A relação de similaridade entre Paulo e João


Observações ao texto de Rudolf Bultmann (Teologia do Novo Testamento) 

Segundo RB, a visão de que a teologia joanina é o desenrolar áureo da teologia paulina é um erro. Observe o que diz: “A observação de que em João a discussão paulina sobre a lei é de somenos importância, levou muitas vezes, à conclusão errada de que João deveria ser compreendido como o auge do desenvolvimento que vai além de Paulo, no qual as discussões em torno da lei pertencem ao passado (pp.433)“. Para RB a teologia cristã não teve um desenvolvimento monolinear[1].

A similaridade: RB acredita que existe uma similaridade entre os autores em pauta no que diz respeito a atmosfera histórico-religiosa. “Ambos se encontram no espaço helenístico impregnado pela corrente gnóstica, de modo que certa consonância a terminologia não causa admiração (pp.433-4)“.

  1. O uso de “kosmós”: Tanto Paulo quanto João usam o termo no sentido dualista depreciativo. Existe unanimidade quanto ao fato de que kósmos representa o mundo dos humanos.
  2. Redação antitética:João impregna sua redação com afirmações paradoxais e pensamentos essencialmente antitéticos, o que deixa sua obra ainda mais admirável. Entretanto algumas dessas construções antitéticas fazem alguma relação com a teologia paulina:
    • por que não tem a verdade nele, por isso, quando fala a mentira fala do que lhe é próprio] (Jo.8.44); não escrevi a vocês por que vocês não sabem a verdade, mas por que sabem e por que nenhuma mentira provém da verdade (1Jo2.21). Essa característica, forte em João, é perceptível, mesmo em grau menor, na literatura paulina. Em Rm1.25 podemos encontrar a expressão: transformaram a verdade de Deus em mentira. Esse contraste entre o que é da parte de Deus e o que é do mundo, fora de Deus, é perceptível em ambos autores.
    • e a luz brilha nas trevas e as trevas não suportam ela] (Jo.1.5); Eu sou a luz do mundo. Aquele que me segue não andará em trevas] (Jo.8.12). Paralelo parecido é visto também em Paulo: “Das trevas resplandecerá a luz” (2Co.4.6). Ambos exemplos demonstrados aqui tratam apenas de similaridades ocasionais e não recorrentes.
    • e falei de coisas terrenas a vocês e vocês não creram, como crerão se falar a vocês sobre coisas celestiais (Jo.3.12). para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra e debaixo da terra (Fp.2.10).
  3. Cristologia: RB acredita que tanto João quanto Paulo escrevem sobre Cristo influenciados pelo “mito gnóstico da redenção[2]:
    • O Envio do Filho de Deus preexistente em figura humana: Fp.2.6-11 e Jo.1.14
    • O envio do Redentor como evento escatológico: Jo.3.19; 9.39; Gl.4.4. Entretanto, as terminologias empregadas não são correlativas:
      • Paulo não usa expressões escatológicas joaninas como [vir], [ir] (Jo.8.14) e [ser elevado]
      • João também não usa algumas expressões características ca concepção apocalíptica judaica que ocorrem com freqüência em Paulo: [este século] [(Co1.20); [plenitude do tempo] (Gl.4.4); [nova criação] (2Co.5.17; Gl.6.15).
  4. Coincidência na terminologia cristã comum: RB acredita que, devido aos pontos já citados, não é de se admirar que tal coincidência aconteça:
    • Vida Eterna: Ambos autores falam da vida eterna como o bem salvífico. Entretanto, não se fala do reino de Deus (3.3, 5)
    • Caracterização do bem salvífico: Ambos caracterizam o bem salvífico com termos como [alegria] (Jo.17.13; Rm.14.17) e [paz] (Jo.14.27; Rm.14.17). Esses termos são usados por João de maneira singular, “sendo que alegria, paz aparecem como dádivas de despedida de Jesus à comunidade que remanesce no mundo” (pp.434).
  5. Similaridade de vocabulário específico: É consoante entre os autores o uso de termos como [enviar] e [mandar] para o envio de Jesus (Gl.4.4; Rm.8.3), [dar] para sua entrega (Jo.3.6; Rm.8.32) e [glória] (Jo.17.5; Fp.2.9; Jo.3.21) para a concepção da elevação de Jesus a Senhor na glória. Embora seja muito similar o uso desses termos, RB acredita que isso não traça um relacionamento especial entre os autores, apenas reafirma a terminologia cristã comum.

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Este artigo é resultado da reflexão do autor deste blog sobre parte do artigo do Rudolf Bultmann sobre a Teologia de João

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[1]Isso é perceptível pelas inúmeras fontes antigas sobre a discussão da teologia e a existência de materiais teológicos não consoantes. O desenvolvimento da teologia sofreu deformidades ao longo do tempo e sua construção estava fadada a especulação humana e preferência pessoal de uma cúpula de pessoas que teriam autoridade para montar a teologia cristã. A diversidade de pensamento no desenvolvimento da teologia cristã é a prova final que foi conturbada sua concepção e polêmica sua definição até os moldes atuais. O que definiu, entretanto, a ortodoxia teológica sempre foi a busca pela defesa das escrituras, e sempre com ela ficamos em todo o processo. Embora, mesmo o desenvolvimento da ortodoxia não tenha sido monolinear, o fundamento básico é o mesmo: Apresso a escritura. Isso é o pressuposto do qual não abro mão.

[2] Quando RB fala do mito gnóstico, acredito que ele tem em mente a terminologia envolvida na proclamação da salvação. Ele afirma: “A terminologia gnóstica serviu sobretudo para expor com clareza o evento salvífico. Segundo ela, o redentor aparece como uma figura cósmica, como o ser divino preexistente, o filho do Pai, que desceu do céu e assumiu figura de ser humano, que de sua atividade terrena, foi elevado à glória celestial e conquistou o domínio sobre os poderes espirituais” (pp.230). Para RB essa construção é vista tanto em Fl.2.6-11 quando em 2Co.8.9. Segundo RB a mensagem do verdadeiro Deus e de Jesus, do Messias-Filho do ser humano, a mensagem escatológica do juízo e salvação que eram propagados com linguagem veterotestamentária deveria necessariamente ser traduzida para uma linguagem que fosse familiar ao mundo helenista. Por essa razão RB acredita que existiu influência na compreenssão da mensagem cristã e no desdobramento no cristianismo helenista por meio da terminologia gnóstica. “Por natureza, um processo desses não acontece sem influência de conteúdo. E assim como o cristianismo helenista foi envolvido no processo sincretista por meio da formação do culto ao ku,rioj, tanto mais isso aconteceu pela formação da doutrina da redenção sob influência gnóstica.” (pp.218).