A relação entre o amor agápe e Deus em 1João


Talvez o mais interessante conceito sobre Deus na Teologia joanina seria o amor de Deus. No quarto capítulo dessa epístola encontramos mais vezes o termo amor que em qualquer outro capítulo nas escrituras. Isso nos leva a concluir que sua visão sobre esse assunto é fundamental para a compreensão correta do cristianismo. Por essa razão vamos nos dedicar a observar esse assunto com atenção nessa epístola.

Deus é amor (agápe)

Talvez a mais importante descrição sobre Deus na Teologia de João seja a que Deus é agápe. Por duas vezes o autor faz isso: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8); “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (4.16).
Entretanto, mais que identificar a colocação da expressão dentro dos escritos joaninos é compreender o que de fato isso significa. Por isso, precisamos observar alguns fatos sobre o Amor de Deus para tentar compreender seu real significado prático e conceitual.

1. O amor de Deus é completo e independente da criação:

É fundamental compreender esse fato, visto que é comum que pessoas interpretem a criação como uma necessidade de Deus para expressão do Seu amor. Entretanto, a teologia joanina apresenta o fato que o amor de Deus já era ativo antes mesma da criação: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Dessa forma vemos que o amor de Deus era ativo em direção àquele que é o “Uiós tou Theou”. Outro detalhe é que embora indefinido no tempo, o verbo amou na sentença grega está completo no passado e ativo no presente, o que também sugere que esse amor está além do tempo, e permanece ativo: “Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor” (Jo.15.9); “O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo.3.35 cf. 10.17). E mais interessante que isso é que o Filho também tem amor ativo e presente pelo Pai: “contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou” (Jo.14.31). Dessa forma, podemos notar que o amor de Deus é independente da criação, completo e ativo.

2. O amor de Deus é perfeito:

Uma das declarações que soam interessantes quando falamos em perfeição é que Deus é o modelo último e máximo da perfeição, independente do campo ou ambiente do que se trata. Quando fala em unidade, Cristo pede a Deus que os cristãos sejam aperfeiçoados na unidade (Jo.17.23), e sempre remete ao padrão da perfeição da união da trindade (v.22). No que diz respeito ao amor, na teologia de João podemos encontrar indícios de que o amor de Deus é perfeito, no sentido que nada lhe falta, completo e final. Uma das evidências que temos para isso é que o amor de Deus pode ser aperfeiçoado no cristão, na medida que busca aproximar-se de Deus: “Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus” (2.5); “Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (4.12); “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança” (4.16-17). Se o amor que procede de Deus pode ser aperfeiçoado na vida do cristão, se ele pode chegar a ser completo em sua vida, deve supor que a fonte de onde ele sai carrega as mesmas características. Se isso é verdadeiro, logo o amor de Deus é completo.

3. O amor de Deus é imenso:

Quando falamos que o amor de Deus é imenso, estamos nos referindo ao fato de que Seu amor não tem como ser medido. Deve ser por essa razão que eventualmente João utiliza a idéia de que esse amor é grande: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai” (3.1). A palavra grega para grande (potapós) é sempre utilizada em contexto onde o maravilhar-se está presente, de forma que a expressão em si tem um ar de magnitude. Dessa forma, notamos que o amor que Deus tem é imenso. Outros textos contribuem para essa conclusão: “se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros” (4.11; cf.Jo.3.16). O modo com que Deus amou ao mundo é tão intenso e tão forte, que não foi descrito com uma forma ou quantidade definida, antes, João utiliza um termo que pressupõe a magnitude do mesmo.

4. O amor procede de Deus:

Na teologia joanina não existe outra fonte para o amor, se não de Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (4.7). A expressão grega deixa bem evidente que o amor vem, procede, sai, emana de Deus (ek tou Theou estin).

5. O amor de Deus é manifesto ao mundo:

Uma das verdades sobre o amor de Deus é que, apesar de completo, ativo e independente da criação, Deus decide fazê-lo conhecido ao mundo: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Dessa forma, todos os que são criaturas de Deus podem compreender e conhecer o amor de Deus, até por que o procedimento de Cristo visava testificar esse fato ao mundo (Jo.14.31) e sua história é prova viva desse interesse de Deus.

6. O amor de Deus é conhecido em Cristo:

Para João essa verdade é contundentemente clara: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9). Essa mensagem está em consonância com a verdade sobre o Filho e a Obra Redentora realizada por Deus por intermédio de Jesus Cristo. Além do mais: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos”

7. O amor de Deus é manifesto aos cristãos:

Uma importante observação à essa altura é que esse amor é apresentado de modo especial para aqueles que o Pai traz a Cristo (Jo.6.37, 44). Em sua oração, Jesus pede ao Pai que seus discípulos sejam unidos e cresçam na unidade com o objetivo que “o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo.17.23). A unidade entre os discípulos, o que incluí tanto os onze que estavam com Ele naquele momento e todos os que vieram após eles (Jo.17.20-21) seria o testemunho eficaz de que Cristo havia sido envidado da parte de Deus para esse mundo, e que Deus ama os seguidores de Cristo da mesma forma como ama a Cristo. Essa declaração parece fazer alguma distinção entre o amor que Deus atribui ao mundo e a Seus filhos.

8. O amor de Deus é primeiro:

Vale a pena ressaltar que o amor de Deus, que era presente desde a eternidade passada em Jesus Cristo, manifesto Nele e direcionado a Ele, é também direcionado aos que são cristãos: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (4.19). Não pode-se dizer, então, diante da teologia joanina que fomos considerados como filhos por termos sido escolhidos por Deus em função de uma pré-disposição, ou pré-visão de um amor para com Deus, mas sim que, Ele nos amou antes que pudéssemos esboçar qualquer tipo de amor. Aliás, diante da teologia de João fica evidente que não poderíamos esboçar amor a Deus sem que seu amor tivesse sido direcionado e efetivo em nós.

9. O amor de Deus é definido em Cristo:

Em alguns lugares na literatura joanina podemos encontrar algumas sentenças que parecem tecer partes da definição desse amor que Deus tem: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (4.10). O amor de Deus consiste em sua ação primeira manifesta completamente em Cristo. Embora não tenhamos uma informação de quando isso aconteceu com certeza, vemos pelo verbo amou que isso aconteceu em algum momento do passado (amou – aoristo). Por outro lado, esse amor é direcionado aos cristãos (nos) de modo que a ação de Cristo foi em favor desses que tem nEle a propiciação dos pecados (Vale o lembrete que essa ação da parte de Deus é estendida ao mundo inteiro –  1Jo.2.2). Outra afirmação que merece nossa observação é que João ainda complementa a idéia do amor de Deus da seguinte forma: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (3.16). O amor de Deus é definido pela auto-doação de Cristo pelos cristãos, que deveriam fazer o mesmo. A afirmação final desse verso parece estender em um pouco a concepção de que o amor de Deus é também definido pelo amor que os cristãos devem manifestar.

10. O amor de Deus é percebido pela prática cristã:

A literatura joanina apresenta em diversos lugares a preocupação de que aquele que crêem em Cristo como Salvador deveriam esboçar esse amor de Deus nos seus relacionamentos, e que isso seria evidência suficiente do amor de Deus (Jo.17.20-24). Entretanto, parece não ser essa a única preocupação de João, visto que o amor de Deus é que em parte é percebido pelos cristãos: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (4.9). O fato de Deus ter enviado Seu Filho ao mundo é um fato conhecido na teologia joanina, mas a consistência do amor de Deus também está no objetivo a que Ele enviou Seu Filho: Para que os cristãos pudessem viver por meio Dele. Com esse adendo, notamos que o amor de Deus é, por um lado definido por seu envio do Filho, e por outro pelo reflexo deste na comunidade dos que crêem Nele. Contudo, podemos ainda inferir que essa não é toda a concepção que João tem sobre esse assunto: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos” (5.3). Nesse ponto notamos que parte da definição do amor de Deus está na obediência do cristão, sendo isso ainda verificado na segunda epístola de João: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor”. Nesse texto ainda temos a inclusão de que os cristãos deveriam andar nesse amor.

11. A questão da posse e da permanência:

Uma das verdades apresentadas com solidez pela teologia joanina é que o não cristão não possui o amor de Deus: “sei, entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus” (Jo.5.42). Essa definição apresenta um detalhe sobre o amor de Deus, que mesmo embora seja manifesto ao mundo, não seja efetivo em todos os seres humanos, pois existem aqueles que não tem o amor de Deus. Outro detalhe é que o amor com que Deus amou a Cristo parece ser direcionado de modo específico aos que crêem: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja” (Jo.17.26). Essa afirmação é direcionada para aqueles que compreenderam que Deus havia enviado a Cristo (v.25), que foram dados por Deus a Cristo (v.24) e estão nele (v.23), são objetos do amor de Deus (v.23) e que crêem em Cristo por meio da palavra de Deus (v.20). Portanto, confirma-se que o amor de Deus é manifesto de modo especial no cristão. Porém, deve-se ressaltar que esse amor pode não estar no cristão: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (3.17). De algum modo, o cristão pode deixar de ser aperfeiçoado no amor de Deus a ponto de não ter o amor de Deus presente em sua vida. É o que acontece com o cristão que ama ao mundo ou às coisas que estão no mundo: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (2.15). Por essa razão que espera-se que o cristão ame não apenas com palavras, mas “de fato e de verdade” (3.18). Assim, o cristão também deve persistir na permanência no amor de Deus, visto que essa prática é também a garantia da permanência em Deus (4.16).

Conclusão

Considerando as informações sobre o amor na literatura joanina, podemos assumir que ao referir-se a Deus como amor, tem todos esses conceitos em mente. Portanto, cremos que de alguma forma a definição de Deus inclui todos esses aspectos, não de forma a limitá-lo, mas na forma de compreendê-lo como Deus. Se isso é verdadeiro, concluímos que Deus é

1. É completo e independente da criação
2. É perfeito
3. É imenso
4. É auto-existente
5. Manifesta-se ao mundo
6. É conhecido por meio de Cristo
7. Manifesta-se de modo especial aos cristãos
8. É ativo e primeiro em sua ação
9. É visto em Cristo
10. É percebido pela prática cristã (madura)
11. Relaciona-se com mais intensidade com o cristão maduro

Dessa forma, podemos compreender um pouco sobre o que João intencionava ensinar ao falar que Deus é agápe.