O Fundamento da Ação Ministerial


Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra

Mateus 28.18

O verso 18 é comumente excluído de considerações cristãs normais quando se fala em evangelização. É normal observar que os cristãos trabalham facilmente com a idéia do “IR” (mesmo quando não vão), mas poucos são os que enfatizam o fundamento de tal ordenança.

O texto que estamos a analisar inicia com a aproximação de Jesus ressurreto dos seus discípulos e lhes dando sua última ordem[1]. Tal ordem inicia-se de um modo interessante: “Toda a autoridade me foi dada“. Ao que parece, a ordem que norteou o trabalho dos discípulos após o Pentecostes fora dada por Aquele que tem toda a autoridade. Qual é o significado dessa expressão? Vamos observar com um pouco de atenção essa frase, para então compreendermos melhor quem é que nos ordena.

Conceituando Autoridade

A expressão grega para essa expressão portuguesa é “pasa exousia” e foi traduzida como “omnis potestas” em latim. O termo grego “pasa” associado a um substantivo sem artigo, como “exousia” está no verso, pode denotar a totalidade de algo em particular (O substantivo a que se refere). Ou seja, trata-se suprema e infinda autoridade total de Cristo sobre o ministério a ser realizado por seus discípulos. Já o termo para “Autoridade” foi traduzido por “potestade” no latim e por “poder” na KJV. O termo grego “exousia”, de onde originou-se todas essas possibilidades, pode ser visto de seis pontos de vista diferentes.

Observe o uso que João faz do termo quando nos conta sobre a vida de Cristo: “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo.10.18). Nesse texto vemos com clarividência que o conceito aqui exposto sugere que Cristo tem CONTROLE PLENO sobre sua vida, ainda que voluntariamente ele se ofereça.

Paulo também faz um uso interessante do termo quando escreveu aos Tessalonicensses: “não porque não tivéssemos esse direito, mas por termos em vista oferecer-vos exemplo em nós mesmos, para nos imitardes” (2Ts.3.9). O termo grego aqui foi traduzido pela ARA como “direito” e faz referência a situação de Paulo (e possivelmente Silvano e Timóteo – nomeados no início da carta) não serem pesados nos sustento. A razão pelo qual eles não se fizeram pesados era para deixar um bom modelo para que os tessalonissences pudessem seguir; um modo ordenado de viver. Entretanto, eles tinham o direito para serem sustentados pelos tessalonissences. Pela posição que ocupavam, eles poderiam usufruir de um direito que tinham. Há quem considere que isso demonstra o Estado de Controle que eles tinham não sobre a situação, mas sobre a igreja de Tessalônica.

No evangelho de Marcos podemos ver um outro modo como esse termo pode ser aplicado: “Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios“. Aqui vemos uma similaridade entre exercer autoridade e ter poder de exercício sobre algo. Quando Cristo designou que os Doze saíssem em missão ele concedeu recursos espirituais para que seus discípulos o exercessem. Ou seja, eles foram habilitados com potencial (recurso) para comandar, exercer controle.

Entretanto, não são esses os únicos exemplos significativos de uso do termo. Podemos lembrar também do uso que Lucas faz no seu evangelho: “Ao saber que era da jurisdição de Herodes, estando este, naqueles dias, em Jerusalém, lho remeteu” (Lc.23.7). Nesse uso vemos mais uma característica interessante do termo em pauta, ele pode ser aplicado à esfera do governo de determinada autoridade. Observe que Paulo também faz uso desse tipo de uso do termo: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl.1.13; cf. Ef.2.2).

Essa busca pela conceituação do termo “autoridade” nos auxilia a compreender a posição dAquele que nos ordena, bem como nos demonstra o por que sua ordem deve ser obedecida irrestritamente. Aquele que nos ordena é Aquele que tem Autoridade, poder, está em posição de comando e portanto tem  direito para ordenar. Ou seja, Cristo é a Autoridade e que exerce autoridade por potencial e direito, visto ter a mais alta posição e privilégios no Reino do qual é o Rei.

Sendo isso verdadeiro, não podemos considerar a Evangelização, a Missão dos Discípulos, como algo pequeno ou de pouca importância para a vida da Igreja Local. A evangelização está debaixo da Ordenança do Rei do Reino.

Conceituando “céu e terra”

A observação sobre todo o verso, nos levanta um importante e interessante questão: Que quer dizer autoridade no céu e na terra? Uma vez que consideramos que a terminologia grega aponta para “autoridade” o conceito de governo, e posição do governante, o que podemos dizer é que Cristo é aquele que exerce governo no céu e na terra.

O termo usado por Mateus para descrever o céu é a palavra grega “ouranós” que pode ser utilizada no sentido mais normal em referência ao céu físico (Lc.16.17) ou até mesmo em uma referência indireta a Deus, como vemos no evangelho de Marcos: “O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondei!” (Mc.11.30).

Entretanto, o termo também era utilizado em um sentido mais metafísico (espiritual), especialmente nos escritos paulinos. Observe: “Senhores, tratai os servos com justiça e com eqüidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu” (Cl.4.1). Aqui vemos que Paulo faz referência ao lugar onde Deus está. O termo também é utilizado de modo preposicionado (uma preposição é associada ao termo principal afim de reforçar um idéia). Em Efésios vemos isso acontecer algumas vezes com a preposição “epi”: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef.1.3). Sobre esse termo, Loyd-Jones diz: “trata-se da esfera em que Deus, de maneira muito especial, manifesta sua presença e a Sua Glória[2]“.

O uso, contudo, mais elucidativo do termo é visto na primeira carta de Paulo aos cristãos de Corinto: “O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu” (1Co.15.47). Aqui Cristo é chamado de “aquele que é da parte do céu” (ex ouranou), como se fosse do céu; é ainda possível que Ele tenha sido identificado como “aquele que veio do céu” como se o céu fosse seu local de origem (cf. Jo.6.58).

Portanto, podemos concluir com segurança que o texto trata de um governo que autorizaddo da parte de Deus, um Reino dos Céus. Ou seja, Cristo é Aquele que na esfera da atuação mais direta de Deus, e a partir dela, exerce seu direito e habilidade de exercer autoridade como Senhor e Rei.

Mas, uma vez que Cristo é o que é (conforme demonstrado acima), Ele já não teria autoridade na terra? Por que razão Ele precisaria reforçar essa idéia? Por que Ele falou que tem autoridade no céu e na terra?

O termo grego para terra (gês) não tem muitos usos especiais. Ela pode fazer referência a terra (planeta), como vemos no Evangelho de Mateus: “Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (MT.5.18). Além do todo, ela pode representar uma parte: “Sai da tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te mostrarei” (At.7.3). Por metonímia, o termo pode fazer referência aos habitantes da terra: “Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lc.18.8). Isso sem contar outros usos, que para ocasião estamos considerando como de menor importância.

Um fato que temos que encarar aqui é o fato de que Cristo sempre teve sua posição exaltada como o eterno Filho de Deus. Ele é o logos que existe desde o princípio (Cl.1.17), que estava com Deus e que é Deus (Jo.1.1). Ele é o Supremo Sumo-Sacerdote (Hb.3.1) perfeito para sempre (Hb.7.28), superior a todos e a tudo (Hb.1.2), a imagem do Deus invisível (Cl.1.15), a expressão exata do Ser de Deus (Hb.1.3), criador de todas as coisas (Jo.1.2; Cl.1.16). Por que razão ele precisaria ter sua autoridade na terra, entre os homens?

A verdade é que Cristo tem sua autoridade reconhecida desde antes da fundação do mundo, mas na sua encarnação essa autoridade foi demonstrada à humanidade de forma irrevogável (Mt.7.29; 9.6; 10.1; Mc.1.27; 11.27-33;  Lc.4.32; 36; Jo.5.26-27; 10.17-18; 17.1-2). O que eu entendo dessa expressão é que Cristo pode evidenciar tal autoridade entre os homens por meio do Seu ministério público, por Seus atos poderosos, por Sua morte e ressurreição. Ou seja, além do domínio e do governo de Cristo sobre toda a terra e céu (que é o fundamento da ordem evangelística) Ele ainda demonstrou tal autoridade como prova e corroboração em Seu ministério. Portanto, tal mandamento é visto pela “autoridade de posição e direito” e pela “autoridade demonstrada“, que ratifica ainda o mais importante grau da ordem anunciada.

A concessão da autoridade

Um detalhe importante ainda nos falta a observar: sendo quem é, por que Cristo recebeu essa autoridade? Quem lhe concedeu?

O termo por trás dessa expressão é “edóthe” de “dídomi” que basicamente significa “dar”. Esse ato pode acontecer por uma questão de generosidade, como no caso registrado em Atos: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At.20.35). Eventualmente traz a idéia de uma concessão, como no caso do divórcio: “Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, -lhe carta de divórcio” (Mt.5.31). Um outro uso interessante do termo dar com uma expressão de devoção: “para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc.2.24; cf. Lc.17.18).

Dentre os muitos outros usos que esse termo pode ter, dois deles nos chamam a atenção. O primeiro é encontrado em 2Co.8.5: “E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus“. A idéia de dar sua vida além de ser literal nesse caso é também uma expressão de completa dedicação a uma causa ou propósito. Os cristãos da macedônia resolveram dedicar-se à assistência dos pobres de tal modo que superaram a expectativa de Paulo, e eles assim fizeram, pois deram-se primeiro ao Senhor. Entretanto, o que nos chama mais a atenção é que todas as outras vezes que esse tipo de uso acontece no NT é para descrever o sacrifício de Cristo em nosso favor, como vemos em Mt.20.28: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (cf. Lc.22.19; Mc.10.45; 1Tm.2.6; Jo.10.15; Gl.1.4; Tt.2.14).  Talvez essa sua voluntária dedicação a Salvação dos homens tenha de fato alguma ligação com sua autoridade.

E para nos ajudar a entender esse fato, um último uso desse termo pode ser destacado: O termo pode ser usado como um ato de concessão de responsabilidade e autoridade por meio de uma ação formal, como vemos em Mt.9.8: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens“. Nesse caso, as pessoas ficaram possuídas de temor ao presenciarem a cura de um paralítico. O texto ainda nos afirma que a conclusão é que Deus havia concedido tal autoridade (talvez até com um sentido de poder) aos homens. Mas, pouco antes, vemos que o próprio Jesus havia dito: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa“. De alguma forma, Jesus já tinha tal poder e autoridade, mas as pessoas apenas o puderam conhecer quando viram. Essa situação também parece muito elucidativa para nossa observação do texto de Mt.28.18.

Mas agora, devemos ter em mente a frase que nos incitou à essa investigação: “Toda autoridade me foi dada“. Tendo em mente que ela se refere a Cristo, sabemos que isso não trata-se de uma questão de generosidade, pois Cristo não estava em situação de miséria a ponto de Deus ter compaixão dele para dar-lhe algo. Certamente não trata-se de algo doxológico, como se isso houvesse sido dado como louvor da parte de Deus a Jesus Cristo. Segue-se que é razoável considerar a dedicação voluntária e pessoal de Cristo a causa da Salvação a ponto de dar sua vida, bem como a concessão de autoridade da parte de Deus e percebida por intermédio do seu ministério público como originárias da Autoridade que tem. Em outras palavras, o Cristo Eterno sempre teve autoridade e poder, porém esse poder e autoridade foram apenas percebidos através do seu ministério público (At.2.22-24).

Aplicação para hoje

Ao ponderar o exemplo de Cristo, não posso considerar que tenho melhores qualificações do que Ele para pensar seria diferente comigo. O cristão não está de forma nenhuma desprovido de autoridade para exercer seu ministério, e como aconteceu com Cristo, nossa autoridade ministerial provém da concessão divina oferecida em nossa conversão, como Jo.1.12 nos ensina muito bem: “Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que crêem no seu nome“. O termo para poder aqui, é exatamente o mesmo que utilizado em Mt.28.18, o que nos possibilita considerar o fato primeiro da concessão da autoridade ministerial sobre o mundo.

Contudo, vemos que, corroborando, confirmando e demonstrando esta, está a autoridade que provém da qualidade de execução ministerial à luz da palavra, vontade e caráter de Deus. Esse princípio é muito bem notado em 1Co.3.10: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica“. O fundamento já está posto e ninguém pode o alterar, mas o exercício ministerial pode edificar sobre tal fundamento. Por isso a exortação de Paulo é tão enfática: cada um veja COMO edifica. Ao que parece, a preocupação de Paulo aqui não é tão parecida com as indústrias de produção em escala, que depreciam a qualidade em favor da quantidade. Por outro lado, Paulo não nos ensina a nos desviar da quantidade em prol da qualidade. O que ele nos ensina aqui é que, independente da quantidade do que se faz para o Senhor, isso deve ser realizado com excelência ministerial.

Assim, tal como Cristo, teríamos autoridade concedida por Deus demonstrada em autoridade no ministério para Deus. Logo, a ação evangelística, como fundamentada na autoridade de Cristo, é uma demonstração do “poder-autoridade” de Deus por meio da construção da autoridade (moral) com o “poder-autoridade” concedida por Deus.


[1]Não é objetivo desse artigo fazer uma comparação entre as diferentes ordens observadas nos diferentes evangelhos e atos. Considera-se aqui apenas o fato observável no próprio texto de Mateus: Essa foi a última ordem de Cristo segundo essa narrativa. Por ora, ficamos com essa conclusão.

[2] LLOYD-JONES, D.Martin, O Supremo propósito de Deus. Publicações Evangélicas Selecionadas: São Paulo, 1996. pp. 68