Evidências da Humanidade de Cristo em 1João


Em primeira João percebemos claramente o grande foco colocado sobre Cristo. As exortações e ensinos de João nesse livro em grande parte estão fundamentados na pessoa, obra e caráter de Cristo: As implicações sobre a vida cristã estão fundamentadas em Cristo (2.4-6), a exortação contra os falsos mestres é centrada na concepção correta da pessoa de Cristo (2.18-23; 5.6, 9), a prática do amor entre os cristão está fundamentado na Obra de Cristo a nosso favor (3.16), a centralidade da fé cristã está em Cristo (3.23; 4.2-3; 4.14-15; 5.1, 5; 5.11-12; 5.20), a manifestação do amor de Deus é reconhecida na auto-doação de Cristo em nosso benefício (4.9-10) entre outras considerações sobre Cristo.

O que vemos nesse fato é que a Pessoa de Cristo estava sob ataque e consequentemente a fé cristã. Portanto, era necessário que João investisse seu tempo para escrever uma carta que pudesse auxiliar os cristãos a buscarem uma vida adequada diante de Deus e da correta compreensão da Pessoa de Cristo. Talvez seja por essa razão que encontramos tantas referências a Cristo, seja por sua Obra, Caráter ou Pessoa.

Como já foi dito, a concepção cristã sobre a Pessoa de Cristo não teve muitas dificuldades em apresentar Deus como divino, embora seja esse o alvo de maior ataque dos anti-cristãos. Mas, compreender a necessidade de sua humanidade era uma tarefa pouco realizada. João em sua primeira epístola o faz de modo claro e convincente. Observe a introdução de sua epístola: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida” (1.1). Eventualmente enfatizamos as características divinas de Cristo nesse verso, visto que o texto parece iniciar desse modo. Entretanto, os verbos de ação atribuídos a Cristo, o que era desde o princípio divino, sugerem participação ativa como humano entre homens.

Nesse verso temos uma seqüência interessante de verbos e informações sobre Cristo que atestam sua humanidade sem detratar sua divindade. Os dois primeiros verbos (ouvir: akouö – ver: opaö) estão no perfeito indicativo ativo ao passo que os dois próximos verbos (contemplar: theáomai – apalpar: pselafaö) estão no aoristo indicativo ativo. Essa construção sugere uma seqüência de ações decrescente, do atual ao antigo. Essa é uma declaração baseada no uso do verbos ouvir como um perfeito intensivo, do verbo ver como um perfeito consumativo e dos verbos contemplar e apalpar como aoristo constatativo. É por isso que os primeiros dois verbos trazem a sensação de ação realizada no presente, ao passo que os outros atestam claramente uma ação realizada indefinidamente no passado.

Ou seja, embora Cristo já não estivesse mais fisicamente próximo a João, ele ainda o podia ouvir. Três possibilidades podem ser vistas aqui: (1) Ou vemos nessa sentença parte do cumprimento da promessa de Cristo de estar com os cristãos até o fins dos tempos (Mt.28.20); (2) vemos que o impacto causado pelo ensino de Cristo ainda era presente na vida de João e sua memória o ainda o remetia à mensagem de Cristo ou (3) as duas possibilidades são verdadeiras ao mesmo tempo. De qualquer forma, na memória de João ainda era vívida a mensagem de Cristo, bem como sua pessoalidade humana e divina, como o primeiro verso dessa epístola testemunha muito bem.

A questão da visão com próprios olhos tem duplo objetivo na introdução dessa epístola: (1) ratificar sua posição como testemunha ocular de Cristo, diferente dos falsos mestres que surgiram ao redor dos cristãos e certamente (2) defender sua humanidade integral. Cristo não se parecia com um homem, era visto como tal perante aqueles que ante dele estiveram. O perfeito consumativo no verbo ver reforça a idéia de uma ação concluída e definida na mente daquele que escreve. Assim, a sentença “o que temos visto com os nossos próprios olhos” é uma declaração da presença física de Cristo entre os apóstolos (e certamente entre seus seguidores).

Já o verbo “contemplar” tem peso significativo nessa sentença. Se João intencionasse apenas apresentar a “visibilidade” de Cristo, o verbo “ver” teria sido suficiente, por que, então, anexar na mesma sentença outro verbo que diria o mesmo? O verbo grego “theáomai” que traduzimos por contemplar anexa em sua gama de significado o conceito de atenção. Ou seja, mais do que visto, Cristo foi contemplado atentamente por João pessoalmente. Isso é evidente quando somamos a esse testemunho de João seu evangelho. O tempo que teve disposto para estar com Cristo foi suficiente para que ele considerasse sua contemplação atenciosa como evidência de sua humanidade. O fato de que João usa esse verbo no aoristo constatativo contínuo no passado atesta a evidência histórica, pois sugere que essa ação não foi realizada em um único evento, mas durante em período de tempo não determinado no passado. Mesma conotação que encontramos com o verbo “apalpar” na seqüência.

Entretanto, o argumento em prol da humanidade de Cristo nesse verso ganha incrível força quando soma-se os argumentos já apresentados aos significado de verbo “pselafaö” (apalpar). Esse verbo é usado em referência a capacidade tátil do ser humano, uma de suas fontes de conhecimento e percepção. Ou seja, afirmar que Aquele que era desde o princípio é alguém que poderia ser tocado é uma afirmação definitiva sobre a correta compreensão da Pessoa de Cristo, Deus-Homem entre nós. Aqui fica evidente que Cristo, na percepção de João, era mais que um espírito desencarnado como alguns falsos mestres pareciam sugerir, era um ser humano real, que poderia ser visto, ouvido e contemplado atenciosamente[1].

Ou seja, para João a humanidade de Cristo era real e como testemunha ocular desse fato ele atesta e ensina essa verdade com o objetivo de instruir os cristãos e protegê-los dos ensinos falsos que rondavam seus leitores primários. Um dos exemplos desse tipo de ensinamento era que Jesus teria sido habitado temporariamente pelo Cristo (divino) no batismo e que ele havia o deixado na crucificação, ensino comumente encontrado nos escritos gnósticos. Entretanto, João confronta esse pensamento para defender a integralidade da pessoa de Cristo quando diz: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue” (5.6)[2]. Quando João fala em água e sangue tem em mente que Jesus Cristo era o mesmo no batismo e na morte. Não há possibilidade para João que Jesus, o ser humano, tivesse sido possuído pelo Cristo, o ser divino, no batismo e o deixado na morte. Para ele Jesus Cristo é o mesmo em ambas as situações.

Outro detalhe importante sobre a visão de João sobre a teologia cristã é que a humanidade de Cristo era uma necessidade real, por isso em sua epístola chega a afirmar: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus[3]” (4.2). Independente da referência que se faça nesse texto, é evidente que para João a humanidade de Cristo não era apenas central para a teologia cristã ou para a concepção correta da pessoa de Cristo, mas para a salvação. Aqueles que não aceitam a humanidade do Filho de Deus não podem pertencer a Deus, e aquele que não tem o Filho não tem o Pai. As implicações soteriologicas da verdade sobre Cristo são certamente o ponto mais importante da mensagem dos apóstolos e deve ser mantido por nós.

Ou seja, a humanidade de Cristo é uma necessidade soteriológica e qualquer que intencione retirar esse aspecto da mensagem do evangelho, não apenas o corrompe com suas vãs filosóficas, mas impede que aqueles que ouvem sua (a)versão do evangelho possam ser de Deus, como João instrui. É por isso que devemos manter fidelidade a Deus na entrega de sua mensagem, pois podemos ser considerados como os fariseus o foram: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando” (Mt.23.13).


[1] Apenas para elucidação do tema, esse é o mesmo verbo utilizado por Lucas para evidenciar que após a ressurreição, Cristo era um ser humano. Em sua narrativa Jesus diz: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc.23.39)

[2] Um detalhe interessante sobre esse verso é a designação do Filho como Jesus Cristo, expressão não freqüente na literatura joanina. João utiliza essa nominação apenas 10x para o Filho (Jo.1.17; 17.3; 1Jo.1.3; 2.1; 3.23; 4.2; 5.6; 5.20; 2Jo.1.3, 7)

[3] Nesse verso, alguns comentaristas têm achado uma indicação de entidades espirituais como testemunhas de fatos que não são coerentes com a doutrina ensinadas pelos apóstolos. Eu entendo particularmente que o uso de “pneuma” nos primeiros versos do capítulo 4 refere-se a outras pessoas e não a entidades espirituais, por algumas razões:

  • § Confissão: no verso 2 João aponta para um problema similar ao apresentado no capítulo 2: Esses espíritos não confessam que Jesus teria vindo em carne;
  • § Nominação: esse espírito é nominado como “espírito do anticristo” em consonância com a nomenclatura do capítulo 2 para os falsos mestres.
  • § Identificação: No verso 4 fica explícito que sua intenção é falar sobre “falsos profetas”, que falam da parte do mundo.
  • § Procedência: Esses falsos profetas, segundo o verso 5, procedem do mundo. Ora se a origem é natural não há por que esperar que sejam sobrenaturais esses espíritos.
  • § Correlação: no verso 6 João associa pessoas que escutam a mensagem dos apóstolos com o espírito da verdade, de modo que fica evidente que o uso do termo espírito pode ser usado para pessoas. Deve-se acrescentar a esse ponto que em sua segunda carta João faz uma declaração muito semelhante e atribui claramente a pessoas: “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo“.