Autoria de 1João


A primeira epístola de João[1] e a epístola aos Hebreus são as únicas epístolas do Novo Testamento que não tem indicação de autoria no próprio texto, o que as torna bem particulares. Normalmente o local mais apropriado para se buscar informações sobre a autoria de uma epístola é na própria carta, pois espera-se que o autor identifique-se a quem escreve. Essa é uma característica recorrente em Paulo (cf. Rm.1.1; 1Co.1.1; 2Co.1.1 etc) e observada em Pedro (1Pe.1.1; 2Pe.1.1), Tiago (Tg1.1) e Judas (Jd.1). Entretanto, no caso de uma epístola sem identificação de autoria, temos que recorrer ao testemunho dos pais da igreja e da teologia cristã. Muito embora a epístola seja anônima, “há fortes evidências, contudo, de que João, o apóstolo, seja o autor[2]“.

 

A. Evidências Externas

Em primeiro lugar, vamos observar aquilo que alguns comentaristas têm denominado como alusão[3] aos escritos joaninos em escritos patrísticos. Clemente de Roma[4] teria utilizado uma expressão tipicamente joanina ao afirma que os eleitos de Deus são “aperfeiçoados no amor” (Cr. Co49). Na Epístola a Diogeneto[5] podemos encontrar diversas expressões compatíveis com a literatura e teologia de João. Sobre o amor de Deus vemos algumas aproximações da linguagem joanina (EpDg 10; cf. Jo.3.16). Já quando fala sobre Cristo vemos claras indicações de influências joaninas, pois nesta epístola Cristo é também denominado como Unigênito (EpDg 10; cf. 1Jo.5.9) e Logos (EpDg 11, 12; cf. Jo.1.14), além de afirmar de modo muito semelhante a manifestação de Cristo ao homens (EpDg 8; cf. Jo.1.18).

Sobre essas citações históricas, Stott diz: “Não há nenhuma citação formal ou exata, nem qualquer menção nominal de João ou das epístolas” e por essa razão devemos considerar essas citações apenas como “ecos da linguagem joanina, derivada tanto da primeira epístola como do evangelho ou da teologia joanina corrente[6]

Entretanto podemos encontrar declarações mais explícitas da Primeira Epístola joanina em outros pais da igreja[7]. Policarpo de Esmirna, por exemplo, no sétimo capítulo de sua epístola aos Filipenses diz: “Aquele que não confessa que Jesus veio em carne é o anticristo” que parece uma conclusão tirada de 1Jo.4.2,3, com possível alusão a 1Jo.2.22 e 2Jo.7. Sobre Papias, Irineu disse: “Essas coisas são atestadas por Papias, que foi ouvinte de João e companheiro de Policarpo, um escritor antigo que os menciona no quarto livro de suas obras[8]“. Eusébio diz o seguinte sobre ele: “O mesmo autor [Papias] fez uso de testemunhos da primeira epístola de João e igualmente da de Pedro[9]“.

Entretanto, apenas a partir de Irineu é que encontramos claras declarações sobre a autoria joanina tanto do evangelho como da primeira epístola. No terceiro livro de Adversus Haereses, especificamente no capítulo 16, Irineu se dedica a demonstrar através dos escritos apostólicos que Jesus Cristo era Único e o Mesmo, o único Filho de Deus, perfeito Deus e perfeito homem. Nos versos 2-5 vemos claras interações com a epístola e com o evangelho, incluindo uma citação exata de Jo.20.31. Pouco à frente, vemos uma citação de 1Jo.2.1 referendada ao apóstolo João. Entretanto no verso 8 vemos claramente a identificação de autoria entre Evangelho e Epístola. Ao atacar aqueles que ensinavam erroneamente sobre a realidade de Deus e Cristo, Irineu diz:

A doutrina deles é homicida, pois criam inúmeros deuses, simulam vários pais, rebaixando e dividindo o Filho de Deus de várias formas. Contra essas pessoas é que o Senhor havia nos avisado anteriormente; e Seu discípulo em sua epístola já havia mencionado, nos mandando evitá-los, quando diz: “Muitos enganadores tem entrado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Esses são os enganadores e o anticristo. Acautelai-vos para que vocês não percam o que temos realizado com esforço” [2Jo.1.7-8]. E novamente diz em sua epistola: “Muitos falsos profetas tem saído ao mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo espírito que confessa que Jesus veio em carne é de Deus, e todo espírito que separa Jesus Cristo não é de Deus, mas é o anticristo” [1Jo.4.1-2]. Essas palavras concordam com as que disse no evangelho: “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Por isso é que exclama em sua epístola: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” [1Jo.5.1]

Nesta lista poderiam ser lembrados, Clemente de Alexandria que “evidentemente conhecia mais de uma epístola joanina, desde que emprega a expressão, ‘a epístola maior’ e atribui aos ‘apóstolo João'”[10]; Tertuliano, que cita ao menos cinqüenta vezes a primeira epístola em seus escritos contra Marcião; Cipriano de Cartago e Eusébio, que alista a primeira epístola entre os livros aceitos.

 

B. Evidências Internas

Para demonstrar a autoria joanina da primeira carta de João, devemos observar a similaridade de vocabulário e conteúdo teológico entre a primeira epístola e o evangelho atribuído a João. Nesse exercício, não consideraremos a discussão sobre a autoria do quarto evangelho[11], pois a Ortodoxia tem-se mostrado suficiente clara na demonstração desse fato e tal discussão não faz-se necessária aqui. Por ora, assume-se que João é o autor do quarto evangelho.

Ainda que o princípio da comparação entre estilo, vocabulário e teologia entre os documentos seja o primeiro princípio para determinação das evidências internas em prol do reconhecimento do autor, alguns comentaristas têm levantado objeções consideráveis para essa proposta. C.H. Dodd é provavelmente o precursor dessa iniciativa, sendo freqüentemente relembrado em materiais de introdução ao documento que leva o nome de Primeira Epístola de João. Carlos Osvaldo Pinto chega a mencionar duas categorias levantadas por Dodd que impossibilitariam vislumbrar uma autoria mútua entre evangelho e primeira epístola: “(1) ausência de palavras como salvação e destruição, cima e baixo, enviar e buscar em 1 João; (2) diferenças teológicas entre as duas obras[12]“.

É válido lembrar que a ausência de características marcantes em um documento não são fatos absolutamente necessários a serem encontrados em outras obras do mesmo autor. Ainda que as antíteses entre salvação e destruição, cima e baixo ou enviar e buscar não sejam encontradas, o documento em pauta é forjado em antíteses marcantes como: luz e trevas, amor e ódio e vários outros[13]. Assim, vemos que a busca por compreensão de estilo literário é mal fundamentada pelo estrito uso de palavras entre dois documentos. É como disputar a autoria entre Romanos e 1 Coríntios, cartas assumidamente paulinas, onde termos teológicos marcantes em Romanos não são encontrados em 1 Coríntios. Aliás, diga-se de passagem, a espécie de literatura é claramente diferenciada entre um e outro, sem que ninguém duvide da autoria paulina por essa razão.

O que podemos perceber pelo exemplo de Paulo é que objetivo, público e época são suficientes para que um autor produza um texto com terminologia diferenciada em relação a outro escrito pessoal já escrito. Mas, para a consideração de Dodd, a pergunta que deve-se fazer é: O que fazer com a surpreendente similaridade entre ambos escritos? A título de ilustração desse ponto, cito abaixo a tabela compilada por Carlos Osvaldo sobre o uso de verbetes nos dois documentos:

 

 

Palavras Importantes Comuns a Ambas as Obras

 

Termo

1 João

Evangelho de João

Princípio 1.1 1.1
Verbo/Palavra 1.1 1.1-14
Consolador/Advogado 2.1 14.16
Crer 5.1 3.16
Permanecer 2.6 15.7
Guardar 2.3-4 14.21
Mandamento 2.8 13.34-35
Verdadeiro(a) 5.20 7.28
Conhecer/Saber 3.24 10.15, 27
Trevas/Escuridão 2.11 12.35
Testemunho 5.9, 11 5.31-32

 

Expressões Teológicas Comuns a Ambas as Obras

 

Filho unigênito 4.9 3.16, 18
Salvador do mundo 4.14 4.42
Espírito da verdade 4.6 14.17; 15.26
Praticar a verdade 1.6 3.21
Nascido de Deus 3.9 1.13
Filhos de Deus 3.2 1.12; 11.52
Vencer o mundo 5.4 16.33
Entregar a vida 3.16 10.11
Água e sangue 5.6 19.34
Filhos do diabo 3.10 8.44
Andar nas trevas 2.11 8.12
Ver a Deus 4.12 1.18

 

Características de Estilo Comuns a Ambas as Obras

 

Este é 3.11 15.12
Nisto 2.3 13.35
Todo aquele que … passim passim

 

Sobre o vislumbre da similaridade entre ambos escritos, Berkhof diz: “Os dois escritos são tão similares que evidentemente foram escritos pela mesma mão“. Pouco a frente completa: “O veredicto quase geral é que quem quer que tenha escrito um escreveu o outro[14]“.

Considerado isto, podemos levantar algumas características presente no documento que nos permitem levantar o perfil do autor: 

  • 1. O autor declara-se como testemunha ocular: Nos primeiros versos da epístola, o autor apresenta-se como alguém que fora testemunha ocular da pessoa de Cristo, que esteve presente pessoalmente diante dele e que por isso teria recebido em primeira mão os ensinamentos de Cristo (1Jo.1-3; Jo.1.14; 19.35)
  • 2. O autor era judeu: O fato de o autor escreveu em grego, não compromete sua identificação como judeu, pois suas construções literárias usam muitos paralelismos que denotam influência hebraica[15].
  • 3. O autor é conhecido dos seus leitores: Em suas exortações, percebe-se um tom muito próximo e pessoal do autor em relação aos seus leitores imediatos. O fato de conhecer os problemas teológicos enfrentados pelo grupo a que escreve e nas exortações baseada em conhecimento do público reforçam essa idéia (1Jo.2.20). Uma possibilidade é que o autor fosse uma figura reconhecida por sua posição, ou familiaridade escriturística (1Jo.2.18-19).
  • 4. O autor apresenta-se como alguém que tem autoridade: O modo como contesta o ensino dos falsos mestre/profetas, sugere que trata-se de alguém que exerce alguma autoridade. Carlos Osvaldo chega a sugerir que o modo como trata seus leitores (teknia – filhinhos) é uma evidência de que o autor era idoso e respeitado[16]. Mark Ellis acredita que o título de “presbítero” (lit. ancião) em 2 e 3João evidenciam esse fato. Dada a época em que é datado o documento, isso seria compatível com a idade de João na ocasião.
  • 5. O autor tem familiaridade com a teologia do 4º. evangelho: A cristologia de 1 João é fortemente marcada pela compreensão joanina de Cristo evidenciada no evangelho. A similaridade de funções atribuídas a Cristo em ambos documentos é evidencia muita forte a favor da autoria joanina. O mesmo pode ser dito sobre a compreensão de Deus, Pai. Dada similaridade complementar encontrada na primeira epístola, há quem sugira que tal documento era um acréscimo pessoal com explicações específicas dirigiras a pessoas específicas anexada ao evangelho.

 

Fomentadas essas similaridades e perfil, pode-se afirmar, com uma grande porcentagem de certeza, que o autor desse documento é o autor do Evangelho atribuído a João, o discípulo amando.


[1] Apesar de levar esse nome, não deve-se concluir necessariamente que tenha sido escrita por João, o apóstolo de Cristo. A Autoria desse documento tem sido amplamente discutida, mas vale o lembrete que, ainda que não tenha sido o João, o discípulo amado, o autor do mesmo, os comentaristas estão certos de que a tradição joanina o produziu. Na discussão que se segue, a opinião do autor deste estudo fica evidente.

[2] PINTO, Carlos Osvaldo, Teologia Bíblica do Novo Testamento – 1 João. Material não publicado.

[3] Russel Norman Champlin, por exemplo, denomina esses fatos como “ecos” ou até mesmo “influências”.Vol. VI, pp.215.

[4] Clemente de Roma foi bispo em Roma de 92 a 101 d.C., segundo o site www. Catholicapologetics.Net (cf. http://www.bibliacatolica.com.br/historia_biblia/58.php), e durante esse período teria escrito sua epístola aos Corintios. Se esse dado é acurado, João ainda está vivo quando Clemente escreve sua epístola.

[5] Data-se essa epístola a cerca de 110 d.C. Entretanto, nada sabe-se com certeza sobre ela.

[6] STOTT, John. I, II, II João – Introdução e Comentário. pp.14

[7] Para ver mais referências histórias a confirmação da autoria joanina ver: CHAMPLIN, Russel Norman, O novo testamento interpretado versículo por versículo. Vol. VI, pp.215-6; STOTT, Jonh, I,II e III João – Introdução e Comentário. pp.13-15

[8] CESARÉIA, Eusébio de, História Eclesiástica, Livro 3, Capítulo 39. pp.116

[9] Idem, pp118.

[10] STOTT, John. I, II, II João – Introdução e Comentário. pp.14

[11] Sobre o assunto há muita discussão. Os favoráveis a autoria joanina do evangelho consultados são: Carson, Moo, Moris, Marshall, Gundry, Hale, Stott, Carlos Osvaldo, Berkhof. Os que contestam, ainda que alguns não neguem, são: Bultmann, Kümmel, Shereiner, Dautzenberg. Um bom estudo sobre o assunto é encontrado na obra de Ladd (Teologia do Novo Testamento) e de Goppelt.

[12] PINTO, Carlos Osvaldo, Teologia Bíblica do Novo Testamento. Material não publicado.

[13] Ver o 4o. ponto da Introdução ao Estudo de 1 João acima.

[14] BERKHOF, Louis, Introduction to the New Testament. pp.179 (http://www.ccel.org/ccel/berkhof/newtestament.html).

[15] Alguns teólogos têm sugerido que os paralelismos, construções literárias e declarações antitéticas são reflexos da influência gnóstica na literatura de tradição joanina. Rudolf Bultumann defende essa idéia fortemente (cf. BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. 430ss e 449ss). Por outro lado, Bultmann não presenciou a descoberta dos manuscritos de Qumran que demonstraram um forte movimento literário antitético de caráter judaico muito similar aos encontrados na literatura joanina. (cf. LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento. pp.217ss).

[16] PINTO, Carlos Osvaldo, Teologia Bíblica do Novo Testamento. Material não publicado.

Um comentário sobre “Autoria de 1João

  1. Graça e paz! Esses comentários acíma, também são descrítos, pela lição da escola sabatína 2009 ” As Epístolas do Amádo” da Igreja Adventíta do 7º Dia. Fico orgulhoso em fazer parte deste povo Sábio e amado. Obrigado!

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