Distância entre João e os sinóticos


Observações ao texto de Rudolf Bultmann (Teologia do Novo Testamento)

Para determinar a posição histórica de João é necessário levantar uma comparação entre os evangelhos sinóticos e o evangelho de João. RB em uma nota de roda pé aponta para a possibilidade de que o autor do evangelho não seja necessariamente o autor das epístolas. Também considera a possibilidade de que poderia ter sido fruto da escola de João. Embora não possa demonstrar, RB acredita que João não teria conhecido qualquer dos evangelhos sinóticos. Entretanto, “ele conhece a tradição trabalhada neles” (pp.431). Evidências desse ponto são percebidas em alguns ensinos de Jesus, alguns milagres e especialmente na história da paixão.

a. Redação a partir de fontes em estágio avançado: Em relação a teologia dos sinóticos, o relato dos milagres (em especial) parece ter sofrido um desenvolvimento além do que é relatado nos evangelhos sinóticos. O ponto de partida dessa informação está no estilo da redação: Os milagres que eram narrados nos sinóticos como fatos, em João tomam um sentido simbólico ou alegórico, sendo que, tais fatos servem de ponto de partida para discursos ou discussões. Essa estrutura literária traça um quadro totalmente diferente dos encontrados nos relatos sinóticos.

b. Estrutura do relato das conversas e discursos de Jesus: Nos sinóticos vemos breves diálogos “didáticos ou de controvérsia, nos quais Jesus dá a resposta aos que tem perguntas honestas ou aos adversários com um breve dito categórico” (pp.431). Entretanto, João valoriza os discursos de Jesus com discursos prolongados, que além de serem introduzidos por milagres (em geral), são constituídos por afirmações paradoxais (aqui usei o termo paradoxal em preferência ao termo usado por RB “ambíguos”): nascido do alto (3.3), água vida (4.10) entre outros. Nos sinóticos vemos ditos encadeados. Em João eles são exposições coesas sobre determinados temas. Nesses discursos é possível perceber, entretanto, a influência da tradição sinótica: 2.19; 4.44; 12.25ss; 13.16, 20; 15.20.

c. Temas diferentes dos tratados nos sinóticos: Segundo RB, em João Jesus não se apresenta como Rabi (mestre da lei), interessado nas discussões sobre a lei, nem como profeta que anuncia o Reino de Deus. Ele é, acima de tudo, Aquele que fala de sua pessoa como do revelador que Deus enviou. Não fala sobre assuntos “judaicos” por excelência como pureza, divórcio, contra a justiça própria ou a inverdade, mas aponta para a natureza de sua missão que traz paz ao mundo, e denuncia a falta de fé nele, como Aquele que é o salvador do mundo. Mesmo em situações próximas as testemunhadas nos sinóticos, como na acusação da transgressão do mandamento do sábado (cp. 5 e 9), podemos perceber alguma diferença: O foco. Nos sinóticos a discussão parece centrada na questão da lei e de sua validade para o ser humano (Mc.2.23-3.6), que no evangelho de João é centrada na autoridade de Jesus como Filho de Deus.

d. Ausência de Parábolas: Nos sinóticos a presença das parábolas é parte integrante dos discursos, o que eventualmente constituem os discursos de Jesus. Em João as parábolas faltam totalmente. Em contrapartida em João temos grandes discursos figurados, como o do pastor (cp.10) e o da videira (cp.15). RB acredita que na “imagem simbólica, apresentam Jesus como revelador. Eles pertencem ao grupo de palavras e discursos que recebem seu caráter pelo  ‘evgw, evimi’ do revelador, e que não tem analogias nos sinóticos” (pp.432).

e. Reestrutura do relato da paixão: Fato interessante nesse ponto é que percebemos similares diferenças entre os sinóticos e o 4º. evangelho, pois mesmo onde soam parecidos percebemos diferenças. Nos sinóticos vemos na cena da ceia que antecede a prisão de Jesus, como a oportunidade para instituir a celebração da ceia, mas no 4º. evangelho é o início de grandes discursos de despedida que não tem ponto de comparação nos sinóticos. “Os diálogos perante o sinédrio e Pilatos são totalmente modificados, bem como o relato da crucificação, que termina como o tete,lestai do revelador”.

f. Distinção do papel de João Batista: Nos sinóticos João Batista é o pregador do arrependimento, enquanto em João é a testemunha a favor de Jesus como Filho de Deus.

g. Distinções sobre a comunidade primitiva: Enquanto nos sinóticos percebe-se alguma preocupação com o destino, problemas e a fé da comunidade primitiva, em João não nota-se nada disso. As questões sobre a validade da lei, a vinda do Reino de Deus não estão presentes. Não parece mais atual o problema da missão aos gentios (compare Jo.4.46-54 e Mt.8.5-18 e Lc.7.1-9). A história da mulher samaritana, que poderia ter sido explorada do ponto de vista dos sinóticos (a validade da missão aos gentios como parte legítima da obra de Cristo), foi apresentada como a relação entre fé e milagre.

h. Distinção de ênfase no que se refere às profecias: Segundo RB, o cumprimento das profecias parece insignificante (em comparação com os sinóticos). Esse assunto está presente apenas em 2.17; 12.142, 38, 40; 13.18; 15.25; 19.24, 36s. É possível que esteja presente também em 6.31, 45.

i. Foco geral: Para RB o foco sobre o qual é constituído o evangelho de João é a situação atual da comunidade primitiva, cujo problema está na desavença entre Judaísmo e Cristianismo e seu tema é a fé em Jesus como Filho de Deus. Tal fato é claramente percebido pela própria apresentação de Jesus como alguém já destituído da própria nacionalidade, pois fala da lei dos judeus (“vossa lei”) como um estranho a ela (cf. 8.17; 10.34; 7.19, 22). Não existe em João uma distinção clara entre tipo de judeus (pecadores, publicanos, escriba pescadores) mas são tratados como vIoudaioi diferenciados somente entre ov,cloj e nos líderes, também distintos entre av,rcountej ou av,rciepeij ou Farisaioi, que são identificados como autoridades públicas (7.45, 47s; 11.47, 57). “Além disso, para João os ‘judeus’ são os representantes do ‘mundo’ por excelência, que nega a fé a Jesus” (pp.433)

Um comentário sobre “Distância entre João e os sinóticos

  1. Adriana Mancini

    Oi Marcelo, que prazer em ver um comentário tão instrutivo seu na internet. Estou fazendo teologia e ao buscar respostas para um trabalho a ser apresentado em relação aos Sinóticos, deveria destacar as diferenças encontradas no Evangelho de João…
    Deus o abençõe. Abraços. Adriana Mancini de Souza, esposa do Denller.

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