πνεῦμά ἐστι τὸ ζῳοποιοῦν, ἡ σὰρξ οὐκ ὠφελεῖ οὐδέν· τὰ ῥήματα ἃ ἐγὼ λελῶ ὑμῖν, πνεῦμά ἐστι καὶ ζωή ἐστιν.

(TNM) É o espírito que é vivificante; a carne não é de nenhum proveito. As declarações que eu vos tenho feito são espírito e são vida

(ARA) O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.

(PJFA) O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.

No primeiro exemplo a força é claramente qualitativa: O que é nascido da carne é carnal e o que é nascido do Espírito é espiritual. Essa simples modificação na tradução acresce novas nuances na compreensão do texto. Do mesmo modo que o segundo exemplo.

Observe que Jesus Cristo ensia que o Espírito é o que vivifica. Tal relação entre o Espírito e a Vida é oferecida na primeira sentença que na sequência ele afirmar que suas Palavras são Espirituais e Vivificantes. Essa relação textual nos oferece uma compreensão mais clara do ensino de Jesus Cristo.

D. Com Tradução Indefinida

Nessa seção pretendo transcrever algumas ocasiões em que a TNM ofereceu uma tradução indefinida para PNAPV no Evangelho de João. Isso acontece mais 5 vezes no evangelho de João e nossa intenção é verificar se tal tradução reflete o dilema do PNAPV:

João 10:33

(WHO) ἀπεκρίθησαν αὐτῷ οἱ ᾿Ιουδαῖοι λέγοντες· περὶ καλοῦ ἔργου οὐ λιθάζομέν σε, ἀλλὰ περὶ βλασφημίας, καὶ ὅτι σὺ νθρωπος ν ποιεῖς σεαυτὸν Θεόν.

(TNM) Os judeus responderam-lhe: “Nós te apedrejamos, não por uma obra excelente, mas por blasfêmia, sim, porque tu, embora sejas um homem, te fazes um deus

(ARA) Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia, pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo

(PJFA) Responderam-lhe os judeus: Não é por nenhuma obra boa que vamos apedrejar-te, mas por blasfêmia; e porque, sendo tu homem, te fazes Deus.

Nesse caso temos um claro caso de má tradução do PNAPV. Em primeiro lugar, a ênfase no texto não é o demérito da pessoa de Cristo, como se fosse qualquer um, ou na quantidade de pessoas que ele era: apenas humano. A questão é sua essencia tal como observada pelos fariseus. A força qualitativa desse texto é muito forte e a acusação dos fariseus exige a relação de antagonismo na sentença: “ὅτι σὺ ἄνθρωπος ὢν ποιεῖς σεαυτὸν Θεόν” (tu sendo humano).

Em segundo lugar o uso anartro de θεος nesse texto (que já foi traduzido de modo correlato nas primeiras versões da TNM) é mal compreendido e mal traduzido. A acusação dos fariseus é uma resposta a frase: Eu e o Pai somos um. Ou seja, eles não entendem que essa unidade que Pai e Filho experimentam é uma outra forma de deidade, mas uma identidade com Ela.

Assim, a antagonia da percepção dos fariseus (ele é um humano) e da declaração de Jesus (Eu e o Pai somos um) causou nos fariseus o sentimento de que uma blasfêmia teria sido cometida. Por isso, a tradução indefinida no PNAPV e no uso anartro de θεος é um claro equívoco de tradução. Certamente, tal equívoco não foi inocente, mas maldosamente motivado por Teologia.

João 12:6

(WHO) εἶπε δὲ τοῦτο οὐχ ὅτι περὶ τῶν πτωχῶν ἔμελεν αὐτῷ, ἀλλ᾿ ὅτι κλέπτης ν, καὶ τὸ γλωσσόκομον εἶχε καὶ τὰ βαλλόμενα ἐβάσταζεν.

(TNM) Ele disse isso, porém, não porque estivesse preocupado com os pobres, mas porque era um ladrão e tinha a caixa de dinheiro e costumava retirar dinheiro posto nela

(ARA) Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava

(PJFA) Ora, ele disse isto, não porque tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, subtraía o que nela se lançava.

Novamente, a força qualitativa é confundida com a indefinida. A ênfase não é a profissão, mas a descrição do caráter de alguém que já havia sido chamado de Diabo. Nesse texto o foco não é apresentar Judas como um ladrão entre muitos outros, mas demonstrar o seu mau caráter.

João 12:31

(WHO) νῦν κρίσις ἐστὶ τοῦ κόσμου τούτου, νῦν ὁ ἄρχων τοῦ κόσμου τούτου ἐκβληθήσεται ἔξω.

(TNM) Agora há um julgamento deste mundo; agora será lançado fora o governante deste mundo

(ARA) Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso

(PJFA) Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo.

A teologia de João usa o substantivo κρίσις de modo muito específico. No evangelho de João esse substantivo acontece quatro vezes no nominativo (3.19; 5.30; 8.16 e 12.31) e em todos os casos é entendido definidamente. Note que em duas ocasiões o substantivo κρίσις exerce o papel de sujeito da oração e como esperado vem acompanhado de artigo (5.30; 8.16). Na ocasião de 3.19 vemos que trata-se de um predicado nominativo artro e pós-verbal seguindo a “Regra” descoberta por Cowell. Todos os casos são definido. Sendo assim, entendemos que no contexto de João o substantivo κρίσις é monadico. Ou seja, trata-se de um foco e uma ênfase em todas as ocorrências. Assim, um substantivo monádico em uma construção PNAPV é certamente definido como a PJFA bem observou.

Os únicos casos em que a força indefinida parece estar presente (ainda que muitoa discussão aconteça sobre o assunto) é visto em Jo.4.19 e 9.17:

João 4:19 (cf. 9.17 – situação similar)

(WHO) λέγει αὐτῷ ἡ γυνή· Κύριε, θεωρῶ ὅτι προφήτης ε σύ.

(TNM) A mulher disse-lhe: “Senhor, percebo que és um profeta

(ARA) Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta

(PJFA) Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta.

O verso de Jo.4.19 é considerado por Daniel Wallace como o mais provável caso de PNAPV de força indefinida do NT[16]. Entretanto duas observações devem ser feitas: (1) normalmente a ênfase dos PNAPV está sobre os atributos da definição e não a classe ou categoria do substantivo em definição; (2) a sentença é referente a percepção (θεωρῶ) de uma samaritana.

Com essas duas observações podemos considerar que o sentido definido não é o mais adequado, pois é improvável que essa mulher pudesse o reconhecer como O Profeta de Dt.18. Por outro lado, o modo correlato (em cima do muro nesse caso) também poderia ser uma boa representação para um modo acertivo de tradução desse texto, como a ARA, PJFA, ACF, ARC, BRP. Contudo, a percepção da mulher samaritana sugere que o sentido qualitativo é o favorável aqui. Seria como se ela dissesse (em uma paráfrase livre): Percebo que você tem capacidade profética.

Contudo, tal opção, por mais favorável que possa ser não é definitiva. Ou seja, ainda que o modo acertado de tradução seja reconhecendo a força indefinida do PNAPV de Jo.4.19 temos que admitir que seria o único caso no Evangelho de João.

*      *       *       *

O que podemos dizer dessa breve análise dos usos dos PNAPV no Evangelho de João? Que normalmente a força do PNAPV é definido, correlato ou qualitativo e que de todas as vezes que a TNM traduziu um PNAPV indefinidamente, apenas em um caso isso é provável. Essa informação nos fornece subsídio claro para a compreensão de Jo.1.1c e a tradução indefinida da TNM.

4. Conclusão

O que concluímos até aqui?

  1. Que em situações sintaticamente idênticas as de Jo.1.1c a TNM descarta a possibilidade de tradução indefinida por rejeitar a força indefinida dos PNAPV nesses casos.
  2. Que em situações similares, a vasta maioria de exemplos no Evangelho de João demonstra que o uso normal dos PNAPV é entendido como definido, correlato ou qualitativo.
  3. Que as ocasiões onde a TNM opta por traduzir indefinidamente os PNAPV ela está equivocada em diversas delas.
  4. Que dentre todos os usos de PNAPV do evangelho de João, apenas um caso é provavelmente indefinido, e ainda assim faria referência a voz de um pagão.

Portanto, tendo feito essa análise é seguro inferir que o modo de traduzir Jo.1.1c deve ser qualitativo ou correlato, salvo alguma indicação contextual. Note que a construção de Jo.1.1c é um PNAPV com substantivo θεος no singular. Vale lembrar que esse substantivo no singular é monádico (pois não há outro Deus), ou seja, a tradução qualitativa ou correlata é certamente a tradução correta desse verso.


[1] Muito embora todas as opções não denotem qualquer tipo de Pessoalidade (por elas mesmas), a tradução “A Mensagem” é a que causa mais conflito na mente do falante de português. Por essa razão considero essa opção como remota, embora possível par ao português. Já a pessoalidade do Logos é claramente vista na seqüência do texto, especialmente os versos 3, 14.

[2] E.C. Cowell, A definitive rule for the use of the article em te Greek New Testament. Journal of Biblical Literature, 52 (1933), pp.13.

[3] ROBERTSON, A.T., A Grammar of the New Testament, pp.767.

[4] Cowell cita outros exemplos: Mt.27.11, 24; Mc.15.2; Lc.23.3, 37; Jo.18.33

[5] Mt 16:16; 26:63; Mc 3:11; 15:39; Lc 4:41; 22:70; Jo 11:37; 20:31; At 9:20; 1 Jo 4:15; 5:5

[6] Mt 4:3, 6; 14:33; 27:40, 54; Lc 4:3, 9; Mc 15:39; Jo 10:36.

[7] E.C. Cowell, A definitive rule for the use of the article em te Greek New Testament. Journal of Biblical Literature, 52 (1933), pp.13

[8] Idem, pp.17

[9] Idem, IBID.

[10] Idem, pp.20-1

[11] Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.257

[12] Idem, pp.259.

[13] Dixon, “Anarthrous Predicate Nominative,” 11-12. IN: Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.259.

[14] Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.261.

[15] Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.262

[16] Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.266

11.27.09

A Divindade de Cristo antes de Nicéia

Enviado em Cristianismo, Testemunha de Jeová tagged , , às 11:25 am por Marcelo Berti

Uma das acusações freqüentes entre os defensores da TNM é que Jesus não teria sido considerado Deus antes do Concílio de Nicéia. Em debates na internet essa alegação é comum e alguns chegam a solicitar evidências de que Jesus teria sido chamado Deus antes do terceiro século. É claro que os que fazem tal alegação desconsideram aquelas realizadas já no NT.

Na verdade tal afirmação é uma maldade com Jo.1.1 que claramente afirma que Jesus é Deus. Entretanto, o que querem dizer os defensores da TNM é que o conceito da trindade é apenas observado do terceiro século em diante e que antes disso os documentos sobreviventes escritos pelos Pais da Igreja não teriam falado sobre esse assunto. Mas, ainda assim, essa afirmação corresponde à verdade?

Para os TJs, a doutrina da Divindade de Cristo teria sido postulada oficialmente no Concíclio de Nicéia, que teria deturpado definitivamente o cristianismo primitivo. Segundo eles, Constantino teria organizado o Concílio de Nicéia para resolver se Jesus era Divino ou não. Entretanto, essa conclusão comum não é verdadeira. Bart Ehrman, em uma obra comercial entitulada “Verdade e Ficção em o Código DaVinci”, sobre o Concílio de Nicéia e Constantino afirma:

“Constantino efetivamente convocou o Concílio de Nicéia, e uma das questões a serem tratadas era a divindade de Jesus. Mas não se tratava de um concílio reunido para decidir se Jesus era divino ou não (…) muito pelo contrário: todos os participantes do Concílio – e na realidade praticamente todos os cristãos em qualquer lugar – já estavam de acordo que Jesus era Divino, o Filho de Deus. A questão em debate consistia em saber como entender a divindade de Jesus à luz da circunstância de que também era humano. Além disso, como poderiam Jesus e Deus serem ambos Deus se havia um único Deus? Estas, sim, eram as questões discutidas em Nicéia, e não a de saber se Jesus era divino ou não[1]

O relato de Ehrman como historiador nesse momento é apropriado, até por que estamos ouvindo um agnóstico ex-cristão falando sobre história e não um trinitarista defensor da Divindade de Cristo. Ou seja, fora da fé trinitária, historiadores da Igreja Primitiva reconhecem um fato claro na história do Cristianismo: “antes de Nicéia, cristãos efetivamente já consideravam Jesus divino[2]”.

Uma coisa é afirmar uma sentença como essa, mas há subsídios suficientes para esse historiador defender isso como fato? Em seu livro ele continua por apresentar dois dos mais antigos escritores cristãos: Paulo e João. Segundo ele, Paulo era um defensor da divindade de Cristo e como evidência ele cita Fp.2.5-7, embora pudesse ter usado outros textos. Pouco à frente fala sobre João, e imagina que texto ele opta por demonstrar a concepção de Jesus como Deus em João? Jo.1.1, é claro. Segundo Ehrman:

“Para este autor, já no primeiro século, Jesus Cristo é um ser divino (O Verbo) através do qual Deus criou o mundo, um ser que revelou completamente Deus a Seu povo, pois era ele próprio um ser divino que desceu do céu para fazer-se carne. Por isso que Jesus se coloca em pé de igualdade com Deus nesse evangelho, explicitando em dado momento: ‘Eu e o Pai somos um’ (10.30). E é por isso que seus seguidores nesse evangelho reconhecem sua identidade divina, inclusive no fim de sua história, o cético Tomé, que vê Jesus erguer-se do meio dos mortos e proclama: ‘Meu Senhor e Meu Deus’ (20.28)[3]

Elaine Pagels ao analisar o Evangelho Desconhecido de Tomé, em algumas ocasiões tem que se referir às crenças cristãs pré-nicenas e referente a esse fato ela diz:

João acreditava que Jesus realmente é Deus em forma humana, e conta que o discípulo Tomé finalmente o reconheceu quando o encontrou depois da ressurreição e exclamou: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Num dos primeiros comentários sobre João (de cerca de 240), Orígenes faz questão de dizer que, embora os outros evangelhos qualifiquem Jesus como humano, ‘nenhum falou claramente de sua divindade, como fez João (Comentário de João, 1.6)[4]

É interessante que a autora não diz acreditar na divindade de Cristo, mas afirma que João assim o fazia. Isso é interessante, pois não importa qual é sua opinião pessoal, como historiadora ela entende o que João defendia. Mais interessante ainda é que, na tradução de Jo.1.1 essa historiadora o descreve do seguinte modo: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus[5]” do mesmo modo que Ehrman[6]. Não precisamos dizer que a defesa de ambos é certamente diferente da nossa compreensão Trinitária, mas suas declarações servem com ilustração de um fato que as TJ insistem negar: Jesus era considerado Deus desde o período apostólico.

É interessante pessoas como Ehrman e Pagels possam reconhecer aquilo que os nominados seguidores de Cristo, os TJ, não o conseguem. As evidências nesse sentido são claras, mas ignoradas pelos TJs ou distorcidas pela TNM de modo que qualquer que lê-la jamais poderá chegar a esse reconhecimento sozinho. Contudo, é perturbador para mim que os TJ rejeitem os Pais da Igreja e os Concílios Históricos do modo como o fazem. Eu tenho grande curiosidade em saber a razão pela qual eles mantêm como escritura o NT do mesmo modo como definido nos concílios? Se os concílios são tão maus, qual o critério histórico que eles usam? Ou como associam sua fé com os apóstolos, sem qualquer representante histórico até Charles Taze Russell? Essa rejeição é irracional, mas factual. Triste, mas é verdade.

Contudo tendo a crer que os TJ não podem aceitar os testemunhos dos Pais da Igreja[7] (exceto quando é conveniente[8]), pois os consideram como deturpadores da Fé, como algumas de suas publicações parecem demonstrar. Mas,eles claramente eles estão claramente equivocados.

Por ora vamos esquecer as referências neotestamentárias em referência a Divindade de Cristo (Jo.1.1; 18; 8.58; 10.30; 20.28; At.2.16-36; 2.21[cf. Joel.2.32]; Rm.1.1-4; 9.5; 1Co.8.4-6; Tt.2.11-14; Hb.1.3; 1Jo.1.1-4; 5.20; Ap.1.17-18, etc) e os autores não cristãos falando sobre o período pré-niceno, e vamos considerar a visão dos Pais Apostólicos sobre Jesus..

Segundo Eusébio de Cesaréia, Clementeteria sido Bispo de 92 d.C. à 101 em Roma, e por isso é  tradicionalmente chamado de Clemente de Roma. Segundo a tradição da Igreja ele é chamado de successor de Pedro, embora possa ter sido o segundo ou até o terceiro após ele. Em sua primeira carta, conhecida como 1Clemente, lemos:

“Esta é a maneira, meus queridos amigos, pela qual encontramos nossa salvação, a saber, Jesus Cristo, o sumo sacerdote de nossas ofertas, o guardião e ajudador em nossas fraquezas. Por meio dele, olhamos firmemente para as alturas do céu, por meio dele, vemos como em espelho sua face perfeita e transcendente; por meio dele, os olhos de nosso coração foram aberto; por meio dele nossa mente, o Mestre desejou que provássemos do conhecimento imortal, pois ‘Ele, sendo o resplendor de sua majestade, é muito superior aos anjos, e o nome que herdou é muito mais excelente’ (cf. Hb.1.4)” (1Clem.36.1-2)[9]

A citação que Clemente faz de Hebreus 1.4 reforça a idéia de que esse Pai Apostólico estava pensando em Cristo como o “χαρακτὴρ τῆς ὑποστάσεως αὐτοῦ” (a expressa imagem do seu Ser), expressão que descreve a identidade essencial do Filho com o Pai. Entretanto, alguém pode objetar por dizer que o autor de Hebreus não tinha essa intenção (como os TJs já fazem com o NT), e por isso convido o leitor a ler outra porção de Clemente:

“Irmãos, devemos pensar em Jesus do mesmo modo como pensamos em Deus, como ‘o juiz de vivos e mortos’.” (2Clem.1.1)[10]

A autoridade que é atribuída aqui a Jesus é claramente a autoridade de Deus, o Juiz, e tal verificação de identidade entre Pai e Filho ratifica que Clemente já entendia Cristo como divino. Philip Schaff, quando fala a respeito de Clemende de Roma, também diz:

Clemente é um claro testemunho para as doutrinas da Trindade (“Deus, o Senhor Jesus Cristo, e do Espírito Santo, que são a fé ea esperança dos eleitos“), da dignidade e glória divina de Cristo, a salvação só pelo seu sangue, a necessidade de arrependimento e fé viva, a justificação pela graça, pela santificação do Espírito Santo, a unidade da igreja, e as graças cristãs da humildade, caridade, paciência, paciência e perseverança[11]

É também interessante observar a opinião de Inácio de Antioquia, que teria sido morto por volta de 97 d.C. Em sua Carta aos Efésios, Inácioa afirma:

“Existe um médico, ao mesmo tempo carnal e espiritual, nascido e não-nascido, Deus feito em carne, vida verdadeira na morte, de Maria e de Deus, primeiro submetido ao sofrimento e depois além do sofrimento, Jesus Cristo nosso Senhor[12]

Muito embora tal declaração pareça um pouco complexa, o reconhecimento da divindade de Cristo nesse verso é sem ressalvas. Não é à toa que ele mesmo também escreveu:

“Nosso Deus Jesus, o Cristo, foi concebido por Maria de acordo com o plano de Deus, tanto da semente de Davi quanto do Espírito Santo. Nasceu e foi batizado para que, por meio de seu sofrimento, ele pudesse limpar a água” (Aos Efésios 18.2) – “O reino antigo foi abolido, quando Deus apareceu em forma humana para trazer a novidade da vida eterna; e aquilo que Deus esteve preparando por Deus passou a existir” (Aos Efésios 19.3) – “Continuem a se reunir, todos vocês, coletiva e individualmente por nome, em graça, em uma fé e em um Jesus Cristo, que fisicamente é descendente de Davi, que é Filho do Homem e Filho de Deus” (Aos Efésios 20.2)[13]

Não é à toa que Schaff fala sobre Inácio: “Como ele aparece pessoalmente em suas epístolas, o seu traço mais bonito e venerável é o seu amor incandescente por Cristo como Deus encarnado[14]”. A visão Trinitária de Inácio já nos ambientes mais antigos do Cristianismo é claramente demonstrada nos ensinos dos Pais Apostólicos e ratificada pelos Pais da Igreja. Poucos anos mais tarde, um escritor chamado Justino Mártir, sobre Cristo escreveu:

“Nosso mestre nessas coisas é Jesus Cristo, que também nasceu para esse propósito e foi crucificado debaixo de Pôncio Pilatos, procurador da Judéia, nos tempos de Tibério Césa; nós o adorávamos racionalmente, tendo aprendido que ele mesmo é o Filho do Deus Verdadeiro e considerando-o no segundo lugar, e o Espírito profético no terceiro (1 Apologia 12-13)[15]

Essa declaração de Justino é tão claramente ortodoxa quando as afirmações neotestamentárias sobre a relação de Cristo com Deus-Pai e o Espírito Santo. A questão da ordem e da importância de cada Pessoa da Trindade, claramente equiparada. Contudo, o que me chama mais a atenção é o fato de que tão antigamente já se falasse de adoração a Cristo, como reconhecimento de sua divindade. Os TJs que vivem buscando ocasiões históricas que demonstrem que Cristo foi adorado deveriam cessar aqui sua busca: Diferente do que pensam, antes do terceiro século Jesus já era adorado.

Outro autor que deve ser considerado em nossa breve análise da Divindade de Cristo antes de Nicéia, é certamente Melito de Sardes. Em usa obra Discurso da Cruz ele diz:

“Por causa disso ele veio até nós; por causa disso, embora fosse incorpóreo, ele formou para si mesmo um corpo de acordo com nossa aparência – aparentando ser um cordeiro, embora continuasse a ser o Pastor; considerado um servo, ainda que não tivesse renunciado à sua condição de Filho; sendo carregado no ventre de Maria, embora ainda estivesse dentro da natureza do Pai; caminhando sobre a terra, mais ainda enchendo o céu; aparentando ser uma criança, sem descartar a eternidade de sua natureza; sendo investido de um corpo, sem confinar a genuína simplicidade de sua Trindade; sendo considerado pobre, mas em ter sido destituído de suas riquezas; necesitando de sustento, porquanto era homem, mas sem deixar de alimentar o mundo todo, uma vez que ele é Deus; colocado na forma de servo, sem debilitar a semelhança com seu Pai. Ele sustentou cada traço que lhe pertencia numa natureza imutável: ele estava diante de Pilatos e, ao mesmo tempo, estava sentado com seu Pai, ele foi pregado no madeiro, mas era o Senhor de todas as coisas” (Discurso da Cruz)[16]

Não existem explicações claras das implicações filosóficas da percepção de Melito, mas claramente há o reconhecimento das duas naturezas unidas na mesma pessoa única de Cristo, divina e humana, naturalmente organizada e claramente apresentada. Essa expressão claramente testifica que muito antes de Nicéia, a convicção da Divindade de Cristo era conhecida, afirmada e identificava os cristãos.

Em nossas considerações, não podemos nos esquecer de Tertuliano, aquele que cunhou o termo Trindade pela primeira vez, fato que já no fim do segundo século:

Enquanto o mistério da dispensação está guardado, que distribui a Unidade na Trindade, colocando em ordem as três Pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo: três, entretanto, não em condição, mas em ordem, não em substância, mas em forma, não em poder, mas em aspecto, mas ainda assim um na substância, uma condição, em um poder e acima de tudo Ele é um Deus, e sobre essas formas e aspectos é reconhecido pelo nome de Pai, Filho e Espírito Santo (Contra Práxeas 2)[17]

O que podemos concluir depois de lermos esse textos? Que, se descosiderarmos o NT ainda veremos os ecos dos seus ensinos na boca dos Pais Apóstólicos e dos Pais da Igreja apresentando e defendendo a Divindade de Cristo a ponte de ser ele ainda considerado digno de ser adorado. Portanto, a conclusão dos TJs está mais uma vez equivocada.

 


[1] EHRMAN, Bart, A verdade e a ficção em O Código DaVinci. Pp.41

[2] Idem, pp.42

[3] Idem, pp.44-5.

[4] PAGELS, Elaine, Além de Toda Crença. Pp.45.

[5] Idem, pp.52

[6] EHRMAN, Bart, A verdade e a ficção em O Código DaVinci. Pp.44

[7] Recentemente recebi em minha casa um TJ com uma revista A sentinela. Na página 27 dessa publicação encontra-se um artigo com o seguinte nome: “Os Pais Apostólicos eram mesmo Apostólicos?”. O artigo deveras preconceituoso, já inicia por dizer que “por volta do início do segundo século EC, ensinos falsos tinha começado a poluir as águas cristalinas da verdade cristã” (A Sentinela, 1º. De Julho de 2009, pp.27).

Nesse artigo, que demonstra por excelência o que é induzir leitores a conclusões equivocadas, o autor apresenta erros terríveis sugeridos pelos pais apostólicos: como alterar a ordem da Santa Ceia, passando o Vinho antes do Pão, ou até mesmo sugerindo que em casos de ausência de água os batismos poderiam acontecer por aspersão (pp.28 em Referência ao Didaque). O autor, desonesto por excelência, diz que Inácio cita o evangelho dos Hebreus, mas não oferece qualquer explicação sobre como cita ou o que considerava o evangelho dos Hebreus. Sabe-se por Epifânio que Evangelho dos Hebreus provavelmente era uma versão do Evangelho de Mateus (Heresias, 30.3), o que não era incomum acontecer (ERHMAN, Bart, Evangelhos Perdidos. pp.156).

Esse é mais um daqueles artigos com cara de erudição, mas são erigidos na desinformação com o objetivo de ocultar fatos constrangedores à Teologia Testemunha de Jeová, que é coordenada por uma instituição de poder centralizador e antibíblico (Mt.23.8,9; 1Pe.5.1-3). O resultado não poderia ser mais desastroso.

[8] Veja o uso de Papias no artigo A terra será um Paraíso de Carlos M. Silva em: http://www.mentesbereanas.org/aterra.htm.

[9] BOCK, Darel, Evangelhos Perdidos. Pp.154

[10] Idem, pp.155.

[11] SCHAFF, Philip, History of the Cristian Church, Vol2. Cap.13, 160.

[12] EHRMAN, Bart, A verdade e a ficção em O Código DaVinci. Pp.45.

[13] BOCK, Darel, Evangelhos Perdidos. Pp.156

[14] SCHAFF, Philip, History of the Cristian Church, Vol2. Cap.13, 164

[15] Idem, pp.159.

[16] Idem, pp.160-1

[17] BERTI, Marcelo, Conceituações Teológicas da Trindade. Material não publicado.

11.16.09

Listas de Tradução de Jo.1.1

Enviado em Testemunha de Jeová, Tradução tagged , , , , às 8:58 am por Marcelo Berti

Nesse post transcrevo as diferentes traduções que Testemunhas de Jeová usam para afirmar que a Tradução do Novo Mundo não é a única que traduz Jo.1.1 como “e o verbo era um deus”. Na verdade, nunca afirmei que a TNM era a única que assim vertia, mas é a versão que temos estudado e nela mantemos nosso foco.

Dentre todas as versões que já recebi por e-mail, resolvi organizar entre as que são Paráfrases e aquelas que podem ser consideradas traduções. Para cada grupo, reagrupei em ainda dois subgrupos, os que apóiam a TNM e aquelas que não a apóiam. Para cada tradução, vou fazer alguma observação, para que o leitor possa ter mais subsídios para verificar a veracidade, ou da tradução ou da paráfrase usada.

Nessas listas não farei uso de versões que me foram enviadas em idiomas que não tenho domínio para julgar suas traduções ou paráfrases. Por isso, mantenho-me apenas entre as versões/paráfrases em português, espanhol e inglês.

A lista provém de:

http://traducaodonovomundodefendida.blogspot.com/2009/07/traducao-do-novo-mundo-defendida.html (transcrita por Rubens Dantas)

1. Considerações sobre a tradução de Jo.1.1c

Antes de iniciarmos nossa análise das versões, é preciso dizer, ainda que brevemente, que a tradução de Jo.1.1c é uma ocasião onde apenas três conceituações de tradução são possíveis. Isso acontece em função de que a contrução desse texto é um predicado nominativo (PN) anartro e pré-verbal e nesse caso a tradução pode ser:

  1. Qualitativa: O sentido qualitativo poderia ser bem representado em João 3.6: “ὸ γεγεννημένον ἐκ τῆς σαρκὸς σάρξ ἐστι (lit. carne é), καὶ τὸ γεγεννημένον ἐκ τοῦ Πνεύματος πνεῦμά ἐστι (lit. espírito é).”. Nos dois casos o sentido qualitativo seria uma boa expressão do texto: “Quem nasce da carne é carnal; quem nasce do Espírito é espiritual”. Esse modo de tradução é completamente plausível como modo de tradução de um PN anartro e pré-verbal.
  2. Correlata: A tradução correlata de um PN anartro e pré-verbal é aquele modo de tradução em que a ausência do artigo é vista no original e na tradução. Esse tipo de ocasião é altamente freqüente. D.A. Carson nos informa que “Um predicado nominativo pré-verbal é definido em aproximadamente 87% dos casos no NT[1]”. Esse tipo de tradução pode ser vista em Lucas 7.8: “καὶ γὰρ ἐγὼ νθρωπός εἰμι ὑπὸ ἐξουσίαν τασσόμενος”. A tradução mais acertada não é nem “o homem” ou “um homem”, mas como foi demonstrada na TNM: “homem”.
  3. Indefinida: A tradução indefinida é uma possibilidade quando temos um PN anarto e pré-verbal, mas ainda assim seu uso é raro no NT e normalmente há grande debate sobre seu uso ou viabilidade. Alguns gramáticos sugerem que um caso onde isso pode ocorrer é em 1Tm.6.10: “ῥίζα γὰρ πάντων τῶν κακῶν ἐστιν ἡ φιλαργυρία”. Note que a versão ASV e a NIV usam a expressão de modo indefinido, ao passo que a KJV prefere usá-la definidamente. Em português a ARF e ARC usam definido ao passo que a ARA o faz de modo correlato, como a TNM.

O que temos que dizer após essa breve apresentação é que dos três conceitos apresentados para se traduzir um PN anartro e pré-verbal, duas estão em consoância com a visão trinitária das escrituras: Tanto a correlata quanto a qualitativa são boas opções para a tradução de Jo.1.1 e não contradizem a Trindade, por assim dizer. Afirmar que Cristo tem a mesma natureza que Deus, ou que Ele é divino, do ponto de vista de que só existe um Deus, é assumir que Ele também é Deus.

Em função da confusão que alguns TJs fazem com esse conceito, preciso dizer que os Trinitários não afirmam que Cristo (Logos) é o mesmo que o Deus-Pai, os Sabelianos e Modalistas dizem isso. Nós dizemos que o Pai e o Filho têm a mesma essência e mesma natureza, mas são pessoas diferentes. Por outro lado, não afirmamos que além do Deus-Pai exista outro deus menos chamado Jesus, como os TJs dizem. Por isso, que a correta tradução de Jo.1.1c pode nos auxiliar a resolver o modo como compreendemos a Deus.

Contudo, mais uma observação deve ser feita aqui: A tradução indefinida é antagônica às outras duas. Não é possível que um ser criado (indefinida) seja da mesma natureza (qualitativa) que seu Criador ou Deus (correlata). Segundo as escrituras, nada na criação tem mesma natureza ou essência do Criador, tudo é criado distinto do Criador. Ou seja, se Jesus é criado como um outro deus e lhe é inferior não pode ter a mesma natureza de Deus ou ser Ele mesmo Deus.

Além disso, se Jesus é um deus, ele é mais um deus além de Jeová (Deus-Pai) e essa leitura, se levada a sério, indicará um politeísmo absurdo diante de Dt.6.4: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR[2]”. Bruce Metzger, em uma obra chamada “Theology Today”, diz: “Deve-se declarar com franqueza que, se os Testemunhas de Jeová levarem a sério essa tradução, eles são politeístas[3]”. Essa leitura, além de pouco provável diante da gramática grega, é uma afronta ao todo da revelação das escrituras. Mais uma importante nota deve ser acrescida aqui: “se θεος fosse indefinido em Jo.1.1, seria o único caso de PN anartro e pré-verbal no evangelho de João traduzido indefinidamente[4]”.

Com isso dito, podemos iniciar nossa análise das versões listadas pelos TJs como defensoras da leitura da TNM.

2. Paráfrases

O termo paráfrase provém do latim paraphrăsis que por sua vez provém do grego παράφρασις. Uma paráfrase não é uma tradução, na verdade é uma tentativa de desenvolver um texto com o objetivo de explicá-lo com palavras mais simples. Alguns entendem que as paráfrases podem ser traduções livres, ou seja, não necessariamente correlatas ao texto original, mas uma forma simplificada e explicativa daquilo que se entende do texto original.

Um exemplo de paráfrase das escrituras bem conhecido dos cristãos é a Bíblia Viva. No prefácio dessa obra, os editores se propuseram a definir o que é uma paráfrase e o fizeram nesses termos:

Parafrasear é expresar o pensamento de um autor em palavras mais compreensíveis que aquelas usadas originalmente. Nesta obra tentamos expressar o mais exatamente possível o que os autores queriam dizer, e expressar em palavras fáceis de entender, às vezes extendendo as sentenças para que o leitor moderno as compreenda com toda clareza

Entretanto, é importante se dizer que por mais nobre que seja uma iniciativa de paráfrase, toda paráfrase incorre no risco de dizer o que o autor original não teria dito ou tentado dizer, o que acontece diversas vezes na Bíblia Viva.

Tendo dito isso, tenho que ser honesto com o leitor e dizer que nem todas as versões listadas abaixo foram escritas como a Bíblia Viva o foi: com a intenção de ser paráfrase. Na verdade, as considerei como paráfrase, pois seus tradutores ousaram acrescer mais termos que os que encontramos no original na tentativa de explicar o que ele entende pelo texto original. Em alguns casos o leitor irá perceber que o texto não é de uma tradução, mas de uma explicação ou comentário do autor sobre o texto grego.

Assim, espero que essa categorização o ajude a entender o que significa uma lista tão grande de versões que supostamente suportam a leitura da TNM.

A. Supostamente suportam a leitura da TNM

Algumas versões citadas abaixo parecem suportar a leitura que a TNM opta em Jo.1.1c, entretanto temos que ser claros quanto aos autores de tais versões. Para algumas dessas versões não achei informações confiáveis e por isso apenas transcrevo aqui o que recebi.

Segundo diversas listas TJ de tradução de Jo.1.1 uma tradução apresentada como Schneider, 1978, traduz o texto do seguinte modo: “and godlike sort was the Logos” (de sorte semelhante a Deus[5]). Nesse caso, tenho que admitir que a tradução oferecida não parece compatível com a proposta de Schneider, mas a idéia aqui é demonstrar que o autor dessa tradução inseriu termos para expressar o que ele entende do texto. Portanto, essa é uma paráfrase e nesse caso, se a intenção do autor fosse auferir o modo de tradução qualitativa (divino) tal tradução não é antagônica a visão trinitária do cristianismo.

1. New Simplified Bible

Essa versão é realizada por James Madsen e está totalmente disponível online. É interessante que seu autor opta por acrescer termos entre parêntesis para explicar o que se quis dizer com o termo principal em sua tradução, ou para acrescer uma referência bíblica para o verso traduzido. Esse fenômeno acontece algumas vezes no primeiro capítulo de João e abaixo transcrevo um exemplo disso:

6 God sent a man named John (Malachi 3.1)

7 He came to tell (witness) (testify) about the light and help people have faith

James Madsen conta sua história de busca religiosa e como tornou-se uma Testemunha de Jeová, e no fim desse documento diz que quando o computador ficou mais barato ele comprou um e obteve tantos softwares de Bíblia quando pode comprar para começar a traduzir e escrever essa versão de Bíblia.

Em outras palavras, uma Testemunha de Jeová resolveu traduzir as escrituras. Ou seja, era de se esperar uma tradução que coubesse a Teologia Testemunha de Jeová. Mas, é interssante que sua “Jeovah Version” traduz o texto de modo quase qualitativo.

In the beginning was the Word, and the Word was with God, and the Word was like God

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era como Deus

Essa tradução do modo como está estampada é mais distante do sentido indefinido oferecido pela TNM que da opção correlata da ARA: era como Deus, ou seja, divino. Como Jesus pode ser como Deus (em letra maiúscula) se a TNM defende que Jesus é um outro deus (com letra minúscula)?

2. A Liberal Translation of the New Testament

Essa versão foi realizada por Edward Harwood e considerada como uma paráfrase por ele mesmo. No prefácio dessa obra ele nos oferece seu objetivo em fazer tal empreendimento: “Traduzir os escritores sagrados do Novo Testamento com a mesma liberdade, imparcialidade e elegância com que outras traduções do grego clássico tem sido executadas recentemente, e abrigar as idéias genuínas e doutrinas dos apóstolos com propriedade e perspicácia”.

Não podemos ignorar a credibilidade desse autor, pois antes de empreender esse esforço publicou duas obras de respeito em sua época: An Introduction to the Study and Knowledge of the New Testament (London, 1767) e The New Testament, collated with the most approved manuscripts; with select notes in English, critical and explanatory, and references to those authors who have best illustrated the sacred writings. To which are added, a Catalogue of the principal Editions of the Greek Testament; and a List of the most esteemed Commentators and critics (London,1776).

Bruce Metzger, em um artigo chamado “Theories of the Translation Process” (Bibliotheca Sacra 150:598, PP.140-150) diz que Harwood estava insatisfeito com o que ele chamou de “línguas desnudas e bárbaras da versão antiga e vulgar, ou seja, a Versão Autorizada, em 1768 produziu um Novo Testamento no estilo elevado de Inglês que era corrente entre muitos autores britânicos na segunda metade do século XVIII[6]”. Entretanto, pouco à frente afirma que tal versão é idiossincrática.

Michael Marlowe defende que a paráfrase de Harwood “imita o estilo ornamentado e detalhado da escrita típica da prosa inglesa do século XVIII, e tem sido frequentemente citada como um exemplo notável de mau gosto e tratamento inadequado da Escritura[7]”. Sobre essa versão, de poucos amigos, Richard C. Trench escreveu: “Da Tradução Liberal do Novo Testamento de Harwood (Londres, 1768), e as loucuras dela, não muito longe de ser uma blasfêmia, é desnecessário dar qualquer detalhes[8]”. É válido dizer que Harwood é considerado um unitarista.

Ou seja, é uma paráfrase que como outras suscita adimiradores e pessoas completamente insatisfeitas, dependendo do foco/objetivo que se analisa a obra.

Em Jo.1.1 essa paráfrase verteu:

“e era ele mesmo uma pessoa divina

Sobre a credibilidade do autor e da validade de sua obra, deixo isso nas mãos do leitor para que decida. O que pretendo aqui é observar a viabilidade de tal paráfrase. Uma vez que uma paráfrase está mais ligada ao modo como seu autor entende o texto, podemos dizer que essa paráfrase é possível. A questão se essa paráfrase é digna de representação do texto grego, acredito que não.

Nesse caso entendo que Harwood associou dois modos de tradução que não podem ocorrer ao mesmo tempo: (1) Ele usa o modo indefinido de tradução do famoso PN anartro e pré-verbal de Jo.1.1c: uma pessoa divina; ao mesmo tempo que (2) usa o modo qualitativo: uma pessoa divina. Essa opção “BEM-EM-CIMA-DO-MURO” não representa com exatidão o texto grego. Se os TJs querem usar isso como defesa da TNM, demonstram por fato que gramática grega não é importante para a tradução.

3. Young Literal Translation

Essa versão, também conhecida como YLT, foi produzida por Robert Young. Trata-se de uma versão muito literal que pretende manter os tempos verbais e as palavras usadas no texto original. Essa versão foi publicada em 1862 e revisada em 1887 e republicada após a morte de Young em 1889.

Segundo o prefácio dessa obra Young diz: “Se a tradução dá um tempo presente, quando o original dá um passado, um passado ou quando se tem um presente, um perfeito para um futuro, ou um futuro para um perfeito (…) é evidente que a inspiração verbal é tão esquecido como se não tivesse existência. A PALAVRA DE DEUS É ANULADA PELO TRADIÇÕES DOS HOMENS”.

O zelo pela tradução bíblica que Young demonstra aqui merece nosso respeito. Aliás, é digno de passagem que sua versão não verte o texto como algumas vezes os TJs pensam. Em sua tradução lemos Jo1.1. do seguinte modo: “In the beginning was the Word, and the Word was with God, and the Word was God” (No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus). Como essa versão é pública na internet o leitor fará bem se visitá-lo para ver com os próprios olhos (YLT Jo.1.1 – NOTE A LETRA MAIÚSCULA PARA DEUS).

É interessante que os TJs usem essa versão ou esse acadêmico para justificar suas leituras. É bem verdade que normalmente os TJs dizem que foi na obra “Concise commentary on the holy Bible” que Young defende uma tradução indefinida. Entretanto, na página 54 dessa obra você encontrará o texto que Young comenta: “the Word was God”. Em suas notas Young sempre apresenta a forma literal do texto (haja visto que escreveu uma versão bíblica desse modo), e em Jo.1.1c diz: “mais literalmente e um Deus (i.e. Ser Divino) era o Verbo, ou seja, ele estava em existência e era reconhecido como tal” (Note que Young nesse texto usa a mesma sequência do texto grego e letra maiúscula para Deus – Será que ele defende o que os TJs defendem? Duvido).

É válido lembrar que ao traduzir literalemente “um Deus” Young deixa uma nota explicativa de que entente essa expressão qualitativamente: Ser Divino. É ainda mais importante notar que ele faz uso do letra D em maiúsculo ao se referir ao Logos. Ou seja, essa versão e esse comentário não suportam a TNM, trata-se de mais uma falácia TJ.

4. Citação do Jesuita John L. McKenzie

Mckenzie é outro acadêmico mal citado. Os TJs ao citarem McKenzie fora de contexto e apenas uma parte de seu artigo, fica a sensação de que ele ensina que o Verbo (Jesus) é menor do que o Deus, porque ele disse que Jo.1.1 “deve ser rigorosamente traduzido. . . ‘e a palavra era um ser divino“.

Robert M. Bowman sobre isso diz: “McKenzie também afirma que Jesus é chamado de “Deus” em ambos João 20:28 e Tito 2:13 e que João 1:1-18 expressa “uma identidade entre Deus e Jesus Cristo.; Essas palavras de McKenzie realmente argumentam contra a posição da Watchtower[9]”. É importante dizer que ele também cita João 20.28 e Colossences 2.9 como exemplos de que Jesus é chamado “ὁ Θεός” (o Deus) ou plenamente Deus.

Outro detalhe que merece nossa atenção é que Mckenzie chama o Deus-Pai (Jeová) de Ser Divino em referência ao monoteísmo judaico. Ou seja, na mente de Mckenzie ele não entende o texto como os TJs o entendem, na verdade ele se opõe à essa compreensão.

*       *        *       *       *

O que podemos dizer até aqui é que as traduções oferecidas não favorecem a leitura da TNM, nem mesmo a tradução de James Madsen, um TJ. Já a má tradução de Harwood poderia ser usada, mas isso mais fomenta a falta de credibilidade da TNM do que a suporta.

Vamos ver outras versões usadas para defender a TNM que não defendem nem de longe.

B. Não suportam a leitura da TNM

Chamo sua atenção agora para o fato de que algumas das traduções usadas pelos TJs para defenderema TNM são tão trinitárias que deveriam envergonhar aqueles que as usam em defesa da TMN.

A verdade é que a tradução qualitativa está exposta em todas as versões abaixo, exceto em duas traduções que veremos mais à frente. Eu tenho a impressão que os TJs acreditam que os trinitários só aceitam um modo de tradução: a correlata como se fosse definida. Mas, isso não é verdade. Vamos analisar outros exemplos aqui:

1. Simple English Bible (International Bible Translators – Extreme New Testament)

Essa obra foi publicada em 1980 e traduzida por Stanley Morris que se limitou a usar 3000 palavras no vocabulário dessa obra e a transcrevê-la mais do modo mais cotidiano possível. Como toda paráfrase, foi criticada e sua credibilidade como tradução foi questionada. Charles Holt, no periódico The Examiner (Vol.3, no.5) excreveu um artigo chamado Recommended: The Simple English Bible (NT” e nesse artigo disse que Morris “é um estudioso altamente reconhecidos em grego, hebraico e no trabalho de tradução, e é o princípal tradutor da Bíblia[10]”. Segundo o mesmo autor, essa é uma versão de fácil leitura e compreensão.

Não é à toa que pouco tempo depois tal versão tenha sido reeditada e reorganizada por mais de 1500 pessoas em processo de tradução e essa versão tornou-se uma Bíblia para o público jovem, atualmente conhecida como “Extreme New Testament”, que teria sido escrita como se o inglês tivesse sido a língua original. Projeto ousado e cheio de críticas, mas útil em seu propósito: oferecer aos jovens uma leitura simples e fácil.

Essa versão verteu Jo.1.1c do seguinte modo:

“e a mensagem era deidade

Essa versão traz duas novidade para nós até aqui: (1) a tradução de Logos como Mensagem. Essa é uma tradução possível para o termo, que também poderia ser traduzido por palavra, razão. Isso não é nem um pouco equivocado, mas pode levar ao equívoco se não bem explicada. (2) Ela traduz a sentença qualitativamente, entretanto não usa a palavra divindade, mas deidade. Ambas oferecem o mesmo sentido, mas deidade (aos meus olhos) parece mais adequada, uma vez que a palavra divino é tão banalizada em nossos dias. Bom, de qualquer forma, essa versão, escrita por trinitários e para trinitários não é unicista nem unitarista como os TJs gostariam que fosse.

É interessante que na lista que os TJs oferecem eles colocam a Simple English Bible e a International Bible Translators NT (IBT) como se fossem duas Bíblias o que não são. Na verdade, a IBT é a Extreme New Testament, ou seja, as duas evidências contam como uma só, até por que ambas mantém a mesma leitura.

Esse é um triste exemplo de que para um TJ o número de versões é importante para seu argumento. Ou seja, se conseguirem muitas versões para agrupar poderão argumentar que se eles estão errados todos os outros estão. Se você tiver paciência, visite um artigo no Teologando chamado Tradução Comparada de 1Jo.1.1-3 e você mesmo verá um professor de Grego e Hebraico fazendo exatamente esse argumento. Esse tipo de argumento costumo chamar de argumento do Escudo e da Ilusão. Por um lado, se escondem atrás de um escudo cheio de versões, por outro lado causam a ilusão de que estão falando a verdade. Na verdade, é só fumaça e vapor, um monte de nada sobre nada.

2. New English Bible – Revised Bible English

Em meados de 1946 a Igreja da Escócia sugeriu que a Assembléia Geral das Igrejas da Inglaterra produzisse uma nova versão em iglês, uma vez que consideravam a Versão Autorizada como arcaica e que dificultava a compreensão do leitor contemporâneo deles. Ao reconhecer a necessidade de uma nova tradução a Assembléia Geral convocou representantes das diversas Igrejas cristãs da Grã-Betanha (Batista, Anglicana, Congregacional, Metodista e outros conselhos eclesiásticos) para dirigirem e coordenarem o processo de tradução. A tradução foi realizada em três diferentes contextos: Velho Testamento, Novo Testamento e Apócrifos sendo ainda fiscalizado por outro grupo de verificação literária para o inglês. Segundo Michael Marlowe o coordenador geral desse empreendimento foi C.H. Dood acompanhado por diversos outros estudiosos em suas áreas de atuação[11].

Essa tradução nunca foi incorporada em larga escala entre os leitores do inglês e algumas de suas opções de traduções a fizeram ser rejeitadas em ambientes mais conservadores, apesar de ser considerada uma boa opção de tradução em diversos ambientes acadêmicos. Para os interessados em mais informações sobre essa versão, ver a crítica de F.F. Bruce, T.S. Eliot, Henry Gifford e C.L. Wrenn.

Essa versão verteu Jo.1.1 do seguinte modo:

“When all things began, the Word already was. The Word dwelt with God, and what God was, the Word was

“Quando tudo começou, o Verbo já era. O Word habitou com Deus, e o que Deus era o Verbo era”.

A opção de acrescer a expressão “habitou” na segunda sentença é provavelmente para oferecer um paralelo com Jo.1.14: “So the Word became flesh; he came to dwell among us” (O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós).

Já a opção “o que Deus era o Verbo era” não é uma tradução, por assim dizer, mas uma explicação do sentido compreendido por seus tradutores. É essa opção uma má opção? Certamente não. Outra versão das escrituras conhecida como NET Bible (New English Translation) embora usem outra forma para traduzir o texto, em uma nota de tradução, o editores fazem a seguinte observação:

Traduções como a NEB, REB, e Moffatt são úteis para captar o sentido de João 1:1 c, que o Verbo era totalmente divindade em sua essência (assim como Deus, tanto quanto Deus, o Pai). No entanto, no Inglês contemporâneo “o Verbo era divino” (Moffatt) não captura completamente o sentido, já que “divino” como um termo descritivo não é usado em Inglês contemporâneo exclusivamente de Deus. A tradução “o que Deus era o Verbo era” talvez seja a tradução mais acertiva, transmitindo a idéia de que tudo o que Deus era em sua essência, o Verbo também era. Isso aponta para a unidade de essência entre o Pai eo Filho, sem igualar as pessoas.

É interessante notar que nessa nota os trinitários editores reconheceram que a tradução na NEB representa uma boa tradução. Então, por que não a adotaram? Segundo eles, os leitores modernos do inglês poderiam compreendê-lo de modo inadequado. É interessante, pois é exatamente o que acontece com as listas TJs de versões não trinitárias. Para eles essa versão é uma afronta a trindade. Quão equivocados estão!

Mais uma nota deve ser dita aqui: Aquele argumento do Escudo e da Ilusão acontece aqui mais uma vez: Nas listas TJ de versões não trinitárias eles separam a NEB da REB, que é a versão revisada da anterior. Note que os editores da NET Bible as identificam como duas versões, mas reconhecem que trazem a mesma leitura. Por essa razão aqui consideraremos na mesma seção. Para mais informações sobre a REB veja os comentários de Michael Marlowe, do site Innvista e Classic THIS LAMP.

3. Translator’s NT

F.F. Bruce afirma que essa é uma versão “mais especializada e que honoráveis tributos devem ser pagos” a ela. Segundo o mesmo autor ela poi pruduzida por um time de 35 especialistas sob a supervisãodo Professor W.D. MacHardy e foi preparada para auxiliar tradutores do NT a verterem para outros idiomas. Ou seja, essa versão serviu para ser uma ponte entre o Grego e outros idiomas para os quais o NT seria vertido, por essa razão foi chamado de Translator`s NT. O texto grego usado para produzir essa versão foi o UBS Greek New Testament.

Essa versão verte Jo.1.1c do seguinte modo:

“The Word was with God and shared his nature

E o Verbo estava com Deus e partilhava sua natureza

Excelente modo de expressar o uso qualitativo dessa frase. Mais uma vez uma versão trinitária. Deve ser realmente triste para um TJ perceber que seu argumento de Escudo e Ilusão está se tornando tiro no pé e fumaça.

4. Barclay`s New Testament

Esta versão foi produzida por William Barclay, professor de Teologia e crítica bíblica na Universidade de Glasgow e está dividida em dois volumes: (1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos; (2) As cartas eo Apocalipse.

Barclay teve dois objetivos ao fazer essa tradução. (1) tentar fazer o Novo Testamento inteligível para o homem que não é um estudioso técnico e (2) fazer uma tradução que não precisa de um comentário para explicar isso.

Para suprir o segundo objetivo de sua obra, Barclay oferece às vezes uma paráfrase ou comentários em vez de uma tradução legítima, resultando em uma tradução que é, em certa medida interpretativa. Essa é a maior crítica a essa tradução, pois normalmente essas adaptações do texto representam um ponto de vista pessoal e não uma representação legítima do texto.

Observe que é exatamente isso que ele faz em Jo.1.1-3

When the world began, the Word was already there. The Word was with God, and the nature of the Word was the same as the nature of God. The Word was there in the beginning with God. It was through the agency of the Word that everything else came into being. Without the Word not one single thing came into being

Quando o mundo começou, o Verbo já existia. O Verbo estava com Deus e a natureza do Verbo era a mesma que a natureza de Deus. O Verbo estava lá no princípio com Deus. Foi através da agência do Verbo que tudo veio a existir. Sem o Verbo nem uma única coisa que veio a existir.

Contudo, note que a tradução aqui reflete o uso qualitativo mais uma vez: Mesma natureza entre o Logos e Deus, certamente não é esse o sentido auferido pela TNM que considera o logos uma divindade à parte do Pai. Como já disse, nada à parte do Pai tem sua natureza. Em outras palavras, mais uma versão que não anda com a TNM.

5. Philip Harner, no artigo “Qualitative Anarthrous Predicate Nouns: Mark 15:39 and John 1:1

Esse é um caso claro de que não trata-se de uma versão das escrituras, mas um comentário sobre um texto das escrituras. Nesse artigo considerei a tradução oferecida nas listas TJs de versões não trinitárias como uma paráfrase pelo fato de ser uma nota explicativa do autor e não uma tradução.

Philip Harner é mais um dos acadêmicos mal citados pela Sociedade Torre da Vigia. Na publicação “Should you believe in the Trinity?” (Deve-se Crer na Trindade?) como se defendesse a opinião da TNM. Infelizmente esse não é o caso.

Uma das citações de Harner que nunca são encontradas nas listas de defesa da TNM, ou das publicações da STV, é uma encontrada no mesmo artigo de onde os TJs usam como fonte para defender a TNM. Nesse artigo Harner disse sobre Jo.1.1c: “Em termos da análise que propusemos, um reconhecimento da importância qualitativa de theos iria remover alguma ambiguidade na interpretação através da diferenciação entre theos, como a natureza que o Logos compartilhada com Deus, e o ho theos como a “pessoa”, com quem o Logos se relacionava. Só quando essa distinção é clara é que podemos dizer do Logos que “ele era Deus”.

No artigo de Harner usado pela STV, vamos encontrar que o objetivo de Harner é antagônico ao apresentado na publicação “Should you believe in the Trinity?” (Deve-se Crer na Trindade?). Essa falta de caráter da STV por citar fora de contexto e retirando do texto afirmações inconvenientes à teologia TJ e fazendo com que um autor pareça dizer o que não diz deveria envergonhar um TJs devoto. Por que a STV usou de tamanho logro para defender a teologia TJ? Por que usar da mentira para defender suas opiniões? Infelizmente diante de Deus, duas mentiras não fazem uma verdade. Aliás, nem todas as mentiras podem fazer uma verdade.

Para que isso fique evidente, pretendo abaixo transcrever algumas declarações de Harner desse artigo para que fique evidente o logro da STV:

Talvez a cláusula pudesse ser traduzida, “o Verbo tinha a mesma natureza de Deus” Esta seria uma forma de representar o pensamento de João, que é, como eu entendo, que ho logos, é nada menos que ho theos , tinha a natureza de theos

Bruce Vawter explica o significado da cláusula de forma sucinta e lúcida: “A Palavra é divina, mas ele não é tudo da divindade, pois ele já foi distinguida de uma outra pessoa divina. [B. Vawter, O Evangelho segundo João (CMO; Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1968) 422.] Mas, em termos de nossa análise, é importante que nós compreendamos a frase “o Verbo é divino”, como uma tentativa de representar o significado da cláusula B em vez de D ou E. Indubitavelmente Vawter significa que a palavra é “divina” no mesmo sentido em que ho theos é divino. Mas o idioma Inglês não é tão versátil neste momento como o grego, e nós podemos evitar mal-entendidos a frase Inglês somente se nós estamos cientes da força especial da expressão grega que representa.

“A explicação de Rudolf Bultmann da cláusula também reflete uma apreciação qualitativa da força de theos especificamente sem reconhecê-la como tal. A cláusula significa em primeiro lugar, sugere ele, que o Logos é equiparado (gleicbgesetzt) com Deus, “er Gott war.” [R. Bultmann, Dai Evangelium der Johannes (Meyer 2; G6ttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1968) 16.] Bultmann entende por isso que não devemos pensar em termos de dois seres divinos, no sentido politeísta ou gnósticos. [Bultmann, Johannes, 16-17.] Assim, ele protege contra a cláusula de assimilar B para D ou E. Mas ele explica ainda que esta equação entre os dois não é uma simples identificação (Identifikation einfache), porque o Logos era pros ton Theon. [Bultmann, Johannes, 17.]”

Essas citações são suficientes para demonstrar o logro da STV suportados pelos seguidores TJs em suas listas de versões não trinitárias. Espero que o leitor razoável desse artigo possa perceber a fragilidade dos argumentes TJs com suas listas de versões e que o auxilie a perceber a maldade da STV em esconder a verdade em citações fora de contexto.

3. Traduções

Quando classifiquei as versões aliastadas pelos TJs, selecionei aquelas que podem ser consideradas traduções, mesmo quando as traduções oferecidas não são compatíveis com aquilo que acredito ser uma tradução consistente com Jo.1.1. Assim, com essa classificação não intenciono defender que a versão da TNM é uma tradução aceitável, muito embora algumas das versões listadas parecem entendê-la como plausível. Abaixo transcrevo essas versões.

A. Supostamente suportam a leitura da TNM

Do mesmo modo com o que aconteceu com as paráfrases, em algumas delas não encontrei informações sobre determindas versões. Isso aconteceu com duas:

  1. James L. Tomanec, 1958, [T]he Word was a God” um deus
  2. Thompson, 1829, “o Logos era um deus”

Ambas parecem consoantes com a TNM.

1. Willian Newcome e Thomas Belsham

A obra que os TJs tem em mente quando falam da versão de Newcome é “An Attempt toward revising our English Translation of the Greek Scriptures, or the New Covenant of Jesus Christ; and toward illustrating the sense by philological and explanatory notes”. Essa versão representa a primeira versão de Bíblia em ingles a usar o texto crítico de Griesbach de 1774.

David Norton, no livro A history of the English Bible as literature, diz que Newcome “foi o mais bem sucedido que todos (…) em formular princípios de revisão aceitáveis[12]”. Do mesmo modo que muitos antes dele estavam insatisfeitos com as antigas versões inglesas, Newcome desenvolveu princípios de revisão que orientaram sua obra. Norton também nos informa que um dos princípios que Newcome defendia para a tradução de um texto era o seguinte: “O tradutor deve expressar cada palavra no original por meio de uma tradução literal onde o idioma inglês permitir; onde não, não apenas a pureza, mas perspicácia e dignidade de expressão devem ser preservadas

Nas listas TJs de versões não trinitárias, a versão de Newcome é contada entre aquelas que traduzem Jo.1.1c como “e o Verbo era um Deus” e esse parece um equívofrequente. Na verdade, a versão de Newcome diz que o “Verbo era Deus” como KJV. Na verdade a versão que os TJs citam é a versão realizada por Thomas Belsham conhecida como The New Testament, An improved version upon the basis of Archbishop Newcome’s new translation with a corrected text and notes critical and explanatory.

Um proeminete líder unitarista chamado Joseph Priestly tentou publicar uma nova versão inglesa baseada no texto crítico de Griesbach, mas acabou morrendo um ano antes da consolidação desse projeto por Thomas Belsham, que produziu essa versão “melhorada” do texto de Newcome. Na introdução dessa versão “melhorada” seus editores fazem a seguinte observação sobre a versão de Newcome:

Em Justiça ao Arcebispo [Newcome], eles colocaram as palavras de sua tradução na parte inferior da página de onde eles derivaram a Versão Melhorada; e onde foi necessário, uma pequena nota foi feita, apresentando motivos da alteração

É por essa ração que na página 200 dessa obra lemos o texto com a versão Unitarista “e o Verbo era um deus”, mas com a nota de rodapé dizendo o seguinte:

e o Verbo era um deus – ‘era Deus’ – Newcome. Jesus recebeu a comissão como o profeta do Mais Alto, e recebeu poderes miraculosos extraordinários. Mas, na fraseologia judaica, eles chamavam deus aqueles a quem a palavra de Deus veio

Note que em justiça a Newcome eles transcreveram sua opção de tradução: “e o Verbo era Deus” Isso é importante ser notado, pois nas listas TJs Newcome tem sido profanado. Os editores também ousaram acrescer comentários para defender a opção unitarista e citam Crellius (de quem não temos mais informações) que suspeitava que o original deveria ser deuses, e considera tal suspeita como plausível mas sem autoridade.

2. Abner Kneeland

Abner Knneeland, também conhecido como pregador blasfemo, ou como o último homem nos Estados Unidos a ser preso por heresia. Na ocasião ficou sessenta dias na cadeia por ultrapassar a Liberdade de Expressão ao escrever no Jornal Boston Investigator dois artigos que geraram grande polêmica: (1) Universalists believe in a god which I do not (Universalistas acreditam em um deus que eu não acredito) e (2) Universalists believe in Christ, which I do not (Universalistas acredita em Cristo, que eu não acredito).

Um processo de ceticismo aconteceu na vida de Kneeland, que passou de pastor para universalista e para um último estágio que ele definiu com não ateu, mas panteísta. Em suas próprias palavras: “Deus e a natureza são a mesma coisa, por isso não sou um ateu, mas sou um pateísta”.

Esse é o homem por trás da sua própria versão do Novo Testamento. Para ele, Deus era “nada mais que uma quimera[13] da imaginação deles”, os universalisatas. Agora, faz mais sentido um pateísta dizer que o Verbo era um deus que um Unitarista. Se os TJs tem interesse apoiar sua tradução na de Kneeland, fica a critério deles. A mim não parece nada prudente.

3. Leicester Ambrose Sawyer

A versão de Leicester Ambrose é a “The New Testament, translated from the Original Greek, with Chronological Arrangement of the Sacred Books, and Improved Divisions of Chapters and Verses by Leicester Ambrose Sawyer”. Sawyer foi pastor Presbiteriano por muitos anos, e deicou-se a estudar as escrituras de modo aprofundado e a conhecer os idiomas originais. Entretanto, aous poucos abandou a doutrina da Inspiração das Escrituras. Depois disso tornou-se pastor da Igreja Congregacional e durante e sse período dedicou-se a escrever diversos livros. Posteriormente formou-se em direito e chegou a ser juiz. Entre as diversas obras que publicou, ficou conhecido por sua versão do Novo Testamento, que atualmente consta em diversas listas TJs de versões não trinitárias.

As listas TJs de versões não trinitárias dizem que leicester Ambrose teria traduzido Jo.1.1c como “e o Verbo era um deus” com artigo indefinido e letra minúscula para Deus. Entretanto, sugiro que o leitor procure esse livro, que é disponível gratuitamente na internet (veja aqui, e aqui), e abra na página 159. Para a supresa dos TJs ele traduz o texto: “e o Verbo era Deus”, contrariando o que os TJs afirmam sobre ele.

Esse é mais um exemplo de desonestidade para defender a infundada fé TJ.

4.  Antonios N. Jannaris

Jannaris era Grego, de Creta, professor de Grego Pós-Clássico e Moderno e autor do livro An Historical Greek Grammar and Lecturer on Post-Classical and other Greek dialects at the University of St. Andrews, Scotland. É provavelmente dessa obra que os TJs retiram a informação de que Jannaris traduziu Jo.1.1c indefinidamente.

Na verdade a tradução de Jannaris é de fato “e o Verbo era um deus”, entretanto essa tradução não suporta a visão da STV ou dos TJs em geral. Como isso seria possível?

Se o leitor tiver acesso ao artigo “St. John`s Gospel and the Logos” terá a supresa de descobrir que Jannaris defende que o termo gr. “Logos” (Verbo, Palavra) não faz referência a Jesus Cristo. Ele defende que João não usou o termo em referência a Jesus por que o termo nunca teria sido usado de modo pessoal antes. Na mente de Jannaris, o “logos” era na verdade a palavra de Deus falada em Gênesis 1. Nas palavras de Jannaris:

O termo logos refere-se ao bem conhecido enunciado ou spruch com os quais o mundo começou; a bem conhecida expressão oracular que Deus fez nEle mesmo e com a qual fez de modo instrumental na criação, é naturalmente representada como o poder criativo, um criador, ou seja, um deus, onde Deus e Criador são sinônimos[14].

A posição de Jannaris nunca foi adotada com afinco. Normalmente os acadêmicos tendem a rejeitar suas opções com relação ao uso do termo Logos, muito embora fosse proeficiente na língua que traduzia. Assim, é importante dizer que, por mais que a tradução de Jannaris graficamente seja idêntica a da TNM ela não suporta a leitura da TNM. Ou seja, mais uma vez, temos um acadêmico mal citado.

*       *        *       *       *

O que vemos até aqui é que a cada observação a lista TJ de versões não trinitárias de Jo.1.1 diminui, e somente as versões Unitaristas, e produzidas por hereges é que tem sobrevivido. Em poucas palavras o que podemos dizer disso é que a tentativa de se esconder atrás de um escudo tão pequeno e frágil não foi uma boa alternativa para defender a TNM, e que o logro e a desonestidade acadêmica performadas pelos TJs e pela STV são apenas uma tentativa de defender uma fé que não pode estar diante da verdade das escrituras.

B. Não suportam a leitura da TNM

As versões que vamos apresentar abaixo, em geral usam o modo qualitativo de tradução de Jo.1.1c e por isso não sustenta a leitura da TNM, como já tenho explicado. Como já aconteceu, para algumas dessas versões não consegui obter informações e aqui as transcrevo para apreciação dos leitores:

  1. William Temple, Archbishop of York, 1933, “e a palavra era divina”
  2. Ervin Edward Stringfellow (Prof. of NT Language and Literature/Drake University, 1943, “And the Word was Divine” (E a palavra era divina)
  3. Maximilian Zerwich S.J./Mary Grosvenor, 1974, “The Word was divine” era divina
  4. Ernest Findlay Scott “[A]nd the Word was of divine nature” de natureza divina

1. Earnest Haenchen: English translation of Haenchen’s commentary on John by Robert W. Funk

A primeira informação que devemos deixar aqui é que essa obra é uma obra realizada por um autor e ampliada em comentários por outro. Earnest Haechen é o pai da obra, mas foi Robert Funk que a adornou.

Como de costume da STV, uma de suas publicações[15] cita Haechen inadequadamente. Na verdade, essa publicação seleciona trechos da obra Das Johannesevangelium os picota para fazer frente às necessidades de defesa da versão TNM ou da agenda teológica da STV.

Os TJs, em suas infindáveis listas de versões não trinitárias, dizem que Haechen traduz Jo.1.1c como “In the beginning was the Logos, and the Logos was with God, and divine [of the category divinity] was the Logos” (No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus e divino [da categoria da divindade] era o Logos). Na verdade, essa informação está correta, mas não corresponde ao todo da verdade.

Contudo, por um momento vamos considerar tal tradução: Ela é ariana? De modo nenhum! Note que o autor equivale o Logos com a Divindade, o que na mente dos trinitários significa que Ele é coigual com Deus-Pai. O modo de tradução qualitativo é claramente preferido aqui, e se levado a sério, é um modo de tradução trinitária.

Tendo observado isso, devemos atentar para o fato de que para a STV Haechen parece defender as credenciais arianas dos TJs, entretanto o autor jamais teria adotado essa visão da Cristologia do Novo Testamento. Por retirar da citação informações importantes, a STV condiciona os TJs a pensarem que Haechen defende a TNM. Na mesma seção, Haechen diz o seguinte a respeito do Logos:

existe antes da criação e não fora criado; Ele partilha a supremacia de todas as distinções com Deus, o Pai, e Ele mesmo, o Logos é eterno

Os TJs se apóiam no fato de que Haechen ter dito que provavelmente o monoteísmo judaico optasse por ler Jo.1.1c como divino, como se fosse um ser divino à parte do Pai e não idêntico com Ele. Nas palavras Haechen, explicando esse fato diz: “não é uma questão de relacionamento dialético de dois em um, mas um relacionamento de duas entidades”.

De fato, Haechen disse isso, mas terminou essa mesma frase de um modo bem interessante: “e essa união pessoal corresponde a rejeição da igreja ao Patripassionismo”. Essa clausula é omitida do periódico da STV, pois completa a frase ela se opõe ao que querem os TJs. O Patripassionismo é uma forma de modalismo que defende que só há um Deus, e que Ele revela-se em modos diferentes como Deus, como Filho e como o Espírito Santo. É chamada Patripassionismo, pois em outras palavras defendem que o Pai morreu na Cruz (pater = Pai; passion= sofrimento; Patripassionismo).

Sobre a visão judaica da fé e a visão cristã, Haechen também acresce: “Mas, não há qualquer rivalidade entre o Logos como divino ou como Deus; a nova fé (cristã) não conflita com a fé monoteísta. Isso fica claro no verso 1c: ‘e divino (em essência) era o Logos’”. Em outras palavras, ele defende a divindade de Cristo e sua tradução, se vista como um todo, defende a fé trinitário contra heresias modalistas (Sabelianas) e arianas (TJ).

2. George William Horner

Como citar de modo equivocado, picotar informações, e impedir que a verdade seja percebida, mais uma vez as lista de verões não trinitárias são malfadas mai uma vez. Nessas listas eles incluem com freqüência George Willian Horner como autor de uma tradução que é compatível com a TNM.

Os TJs dizem que sua versão traduz Jo.1.1c como “e o Verbo era [um] Deus”. E isso é verdade, mas eles não dizem o que Horner traduz. A verdade sobre essa citação (fora de contexto e incompleta como de costume) provém da obra The Coptic Version of the New Testament in Southern dialect, otherwise called Sahidic and Thebaic. Ou seja, Horner está traduzindo a versão copta saídica e não o texto grego.

Ao que não são familirizados com essa obra sugiro que leiam o artigo “O que dizer da versão copta saídica?” para verificar mais uma das falácias TJ. Em poucas palavras o que podemos dizer aqui é que a versão copta saídica, diferente de todas as outras versões, acresce o artigo indefinido na sentença de Jo.1.1c como a TNM. Entretanto, diferente da TNM, acresce artigo definido e nomina sacra para o Logos em Jo.1.18 defendendo a divindade do Logos.

Quando observamos esse interessante detalhe nos perguntamos como para uma mesma tradução o Logos pode ser um deus e O Deus ao mesmo tempo? A resposta é encontrada na gramática copta que usa o artigo indefinido de modo qualitativo. Ou seja, de modo interessante é bem provável que essa versão defenda o uso qualitativo da versão grega que dispomos.

Mas, vamos voltar à tradução de Horner. Os TJs dizem que ele traduz “e o Verbo era [um] Deus” como se ele apoiasse a TNM, entretanto isso não é toda a verdade. Em nota à tradução acrescentou: “Os colchetes implicam em palavras usadas pelo copta, mas não requeridas pelo inglês” (HORNER, pp.376) (cf. Jo.1.33 e3.6 na tradução de Horner representam usos qualitativos).

Ou seja, esse é mais um exemplo de logro e fraude TJ, que por mais que a tradução pareça suportar a TNM, não o faz em nenhum momento.

3. James Moffatt

Em 1913, James Moffatt publicou o “The New Testament: A New Translation in Modern Speech, by James Moffatt”, baseado no texto critic de von Soden. Nesse period Moffatt era professor de Grego e Exegese do Novo Testamento no Mansfield College em Oxford. Sua versão do NT foi tão bem aceita, espcialemente ndas Igrejas mais liberais, que a produção do AT foi encarada com uma necessidade.

Apesar ter linguagem coloquial e rápida aceitação, essa versão também foi considerada muito controversa em diversos aspectos: (1) Moffatt no prefácio de sua obra deixou claro sua visão a respeito da veracidade das escrituras; (2) o texto grego que Moffat usou, o texto crítico de Hermann Von Sodden, sempre foi considerado um texto ecêntrico e adaptado. Moffatt adotou diversas das adaptações de Sodden, mesmo quando não tinha qualquer fundamentação manuscrita.; (3) a tradução de Moffatt foi embebida com diversas de suas interpretações teológicas e em algumas ocasiões chegou a levantar sérios adversores. Um dos exemplos clássicos disso é que ele reorganizou o evangelho de João, colocando o capítulo 14 após o 14 e 16. Em função de todas essas idiciocracias, alguns teólogos chegaram a considerar sua versão do NT como uma paráfrase.

Por que os TJs gostam tanto de citar a versão e o trabalho de Moffat? Por que em algumas ocasiões, Moffatt apresenta posições similares a eles. Por exemplo, em Jo.8.58 a tradução da TNM é muito parecida com a de Moffatt (Eu tenho existido antes de Abraão nascer). O texto grego que Moffatt traduz favorece a leitura da TNM em 1Tm.3.16 (Ele que foi feito carne). Entretanto, temos que ser conscientes que em Jo.1.1c ele não favorece a leitura da TNM, pois ele traduz:

“o Logos era Divino”

Como já tenho dito, a tradução qualitativa é uma excelente forma de traduzir o PN anartro e pré-verbal em Jo.1.1c e não minimiza em nada a verdade sobre o Logos como divino. Ou seja, embora Moffatt possa contar em outras listas de defesa da TNM, não o faz aqui em Jo.1.1c.

4. Robert Harvey

Provavelmente a referência que fazem os TJs ao trabalho de Harvey provém do livro “The Historic Jesus in the New Testament”. Se esse é o caso, na página 187 Harvey atesta a seguinte tradução auferida pelos TJs:

“and the Logos was divine (a divine being)”

“e o Logos era divino (um ser divino)”

Quando lemos apenas essa parte do trabalho de Harvey, também ficamos com a impressão que ele se posiciona como a STV e a TNM. Note que seu comentário para o uso qualitativo “divino” como tradução de Jo.1.1c nos faz pensar que ele entende o Logos como uma entidade a parte de Deus, embora ainda fosse divino. Mas, será essa a opinião de Harvey?

Pouco à frente ele também atesta:

Toda a história da vida de Jesus é recontada e reinterpretada como a manifestação temporal do Logos Eterno (…) O Verbo Eterno é plenamente e finalmente encontrado na pessoa de Jesus Cristo e suas palavras são sinais da Presença Divina” (PP.187).

Note que a Presença Divina a que se refere Harvey é uma referência a Deus e não à uma terceira espécie de Deus. Eventualmente poderíamos pensar que em Jo.1.1c Harvey conceituasse o Logos com um outro Deus pela breve e picotada que os TJs fazem dela, mas considerando o contexto de onde saiu essa informações, compreendemos mais um logro da lista.

Na página 189, Harvey deixa claro o que pensa a respeito do Logos e sobre ele diz:

As palavras ‘Eu sou’ são colocas nos ditos de Deus. ‘Antes de Abraão existir, eu sou’ e é óbvio que isso éuma referência ao Deus de Moisés na sarça ardente. Como o Logos, a Palavra Divina, Jesus naturalmente o é

Em outras palavras, o Verbo Divino, o Logos Eterno é o Verbo que estava com Deus desde o princípio. Ou seja, não é aquele que a TNM quer vender com sua tradução indefinida e malfadada.

5 . Hugh J. Schonfield

Hugh J. Schonfiel foi um acadêmico Britânico especializado em Novo Testamento e considerava-se um Judeu Nazareno, que significa que ele entendia que Jesus era Messias Judeu prometido nas escrituras Hebraicas. Em 1958 Schonfield lançou sua versão do NT conhecida como The Autentic New Testament (ANT), uma versão do NT não produzida para a Igreja. Dessa forma ele evitou usar termos que, segundo ele, representassem uma eclesiologia avançada. Por realizar esse trabalho mais como historiador preocupado com o Jesus histórico, do que como um teólogo preocupado com a doutrina, reorganizou o NT em parágrafos e não em versículos.

Uma das credenciais de Schonfield é que Cristo, como conhecido pelo Cristianismo, não é na verdade o Cristo revelado pelas escrituras. Para Schonfield, Jesus era consciente de sua obra messiânica e que teria realizado todo esforço possível para cumpri-la à risca e que ele nunca intencionou criar uma nova religião, mas cumprir a Aliança de Deus com o povo hebreu.

Essa distoção criada pelo Cristianismo, que se distanciou da mensagem original de Cristo (na opinião dele), ocorreu por diversos motivos, mas especialmente por causa do Saulo de Tarso (apóstolo Paulo) a quem Schonfield considerava um doente mental.

No ANT ele traduziu Jo.1.1c do seguinte modo:

“the Word was divine “ a palavra era divina”

6. J. Edgard Goodspeed

Em 1923, Edgard Goodspeed lançava pela University of Chicago Press (UCP) sua nova tradução do Novo Testamento conhecida como An American Translation, que posteriormente ganhou sua versão do AT (1927), da Bíblia toda (1931), dos livros apócrifos (1938) e da Bíblia com os livros apócrifos (1939).

A tradução do NT de Goodspeed foi concebida por Guy M. Crippen, editor da UCP que o havia ouvido falar sobre as deficiências das traduções de Moffatt e Weymounth. Posteriormente Goodspeed foi convidado por Crippen a traduzir e publicar um novo Novo Testamento.

Goodspeed foi um acadêmico que dedicou-se a escrever para o público leigo e diversas de suas obras foram destinadas a esse público, incluindo sua versão do Novo Testamento. Por isso, o prefácio de sua obra inicia com a seguinte sentença:

O Novo Testamento não foi escrito no grego clásssico, nem no grego bíblico da versão grega do Antigo Testamento, nem no grego literário do seu tempo, mas na linguagem comum do dia-a-dia (…) Por isso, segue-se que a forma mais apropriada para o Novo Testamento é simples, direta nas expressões diárias do Inglês.

Em um NT que tinha essas características, Goodspeed traduziu do seguinte modo Jo.1.1c

“a palavra era divina”

Mais uma vez o uso qualitavo usado para descrever o PN anartro e pré-verbal, ou seja, mais uma vez uma tradução que não suporta a TNM.

7. Charles Cutley Torrey

O último tradutor que vamos observar é Charles Cutley Torrey. Na verdade, quando observei a lista oferecida pelos TJs, vi apenas o nome Torrey e logo pensei que fosse A.R. Torrey, o que faria dessa citação um grande equívoco. Entretanto, os TJs estão falando de C.C. Torrey, conhecido como um historiador, arqueólogo, cujo trabalho apresentou evidências manuscritras que suportavam visões alternativas sobre o cristianismo e o islamismo. É o fundador da American School of Archaeology em Jerusalém.

Torrey estudou em Bowdoin (Maine) College e no Andover Theologycal Seminary e lecionou linguas semitas nas universidades de Andover e Yale. Também publicou o livro The Composition and Historical Value of Ezra-Nehemiah que ofereceu um olhar crítico e reorganizador dos livros de Esdras e Neemias. Também defendeu que Isaías 34-35 e 40-60 referem-se a um Segundo Isaías datados cerca de 400 a.C. e que Ezequiel na verdade é uma revisão de um texto pseudo epigráfico do terceiro século. Também traduziu os evangelho do aramaico na obra Orinal Aramaic Gospels (1912), além das obras Our Translate Gospels (1936) e The Four Gospel: A New Translation (1933).

Na lista TJ que recebi, eles alegam que Torrey teria traduzido Jo.1.1c como “a palavra era deus” com d minúsculo. Entretanto, não ofereceram a que obra essa tradução se refere. Contudo, como a última versão citada é diposponível na Internet, sugiro que o leitor veja com os próprios olhos que essa lista está equivocada novamente. Torrey nessa obra diz:

“e o Verbo era Deus”

Se a referência é à essa obra, infelizmente, os TJs estão equivocados novamente. Se for frente às outras duas, temos que lembrá-los que Torrey estaria a traduzir outro idioma e não o grego. Como nossa pergunta aqui é como o grego deve ser traduzido, Torrey não auxilia os Tjs em nada.

4. Conclusão

Qual é o veredito que auferismo quando observamos essa lista de versões?

1. Que a grande maioria não defende a leitura da TNM;

É importante lembrar que essas listas são usadas aos montes em debates na internet para assustar leitores desapercebidos. Eles usam essa lista como fundamento para o seguinte argumento: Se a TNM está errada, todas essas também estão? Para isso respondemos: Todas as versões que traduzem indefinidamente Jo.1.1c estão equivocadas tanto quanto a TNM. Mas, o mais importante é que essa lista em grande parte não sustenta, defende ou apóia a TNM, e apresentar essa lista é um tiro no pé.

2. Que a grande maioria dos autores dessas versões não defende a leitura da TNM;

Após analisarmos as citações e versões, descobrimos que, embora a lista tenha diversos nomes e versões, a grande maioria deles não defende a TNM. Quando analisamos um comentário sobre a tradução, como o de Newcome, Young, descobrimos que houve desonestidade na apresentação das suas opiniões: Eles se opõe ao que afirmam os TJs e a TNM.

3. Que a grande maioria é mal citada, citada em partes ou adulterada (Heachen, Horner, Jannaris, Sawyer, Newcome, Harner, Mckenzie) para defender a TNM

Nós também observamos que a STV e os TJs citam de modo propositadamente equivocado ao trabalho de Harner e Horner, que são autores trinitários em defesa da tradução qualitativa ou definida de Jo.1.1c. Também vimos que citaram apenas parte do trabalho de Jannaris para que deixasse a impressão de que ele defenderia a TNM. Também observamos que adulteraram as opiniões de Newcome, Mckenzie e Heachen. Se a fraude é a forma que os TJs querem defender a fé, isso é um problema deles, mas não podemos nos associar a esse tipo de desonestidade.

4. Que muitas das versões que os TJs afirmam que suportam a TNM na verdade não apóiam e são contrárias a ela (Haenchen, Torrey, Goodspeed, Schonfield, Harvey, Moffatt, Scott, Sawyer, Harner, Barclay, Translator’s NT, NEB, REB, Young)

Se a intenção dos TJs era nos surpreender com uma lista tão grande eles alcançaram seu objetivo. Estamos supresos com a quantidade de fraude necessária para defender a TNM.

5. Que algumas das versões que parecem suportar a leitura da TNM (Horner; Jannaris) se analisadas adequadamente não suportam;

Já tenho dito que desonestidade é o fundamento da argumentação das listas. Citar Jannaris ainda é um pouco plausível, mesmo que o façam dizer o que não disse. Mas, Horner é uma atrocidade. Vamos reconhecer a possibilidade de que o TJ que montou essa lista não sabia que Horner não traduzia o grego. Ainda assim, o apelo à ignorância da falta de pesquisa nos faz reconsiderar a credibilidade acadêmica de quem defende uma lista malfadada como essa.

6. Que algumas das versões que suportam a TNM são desconhecidas (William Temple, Ervin Edward, Maximilian Zerw, James L. Tomanec, Thompson);

Desculpem-me a ignorância, mas não encontrei informações seguras sobre essas versões, e ainda assim, pela tradução oferecida a algumas delas (Temple, Edward e Zerw) nem suportam a TNM. A versão Thompson, se é a famosa versão de Thompson, o que não tenho certeza, certamente é antagônica a TNM, mas não posso saber a que versão ou citação os TJs fazem referência aqui.

7. Que algumas das versões que suportam a TNM são produzidas ou por hereges (Kneeland) ou por outros unitaristas (Madsen, Belsham, Harwood)

É interessante o apelo a hereges que os TJs tem ao defender a TNM. Além de Graeber, o espírita tradutor instruído por um espírito a traduzir (note que ele tem sumido das listas de versões não trinitárias) os Tjs resolveram se apoiar em Kneeland, um ex-universalista (já herege) e panteísta. Eu teria vergonha de defender a verdade com a mentira, mas os TJs precisam de números em suas listas e uma vez que Kneeland não é muito conhecido, ele poderia fazer número nessa lista. Outro detalhe importante é que a lista tem três autores unitaristas e dois deles ainda não são tão fiéis a TNM. Apenas Belsham, que é um adulterador das escrituras, é que é compatível com a TNM.

8. Que essa lista é uma fuga para evitar conversas sobre a gramática grega (que a grande maioria dos TJs são incapazes de assumir)

Um fato interessante sobre um TJ de médio porte de informação sobre gramática grega que se aventura a criticar todo mundo em fóruns e blogs pela internet, quando precisam falar sobre a tradução de Jo.1.1c logo dão CRTL+C, CRTL+V nessas listas e postam na intenção de provocar fumaça e se esconder atrás de questões que não tem condições de avaliar. A verdade é que a grande maioria dos TJs que se dão ao trabalho de defender a TNM não tem credenciais acadêmicas para falar sobre grego. Já vi supostos professores de grego e hebraico confundirem usos simples de preposição, casos de substantivos e tempos verbais, o que demonstra que não são tão habilitados em grego como querem se apresentar. Bom, o que acontece quando eles não tem como argumentar, eles usam a listinha para fugir de um debate que não tem condições de levar adiante. É verdade que a grande maioria dos trinitários também não tem credencial em línguas originais, mas diferente dos TJs não dependem da tradução produzida por sua própria organização para defender a própria fé.

9. Que apenas um ato desesperado de defender uma fé infundada montaria uma lista tão fraudulenta como essa para se esconder atrás das mentiras que ela oferece.

Não preciso dizer muito sobre isso, apenas que deve ser o desespero que montou essa lista e a ignorância que a mantém nas listas de blogs e fóruns intenert à fora. Se um TJ pesquisasse de verdade essa lista, deveria ter vergonha de ver seus amigos TJs fazendo uso dela.

10. Que apenas a fé cega poderia abraçar essa lista como ferramenta de defesa de uma fé infundada.

Fé cega, aquela não habilitada a pesquisa, que não pode encontrar a verdade fora da STV, que condena todos os acadêmicos que discordam da STV e que se acham os únicos verdadeiros salvos. No meu blog você pode encontrar um TJ que apresenta seu ódio contra um texto simples que escrevi sobre 1Jo.1.1-3 me chamando de desonesto, desinformador e dizendo que tinha ódio dos TJ por que eles são os verdadeiros luzeiros de Deus nesse mundo. Só a fé cega pode ter uma visão tão elevada de si mesmo.

11. Que apenas pessoas cegadas por convicções teológicas manterão essa lista depois de analisá-la.

Isso é um fato importante. Se um TJ analisar essa lista adequadamente e a manter, é por que é um desinformador desonesto. Quando falo sobre analisar, não estou dizendo que minha análise é final, ou que minha análise irá mudar o modo como o TJ entende essas versões, mas que se ele mesmo se der ao trabalho de percorrer o caminho da pesquisa e descobrir a verdade sobre essa lista e a manter é por que é cego e desonesto.

12. Que é necessária a desonestidade e falta de caráter para deturpar tantos acadêmicos e versões desse modo para defender a fé.

Se essa lista foi montada com consciência da verdade sobre elas, seu autor é uma fraude e não digno de confiança, pois é mentiroso e deturpador. Se, por outro lado, foi montada na ignorância dos fatos sobre essas versões, seu autor é cego e sem credibilidade acadêmica, pois não se deu ao trabalho de pesquisar. Se a segunda opção é a verdadeira, tal autor não está preocupado com a verdade, mas com a quantidade de versões que pode usar em um fórum ou blog para parecer conhecedor de um assunto que pela lista que usa demonstra que não conhece verdadeiramente.

13. Que é necessária o intelecto corrompido para usar essa lista como defesa de uma tradução

Do mesmo modo, se há conhecimento da verdade sobre as versões, e ainda assim usa-se tal lista fraudulenta, é necessário intelecto corrompido. Por outro lado, se é apenas ignorância, há falta de pesquisa o que prova ignorância (no sentido de falta de informação).

14. Que tal lista não ajuda em nada o dilema de tradução de Jo.1.1

Esse é o ponto fundamental. TJs acreditam que se puderem confundir pessoas com a tradução de Jo.1.1c com uma enorme lista ficará evidente que eles estão certos. Mas, isso não é verdade. Esse ato não valida o modo de tradução da TNM. Aliás, se todas as versões suportassem a leitura da TNM ainda assim ficaríamos no mesmo lugar, pois isso não diz que tal tradução é correta, apenas que outras pessoas a fizeram. A questão não respondida é: Por que a tradução indefinida é correta enquanto todas as outras que são qualitativas ou correltas estão erradas? Essa lista não ajuda em nada, é apenas um pequeno e frágil escudo para se esconder atrás de uma questão que não consegue responder; e ilusão, para dar a impressão de que tem autoridade acadêmica e pesquisa, mas não passa de uma frágil ilusão.

15. Que perdi meu tempo analisando uma lista que não resolve nenhum problema de tradução de Jo.1.1 enquando conversava com um TJ que achava estar se defendendo com essa lista fraudulenta.

Eis um fato inegociável: Perdi meu tempo. Fui analisar uma lista que supostamente defendia a TNM e descobri que na sua grande maioria não o faz. Descobri também que tal lista não auxilia em nada a tradução de Jo.1.1c, aliás, só apresenta outras traduções de outras pessoas. Também descobri que o fundamento dessa lista é a fraude, mas ainda assim não entendi por que a TNM traduz do modo como traduz. PERDI TEMPO, aprendi pouco, mas espero que essa pesquisa seja útil para TJs abrirem os olhos cegos e para que outros cristãos possam usá-la em blogs e fóruns internet à fora.

Na verdade, com essa breve análise, espero poupar tempo de outros cristãos para que usem o recurso mais usado por TJ na internet: CRTL+C, CRTL+V para auxiliar TJs a perceberem a infelicidade de se assumir uma lista como essa.

<:: VAMOS USAR O FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO::>


[1] CARSON, D.A., A exegese e suas falácias. pp.80-1

[2] TNM: “Escuta, ó Israel: Jeová, nosso Deus, é um só Jeová” – Nem precisamos dizer que tal tradução é tendenciosa, precisamos!?

[3] Bruce Metzger, Theology Today – Jehovah`s Witnesses and Jesus Christ, pp.75

[4] Paul Stephen Dixon, “The Significance of the Anarthrous Predicate Nominative in John” (Th.M. thesis, Dallas Theological Seminary, 1975). IN: Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.267

[5] Minha preferência de tradução para essa expressão seria: “de tipo semelhante a Deus”.

[6] Bruce Metzger, Theories of the Translation Process” (Bibliotheca Sacra 150:598, PP.140-150)

[7] Michael Marlowe, Harwood’s “Liberal Translationof the New Testament” 1768.

[8] On the Authorized Version of the New Testament, in Connexion with Some Recent Proposals for its Revision (2nd ed. London: John W. Parker and Son, 1859), p. 57. IN: Michael Marlowe, Harwood’s “Liberal Translationof the New Testament” 1768.

[9] Ron Rhodes Reasoning from the Scriptures with the Jehovah’s Witnesses p.103-104

[10] Charles Holt, Recommended: The Simple English Bible (NT) – The Examiner (Vol.3, no.5).

[11] Michael Marlowe, The New English Bible.

[12] David Norton, A history of the English Bible as literature. Pp259-260.

[13] Uma referência a um ser mitológico que soltava fogo pelas narinas comumente representado com a cabeça de um leão, corpo de bode e rapo de serpente. Uma provocativa analogia para aqueles que acreditam em Deus.

[14] Antonios N. Jannaris, John`s Gospel and the Logos, pp.21.

[15] Watchtower Magazine, Dezembro 15, 1985, p 25.

11.10.09

Ausência de artigo no Grego Koine

Enviado em Testemunha de Jeová tagged , às 3:06 pm por Marcelo Berti

Nesse artigo vamos tratar da ausência do artigo grego no Novo Testamento. Sua compreensão é essencial para o correto entendimento da sentença grega em João 1.1: “᾿Εν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”. Se bem observado, João não usou o artigo em todas as ocasiões no verso citado, e na terceira sentença podemos perceber que o substantivo Θεὸς veio desacompanhado de artigo. Que implicações podemos retirar desse fato?

A razão de estudarmos a ausência de artigo no grego koiné, é avaliar se a tradução oferecida pela Tradução do Novo Mundo (TNM) está correta. A alegação comum para os TJ`s é que o fato de que o termo Deus na terceira sentença, por não vir acompanhado de artigo (anartro), deve ser entendido como uma declaração iniciada por um artigo indefinido na tradução. Assim, a TNM verte o texto desse modo: “No princípio era o Verbo, o e Verbo estava com Deus e o Verbo era um deus”.

Para conhecer os usos anartros de Θεὸς, sugirou que o leitor leia o artigo O uso anartro de Θεὸς no Novo Testamento, onde observamos diversos usos neotestamentários e suas implicações.

O obejtivo do nosso estudo é verificar se a defesa TJ para a TNM é correta: Será que a ausência de um artigo definido acompanhando um substantivo exige o artigo indefinido na tradução para o português? Nosso artigo visa responder a essa pergunta ao analisar os possíveis usos que a ausência de artigo pode desempenhar no grego koine e verificar se sua ausência sempre implica em uma tradução com o acréscimo de um artigo indefinido.

1. Conceituando o artigo indefinido grego

O que se tem por certo e claro para os estudantes do grego, é que o grego Koiné não possue o artigo indefinido como o português. A.T. Robertson sobre o artigo indefinido diz: “O Sanscrito e o Latin não tem artigo, como o grego não tem artigo indefinido”. Essa característica em si não é uma deficiência na linguagem, mas um exemplo de desenvolvimento tardio do idioma, uma vez que o mesmo autor nos lembra que “nem memos o grego moderno tem o artigo da línguas Teutônicas e Romanas desenvolveram, usando eventualmente εἰς ou τίς com um pouco mais de força que o Inglês um(a) [1]”. Um claro exemplo disso no NT pode ser visto nos seguintes versos:

Lucas 22.50

(GNT) καὶ ἐπάταξεν εἷς τις ἐξ αὐτῶν τὸν δοῦλον τοῦ ἀρχιερέως καὶ ἀφεῖλεν αὐτοῦ τὸ οὖς τὸ δεξιόν

(TNM) E um certo deles até mesmo golpeou o escravo do sumo sacerdote e lhe tirou a orelha direita.

A indefinição do texto é clara: um dentre eles, qualquer um deles golpeou o servo do sumo sacerdote. A ênfase nesse aspecto do texto é exatamente apresentar um relato indefinido, e para tanto o autor usa a expressão “εἷς τις” (lit. um alguém). Outro exemplo que pode acrescer a observação desse princípio apresentado por Robertson encontra-se em Mt.8.19:

Mateus 8.19

(GNT) Καὶ προσελθὼν εἶς γραμματεὺς εἶπεν αὐτῷ· διδάσκαλε, ἀκολουθήσω σοι ὅπου ἐὰν ἀπέρχῃ

(TNM) E certo escriba aproximou-se e disse-lhe: “Instrutor, eu te seguirei para onde quer que fores.”

É interessante notar que nesse caso a TNM demonstrou dificuldades ao traduzir a expressão com “εἷς”. A expressão “εἶς γραμματεὺς” tem duas possibilidades de tradução aqui: (1) ou numéricamente, onde “εἶς” funcionaria com um numeral; (2) ou idefinidademente, onde “εἶς” funcionaria como um artigo indefinido. Isso significa que a tradução “certo escriba” soa mais definido do que o texto grego parece sugerir, mas ainda preserva um pouco do sentido auferido na frase. A ausência da partícula indefinida na tradução, nesse caso, não faz qualquer diferença para o texto, e esse fenômeno não é incomum no NT. Contudo, é importante lembrar que em alguns casos a ênfase do argumento repousa sobre o uso numeral de “εἶς”, veja: “Por que fala este homem dessa maneira? Ele está blasfemando. Quem pode perdoar pecados senão um só, Deus?” (Mc.2.7).

Com isso demonstrado, fica evidente para o leitor que no que refere-se ao artigo indefinido, o grego koiné não o define como em outros idiomas. É por essa razão que eventualmente alguns pensam que a simples ausência de um artigo definido no texto grego implique em uma setença indefinida na tradução. Entretanto, esse fato não é verdadeiro e há diversas demonstrações desse fato no Novo Testamento (cf. O uso anartro de Θεὸς no Novo Testamento).

A verdade a respeito da ausência de artigo no grego neotestamentário é que, ora pode exigir o artigo indefinido na tradução, ora não. Ou seja, via de regra, a ausência de artigo no grego deve ser analisada pelo tradutor, pois “sem artigo, um substantivo pode ser ou não ser indefinido, dependendo do contexto[2]”. Por exemplo, em At.28.6 o contexto permite o uso de um artigo indefinido com o substantivo Θεὸς, ao passo que em 1Co.8.4 isso não acontece. Por essa razão, o leitor fará bem se puder observar abaixo algumas características que a ausência de artigo imprime no NT.

2. A questão da ausência de artigo

A questão da ausência de artigo tem algumas características que merecem nossa atenção: (1) a ausência em si não é uma demonstração de indefinição; (2) a conceituação depende do contexto; (3) existem características que podem ou não exigir um artigo indefinido na tradução de uma sentença anartra.

De fato, sobre a ausência do artigo definido, devemos observar três características básicas: a referência, a função e o uso de preposições. Se, essas três características forem obsevadas o leitor terá capacidade para distinguir a necessidade de inclusão ou não de um artigo indefinido na traducão de uma setença anartra.

A. A questão da referência

Uma das características que nos auxiliam a compreender o modo de tradução de uma sentença ou expressão anartra é a referência que tal ausência faz. Ou seja, quando trata-se de nomes próprios, o grego koiné não exije o artigo indefinido, ou seja, ele não é obrigatório.

Situações similares podem acontecer quando trata-se de títulos de livros, ou sentenças iniciais dos mesmos; quando refere-se a números ordinais e a palavras abstratas. Abaixo observamos com um pouco mais de detalhes cada um desses caso.

1. Nomes Próprios

Atos 19:13

(GNT) ἐπεχείρησαν δέ τινες ἀπὸ τῶν περιερχομένων ᾿Ιουδαίων ἐξορκιστῶν ὀνομάζειν ἐπὶ τοὺς ἔχοντας τὰ πνεύματα τὰ πονηρὰ τὸ ὄνομα τοῦ Κυρίου ᾿Ιησοῦ λέγοντες· ὁρκίζομεν ὑμᾶς τὸν ᾿Ιησοῦν ὃν Παῦλος κηρύσσει.

(TNM) Mas, certos dos judeus itinerantes, que praticavam a expulsão dos demônios, também empreenderam usar por nome o nome do Senhor Jesus para com os que tinham espíritos iníquos, dizendo: “Eu vos advirto solenemente por Jesus, a quem Paulo prega..

Observe nesse texto que dois fenômenos interessantes acontencem: (1) o nome de Jesus é acompanhado por artigo, mais não faz diferença no discruso. Ainda que essa sentença fosse traduzida como “por o Jesus”, ou “pelo Jesus” a sentença não faria diferença. O argumento do autor mantem-se do mesmo modo; (2) Entretanto, o fenômeno contrário acontece com o nome de Paulo. Sabe-se de que Paulo se fala no texto, mas não o entendemos como “o Paulo”, embora saibamos qual deles é descrito aqui. Esse é o caso onde a falta de artigo certamente não implica em uma indefinição. Caso similar acontece nos textos citados abaixo

Mateus 2:7

(GNT) Τότε Ηρῴδης, λάθρᾳ καλέσας τοὺς μάγους ἠκρίβωσε παρ᾿ αὐτῶν τὸν χρόνον τοῦ φαινομένου ἀστέρος,

(TNM) Herodes convocou, então, secretamente os astrólogos e averiguou deles cuidadosamente o tempo do aparecimento da estrela;

1Coríntios 9:6

(GNT) ἢ μόνος ἐγὼ καὶ Βαρνάβας οὐκ ἔχομεν ἐξουσίαν τοῦ μὴ ἐργάζεσθαι;

(TNM) Ou é somente Barnabé e eu que não temos autoridade para nos abster de trabalho [secular]?

Colossenses 4:10

(GNT) ᾿Ασπάζεται ὑμᾶς ᾿Αρίσταρχος ὁ συναιχμάλωτός μου, καὶ Μᾶρκος ὁ ἀνεψιὸς Βαρναβᾶ, περὶ οὗ ἐλάβετε ἐντολάς· ἐὰν ἔλθῃ πρὸς ὑμᾶς, δέξασθε αὐτόν,

(TNM) Aristarco, meu companheiro de cativeiro, manda-vos os seus cumprimentos, e assim também Marcos, primo de Barnabé, (a respeito de quem recebestes mandado para o acolher, se for ter convosco,)

É bem observável que em referência a nomes próprio, o artigo não é necessário, muito embora pudesse acompanhá-los em algumas ocasiões. Observe:

Atos 13:43

(GNT) λυθείσης δὲ τῆς συναγωγῆς, ἠκολούθησαν πολλοὶ τῶν ᾿Ιουδαίων καὶ τῶν σεβομένων προσηλύτων τῷ Παύλῳ καὶ τῷ Βαρνάβᾳ, οἵτινες προσλαλοῦντες αὐτοῖς ἔπειθον αὐτοὺς προσμένειν τῇ χάριτι τοῦ Θεοῦ.

(TNM) Assim, depois de se dissolver a reunião da sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos que adoravam [a Deus] seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falando com eles, começaram a instar com eles para que continuassem na benignidade imerecida de Deus

Com isso entendemos que para o grego o artigo não é essencial para a referência a nomes próprios, pois vimos que ora estão presentes, ora não.

2. Títulos de Livro

De modo similar ao que acontece com os nomes próprios, títulos de livros também não exigem artigos definidos. Observe dois exemplos abaixo:

Marcos 1:1

(GNT) ᾿Αρχὴ τοῦ εὐαγγελίου ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, Υἱοῦ τοῦ Θεοῦ.

(TMN) [O] princípio das boas novas a respeito de Jesus Cristo:

Apocalipse 1:1

(GNT) ᾿Αποκάλυψις ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ἣν ἔδωκεν αὐτῷ ὁ Θεός, δεῖξαι τοῖς δούλοις αὐτοῦ ἃ δεῖ γενέσθαι ἐν τάχει, καὶ ἐσήμανεν ἀποστείλας διὰ τοῦ ἀγγέλου αὐτοῦ τῷ δούλῳ αὐτοῦ ᾿Ιωάννῃ,

(TNM) Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu, para mostrar aos seus escravos as coisas que têm de ocorrer em breve. E ele enviou o seu anjo e [a] apresentou por intermédio dele em sinais ao seu escravo João.

No primeiro exemplo vemos que a TNM acresce ao texto um artigo definido no início da sentença em uma ocasião em que ele não está presente no texto grego nem é necessário na tradução. É bem verdade que não faz qualquer diferença no texto, mas serve como exemplo de que a ausência do artigo pode trazer dificuldades na tradução de um texto.

No segundo exemplo vemos o caso da ausência de artigo correspondente nos dois idiomas: Não trata-se d[a] revelação, como se fosse a única nesse patamar, ou uma revelação como se fosse qualquer; mas trata-se da revelação de Jesus (específica, mas não única), como aquela que tem tal autoridade quanto todas as outras revelações que já teria apresentado. É interessante notar, todavia, que várias versões inglesas acrescentem o artigo definido (ASV, KJV, NIV).

Esses dois casos são exemplos suficientes para demonstrar que a ausência de artigo no texto grego pode trazer diferenças de tradução e que o artigo em si, não é essencial para o discurso. Como evidência disso, podemos observar ocasiões em que sentenças inteiras são escritas sem artigo. Observe o caso de 1 Pedro 1.1-2:

1Pedro 1:1-2

(GNT) Πέτρος, ἀπόστολος ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ἐκλεκτοῖς παρεπιδήμοις διασπορᾶς Πόντου, Γαλατίας, Καππαδοκίας, ᾿Ασίας καὶ Βιθυνίας, κατὰ πρόγνωσιν Θεοῦ πατρός, ἐν ἁγιασμῷ Πνεύματος, εἰς ὑπακοὴν καὶ ῥαντισμὸν αἵματος ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ· χάρις ὑμῖν καὶ εἰρήνη πληθυνθείη.

(TNM) Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos residentes temporários espalhados por Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, aos escolhidos segundo a presciência de Deus, o Pai, com santificação pelo espírito, com o objetivo de que sejam obedientes e sejam aspergidos com o sangue de Jesus Cristo. Benignidade imerecida e paz vos sejam aumentada.

Nesse caso, nenhum artigo grego foi utilizado, muito embora o sentido da frase não seja encobrido por esse fenômeno linguístico. Mas, por que o grego koiné permite esse tipo de situação? Na verdade, no grego koiné, diferente do português, o substantivo é regido por declinações e no grego, essas declinações regem as funções que os termos exercem em uma frase. Assim, uma sentença grega, tão grande quanto 1Pe.1.1-2, pode ser escrita sem artigo sem que isso implique em qualquer complicação para a compreensão do texto. Isso é evidência de que o artigo não é essencial para o discurso.

3. Números Ordinais

Quando o grego trata de numerais, os artigos não são necessário, como já observamos em outros contextos. Observe:

Lucas 2:2

(GNT) αὕτη ἡ ἀπογραφὴ πρώτη ἐγένετο ἡγεμονεύοντος τῆς Συρίας Κυρηνίου.

(TNM) este primeiro registro ocorreu quando Quirino era governador da Síria. (cf. Mc.15.2)

João 19:14

(GNT) ἦν δὲ παρασκευὴ τοῦ πάσχα, ὥρα δὲ ὡσεὶ ἕκτη. καὶ λέγει τοῖς ᾿Ιουδαίοις· ἴδε ὁ βασιλεὺς ὑμῶν.

(TNM) Ora, era a preparação da páscoa; era cerca da sexta hora. E ele disse aos judeus.

Efésios 6:2

(GNT) τίμα τὸν πατέρα σου καὶ τὴν μητέρα, ἥτις ἐστὶν ἐντολὴ πρώτη ἐν ἐπαγγελίᾳ,

(TNM) Honra a teu pai e [a tua] mãe”, que é o primeiro mandado com promessa (cf. At.2.15)

No primeiro exemplo a ausência de artigo foi observada em ambos os idiomas, sem que a indefinição fosse regente em ambos idiomas. Entretanto, nos outros dois casos percebemos que a ausência de artigo em grego foi compreendido definidamente em portugês. Em Efésios esse caso é observado com intensidade em português: “Esse é O primeiro mandamento com promessa”. Nesse caso, não há outro primeiro mandamento com promessa: Esse é O primeiro. É interessante notar que essa definição específica não vem acompanhada de artigo em grego, sem que seu sentido fosse minimizado. Mais uma evidência de que o artigo não é essencial para o discurso.

4. Palavras Abstratas

Em outras ocasiões o grego também não exige a presença do artigo: esse é o caso de palavras abstratas. Observe os casos abaixo:

Gálatas 5:20

(GNT) εἰδωλολατρία, φαρμακεία, ἔχθραι, ἔρις, ζῆλοι, θυμοί, ἐριθείαι, διχοστασίαι, αἱρέσεις,

(TNM) idolatria, prática de espiritismo, inimizades, rixa, ciúme, acessos de ira, contendas, divisões, seitas,

Romanos 1:29

(GNT) πεπληρωμένους πάσῃ ἀδικίᾳ, πορνείᾳ πονηρίᾳ πλεονεξίᾳ κακίᾳ, μεστοὺς φθόνου φόνου ἔριδος δόλου κακοηθείας, ψιθυριστάς,

(TNM) já que estavam cheios de toda a injustiça, iniqüidade, cobiça, maldade, cheios de inveja, assassínio, rixa, fraude, disposição maldosa, sendo cochichadores

Nesses dois exemplos vemos que a ausência de artigo com substantivos abstratos não foram traduzidas idefinidamente nenhuma vez. Ou seja, a ausência no grego também pode ser entendida como uma ausência em português sem que isso minimize o sentido da frase. Entretanto é interessante notar que, tal ausência pode ser compreendida definidamente em outras ocasiões. Veja o exemplo abaixo:

Apocalipse 5:12

(GNT) λέγοντες φωνῇ μεγάλῃ· ἄξιόν ἐστι τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν.

(TNM) dizendo com voz alta: “O Cordeiro que foi morto é digno de receber o poder, e as riquezas, e a sabedoria, e a força, e a honra, e a glória, e a bênção.. (veja 7.12)

Note que a tradução em português acresceu um artigo definido para cada substantivo, muito embora não se tenha a presença de nenhum artigo grego em toda a sentença. É interessante que várias versões em português não optaram por fazer o mesmo que a TNM aqui (ARA, ARC, ACF, BRP).

Isso exemplifica a situação do artigo grego na tradução: ora pode ser definido, indefinido ou correlato (sem artigo em ambos idiomas). Ou seja, a cada passo que damos no estudo da ausência do artigo comprovamos que Bergmann está correto quando disse: “sem artigo, um substantivo pode ser ou não ser indefinido, dependendo do contexto”. Mas, seria válido acrescer que, além do contexto, algumas características favorecem esse dilema, como já temos visto até aqui.

B. A questão da função

Esse é um caso de um pouco mais de complexidade do idioma grego, pois dependendo da função sintática de um substantivo, o grego não exige artigo, independendo da classe ou espécie do substantivo ou adjetivo.

1. Predicado

Quando um substantivo anarto exerce a função de predicado em uma frase ele normalmente não usa artigo. A.T. Robertson sobre isso diz: “Como regra o predicado não tem o artigo, mesmo quando o sujeito o usa[3]”. Essa é uma regra de identificação: ela não é sem exceções mais reposponde pela vasta maioria dos casos. Observe alguns exemplos:

Marcos 9:50

(GNT) Καλὸν τὸ λας· ἐὰν δὲ τὸ ἅλας ναλον γένηται, ἐν τίνι αὐτὸ ἀρτύσετε; ἔχετε ἐν ἑαυτοῖς ἅλας καὶ εἰρηνεύετε ἐν ἀλλήλοις.

(TNM) O sal é excelente; mas, se o sal perder a sua força, com que é que o temperareis? Tende sal em vós mesmos e mantende a paz entre vós.

Lucas 7:8

(GNT) καὶ γὰρ ἐγὼ νθρωπός εἰμι ὑπὸ ἐξουσίαν τασσόμενος, ἔχων ὑπ᾿ ἐμαυτὸν στρατιώτας, καὶ λέγω τούτῳ, πορεύθητι, καὶ πορεύεται, καὶ ἄλλῳ, ἔρχου, καὶ ἔρχεται, καὶ τῷ δούλῳ μου, ποίησον τοῦτο, καὶ ποιεῖ.

(TNM) Pois eu também sou homem sujeito à autoridade, tendo soldados sob as minhas ordens, e digo a este: ‘Vai!’ e ele vai, e a outro: ‘Vem!’ e ele vem, e ao meu escravo: ‘Faze isto!’ e ele o faz.”.

Esse é um caso interessantíssimo: A sentença em destaque no texto grego está toda no nominativo e o predicato está colocado antes do verbo (predicado nominativo pré-verbal –  também conhecido como PN – sobre ele estudaderemos oportunamente). Essa é uma construção interessante e a tradução mais acertada não é nem “o homem” ou “um homem”, mas como foi demonstrado aqui: “homem”, um caso de tradução correlata. Esse tipo de situação não é incomum no grego do NT: Um predicado nominativo pré-verbal é definido em aproximadamente 87% dos casos no NT[4], e correlato em vários outros casos. Ou seja, salvo ocasiões definidas por contexto a regra de A.T. Robertson é verdadeira. (Para outros casos, veja: Jo.1.14; 1Jo.4.16; Mt.13.39; Jo.17.17; Rm.7.7).

2. Equiparação

No grego, quando o autor deseja fazer completa correspondência entre dois substantivos, em uma sentença com verbos de ligação, normalmente ele o faz usando artigos com o sujeito e o predicativo do sujeito. Observe o exemplo abaixo:

Mateus 13:38

(GNT) ὁ δὲ ἀγρός ἐστιν ὁ κόσμος· τὸ δὲ καλὸν σπέρμα, οὗτοί εἰσιν οἱ υἱοὶ τῆς βασιλείας· τὰ δὲ ζιζάνιά εἰσιν οἱ υἱοὶ τοῦ πονηροῦ·

(TNM) o campo é o mundo; quanto à semente excelente, estes são os filhos do reino; mas o joio são os filhos do iníquo;

Nesse texto vemos um caso típico de completa correspondência: O campo é o mundo do mesmo modo que o mundo é o campo. Essa construção acontece quando é a intenção do autor de equivaler dois substantivos. Nesses casos, não faz qualquer diferença que substantivo é o sujeito ou o predicado (quando ambos estão no nominativo).

Esse tipo de situação nos serve para compreendermos que, embora o artigo não seja essencial para o discurso, sua presença em alguns casos denota extrema importância. Esse é o caso de uma sentença formada com verbos de ligação e dois substantivos nominativos, observe:

1João 4:8

(GNT) ὁ μὴ ἀγαπῶν οὐκ ἔγνω τὸν Θεόν, ὅτι ὁ Θεὸς ἀγάπη ἐστίν.

(TNM) Quem não amar[5], não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é amor.

Nesse verso temos, na sentença em destaque, dois substantivos nominativos em uma sentença com verbo de ligação. Diferente do português, a ordem das palavras não é fundamental para sua compreensão, assim a setença Deus é amor, foi escrita literalmente desse modo: “o Deus amor é”. Então, como sabemos qual substantivo é o sujeito e qual é o predicativo do sujeito nessa sentença em que ambos estão no nominativo? Normalmente, o predicado vem sem artigo e o sujeito é marcado pela presença dele. Assim, traduzir essa sentença como o Amor é Deus, é uma tradução equivocada. Ou seja, não há completa correspondência entre sujeito e predicativo do sujeito como aconteceu em Mt 13.38. Em casos similares a esses, o sujeito é o predicativo do sujeito, mas o inverso não é verdadeiro.

Existem diversos exemplos desses no NT, mas o conceito aqui apresentado nesse caso parece suficiente para nosso diálogo. Entretanto, vamos observar casos diferentes desses já apresentados:

Mateus 13:39

(GNT) [1] ὁ δὲ ἐχθρὸς ὁ σπείρας αὐτά ἐστιν ὁ διάβολος· [2] ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν· [3] οἱ δὲ θερισταὶ γγελοί εἰσιν.

(TNM) e o inimigo que o semeou é o Diabo. A colheita é a terminação dum sistema de coisas e os ceifeiros são os anjos.

Três sentenças interessantes sao apresentadas nesse verso. Observe que ns primeira a correspondência é completa: Tanto o inimigo é o Diabo quanto o inverso. A presença de artigos em ambos os substantivo no nominativo indicam isso. Já nas outras duas sentenças isso não ocorre. Ou seja, a terminação dum sistema de coisas não é a ceifa, por assim dizer, nem os ceifeiros sempre são anjos. Ou seja, nesse contexto, a ceifa representa a terminação dum sistema de coisas, mas não o é em essencia, do mesmo modo que nesse caso os anjos são ceifeiros, mas é certo que os ceifeiros não são angélicos em todos os casos.

Note que a TNM tornou indefinido o que o texto grego é claramente definido: “A colheita é a terminação dum sistema de coisas” (ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν). Fora a má tradução de αἰων[6], vemos que a TMN ignorou a presença do artigo definido no texto grego. Tal indefinição só pode ter sido acrescida aqui por motivos teológicos, pois não existem critérios semânticos, gramáticos ou contextuais que possam explicar esse fenômeno. O medo da verdadeira escatologia é certamente o motivo russelita dessa tradução.

O que vemos aqui é: que embora o artigo não seja essencial para o discurso (note que nem sempre é traduzido), em ocasiões como essas (sujeito e predicativo do sujeito nominativos em uma sentença com verbo de ligação) ele desempenha um papel sintático fundamental. Observe outro exemplo:

Marcos 7:26

(GNT) ἡ δὲ γυνὴ ν Ελληνίς, Συροφοινίκισσα τῷ γένει· καὶ ἠρώτα αὐτὸν ἵνα τὸ δαιμόνιον ἐκβάλῃ ἐκ τῆς θυγατρὸς αὐτῆς.

(PJFA) (ora, a mulher era grega, de origem siro-fenícia) e rogava-lhe que expulsasse de sua filha o demônio.

Em casos de completa equivalência, já vimos que tanto o sujeito como o predicativo do sujeito vem acompanhado de artigo. Entretanto, quando não é essa a intenção do autor, normalmente o predicado vem sem artigo, como no caso demonstrado acima. Nessas ocasiões a ausência de artigo é correspondente em grego e em português. A tradução dessa sentença, certamente não é “a mulher era uma grega” como se a ênfase fosse na indefinição, mas era grega de nacionalidade. Exemplos como esse também são comuns no NT e estes servem como exemplo do conceito apresentado.

3. Com Genitivo

Quando um substantivo é escrito no caso genitivo, normalmente ele não exige a presença do artigo mas a tradução a fará presente. Observe:

Mateus 16:18

(GNT) κἀγὼ δέ σοι λέγω ὅτι σὺ εἶ Πέτρος, καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ οἰκοδομήσω μου τὴν ἐκκλησίαν, καὶ πύλαι δου οὐ κατισχύσουσιν αὐτῆς.

(TNM) Também, eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta rocha construirei a minha congregação, e os portões do Hades não a vencerão.

Note que a inserção do artigo não é sempre necessária:

Atos 23:6

(GNT) Γνοὺς δὲ ὁ Παῦλος ὅτι τὸ ἓν μέρος ἐστὶ Σαδδουκαίων, τὸ δὲ ἕτερον Φαρισαίων, ἔκραξεν ἐν τῷ συνεδρίῳ· ἄνδρες ἀδελφοί, ἐγὼ Φαρισαῖός εἰμι, υἱὸς Φαρισαίου· περὶ ἐλπίδος καὶ ἀναστάσεως νεκρῶν ἐγὼ κρίνομαι.

(TNM) Ora, quando Paulo notou que uma parte era dos saduceus, mas a outra dos fariseus, passou a clamar no Sinédrio: “Homens, irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus. É por causa da esperança da ressurreição dos mortos que estou sendo julgado.

Veja outros exemplos (cf. 1Co.15.10; 1Ts.2.13; 1Co.10.21; At.13.10).

C. A questão das preposições

De alguma forma, as orações preposicionadas parecem não exigir a presença de um artigo definido. Observe:

Rom 2:23

(GNT) ὃς ἐν νόμῳ καυχᾶσαι, διὰ τῆς παραβάσεως τοῦ νόμου τὸν Θεὸν ἀτιμάζεις;

(TNM) Tu, que te orgulhas da lei, desonras a Deus pela tua transgressão da Lei?

Efésios 4:24

(GNT) καὶ ἐνδύσασθαι τὸν καινὸν ἄνθρωπον τὸν κατὰ Θεὸν κτισθέντα ἐν δικαιοσύνῃ καὶ ὁσιότητι τῆς ἀληθείας.

(TNM) e que vos deveis revestir da nova personalidade, que foi criada segundo a vontade de Deus, em verdadeira justiça e lealdade.

1Coríntios 11:34

(GNT) εἴ δέ τις πεινᾷ, ἐν οἴκῳ ἐσθιέτω, ἵνα μὴ εἰς κρίμα συνέρχησθε. Τὰ δὲ λοιπὰ ὡς ἂν ἔλθω διατάξομαι.

(TNM) Se alguém tiver fome, coma em casa, para que não vos reunais para julgamento. Mas os demais assuntos porei em ordem quando for aí.

Confira mais alguns exemplos abaixo com preposições específicas:

Ἀνὰ

1Coríntios 14:27

(GNT) εἴτε γλώσσῃ τις λαλεῖ, κατὰ δύο ἢ τὸ πλεῖστον τρεῖς, καὶ ἀνὰ μέρος, καὶ εἷς διερμηνευέτω·

(TNM) E, se alguém falar numa língua, seja isso limitado a dois ou no máximo três, e por turnos; e traduza alguém.

Ἀπο

Hebreus 12:25

(GNT) Βλέπετε μὴ παραιτήσησθε τὸν λαλοῦντα, εἰ γὰρ ἐκεῖνοι οὐκ ἔφυγον τὸν ἐπὶ τῆς γῆς παραιτησάμενοι χρηματίζοντα, πολλῷ μᾶλλον ἡμεῖς οἱ τὸν ἀπ᾿ οὐρανῶν ἀποστρεφόμενοι·

(TNM) Cuidai de que não vos escuseis daquele que está falando. Porque, se não escaparam aqueles que se escusaram daquele que dava aviso divino na terra, muito menos ainda nós, se nos desviarmos daquele que fala desde os céus

(cf. Mc.15.21; Mc.7.4; Lc.17.29).

Διὰ

Atos 5:19

(GNT) ἄγγελος δὲ Κυρίου διὰ νυκτὸς ἤν ἤνοιξε τὰς θύρας τῆς φυλακῆς, ἐξαγαγών τε αὐτοὺς εἶπε·

(TNM) Mas, durante a noite, o anjo de Jeová abriu as portas da prisão, trouxe-os para fora e disse

(cf. Lc.4.30; Lc.17.11)

Εἰς

1Pedro 3:22

(GNT) ὅς ἐστιν ἐν δεξιᾷ τοῦ Θεοῦ πορευθεὶς εἰς οὐρανόν, ὑποταγέντων αὐτῷ ἀγγέλων καὶ ἐξουσιῶν καὶ δυνάμεων.

(TNM) Ele está à direita de Deus, pois foi para o céu; e foram-lhe sujeitos anjos, e autoridades, e poderes.

(cf. At.2.27; Mc.16.12; Mt.17.27; Mc.3.20)

Ἐν

Colossenses 2:20

(GNT) Εἰ οὖν ἀπεθάνετε σὺν τῷ Χριστῷ ἀπὸ τῶν στοιχείων τοῦ κόσμου, τί ὡς ζῶντες ἐν κόσμῳ δογματίζεσθε,

(TNM) Se morrestes junto com Cristo para com as coisas elementares do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais ainda aos decretos

(cf. Mt.6.20; Hb.12.23; Lc.2.14; Hb.1.3; Lc.15.25)

Ἐξ

João 6:64

(GNT) ἀλλ᾿ εἰσὶν ἐξ ὑμῶν τινες οἳ οὐ πιστεύουσιν. ᾔδει γὰρ ἐξ ἀρχῆς ὁ ᾿Ιησοῦς τίνες εἰσὶν οἱ μὴ πιστεύοντες καὶ τίς ἐστιν ὁ παραδώσων αὐτόν.

(TNM) Mas, há alguns de vós que não crêem.” Pois Jesus sabia desde [o] princípio quem eram os que não criam e quem era o que o havia de trair.

(cf. 1Co.12.27; Ef.6.6; At.26.4; Mt.27.39)

Ἐως

Atos 28:23

(GNT) Ταξάμενοι δὲ αὐτῷ ἡμέραν ἧκον πρὸς αὐτὸν εἰς τὴν ξενίαν πλείονες, οἷς ἐξετίθετο διαμαρτυρόμενος τὴν βασιλείαν τοῦ Θεοῦ πείθων τε αὐτοὺς τὰ περὶ τοῦ ᾿Ιησοῦ ἀπό τε τοῦ νόμου Μωϋσέως καὶ τῶν προφητῶν ἀπὸ πρωῒ ως ἑσπέρας.

(TNM) Combinaram assim um dia com ele e vieram em maior número ter com ele na sua pousada. E ele lhes explicou o assunto por dar cabalmente testemunho a respeito do reino de Deus e por usar de persuasão para com eles concernente a Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos Profetas, de manhã até à noite

(cf. Mt.11.23; Mt.24.27; 1Co.1.8)

Ἐπὶ

Mateus 24:33

(GNT) οὕτω καὶ ὑμεῖς ὅταν ἴδητε πάντα ταῦτα, γινώσκετε ὅτι ἐγγύς ἐστιν ἐπὶ θύραις.

(TNM) Do mesmo modo, também, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo às portas

(cf. Lc.2.14; Lc.5.12)

Κατα

Gálatas 3:1

(GNT) ῏Ω ἀνόητοι Γαλάται, τίς ὑμᾶς ἐβάσκανε τῇ ἀληθείᾳ μὴ πείθεσθε, οἷς κατ᾿ ὀφθαλμοὺς ᾿Ιησοῦς Χριστὸς προεγράφη ἐν ὑμῖν ἐσταυρωμένος;

(TNM) insensatos gálatas! Quem é que vos submeteu à influência má, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi retratado abertamente como pregado numa estaca?

(cf. At.27.12; At.8.26; Hb.1.10; At.15.16)

Μέχρι

Atos 20:7

(GNT) ᾿Εν δὲ τῇ μιᾷ τῶν σαββάτων συνηγμένων τῶν μαθητῶν κλάσαι ἄρτον, ὁ Παῦλος διελέγετο αὐτοῖς, μέλλων ἐξιέναι τῇ ἐπαύριον, παρέτεινέ τε τὸν λόγον μέχρι μεσονυκτίου.

(TNM) No primeiro dia da semana, quando estávamos ajuntados para uma refeição, Paulo começou a dissertar para eles, visto que ia partir no dia seguinte; e ele prolongou as suas palavras até à meia-noite. Hb.3.6

Παρὰ

Atos 10:32

(GNT) πέμψον οὖν εἰς ᾿Ιόππην καὶ μετακάλεσαι Σίμωνα ὃς ἐπικαλεῖται Πέτρος· οὗτος ξενίζεται ἐν οἰκίᾳ Σίμωνος βυρσέως παρὰ θάλασσαν· ὃς παραγενόμενος λαλήσει σοι.

(TNM) Envia, portanto, a Jope e manda chamar Simão, que é cognominado Pedro. Este homem está sendo hospedado na casa de Simão, o curtidor, à beira do mar. (cf.At.16.13)

Περὶ

João 3.25

(GNT) ᾿Εγίνετο οὖν ζήτησις ἐκ τῶν μαθητῶν ᾿Ιωάννου μετὰ ᾿Ιουδαίου περὶ καθαρισμοῦ,

(TNM) Surgiu assim da parte dos discípulos de João uma disputa com um judeu, a respeito da purificação.

Πρὸ

Mateus 8:29

(GNT) καὶ ἰδοὺ ἔκραξαν λέγοντες· τί ἡμῖν καὶ σοί, ᾿Ιησοῦ υἱὲ τοῦ Θεοῦ; ἦλθες ὧδε πρὸ καιροῦ βασανίσαι ἡμᾶς;

(TNM) E eis que bradavam, dizendo: “Que temos nós contigo, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo designado?”

Πρὸς

1 João 5.16

(GNT) ᾿Εάν τις ἴδῃ τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ ἁμαρτάνοντα ἁμαρτίαν μὴ πρὸς θάνατον, αἰτήσει, καὶ δώσει αὐτῷ ζωήν, τοῖς ἁμαρτάνουσι μὴ πρὸς θάνατον. ἔστιν ἁμαρτία πρὸς θάνατον· οὐ περὶ ἐκείνης λέγω ἵνα ἐρωτήσῃ

(TNM) Se alguém avistar seu irmão cometendo um pecado que não incorre em morte, pedirá, e ele lhe dará vida, sim, aos que pecarem sem incorrer em morte. Há um pecado que incorre em morte. A respeito deste pecado não lhe digo que faça solicitação.

(cf. Lc.24.29)

Ὑπὸ

Lucas 17:24

(GNT) ὥσπερ γὰρ ἡ ἀστραπὴ ἀστράπτουσα ἐκ τῆς ὑπ᾿ οὐρανὸν εἰς τὴν ὑπ᾿ οὐρανὸν λάμπει, οὕτως ἔσται καὶ ὁ Υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐν τῇ ἡμέρᾳ αὐτοῦ.

(TNM) Pois assim como o relâmpago, com o seu lampejo, brilha duma parte sob o céu à outra parte sob o céu, assim será o Filho do homem

3. Conclusão

O que vimos até aqui é que a ausência de artigo não é um exercício arbitrário: existem considerações gramaticais que podem auxiliar a presença ou ausência do artigo na tradução. Vimos também que a idéia de que a ausência no texto grego não é sempre uma questão de indefinição, mas que dependendo do contexto, além de indefinido, pode ser correlato ou até mesmo definida.

Ou seja, considerando os usos anartros de θεος no NT e as observações sobre a ausência de artigo no grego neotestamentário, temos que manter a pergunta: Por que razão a TNM mantém o artigo indefinido na tradução de Jo.1.1c?


[1] ROBERTSON, A.T., A Short Grammar of the Greek New Testament. pp.68

[2] REGA, Lourenço, BERGMANN, Johannes, Noções do grego Bíblico, pp.72.

[3] ROBERTSON, A.T., A Grammar of the New Testament, pp.767.

[4] CARSON, D.A., A exegese e suas falácias. pp.80-1

[5] Observe a má tradução do particípio (presente, ativo, nominativo, masculino singular – ὁ ἀγαπῶν) e do verbo conhecer (3ª pes. Do singular, aoristo, indicativo, ativo – ἔγνω). O sentido não é alterado, mas é um claro exemplo de paráfrase.

[6] Observe que a sentença “ὁ δὲ θερισμὸς συντέλεια τοῦ αἰῶνός ἐστιν” foi traduzida como “A colheita é a terminação dum sistema de coisas”. A idéia de terminação não é distante do campo semântico de συντέλεια. Entretanto, “sistema de coisas” não é uma tradução aceitável para αἰων, que normalmente está relacionada a conceitos temporais. A ênfase no texto é claramente escatológica, mas teve de ser mascarada pela teologia malfadada dos russelitas (TJs).

11.05.09

A desonestidade da Brochura “Deve-se crer na Trindade?”

Enviado em Testemunha de Jeová tagged , , , às 10:14 am por Marcelo Berti

Há poucos dias navegando pela Internet encontrei acidentalmente um artigo que apresenta ponto por ponto como o material Testemunha de Jeová “Deve-se crer na Trindade” é desonesto.

Após lê-lo, imaginei que os leitores do Teologando seriam bem instruídos por esse documento e por essa razão o transcrevo aqui. O artigo foi traduzido por Emerson de Oliveira que cuida do site apologético:  LOGOS – Apologética Cristã.

Bom Proveito!

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A desonestidade da Brochura “Deve-se Crer na Trindade?”

Por: Jehovah’s Witnesses: a critical analysis
Tradução: Emerson de Oliveira

En 1989 a Sociedade da Torre de Vigia (STV) publicou uma Brochura de 32 páginas chamada “Deve-se Crer na Trindade?”. O objetivo desta publicação era desacreditar a doutrina cristã da natureza triúna de Deus.
O método que a Sociedade usava para atingir esta meta era citar de uma pletora de recursos, seculares e religiosos, como os dicionários, enciclopédias, livros e literatura histórica escritos por autores individuais. De fato, na contracapa da revista Sentinela de 1 de outubro de 1990, tinha um anúncio para a brochura que alardeava que sua força estava na multidão de “evidências” contra a doutrina da Trindade.

É verdade que há uma grande abundância de citações na Brochura. Mas o que está brilhantemente ausente do leitor é qualquer detalhada notação de onde estas citações realmente vieram. Restava aos investigadores cavar nas páginas da Brochura e localizar as fontes originais das citações. O resultado de minha pesquisa individual é dado logo abaixo.

Depois de examinar a evidência, o leitor deveria se perguntar: “Por que um grupo religioso, que diz ser a organização de Deus, falsifica descaradamente as informações para refutar um ensino que eles consideram ser falso?”

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p.4 – ENCICLOPÉDIA AMERICANA

Brochura: “a doutrina da Trindade é tida como estando “além da compreensão da razão humana.”
Fonte: a citação completa é:
“Sabe-se que EMBORA a doutrina está além da compreensão da razão humana, é, como muitas das fórmulas da ciência física, não contrária à razão, e pode ser aceita (apesar de não poder ser compreendida) pela mente humana.”

(Assim, a Enciclopédia está comparando os graus de percepção mental, apreensão X compreensão, e não diz que a doutrina é “contrária” à razão – mas que ela está ALÉM de nossa compreensão.)

Os escritores da Torre de Vigia também ignoraram uma declaração na mesma página da Enciclopédia que disputa a idéia que a doutrina de Trindade é pagã. Diz:
“Provavelmente é um erro pensar que a doutrina foi o resultado da intrusão de metafísicas ou filosofias gregas no pensamento cristão; pela data em que a doutrina se estabeleceu e também suas tentativas mais antigas de formulação, é muito mais antiga que o encontro da igreja com a filosofia grega.”

p.4 – A Dictionary of Religious Knowledge (Dicionário do Conhecimento Religioso)

Brochura: “Quanto a precisamente o que é essa doutrina, ou exatamente como deve ser explicada, os trinitaristas ainda não chegaram a um acordo.”
Fonte: Pouco antes desta declaração o livro diz:
“É certo, no entanto, que desde os tempos apostólicos eles prestaram culto ao Pai, Filho e Espírito Santo, dirigindo-se a eles em suas orações e os incluindo em suas doxologias.”

p.5 – O Novo Dicionário da Bíblia

Brochura: “A palavra ‘trindade’ não pode ser encontrada na Bíblia . . . não encontrou lugar formal na teologia da Igreja senão já no quarto século.”
Fonte: O dicionário adiciona estas três declarações:
(a) “Apesar de não ser uma doutrina bíblica no sentido que qualquer formula dela possa ser encontrada na Bíblia, pode ser vista por estar sob a revelação de Deus, implícita no Velho Testamento e explícita no Novo Testamento. Por isto queremos dizer que, apesar de não podermos falar confiantemente da revelação da Trindade no Velho Testamento, há uma  substância revelada da doutrina no Novo Testamento e podemos ler muitas implicações dela no Velho Testamento”.
(b) “Até mesmo nas páginas iniciais do Velho Testamento somos ensinados atribuir a evidência e origem de todas as coisas a uma tripla fonte (não 3 fontes separadas).
(c) “por via de contraste temos que lembrar que o Velho Testamento foi escrito antes da revelação da doutrina da Trindade ser claramente demonstrada no Novo Testamento”.

p.6 – Nova Enciclopédia Católica

Brochura: “A doutrina da Santíssima Trindade não é ensinada no V[elho] T[estamento].”
Fonte: “No Novo Testamento a evidência mais antiga está nas epístolas paulinas…”
“Em muitos lugares do Velho Testamento, porém, são usadas expressões nas quais alguns dos Pais da Igreja viram referências da Trindade”.

p.6 -  EDMUND FORTMANN – “THE TRIUNE GOD” (O Deus Triúno)

Brochura: “O Velho Testamento não diz nada explicitamente ou por implicação de um Deus triúno que é Pai, Filho e Espírito Santo…não há nenhuma evidência que qualquer escritor sagrado escritor inclusive suspeitou da existência de uma [Trindade] dentro da Divindade…”
Fonte: Pouco antes desta declaração o livro diz:
“Como sacerdote católico e um crente firme no Deus Triúno…e convencido que a doutrina é uma doutrina cristã que se originou e só poderia ter se originado da revelação divina, começarei o estudo do registro autêntico da revelação divina que se encontra nas Sagradas Escrituras do Velho e Novo Testamento.”

p.6 – A Short History of Christian Doctrine (Breve História da Doutrina Cristã):

Brochura: “No que tange ao Novo Testamento, não se encontra nele uma real doutrina da Trindade.”
Fonte: No entanto, o artigo continua na p.38 e p. 39:
“Em outras passagens do Novo Testamento o predicado ‘Deus’ é sem dúvida aplicado a Cristo. Os cristãos expressaram sua fé que não foi meramente algum ser celestial que eles encontraram em Jesus Cristo, mas próprio Deus.”

 

OS PAIS PRÉ-NICENOS

Na página 7, sob o título “O Que os Pais Pré-Nicéia Ensinaram”, a Brochura diz isto sobre estes grandes homens:
“OS PAIS Pré-Nicéia são reconhecidos como tendo sido destacados instrutores religiosos dos primeiros séculos após o nascimento de Cristo. O que eles ensinaram é de interesse”.

Assim, parece que a STV considera os escritos dos Pais representantes válidos do que a Igreja cristã primitiva acreditava. O que eles REALMENTE ensinaram é de interesse.

JUSTINO MÁRTIR

Brochura: Justino, o Mártir, falecido por volta de 165 EC, chamou o pré-humano Jesus de um anjo criado que “não é o mesmo que Deus, que fez todas as coisas”. Ele disse que Jesus era inferior a Deus e “nunca fez nada exceto o que o Criador . . . queria que ele fizesse e dissesse.

(Note que as palavras anjo criado e inferior a Deus não estão com aspas. Isto é porque estas palavras NÃO estão em qualquer escrito de Justino).
O que Justino realmente disse sobre a divindade de Cristo e a Trindade:

Fontes: Primeira Apologia; Diálogo com Trifão

Citações:
“O Pai do Universo tem um Filho, que também sendo a primera Palavra gerada de Deus, é igual a Deus”. – Primera Apologia, cap. 63

“Cristo é chamado de Deus e Senhor das hostes.” -  Diálogo com Trifão. cap.36

[Trifão a Justino]” …vós dizeis que este Cristo existiu como Deus antes de todos os tempos e que Ele o fez nascer e se tornar homem” – Diálogo com Trifão, cap. 48

Justino cita Hb. 1:8 para demostrar a Divindade de Cristo. “Teu trono, ó Deus, é para sempre e sempre” – Diálogo com Trifão, cap. 56
(Note que a TNM alterou a leitura deste versículo também)

“Portanto estas palavras testificam explícitamente que Ele (Cristo) é testemunhado por aquele que estabeleceu estas coisas, como merecedor de ser adorado, como Deus e como Cristo”. – Diálogo com Trifão, cap. 63

Justino declarou a Trifão “pois se vós tivésseis entendido o que foi escrito pelos profetas, não teríeis negado que Ele fosse Deus”.  Diálogo com Trifão, cap. 63
“O Pai da retidão…e o Filho que veio Dele…e o Espírito profético, nós rendemos culto e adoramos”.  – Primera Apologia. 6
compare com:
“Só Deus deve ser adorado”. – Primeira Apologia, caps. 16,17

IRINEU

Brochura: Irineu, falecido por volta de 200 EC, disse que o pré-humano Jesus tivera uma existência distinta de Deus e que era inferior a este. Ele mostrou que Jesus não é igual ao “Um só verdadeiro e único Deus”, que “é supremo sobre todos, à parte de quem não há outro”.

(Preste atenção de novo nas palavras que estão com aspas e nas que não estão)

Fontes: Refutação de Todas as Heresias

Citações:
(Citando Jo.1.1) “‘…e o Verbo era Deus’, é claro, pois o que se gera de Deus é Deus.” – livro I, cap. 8, sec. 5

“Cristo Jesus é nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei.” – livro I, cap. 10, sec. 1,

“Mas o Filho, co-existindo eternamente com o Pai, desde o princípio, sempre revela o Pai aos anjos, arcanjos, poderes, virtudes…”  -  livro II, cap. 30, sec. 9,
[Se Jesus pre-existisse como um arcanjo, então como revelar Ele a Ele mesmo?]

“As provas das escrituras Apostólicas, que Jesus Cristo foi um e o mesmo, o único Filho Unigênito de Deus, Deus perfeito e homem perfeito.” – livro III, cap. 16 [o Título do capítulo]

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Brochura: Clemente de Alexandria, falecido por volta de 215 EC, chamou Deus de “o incriado e imperecível Deus e único Deus verdadeiro”. Disse que o Filho “vem logo depois do único Pai onipotente”, mas não é igual a ele.

(As frases entre aspas são muito poucas para encontrarmos suas posições nos escritos patrísticos. Mas Clemente nunca fez as afirmações que a Sociedade sugere).

Fontes: Exortação aos Pagãos; O Pedagogo; Fragmentos De Cassiodoro; Protréptico

Citações:
“O Verbo Divino, Ele que é verdadeiramente a Divindade manifesta, Ele que é igual ao Senhor do Universo…” – Exortação, cap. 10

“O Filho de Deus que é igual em substância, um com o Pai, é eterno e incriado”. -  Fragmentos, parte III, i,1,

“Este Filho Jesus, o Verbo de Deus, é nosso Pedagogo. Ele é Deus e Criador.” – O Pedagogo, cap. 11

“O Verbo, o Cristo, estava em Deus. Ele só é Deus e homem. Ele é adorado como o Deus vivo. Ele verdadeiramente é Deus manifestado.” – Protréptico, i, x,

TERTULIANO

Brochura: Tertuliano, falecido por volta de 230 EC, ensinou a supremacia de Deus. Disse ele: “O Pai é diferente do Filho (outra pessoa), uma vez que é maior; assim como quem gera é diferente de quem é gerado; quem envia, diferente de quem é enviado.” Ele disse também: “Houve tempo em que o Filho não existia. . . . Antes de todas as coisas virem a existir, Deus estava sozinho.”.

[A Torre de Vigia afirma que Tertuliano disse: "Houve tempo em que o Filho não existia. . . . Antes de todas as coisas virem a existir, Deus estava sozinho". Na verdade, a frase: "Houve um tempo quando o Filho não existia" não é do próprio Tertuliano, mas uma expressão usada por um estudioso em seus escritos sobre Tertuliano. (Pais Pré-Nicéia, Vol.3, p.629)
A frase "Antes de todas as coisas virem a existir, Deus estava sozinho" aparece em uma obra totalmente diferente na qual Tertuliano diz que a Palavra existiu eternamente ao lado de Deus e era igual a Ele. (Pais Pré-Nicéia, Vol. 3, pp.600-601) Todos os Pais da Igreja acreditaram que a Palavra Eterna não se tornou Filho até a encarnação. Ele nunca foi chamado de Filho antes disso exceto em um sentido profético.]

Fontes: Contra Praxéias

Citações:
“Sempre acreditamos em um Deus, identificado como o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Todos são um pela unidade de substância que dispõe a unidade em uma Trindade …igual em qualidade, substância e poder [não três qualidades, substâncias e poderes]” – Contra Praxéias, cap. 2

“Pois antes de todas as coisas virem a existir Deus, estava sozinho, mas não tão só porque Ele tinha com Ele algo que possuia, sua própria Razão…que os gregos chamam de ‘Logos’ que é designado ‘Palavra’. – Contra Praxéias, ch. 5

“Todas as Escrituras dão prova clara da Trindade, e são destas de onde é deduzido nosso princípio…que a Trindade é claramente mostrada” – Contra Praxéias, cap. 11

“[Deus fala no plural 'façamos o homem a nossa imagem'] porque já ali se atou a Seu Filho, ma segunda pessoa, sua própria Palavra e um terceiro, o Espírito na Palavra…a substância de um em três pessoas coerentes. Eles eram o Pai, o Filho e o Espírito”. – Contra Praxéias, cap. 12

“O Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito é Deus. Cada um é Deus. Todavia nós nunca temos dado abertura às frases ‘dois deuses ou dois senhores’”.  – Contra Praxéias, cap. 13

HIPÓLITO

Brochura: Hipólito, falecido por volta de 235 EC, disse que Deus é “o Deus uno, o primeiro e o Único, o Fazedor e Senhor de tudo”, que “nada tinha de coevo [contemporâneo] com ele . . . Mas ele era Um Só, sozinho; que, querendo-o, trouxe à existência o que não existia antes”, como o pré-humano Jesus, que foi criado.

[A descrição "o pré-humano Jesus" não está com aspas porque não está em nenhum escrito de Hipólito]

Fontes: Refutação de Todas as Heresias; Contra Noeto

Citações:
“Aquele que é sobre todos, Deus bendito, nasceu e se fez homem. Ele é para sempre Deus. Por este motivo João (Ap. 1.8) chamou Cristo de Todo-Poderoso”. – Contra Noeto, parte 6

“Deus, enquanto existia exclusivamente antes da criação do mundo, existiu em pluralidade”. – Contra Noeto, parte 10

“Segundo a tradição dos Apóstolos, Deus o Verbo desceu do céu…entrou no mundo e, em corpo, se mostrou ser Deus”. – Contra Noeto, Parta 17

“Só o Verbo é De Si mesmo e é por consiguinte também Deus e tem a substância de Deus”. – Refutação 10:33

“Pois Cristo é Deus sobre todos…” – Refutação 10: 34

ORÍGENES

Brochura: Orígenes, falecido por volta de 250 EC, disse que “o Pai e o Filho são duas substâncias . . . duas coisas quanto à sua essência”, e que “comparado com o Pai, [o Filho] é uma luz pequenina”.

[Orígenes aceitou a doutrina cristã ortodoxa até cair na influência de Luciano. Depois, Orígenes ensinou uma "unidade genérica" e não numérica, quer dizer, que ele cria que eles eram da mesma substância mas eram separados e que o Filho era um ser subordinado. Isto abriu caminho para o arianismo que mais tarde ensinou que o Filho foi criado]

Fontes: Contra Celso; Dos Princípios; Comentários sobre João

Citações:
“O Salvador às vezes concernente a si como um homem e ás vezes como uma natureza humana mais divina, uma natureza que é uma com a natureza incriada do Pai”  – Comentários sobre João, xix 2

“Ele quem nós cremos ser Deus e o Filho de Deus do princípio…”  - Contra Celso, iii 41

“As Sagradas Escrituras mostram que o Filho de Deus é mais antigo que todas as coisas criadas”. – Contra Celso, V, 37,

“Não deve haver nenhuma questão de mais ou de menos na Trindade” . – Dos Princípios, i, iii, 7,

No livro “O Deus Triúno”, de Edmund Fortmann, que é citado na Brochura, diz de Orígenes: “Orígenes é trinitário em suas idéias” (p.58).

CONCLUSÃO

Todos estes homens viveram e morreram nos séc. II e III e ensinaram que Deus era um Deus triúno, apesar da Sociedade Torre de Vigia declarar na página 8 da brochura que a doutrina não foi formulada até o século IV.
Você acredita que a Bíblia foi inspirada por Deus? Os Pais da Igreja eram os homens que determinaram o que era canônico (inspirado) e o que não era. Dos primeiros 200 anos da igreja, estes mesmos homens escreveram sobre a Divindade de Cristo, a personalidade do Espírito Santo, a completa ressurreição de Cristo (e nossa), a natureza da alma, inferno e castigo eterno. Assim, como você pode concordar que a Bíblia foi inspirada mas rejeita os mesmos homens cujas existência e escritos foram necessários para estabelecer a autenticidade destes livros bíblicos?

A Sentinela disse melhor isto quando enfatizou:

“Mentir é repugnante a Jeová. Eles não terão lugar no novo mundo de Deus. Uma religião que ensina mentiras não pode ser verdadeira“.

Sentinela, 15 de agosto de 1991, p.22 e Sentinela, 1 de dezembro de 1991, pág. 7

10.28.09

A Criação do Universo

Enviado em Gênesis tagged , , às 8:37 am por Marcelo Berti

“Existe qualquer coisa particularmente notável na maneira como o Espirito Santo abre este livo sublime. Ele apresenta-nos, imediatamente, a Deus, na Sua plenitude essencial do Seu Ser e no isalamento de Sua atuação. Toda matéria preliminar é dispensada. É a Deus que somos trazidos. Ouvimo-lo, de fato, quebrando o silêncio e brilhando sobre as trevas da tera com o propósito de fomentar um globo no qual pudesse mostrar o Seu poder eterno e Sua Divindade[1]

A verdade apresentada acima é estampada aos nossos olhos nos primeiro versos das Escrituras, por isso nosso estudo terá grande atenção aos detalhes desse texto com o objetivo de ressalatar a Grandeza e Sabedoria do Nosso Criador. A intenção desse estudo é conhecer mais detalhadamente a ação de Deus enquanto visa compreender a linguagem usada pelo autor para descrever a Criação. O modo do nosso estudo segue o exemplo auferido no Salmo 19: Com os olhos na Revelação Geral (1-6) estudamos a Revelação Específica (7-10) com o objetivo de levarnos à uma vida mais coerente com o Deus que transmiste Sua Mensagem por meio de sua Criação e Revelação (11-14). Assim, desejo que nossa investigação do conteúdo das escrituras seja feita no verdadeiro espírito de adoração para que as palavras dos nosso lábios e o meditar do nosso coração possam ser agradáveis na presença de Deus, nosso Redentor[2].

A.     O Princípio

No princípio: A palavra hebraica reshı̂̂yt é a palavra que origina em português o termo princípio.  A raiz dessa palavra é usada em diversas ocasiões como referência do início de algo. Em Gênesis 10.10 o termo descreve o início de um reino. Essa mesma raiz tamém é usada para descrever a primazia ou a proeminência de algo. Em Êxodo 34.26 descreve a parte mais importante dos primeiros frutos, sendo traduzido em português pela palavra primícia (ARA). Essa raiz também descreve o conceito de princípio como valor. Esse é o caso do uso encontrado em Provérbios 1.7. A referência dessa palavra nesse contexto normalmente é observada sob dois aspectos: (1) O início da atividade criativa de Deus; (2) O princípio da eternidade.

A segunda opção não parece favorável pela intrigante contradição que oferece, pois sabe-se que por definição a eternidade não tem início. Portanto, o texto parece indicar o início da atividade criativade Deus. Entretanto, Derek Kidner entende que o termo fala um pouco mais do que somente sobre o tempo ou a ocasião e para isso cita Pv.8.22 para concluir que o texto “revela algo do aspecto concernente a Deus deste princípio da criação[3]”.

O texto de Provérbios citado por Kidner nos faz pensar sobre o conceito da eternidade de Deus apresentada em Gn.1.1 e reforça a idéia de que o texto fala sobre o início da criação de Deus. Mais interessante é notar que esse texto parece adentrar na Eternidade da qual temos poucas informações. O Novo Testamento nesse sentido, ousa a apresentarnos relatos desse período da Perfeita existência de Deus anterior à Criação (Jo.1.1; 17.5, 26)[4].

Deus criou: A expressão Deus criou (bärä elöhîm) merece nossa atenção. A palavra elöhîm é frequente no AT e é usada em contextos diversos. Pode ser aplica a divindades pagãs (Ex.20.3; Dt. 4.7), pessoas (Ex.22.9, 27), anjos  (Sl.97.7) e ao Próprio Deus (Dt.4.35). O fato de estar no plural faz com que algumas pessoas pensem que trata-se da influência politeísta do Egito sobre a cosmovisão hebraica da dividnade. Entretanto, é importante lembrar que nesse retrato da Auto-revelação de Deus, Moisés nos lembra quem é o elöhîm criador em Gn.2.4: “Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou. A palavra Senhor em caixa alta no texto é o tetragrama hebraico (YHWH) usado para descrever a Pessoa do Criador[5]. Ou seja, Gn.1.1 não trata de da multiplicidade de divindades na criação, mas o uso da expressão em plural é uma descrição característica da divindade.

A clarividência dessa informação é observada no fato de que o termo bärä está no singular. Isso é evidência de que por mais que a expressão seja plural o autor pensa em uma pessoa. É interessante notar que sentença similar a essa é encontrada  para descrever Iahweh como Deus Criador (cf. Jr.31.22).

Sobre a grandeza dessa expressão David Merck diz que bära’na Bíblia foi usada somente de Deus.  Fala de atos muito especiais—a criação de tudo do nada (ex nihilo 1.1, 2.3,4), da criação de animais cientes (em contraste com plantas) (1.21) e do homem e da mulher (1.27). Somente Deus pode fazer algo do nada. Deus conhece intimamente todo átomo do universo porque Ele o fez! Cada célula, cada fio de cabelo, cada estrela por nome, Deus criou tudo que existe! (Sl 139)[6]

Céus e terra: Ainda que a expressão ëres (terra) possa indicar também uma local específico (Ex.32.4), e várias vezes indicar a terra prometida (Dt.4.5), não entendemos aqui que o autor fala da prepração da terra, mas em função do paralelo céu e terra (shāmayı̂m e ‘eres) entendemos que o autor fala de todo o universo. Nesse verso, até mesmo Sailham  entende que esse é o objetivo do autor: “O propósito de Gn.1.1 não é identificar a Deus desse modo [Redentor de Israel – Gn.48.15], mas identificá-lo como o Criador do Universo[7]”. Clyde Francisco, quem embora demonstre algumas credenciais mais liberais[8] também defende essa opção: “Os céus e a terra é uma expressão que significa todo o universo, todo o mundo. Neste versículo, o escritor está dizendo: ‘Deus criou tudo o que há no mundo’, Começando com o verso 2, ele descreve o processo da criação de maneira mais específica[9]” .

Sem forma e vazia: A descrição da terra é agora apresentada como tôhú e bohû. Esses dois vocábulos são usados juntos em algumas ocasiões no AT parecem sempre estarem focadas nos eventos descritos em Gn.1.2 (Is.34.1; Jr.4.23). É em função dessas duas palavras que a muitos entendem que a ação do verso 1 foi destruída pela queda de Satanás e como consequência a terra tornou-se sem forma e vazia. Contudo, o verbo usado nessa sentença, häyah, parece não permitir esse tipo de interpretação: por estar no qal perfeito ele descreve uma condição (era) e não um estado subsequente a uma ação específica (tornou-se). Em Gênesis, todas as vezes que o termo é usado no qal perfeito é normalmente traduzida para o português desse modo (Gn.3.20; 18.12; 29.17). Assim, entendemos que a terra ainda não estava formada (tôhú) e que nela nada havia (bohû). Em outras palavras, a terra era deserta e não habitada antes de ser trabalhada por Deus para ser “boa”. David Merck sobre isso disse: “As palavras [tôhú e boh] se referem à criação original, como se fosse o barro do oleiro, uniforme, sem forma, sem contéudo definido.  Em termos modernos, poderíamos descrever essa obra original como sendo as “células tronco” do mundo.  Era uma neblina universal, que Deus em Sua infinita sabedoria e majestade há de transformar no universo que conhecemos.  Existe uma lição maravilhosa para nós sobre o poder de Deus e Sua palavra, e a natureza de Deus.  Alguns entendem uma lacuna entre 1.1 e 1.2, como se Satanás tivesse caído e destruído a criação original.  Mas Deus não teria chamado tudo “muito bom” (1.31) se isso já tivesse acontecido[10]

Espírito de Deus pairava: Já temos falado sobre a ação criativa do Espírito Santo em estudos anteriores: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jo.33.4); “Quem mediu com o seu punho as águas, e tomou a medida dos céus aos palmos, e recolheu numa medida o pó da terra e pesou os montes com pesos e os outeiros em balanças, Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro o ensinou?” (Is.40.12). Mas, ainda não falamos sobre a palavra “râchaph” que também é usada para descrever a ação preservadora de Deus (Dt.32.11). Se esse sentido é entendido aqui, temos a evidência do Espirito Santo como preservador da criação em seu estágio inicial.

B.     A Descrição da Criação

A partir do verso 3 vemos a ação de Deus em transformar o a terra de sem forma e vazia para uma terra habitável, cheia das obras da sua criação e considerada boa. Essa criação acontece em seis “dias”. A palavra hebraica usada para descrever dias é a palavra Yom e ela merece nossa atenção aqui, pois há claros indícios de que ela não faça referência a um dia de 24h como nós o conhecemos hoje. O uso desse termo não tem referências temporais claramente definidas. É por isso que o DITAT diz sobre o termos: “Esta palavra é o ‘mais importante conceito de tempo no AT, pela qual pode-se expressar tanto um instante quanto um período de tempo[11]”. A palavra Yom é usada para descrever:’

  1. Dia, período inespecífico de tempo, ano:  Ela é usada em Gn.7.4 como dia oposto de noite, o qu esugere um período menor que 24h. Em Gn.18.1 descreve um período específico do dia. Entretanto Gn.15.18 parece fazer o uso do conceito de um dia completo (24h) como conhecemos. Eventualemente o termo é usado para descrever o tempo da vida de uma pessoa (Gn.9.29) ou um período de tempo  (Gn.10.25; 14.1; 26.15). Em algumas ocasiões a questão do tempo não parece ser definida (Gn.21.34; Gn.26.8). Em algumas ocasiões ainda faz referência ao período de 365 dias (1Sm.27.7; Ex.13.10).
  2. Referências Temporais: Em Ex.2.18 vemos o termo ser usado como referência ao dia de hoje, enquanto em Ex.5.14 ele denota o sentido de ontem, ao passo que em Ex.3.18 o sentido de agora.

Em outras palavras, o que estamos dizendo é que o termo tem largas conotações no contexto do Pentateuco e não seria sábio deduzir que o objetivo do autor fosse definir em 24h aquilo que não poderia ter sido avaliado desse modo. Por isso, entendo que o uso de Yom é uma impossibilidade para se definir o tempo em 24h.

Aliás, outros usos encontrados no próprio relato da criação sugerem que o autor não tem em mente um período específico. Em Gn.1.5a observamos que o termo é usado em contraste com a luz com as trevas ao passo que na segunda parte do mesmo verso ela descreve o período que o autor chama “tarde e manhã”, que envolveria todo as atividades descritas anteriormente. Entretanto, quando chegamos a Gn.2.4, lemos: “Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus” (ARC). Nesse verso vemos que todo o processo da criação é descrito pela palavra Yom sem que isso signifique um dia de 24h. Caso essa fosse a intenção do autor haveria grande contradição em suas palavras.

Outro argumento que parece favorecer um período maior do que 24h é a descrição do que acontece no sexto período. Segundo o capítulo 2 de Gênesis, o homem é criado pessoalmente por Deus (v.7). Então Deus planta um jardim para que o homem pudesse lavrar o solo (v.8; cf. V.5). Esse jardim passa a brotar toda sorte de árvores, inclusive a árvore do bem e do mal. Posteriormente, esse homem é colocado no jardim para o guardar e cultivar (v.15). Muito embora a ordem divina de criar uma auxiliadora idônea (v.18), a criação da mulher aconteceu apenas após Adão perceber que todos os animais tinham uma companheira que lhes correspondessem (v.19-20). Esses versos é que deixam evidente que nosso querido Adão passou mais tempo do que apenas meio dia sozinho. Ele teve a incumbência de nomear TODOS os animais. Deus estava pessoalmente envolvido com o processo, mas como a expressão da Imagem de Deus no homem era o domínio sobre todas as criaturas, Deus media sua soberania ao homem dando-lhe o privilégio de nomear. O ato de dar nome, segundo a cultura hebraica, está ligado a conhecer características e então tribuir um nome que represente o objeto de observação. Se isso é verdade, e ele teve que realizar isso com TODOS os animais do campo, todas as aves dos céus, ele deve ter investido mais que 8h de uma jornada de trabalho.

Dois detalhes ainda precisam ser anunciados: (1) É válido lembrar que o sol, que é responsável por nosso dia de 24h não teria sido criado até o quarto período da criação. Ou seja, o que acontece antes dele certamente não pode ser medido do mesmo modo; (2) A expressão tarde e noite, comumente utilizada para se defender que o dia de Gênesis teria 24h está em ordem invertida, o que sugere que o autor está a usar um recurso literário para estruturar seu texto e não para descrever um período de tempo de 24h. É digno de nota que o sétimo dia também não tem qualquer descrição de tarde e noite. Isso seria uma sugestão de que tal dia não teria acabado. Essa parece ser a interpretação de o autor de Hebreus faz para o texto (Hb.4.4).

Tendo feito essa análise do termo Yom passamos em nosso estudo a considerar os “dias” em Gênesis como períodos de tempo não necessariamente especificados pelo autor. Muito embora pudessem ser dias de 24h executados pelo poder do Criador, a terminologia empregada parece não exigir isso do texto. Assim, vamos conhecer os períodos da criação.

1.         Primeiro Período (v.3-5):

Disse Deus: Um distintivo interessante nesse texto, em relação ao mitos pagão da criação, é que Deus fala e tráz a existência o que quer criar. A fala de Deus como foco do Seu poder é descrito algumas vezes no AT: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl.33.9). Essa informação é constante no relato da Criação, pois essa expressão ocorre mais nove vezes. Ressaltar o poder criativo de Deus por meio de suas ordens nos faz pensar no peso que suas palavras tem: “A sua palavra é lei[12]” – O que diz acontece, o que ordena sucede.

Haja luz e houve luz: A primeira criação divina foi a Luz. Não sabemos ao certo a que se refere essa Luz, mas temos por certo que não trata-se do sol. O relato da criação nos diz que o grande luzeiro foi criado no quarto período da criação. O que é certo é que o termo empregado para luz aqui é também utilizada para descrever o efeito do sol após criado: “para alumiarem a terra” (Gn.1.17). O que é interessante é que “o caráter primário da luz, mesmo antes do sol, é um um dos postulados da ciência moderna[13]”. Derek Kidner sugere que a Luz vem à exsitência antes do sol e permanecerá após o sol: “E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre” (Ap.22.5). Clyde prefere entender essa expressão figuradamente e  sugere que essa luz é a que reflete as palavras do Criador na criação e no cristão no decorrer da vida (cf. Clyde, pp.175). Ryrie, que preferem entendê-la literalmente, opta por entender que essa fonte de luz era o que demarcava o período de tempo antes da criação do sol, como uma fonte de luz alternativa que seria substituída pelo sol no quarto dia (cf. Charles Ryrie, Bilbia Anotada, pp.7-8) . Norman Geisler e Thomas Howe sugerem que “é possível que ele [o sol] já existisse desde o primeiro dia, tendo somente aparecido ou se feito visível (com a dissipação da neblina) no quarto dia. Vemos num dia nublado a luz, mesmo quando não nos é possível ver o sol[14]

Luz era boa: A palavra que descreve a característica da luz é tôb. É usada para descrever o que é agradável (Gn.6.2; 26.7) e certamente, nesse caso, é a demonstração do apreço que Deus tem pelo que havia acabado de criar. Essa expressão de apreço acontece mais cinco vezes no relato da criação (v.10, 12, 18, 21, 25).

2.         Segundo Período (v.6-8):

Firmamento no meio das águas: A palavra raqîa’ é a palavra que descreve a expressão portuguesa firmamento, e faz referência em algumas ocasiões ao metal martelado. Esse parece ser o sentido que Jó atribui ao termo em um contexto similar: “Ou estendeste com ele o firmamento, que é sólido como espelho [metal] fundido?” (Jó.37.18). Esse termo traz a conotação de uma substância sólida e por conta disso, “muito eruditos estão convencidos de que este versículo expressa o conceito de um Universo em três andares, comum no Oriente Próximo da antiguidade. Os antigos criam que havia três camadas de água no mundo: sob a terra, sobre a terra e acima da terra[15]”. Entretanto, o sentido figurado dessa palavra tem sido normalmente entendido aqui, e portanto, pode significar uma expansão, como é percebido em algumas traduções. No relato da criação nós encotramos esse termo como o lugar onde Deus fixa os luzeiros e as estrelas (v.14), mas onde também voam os pássaros (v.20).

Fez Deus: De modo diferente do que tinha acontecido até aqui, onde Deus fala e acontece, nesse verso Deus fala e Ele mesmo realiza. Aqui, claramente ele é o autor da ação que o verso anterior Ele havia decretado. Essa interação do Criador com a criação é interessante e esse processo de Ordenar e Realizar acontece nos versos 21 e 21. “É evidente que  através do capítulo 1 de Gênesis existe uma consistente alternação entre os relatos em que Deus fala e faz, eventualmente dando a impressão de repetição (v.11 com 12; v.14 com 16; v.24 com 25). Esse fato deve ser pesado na presença da recorrente expressão ‘e assim se fez’ (wayehî-hên), que sugere queo que Deus havia ordenado  foi realizado[16]”.

Separou as águas: Esse verso também nos diz que houve uma separação efetiva das águas: aquelas que ficaram abaixo do firmamento fazem referência aos mares e rios, enquanto aquelas que ficaram acima do firmamento se referem ás nuvens que passavam a povoar a atmosfera. É bem verdade que alguns entendem que as águas que estavam acima do firmamento como o indício de uma grande camada de vapor que poderia manter a terra em melhores condições para a manutenção da vida e por isso, as primeiras personasgens bíblicas vivessem por tanto tempo  e a quantidade de água envolvida no dilúvio (cf. Charle Ryire).

Águas sobre o firmamento: As águas que estão acima do firmamento devem ser entendidas como nuvens, pelo menos parece ter sido esse o entendimento do autor de Pv.8.28: “quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo”.

3.         Terceiro Período (v.9-13):

Águas debaixo do céu: Oceanos e rios são formados pela ordem de Deus.

No terceiro período duas ações são feitas: (1) A separação da água e da terra seca, como um ato de prepração da terra; e (2) a  produção de plantas nas partes secas, como início do enchimento. É interessante notar que nesses versos a interação em ordenar e a realização de suas ordens. No verso nove lemos: “Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar” o autor nos conta que “assim foi”; o mesmo acontece no verso 11, quando ele diz: “Produza” e o verso 12 nos brinda com a expressão: “e a terra produziu”.

E chamou Deus: Uma nova descrição da Divindade é oferecida: Ele é aquele que pode nomear. Essa autoridade de nomear a criação é de posse exclusiva de Deus: Como Criador ele tem o direito de nomear toda sua criação. Entretanto, esse poder/papel  é oferecido ao homem: Ele é quem nomeia todos os animais. A posição de domínio que Deus tem sobre sua criação é agora mediado ao homem que pode exercer essa autoridade mediada por Deus. Ele é quem desempenha o papel de dominador sobre a criação. Essa autoridade é concedida junamente com a ordem para que isso aconteça. É interessante também considerar que o homem também nomeia a mulher após ser criada (2.23).

Erva que dê semente: É interessante notar que Deus estabelece que a fertilidade das plantas fosse sua forma de manutenção da espécie: a erva verde dará semenetes que estará sobre a terra. Essa relação da Determinação Divina da fertilidade o distingue dos inúmeros deuses da fertilidade: enquanto deuses podem ter poderes ou representações de fertilidade Yahweh é o Deus que decreta a fertilidade (note que Ele a ordena aos animais –v22 – e aos homens – v28).

Segundo sua espécie: A credencial apresentada para a criação é interessantemente notável: “Nesta pequena frase a teoria de que uma espécie que está sendo desenvolvida a partir de outro é negada[17]”, pois a reprodução é claramente segundo sua espécie. O termo hebraico min só é usado no AT para descrever plantas, ou animais de acordo com sua espécie, tipo. Isso significa que “Deus enlaçou todas as criaturas numa dependência comum dos seus elementos naturais de origem, embora dando a cada uma delas o caráter distintivo de sua espécie[18]”.

4.         Quarto Período (v.14-19):

Luzeiros no firmamento dos céus: Nesse verso temos que considerar alguns detalhes importantes: (1) Se o sol e a lua não haviam sido criados, como era possível haver luz no princípio? Quando Deus criou os céus e a terra (v.1), Ele não criou o sol e a lua? Essas e outras questões são possíve aqui, e várias respostas já foram dadas para esse dilema. Algumas dessas respostas já foram apresentadas rapidamente aqui, mas vale a pena detalha-lhas um pouco mais: “Alguns intérpretes sugerem que o sol foi criado anteriormente, e subsequente a terra foi atraída à sua esfera de influência. Outros dizem que uma pesada capa de nuvens enscondia o sol de quem estivesse na terra [19]”. De modo interessante, O. Zöckler, parece ter uma opinião intermediária, observe: “O sol e a lua foram criados no princípio. A luz, obviamente, vinha do sol, mas o vapor difundia a luz. Posteriormente o sol apareceu em um céu sem nuvens[20]”. Outros entendem que Deus criou os céus e a terra no princípio, mas os céus como obra de Deus não estavam completos até o quarto período. Calvino é favorável a essa interpretação, e sobre ela dia: “O mundo não estava perfeito até esse pronunciamento, do modo que hoje o vemos, mas ele foi criado com um vácuo caótico de céu e terra”.

Entretanto, todas essas alternativas parecem falhar na leitura do verbo asah usado no verso 16: “Fez Deus os dois grandes luzeiros”. A tentativa de compreender esse texto à luz de seu contexto parece louvável, mas não podemos deixar de considerar aspectos simples do texto ao conversarmos sobre grandes teorias de criação. Uma vez que entendo que a criação do Universo foi iniciada em Gn.1.1 e que cada período parece acrescer à essa criação algo que lhe falta, não vejo dificuldades em compreender a criação dos luzeiro no quarto período da criação. A questão da luz no primeiro período deve, certamente, referir-se algo mais do que simplesmente luz no sentido de iluminação, pois os luzeiros criados no quarto período havim sido criados para esse propósito.

Dois grandes luzeiros: É interessante o fato de que Moisés aqui evita nomear os astros criados chamando-os apenas de Maior e menor. Pelas funções atribuídas a cada um deles temos por certo qual é o luzeiro a que se refere. Ao que parece, o autor está evitando nomeá-los para que não se incorra no risco de que seus leitores seguissem o que teriam aprendido no Egito sobre o sol e a lua como divindades e se curvassem ante eles em adoração. Também parece interessante que aqui vemos uma correção da cosmogonia que os israelitas pudessem ter recebido no seu período de escravidão no Egito: Ao invés de terem os luzeiros como divindades em um panteão de divindades, o sol e a luz são criação direta de Deus. A descrição de propósito da criação desses luzeiros é uma clara demonstração da correção oferecida por Deus à visão egípcia: Os luzeiros fora criados para:

  1. Fazerem entre separação entre dia e noite: aquela separação (badal) outrora realizada por Deus em Gn.1.4 entre luz e trevas é agora realizada pelo sol e a lua; talvez esse seja um indicio de que essas funções anteriormente realizadas por Deus são agora mediada à Criação de Deus.
  2. Serem sinais para as estações, para dias e anos: do mesmo modo como apenas Deus sabia e fazia as divisões entre os períodos criativos, no quarto dia vemos que a organização parece estar acrescendo à Criação funcionamento próprio. Desse ponto em diante a terra e seus habitantes poderiam perceber o tempo em função da criação dos luzeiros.
  3. Alumiarem a terra: aquela Luz criada no começo é agora atribuída ao sol, que no exercício de sua habilidade de brilhar trasmite sua luz por intermédio da luz no período da noite e cumprem o papel designado por Deus, atribuindo graça e organização à Luz e Trevas organizadas pelo Criador no primeiro período da Criação.
  4. Governarem o dia e a noite: O verbo hebraico mashal expressa o sentido de domínio, governo e é usado assim em diversas ocorrências no AT, mas é importante ressaltar que o objeto desse verbo é o dia e a noite, não os habitantes da terra. Como luzeiros, sol e lua não coordenam as estações, mas evidenciam, marcam, mostram sinais, e como tal, falam por Deus e não para o destino das pessoas.

5.         Quinto Período (v.20-23):

Povoem-se as águas (…) Voem as aves: A criação dos animais é divida em dois períodos: as aves e peixes no quinto período e os animais selváticos no sexto. Nesse momento, Deus parece estar preenchendo os céus que havia criado do mesmo modo que o faz com os mares. “As águas reunidos em um só lugar, as águas do oceano, e aqueles em rios, piscinas e lagos, e que, antes de sua coleção para esses lugares, foi sentado, movido, e impregnada pelo Espírito de Deus, de modo que eles poderiam, como fizeram, pela ordem divina acompanhado com seu poder, levar adiante a abundância de criaturas[21]”.

A questão que parece ficar aqui, é: Qual é a razão de Deus criar em primeiro lugar os peixes e as aves e então os animais? Eu tenho entendido essa ordem como uma demonstração da organização de Deus e de uma simetria para a Criação, conforme demonstra à frente. Keil e Delitzsch entedem que “A verdadeira razão é bastante presente, que a criação prossegue ao longo da parte inferior para o superior, e nesta escala ascendente dos peixes ocupam, em grande medida um lugar mais baixo na economia animal de aves e animais de água e de aves de um lugar mais baixo de animais terrestres, mais especialmente os mamíferos. Novamente, não se afirma que apenas um único par foi criado de cada tipo, pelo contrário, as palavras, “vamos Produzam as águas de seres vivos”, mais parecem indicar que os animais foram criados, não só em uma rica variedade de gêneros e espécies, mas em grande número de indivíduos[22]”.

Criou Deus: É interessante perceber que a cada novo estágio na descrição da criação é marcada pelo uso de bära’: o universo é bära’ (1:1), posteriormente os seres vivos são bära’ (1:21), e finamente o homem e a mulher são bära’ (1:26). Albert Barnes entende que “na escolha de palavras diferentes para expressar a operação divina, duas considerações parecem ter guiado pena do autor – variedade e adequação de dicção. A diversidade de palavras que parece indicar uma diversidade no modo de exercer o poder divino[23]”.

Grandes baleias: Embora esta expressão é geralmente entendida pelas diferentes versões como baleias, o significando original, no entanto, deve ser entendido de modo geral e não específico, ou seja, uam referência a todos os grandes animais aquáticos. A expressão também já foi entendida como grandes monstros pelo fato de a expressão ser usada em outros lugares como descrição de outros animais (Ex.7.9 – serpente; Jo.7.12 – monstro marinho; Jo.30.29 – chacais). É bem verdade que aqui o autor tem uma visão mais genérica, e  portanto, animais marinhos parece uma boa interpretação dessa expressão.

Deus os abençoou: Essa é uma nova descrição no relato da criação: Pela primeira vez Deus abençoa sua criação. Anteriormente, Sua palavra já tinha sido levado à cabo no desenvolvimento da terra e do reino vegetal, mas agora Deus dirige Sua atenção aos animais que criou: Ele deseja que sejam fecundos. Enquanto digindades pagãs representavam a fecundidade, Yahweh é o Deus que ordena e coordena a fecundadide. Matthew Henry, sobre isso diz: “O poder da providência de Deus preserva todas as coisas, do mesmo modo como primeiramente o seu poder de criar produziu. Fecundidade é o efeito da bênção de Deus e deve ser atribuída a ele, a multiplicação dos peixes e aves, de ano para ano, ainda é o fruto dessa bênção[24]”. É interessante notar que essa bênção parece nos colocar diante de um novo patamar da Criação. Do mesmo modo que a terminologia parece sugerir algo especial para a ocasião, a benção de Deus parece confimar esse fato. Barnes sobre isso diz: “Somos levados para uma nova esfera de criação, neste dia, e nos deparamos com uma nova lei do Todo Poderoso. Abençoar é desejar, e, no caso de Deus, é querer algo de bom para o objeto da bênção. A bênção aqui pronunciada sobre os peixes e as aves é o de aumentar a abundante[25]”.

6.         Período Período (v.24-31):

Produza a terra seres viventes: Adam Clark entende que a expressão nephesh chaiyah é “um termo geral para expressar todos os seres dotados de vida animal, em qualquer de suas gradações infinitamente variados[26]”. A multiplicidade de seres vivos aqui é apresentada na criação, como proveniente da terra, não que ela tivesse o poder em si mesma para realzar esse feito, mas que por intermédio da ordem de Deus, da terra os animais foram produzidos. É por isso que Gill diz: “sem dúvida que foi pelo poder do Deus que acompanha a sua palavra, que essas criaturas foram produzidos da terra, e formado em suas várias formas[27]”.

Segundo a sua espécie: Para Keil e Delitzsch “isso se refere a todas as três classes de seres vivos, cada qual com sua espécie peculiar, conseqüentemente, na Gen 1: 25, onde a palavra de Deus é cumprida, é repetido com cada classe. Este ato de criação, também, como todos os que o precedem, é apresentado pela palavra divina “bom” para estar em conformidade com a vontade de Deus[28]

Façamos o homem: A primeira observação que devemos fazer aqui é que no sexto dia Deus tanto ordena e as coisas acontecem quanto ele mesmo se ocupa em realizar. No caso dos animais, ele ordena e assim se faz, contudo, no que se refere ao homem Ele apresenta o plano e executa pessoalmente: “Façamos o homem” e “Criou, pois Deus”. Sobre isso, Keil e Delitzsch  afirmam que “a criação do homem não se realiza através de uma palavra dirigida por Deus para a terra, mas como o resultado do decreto divino, “Vamos fazer o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, que anuncia logo no início da distinção e preeminência do homem acima de todas as outras criaturas da terra[29]”.  O homem é criado no mesmo dia que os animais, divide com eles o cenário da criação, provém do pó da terra do mesmo modo, mas “o apogeu de sua glória é sua relação com Deus[30]”: Ele é criado à imagem de Deus.

Nossa Imagem e Semelhança: As palavras hebraicas de Gênesis 1.26,27 são tselem e demuth, o equivalente às palavras gregas eikon e homoiosis. Tselem significa imagem moldada, uma figura moldada, imagem no sentido concreto da palavra (2Rs.11.18; Ez.23.14; Am.5.26). Já demuth também se refere à idéia de similaridade, mas num aspecto mais abstrato ou idealístico. Embora durante muito tempo se tentou diferenciar as palavras, nos relatos bíblicos as palavras imagem e semelhança são empregadas como sinônimos. Em Gn.1.26 são empregada as duas palavras, mas no v.27 apenas a primeira delas. Em Gn.5.1 só ocorre a palavra semelhança e no v.3 ambas novamente. Porém em Gn.9.6 aparece apenas a palavra imagem. Ou seja, são utilizadas em Gênesis de maneira intercambiável. Outro detalhe importante é que, até mesmo as preposições utilizadas são igualmente intercambiáveis (cf. Gn.1.26,27 e 5.1-3).

Ou seja, não parece sensato ficar buscando definições exaustivas para os termos, mas podemos certamente concordar com Addison Leitch quando diz: “o autor bíblico parece estar tentando expressar uma idéia muito difícil, na qual deseja deixar claro que o homem, de alguma maneira, é o reflexo concreto de Deus[31]”..

O que é certo sobre essa Criação é que esse reflexo concreto  inclui:

  1. Sua Justiça original: A imagem de Deus, na qual foi criado o homem, certamente inclui o que normalmente se denomina “justiça original”. Esse termo diz respeito a condição do homem, que foi criado sem pecado. Esse fato tem grande respaldo escriturístico. Em Eclesiastes lemos “que Deus fez o homem reto” (Ec.7.29) e por isso entendemos que “a criação do homem segundo esta imagem moral implica que a condição original do homem era de santidade positiva, e não um estado de inocência ou de neutralidade moral[32]”.
  2. Sua Constituição Natural: Não há dúvidas que o fato do homem ser criado segundo a Imagem de Deus implica que até mesmo os aspectos mais naturais do homem derivem de Dele. Ou seja, as faculdades intelectuais, sentimentos naturais, liberdade moral e a volição, no homem são reflexos do que Deus é em primeiro lugar. Por ser criado a Imagem de Deus o homem dispõe de uma capacidade moral e racional. Essas capacidades asseguram a condição de homem ao ser humano, e é impossível que participe dessa condição sem a presença dessas dádivas.
  3. Sua Constituição Espiritual: É natural esperar que o homem sendo criado a imagem de Deus desfrute de uma condição espiritual, pois “Deus é espírito” (Jo.4.24). E não é difícil observar esse fato, pois mesmo na narrativa da criação podemos encontrar dados referentes a esse fato: “…lhes soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn.2.7) Dois fatos podem ser ressaltados e considerados importantes nesta questão, (1) a vida do homem só foi possível após o sopro de vida da parte de Deus, sendo considerado como o princípio da vida do homem e (2) a expressão “alma vivente” é considerada condição de sua vida.

Em outras palavras, estamos dizendo que:

Tudo o que torna possível um ser autoconsciente, incluindo os aspectos materiais e imateriais do homem indica que o arquétipo do homem é o Deus trino e que nossos atributos refletem, ainda que imperfeitamente, o caráter de Deus. Também indica que o homem não é um ser autônomo, mas tem sua própria existência em dependência dAquele que o criou. Já o  aspecto físico do homem reflete o plano original de Deus de encarnar-se para a redenção da humanidade.

Aqui ainda cabe uma pergunta: Se a palavra Deus (elohîm) é um título e por isso pode governar verbo no singular, por que nesse verso vemos os verbos no Plural? Muitas propostas tem sido feitas para compreender esse dilema: (1) Alguns tem entendido que o plural  aqui é uma referência aos anjos, uma vez que também são chamados nas escrituras de elohîm (Philo de Alexandria). Entretanto esse posição é completamente conflitante com passagens como Gn.2.7; 2.22 e Is.40.13, entre várias outras. Sem contar que isso implicaria em dizer que o homem teria sido criado à imagem dos anjos também, o que cria irreparáveis dificuldades com Sl.8; Gn.1.27 e 5.1. (2) outros entendem como um plural majestático, similar ao que vemos no relato . (3) Outros entendem como uma referência direta à Trindade, uma vez que o NT é claro em mostar que Cristo é efetivo na Criação (Jo.1.1-3) e que o Espírito de Deus está ativo no mesmo cenário (Gn.1.2). Kevan é partidária dessa visão, e por isso mesmo diz: “É a Trindade quem delibera, sem qualqer intervenção ou consulta feita aos anjos[33]”.

Entranto, é válido demonstrar que a ortodoxia cristã navega entre a segunda e a terceira opção. Geisler deixa isso claro quando diz que “o plural da palavra hebraica propicia um sentido mais abrangente, mais majestático ao nome de Deus. Convém observar, entretanto, que o NT ensina com clareza que Deus é uma Trindade (Mt.3.16-17; 2Co.13.13; 1Pe.1.2)e, embora a doutrina da Trindade não seja claramente desenvolvida no AT, ela é vislumbrda em muitas passagens (Sl.110.1; Is.63.7, 9-10; Pv.30.4)[34]”. Kidner parece esboçar a mesma opinião, pois para ele é “esta plenitude, vislumbrada no VT, [que] haveria de ser revelada como tri-unidade, nos posteriores ‘nós’ e ‘nossa’ de Jo.14.23 (com 14.17)[35]”. É bem verdade que, diante do desenvolvimento do monoteísmo judaico, o plural aqui é uma referêcia à majestade de Deus. Mas, como o NT lança maiores luzes ao que se passa aqui, podemos assumir com tranquilidade que uma referência à Trindade é realizada aqui. Essa fato poderia ser observado pelo fato que a partir do verso 27 o termo elohîm coordena verbos no singular novamente (v.27 criou; 28 abençoou; 29 disse). Essa singularidade plural é uma pequena evidência da Triunidade tão claramente exposta no NT.

Deus os abençoou: A ordem de fertilidade dada por Deus aqui é em muito similar àquela já dada aos peixes e aves anteriormente. Entretanto, um aspecto dessa bênção só é aplicável ao homem: “sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra” (Gn.1.28). Essa bênção está em conformidade com o Ele mesmo havia prometido fazer no verso 26. Esse domínio é uma pressuposição de poder outorgado por Deus para o homem de modo que ele é seu representante sobre toda a criação. Essa é a opinião de Barnes: “A bênção divina é agora pronunciado sobre o homem. Ela difere da dos animais inferiores, principalmente no elemento de supremacia. Presume-se que o poder pertence a natureza do homem, segundo o conselho da vontade do Criador (Gn.1.26[36])”.

Entretanto, esse ato de abençoar não foi apenas um ato de “conferir uma dádiva, mas também uma função (cf. 1.21; 2.3), e fazê-lo com ardoso interesse[37]”. Esse conceito exposto por Kdner nos faz pensar que Deus ao criar o homem lhe atribui, não apenas a distinção das outras criaturas, por exercer uma função de domínio sobre elas, mas por exercer uma função em similaridade com Deus: Ele é o Soberano, mas divide Seu domínio com o ser humano. Note que em todos os estágios da criação o Criador nomeou o que fizera, entretanto, notamos que no sexto dia até mesmo essa atividade foi outorgada ao homem (Gn.2.19-20). Essa mediação de autoridade de domínio é uma expressão da Imagem de Deus, a qual o homem foi criado. Sobre isso, Sailhamer diz: “o propósito do autor não parece meramente marcar o homem como diferente do resto da criação’a narrativa parce intencionar demonstrar que o homem é semelhante a Deus: (…) O homem é uma criatura, mas uma criatura especial: Ele é feito à imagem e semelhança de Deus[38]”.

Viu Deus tudo quanto fizer e eis que era muito bom: Tudo operava conforme o plano divino! Tudo glorificava a Deus conforme sua própria esfera de criação. As máquinas de cada átomo funcionavam direitinho.  O mar, a terra, as plantas, as aves, os animais, tudo em sua esfera trazia glória a Deus. O homem ocupava seu devido lugar como vice-regente e imagem de Deus.  Harmonia.  Paz.  Beleza.  Perfeição.  Glória[39]”. “Se cada pormenor da Sua obra foi declarado ‘bom’ (4, 10, 12, 18, 21, 25) o conjunto todo é muito bom[40]”.

7.         Sétimo Período e Aplicação:

Foram acabados o céu e a terra: Trouxe para a conclusão. Nenhuma mudança permanente desde então tem sido feita no curso do mundo, não houve novas espécies de animais foram formadas, nenhuma lei da natureza revogada ou adicionada. Elas poderiam ter sido concluídas em um momento bem como em seis dias, mas o trabalho de criação foi gradual para a instrução do homem[41]”. “Aperfeiçoada e completada no espaço de seis dias, aos poucos, sucessivamente, na forma antes relacionados; pela palavra e poder de Deus que foram no primeiro dia criado do nada, mas eles não foram aperfeiçoados, embelezada, e adornada, e preenchida, até que todas as criaturas foram feitas[42]

Descançou nesse dia: Descanço aqui não é uma referência a um estado de repouso inerte, mas de deleite com as obras de Suas mãos. A impressão que temos nesse texto é que Deus agora inicia a obra da preservação (At.17). O uso que Jesus faz do sábado dá a entender que Ele entendia que Deus ainda trabalha (Jo.5.17). O autor de Hebreus (H.b.4.1-7)entende que esse descanço fala mais do que um estágio de deleite e desfrute divino de Suas Obras, mas fala da esfera de vida que Deus vive. Por isso, Von Rad diz que Deus “não o considera como algo para Deus somente, mas como algo que interessa ao mundo. Portanto, está sendo preparado o caminho para o bem final, o bem salvífico[43]”.

8.         Simetria da Criação:

Um dos detalhes dessa criação que ainda merece nossa atenção é o fato de que Deus exerceu Sua obra da Criação com perfeita simetria, observe o quadro abaixo:

Sem Forma Transformado em Forma Vazio Transformado em Habitação
v. 3-5 1º Período Luz v. 14-19 4º Período Luminares (sol, luz, estrelas)
v. 6-8 2º Período Céu (espaço superior)

Mar (espaço inferior)

v. 20-23 5º Período Peixes e Pássaros
v. 9-13 3º Período Terra Fértil

Plantas terrestres

v. 24-31 6º Período Animais e Homem
7 º Período – DESCANÇO: E era muito bom

Ao observar essa simetria Bob Deffinbaug diz: “Duas outras observações devem ser feitas. Primeiro, há uma seqüência nos seis dias. Fica claro que este relato está disposto cronologicamente, cada dia edificado sobre a atividade criativa dos dias anteriores. Segundo, há um processo envolvido na criação, um processo envolvendo a transformação do caos no cosmos, a desordem na ordem[44]”. Muito embora o autor prefira entender o texto como um relato de seis dias e não períodos, vemos que há solidez em sua observação.

C.     Aplicação

Diante dessa breve exposição da Criação, nós cristãos devemos chegar a dois reconhecimentos: (1) Nesse relato reconhecemos que Deus é; (2) e também reconhecemos quem nós somos. Esses dois reconhecimentos básicos devem nos levar ao espírito verdadeiro de adoração a esse Deus por quem Ele é, o que Faz e como nos privilegia com a possibilidade de um relacionamento com Ele.

1.         Reconhecimentos a respeito de Deus:

  1. O Poder da Palavra de Deus: O poder de Deus é claramente observado nesse trecho, “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl.33.9). Deus é o Deus cuja palavra é capaz de criar, cujas ordens são recebidas e concretizadas por toda criação.
  2. O Caráter de Deus: Em poucas ocasiões o caráter desse Deus é exposto, mas as expressões “bom” e “muito bom” descrevem o caráter de Deus que transformou aquilo que era sem forma e vazio em formatado e completo: Deus é um Deus que realiza suas obras por completo. É essa certeza que nos garante a salvação eterna: “estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fl.1.16).
  3. A Legislação de Deus: A quantidade de ordens realizadas por Deus nesse texto nos remete ao fato de que esse Deus é um Deus que estabelece Leis que se seguem por toda a existência da Criação: “Sejam férteis, multipliquem-se” são pequenos exemplos das Leis Universais que nosso Criador estabeleceu para o mundo. Isso é um indício de que esse Deus, além de demonstrar-se Criativo e Inteligente no exercício do Seu poder, também irá demonstrar Seu caráter no estabelecimento de suas Leis.

2.         Reconhecimentos a nosso próprio respeito:

Considerar quem Deus é nos faz pensar melhor sobre quem nós somos:

  1. Nós lhe devemos obediência: Na criação, Deus ordena e tudo lhe obedece. Nada lhe foge o poder da palavra. A história do homem é clara em demonstrar que a obediência a Deus é muito mais benéfica ao homem do que seguir suas próprias intenções.
  2. Nós lhe devemos adoração: “A grandeza de Deus é evidente nas obras de suas mãos – a criação que está ao nosso redor. Os homens deveriam temê-Lo e reverenciá-Lo por Quem Ele é[45]”. O salmista capta esse fato quando diz: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste,  que é o homem, que dele te lembres E o filho do homem, que o visites?” (Sl.8.3-4).

[1] MACKINTOSH, Charles Henry., Estudos sobre o livro de Gênesis. pp.5.

[2] Cf. Salmo 19.14

[3] KIDNER, Derek, Gênesis, Introdução e Comentário. pp.41.

[4] A Septuaginta nos brinda aqui com uma tradução que merece ser lembrada pela conexão que faz com Jo.1.1:  “Ἐν ἀρχῇ  ἐποίησεν θες”. A similaridade entre a versão da Septuaginta (LXX) de Gn.1.1 e o texto de Jo.1.1 (᾿Εν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος) nos remete com mais segurança ao fato de que o texto está a falar no princípio da criação, onde somente a Trindade existia.

[5] A clara dicotomia entre a pessoa de Deus e sua função como Deus é vista em Ex.20.7: “Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”.  Novamente, o termo Senhor em caixa alta é o Tetragrama (YHWH – Iahweh) enquanto a palavra Deus é a palavra elöhîm. O que se tem por certo, é que a Pessoa de Deus, reconhecida como Iahweh, é o único Deus verdadeiro, mas a expressão elöhîm pode tanto falar dele como Pessoa ou como Função ou Título. É o que observamos em Dt.4.35: “A ti te foi mostrado para que soubesses que o SENHOR é Deus; nenhum outro há senão ele”. Nesse caso a Pessoa de Iahweh é descrita como sendo Deus (sua função). A distinção entre Pessoa e Cargo é bem observado pelas palavras hebraicas e nos oferece uma clara leitura sobre quem estamos estudando.

[6] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[7] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.20.

[8] ex. Atribui a narrativa de Gênesis ao editor Sacerdotal.

[9] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.173.

[10] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[11] Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, pp.604

[12] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.175.

[13] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.83.

[14] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Pp.34.

[15] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.176.

[16] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.29.

[17] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[18] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.45.

[19] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.176-7.

[20] ZÖCKLER, O., Schoöpfung – Real Encyklopädie für prtestantische Theologie und Kirche, pp.735-36. IN: SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.33.

[21] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[22] KEIL, Johann, DELITZSCH, Franz, Commentary on the Old Testament.

[23] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[24] HENRY, Matthew, Commentary on the Whole Bible.

[25] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[26] CLARK, Adam, Commentary on the Bible.

[27] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[28] KEIL, Johann, DELITZSCH, Franz, Commentary on the Old Testament.

[29] Idem.

[30] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.45.

[31] [31] LEITCH, Addison. Image of God. In: RYRIE, Charles. Teologia Básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp. 218

[32] BERKHOF, Louis, pp. 189

[33] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.84.

[34] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Pp.35.

[35] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.49.

[36] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[37] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.49.

[38] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.37.

[39] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[40] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.50.

[41] JAMIESON, Robert, FAUSSET, A. R., BROWN, David , A Commentary on the Old and New Testaments.

[42] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[43] RAD, Von, Genesis. Pp.60 IN: KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.50-1.

[44] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens and the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[45] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens and the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

10.24.09

Usos anartros de θεος no Novo Testamento

Enviado em Testemunha de Jeová tagged , , , , às 4:51 pm por Marcelo Berti

Em grego, a palavra artigo é “αρθρον” (artron). Portanto, “anartro” é a designição para uma palavra desacompanhada de artigo. Nesse artigo iremos observar os usos anartros de θεος no Novo Testamento. A intenção é notar os modos como esse substantivo é usado sem artigo para verificar se a acusação dos Testemunhas de Jeová sobre o uso anartro em Jo1.1c é verdadeira.

A acusação é simples: Como em Jo.1.1c (e o Verbo era Deus – TNM) João usa o substantivo θεος sem artigo ele não estaria fazendo indicação de que o Logos é Deus, e portanto o traduzem como um deus. Para sustentar essa opinião afirmam que sempre que o substativo θεος é usado sem artigo ele não faz referência ao Deus Pai, ou a Jeová como eles preferem dizer.

A questão, portanto, é: O Novo Testamento suporta essa visão? Todos os usos anartros de θεος não são referências a Deus? Isso é mesmo verdadeiro? É isso que vamos verificar.

No Novo Testamento o substativo θεος é usado cerca de 1319 vezes sendo que aproximadamente 283 vezes ele acontece sem artigo. É interessante notar que apenas em 16 ocasiões a TNM traduz o termo ou de modo indefinido, qualitativo ou plural. Ou seja, em apenas seis porcento das vezes a TNM é fiel ao princípio que defende em Jo.1.1.

Se observado atentamente, notar-se-á que o substantivo θεος anartro no Novo Testamento é usado de quatro modos diferentes: (1) Quando uma clara relação de contraste entre o que é humano, terreno, e o que é divino celestial; (2) quando a expressão está na boca de um não cristão ou um judeu (3) quando uma qualidade ou atributo de Deus é anunciado; (4) quando usa-se o termo como nome próprio. Há largas evidências dessas distinções no Novo Testamento e abaixo, consideraremos alguns desses casos.

1. Relação de Contraste

Quando a divindade é contrastada com o que é humano, ou com o universo como distinto do Seu Criador, ou com a natureza ou com os atos dos espíritos malignos o Novo Testamento pode empregar o substantivo θεος anartro.

Um exemplo bem interessante desse tipo de uso no NT é encontrado em Rm.8.7-9:

Rom 8:7-8: “διότι τὸ φρόνημα τῆς σαρκὸς ἔχθρα εἰς Θεόν· τῷ γὰρ νόμῳ τοῦ Θεοῦ οὐχ ὑποτάσσεται· οὐδὲ γὰρ δύναται· οἱ δὲ ἐν σαρκὶ ὄντες Θεῷ ἀρέσαι οὐ δύνανται”

A TNM assim verte o texto: “por que a mentalidade segundo a carne significa inimizado com Deus, visto que não está em sujeição a Deus, de fato, nem pode estar. De modo que os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus[1].

Nesse caso notamos que a distinção entre o que é de Deus e humano é tão clara que poderia-se dizer que o artigo não é necessário. Mais interessante do que isso é que a TNM entende que, mesmo anartro, θεος aqui é uma referência a Deus Pai (Jeová para eles).

Vamos observar um outro caso onde isso é evidente:

Mateus 4.4

(GNT) ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπε· γέγραπται, οὐκ ἐπ᾿ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ἄνθρωπος, ἀλλ᾿ ἐπὶ παντὶ ῥήματι ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος Θεοῦ.

(TNM) Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová[2]

Esse verso é especial, pois Jeová é a tradução de θεος anartro. Não há dúvidas que a TNM entende que esse uso anarto é uma referência a Deus Pai. Esse tipo de ocasião acontece diversas vezes no NT, confira: Mt.6.24; 19.26; Lc.12.21; At,5.29; Rm 9.5; 1Co.10.20.

2. Voz de judeus e pagãos

Quando não cristãos falam de Deus, isso pode acontece sem artigo. Se observarmos as ocasiões em que um não cristão não judeu usa o termo θεος veremos que ele o faz sem artigo. Observe:

Act 12:22

(GNT) ὁ δὲ δῆμος ἐπεφώνει· Θεοῦ φωνὴ καὶ οὐκ ἀνθρώπου.

(TNM) O povo reunido por sua vez, começou a gritar: A voz de um deus e não de homem.

Esse é um caso interessante: A multidão aclama Herodes deus enquanto está ascentado na cadeira do juiz, fazendo discurso publico. É bem provável que alguns judeus fizessem parte dessa multidão, até por que Flávio Josefo descreve que alguns dos judeus tinha essa percepção sobre Herodes:

“E seus bajuladores gritaram, um de um lugar, e outro de outro (embora não no que é bom), que ele era um deus, e acrescentou: “Sê misericordioso para nós, porque embora tenhamos ti até reverenciado apenas como um rei, ainda vamos doravante ti próprio como superior à natureza mortal

Mas, eu gostaria de charmar sua atenção para o fato de que tanto θεος quanto ἄνθρωπος estão sem artigo, mas são traduzidos de modo diferente pela TNM. Não haveria qualquer demérito em dizer um homem, mas é ao menos interessante que essa tradução evitasse usar um modo de tradução que para eles é tão fundamental em Jo.1.1.

Em outras ocasiões, os apóstolos são confundidos com divindades gentílicas após realizarem alguns atos que os não cristãos não judeus não teriam entendido. Observe:

Act 28:6

(GNT) οἱ δὲ προσεδόκων αὐτὸν μέλλειν πίμπρασθαι ἢ καταπίπτειν ἄφνω νεκρόν. ἐπὶ πολὺ δὲ αὐτῶν προσδοκώντων καὶ θεωρούντων μηδὲν ἄτοπον εἰς αὐτὸν γινόμενον, μεταβαλόμενοι ἔλεγον Θεόν αὐτὸν εἶναι.

(TNM) Mas eles esperavam que fosse inchar com uma inflamação ou cair repentinamente morto. Depois de terem esperado por muito tempo e terem observado que nada nocivo lhe acontecia, mudaram de idéia e começaram a dizer que ele era um deus

Essa é uma declaração interessante: diante de uma crença politeísta, alguém afirmar que uma pessoa é um deus não é contraditória com sua própria crença. A situação a que Paulo havia sido exposto na ocasição, fez com que aqueles não cristãos que não tinham um pano de fundo judaico ou monoteísta pensassem que Paulo era uma divindade na terra. Essa não era a primeira ocasião que isso acontecia com Paulo:

Atos 14:11

(GNT) οἱ δὲ ὄχλοι ἰδόντες ὃ ἐποίησεν ὁ Παῦλος ἐπῆραν τὴν φωνὴν αὐτῶν Λυκαονιστὶ λέγοντες· οἱ θεοὶ ὁμοιωθέντες ἀνθρώποις κατέβησαν πρὸς ἡμᾶς·

(TNM) E as multidões, vendo o que Paulo tinha feito, elevaram suas vozes, dizendo na língua licaônica: Os deuses tornaram-se iguais a humanos e desceram a nós.

É bem interessante que nesse caso o texto grego ofereça o artigo definido para descrevê-los. Sabe-se que diante do panteão gentílico, Zeus e Hermens não eram os únicos deuses e portanto o artigo definido aqui não é um modo de apresentar a exclusividade desses dois deuses.

Considerando essas situações é observável que para gentios, a idéia de um deus entre muitos não é nem um pouco problemática e parece que era isso que eles estavam vendo em ambas as ocasiões cf. At.5.39; 17.23).

Contudo, temos que considerar com mais cautela quando vemos a declaração de um judeu a usar o vocábulo θεος anartro. Em algumas ocasiões a presença de Jesus entre os judeus dividiam as opiniões, observe:

João 9:16

(GNT) ἔλεγον οὖν ἐκ τῶν Φαρισαίων τινές· οὗτος ὁ ἄνθρωπος οὐκ ἔστι παρὰ Θεοῦ, ὅτι τὸ σάββατον οὐ τηρεῖ. ἄλλοι ἔλεγον· πῶς δύναται ἄνθρωπος ἁμαρτωλὸς τοιαῦτα σημεῖα ποιεῖν; καὶ σχίσμα ἦν ἐν αὐτοῖς.

(TNM) Portanto, alguns dos fariseus começaram a dizer: Este homem não é de Deus por que não observa o sábado. Outros começaram a dizer: Como pode um homem, que é pecador, realizar sinais desta sorte. De modo que havia uma divisão entre eles.

A visão que os judeus tinham a seu respeito era clara: ele era um homem. Entretanto, os religiosos o viam como alguém que não era de Deus, pelo fato de que, do ponto de vista deles, Jesus não guardava o sábado. Contudo, alguns, vendo o que ele fazia não poderiam acreditar que um homem pecador pudesse realizar o que Ele realizava.

É interessante nesse caso que embora o texto traga o verbete θεος anartro, é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Como monoteístas não faria sentido aos judeus imaginar que Jesus não era de alguma divindade pagã, mas o texto teria todo sentido se falasse de Jeová. O fato de θεος estar sem artigo não desmerece a referência a Deus feita nesse verso (cf. Jo.9.24).

É por isso, que pouco à frente no texto vemos um uso interessante do mesmo vocábulo:

João 10:33

(GNT) ἀπεκρίθησαν αὐτῷ οἱ ᾿Ιουδαῖοι λέγοντες· περὶ καλοῦ ἔργου οὐ λιθάζομέν σε, ἀλλὰ περὶ βλασφημίας, καὶ ὅτι σὺ ἄνθρωπος ὢν ποιεῖς σεαυτὸν Θεόν.

(TNM) Os judeus responderam-lhe: Nós te apedrejamos, não por uma obra excelente, mas por blasfêmia, sim, por que tu, embora sejas homem, te fazes deus.

Nesse texto temos que fazer algumas observações:

  1. Embora o substantivo θεος esteja desacompanhado de artigo, os tradutores não ousaram verter esse texto com o acréscimo do artigo indefinido. É válido dizer que o acréscimo desse artigo indefinido seria interessante para o argumento cristológico TJ: Por não ser igual a Deus, Jesus fazia-se igual a um deus. Contudo, essa expressão não caberia na boca dos judeus que argumentavam contra Jesus.
  2. Ou seja, uma vez que o texto não pode dizer “um deus”, por que os tradutores não usaram a expressão: “Jeová”, ou ao menos o D maiúsculo na palavra deus? Faria muito mais sentido se o texto dissesse que os judeus estavam a apedrejar Jesus pelo fato de ele estar se fazendo igual ao Deus de Israel, Jeová. Aliás, é isso o que o texto diz, mas não é essa a impressão que a TNM transmite ao texto. Esse é mais um caso onde a teologia TJ coordena a tradução de modo pernicioso: Ela até traduz de modo correto, mas não pode atribuir uma letra maiúscula ao termo Deus, pois isso poderia por em risco sua teologia.
  3. Mas, a grande questão aqui é: Quem os judeus tinham em mente? Será que uma espécie de deus intermediário? Não parece esse o motivo do ódio contra Jesus. Eles buscavam o apedrejar por blasfêmia, ou seja, a busca de igualdade com Deus.

O fato observado nesse texto é a confusão que Jesus estava a causar entre os judeus: Eles tinham convicção que Ele era humano, mas suas alegações de igualdade com Deus (que eram entendidas assim) o faziam parecer um blasfemo. É interessante notar que um judeu no primeiro século poderia entender perfeitamente as alegações de Jesus. O fato apresentado nesse texto não é a incapacidade de compreender, mas de aceitar.

3. Uso como nome próprio ou título

Quando o substantivo Deus é usado como um nome, o autor pode usá-lo sem artigo. Isso acontece extensivamente no NT. Esse uso pode ser feito em referência a Cristo e aos cristãos. Abaixo transcrevo algumas ocasiões em que esse tipo de uso diz respeito a cristãos:

Mateus 5.9

(GNT) μακάριοι οἱ εἰρηνοποιοί, ὅτι αὐτοὶ υἱοὶ Θεοῦ κληθήσονται.

(TNM) Felizes os pacíficos, por que serão chamados filhos de Deus

João 1:12

(GNT) ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτόν, ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα Θεοῦ γενέσθαι, τοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ,

(TNM) No entanto, a tantos quantos o receberam, a estes deu autoridade para se tornarem filhos de Deus, por que exerciam fé no seu nome

Romanos 8:14

(GNT) ὅσοι γὰρ Πνεύματι Θεοῦ ἄγονται, οὗτοι εἰσιν υἱοὶ Θεοῦ.

(TNM) Pois todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus.

Vários são os textos desse tipo no NT, e com esses não vamos nos ocupar, pois está claro que, embora seja anartro o uso de , a referência é a Deus Pai (Jeová). Vamos concentrar nossa atenção às ocasiões em que expressões desse tipo se referem ou a Jesus Cristo ou a Deus:

Mateus 14:33

(GNT) οἱ δὲ ἐν τῷ πλοίῳ ελθόντες προσεκύνησαν αὐτῷ λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς εἶ.

(TNM) Então os que estavam no barco prestaram-no homenagem, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.

Esse é um daqueles casos interessantes: (1) O que os discípulos tinham em mente ao chamarem Jesus de Filho de Deus? (2) O que significa a expressão “προσκυνεω”?

De fato, a resposta da primeira repousa na resposta da segunda. O conceito προσκυνεω de tem sido debatido entre cristãos e TJs por algum tempo já. Normalmente, os TJs que tem acesso a léxicos citam que essa expressão era comum entre povos orientais de respeito. De fato, o Thayer`s Greek Lexicon apresenta essa opção para o termo. Entretanto, esse não era o único modo como esse termo era entendido. O léxico Lidell-Scott também apresenta diversas ocasiões onde esse termo é usado fora do NT para descrever a adoração a divindades pagãs, inclusive, ele apresenta ocasiões onde isso é realizado em adoração a lugres sagrados. O Louw-Nida acredita que o termo seja usado no NT em referência a atitude de alguém diante de um divindade em adoração, veneração. É interessante notar que em diversas ocasiões é exatamente esse o sentido auferido pelo termo. Observe:

Atos 7:43

(GNT) καὶ ἀνελάβετε τὴν σκηνὴν τοῦ Μολὸχ καὶ τὸ ἄστρον τοῦ Θεοῦ ὑμῶν ῾Ρεμφάν, τοὺς τύπους οὓς ἐποιήσατε προσκυνεῖν αὐτοῖς· καὶ μετοικιῶ ὑμᾶς ἐπέκεινα Βαβυλῶνος.

(TNM).Mas, acolheste para vós a tende de Moloque e a estrela do deus Refã, as figuras que fizestes para adorá-las. Consquentemente, eu vos deportarei para além da Babilônia.

É interessante que um judeu usasse a o termo “προσκυνεω” para descrever a idolatria de seu povo. Mais interessante é que ele está a citar Amós 5.25-26 como descrição dessa idolatria. Ou seja, quando esse termo era usado para descrever o ato de prostrar-se ante idolos, o sentido é claramente o de adoração. Entretanto, é válido observar outros dois exemplos:

Mateus 4:9

(GNT) καὶ λέγει αὐτῷ· ταῦτά πάντα σοι δώσω, ἐὰν πεσὼν προσκυνήσῃς μοι.

(TNM) e disse-lhe: Todas estas coisas te darei se te prostrares e me fizeres um ato de adoração

Nesse verso vemos dois termos interessantes: prostar e adorar. A palavra que descreve o ato de colocar-se de joelhos perante alguém (prostrar) é “πιπτω” e adorar é a palavra “προσκυνεω”. Ou seja, o grego tem mais de uma palavra para descrever o ato de reverência perante uma pessoa. Por isso, é interessante que “προσκυνεω” tenha sido usado aqui apenas em referência à adoração que Satanás esperava receber de Jesus Cristo.

Esse é um momento oportuno para perguntar se Satanás queria mesmo uma adoração. Seguindo o modo de raciocínio TJ, o uso desse termo significaria apenas o ato de reverenciar, ou de prestar homenagem a Satanás. Contudo, a resposta de Jesus demonstra exatamente o contrário:

Mateus 4:10

(GNT) τότε λέγει αὐτῷ ὁ ᾿Ιησοῦς· ὕπαγε, Σατανᾶ· γέγραπται γάρ, Κύριον τὸν Θεόν σου προσκυνήσεις καὶ αὐτῷ μόνῳ λατρεύσεις.

(TNM) Jesus disse-lhe então: Vai-te Satanás! Pois está escrito: É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.

Muito interessante nesse texto é que Jesus entende a proposta de Satanás como uma violação de Deuteronomio 6.13. A proposta era adoração como reconhecimento de Divindade, como merecedor de prostrar-se para cultuar.

Agora a pergunta, por que que a reação dos discípulos ao προσεκύνησαν (adorar) a Jesus, a TNM traduziu como “prestar homenagem[3]? Certamente por que não podem admitir que Cristo possa receber adoração.

O que temos a dizer do texto de Mt.14.33, quando os discípulos o chamaram de Filho de Deus? Que os discípulos o adoraram por reconhecer sua Divindade e a expressão Filho de Deus é a confirmação desse fato.

É importante demosntrar que essa não é a única ocasião em que isso acontecem em referência a Cristo. Observe alguns textos:

Mateus 27:54 (cf. Mc.14.39)

(GNT) ῾Ο δὲ ἑκατόνταρχος καὶ οἱ μετ᾿ αὐτοῦ τηροῦντες τὸν ᾿Ιησοῦν, ἰδόντες τὸν σεισμὸν καὶ τὰ γενόμενα ἐφοβήθησαν σφόδρα λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς ἦν οὗτος.

(TNM) Mas o oficial do exército e os que estavam com ele vigiavam sobre Jesus, quando viram o terremoto e as coisas que aconteciam, ficaram com muito medo, dizendo: Este certamente era o Filho de Deus

Lucas 1:35

(GNT) καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ· Πνεῦμα ῞Αγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ, καὶ δύναμις ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται υἱὸς Θεοῦ.

(TNM) O anjo disse-lhe em resposta: Espirito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te encobrirá. Por esta razão, também, o nascido será chamado santo, Filho de Deus.

João 1:18

(GNT) Θεὸν οὐδεὶς ἑώρακε πώποτε· μονογενὴς θεος ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρὸς, ἐκεῖνος ἐξηγήσατο.

(TNM) Nenhum homem jamais viu a Deus; o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado.

Embora muitos outros exemplos pudessem ser demontrados, esses são suficientes. Os dois primeiros refletem o que já temos demonstrado. Entretanto, o último verso merece nosso atenção por dois motivos: (1) O termo θεος é anartro quando está em referência a Deus Pai (Jeová) e (2) é anartro em referência ao Filho.

Não há qualquer dúvida de que o Deus Pai é mencionado no início do verso, aliás, o texto mostra claramente que o Filho é quem explica (apresenta, demosntra) o Pai. A questão é como entender o título μονογενὴς θεος oferecido a Cristo.

Como já tenho escrevido largamente sobre o assunto, recomento ao leitor visitar o artigo “O que dizer do problema textual de Jo.1.18?”. Mas, ainda vale uma resposta a pergunta acima mencionada: μονογενὴς θεος é o modo pelo qual João apresenta a divindade do Filho, o chamando claramente de Deus. Isso é tão evidente que a TNM traz um artigo definido para identificá-lo, entretanto, o faz em letra minúscula, pois não pode admitir que o texto diga que Jesus é Deus.

O termo μονογενὴς enfatiza a singularidade de Cristo de modo que só Ele é Filho de Deus como Ele é. Ele é o único em sua espécie, o mais amado dentre todos: Por que ele é θεος.

Como é bem evidente até aqui, o uso anartro de θεος não diz muito sobre como o texto deve ser entendido. Existem diversos outros exemplos desse tipo de uso do termo no NT e o leitor fará bem se os conhecer. (Algumas ocorrencias: Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16… etc)

4. Descrição da divindade

Em muitas ocasiões no NT quandos os autores tem a intenção de qualificar, ou seja atribuir qualidades a Deus, eles podem fazê-lo com o substantivo θεος anartro. Esse uso é frequente em Paulo e o NT é repleto desse tipo de uso.

Só no primeiro capítulo de Romanos, Paulo faz sete (Rm.1.1, 7, 16, 17, 18, 23) usos de θεος anartro, e em três ocasiões vemos esse tipo de uso. Vamos observar abaixo:

Romanos 1:16

(GNT) Οὐ γὰρ ἐπαισχύνομαι τὸ εὐαγγέλιον τοῦ Χριστοῦ· δύναμις γὰρ Θεοῦ ἐστίν εἰς σωτηρίαν παντὶ τῷ πιστεύοντι, ᾿Ιουδαίῳ τε πρῶτον καὶ ῞Ελληνι.

(TNM) Pois eu não me envergonho das boas novas; são de fato, o poder de Deus para a salvação de todo aquele aquele que tem fé, primeiro para o judeu e também para o grego.

Romanos 1:17 (cf. Rm.3.5, 21-22)

(GNT) δικαιοσύνη γὰρ Θεοῦ ἐν αὐτῷ ἀποκαλύπτεται ἐκ πίστεως εἰς πίστιν, καθὼς γέγραπται· ὁ δὲ δίκαιος ἐκ πίστεως ζήσεται.

(TNM) pois nelas é que se revela a justiça de Deus em razão da fé e para com a fé, assim como está escrito: O justo viverá pela fé.

Romanos 1:18

(GNT) ᾿Αποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ Θεοῦ ἀπ᾿ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων,

(TNM) Pois o furor de Deus está sendo revelado desde o céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade de modo injusto.

É interessante notar que todas as vezes que Deus foi caracterizado nesses versos Paulo não usou artigo para referir-se a Deus. É bem verdade que em outras ocasiões ele o fez de modo articulado. Mas, é importante notar que em sua mente não há qualquer divisão de referência sobre quem é indicado com artigo ou sem artigo: Ele dirige-se a Deus Pai (Jeová) com e sem artigo.

Esse fato é claramente observado nos escritos paulinos, observe:

Romanos 13:1

(GNT) Πᾶσα ψυχὴ ἐξουσίαις ὑπερεχούσαις ὑποτασσέσθω. οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ· αἱ δὲ οὖσαι ἐξουσίαι ὑπὸ τοῦ Θεοῦ τεταγμέναι εἰσίν·

(TNM) Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; pois não há autoridade exceto por Deus; as autoridades existentes acham-se colocadas por Deus nas suas posições relativas.

Fora a má tradução da sentença “οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ·”, é interessante notar o uso intercambiável de artigo quando Paulo fala sobre Deus Pai (Jeová). Na primeira referência feita a Deus, Paulo usa a expressão “ὑπὸ Θεοῦ·” ao passo que usa “ὑπὸ τοῦ Θεοῦ”. No texto é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Se a regra do θεος anarto de Jo.1.1c for usada aqui, teríamos que entender que ora o texto fala de Deus, ora de um deus, mas sabemos que isso não é verdadeiro.

É também interessante notar que algumas descrições de Deus, que o mostram como exclusivo, também são feitas sem artigo, observe:

Romanos 16:27:

(GNT) μόνῳ σοφῷ Θεῷ διὰ ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ᾧ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· ἀμήν.

(TNM) a Deus, único sábio, seja a glória por intermédio de Jesus Cristo, para sempre. Amém.

A TNM aqui suaviza a expressão grega “μόνῳ σοφῷ Θεῷ”. Se tomada literalmente poderá dizer: “Ao único sábio Deus”. A idéia da exclusividade nesse texto é claramente observado pelo adjetivo “μόνος”, mas toda a sentença é escrita sem artigo. Certamente isso não faz qualquer demérito a quem Deus é, mas por que o faria em relação a Cristo em Jo.1.1c? A argumentação TJ nesse quesito começa a mostrar-se insuficiente: Não há qualquer razão para o uso anartro de θεος significar “um deus”.

Apesar de serem muitos os casos como esses no NT, gostaria de apresentar apenas mais um, encontrado em 1Coríntios:

1Coríntios 8:4

(GNT) Περὶ τῆς βρώσεως οὖν τῶν εἰδωλοθύτων, οἴδαμεν ὅτι οὐδὲν εἴδωλον ἐν κόσμῳ, καὶ ὅτι οὐδεὶς Θεὸς ἕτερος εἰ μὴ εἷς.

(TNM) Ora, acerca de comer alimentos oferecidos a ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há Deus senão um só.

1Coríntios 8:5

(GNT) καὶ γὰρ εἴπερ εἰσὶ λεγόμενοι θεοὶ εἴτε ἐν οὐρανῷ εἴτε ἐπὶ τῆς γῆς, ὥσπερ εἰσὶ θεοὶ πολλοὶ καὶ κύριοι πολλοί,

(TNM) Pois, embora haja os que se chamem deuses, quer no céu quer na terra, assim como há muitos deuses e senhores

1Coríntios 8:6

(GNT) ἀλλ᾿ ἡμῖν ες Θεὸς ὁ πατήρ, ἐξ οὗ τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς εἰς αὐτόν, καὶ εἷς Κύριος ᾿Ιησοῦς Χριστός, δι᾿ οὗ τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς δι᾿ αὐτοῦ.

(TNM) para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas e nós para ele; e há um só Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem sõ todas as coisas, e nós por intermédio dele.

Nesse breve texto vemos três usos interessantes do substantivo θεος anartro. No primeiro vemos a clara declaração de que não existe qualquer outro Deus (Jeová). Esse uso está em conformidade Romanos 16.27. Nessa caso, não temos qualquer dúvida de que a ênfase aqui é o Deus Pai (Jeová).

Contudo, no segundo verso vemos o uso de anartro θεος no plural. Essa afirmação merece nossa atenção: Paulo afirma que não existe apenas um Deus, depois diz que existem aqueles que se dizem deuses e que esses são muitos. A idéia aqui é que Paulo fala da caracterização que poderia ser encontrada em uma cidade pagã como Corínto: a idolatria era algo forte na cidade, e por isso, era possível encontrar ao redor dos cristãos coisas ou pessoas denominadas deuses, mas que de fato não o eram. Eram divindades por nomenclatura não por essência. Mas, é interessante notar que a TNM não atribui artigo indefinido nesse usos anartro de θεος, em nenhuma das duas ocasiões que acontecem aqui: A TNM traduziu para o português sem qualquer artigo, o que sabemos que é uma boa tradução aqui. Mas, mais uma vez, a regra do θεος anartro de Jo.1.1.c não é usada.

Mas, vamos ao último verso mencionado: Note que a tradução da TNM diz: “há realmente um só Deus, o Pai”. Nesse verso, Paulo faz uso do termo “εἷς” como numeral para evidenciar a singularidade de Deus ante aos muitos deuses de Corinto. Outro fato interessante é que ele chama esse único Deus de ὁ πατήρ, o Pai. Esse único Deus, o Pai (Jeová) é aquele mesmo Deus do verso quatro que é descrito sem artigo grego. Ou seja, não há qualquer demérito conceitual a Deus pelo fato de que o substantivos θεος é anartro.

Conclusão

O que podemos dizer da TNM em ocasiões em que o substantivo θεος é usado sem artigo?

  1. Podemos dizer com certeza que ela opta por acrescer o artigo indefinido nas ocasiões em que um não cristão fala, como vimos nos exemplos de Atos.
  2. Também vimos que em nenhuma ocasião em que o termos faz referência a Deus Pai (Jeová) veio acompanhada de artigo indefinido da tradução para o Português.
  3. Também vimos que, traduções diferentes dessas apenas ocorreram quando o substantivos θεος anartro estava no plural, ocasiões que tem-se por certo não tratar de Deus.
  4. É válido lembrar que também vimos duas ocasiões (Jo.1.18; 10.33) onde o substantivo θεος anartro é usado em referência a Cristo e a TNM não ousou acrescer artigo indefino na sentença.

Em outras palavras, a TNM só optou por acrescer artigo indefinido em tradução ao substantivo θεος anartro em uma ocasião distinta e específica: João 1.1c. Normalmente os TJ afirmam que sua tradução é livre de apelos teológicos, mas nosso estudo demonstrou exatamente o contrário: Na tradução de João 1.1c ela foi parcial e motivada por teologia, não por gramática ou coerência de critérios de tradução.

Por isso, podemos dizer asseguradamente diante das evidências apresentadas: No NT o uso anarto de θεος não implica em uso de artigo indefinido na tradução, como se isso fosse uma regra. Muito pelo contrário, são raras e poucas as ocasiões em que isso acontece, e normalmente é devido a um fator contextual.

Assim, nossa pergunta permanece: Por que a TNM mantém o artigo indefinido em Jo.1.1c?


[1] Vamos considerar o modo de tradução da TNM nesses versos:

  1. Ao traduzir a expressão “τῆς σαρκὸς” os tradutores optaram por acrescer a expressão “segundo”. Essa tradução reflete uma certa inabilidade dos tradutores, pois para que essa tradução fosse possível era necessário que a expressão estivesse no acusativo acompanhado da preposição “κατὰ”. Essa simples alteração remove o peso do argumento de Paulo nesses versos. O Genitivo aqui é de posse, ou seja, a mentalidade que pertence à carne (a mentalidade da carne).
  2. Ao traduzir a expressão “εἰς Θεόν” os tradutores minimizaram o impacto do contraste oferecido na primeira senteça. O conceito de “εἰς” aqui foi abrandado e o contraste foi suavizado. Como a intenção de Paulo nesse texto é apresentar o claro contraste entre o que é de Deus e o que é natural do homem decaído em pecado: Por isso, uma tradução mais adequada seria: “inimizade contra Deus”.
  3. Ao traduzir “ἐν σαρκὶ” os tradutores alteração o status da pessoa que Paulo descreve aqui. Se observado com atenção, Paulo fala sobre os que estão na carne, uma condição anterior a salvação. Entretanto, a TNM verte como se Paulo estivesse falando de uma situação. A questão não é sobre estar em harmonia (palavra que nem consta no texto) com a carne, mas estar em uma condição: na carne. Considerando essas pequenas modificações, o texto passa a dizer algo diametralmente oposto ao que Paulo quis que ele dissesse.

[2] A tradução de “ζήσεται” oferecida nesse texto é mais circunstancial que gramatical. Ele é apresentado como presente histórico, mas está claramente no futuro, sendo melhor traduzido por “viverá”.

[3] Observe que o mesmo acontece em Mt.2.2

Usos Anartros de θεος no Novo Testamento

Em grego, a palavra artigo é “αρθρον” (artron). Portanto, “anartro” é a designição para uma palavra desacompanhada de artigo. Nesse artigo iremos observar os usos anartros de θεος no Novo Testamento. A intenção é notar os modos como esse substantivo é usado sem artigo para verificar se a acusação dos Testemunhas de Jeová sobre o uso anartro em Jo1.1c é verdadeira.

A acusação é simples: Como em Jo.1.1c (e o Verbo era Deus – TNM) João usa o substantivo θεος sem artigo ele não estaria fazendo indicação de que o Logos é Deus, e portanto o traduzem como um deus. Para sustentar essa opinião afirmam que sempre que o substativo θεος é usado sem artigo ele não faz referência ao Deus Pai, ou a Jeová como eles preferem dizer.

A questão, portanto, é: O Novo Testamento suporta essa visão? Todos os usos anartros de θεος não são referências a Deus? Isso é mesmo verdadeiro? É isso que vamos verificar.

No Novo Testamento o substativo θεος é usado cerca de 1319 vezes sendo que aproximadamente 283 vezes ele acontece sem artigo. É interessante notar que apenas em 16 ocasiões a TNM traduz o termo ou de modo indefinido, qualitativo ou plural. Ou seja, em apenas seis porcento das vezes a TNM é fiel ao princípio que defende em Jo.1.1.

Se observado atentamente, notar-se-á que o substantivo θεος anartro no Novo Testamento é usado de quatro modos diferentes: (1) Quando uma clara relação de contraste entre o que é humano, terreno, e o que é divino celestial; (2) quando a expressão está na boca de um não cristão ou um judeu (3) quando uma qualidade ou atributo de Deus é anunciado; (4) quando usa-se o termo como nome próprio. Há largas evidências dessas distinções no Novo Testamento e abaixo, consideraremos alguns desses casos.

1. Relação de Contraste

Quando a divindade é contrastada com o que é humano, ou com o universo como distinto do Seu Criador, ou com a natureza ou com os atos dos espíritos malignos o Novo Testamento pode empregar o substantivo θεος anartro.

Um exemplo bem interessante desse tipo de uso no NT é encontrado em Rm.8.7-9:

Rom 8:7-8: διότι τὸ φρόνημα τῆς σαρκὸς χθρα εἰς Θεόν· τῷ γὰρ νόμῳ τοῦ Θεοῦ οὐχ ὑποτάσσεται· οὐδὲ γὰρ δύναται· οἱ δὲ ἐν σαρκὶ ντες Θεῷ ἀρέσαι οὐ δύνανται

A TNM assim verte o texto: “por que a mentalidade segundo a carne significa inimizado com Deus, visto que não está em sujeição a Deus, de fato, nem pode estar. De modo que os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus[1].

Nesse caso notamos que a distinção entre o que é de Deus e humano é tão clara que poderia-se dizer que o artigo não é necessário. Mais interessante do que isso é que a TNM entende que, mesmo anartro, θεος aqui é uma referência a Deus Pai (Jeová para eles).

Vamos observar um outro caso onde isso é evidente:

Mateus 4.4

(GNT) ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπε· γέγραπται, οὐκ ἐπ᾿ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ἄνθρωπος, ἀλλ᾿ ἐπὶ παντὶ ῥήματι ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος Θεοῦ.

(TNM) Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová[2]

Esse verso é especial, pois Jeová é a tradução de θεος anartro. Não há dúvidas que a TNM entende que esse uso anarto é uma referência a Deus Pai. Esse tipo de ocasião acontece diversas vezes no NT, confira: Mt.6.24; 19.26; Lc.12.21; At,5.29; Rm 9.5; 1Co.10.20.

2. Voz de judeus e pagãos

Quando não cristãos falam de Deus, isso pode acontece sem artigo. Se observarmos as ocasiões em que um não cristão não judeu usa o termo θεος veremos que ele o faz sem artigo. Observe:

Act 12:22

(GNT) ὁ δὲ δῆμος ἐπεφώνει· Θεοῦ φωνὴ καὶ οὐκ ἀνθρώπου.

(TNM) O povo reunido por sua vez, começou a gritar: A voz de um deus e não de homem.

Esse é um caso interessante: A multidão aclama Herodes deus enquanto está ascentado na cadeira do juiz, fazendo discurso publico. É bem provável que alguns judeus fizessem parte dessa multidão, até por que Flávio Josefo descreve que alguns dos judeus tinha essa percepção sobre Herodes:

“And presently his flatterers cried out, one from one place, and another from another (though not for his good), that he was a god; and they added, ‘Be thou merciful unto us; for although we have hitherto reverenced thee only as a king, yet shall we henceforth own thee as a superior to mortal nature”

Mas, eu gostaria de charmar sua atenção para o fato de que tanto θεος quanto ἄνθρωπος estão sem artigo, mas são traduzidos de modo diferente pela TNM. Não haveria qualquer demérito em dizer um homem, mas é ao menos interessante que essa tradução evitasse usar um modo de tradução que para eles é tão fundamental em Jo.1.1.

Em outras ocasiões, os apóstolos são confundidos com divindades gentílicas após realizarem alguns atos que os não cristãos não judeus não teriam entendido. Observe:

Act 28:6

(GNT) οἱ δὲ προσεδόκων αὐτὸν μέλλειν πίμπρασθαι καταπίπτειν ἄφνω νεκρόν. ἐπὶ πολὺ δὲ αὐτῶν προσδοκώντων καὶ θεωρούντων μηδὲν ἄτοπον εἰς αὐτὸν γινόμενον, μεταβαλόμενοι ἔλεγον Θεόν αὐτὸν εἶναι.

(TNM) Mas eles esperavam que fosse inchar com uma inflamação ou cair repentinamente morto. Depois de terem esperado por muito tempo e terem observado que nada nocivo lhe acontecia, mudaram de idéia e começaram a dizer que ele era um deus

Essa é uma declaração interessante: diante de uma crença politeísta, alguém afirmar que uma pessoa é um deus não é contraditória com sua própria crença. A situação a que Paulo havia sido exposto na ocasição, fez com que aqueles não cristãos que não tinham um pano de fundo judaico ou monoteísta pensassem que Paulo era uma divindade na terra. Essa não era a primeira ocasião que isso acontecia com Paulo:

Atos 14:11

(GNT) οἱ δὲ ὄχλοι ἰδόντες ὃ ἐποίησεν ὁ Παῦλος ἐπῆραν τὴν φωνὴν αὐτῶν Λυκαονιστὶ λέγοντες· οἱ θεοὶ ὁμοιωθέντες ἀνθρώποις κατέβησαν πρὸς ἡμᾶς·

(TNM) E as multidões, vendo o que Paulo tinha feito, elevaram suas vozes, dizendo na língua licaônica: Os deuses tornaram-se iguais a humanos e desceram a nós.

É bem interessante que nesse caso o texto grego ofereça o artigo definido para descrevê-los. Sabe-se que diante do panteão gentílico, Zeus e Hermens não eram os únicos deuses e portanto o artigo definido aqui não é um modo de apresentar a exclusividade desses dois deuses.

Considerando essas situações é observável que para gentios, a idéia de um deus entre muitos não é nem um pouco problemática e parece que era isso que eles estavam vendo em ambas as ocasiões cf. At.5.39; 17.23).

Contudo, temos que considerar com mais cautela quando vemos a declaração de um judeu a usar o vocábulo θεος anartro. Em algumas ocasiões a presença de Jesus entre os judeus dividiam as opiniões, observe:

João 9:16

(GNT) ἔλεγον οὖν ἐκ τῶν Φαρισαίων τινές· οὗτος ὁ ἄνθρωπος οὐκ ἔστι παρὰ Θεοῦ, ὅτι τὸ σάββατον οὐ τηρεῖ. ἄλλοι ἔλεγον· πῶς δύναται ἄνθρωπος ἁμαρτωλὸς τοιαῦτα σημεῖα ποιεῖν; καὶ σχίσμα ἦν ἐν αὐτοῖς.

(TNM) Portanto, alguns dos fariseus começaram a dizer: Este homem não é de Deus por que não observa o sábado. Outros começaram a dizer: Como pode um homem, que é pecador, realizar sinais desta sorte. De modo que havia uma divisão entre eles.

A visão que os judeus tinham a seu respeito era clara: ele era um homem. Entretanto, os religiosos o viam como alguém que não era de Deus, pelo fato de que, do ponto de vista deles, Jesus não guardava o sábado. Contudo, alguns, vendo o que ele fazia não poderiam acreditar que um homem pecador pudesse realizar o que Ele realizava.

É interessante nesse caso que embora o texto traga o verbete θεος anartro, é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Como monoteístas não faria sentido aos judeus imaginar que Jesus não era de alguma divindade pagã, mas o texto teria todo sentido se falasse de Jeová. O fato de θεος estar sem artigo não desmerece a referência a Deus feita nesse verso (cf. Jo.9.24).

É por isso, que pouco à frente no texto vemos um uso interessante do mesmo vocábulo:

João 10:33

(GNT) ἀπεκρίθησαν αὐτῷ οἱ ᾿Ιουδαῖοι λέγοντες· περὶ καλοῦ ἔργου οὐ λιθάζομέν σε, ἀλλὰ περὶ βλασφημίας, καὶ ὅτι σὺ ἄνθρωπος ὢν ποιεῖς σεαυτὸν Θεόν.

(TNM) Os judeus responderam-lhe: Nós te apedrejamos, não por uma obra excelente, mas por blasfêmia, sim, por que tu, embora sejas homem, te fazes deus.

Nesse texto temos que fazer algumas observações:

1. Embora o substantivo θεος esteja desacompanhado de artigo, os tradutores não ousaram verter esse texto com o acréscimo do artigo indefinido. É válido dizer que o acréscimo desse artigo indefinido seria interessante para o argumento cristológico TJ: Por não ser igual a Deus, Jesus fazia-se igual a um deus. Contudo, essa expressão não caberia na boca dos judeus que argumentavam contra Jesus.

2. Ou seja, uma vez que o texto não pode dizer “um deus”, por que os tradutores não usaram a expressão: “Jeová”, ou ao menos o D maiúsculo na palavra deus? Faria muito mais sentido se o texto dissesse que os judeus estavam a apedrejar Jesus pelo fato de ele estar se fazendo igual ao Deus de Israel, Jeová. Aliás, é isso o que o texto diz, mas não é essa a impressão que a TNM transmite ao texto. Esse é mais um caso onde a teologia TJ coordena a tradução de modo pernicioso: Ela até traduz de modo correto, mas não pode atribuir uma letra maiúscula ao termo Deus, pois isso poderia por em risco sua teologia.

3. Mas, a grande questão aqui é: Quem os judeus tinham em mente? Será que uma espécie de deus intermediário? Não parece esse o motivo do ódio contra Jesus. Eles buscavam o apedrejar por blasfêmia, ou seja, a busca de igualdade com Deus.

O fato observado nesse texto é a confusão que Jesus estava a causar entre os judeus: Eles tinham convicção que Ele era humano, mas suas alegações de igualdade com Deus (que eram entendidas assim) o faziam parecer um blasfemo. É interessante notar que um judeu no primeiro século poderia entender perfeitamente as alegações de Jesus. O fato apresentado nesse texto não é a incapacidade de compreender, mas de aceitar.

3. Uso como nome próprio ou título

Quando o substantivo Deus é usado como um nome, o autor pode usá-lo sem artigo. Isso acontece extensivamente no NT. Esse uso pode ser feito em referência a Cristo e aos cristãos. Abaixo transcrevo algumas ocasiões em que esse tipo de uso diz respeito a cristãos:

Mateus 5.9

(GNT) μακάριοι οἱ εἰρηνοποιοί, ὅτι αὐτοὶ υἱοὶ Θεοῦ κληθήσονται.

(TNM) Felizes os pacíficos, por que serão chamados filhos de Deus

João 1:12

(GNT) ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτόν, ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα Θεοῦ γενέσθαι, τοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ,

(TNM) No entanto, a tantos quantos o receberam, a estes deu autoridade para se tornarem filhos de Deus, por que exerciam fé no seu nome

Romanos 8:14

(GNT) ὅσοι γὰρ Πνεύματι Θεοῦ ἄγονται, οὗτοι εἰσιν υἱοὶ Θεοῦ.

(TNM) Pois todos os que são conduzidos pelo espírito de Deus, estes são filhos de Deus.

Vários são os textos desse tipo no NT, e com esses não vamos nos ocupar, pois está claro que, embora seja anartro o uso de , a referência é a Deus Pai (Jeová). Vamos concentrar nossa atenção às ocasiões em que expressões desse tipo se referem ou a Jesus Cristo ou a Deus:

Mateus 14:33

(GNT) οἱ δὲ ἐν τῷ πλοίῳ ελθόντες προσεκύνησαν αὐτῷ λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς εἶ.

(TNM) Então os que estavam no barco prestaram-no homenagem, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.

Esse é um daqueles casos interessantes: (1) O que os discípulos tinham em mente ao chamarem Jesus de Filho de Deus? (2) O que significa a expressão “προσκυνεω”?

De fato, a resposta da primeira repousa na resposta da segunda. O conceito προσκυνεω de tem sido debatido entre cristãos e TJs por algum tempo já. Normalmente, os TJs que tem acesso a léxicos citam que essa expressão era comum entre povos orientais de respeito. De fato, o Thayer`s Greek Lexicon apresenta essa opção para o termo. Entretanto, esse não era o único modo como esse termo era entendido. O léxico Lidell-Scott também apresenta diversas ocasiões onde esse termo é usado fora do NT para descrever a adoração a divindades pagãs, inclusive, ele apresenta ocasiões onde isso é realizado em adoração a lugres sagrados. O Louw-Nida acredita que o termo seja usado no NT em referência a atitude de alguém diante de um divindade em adoração, veneração. É interessante notar que em diversas ocasiões é exatamente esse o sentido auferido pelo termo. Observe:

Atos 7:43

(GNT) καὶ ἀνελάβετε τὴν σκηνὴν τοῦ Μολὸχ καὶ τὸ ἄστρον τοῦ Θεοῦ ὑμῶν ῾Ρεμφάν, τοὺς τύπους οὓς ἐποιήσατε προσκυνεῖν αὐτοῖς· καὶ μετοικιῶ ὑμᾶς ἐπέκεινα Βαβυλῶνος.

(TNM).Mas, acolheste para vós a tende de Moloque e a estrela do deus Refã, as figuras que fizestes para adorá-las. Consquentemente, eu vos deportarei para além da Babilônia.

É interessante que um judeu usasse a o termo “προσκυνεω” para descrever a idolatria de seu povo. Mais interessante é que ele está a citar Amós 5.25-26 como descrição dessa idolatria. Ou seja, quando esse termo era usado para descrever o ato de prostrar-se ante idolos, o sentido é claramente o de adoração. Entretanto, é válido observar outros dois exemplos:

Mateus 4:9

(GNT) καὶ λέγει αὐτῷ· ταῦτά πάντα σοι δώσω, ἐὰν πεσὼν προσκυνήσῃς μοι.

(TNM) e disse-lhe: Todas estas coisas te darei se te prostrares e me fizeres um ato de adoração

Nesse verso vemos dois termos interessantes: prostar e adorar. A palavra que descreve o ato de colocar-se de joelhos perante alguém (prostrar) é “πιπτω” e adorar é a palavra “προσκυνεω”. Ou seja, o grego tem mais de uma palavra para descrever o ato de reverência perante uma pessoa. Por isso, é interessante que “προσκυνεω” tenha sido usado aqui apenas em referência à adoração que Satanás esperava receber de Jesus Cristo.

Esse é um momento oportuno para perguntar se Satanás queria mesmo uma adoração. Seguindo o modo de raciocínio TJ, o uso desse termo significaria apenas o ato de reverenciar, ou de prestar homenagem a Satanás. Contudo, a resposta de Jesus demonstra exatamente o contrário:

Mateus 4:10

(GNT) τότε λέγει αὐτῷ ὁ ᾿Ιησοῦς· ὕπαγε, Σατανᾶ· γέγραπται γάρ, Κύριον τὸν Θεόν σου προσκυνήσεις καὶ αὐτῷ μόνῳ λατρεύσεις.

(TNM) Jesus disse-lhe então: Vai-te Satanás! Pois está escrito: É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.

Muito interessante nesse texto é que Jesus entende a proposta de Satanás como uma violação de Deuteronomio 6.13. A proposta era adoração como reconhecimento de Divindade, como merecedor de prostrar-se para cultuar.

Agora a pergunta, por que que a reação dos discípulos ao προσεκύνησαν (adorar) a Jesus, a TNM traduziu como “prestar homenagem[3]? Certamente por que não podem admitir que Cristo possa receber adoração.

O que temos a dizer do texto de Mt.14.33, quando os discípulos o chamaram de Filho de Deus? Que os discípulos o adoraram por reconhecer sua Divindade e a expressão Filho de Deus é a confirmação desse fato.

É importante demosntrar que essa não é a única ocasião em que isso acontecem em referência a Cristo. Observe alguns textos:

Mateus 27:54 (cf. Mc.14.39)

(GNT) ῾Ο δὲ ἑκατόνταρχος καὶ οἱ μετ᾿ αὐτοῦ τηροῦντες τὸν ᾿Ιησοῦν, ἰδόντες τὸν σεισμὸν καὶ τὰ γενόμενα ἐφοβήθησαν σφόδρα λέγοντες· ἀληθῶς Θεοῦ Υἱὸς ἦν οὗτος.

(TNM) Mas o oficial do exército e os que estavam com ele vigiavam sobre Jesus, quando viram o terremoto e as coisas que aconteciam, ficaram com muito medo, dizendo: Este certamente era o Filho de Deus

Lucas 1:35

(GNT) καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ· Πνεῦμα ῞Αγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ, καὶ δύναμις ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται υἱὸς Θεοῦ.

(TNM) O anjo disse-lhe em resposta: Espirito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te encobrirá. Por esta razão, também, o nascido será chamado santo, Filho de Deus.

João 1:18

(GNT) Θεὸν οὐδεὶς ἑώρακε πώποτε· μονογενὴς θεος ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρὸς, ἐκεῖνος ἐξηγήσατο.

(TNM) Nenhum homem jamais viu a Deus; o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado.

Embora muitos outros exemplos pudessem ser demontrados, esses são suficientes. Os dois primeiros refletem o que já temos demonstrado. Entretanto, o último verso merece nosso atenção por dois motivos: (1) O termo θεος é anartro quando está em referência a Deus Pai (Jeová) e (2) é anartro em referência ao Filho.

Não há qualquer dúvida de que o Deus Pai é mencionado no início do verso, aliás, o texto mostra claramente que o Filho é quem explica (apresenta, demosntra) o Pai. A questão é como entender o título μονογενὴς θεος oferecido a Cristo.

Como já tenho escrevido largamente sobre o assunto, recomento ao leitor visitar o artigo “O que dizer do problema textual de Jo.1.18?”. Mas, ainda vale uma resposta a pergunta acima mencionada: μονογενὴς θεος é o modo pelo qual João apresenta a divindade do Filho, o chamando claramente de Deus. Isso é tão evidente que a TNM traz um artigo definido para identificá-lo, entretanto, o faz em letra minúscula, pois não pode admitir que o texto diga que Jesus é Deus.

O termo μονογενὴς enfatiza a singularidade de Cristo de modo que só Ele é Filho de Deus como Ele é. Ele é o único em sua espécie, o mais amado dentre todos: Por que ele é θεος.

Como é bem evidente até aqui, o uso anartro de θεος não diz muito sobre como o texto deve ser entendido. Existem diversos outros exemplos desse tipo de uso do termo no NT e o leitor fará bem se os conhecer. (Algumas ocorrencias: Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16… etc)

4. Descrição da divindade

Em muitas ocasiões no NT quandos os autores tem a intenção de qualificar, ou seja atribuir qualidades a Deus, eles podem fazê-lo com o substantivo θεος anartro. Esse uso é frequente em Paulo e o NT é repleto desse tipo de uso.

Só no primeiro capítulo de Romanos, Paulo faz sete (Rm.1.1, 7, 16, 17, 18, 23) usos de θεος anartro, e em três ocasiões vemos esse tipo de uso. Vamos observar abaixo:

Romanos 1:16

(GNT) Οὐ γὰρ ἐπαισχύνομαι τὸ εὐαγγέλιον τοῦ Χριστοῦ· δύναμις γὰρ Θεοῦ ἐστίν εἰς σωτηρίαν παντὶ τῷ πιστεύοντι, ᾿Ιουδαίῳ τε πρῶτον καὶ ῞Ελληνι.

(TNM) Pois eu não me envergonho das boas novas; são de fato, o poder de Deus para a salvação de todo aquele aquele que tem fé, primeiro para o judeu e também para o grego.

Romanos 1:17 (cf. Rm.3.5, 21-22)

(GNT) δικαιοσύνη γὰρ Θεοῦ ἐν αὐτῷ ἀποκαλύπτεται ἐκ πίστεως εἰς πίστιν, καθὼς γέγραπται· ὁ δὲ δίκαιος ἐκ πίστεως ζήσεται.

(TNM) pois nelas é que se revela a justiça de Deus em razão da fé e para com a fé, assim como está escrito: O justo viverá pela fé.

Romanos 1:18

(GNT) ᾿Αποκαλύπτεται γὰρ ὀργὴ Θεοῦ ἀπ᾿ οὐρανοῦ ἐπὶ πᾶσαν ἀσέβειαν καὶ ἀδικίαν ἀνθρώπων τῶν τὴν ἀλήθειαν ἐν ἀδικίᾳ κατεχόντων,

(TNM) Pois o furor de Deus está sendo revelado desde o céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade de modo injusto.

É interessante notar que todas as vezes que Deus foi caracterizado nesses versos Paulo não usou artigo para referir-se a Deus. É bem verdade que em outras ocasiões ele o fez de modo articulado. Mas, é importante notar que em sua mente não há qualquer divisão de referência sobre quem é indicado com artigo ou sem artigo: Ele dirige-se a Deus Pai (Jeová) com e sem artigo.

Esse fato é claramente observado nos escritos paulinos, observe:

Romanos 13:1

(GNT) Πᾶσα ψυχὴ ἐξουσίαις ὑπερεχούσαις ὑποτασσέσθω. οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ· αἱ δὲ οὖσαι ἐξουσίαι ὑπὸ τοῦ Θεοῦ τεταγμέναι εἰσίν·

(TNM) Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; pois não há autoridade exceto por Deus; as autoridades existentes acham-se colocadas por Deus nas suas posições relativas.

Fora a má tradução da sentença “οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ Θεοῦ·”, é interessante notar o uso intercambiável de artigo quando Paulo fala sobre Deus Pai (Jeová). Na primeira referência feita a Deus, Paulo usa a expressão “ὑπὸ Θεοῦ·” ao passo que usa “ὑπὸ τοῦ Θεοῦ”. No texto é clara a referência a Deus Pai (Jeová). Se a regra do θεος anarto de Jo.1.1c for usada aqui, teríamos que entender que ora o texto fala de Deus, ora de um deus, mas sabemos que isso não é verdadeiro.

É também interessante notar que algumas descrições de Deus, que o mostram como exclusivo, também são feitas sem artigo, observe:

Romanos 16:27:

(GNT) μόνῳ σοφῷ Θεῷ διὰ ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ͅ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· ἀμήν.

(TNM) a Deus, único sábio, seja a glória por intermédio de Jesus Cristo, para sempre. Amém.

A TNM aqui suaviza a expressão grega “μόνῳ σοφῷ Θεῷ”. Se tomada literalmente poderá dizer: “Ao único sábio Deus”. A idéia da exclusividade nesse texto é claramente observado pelo adjetivo “μόνος”, mas toda a sentença é escrita sem artigo. Certamente isso não faz qualquer demérito a quem Deus é, mas por que o faria em relação a Cristo em Jo.1.1c? A argumentação TJ nesse quesito começa a mostrar-se insuficiente: Não há qualquer razão para o uso anartro de θεος significar “um deus”.

Apesar de serem muitos os casos como esses no NT, gostaria de apresentar apenas mais um, encontrado em 1Coríntios:

1Coríntios 8:4

(GNT) Περὶ τῆς βρώσεως ον τῶν εἰδωλοθύτων, οδαμεν τι οὐδὲν εδωλον ἐν κόσμῳ, καὶ τι οὐδεὶς Θεὸς τερος εἰ μὴ ες.

(TNM) Ora, acerca de comer alimentos oferecidos a ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há Deus senão um só.

1Coríntios 8:5

(GNT) καὶ γὰρ επερ εἰσὶ λεγόμενοι θεοὶ ετε ἐν οὐρανῷ ετε ἐπὶ τῆς γῆς, σπερ εἰσὶ θεοὶ πολλοὶ καὶ κύριοι πολλοί,

(TNM) Pois, embora haja os que se chamem deuses, quer no céu quer na terra, assim como há muitos deuses e senhores

1Coríntios 8:6

(GNT) ἀλλ᾿ ἡμῖν ες Θεὸς ὁ πατήρ, ἐξ ο τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς εἰς αὐτόν, καὶ ες Κύριος ᾿Ιησοῦς Χριστός, δι᾿ ο τὰ πάντα καὶ ἡμεῖς δι᾿ αὐτοῦ.

(TNM) para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas e nós para ele; e há um só Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem sõ todas as coisas, e nós por intermédio dele.

Nesse breve texto vemos três usos interessantes do substantivo θεος anartro. No primeiro vemos a clara declaração de que não existe qualquer outro Deus (Jeová). Esse uso está em conformidade Romanos 16.27. Nessa caso, não temos qualquer dúvida de que a ênfase aqui é o Deus Pai (Jeová).

Contudo, no segundo verso vemos o uso de anartro θεος no plural. Essa afirmação merece nossa atenção: Paulo afirma que não existe apenas um Deus, depois diz que existem aqueles que se dizem deuses e que esses são muitos. A idéia aqui é que Paulo fala da caracterização que poderia ser encontrada em uma cidade pagã como Corínto: a idolatria era algo forte na cidade, e por isso, era possível encontrar ao redor dos cristãos coisas ou pessoas denominadas deuses, mas que de fato não o eram. Eram divindades por nomenclatura não por essência. Mas, é interessante notar que a TNM não atribui artigo indefinido nesse usos anartro de θεος, em nenhuma das duas ocasiões que acontecem aqui: A TNM traduziu para o português sem qualquer artigo, o que sabemos que é uma boa tradução aqui. Mas, mais uma vez, a regra do θεος anartro de Jo.1.1.c não é usada.

Mas, vamos ao último verso mencionado: Note que a tradução da TNM diz: “há realmente um só Deus, o Pai”. Nesse verso, Paulo faz uso do termo “ες” como numeral para evidenciar a singularidade de Deus ante aos muitos deuses de Corinto. Outro fato interessante é que ele chama esse único Deus de ὁ πατήρ, o Pai. Esse único Deus, o Pai (Jeová) é aquele mesmo Deus do verso quatro que é descrito sem artigo grego. Ou seja, não há qualquer demérito conceitual a Deus pelo fato de que o substantivos θεος é anartro.

Conclusão

O que podemos dizer da TNM em ocasiões em que o substantivo θεος é usado sem artigo?

1. Podemos dizer com certeza que ela opta por acrescer o artigo indefinido nas ocasiões em que um não cristão fala, como vimos nos exemplos de Atos.

2. Também vimos que em nenhuma ocasião em que o termos faz referência a Deus Pai (Jeová) veio acompanhada de artigo indefinido da tradução para o Português.

3. Também vimos que, traduções diferentes dessas apenas ocorreram quando o substantivos θεος anartro estava no plural, ocasiões que tem-se por certo não tratar de Deus.

4. É válido lembrar que também vimos duas ocasiões (Jo.1.18; 10.33) onde o substantivo θεος anartro é usado em referência a Cristo e a TNM não ousou acrescer artigo indefino na sentença.

Em outras palavras, a TNM só optou por acrescer artigo indefinido em tradução ao substantivo θεος anartro em uma ocasião distinta e específica: João 1.1c. Normalmente os TJ afirmam que sua tradução é livre de apelos teológicos, mas nosso estudo demonstrou exatamente o contrário: Na tradução de João 1.1c ela foi parcial e motivada por teologia, não por gramática ou coerência de critérios de tradução.

Por isso, podemos dizer asseguradamente diante das evidências apresentadas: No NT o uso anarto de θεος não implica em uso de artigo indefinido na tradução, como se isso fosse uma regra. Muito pelo contrário, são raras e poucas as ocasiões em que isso acontece, e normalmente é devido a um fator contextual.

Assim, nossa pergunta permanece: Por que a TNM mantém o artigo indefinido em Jo.1.1c?


[1] Vamos considerar o modo de tradução da TNM nesses versos:

1. Ao traduzir a expressão “τῆς σαρκὸς” os tradutores optaram por acrescer a expressão “segundo”. Essa tradução reflete uma certa inabilidade dos tradutores, pois para que essa tradução fosse possível era necessário que a expressão estivesse no acusativo acompanhado da preposição “κατὰ”. Essa simples alteração remove o peso do argumento de Paulo nesses versos. O Genitivo aqui é de posse, ou seja, a mentalidade que pertence à carne (a mentalidade da carne).

2. Ao traduzir a expressão “εἰς Θεόν” os tradutores minimizaram o impacto do contraste oferecido na primeira senteça. O conceito de “εἰς” aqui foi abrandado e o contraste foi suavizado. Como a intenção de Paulo nesse texto é apresentar o claro contraste entre o que é de Deus e o que é natural do homem decaído em pecado: Por isso, uma tradução mais adequada seria: “inimizade contra Deus”.

3. Ao traduzir “ἐν σαρκὶ” os tradutores alteração o status da pessoa que Paulo descreve aqui. Se observado com atenção, Paulo fala sobre os que estão na carne, uma condição anterior a salvação. Entretanto, a TNM verte como se Paulo estivesse falando de uma situação. A questão não é sobre estar em harmonia (palavra que nem consta no texto) com a carne, mas estar em uma condição: na carne. Considerando essas pequenas modificações, o texto passa a dizer algo diametralmente oposto ao que Paulo quis que ele dissesse.

[2] A tradução de “ζήσεται” oferecida nesse texto é mais circunstancial que gramatical. Ele é apresentado como presente histórico, mas está claramente no futuro, sendo melhor traduzido por “viverá”.

[3] Observe que o mesmo acontece em Mt.2.2

10.21.09

Devoção e Vida no Mundo

Enviado em Pregação tagged , , , às 12:06 pm por Marcelo Berti

Introdução

Para mim, é motivo de grande apreensão apresentar este estudo, pois vamos falar sobre devoção e sobre vida com Deus enquanto estamos no mundo. A minha proposta é, num primeiro momento, trabalhar com algumas definições para, em seguida, trazer algumas sugestões de como você pode manter a sua vida conectada com Deus enquanto está neste mundo. Eu irei tratar também de um assunto que trás um pouco de dificuldade, pois se refere às intenções do Maligno, às intenções de Satanás, para nossas vidas. Não parece um assunto muito convidativo, mas se deixarmos de dar atenção para as intenções que Satanás tem para a nossa vida, especialmente para o nosso relacionamento com Deus, teremos grande chances de estarmos despreparados para tratar disso.

O meu desejo é, em primeiro lugar, tornar claras algumas coisas e. em segundo lugar, trazer alguns desafios. Então eu peço a sua atenção. Vamos começar com algumas definições.

 

1. Conceito de “Mundo”

Temos uma palavra muito importante como tema da nossa mensagem que é a palavra mundo. Como vamos entender esta palavra e como vamos nos preocupar com ela, é o início da nossa reflexão. A palavra mundo tem diversos significados. Por exemplo, quando alguém vai dar uma festa, pode dizer: “Todo mundo vai lá em casa”. Você sabe que não se trata de todas as pessoas do planeta, mas de um grupo de pessoas que pertencem ao seu círculo de relacionamento e que vão estar nessa festa. É interessante quando você convida alguém que aparentemente quer ir, mas responde: “Não posso”, e você diz: “Mas todo mundo vai lá!”. Isso não quer dizer que aquela pessoa não faça parte do seu relacionamento ou que você a está excluindo do seu “mundinho”, mas é a forma como a gente usa esta palavra.

Eu me lembro que, quando estava no seminário, um amigo muito caridoso, preocupado com a minha situação de solteiro, resolveu me apresentar uma menina. Ele quis fazer propaganda dela para mim e falou: “Essa menina é muito legal, ela é dedicada, ela é uma pessoa bonita, mas ela vive no ‘mundinho’ dela!” Foi a pior propaganda que eu já ouvi sobre alguém. O que será que ele quis dizer com isso? Até hoje eu não sei, mas o fato é que nós usamos esta palavra (mundo) com diversos significados e com diversos temas.

As Escrituras também usam essa palavra com vários significados. É importante que, ao ler as Escrituras, você preste atenção a que tipo de significado esta palavra vai tomar no contexto em que está, porque  pode fazer muita diferença. A minha intenção não é fazer um estudo léxico desta palavra, mas um estudo temático rápido, para que você possa perceber os diferentes usos dela.

 

A. Local, lugar

Em primeiro lugar, as Escrituras usam a palavra mundo para descrever um lugar. Pode ser o universo, pode ser a Terra ou pode ser um lugar da Terra. Nós vemos uma expressão generalizada: Porque os gentios de todo o mundo é que procuram estas coisas. Mas o vosso Pai Celeste sabe que necessitais dela (Mt 6.32). Aqui neste texto, vemos uma aplicação de lugar: os gentios que estão em todas as partes do mundo, os gentios que são deste mundo todo é que tem buscado essas coisas. É uma referência a um lugar.

 

B. Pessoas

Essa palavra também pode fazer referência a pessoas de um determinado lugar ou pessoas em uma determinada ocasião. Vejamos o seguinte texto como ilustração: Os fariseus assustados com um grupo de pessoas que andavam atrás de Jesus, disseram uns aos outros: Não conseguimos nada, olhem como o mundo todo vai atrás dele (Jo 12.19). Trata-se de uma multidão de pessoas chamadas de “mundo todo”. Certamente, poderíamos incluir neste tipo de uso o texto de Jo 3.16: Porque Deus amou o mundoO amor do Pai não está colocado sobre um lugar, não está colocado sobre a estrutura física deste universo, mas o Pai ama os seres humanos, as pessoas. O amor de Deus, em Jesus Cristo, é manifesto em pessoas.

 

C. Caráter do ser humano

A palavra mundo tem nuances um pouco diferentes dessas, podendo significar ou exemplificar o caráter do ser humano. Pode também significar a aversão que o ser humano tem a Deus. Pode ainda significar aquilo que expressa o ser humano como distante de Deus. Um texto que exemplifica isso é o seguinte: O mundo não pode odiá-los, mas a mim odeia porque dou testemunho do que o que ele faz é mal (Jo 7.7). Este grupo de pessoas está sendo representado também como pessoas que estão distantes de Deus, cujo ódio é orientado contra Jesus Cristo. Nós vamos ver que esse ódio também é estendido a nós, que somos seguidores de Jesus Cristo. As atividades que esse mundo faz são obras más.

Em João 17.25, quando Jesus ora, Ele diz: …este mundo não te conheceu…, falando em relação às pessoas que não conheceram a Deus. Quando se trata do caráter da humanidade, contrário ao caráter de Deus, muitas vezes, nós vamos encontrar a palavra mundo como descrição daquele grupo de pessoas que não conhece a Deus e tem ódio contra Jesus Cristo. Esse ódio não precisa ser agressivo: basta a simples rejeição a Jesus Cristo, pois Jesus dá testemunho de que o que esse mundo faz é mal. E o impressionante é que o amor de Deus é apresentado justamente a essas pessoas cujo caráter é maligno, que rejeitam a Jesus Cristo e fazem aquilo que é mal diante de Deus.

Mundo também é uma descrição daquelas pessoas que são contrárias e distantes de Deus, são antagônicas àquilo que é espiritual e próximo de Deus.Por isso, temos uma escolha a fazer: podemos buscar as coisas mundanas ou as coisas espirituais.

 

D. Sistema

A palavra mundo também traz essa idéia de algo que é contrário a Deus na expressão de um caráter destruído pela presença do pecado. É interessante observar que esse grupo de pessoas descritas como quem tem ódio contra Deus, que não conhece a Deus, também faz parte de um sistema corrompido. Este grupo de pessoas não está isento de praticar pecado em um ambiente neutro, mas em geral ele está inserido num ambiente de antagonismo a Deus.

Em Efésios 2.5, vemos Paulo nos alertando que: Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver quando seguiam a presente ordem deste mundo. Este mundo tem uma ordem. A palavra que a versão Almeida Revista e Atualizada traz para ordem é “curso, direção” e a palavra grega que foi traduzida por estas duas palavras nos dá a idéia de que existe uma organização, um sistema que é corrompido.

As pessoas que demonstram o seu não-conhecimento de Deus estão inseridas em um sistema de aversão a Deus e de corrupção. Este é o estado, o lugar onde todas as pessoas que não foram salvas por Jesus Cristo se encontram. É nesse sistema que elas estão aprisionadas.

Em II Coríntios 4.4, é dito: O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Existe um domínio e existe um dominador por trás deste sistema. Esse sistema corrompido, que está ordenado para ir contra aquilo que Deus espera ou contra o Seu caráter, também tem um príncipe, um responsável por coordenar esse mesmo sistema, que vai coordenar a vida das pessoas. Quando falamos em vida mundana, estamos pressupondo que existe um grupo de pessoas que não conhecem a Deus, que estão debaixo de um sistema expresso pela aversão a Deus e que é dominado por alguém que é muito sagaz e inteligente para conduzir este sistema de forma que as pessoas se voltem contra Deus.

O interessante é que esse dominador não é um dominador qualquer, ele é um dominador ativo e está ativo agora. Naquele texto de Efésios 2.2, lemos: … nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Ele está atuando agora, neste momento! Ele está atuando agora, ele está muito ativo! Esse texto diz que ele está atuando naqueles que já vivem na desobediência, para que vivam em desobediência e para que fiquem cegos à verdade do Evangelho, para que mantenham a sua aversão a Deus.

É interessante que, por mais que eu e você já tenhamos essa idéia, essa percepção de realidade, não nos damos à atenção de perceber como esse mundo é conveniente e gostoso para nós. Porque, apesar do quadro tenebroso que traçamos até aqui, esse sistema, cujo dominador é astuto e quer distância de Deus, é atraente. Para falar disso, Jesus Cristo usou uma parábola muito conhecida que é a “Parábola do Semeador”, que diz (Mt 13:22): O que foi semeado entre os espinhos é o que ouve a palavra, porém os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra e ela fica embutida. Esse sistema tem o poder de nos deixar fascinados. Muito embora o texto que lemos antes fale sobre a atuação de Satanás na vida daqueles que estão na desobediência, Jesus Cristo chama a atenção para aqueles que já tiveram contato com a Palavra, mas que se deixaram seduzir pelos cuidados do mundo. Esse mundo não é apenas tenebroso, ele é gostoso e atraente, ele chama a nossa atenção, conquista a nossa mente e tem o poder de transformar quem nós somos, seja sedução das riquezas, seja pela vaidade, seja pelo orgulho ou qualquer outra coisa. Este mundo, que é gostoso e atraente, tem também o poder de moldar a nossa vida.

Paulo estava preocupado com isso. Paulo sabia que isso era muito forte na vida dos cristãos em Roma. Ele sabia que este mundo já estava moldando aquelas pessoas com um tipo de comportamento e diz (Rm 12.2): Não se amoldem ao padrão deste mundo, porque este é o poder que ele tem. Enquanto estamos neste mundo, estamos debaixo de um sistema corrompido, destruído pelo poder do pecado e dominado pela mentalidade e inteligência de Satanás. É por isso que o mundo se apresenta tão atraente, tão gostoso e é por isso que ele é capaz de modelar a nossa vida. Às vezes, achamos que o mundanismo chega à Igreja ou à nossa vida pessoal quando estamos envolvidos nas piores perversões fora da igreja ou quando alguém da igreja está envolvido em um grande erro ou um grande pecado, mas não. Basta uma simples vida centrada na fofoca e na mentira que nós estaremos sendo mundanos, porque essas coisas são contrárias a Deus e fazem parte do sistema corrompido do qual Satanás é o mentor, pois ele é o pai da mentira.

O mundanismo está dentro da Igreja sempre que os cristãos se comportam como se comportavam antes de conhecer a Jesus Cristo. Isso é mundanismo. È isso o que corrompe a fé, é isso o que corrompe o bom ensino das Escrituras, é isso o que corrompe a boa prática das Escrituras, é isso o que corrompe sua vida com Deus.

Satanás sabe o que está fazendo neste mundo, pois deixou o mundo gostoso, atraente e destrutivo! Não é à toa que muitos dos cristãos tem se deixado destruir por se associar às idéias deste mundo. Não é à toa que muitos dos cristãos têm uma vida espiritual fraca, medíocre, seca, porque se deixaram seduzir pelos ensinos deste mundo. Esse mundo é corrompido, gostoso e destrutivo.

Nós temos que atentar para isso, porque não fazemos mais parte deste sistema, mas ainda vivemos em um mundo debaixo do domínio de Satanás. Por isso, quando as Escrituras usam a palavra mundo, não se pensa apenas em lugar, mas também em pessoas. Em pessoas que apresentam aversão a Deus e que estão inseridas em um sistema de corrupção, um sistema que conduz a uma vida de distância de Deus, que estão cegas, para que não vejam o Evangelho da graça de Jesus Cristo. Aqui acontece uma interação muito interessante, porque essas pessoas, cujos corações são corrompidos, moldam o sistema e pelo sistema são moldadas. Elas contribuem para a fluência desse sistema corrompido, da mesma forma que sofrem a influência desse mesmo sistema corrompido. Porque o grande dominador, o grande chefe que está por trás de tudo isso, é isso mesmo o que ele quer: que aqueles que não conhecem Jesus Cristo continuem ser conhecer e aqueles que já O conhecem vivam como se não o conhecessem. Foi por isso que ele fez um sistema tão atraente.

 

E. Cosmovisão Cristã

Por outro lado, a palavra mundo também nos ajuda a entender a cosmovisão cristã. De fato, precisamos entender qual é a nossa relação com esse mundo. Se nós prestarmos atenção naquilo que as Escrituras nos ensinam, vamos perceber que não somos mais parte deste mundo. Veja o que Jesus disse em duas passagens: Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fosse dele. Todavia vocês não são do mundo, mas eu os escolhi tirando-os do mundo. Por isso o mundo os odeia (Jo 15.19). Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou (Jo 17.14).

Jesus Cristo tinha nos dito que o mundo não nos podia odiar, mas agora que fomos por Ele resgatados deste mundo, agora que não fazemos mais parte deste sistema, agora que não somos mais contados entre as pessoas que vivem em oposição a Deus, nós também somos alvo desse ódio. Porém, mais interessante do que isso é que eu e você não fazemos parte disso, pois Jesus Cristo nos tirou deste mundo para que vivêssemos com Ele, em relacionamento com Deus: O mundo não pode receber o Espírito da verdade porque não o vê, nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois Ele vive com vocês e estará em vocês (Jo 14.17).

Nós fomos chamados para um diferente tipo de relacionamento, fomos habitados pelo Espírito Santo, fomos selados pelo Espírito Santo da promessa, fomos tirados deste mundo para vivermos em comunhão com Deus. É por isso que, às vezes, somos chamados de peregrinos. Estamos aqui, mas não somos daqui! É como se fôssemos forasteiros, estrangeiros. É por isso que esse relacionamento que existe entre nós e o mundo é também um relacionamento de rejeição. Você já percebeu como a literatura anticristã ou um filme anticristão tem “Ibope”? Você já percebeu que o mundo é tolerante com as outras religiões, mas não toleram a sua? Você já percebeu que o ecumenismo é lindo, o budismo é simpático, mas o cristianismo é repulsivo?

Esse sistema é coordenado contra Cristo. Um amigo meu vai se casar e sua sogra tem certa aversão à Igreja e a Jesus Cristo. Havia uma grande disputa sobre quem faria a cerimônia de casamento. Na mentalidade dela, todas as religiões são iguais, não há diferença entre elas. Meu amigo então perguntou: “Se é assim, porque não poderia ser um pastor?”, mas ela respondeu que pastor não poderia ser. Pode qualquer coisa, menos qualquer coisa relacionada a Jesus Cristo.

Esse tipo de hostilidade tem sido manifesta de formas diferentes através dos tempos, mas ele está bem aí! É interessante que, sabendo disso, Jesus Cristo nunca pediu para que nos escondêssemos em algum lugar, que fugíssemos dessa realidade ou que ficássemos escondidos dentro da Igreja. Muito pelo contrário, quando Ele orou disse (Jo 17.15): Não rogo que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Nós não somos daqui, mas devemos ficar aqui! Nós não somos deste mundo, mas devemos viver neste mundo! Nós não fazemos parte deste sistema, mas é neste sistema que nós vivemos! Por isso, somos convidados a ter uma vida santa e a andarmos em proximidade com Deus e Jesus Cristo, porque esse mundo é cruel e vai querer apagar a sua “luz”. Por isso, Jesus Cristo pede por proteção para nós, porque agora somos os Seus representantes neste mundo. Quando Jesus Cristo fala sobre a nossa representação, Ele ora a Deus pedindo: “Da mesma forma como o Senhor me mandou a esse mundo, como manifestação da verdade, como manifestação da glória, como propagador da Palavra de Deus, da mesma forma como o Senhor me enviou, Eu envio os meus filhos, os cristãos, aqueles que o Senhor me deu, Eu os envio ao mundo.” Nós não só devemos viver nesse mundo, mas devemos viver como representantes de Deus e de Jesus Cristo, ainda que isso gere ódio e hostilidade. Deve ser por isso que Pedro fala sobre vivermos de modo exemplar entre os gentios e Paulo nos chama a vivermos de modo digno do nosso chamado.

Nós fomos chamados por Jesus Cristo para sermos representantes dEle. Graças a essa representação, muitos poderão crer em Jesus Cristo por meio da mensagem dos apóstolos. Aqueles que demonstravam ódio contra Deus, que não podiam receber o Espírito Santo, agora são convencidos pelo Espírito de Deus para que sejam aproximados da Sua graça.

Em resumo, mundo refere-se a pessoas dentro de um sistema coordenado por Satanás, ao passo que nós não fazemos parte deste mundo, não nos associamos a ele, não participamos dos seus ideais, não nos deixamos sufocar por seus ideais. Nós somos enviados por Deus para estarmos entre essas pessoas como Seus representantes, como “luz”, como pessoas que vivem de modo digno do chamado que receberam, pessoas que vivem em conformidade com Deus, para que sejam testemunhas da Sua existência e da redenção que há em Jesus Cristo.

As grandes questões a serem consideradas são: “Como iremos viver piedosamente neste ambiente que é hostil? Como é que eu e você vamos ter nosso foco na devoção devida a Deus enquanto estamos neste mundo? Como vivermos conectados com Deus, desfrutando da Sua graça no dia-a-dia, enquanto estamos sendo, a todo tempo, chamados para a corrupção, sendo convidados a nos amoldar à forma deste mundo, que é tão atraente e tão destrutivo?”

 

2. Três Sugestões Para Vivermos Em Sua Presença

Eu gostaria de deixar três sugestões para que possamos estar neste mundo como representantes de Deus, sem nos associarmos à desgraça e à destruição que há nele, e sem participarmos da hostilidade que este mundo tem contra Deus.

 

1ª. Sugestão: Devemos aprender a experimentar solitude com Deus

O mundo em que vivemos é um mundo rápido e agitado. Se você tem tido chance, durante a semana, de pensar em fazer um devocional, talvez seu tempo seja tão escasso que o devocional fica para o fim do dia, quando você já está cansado e cheio de “coisas” na cabeça, sem condições para um tempo digno com Deus.

Esse mundo consome a nossa energia e a nossa disposição de estar diante de Deus. Se nós não aprendermos a gastar um tempo a sós com Deus, estaremos investindo em nosso fracasso espiritual. Talvez a sua vida seja um “tufão”, um “tornado” ou uma “tormenta”. Talvez você já não tenha mais tempo para nada, mas nós precisamos aprender a gastar tempo com Deus.

Charles Swindoll disse uma frase que me marcou muito nesses últimos dias em um livreto chamado “Intimidade com Deus”, que eu recomendo: “A transformação da alma acontece quando a serenidade toma o lugar da ansiedade”. Eu não sei qual é o melhor horário do seu dia para você desenvolver um tempo de intimidade com Deus. Para mim tem sido pela manhã, quando eu tenho todo o meu foco centrado em Deus, quando a mente ainda não está tão preocupada, quando a minha energia ainda está lá e eu posso descansar em Deus enquanto invisto em um tempo com Ele.

Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre a terra (Salmo 46.10). Caia fora da agitação, pois Deus é mais alto do que os povos, mais alto do que a Terra, mais alto que o seu trabalho, mais alto que todas as suas dificuldades. O mais importante: se acalme, fique tranqüilo e reconheça que esse é o Deus que cuida da sua vida.

Tenha um tempo com Deus, quieto. Descanse no Senhor e aguarde por Ele com paciência; não se aborreça com o sucesso dos outros, nem com aqueles que maquinam o mal (Salmo 37.7). Não perca tempo da sua vida triste e chateado porque aquele “incompetente” do seu trabalho foi promovido e você não. Você pode ter sido deixado de lado por causa disso, mas descanse e aguarde por Ele! Não fique chateado, perdendo o seu tempo, porque pessoas de má índole ou mau caráter têm sido melhores do que você. Nós somos representantes desse Deus e devemos viver de modo digno. Devemos aprender a descansar nEle, porque Ele cuida de nós.

Podemos deixar a ansiedade de lado e desfrutar de tempo a sós com Deus. Nós não somos, nem um pouquinho, melhores que Cristo, eu tenho certeza disso, mas Ele mesmo tinha essa prática (Mc 1.35): De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu de casa, foi para um lugar deserto e ficou orando. Se Jesus Cristo era quem era, Ele poderia dizer: “Eu e o Pai somos um, nós temos relacionamento, nós estamos em conexão”. Se Ele era quem era e fazia isso, porque nós achamos que não precisamos? Porque nós achamos que qualquer outra coisa é mais importante do que o tempo com Deus? Se deixamos de dedicar parte do nosso tempo diário para estarmos em intimidade com Deus, corremos o risco de fracassarmos espiritualmente, de mantermos a nossa mediocridade espiritual. Você pode até ter um bom comportamento, mas não tem relacionamento com Deus.

Falando sobre vida agitada, um grande amigo deu um conselho, que eu gostei tanto, para uma pessoa que estava ao meu lado, que quero registrá-lo aqui: “Se não aprendemos a dizer não a coisas boas, vamos deixar de desfrutar de coisas excelentes!”. Tem muita coisa boa acontecendo perto de nós. Se somos seduzidos é porque gostamos e se não aprendemos a dizer “não” para alguma dessas coisas, vamos acabar sem tempo para dedicar a Deus. Por isso, enquanto estamos neste mundo, não podemos deixar de viver um relacionamento com Deus, de intimidade com Ele. Por isso, devemos aprender a separar do nosso tempo para estar diante dEle em oração, em leitura das Escrituras, em leitura de algum material que nos leve à devoção a Deus.

 

2ª. Sugestão: Devemos aprender a depender do Espírito Santo

Isso é uma coisa bem difícil de explicar como se faz! Em um livro muito interessante, de um autor chamado Neil Anderson, encontrei a seguinte ilustração. Ele conta a história de um piloto que tinha saído para fazer um de seus primeiros vôos, quando se formou uma grande tempestade e ele perdeu completamente a visibilidade. Ele se lembrou, então, das aulas que tinha feito e dos instrumentos que tinha à sua frente, que poderia utilizar para chegar em segurança ao aeroporto mais próximo, porque talvez não desse para voar por muito mais tempo. Mas, além do manual e dos instrumentos que tinha, ele precisou fazer contato com a torre mais próxima. Ao fazer contato com a torre, ele se identificou, dizendo que era um piloto novato e que precisava de ajuda para aterrissar em segurança. A torre respondeu para ele ficar tranqüilo que iriam guiá-lo em segurança até o local de destino.

O autor conta que depender de outra pessoa é mais ou menos isso: enquanto estamos em uma vida de turbulência, enquanto estamos no meio da tempestade, enquanto estamos no meio da agitação da nossa vida nesse mundo, nós também temos os nossos instrumentos, nós também temos as nossas instruções. Mas, não precisamos fazer tudo isso sozinhos. Podemos confiar que Deus pode nos ajudar a passar por tudo isso. Nós precisamos aprender a depender do Espírito de Deus, porque Ele pode nos ajudar.

Veja o que as Escrituras nos dizem: Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda verdade (Jo 16.13). Ele pode nos guiar naquilo que é certo, naquilo que é verdadeiro e pode nos guiar para mais próximo de Jesus Cristo. Quando Deus fez a promessa do Espírito Santo, Ele disse: Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis (Ez 36.27). Isso significa viver na dependência do Espírito Santo, no cultivo de proximidade com o Espírito Santo. Nós podemos ser conduzidos por Deus a andar de acordo com os decretos dEle, andar de acordo com Sua vontade, de modo fiel e obediente, pois temos que aprender a depender dEle. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão, mas se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão (Rm 8.13). Pelo Espírito, aprendemos a modificar os nossos desejos. A idéia de ser cheio do Espírito Santo significa também uma busca de esvaziar os nossos próprios desejos, de deixarmos de lado a nossa carne, porque eles estão em guerra.

Nós devemos fazer isso e aprender a viver pelo Espírito, porque assim de modo nenhum vamos satisfazer os desejos da carne. Se vivermos pelo Espírito, vamos poder desfrutar daquilo que o Espírito pode promover em nossa vida: amor, alegria, paz, tudo isso! Nós precisamos aprender a desenvolver intimidade com Deus na dependência do Espírito Santo.

 

3ª. Sugestão: Devemos aprender a renunciar aos nossos desejos

Se eu dependo do Espírito Santo, Ele não faz isso por mim? Sem dúvida, mas isso não isenta você de ser responsável pelas coisas que diz, nem de ser diligente naquilo que faz. É uma boa obra a “quatro mãos”. Uma música a quatro mãos é bem tocada quando as duas pessoas estão em sintonia. Se não estivermos em sintonia, estaremos tocando uma música completamente diferente daquela que é esperada.

C. S. Lewis escreveu um livro muito interessante chamado “Cartas do Inferno”. A idéia do livro é que um diabo mais experiente iria ensinar um diabo mais novo como trabalhar na vida de pessoas cristãs e não-cristãs.

Nessas cartas, ele deixa algumas sugestões. Vou citar uma delas, em que o diabo mais velho fala sobre o fato de que uma das pessoas que sofriam a sua atuação havia se convertido: “Não é necessário cairmos em desespero: contam-se às centenas esses convertidos em idade adulta que foram reconquistados depois de uma breve estadia nos arraiais do inimigo [entenda-se Deus] e agora se encontram conosco. Todos os hábitos da vítima, tanto os mentais quanto os fisiológicos ainda estão a nosso favor”.

Você sabe: deixados à vontade, os nossos desejos nos levam para longe de Deus. Devemos cultivar tempo com Ele e depender do Espírito Santo, mas também devemos aprender a mudar. Precisamos aprender a dizer “não” para nós mesmos; precisamos aprender a fazer morrer o que pertence à nossa natureza terrena e mundana. Precisamos ser diligentes, responsáveis e determinados. Talvez essa determinação aconteça na sua vida enquanto você esteja determinado a buscar a Deus, mas você também vai ter que determinar a dizer “não” aos maus pensamentos que invadem a sua mente, às oportunidades de pecado que aparecem diariamente em sua vida. Você vai ter que aprender a confiar no Senhor e não no seu próprio entendimento. A verdade é que a vida nesse mundo é complicada, dura, difícil, mas também é atraente e destrutiva. Temos que aprender a viver na presença de Deus todos os dias da nossa vida, em todas as oportunidades que tivermos, porque foi para isso que fomos resgatados e é assim que a eternidade será: todo o tempo com Deus.

10.19.09

O Dilema da Criação

Enviado em Gênesis tagged , , , às 3:37 pm por Marcelo Berti

Estudar o início do livro de Gênesis certamente exige de nós conhecimento: Muitas são as teorias que tentam compreender o que se passa nos primeiros versos de Gênesis. Alguns o entendem como uma poesia; outros preferem encontrar nele um relato apologético das origens do mundo; outros associam suas crenças científicas ao relato enquanto outros ainda preferem identificar nesse um relato inspirado por Deus de acordo com o conhecimento de Moisés, seu agente intermediário.

É bem verdade que todos os que se aproximam do texto tentam verificar-lhe a beleza e veracidade, entretanto, por não poderem equalizar ambas as características teorizam para harmonizar suas crenças com as escrituras que defendem. De fato, não existe um manual inspirado por Deus que defina como o texto deve ser lido, mas há certamente algumas observações de natureza hermeneutica e histórica que poderiam nos auxiliar a observar o texto sem violar-lhe a beleza e veracidade:

  1. Gênesis 1 não é uma poesia hebraica: A poesia hebraica tal como vista nos livros poéticos do antigo testamento tem forma e métrica extremamente oposta àquela encotrada aqui. Enquanto os paralelos hebraicos (Pv.10.27), suas rimas ideológicas (Pv.16.4) fazem parte da poesia hebraica, Gênesis apresenta-se com um texto lógico e estruturado historicamente.
  2. Gênesis 1 não é um tratado primariamente apologético: Um dos frequêntes equívocos que se comete ao ler Gênesis 1 é entende-lo como primariamente apologético. Muito embora, Gênesis 1 tenha grande valor apologético, esse não parece o propósito do autor do relato, nem mesmo a compreensão dos seus primeiros leitores: Gênesis foi escrito para o povo de Deus, não para os infiéis. “Aqueles que se recusam a aceitar o criacionismo não o fazem por falta de provas (Rm.1.18ss), ou por causa do seu grand econhecimento (Sl.14.1), mas por falta de fé (Hb.11.3). Gênesis é mais uma declaração que uma defesa[1]”.
  3. Gênesis 1 não é um tratado científico: Ainda que o Deus revelado nas escritas é o mesmo que se revela na natureza e que Sua Auto-revelação não é contraditória, Deus revelou-se a Moisés (ou a outras pessoas antes dele que preservaram sua declaração oralmente) de modo que pudesse ser compreendido corretamente diante do conhecimento que ele dispunha. Não faria sentido para Deus manifestar-se a Moisés de acordo com o conhecimento científico de nossa era, pois seus leitores primários seriam incapazes de compreendê-lo. Portanto, ainda que o valor científico desse relato ainda seja fundamental para a apologética cristã, esse não é o caráter fundamental desse texto.
  4. Gênesis 1 é o relato inspirado por Deus para revelar-se ao Seu povo: Eventualemente a falta de atenção ao contexto histórico de Gênesis nos força a compreender o texto for a de sua origem: Aqueles que saíam do Egito, certamente precisavam conhecer o Deus que os retirava da escravidão. O Grande “Eu Sou” também é o criador e originador de todas as coisas, povos e culturas, e precisava ser conhecido mais amplamente.

A verdade sobre Gênsis 1 é que o dilema normalmente é visto do ponto de vista errado. B.B. Warfield provavelmente está certo quando diz:

Uma janela de vidro está diante de nós. Levantamos os olhos e vemos o vidro; notamos sua qualidade, observamos seus defeitos e especulamos sobre sua composição. Ou olhamos através dele na perspectiva de ver além terra, céu e mar. Da mesma forma, há duas maneiras de se olhar o mundo. Podemos ver o mundo e ficar absorvidos pelas maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar diretamente através do mundo e ver Deus por detrás dele. Essa é a maneira religiosa. A maneira científica de olhar para o mundo não é mais errada do que a maneira do fabricante do vidro olhar a janela. Essa maneira de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada não para ser observada, mas para observarmos através dela, e o mundo falha em seu propósito a menos que também olhemos através dele e os olhos repousem não nele mas no Deus que o fez[2]”

O que podemos dizer com certeza é que o relato de Gênesis não foi escrito para o fabricante de vidros, mas para pessoas como nós que param diante da janela e adimiram a paisagem d’além dela. Gênesis foi escrito para que as pessoas pudessem olhar Deus por detras do universo e ser admirado como tal.

A. Visões sobre a Criação

Como já sabemos, muitas visões são oferecidas para o relato de Gênesis, por isso abaixo transcrevo o sumário oferecido por Keith Krell[3], como algumas adaptações, sobre as opções de abordagem do relato de Gênesis:

1. Criacionismo Científico:

Defensores da criação da Terra jovem acreditam que Deus criou a terra em seis dias literais, e que todo o universo é de aproximadamente 10.000 anos de idade. Acredita-se também que a maioria dos fósseis foram formados durante o dilúvio de Noé, que eles vêem como uma catástrofe mundial (Gn 6:17; 7:21-23). Criacionistas aplicar os seus métodos científicos para a conta de inundações em Gênesis 6-9 e estão convencidos de que a atual condição da terra, que dá a aparência de ser muito mais velha, reflete a catastrófica destruição causada pelo dilúvio de Noé. Proponentes: Henry Morris, Duane Gish e Adauto Lourenço. Sugiro a leitura do livro “Onde tudo começou” de Adauto Lourenço como referência para esse grupo.

2. Criacionismo histórico:

Deus criou o universo durante um tempo indeterminado, que o autor chama “o princípio” (Gn 1:1). Esse “princípio” não foi uma questão de tempo, mas um período de tempo, com toda a probabilidade de um longo período de tempo. Após esse período de tempo, Deus passou a preparar a terra “como um lugar para os seres humanos a habitar”. Essa visão compreende 1:2-2:4 como uma descrição da preparação de Deus do Jardim do Éden, ou mais especificamente, a Terra Prometida. Proponente: John Sailhamer. Sugiro a leitura de “Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account ” de John Sailhamer.

3. A Teoria do Intervalo:

Defensores do que é chamado a teoria do intervalo acreditam que Gênesis 1:1 fala de uma criação inicial, seguido por um período de tempo extremamente longo. A maioria dos organismos que agora encontrar no registro fóssil viveu durante esse tempo. Segundo a teoria do Intervalo, Gênesis 1:2 descreve um momento da morte e ruína, causado por Satanás, quando Deus expulsou-o para a terra. O restante de Gênesis 1 descreve como o Senhor restaurou a criação em seis dias literais. Embora essa visão permita que se veja Gênesis como história factual, enquanto ainda acreditar em uma terra antiga, a Escritura não parece mostrar grande apoio. Em nenhum lugar da Bíblia mencionar diretamente tal lacuna ou qualquer destruição universal causada por Satanás. Além do mais, outras passagens (como Êxodo 20:11) referem explicitamente a seis dias da criação, não re-criação. Proponentes: C.I. Scofield, Merrill Unger, MR DeHaan, e J. Vernon McGee. Esta visão não é muito difundida hoje. Sugiro a leitura da “Bíblia em ordem cronológica”, organizada por Edward Reese e Frank Klassen.

4. Criacionismo Progressivo:

Os defensores desta posição de dia-era acreditam que o dia em Gênesis 1 não se referem a seis períodos literais de 24 horas, mas a seis períodos indefinidamente longos séculos. Acredita-se que o universo tem entre oito a desesseis bilhões de anos e que a vida começou na Terra há 3,5 bilhões de anos atrás. Criacionistas Progressivos salientam que a palavra hebraica para dia (yom) é usado em três diferentes maneiras na narrativa da criação (1:4-5; 2:4). Nesses três versos, yom é usado para descrever um período de 12 horas, um período de 24 horas, e durante todo o período de criação. Criacionistas Progressivos também citam o Salmo 90:4 e 2 Pedro 3:8 como prova de que “dias” no calendário de Deus são muito mais do que os nossos dias. Proponentes: Hugh Ross, Gleason Archer, e Millard Erickson. Sugiro a leitura do livro “The Genesis question” escrito por Hugh Ross.

5. Evolução Teísta:

Defensores da evolução teísta ensinam que as plantas, animais e homem evoluiram gradualmente a partir de formas inferiores, mas que Deus supervisionou o processo. Enquanto os criacionistas da Terra-jovem e Terra-velha acreditam que Deus criou formas de vida, por ordem divina, os evolucionistas teístas acreditam que Deus usou a evolução, ou algo semelhante, para fazer parte de sua obra. A maioria dos evolucionistas teístas tem dificuldades em passagens como Gênesis 1:1-1:24 por argumentar que Deus criou formas vivas indiretamente, usando as leis da natureza. Por sua própria confissão, evolucionistas teístas tem uma abordagem poética ou alegórica na interpretação de Gênesis 1:1-2:4. Proponentes: C. S. Lewis, Howard Van Till e Francis Collins. Sugiro a leitura do livro “A Linguagem de Deus” de Francis Collins.

6. Design Inteligente:

Uma nova escola de pensamento está a evoluir (desculpem o trocadilho). É conhecido como o movimento do “design inteligente”. Aqueles que defendem este ponto de vista são geralmente agnósticos (e até mesmo ex-ateus), que agora acreditam que, com toda probabilidade, não há um designer inteligente por trás da criação. Eles podem não saber quem ele é, mas eles são menos dispostos a admitir que os evangélicos têm acreditado o tempo todo. Esse movimento realmente arrancou em 1996 com o livro, Darwin’s Black Box: The Biochemical Challenge to Evolution por Michael Behe (bioquímico de um católico na Lehigh University).

B. Contexto histórico do Relato da Criação

Uma das convicções que temos por certeza é que Deus sempre fala com homens selecioandos por Ele, em ocasiões específicas e com propósitos definidos. Ao que sabemos de Deus, temos por claro o testumunho das escrituras que Ele não manifesta sua Auto-Revelação sem que um Propósito específico tenha sido almejado (Ef.1.11). Assim, devemos tratar o início de Gênesis desse modo: Deus em sua Soberania e Graça deu aos antigos israelitas uma declaração de quem Ele é por meio do relato da criação.

Por meio da arqueologia, também sabemos que o relato da criação encontrado em Gênesis não é único nem mesmo o primeiro dos relatos conhecidos: Os egípcios tinham diversos mitos sobre a criação do universo e do homem. Em função de esses relatos serem anteriores ao relato bíblico, não poucos estudiosos se propuseram a estudá-los. Muitos desses, entendem que esses mitos egípcios tem grandes relações com o relato mosaico.

No livro Caos and Creation, Watke sugere algumas similaridades entre os mitos e informações encontradas nas escrituras. Segundo ele, o Sl.74.13-14 tem claras similaridades com o Texto Ugarítico 67:I.1-3; 27-30:

“Salmo 74:13-14 “Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste a cabeça do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto.” Texto 67: I . 1-3, 27-30: “Quando esmagaste Lotan (Leviathan) o diabólico dragão, também destruíste o dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças…[4]”

A relação entre os textos mencionados acima (vale lembrar que não são so únicos) devem ser entendidos á luz da cronologia da revelação, até por que sabe-se que existe grande distância entre os relatos de tal forma que podem nem ser relacionados. É por isso que alguns tem sugerido que a cosmologia hebraica é uma adaptação desmitologizada das antigas cosmologias e por isso, são equivalentes ou de mesmo valor. Contudo, considerando sobre essas similaridades, Bob Deffinbaug diz:

A explicação mais aceitável é que as semelhanças são explicadas pelo fato de que todos os relatos similares da criação tentam explicar os mesmos fenômenos[5].

A idéia de que a similaridades apontam para uma verdade observada de pontos de vista e opiniões culturais diferentes é interessante: Não há a necessidade de que todas as variantes sejam falsas, apenas progressões de um conhecimento antigo que YHWH resolveu deixar explícita ao revelar-se a Moisés. É bem possível que o conhecimento mais antigo do relato da criação houvesse sido distorcido a tal ponto que perdesse sua originalidade e veracidade. Contudo, YHWH salvaguardou de modo coerente com o contexto histórico do Seu Povo quando deu a conhecer de Moisés Sua visào da criação. Sobre esse assunto, Merril Unger diz:

“Muito cedo os povos se desviaram daquelas primeiras tradições da raça humana, e em climas e temperaturas variadas, têm-nas modificado de acordo com sua religião e modo de pensar. As modificações com o tempo resultaram na corrupção da tradição pura e original. O relato de Gênesis não é o único inalterado, mas em qualquer lugar sustenta a inerrante impressão da inspiração divina quando comparado às extravagâncias e corrupções de outros relatos. A narrativa bíblica, podemos concluir, representa a forma original que deve ter sido assumida por essas tradições.”[6]

É também salutar dizer aqui, que a despeito de alguns similaridades linguisticas ou situacionais, o relato de Gênesis tem em grande parte material único, apenas encontrado na Auto-Revelação de YHWH. Considerando sobre as diferenças entre os relatos, Derek Kidner diz:

“A versão mais completa que existe do Épico de Atrahasis, de mais de 1200 versos, liga os dois acontecimentos [criação e dilúvio] numa só história contínua que nos dá uma espécie de paralelo de [Gn.] 1-8. Mas, ao terminarem esses poemas, Gênesis mal está começando. A narrativa deste começa num ponto bem anterior ao daqueles (visto que, neles, as águas, personifcadas, são o princípio, e os deuses que a dominavam são apenas seus produtos) e só termina quando a igreja do Antigo Testamento já está firmemente alicerçada e quatro gerações de patriarcas tinham tido vida momentosa no cenário de duas civilizações diferentes [7]”

Contudo, é ainda interessante investiagar um pouco mais sobre o assunto para demonstrar a clara distinção que existe entre os relatos culturais anteriores ao relato de Gênesis e sua superioridade em relação a eles.

C. Breve sumário das Cosmologias Egípcias[8]

As crenças egípcia e conceitos de criação aparecem em várias fontes: Textos em pirâmides, Textos em caixões, no Livro dos Mortes, Na Teologia Mephita, bem como em vários hinos. Essas fontes mostram que a cosmologia egípcia é ao mesmo tempo uniformes e diversa. Embora existam cerca de uma dúzia de mitos de criação egípcia, as três mais ifluentes surgiram nos locais de culto de Heliópolis, Memphis, e Hermopolis. Estes três interligam-se com um outro, como evidenciado pelo surgimento de alguns dos deuses em mais de uma tradição. A cosmogonia de Heliópolis e Memphis partilham mais em comum com um outro que com Hermopolis. No entanto, todos eles apresentam os conceitos similares de um oceano primordial, uma colina primordial, ea deificação de natureza. Estas três cosmogonias lidam especificamente com a forma como os deuses criaram o mundo. Eles não tratam diretamente da criação dos seres humanos e dos animais. “As primeiras cosmogonias registados parecem mais preocupados com a origem do mundo do que com a criação de homem ou dos animais [9]“. Abaixo apresentamos as três principais cosmologias egípcias.

1. Heliópolis:

Textos da Pirâmide de Hiliópolis contêm as expressões mais antiga da cosmogônia egípcaia. Os Sacerdotes do Templo em Heliópolis gravaram textos em hieróglifos dentro das pirâmides do Unis, Teti, Pepi I, Merenre I, II11 Pepi (reis das dinastias 5 e 6, aprox. 2375-2184 a.C.). A partir destes textos vem o conhecimento da cosmogonia de Heliópolis. Em Heliópolis, nove deuses constituem as funções do Grande Ennead (lit. nove deuses). Atum funciona como o Deus Criador, de quem os outros oito deuses são originados. O texto piramidal 1655 enumera os deuses do Grande Ennead e reconhece Atum como o pai dos outros oito. Nele lê-se:

Ó Grande Ennead você está no Ön (Heliópolis), (a saber) Atum, Shu, Tefēnet, Geb, Nut, Osíris, Isis, Seth e Néftis, ó filhos de Atum, prolonguem a sua boa vontade para com seu filho em seu nome de Nove Arcos [10]“.

Atum primeiro surge a partir das águas primordiais (personificada como Nun) de que também emerge a montanha primitiva. Ele assume a sua posição sobre o monte primevo, e começa seu trabalho de criação. Por não ter um conjugê, ele se masturba para trazer outros deuses para ajudá-lo na criação. O texto piramidal 1248 graficamente descreve este evento.

“Tendo Atum desenvolvido seu crescimento fálico, em Heliópolis, colocou seu pênis em sua posse de modo que ele pudesse fazer orgasmo com ele, e os dois irmãos nasceram-Shu e Tefnut”.

Desde a sua emissão erótica, Shu e Tefnut, deificaram o ar e umidade, respectivamente. Então, Shu e Tefnut copularam e produziram Geb, a terra, e Nut, o céu. Geb e Nut, por sua vez produziram cinco filhos: Osíris, Isis, Horus o Velho, Set, e Nephthys. No entanto, Horus o Velho não se tornou um membro da Grande Ennead. Em vez disso, ele, junto com Thot, Maat, Anúbis, e outras divindades que não são claramente identificadas, constituem o pequeno Ennead.

2. Memphis:

A Pedra Shabaka contém a famosa Teologia Mephita. Esculpido em uma laje de granito negro, por ordem do rei Shabaka (716-702 aC) da vigésima quinta Dinastia, esta pedra preserva a escrita de um documento carcomido. Infelizmente, a pedra mais tarde sofreu danos graves. Os nomes dos Shabaka e do do deus Set foram intencionalmente retirados, e a pedra foi usada para moer grãos. Os teólogos de Memphis emprestaram o Grande Ennead de Heliópolis. Ptah substitui Atum como o deus criador, entretanto, Atum, não desapareceu da nova teologia.

Segundo a Mercer, Ele “tornou-se o coração (entendimento) e língua (palavra) de” Ptah, o Grande ‘, e por sua vez, Ptah era o coração ea língua do Ennead [sic] … Ptah (isto é, Atum) foi o Ennead em emanação ea manifestação. Assim, os outros oito divindades do Ennead Memphite eram apenas Ptah-se na manifestação [11]“.

A linha 55 da Pedra de Shabaka corrobora a afirmação da Mercer, e revela que Ptah cria pela palavra divina.

Ela diz: “Seu (Ptah) Ennead está diante dele como dentes e lábios. Eles são o sémen e as mãos de Atum. O Ennead de Atum surgiu com o sêmen e os dedos. Mas o Ennead são os dentes e lábios nessa boca que pronuncia o nome de cada coisa, desde que Shu e Tefnut saiu, e que deu origem ao Ennead [12]“.

Neste texto, a criação de Ptah pela palavra é contrastada com a criação de Atum, pela masturbação, e o método de Ptah é indicado para ser o verdadeiro motivo por trás do método de Atum de criar. A Teologia Memphita não retrata Ptah ao usar a magia para chamar o mundo à existência.

“O criador divino não é imaginado como um mago recitando suas magias, ele é visto como aquele que primeiro concebeu em sua mente o que deve ser criado para dar forma ao mundo e, em seguida, pôs em circulação, pronunciando o comando necessário para que seja [13]“.

3. Hermopolis:

Na cidade de Hermopolis, a cosmogonia dos Ogdoad surgiu. O Ogdoad de Hermopolis consiste em quatro deuses e suas respectivas companheiras: Nun e Naunet, Keku e Kauket, Hehu e Hauhet, Amun e Amaunet. Cada uma das quatro deusas recebe o seu nome a partir da forma feminina do nome de suas divindades masculinas. Essas deidades representam as quatro condições presentes no início da criação egípcia. Nun e Naunet personificam as águas primordiais. Nun encarna o oceano primordial, e Naunet, sua consorte, referiu-se ao contra-céu deitado sob o oceano primitivo. Keku e Kauket personificam a escuridão que assistiram ao estado primordial. Hehu e Hauhet personificam a ausência de limites e informe da condição primordial. Amun e Amaunet apresentam alguma dificuldade em determinar o seu significado preciso. Apesar de Amon ter sido identificado com o deus Sol, Ra, durante o Reino Médio, ele foi originalmente conhecido como o deus do ar e vento. Pode-se ver uma associação entre o ar eo vento, e a idéia de “oculto” ou “invisível”. Assim, Amun e Amaunet personificam o ar escondido e vento que assistiram ao estado primordial. Frankfort comenta sobre o papel Amun, e explica a função do Ogdoad.

Ele afirma, “Amon poderia ser concebido em épocas posteriores como o elemento dinâmico do caos, o motor da criação, o sopro da vida na matéria morta. Mas esta não é a concepção original, que simplesmente, por meio da Ogdoad, fez o caos mais específico, mais apto a ser compreendido. Na ilha de Flames Oito misteriosamente fez o deus-sol saem as águas, e com isso a sua função foi cumprida [14]“.

4.Diferenças entre os três cosmogonias egípcias:

Os três cosmogonias de Heliópolis, Memphis, e exibem Hermopolis semelhanças e diferenças. Às vezes as diferenças criam contradições na mente do leitor moderno. No entanto, essas contradições entre as três tradições e até mesmo dentro das tradições si não representa um problema para os antigos egípcios.

5. Semelhanças entre os três cosmogonias egípcias:

De estudar os diversos elementos de prova lidar com o entendimento egípcio da criação, três conceitos comuns trazer unidade para as histórias da criação de outro modo diverso. Toda a criação compartilha em suas histórias a crença em um oceano primordial, uma colina primordial, e a deificação da natureza. Estes conceitos encontram representação em cada um dos locais templo no antigo Egito.

D. O Significado do Relato da Criação para os primeiros leitores

Tendo conhecido um pouco da cosmogonia egípcia, é evidente que o relato de Gênesis mostra-se em grande parte distinto deles. Muito embora alguns estados similares pudessem ser encontrados (oceano primevo como uma alusão à expressão “face das águas”), a santidade de YHWH é claramente mantida no relato de Gênesis. Assim, considerando o pano de fundo histórico e religioso temos por certo que o relato de Gênesis tem dois propósitos: (1) Corrigir a cosmologia aprendida no Egito durante o tempo em que estiveram por lá; (2) apresentar YHWH como único Deus capaz de criar.

1. Promover correção:

Diante da cosmologia egipcia, e pelo tempo que passaram em sujeição ao domínio egípcio, não seria estranho que o Povo de Deus tivesse sido contaminado pela visão altamente religiosa do Egito. Isso é claramente percebido nas declarações de fidelidade a YHWH e nas diversas advertências para o povo abandonar os ídolos que carregavam.

“Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor teu Deus requer de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Dt. 10.12)

“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e servi ao Senhor.” (Js. 24:14)

Por isso, não podemos descartar que Deus em sua Sabedoria está a corrigir a visão sobre a cosmologia do seu povo, para que possam reconhecê-lo como Senhor exaltado acima de todos os falsos deuses que haviam conhecido no Egito. Assim, “não era suficiente honrar a Yahweh simplesmente como um deus, um entre muitos. Nem poderia ser concebido isso do Deus de Israel. Só Yahweh é Deus. Não há outro Deus. Ele é o criador dos céus e da terra. Ele não é simplesmente superior aos deuses das nações em derredor. Somente Ele é Deus [15]”. Essa visão permeia todo o Pentateuco:

“Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt. 6:4)

O Deus exaltado acima da criação é o Deus único que não precisa de mediadores para sua Criação, em distinção dos deuses egípcios (Dt.4.32). Ele não exerce seu poder de modo erótico, ou até mesmo promíscuo na criação, Ele em santidade mostra-se superior moralmente (Lv.11.45). Além disso, Ele está além de sua Criação e lhe é superior. Por isso “a tendência em se começar a confundir Deus com Sua criação foi uma parte dos pensamentos do mundo antigo. Ele deve ser honrado como o Deus da criação, não apenas Deus na criação. Todas as tentativas de se visua-lizar ou humanizar a Deus na forma de alguma coisa criada foram tendências em equiparar Deus com Sua criação. Creio que foi assim com o bezerro de ouro de Arão [16]”.

2. Promover Informação [17]:

Negativamente, Gênesis um corrige muitas concepções populares erradas a respeito de Deus. Positivamente, retrata Seu caráter e Seus atributos.

Deus é soberano e Todo-Poderoso. Distintamente das cosmogonias de outros povos antigos, não há nenhuma batalha na criação descrita em Gênesis um. Deus não enfrentou forças opostas para criar a terra e o homem. Deus criou com uma simples ordem “Haja…” Há ordem e progresso. Deus não faz experiência, mas, ao invés disso, habilmente molda a criação conforme Seu projeto onisciente.

Deus não é simplesmente energia, mas uma Pessoa. Ainda que devamos ficar atemorizados pela transcendência de Deus, devemos ficar também pela Sua imanência. Ele não é uma energia cósmica distante, mas um Deus pessoal sempre presente. Isto é refletido no fato de que Ele criou o homem à sua própria imagem (1:26-28). O homem é um reflexo de Deus. Nossa personalidade é simplesmente uma sombra da personalidade de Deus. No capítulo dois Deus deu a Adão uma tarefa significativa, com uma companheira como auxiliadora. No terceiro capítulo aprendemos que Deus tinha comunhão diária com o homem no jardim (cf. 3:8).

Deus é eterno. Enquanto que outras criações são vagas ou errôneas no que concerne à origem de seus deuses, o Deus de Gênesis é eterno. O relato da criação descreve Sua atividade no princípio dos tempos (do ponto de vista humano).

Deus é bom. A criação não teve lugar num vácuo moral. A moralidade foi tecida dentro da estrutura da criação. Repetidamente é encontrada a expressão “e era bom”. Bom implica não somente em utilidade e complexidade, mas em valores morais. Aqueles que sustentam pontos de vista ateístas sobre a origem da terra não vêem nenhum outro sistema de valores a não ser o que é sustentado pela maioria das pessoas. A bondade de Deus é refletida em Sua criação, a qual, em seu estado original, era boa. Mesmo hoje, a graça e a bondade de Deus são evidentes (cf. Mt. 5:45; At. 17:22-31).

_________________________

[1] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). IN: http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23

[2] WARFIELD, Benjamin B., Selected shorter writngs of Benjamin B. Warfield, Vol 1, pp.108.

[3] KRELL, Keith, Gênesis – The Book of Beginnings. pp. 15-16. Escrito como artigo, Creative Gennius, também encontrado em: http://www.timelessword.com/?p=147

[4] Watke, Caos and Creation, pp.12; IN: DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[5] Idem.

[6] Merrill F. Unger, Archaeology and the Old Testament, p. 37, citado por DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). (http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[7] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.13

[8] Material adaptado de Tony L. Shetter: “Genesis 1-2 In light of Ancient Egyptian Creation Myths”.

[9] Brandon, Creation Legends, pp. 61. Cyrus H. Gordon, “Khnum and El,” in Scripta Hierosolymitana: Egyptological Studies, vol. 28, pp. 206-07

[10] Brandon, Creation Legends, pp.14.

[11] Mercer, Religion of Ancient Egypt, pp.79.

[12] Miriam Lichtheim, Ancient Egyptian Literature: A Book of Readings, vol. 1, pp.54.

[13] Brandon, Creation Legends, pp.38

[14] Henri Frankfort, Kingship and the Gods: A Study of Ancient Near Eastern Religion as the Integration of Society & Nature, pp.155.

[15] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[16] Idem.

[17] Material aproveitado de DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens em the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

Uma janela de vidro está diante de nós. Levantamos os olhos e vemos o vidro; notamos sua qualidade, observamos seus defeitos e especulamos sobre sua composição. Ou olhamos através dele na perspectiva de ver além terra, céu e mar. Da mesma forma, há duas maneiras de se olhar o mundo. Podemos ver o mundo e ficar absorvidos pelas maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar diretamente através do mundo e ver Deus por detrás dele. Essa é a maneira religiosa. A maneira científica de olhar para o mundo não é mais errada do que a maneira do fabricante do vidro olhar a janela. Essa maneira de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada não para ser observada, mas para observarmos através dela, e o mundo falha em seu propósito a menos que também olhemos através dele e os olhos repousem não nele mas no Deus que o fez2

10.07.09

Jeremias ou Zacarias? O que Mateus quis dizer em Mt.27.9?

Enviado em Crítica Textual, Tradução tagged , às 11:15 am por Marcelo Berti

A questão da profecia de Jeremias em Mateus 27.9 não é muito simples. Os escritores neotestamentários em várias ocasiões citam o antigo testamento e muitas vezes em uma conflação de idéias. Veja o caso da citação de Pedro em Atos.1.20: Nesse caso ele cita dois Salmos isolados (69.25; 109.8) como uma alusão a Judas.

Esse tipo de uso das escrituras feitas pelos autores neotestamentários não é incomum (veja o início do livro de Hebreus). O mesmo acontece em Mt.27.9. Mateus provavelmente fez uso de duas citações vétero-testamentárias e atribuiu a um único autor: Jr.32.7-9 e Zc.11.11-12. Muitos autores entendem que a razão para isso acontecer é que os livros do AT eram agrupados por seção. Por exemplos, os livros proféticos eram agrupados e iniciados pelo livro de Jeremias. Por isso não era incomum alguém citar um profeta e atribuir a Jeremias, como aconteceu em Mt.27.9. O modo como Cristo divide as escrituras em Lc.24.44 é uma demonstração disso.

Essa opinião tem sido largamente discutida e nem sempre aceita. Por essa razão transcrevo abaixo alguns autores que partilham essa opinião:

Jonh Gill:

“Mas o que parece melhor para resolver esta dificuldade, é que a ordem dos livros do Antigo Testamento não é agora, como era antigamente: os escritos sagrados eram divididos, pelos judeus, em três partes: a primeira foi chamado a Lei, que contém os cinco livros de Moisés; o segundo, os Profetas, que contém os primeiros e os últimos profetas, os profetas antigos começavam com o livro de  Josué, e os últimos com Jeremias; o terceiro foi chamado Ketuvim, ou o Hagiographa, o escritos sagrados, que começavam com o livro dos Salmos: agora, a última parte é chamada de Salmos (Lc 24: 44), porque começou com esse livro. Por isso toda a parte que continha os últimos profetas, pela mesma razão, começando com Jeremias, poderia ser chamado pelo seu nome, daí a uma passagem, de pé na profecia de Zacarias, que foi um dos últimos profetas, poderiam ser citados com justiça, sob o nome de Jeremias. Que era essa a ordem dos livros do Antigo Testamento, é evidente na seguinte passagem (T. Bab. Bava Batra, fol 14.. 2. Vid. Praefat. R. David Kimchici em Jr). ‘É uma tradição de nossos rabinos, que a ordem dos profetas é, Josué e Juízes, Samuel e os Reis, Jeremias e Ezequiel, Isaías, e os doze’.”

John Gill’s Exposition of the Entire Bible

Adam Clark:

“Era um antigo costume entre os judeus, diz o Dr. Lightfoot, dividir o Antigo Testamento em três partes: a primeira que começava com a lei foi chamada Lei, a segunda que era iniciada com o livro de Salmos foi denominada Os Salmos; o terceiro, iniciando com o  profeta em questão, foi chamado de Jeremias: Assim, então, os escritos de Zacarias e os outros profetas poderiam estar incluído nessa divisão, que iniciava com Jeremias, todas as citações de que iria com o nome do profeta. Se isso é admitido, a dificuldade é resolvida de uma vez. Dr. Lightfoot cita o prefácio de Baba Batra e o rabino David Kimchi ao profeta Jeremias, como suas autoridades”

Adam Clarke’s Commentary on the Bible

Albert Barnes:

“Muita dificuldade foi notada em explicar esta citação. Nos tempos antigos, de acordo com os escritores judeus, “Jeremias” foi contado o primeiro dos profetas, e foi colocado em primeiro lugar no “Livro dos Profetas”, assim: Jeremias, Ezequiel, Isaías, e os doze profetas menores. Alguns pensam que Mateus, citando este lugar, citou o livro dos profetas, sob o nome daquele que tinha o “primeiro” lugar no livro, ou seja, Jeremias, e que as palavras são as de Zacarias, no entanto, são citados corretamente as palavras do Livro dos Profetas, o primeiro dos quais foi Jeremias”

Albert Barnes’ Notes on the Bible

Jamieson, Fausset and Brown:

citando Ligtfoot:”Jeremias teve o primeiro lugar entre os profetas, e decide que ele venha a ser mencionado, acima de tudo o resto em Mt 16: 14; porque ele ficou em primeiro lugar no volume dos profetas (como ele prova a partir do aprendido David Kimchi), portanto, ele é primeiro nomeado. Quando, portanto, Mateus escreve um texto de Zacarias, sob o nome de Jeremias, ele apenas cita as palavras do volume dos profetas em seu nome que ficou em primeiro lugar no volume dos profetas”

A Commentary on the Old and New Testaments by Robert Jamieson, A. R. Fausset and David Brown

Mathew Henry:

“Alguns pensam que todo o volume dos profetas, sendo em um livro, e iniciando na profecia de Jeremias, não poderia ser abusiva, se um transcritor citasse uma passagem desse volume, sob o seu nome”

Matthew Henry’s Commentary on the Whole Bible

B.W. Jonhson:

“Outra explicação é que Jeremias, no arranjo dos profetas judeus, ficou em primeiro lugar, e que seu nome foi dado a todo o livro de profecia”

The People’s New Testament

Crítica Textual

Mas, o mais interessante é que todos eles (exceto Gill) defendem que essa não é uma questão a ser decidida apenas em consideração da forma do texto em si, mas da crítica textual. Do ponto de vista da crítica textual, algumas variantes são conhecidas:

  • [Ἰερεμίου - Jeremias] B E F G H L X Γ Δ Θ Π Σ f1 f13 180 565 579 597 700 892 1006 1010 1071 1241 1243 1342 1424 1505 Byz Lect (copmae copbo) goth arm ethgeo slavmss Irineuarm Eusébio Gregório-Nyssa Crisóstomo TEXTO RECEPTUS WH
  • [Ἰηρεμίου  - Jeremias] ‭א A C* (C2 205 1592 Ἰερημίου) W (copsa)
  • [Ἰερεμίας - Jeremias ou outra forma de escrita] itaur itc itd itf itff1 itff2 itg1 ith itq itr1 vg syrh syrpal Tertuliano Orígeneslat Jeronimo Agostinho
  • [Ζαχαρίου - Zacarias] 22 l858(1/2) syrh(mg) armmss Orígeneslatcom Jerônimocom Agostinhocom
  • [Ἠσαΐου - Isaías] 21 itl
  • [Omissão do nome do Profeta] Φ 33 157 1579 pc l1074(1/2) ita itb vgms syrs syrp copbo(ms) slavmss Diatessarona Diatessaronl mssAgostinho

A grande maioria das evidências textuais disponíves apontam para a leitura com Jeremias. Entretanto é notável que Orígenes (que morreu em 254) já tivesse em mãos textos com a leitura de Zacarías. Mais interessante ainda é que as versões sírias mais antigas (syrs – IV syrp- V), manuscritos da versão copta boárica (copbo(ms)- III) não trouxessem nome de profeta algum. Ainda mais interessante é como um documento do segundo século, como o Diatessaron, já lia o texto sem a descrição do profeta.

A antiguidade dessa evidência fez com que muitos autores considerassem que o texto original de Mateus não trouxesse qualquer definição do profeta, o que não é incomum em Mateus ( Mt.1:22; Mt.2:5, Mt.2:15; Mt.13:35; Mt.21:4). Essa é a opinião de Clarke, Bengel e Horne.

Por outro lado, alguns entendem que a evidência que traz a leitura Jeremias é uma perversão do texto orignial de Mateus. B.W. Jonhson, sobre isso diz:

“A profecia é encontrada em Zc 11: 12. Albert Barnes mostra que uma mudança de uma única letra no original poderia transformar Jeremias em Zacarias, e supõe-se que algum copista antido tivesse cometido o erro”.

Albert Barnes explica:

“Outros têm pensado que houve um erro cometido por copistas antigos, escrevendo o nome de Jeremias, em vez de Zacarias, e observa-se que isso poderia ser feito com a mudança de apenas uma única letra. Muitas vezes era o costume de abreviar palavras ao invés de escrevê-las. Assim, em vez de escrever o nome de Jeremias, na íntegra, seria escrito em grego, “Iriou”. Então, Zacarias estaria escrito “Zion”. Pela simples mudança de Z em I, portanto, o erro pode facilmente ser feito. Provavelmente esta é a explicação correta”

Os comentaristas da Bíblia de Genebra tem opinião similar:

“Como essa profecia é encontrado em Zc 11: 12, não se pode negar que o nome de Jeremias entrou no texto, quer por culpa de um escriba, ou por ignorância de alguém: pode ser também que essa opção saiu da margem por meio de a abreviatura de uma letra, sendo uma um “yod” e o outro “zayin”, que são muito semelhantes”

Vale a pena dizer que A.T. Robertson, que é um grande comentarista e conhecedor do Grego do NT (haja visto a quantidade de material que produziu sobre o assunto) não defende nenhuma opinião, mas sugere que o leitor busque em outro comentarista:

“Muitas teorias são oferecidas para a combinação de Zacarias e Jeremias, e atribuindo tudo a Jeremias, como em Mc 1: 2. a citação de Isaías e Malaquias se refere totalmente a Isaías como o mais proeminente dos dois. Broadus e McNeile dar uma discussão aprofundada das várias teorias a partir de um simples erro mecânico a um só dado acima”.

Mais importante ainda é que o comentarista crítico Bruce Metzger, no seu livro A textual commentary on the Greek New Testament atribuir o conceito C ao dilema. O conceito é normalmente atribuido de A a D, onde A conceitua um texto certo e D um texto com grande dificuldade de decisão. Dada a dificuldade de compreendê-lo, Metzger entende que Jeremias é a leitura original, mas com grande dificuldade de aceitação.

Conclusão

Ou seja, Mt.27.9 não é um dilema fácil. A minha opinião, até aqui, é que a leitura orignial traz o nome de Jeremias e que alguém percebendo o risco de assumir que Mateus assim tenha escrito, substituiu por Zacarias ou retirou o nome do Profeta.

Assim, entendo que Mateus está aludindo a atitude dos profetas como uma indicação de que Judas teria feito o mesmo às avessas. Note que na citação de Jeremias, ele recebe a ordem do Senhor para comprar como herança o campo do filho do seu tio. Já na citação de Zacarias, ele é instruído pelo Senhor a rejeitar o preço a ele pago por seus serviços: trinta moedas de prata. O que os prefetas teriam feito por instrução do Senhor, Judas por influência de Satanás.

Desse modo, é compreensível o que Mateus intencionou realizar e o texto, à luz do contexto, parece ser apresentado de modo adequado.

Tradução: inglês » português
Others have thought that there was a mistake made by ancient transcribers, writing the name Jeremiah instead of Zechariah; and it is observed that this might be done by the change of only a single letter. It was often the custom to abridge words in writing them. Thus, instead of writing the name of Jeremiah in full, it would be written in Greek, “Iriou.” So Zechariah would be written “Zion.” By the mere change of Z into I, therefore, the mistake might easily be made. Probably this is the correct explanation

//

Outros têm pensado que houve um erro cometido por copistas antigos, escrevendo o nome de Jeremias, em vez de Zacarias, e observa-se que isso poderia ser feito com a mudança de apenas uma única letra. Muitas vezes era o costume de abreviar palavras em escrevê-los. Assim, em vez de escrever o nome de Jeremias, na íntegra, seria escrito em grego, “Iriou.” Então, Zacarias estaria escrito “Sião”. Pelo simples mudança de Z em I, portanto, o erro pode facilmente ser feito. Provavelmente esta é a explicação correta

10.05.09

Conclusão

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , às 12:54 pm por Marcelo Berti

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Se as análises realizadas nesse estudo são verdadeiras, a Cristologia Testemunha de Jeová não poderia sustentar-se. É interessante notar que em todas as facetas dessa disputa textual, os teólogos reconhecem que o texto com “μονογενὴς θεός” poderia reforçar a divindade de Cristo. Aliás, para Ehrman isso é tão evidente que ele tem que supor que isso é uma corrupção da ortodoxia posterior ao texto.

Contudo, é de se admirar que a Tradução do Novo Mundo use exatamente essa leitura em suas traduções. Eu tenho a impressão que com o passar do tempo, eles deixarão essa leitura variante e passarão a adotar a outra, em funções teológicas. Os unicistas supostamentes bíblicos já fizeram isso (cf. John 1.18). Contudo, compreendendo o dilema teológico por traz dessa expressão, os tradutores mau intencionados usaram letras minúsculas para descrever o Logos: “o deus unigênito”. Para manter a malfadada teologia TJ, não alteraram o texto aqui, apenas o verteram com sua teologia exposta. Longe de ser um fraude piedosa, essa alteração é uma perversão descarada da verdade do texto que eles se propuseram a traduzir.

Evidências Internas

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:51 pm por Marcelo Berti

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Da mesma forma que a análise das evidências externas, na análise das evidências internas vamos observar que a interpretação textual move-se para ambas as leituras. Aliás, a leitura que pareceu favorável nas evidências externas, é atacada com mais intensidade aqui. E à semelhança da análise já realizada, aqui trataremos dos dilemas à medida que conhecemos os argumentos de cada lado da disputa.

CONSISTÊNCIA DA LEITURA

O principal argumento contra a leitura “μονογενὴς θεός” é que ela parece inconsistente com a literatura joanina. Do ponto de vista da estatística, na literatura joanina μονογενὴς refere-se exclusivamente ao Filho (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.19). No Novo Testamento, à exceção de uma passagem (Hb.11.17), todos os usos de μονογενὴς  fazem referência a um filho que é único (Lc.7.12; 8.42; 9.38).

O segundo argumento é que a frase “μονογενὴς θεός“ não é encontrada em nenhum outro lugar no Novo Testamento e é estranha a ele. O fato de que há relativo silencio neotestamentário para essa terminologia, faz com que os defensores da leitura com Filho defendam sua inconsistência. Outro detalhe que acresce-se a esse é que é muito incomum uma declaração à divindade de Cristo tão clara no NT.  Ou seja, existe um “quase” silêncio teológico clarividente no NT que pudesse suportar essa visão.

O terceiro argumento atesta que, do ponto de vista do estilo, a leitura com Filho parece mais natural ao texto, uma vez que o termo Deus é usado no início e o termo Pai no final. Em outras palavras, supõe-se que a repetição do termo “Deus” seria um inconveniente sintático para o texto e por isso uma construção relativamente difícil para João.

Entretanto, no que se refere à consistência da leitura, os dois primeiros argumentos desfavoráveis à “μονογενὴς θεός” não parecem consistentes. Muito embora exista razão e lógica nos argumentos, ele não é consistente. Vamos tomar o primeiro argumento como exemplo. Se a consistência com o autor é fator decisivo, alguém poderia alegar que Jo.5.4 poderia ser consistente com a terminologia joanina, pois não apenas a construção é similar como usa termos recorrentes. Entretanto, as evidências externas nesse caso são completamente desfavoráveis ao verso. Ou seja, a validade do argumento é dependente da soma das análises. Contudo, o mais importante a ser dito sobre essa argumentação é que ela exclui a possibilidade de uma expressão ocorrer uma única só vez no NT.

Sobre o segundo argumento é importante que se diga que João tem diversas expressões fundamentais para a Teologia Cristã que não são encontradas em nenhum outro lugar no NT. Por exemplo, João é o único que descreve Jesus Cristo como Logos eterno, pré-existente e divino (Jo.1.1), como único em espécie (Jo.1.14 – monogenes absoluto), como Logos encarnado (Jo.1.14). Em termos de proporção, parece que João está inovando sob muitos aspectos em sua apresentação da divindade. Se considerarmos válido o segundo argumento, teríamos que suspeitar de todo o prólogo, o que muitos teólogos já tem feito mesmo sem qualquer evidência textual para suportar suas convicções. Muito embora o argumento pareça sólido, mais uma vez ele é erigido sob uma frágil argumentação.

O mais audaz dos argumentos é o terceiro. Segundo os defensores da Velha Ortodoxia (Pickering, José Pedro M. de Almeida), do ponto de vista do estilo, a leitura mais natural seria o Filho: “A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação[24]”. Entretanto, deve-se notar que o termo Filho não é usado nenhuma vez no prólogo, ao passo que tanto μονογενὴς como θεός já teriam sido apresentados. Porém, é bem verdade que o uso de “Pai” na seqüência parece supor o uso de “Filho” antes, exceto que, se João tivesse usado uma segunda vez o termo θεός, usá-lo uma terceira vez seria uma grande redundância. Portanto, no que se refere à consistência da variante, os argumentos normalmente apresentados não são consistente. Ao contrário, favorecem à leitura de θεός.

Uma das convicções que sem tem obtido no estudo da crítica textual é que os copistas tinham certa tendência para facilitar um texto ao invés de complicá-lo. Também era comum que eles tentassem harmonizar passagens para que fossem sinérgicas. No caso de Jo.1.18, se considerarmos a leitura com θεός  a leitura original, não era difícil que alguém ousasse facilitar a leitura por substituí-lo por υἱός. Se o motivo não fosse o facilitar a leitura do texto, certamente poderia ter sido uma questão de harmonização com a terminologia do autor. Essa observação é importante, pois nos auxilia a compreender qual das leituras parece ser responsável pela outras. Sobre isso, Metzger tem uma opinião interessante:

“A leitura μονογενὴς υἱός, que é indubitavelmente mais fácil que μονογενὴς θεός, é resultado de uma assimilação escribal a Jo.3.16,8; 1Jo.4.9. O uso anartro de θεός (cf. 1.1) parece ser o mais primitivo. Não há razão para que o artigo fosse deletado, e quando υἱός suplantou θεός,ele certamente foi adicionado. A menor leitura, ὁ μονογενής, enquanto é atrativa por causa de considerações internas, é muito pobremente atestada para ser aceito como texto[25]

Diante das considerações de Metzger, observa-se que a leitura favorecida é consistente com as possibilidades de transcrição histórica do texto. Diante disso, podemos assumir que μονογενὴς θεός é a leitura mais provável do ponto de vista da transcrição histórica. Contudo, isso não a torna imediatamente mais consiste com o contexto.

Sobre a consistência com o contexto, é importante lembrar-se da opinião de A.T. Robertson:

“O escrito já havia dito em 1.1 que o Verbo era Deus e no 1.14 que o Verbo se fez carne. Agora ele combina as duas idéias no texto correto de 1.18: ‘Deus-unigênito’. Somente o Deus-homem poderia revelar a Deus completamente ao homem. Ele é Deus e Homem, e pode e atua como intérprete de Deus para o homem[26]

É interessante que no clímax do prólogo, João combine duas idéias chocantes já apresentadas para concluir o que tem a dizer. Se isso é tomado como verdadeiro, nota-se grande coesão estrutural no pensamento joanino[27]. Aliás, Martin Vincent parece defender exatamente isso:

“A última leitura [μονογενὴς θεός ] meramente combina em uma frase dois atributos do verbo já indicados – Deus (v.1) e unigênito (v.14)’; o sentido é o ser único que é tanto Deus como Unigênito[28]

Vale a pena ressaltar que, tanto no verso 1 (θεός), como no verso 14 (μονογενὴς), encontramos as declarações desacompanhadas de artigo, o que parece favorecer a leitura μονογενὴς θεός. Ou seja, do ponto de vista da consistência da análise interna, a leitura majoritariamente alexandrina é claramente favorecida.

PROBLEMAS TEOLÓGICOS

No que se refere a problemas teológicos, os adeptos da leitura com “θεός” parecem não identificar qualquer problema com qualquer uma das variantes. Harris, que tem preferência por “θεός” em função de sua antiguidade e dificuldade, diz que “de modo geral, eu não acredito que nenhuma das leituras altera de modo sério o sentido do texto[29]”.

Entretanto, os defensores da leitura “υἱός”, insistem que a leitura variante não é possível, pois introduz problemas teológicos sérios. Estranhamente, Ehrman é um desses que entende que existe um problema teológico na leitura com “θεός”. Muito embora isso não fizesse qualquer diferença para o autor (exceto para sua defesa de corrupção ortodoxa), Ehrman alega que Jesus só poderia ser o único Deus, se não houvesse outro Deus, o que o contexto imediato já rejeita: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Essa argumentação é bem similar à aquela que os defensores da Velha Ortodoxia apresentam.

Entretanto, para Pickering, acredita que o texto traz ainda um problema mais grave: “se Cristo recebeu sua divindade no processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade”. Ou seja, Pickering, embora concorde com a leitura sugeria por Ehrman, não pode concordar com a tese de Ehrman. Em parte, Pickering está dizendo que existe um conceito de geração na expressão e se a divindade de Cristo está em sua geração, então um sério problema teológico é auferido. Por outro lado, ele concorda com a possibilidade de que “υἱός”, como texto original, é uma defesa teológica ao adocionismo (!).

Normalmente, a Velha Ortodoxia sugere que a leitura “θεός” é uma forma de influência gnóstica no texto, como se existissem diversas divindades: Deus, o Deus unigênito, o Pai, o Logos. José Pedro de Almeida, um desses defensores zelosos da Velha Ortodoxia, diz:

Por não crerem na pre-existência do Filho [os gnósticos], eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)[30]

A acusação é séria: hereges alteraram o texto para acomodar suas convicções teológicas, como se fossem aceitas pelas escrituras. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.

Tendo considerado isso, temos que admitir que, à exceção de Ehrman, os cristãos zelosos da Velha Ortodoxia demonstram sua preocupação com a contaminação das escrituras. Entretanto, os seus argumentos não passam de uma opção zelosa. Em resposta a Almeida gostaria de apresentar três pontos de atenção:

  1. Se um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbal nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Tê-lo feito em Jo.1.18 não teria ajudado muito.
  2. Se um gnóstico escriba quisesse negar a encarnação do Verbo, teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Se o suposto escriba houvesse feito isso apenas em 1.18, teria feito um péssimo trabalho.
  3. Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Se a questão gnóstica realmente fosse rejeitar a divindade de Cristo, era mais fácil acrescer ou retirar informações do verso 1. Mas, isso também não aconteceu.

Já Pickering, parece não ter atentado muito bem para o termo “μονογενὴς”. Para ele, esse termo deve ser diferente de “μονος” (único) e no NT não existem evidências para que se entenda “μονογενὴς” com essa idéia. Contudo, o uso do termo em Hb.11.17 deveria tê-lo feito pensar nessa concusão: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas”. O texto diz que Isaque era o unigênito de Abraão, entretanto, ele não era o único filho gerado de Abraão: Ele era o Filho mais Amado de Abraão. Em Gênesis temos exatamente essa visão: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (22.2). O termo hebraico para descrever Isaque como único filho é o termo “Yachiyd” que é traduzido na Septuaginta por “agapetós” (o amado de modo especial). Não é à toa que Rudolf Bultmann defende que “a designação [de monogenes] deverá ser compreendida como predicado de valor no sentido de ‘amado acima de tudo’ de acordo com o uso lingüístico da LXX[31]”. Ou seja, “μονογενὴς[32]” não é usado apenas com o sentido de geração como parece sugerir Pickering[33], mas com sentido de único, especial, amado. Portanto, a dificuldade apresentada por ele não parece válida.

Contudo, Ehrman entende o termo dentro de um escopo mais abrangente e o define como “único”, assim como tenho defendido. Sobre isso, ele diz: “Por definição pode apenas existir um μονογενὴς: a palavra significa ‘único’, ‘único em sua espécie’. O problema, é claro, é que Jesus poderia ser o único Deus apenas se não houvesse outro Deus; mas no quarto evangelho, o Pai é Deus da mesma forma[34]”. Entretanto, Ehrman parece não usar o conceito de sua própria definição adequadamente. Se o termo significa “único em sua espécie”, não há qualquer dificuldade de compreensão: O Logos, como único em sua espécie, amado de modo especial é o único que poderia tornar Deus conhecido em sua essência, como Jo.1.18 parece estar a ensinar. Portanto, a ênfase recai sobre sua SINGULARIDADE (ninguém é como Ele) e não sobre sua EXCLUSIVIDADE (não há mais ninguém).

PARECER PESSOAL

A mim me parece que as argumentações em descrédito da variante preferida na análise de evidências externas não são consistentes, e minha preferências pela leitura “μονογενὴς θεός” parece bem evidente a essa altura. No que se refere consistência, tenho a impressão que essa leitura é mais consistente. No que se refere às possibilidades de transcrição, entendo que essa justifica mais adequadamente o surgimento das outras, sem contar que teologicamente, “μονογενὴς θεός” é certamente a leitura mais difícil. Assim, tenho acredito que essa leitura é, muito provavelmente, a leitura original desse verso.

Evidências Externas

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:50 pm por Marcelo Berti

Para o texto integral, clique aqui.

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A análise da evidência externa nesse tem diversos dilemas, e à medida que observamos as evidências e as informações disponíveis ao autor, vamos tentar tratar desses dilemas com cautela.

DATA

No que se refere a data das leituras variantes, as diferentes escolas tem apresentado sua opinião. Alguns ortodoxos ecleticistas têm suas preferências para a leitura com θεὸς em função da descoberta de dois papiros do segundo século que trazem essa leitura. Bruce Metzger defende essa opinião: “Com a aquisição de P66 [≈200 d.C] e P75 [início do terceiro século], ambos leem θεός , o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecida[16]”. Kostenberger and Swain demonstram mesma opinião: “Com a aquisição de P66 e P75, em que ambas lêem μονογενς θες, a preponderancia da evidência agora nos leva em direção da última leitura [μονογενς θες] [17]”.

Entretanto, Pickering defende P75 tem uma leitura conflada[18]. A leitura que P75 traz é “ μονογενς θες” e Pickering entende que ela é resultado da leitura das outras duas leituras possíveis para o texto: “μονογενς θες” e “ μονογενς υἱὸς”. Em outras palavras, como “μονογενὴς” é um adjetivo (para ele) e não é modificado por artigo, algum copista deve ter adaptado a leitura das duas leituras para produzir a leitura de P75. Se Pickering está certo, ambas as leituras são atestadas com mesma antiguidade.

Já Ehrman entende que P66 e P75 não são tão significativos para a crítica textual nesse verso. Segundo ele, a descoberta dessas duas testemunhas fez pouco para a consideração das evidências documentais, e não fez “nada para alterar o quadro[19]” da crítica nesse verso, pois eles acabaram por demonstrar algo que já era conhecido pelos críticos: documentos do segundo (Diatessaron), ou terceiro século (Orígenes, Versões Copta Boárica) já traziam essa leitura.

Essa argumentação em favor da antiguidade da data de ambas as leituras é percebida pelas citações dos pais da Igreja: Herácleto, Ptolomeu, Irineu, Clemente e Orígenes já no segundo e terceiro século usavam a leitura com “Deus”; enquanto Teódoto, Tertuliano, Hipólito, Irineu, Clemente e Orígenes citavam a leitura com “Filho”. O fato de que o mesmo Pai da Igreja tenha citado as duas possibilidades nos faz pensar no contexto em que teriam usado, ou qual das leituras teriam apoiado. Porém, neste, ressaltaremos apenas o caráter cronológico das evidências. Ou seja, seja qual for a leitura que Irineu, Clemente ou Orígenes tenham preferência, o fato é que ambas as leituras estavam disponíveis desde a segunda metade do segundo século. Portanto, podemos dizer que, do ponto de vista da idade da leitura, ambas parecem consistentemente conhecidas já no segundo século.

Contudo, temos que ter alguma reserva quanto a objeção de Ehrman sobre P66 e P75. Muito embora outros cristãos ortodoxos concordem com ele (cf. Brian Write), em termos de atestação documental, o P66 é o mais antigo manuscrito nessa disputa. Ainda que os pais da igreja, nesse mesmo período, já conhecessem ambas as leituras, P66 acresce valor documental à análise. Enquanto um pai da Igreja poderia aludir um texto, ou citá-lo de memória e com isso apresentar um texto longe de sua forma original, ou até mesmo disponível ao autor, um Papiro tem sua leitura claramente apresentada. Ou seja, para que P66 não tenha valor nessa discussão tem que se assumir que P66 é uma fraude nesse verso, o que não parece o caso (como demonstraremos com mais detalhes).

Ou seja, do ponto de vista documental, parece mais plausível que a leitura predominantemente alexandrina, “μονογενὴς θεός”, seja a mais primitiva das leituras.

TIPO-TEXTO e GEOGRAFIA

Outro dilema para esse texto é que os defensores da leitura “ μονογενς υἱὸς” afirmam que a leitura com “θεός” não é consistente fora da tradição alexandrina. Pickering defende que a leitura com “θεός” tem origem no Egito. Ehman defende que todas as famílias de texto (Ocidental, Bizantina e Cesarena) estão coesas na defesa da leitura de “Filho” enquanto a variante com “Deus” parece isolada na família alexandrina.

Sobre a tradição alexandrina nesse verso, não há dúvidas que o arquétipo textual é a leitura com “θεός”, e não conheço alguém que ousasse discordar dessa opinião: Os mais antigos papiros (P66 e P75) e o mais antigo uncial (B) suportam essa leitura. Entretanto, a pergunta que cabe aqui é: Essa leitura é exclusivamente alexandrina?

Que a maioria dos manuscritos seguem a tradição bizantina, não há qualquer dúvida. Que a leitura bizantina (Filho) é atestada com mais solidez nas diferentes famílias textuais, também não há qualquer dúvida. A questão que precisa ser melhor analisada é a suposta solidão alexandrina na defesa de “θεός”.

Um dos fatos que parecem ter sido ignorados por Ehrman e Pickering é que o Códice Sinaítico traz a leitura com “θεός”. Em geral, o Sinaítico acompanha a leitura do Códice Vaticano e de P75, e por isso é reconhecido como representante da tradição alexandrina. Contudo, o Sinaítico “também tem uma força definida de leitura do tipo-texto Ocidental[20]”. Gordon Fee, após analisar as evidências do Sinaítico em comparação com outros documentos, chegou a seguinte conclusão: “O Códice Sinaítico é um grande representante grego da tradição textual Ocidental em João 1.1-8.38[21]”. Se Fee está correto em sua análise, o Códice Sinaítico é o mais antigo representante da tradição Ocidental no dilema de Jo.1.18. Isso significa que, é possível que a leitura com “θεός” represente o arquétipo Ocidental.

Essa informação parece colocar as teorias de Ehrman e Pickering sob suspeita. Uma vez que as mais antigas leituras Ocidentais e Alexandrinas estão apontado para a mesma leitura, temos forte evidência de que a forma mais primitiva do texto lia “μονογενὴς θεός”.

Outro fato que nos surpreende na análise das evidências disponíveis é que a Peshita (syrp), que é reconhecida como favorável à tradição bizantina nos evangelhos, apóia a leitura “μονογενὴς θεός”. A versão Georgiana, que normalmente é reconhecida como representante da tradição Cesareana, também concorda com Peshita. O mesmo acontece com as versões copta. Ou seja, as mais antigas versões do NT não fazem menção à leitura com “υἱός”.

Dessa forma, se considerarmos a antiguidade da leitura “μονογενὴς θεός”, e sua atestação geográfica, podemos assumir que é provável que essa tenha sido a leitura seja a forma mais primitiva do texto que dispomos. Se considerarmos a qualidade dos documentos que atestam essa leitura, ela é certamente favorecida. Segue-se que, a conclusão mais plausível até aqui é que “μονογενὴς θεός” é a leitura mais primitiva do texto.

DEBATES TEOLÓGICOS

Alguns acreditam que a leitura “μονογενὴς θεός” teria surgido como uma reação ortodoxa à teologia ariana. Entretanto, tal afirmação não faz o menor sentido, uma vez que, segundo Epifânio, o próprio Ário teria usado essa passagem com essa leitura. Outro detalhe importante é que Ário, como os Testemunha de Jeová, não tem o menor problema em chamar o Logos de Deus. Em uma carta a Eusébio, bispo de Nicomédia, Ário escreveu: “Mas, o que dizemos e pensamos? O que temos dito e ensinado? Que o Filho não é não-gerado ou uma parte do Não-Gerado em nenhuma forma ou substrato, mas que pela vontade e conselho do Pai ele subsiste antes do tempo e das eras, cheio de graça e verdade, Deus, o unigênito, imutável[22]”.

Outro fato que merece atenção, é que, para que essa acusação pudesse ser levada em conta, dever-se-ia comprovar que essa leitura teria surgido no período da controvérsia ariana, entretanto, já se demonstrou que ela é anterior. Isso, sem contar que, alterar o prólogo do evangelho e permitir mais três outras citações da expressão “Filho unigênito” na literatura joanina não faz o menor sentido. Caso um copista almejasse resolver a controvérsia ariana alterando o texto do NT, ele teria feito um péssimo trabalho alterando apenas uma ocorrência de quatro. Esse argumento não faz o menor sentido.

Há ainda, outro argumento para se rejeitar a leitura “μονογενὴς θεός”. Ehrman argumenta que essa variante é fruto de uma alteração ortodoxa anti-adocionista. Uma vez que para Ehrman a leitura com “Filho” lhe parece original, a explicação que ele oferece é que um copista, visando defender a divindade de Cristo alterou o texto[23]. O conceito é o mesmo que o anterior, entretanto, Ehrman é um pouco mais acurado cronologicamente. No segundo século o ebionismo já era conhecido e combatido pelos Pais da Igreja. Tertuliano e Orígenes já teriam escrito sobre eles no fim do segundo século início do terceiro.

Contudo, parece novamente improvável que um copista alterasse o texto justamente essa parte do texto para promover a defesa da divindade de Cristo. Só nos primeiros versos, o Logos já havia sido chamado de pré-existente, criador e Deus. Sem contar que não existe qualquer conotação adocionista na nomenclatura de Filho do Logos. A questão adocionista parece muito mais ligada ao “quando” essa filiação aconteceu do que ao fato de o Logos é Filho.

Ou seja, defender a leitura “μονογενὴς θεός” como uma alteração ortodoxa do texto para validar a divindade de Cristo em Jo.1.18, não parece aceitável.

PARECER PESSOAL

Em resumo às considerações levantadas acima, podemos dizer que:

  1. Ambas as leituras eram conhecidas no segundo século, considerando apenas que do ponto de vista documental, P66 traz relativa vantagem à leitura “μονογενὴς θεός”.
  2. No que se refere à distribuição geográfica há incontestável vantagem da leitura “ὁ μονογενὴς υἱὸς”, entretanto, as mais primitivas fontes que dispomos apontam para “μονογενὴς θεός” e são importantes representantes do tipo texto Ocidental (Sinaítico), Bizantino (Peshita) e Cesareana (Geo2).
  3. Do ponto de vista da qualidade documental, “μονογενὴς θεός” é claramente favorecida.
  4. Em relação aos ataques de corrupção ortodoxa, seja para combater o arianismo ou o adocionismo, a argumentação é primária e inconsistente e não minimiza a leitura “μονογενὴς θεός” em nenhum sentido.
  5. Portanto, ainda que as evidências externas não possam definir a questão, é bem provável que a leitura “μονογενὴς θεός” seja a melhor leitura para o texto.

Ortodoxia Eclético-Racional

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:48 pm por Marcelo Berti

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No que se refere ao cristicismo no NT, há uma escola chamado ecleticismo racional, que defende que cada caso é um caso a ser analisado individualmente. Normalmente são favorávesis ao Texto Crítico (TC) e normalmente favoráveis às alexandrinas, por sua antiguidade e qualidade do material. Entre esses, existem os cristão verdadeiros que adotam esse modo de crítica e defendem suas posições com a preocupação de compreender e defender a fé.

Esses, em oposição à Velha Ortodoxia e à Nova Escola, defendem que a leitura “Deus Unigênito” é a leitura original e que, como essa expressão não acontece em nenhum lugar no NT foi harmonizada com tantas outras que trazem “Filho Unigênito” (Jo.3.16, 18; 1Jo.4.19). Nesse caso, tanto a leitura original (Deus) como a variante (Filho) teria sido produzida por cristãos.

A.T. Robertson defende essa opinião:

“Os melhores manuscritos antigos (Aleph, B, C, L) lêem monogenes theós (Deus Unigênito) que indubitavelmente é a leitura verdadeira do texto. Provavelmente algum escriba teria alterado para ‘ho monogenes huiós’ para suavizar a crua declaração da deidade de Cristo e para harmonizar com Jo.3.16[15]

Entretanto, o modo como se traduz o texto com essa variante é foco de constante ataque. Tanto Ehrman, quanto Pickering tem suas opiniões sobre a impossibilidade de que a fraseologia “μονογενής θεός” seja de fato joanina. Ou seja, os que adotam essa leitura ainda têm apresentar de modo claro e convincente sua defesa gramatical para que essa leitura possa ser aceita. Para quem está nessa posição, tem obrigação dobrada: além do dilema textual, tem que entrar em um debate gramatical.

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O que se pode dizer até aqui é que, independente da leitura adotada, teólogos liberais, agnósticos e cristãos tem sua opinião sobre o que aconteceu com o texto. Mais interessante do que isso é os motivos estampados na defesa da Velha Ortodoxia e da Nova Escola são antagônicos: o primeiro rejeita a leitura com “θεός” por que é uma corrupção aparentemente gnóstica, enquanto o segundo a rejeita por ser uma leitura muito ortodoxa.

A verdade é que o consenso nesse texto é: esse é um dilema de difícil resolução. Por essa razão, vamos observar as evidências para considerar qual das opiniões supracitadas parece mais adequada.

Nova Escola

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:47 pm por Marcelo Berti

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A Nova Escola é o nome normalmente atribuído ao movimento teológico não necessariamente cristão. Liberais, agnósticos e ateus podem defender suas “novas” idéias de “releitura” das escrituras do ponto de vista histórico. Trata-se de Teologia, pois no estudo ainda fala-se sobre Deus, entretanto Ele não é o foco nesse estudo. Entre esses, Bart Ehrman tem-se mostrado influente. Em seu livro The Orthodox Corruption of the Scripture, Ehrman se propõe a demonstrar como os ortodoxos do passado alteraram o NT para que ele defendesse o que eles entendiam por ortodoxia.

Para ele, Jo.1.18 é um claro exemplo disso: Os cristãos ortodoxos alteraram a leitura original “Filho Unigênito” para defender a divindade do Logos. Nas palavras de Ehrman:

A leitura variante da tradição Alexandrina, que substitui ‘Filho’ por ‘Deus’, representa uma corrupção ortodoxa, onde a completa divindade do Filho é afirmada: O único Deus que está no seio de Deus, esse o fez conhecido[12]

Na posição completamente oposta da Velha Ortodoxia, Ehrman acaba por concordar com ela nesse verso, pois ambos suportam que “Filho unigênito” é a leitura original. O que me fascina é que a razão pela qual ele opta por essa leitura: A defesa da divindade de Cristo. Como agnóstico, Ehrman não tem qualquer compromisso em defender a Fé Ortodoxa, e por isso supõe que  uma declaração tão estampada da divindade de Cristo só pode ser uma fraude.

Do ponto de vista das evidências externas, Ehrman reconhece que os críticos normalmente tem suas preferência pelos leitura Alexandrina nesse texto, até por que os principais unciais (א , B, C) e os mais antigos documentos (P66 e P75) favorecem essa leitura. Entretanto, para ele, nesse caso seria um erro entender que as evidências externas como obrigatórias.

Do ponto das evidências internas, ele chega a dizer:

“O problema mais comum para aqueles que optam por [oJ] μονογενής θεός, mas que reconhecem que isso deve ser traduzido como ‘o único Deus’, é que isso é virtualmente impossível no contexto joanino, é como se entendesse o adjetivo substantivamente, e construir a segunda parte intera de João 1.18 como uma série de aposições[13]

Por isso, a conclusão de Ehrman é:

“O resultado de assumir o termo μονογενής θεός como dois substantivos estando em aposição produz uma sintaxe quase impossível, enquanto que a construção do relacionamento entre elas não produz sentido algum[14]”.

Velha Ortodoxia

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:45 pm por Marcelo Berti

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Nesse artigo, passo a chamar Velha Ortodoxia o posicionamento de cristãos ortodoxos que defendem ou o Texto Recebido (TR) ou o Texto Majoritário (TM) e são normalmente favoráveis à leituras mais Bizantinas. Chamo velho não por estarem desatualizados, nem por representarem uma determinada faixa etária, mas por se tratar de um grupo que tem perdido sua expressão com o avanço do Texto Crítico. Os defensores do TR são certamente cristãos genuínos que por zelo (eventualmente exagerado) tendem a considerar a influencia Alexandrina no texto do NT como fermento e corrupção. E, portanto, entendem toda aproximação dos textos alexandrinos como perversão da verdade[8].

Para esse grupo a leitura “Deus unigênito” é uma perversão. Wilburn Pickering, que escreveu um excelente livro sobre crítica textual[9], defende essa posição. Segundo ele, nesse texto uma anomalia séria é introduzida, pois “Deus como Deus, não é gerado”. Sobre o assunto ele diz:

’Um deus unigênito’ é tão deliciosamente gnóstico que a origem egípcia aparente desta leitura a faz duplamente suspeita. Também seria possível traduzir a segunda leitura como “unigênito deus!”, enfatizando a qualidade [de ser Divino], e isto tem atraído muitos que aí vêem uma forte afirmação da divindade de Cristo. No entanto, se Cristo recebeu Sua “Divindade” através do processo de geração, então não pode ser a eternamente preexistente Segunda Pessoa da Trindade. Também “unigênito” não é análogo a “primogênito”, que se refere à prioridade de posição — isto poria o Filho acima do Pai. Não importa como a encaremos, a redação da UBS introduz uma anomalia séria[10]

Em outras palavras, o que Pickering quer dizer com isso é que, a anomalia produzida acresce uma pessoa à Trindade, pois se o texto diz “Deus unigênito” não pode fazer referência a Jesus Cristo. Mas, o que me chama mais a atenção é que para ele, tal variante é deliciosamente gnóstica. Com isso, estamos falando de um copista alterando o texto para apoiar suas próprias convicções e com isso defendendo uma opinião gnóstica.

É interessante que para Pickering, o conceito de “monogenes” tem que significa mais que apenas monos, e com isso ele não acredita que os usos do NT justifiquem a tradução “único” para o termo grego. Com isso, entendemos que ele apóia o entendimento de geração em “monogenes”. Por isso, não é de se espantar que ele considere a leitura da NIV (God the One and Only) como uma “fraude piedosa”.

Como nota-se, para a Velha Ortodoxia, as evidências são claras e em maior peso: A leitura Filho Unigênito é a original, enquanto, “Deus Unigênito” é uma alteração possivelmente gnóstica. Sem contar que, no que se refere a quantidade de evidência (que para eles é fundamental) há incomparável vantagem.

Também devemos atentar para o lembrete de Scrivener sobre esse texto: “Aqueles que irão recorrer exclusivamente a evidências antigas para a recensão do texto, provavelmente ficarão perplexos lidando com essa passagem. Os mais velhos manuscritos, versões e escritores estão desesperadamente divididos[11]”. Essa consideração é importante especialmente para aqueles que consideram a data como fator predominante para a tomada de decisão.

Identificando as Variantes

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:44 pm por Marcelo Berti

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Brian J. Write sobre o assunto diz: “Todas as variantes (…) são divididas em dois grupos distintos ou lendo υἱὸς ou θεὸς. Se a última opção é escolhida, a decisão final depende da presença ou ausência do artigo[2]”. De qualquer forma, é importante que se diga que, para a Teologia do Novo Testamento, ambas as leituras não trazem dificuldade alguma[3], [4].

É interessante que um dilema tão difícil como esse possa ter nascido na alteração de apenas uma letra. Nos antigos unciais acontece um fenômeno bem recorrente que é o uso da Nomina Sacra, que nada mais é do que a abreviação das formas substantivas relacionadas à divindade. No caso, θεὸς e υἱὸς eram escritos como θC  e UC respectivamente. Ou seja, a simples troca de U por θ seria capaz de produzir tal mudança[5]. Para demonstrar como esse fato, veja abaixo a foto do Códice Vaticano e do Washingtonensis nesse trecho[6]:

Jo118Jo118 (W)

Entretanto, apesar de parecer muito simples e sutil essa alteração, as evidência demonstram que a compreensão de como isso poderia ter acontecido é muito mais complexo. A questão não limita-se apenas à alteração de uma letra, mas de como ela aconteceu: Quando aconteceu a primeira alteração, para qual opção teria sido? Por que razão? Era uma defesa ou ataque teológico? Será que trata-se de uma corrupção do texto original influenciado pelas heresias? Seria uma alteração apologética feita pelos ortodoxos? É possível que tenha acontecido por desatenção?

Ao certo, a resposta a essas perguntas depende da análise crítica das variantes, e é necessário que se diga que por mais acurada que uma análise possa ser, ela não é a garantia da verificação da verdade: Trata-se apenas de uma tentativa de compreender a verdade expostas nesses dilemas.

O primeiro passo que tomaremos nesse estudo é o reconhecimento das variantes textuais. Abaixo separo cada uma das variantes com os documentos que as suportam:

Leituras Possíveis[7]

Documentos

μονογενὴς θεὸς

Deus Unigênito

p66 א* B C* L pc syrp syrh(mg) geo2 Diatessarona Valentiniansaccording to Irenaeus Valentiniansaccording to Clement Ptolemy Heracleon Origengr(2/4) Ariusaccording to Epiphanius Apostolic Constitutions Didymus Ps-Ignatius Synesiusaccording to Epiphanius Cyril1/4

ὁ μονογενὴς θεὸς

O Deus Unigênito

p75 א2 33 pc copbo Theodotusaccording to Clement(1/2) Clement2/3 Origengr(2/4) Eusebius3/7 Serapion1/2 Basil1/2 Gregory-Nyssa Epiphanius Cyril3/4

ὁ μονογενὴς υἱὸς

O Filho Unigênito

A C E F G H K Wsupp X Δ Θ Π Ψ 063 0141 f1 f13 28 157 180 205 565 579 597 700 892 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1216 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 Byz Lect ita itaur itb itc ite itf itff2 itl vg syrc syrh syrpal arm eth geo1 slav Theodotusaccording to Clement(1/2) Theodotus Irenaeuslat(1/3) Clement1/3 Tertullian Hippolytus Origenlat(1/2) Letter of Hymenaeus Alexander Eustathius Eusebius4/7 Hegemonius Ambrosiaster Faustinus Serapion1/2 Victorinus-Rome Hilary5/7 Athanasius Titus-Bostra Basil1/2 Gregory-Nazianzus Gregory-Elvira Phoebadius Ambrose10/11 Chrysostom Synesius Jerome Theodore Augustine Nonnus Cyril1/4 Proclus Varimadum Theodoret Fulgentius Caesarius John-Damascus Ps-Priscillian ς

μονογενὴς υἱὸς θεοῦ

Filho Unigênito de Deus

itq (copsa? θεὸς) Irenaeuslat(1/3) Ambrose1/11(vid)

ὁ μονογενὴς

O Unigênito

vgms Diatessaron Jacob-Nisibis Ephraem Cyril-Jerusalem Ps-Ignatius Ps-Vigilius1/2 Nonnus Nestorius

Tendo demonstrado quais são as leituras variantes e os documentos que a suportam, gostaria de apresentar como se tem interpretado as evidências disponíveis. A verdade é que, diferentes teólogos têm interpretado de modo diferente as evidências disponíveis, e conhecer seus argumentos certamente enriquecerá nosso entendimento do dilema.

Introdução

Enviado em Crítica Textual, Teologia de João, Testemunha de Jeová tagged , , às 12:43 pm por Marcelo Berti

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Um dos problemas textuais mais controvertidos é provavelmente o encontrado em Jo.1.18: Liberais e Ortodoxos tem suas impressões sobre ele, e todos tem seus motivos bem declarados. Aos que têm em mãos várias versões bíblicas já puderam perceber as possíveis leituras desse texto:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (ACF)

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (TNM)

“Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (BJ)

“Ninguém nunca viu a Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou” (NTHL)

“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (ARA)

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (NVI)

“A Dios nadie Le vio jamás; el unigênito Hijo, que está em el seno del Padre, el Le há dado a conocer” (ACR)

“Dios nadie lo ha visto nunca; el Hijo unigénito, que es Dios y que vive en unión íntima con el Padre, nos lo ha dado a conocer” (NVI)

“No man hath seen God at any time; the only begotten Son, which is in the bosom of the Father, he hath declared him” (KJV)

“No one has ever seen God, but God the One and Only, who is at the Father’s side, has made him known” (NIV)

“No one has ever seen God. The only Son, God, who is at the Father’s side, has revealed him” (NAB)

“No one has ever seen God. The only one, himself God, who is in the presence of the Father, has made God known” (NET)

Diante da diversidade das versões, mesmo em português, nos perguntamos: Qual dessas traduções traz a leitura correta? O que é fato assumido como certeza nessa discussão é que apenas uma das leituras variantes pode ser a original. Provavelmente, essa é a única certeza que temos quanto a esse dilema textual[1].

A disputa nesse verso está entre cinco leituras encontradas em manuscritos gregos:

  1. monogenes théos: lit. Deus Unigênito
  2. ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
  3. ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
  4. monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
  5. ho monogenes: lit. o Unigênito

Muito embora sejam cinco as leituras variantes, normalmente tomam-se apenas como duas opções de fato: as duas primeiras testemunham a mesma leitura enquanto a quarta e a quinta são tão improváveis (do ponto de vista das evidências externas) que quase não são consideradas. Sobre isso iremos falar mais adiante. Por ora, vamos conhecer melhor as leituras disponíveis e os documentos que trazem tais leituras.

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