Cognocibilidade de Deus em 1João


O conhecimento de Deus é sempre visto nas escrituras e por essa razão cativa seus leitores a um envolvimento mais intenso e profundo com esse Deus. O estudo da teologia própria não é só fascinante por apresentar características de Deus, detalhá-las e apresentar efetivamente nas escrituras, mas por abrir portas para uma forma de conhecimento que não se dá em conceitos, mas em experiência pessoal.

Talvez esse seja um ponto alto da concepção joanina sobre Deus exposto em sua primeira epístola: Deus pode ser conhecido pessoalmente, pois é possível existir um relacionamento entre um ser humano regenerado e seu Redentor. Entretanto, mais importante do que essa observação, é que para João essa cognicibilidade em Deus pode ser verifica como certeza. Observe: “Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai” (2.14). Nesse texto, João apresenta de modo convicto que seus leitores primários já haviam estabelecido um relacionamento com Deus. O verbo que descreve essa certeza é “gnosko“, que pode contribuir em muito com nossa compreensão dessa afirmação joanina.

De modo geral, o termo em conceituação é visto nas escrituras como sinônimo de saber (oida) e normalmente traduzido como conhecer (Jo.8.32; 14.17; ), ou outros termos que representem o reconhecimento (1Jo.4.12; cf. Gl.4.9), ter conhecimento (Rm.2.18) ou entendimento (Jo.3.10; 8.43). Fora da literatura joanina, já foi utilizado (especialmente na LXX em tradução ao termo hebraico yadá) como um intercurso sexual (Mt.1.25; Lc.1.34), um uso particularmente incomum no novo testamento e estranho à literatura de João.

Na primeira epístola de João temos algumas indicações sobre o significado dessa expressão quando relacionada com Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (4.7). Na relação entre o amor de Deus é que podemos notar alguma relação com a certeza do conhecimento de Deus, pois aquele que demonstra o amor que do Pai recebeu evidencia que é Filho Dele e tem um relacionamento pessoal com Deus. De uma forma mais simples, a prática cristã segundo Cristo evidencia (não promove) esse relacionamento com o Pai.

É possível, ainda, que essa expressão de conhecimento do Pai tenha estrita relação com o recebimento do ensino dos apóstolos: “Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve[1]; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve” (4.6). Em sua discussão sobre o problema do surgimento das heresias sobre Cristo que assolavam a comunidade primitiva a quem João endereçara sua carta, ele transparece com intensidade que esses “anticristos” teriam saído de meio da comunidade cristã, mas evidenciam com seu ensino pernicioso que nunca fizeram parte dessa comunidade (2.19). João chega a identificá-los como pessoas que negam o Pai e o Filho (2.22), e ainda são apresentados como pessoas que não tem o Pai por negarem o Filho (2.23). Pouco a frente João ainda incentiva os cristãos a não darem ouvidos para outras pessoas[2] com ensinos contraditórios (4.1) ao que ouviram do próprio João (2.20).

Dessa forma, João afirma que as pessoas que tem inclinação ao ensino dos apóstolos são pessoas que apresentam um relacionamento pessoal com Deus. Assim, esse conhecimento não é mero acúmulo de informações teológicas, mas a prática cristã saudável da busca pela vida com Deus. Por isso que é evidente na visão de João que aquele que não demonstra amor, não pode conhecer a Deus: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (4.8). Isso não significa que essas pessoas não tem acesso a salvação, mas que por sua imaturidade não tem um relacionamento consistente estabelecido com Deus, ou que por sua falta de relacionamento com Deus permanecem em sua imaturidade.

Portanto, a possibilidade de experimentar com Deus um relacionamento, está aberto a todos os que creem em Cristo, são considerados como filhos, amados de modo especial por Deus, mas apenas os cristãos crescentes em maturidade é que tem desfrutado Dele. Evidência para isso é que a prática cristão é colocada como realce desse conhecimento experiencial (4.6-7). Alías, como João poderia perceber que dentre as pessoas que ele escreve ele teria convicção do seu conhecimento de Deus, se não pudesse observar?


[1] A expressão “nos ouve” parece estar ligado ao conceito plural de redação visto na introdução da epístola, que parece não apontar necessariamente a uma autoria coletiva, mas refletir o envolvimento, ensino e influência apostólico na conceituação da teologia cristã.

[2] Eu entendo particularmente que o uso de “pneuma” nos primeiros versos do capítulo 4 refere-se a outras pessoas e não a entidades espirituais, por algumas razões:

  • Confissão: no verso 2 João aponta para um problema similar ao apresentado no capítulo 2: Esses espíritos não confessam que Jesus teria vindo em carne;
  • Nominação: esse espírito é nominado como “espírito do anticristo” em consonância com a nomenclatura do capítulo 2 para os falsos mestres.
  • Identificação: No verso 4 fica explícito que sua intenção é falar sobre “falsos profetas“, que falam da parte do mundo.
  • Procedência: Esses falsos profetas, segundo o verso 5, procedem do mundo. Ora se a origem é natural não há por que esperar que sejam sobrenaturais esses espíritos.
  • Correlação: no verso 6 João associa pessoas que escutam a mensagem dos apóstolos com o espírito da verdade, de modo que fica evidente que o uso do termo espírito pode ser usado para pessoas.