Caráter da Carta


Uma das características dessa epístola é que, embora seja considerada como tal, ela não é emoldurada em um formato específico de uma epístola. Carson, Moo e Moris afirmam: “À semelhança de Hebreus, 1 João não exibe nenhuma das características formais que normalmente acompanham as introduções de cartas em grego no século I[1]“. Como nota-se nos primeiros versos de 1 João, não encontramos a identificação do autor ou dos destinatários, como é esperado encontrar em uma carta. O término abrupto sem saudações também não parecem com o caráter esperado de uma epístola. Talvez seja por essa razão que alguns comentaristas chegam a considerar a possibilidade de que 1 João teria sido um sermão, ou quem sabe, até uma espécie de folheto dedicado às Igrejas do primeiro século. Entretanto, Robert Gundry nos lembra que o tom altamente pessoal do documento (Filinhos meus, Amados) não pode ser compatível com um material de distribuição, ou que as premissas “vos escrevo” e “Isto que vos acabo de escrever” (1.4; 2.1, 7, 8, 12-14, 21, 26) também não podem ser compatíveis com uma homilia[2].

O que se sabe com certeza é que o livro de 1 João é um livro peculiarmente difícil de se compreender a estrutura. À exceção da introdução, é difícil encontrar uma estrutura para o corpo do documento, e existem sérias divergências entre pesquisadores sobre como deveria ser sua estrutura. Segundo Carson, Moo e Morris, quem melhor identificou a estrutura do livro fora I. Howard Marshall no livro The Epistles of Jonh. Hale, que também sugere o mesmo autor como boa fonte para a compreensão da estrutura do livro, chega a afirmar: “A estrutura, naturalmente, é determinada pelo propósito do escritor, que parece ser para ajudar o cristão a permanecer firme em face de uma heresia insidiosa. O autor escreve uma carta pensando nestas coisas, e a forma não estruturada como se desejaria[3]“.

A estrutura adotada nesse estudo provém, não da exegese do texto, mas da perspectiva de que João escreve um documento para prover convicção soteriológica nos seus leitores. Merryl C. Tenney, que adota essa perspectiva, afirma: “O Evangelho foi escrito para despertar a fé. A primeira epístola joanina foi escrita para estabelecer a certeza[4]“. A forma como João escreve essa epístola parece confirmar a idéia de Tenney; em treze ocasiões podemos encontrar o uso dos verbos gregos[5] “saber” (oida) e “conhecer” (gnosko) para “indicar a certeza obtida através da experiência, o que faz parte da consciência espiritual normal (2.3, 5, 29; 3.14, 16, 19, 24; 4.13, 16; 5.15, 19, 20)[6]“.

Entretanto, é válido mencionar que Merryl encontra apenas três grandes divisões entre a introdução e a conclusão (1.5-2.29; 3.1-4.21 e 5.1-12), enquanto usamos neste estudo nove seções menores como claramente evidenciado na proposta de esboço[7]. Optou-se nesse estudo a divisão em pequenas seções em função da constante alteração de temas (eventualmente repetidos) no decorrer da carta. Com isso, nota-se claramente as tônicas exortativas e instrutivas de João, bem como os assuntos que careciam de mais atenção do apóstolo, observado pela repetição.

 


[1] CARSON, D.A., MOO, Douglas J., MORRIS, Leon, Introdução ao Novo Testamento, pp.493. Ver também: HALE, Broadus David, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, pp. 413

[2] GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento, pp.401

[3] HALE, Broadus David, Introdução ao Estudo do Novo Testamento, pp. 415

[4] TENNEY, Merryl C., O Novo Testamento – Sua origem e análise. pp.398.

[5] Em semelhança a Tenney, Stott também apresenta sua percepção ao uso dos verbos “saber” e “conhecer”, mas acrescenta ainda um substantivo: “parresia”, que ele mesmo traduz como “atitude confiante” ou “ousadia no falar”, o que reforça a idéia de que o propósito de João era estabelecer a convicção soteriológica em seus leitores

[6] Idem, pp.402

[7] Sobre a estrutura do livro, ver PINTO, Carlos Osvaldo, Sinopse da Primeira Epístola de João. Em sua observação COP observa a existência de uma dupla seqüências de quiasmos entre a introdução e a conclusão da carta.