Cristo poderia pecar?


Não Poderia Pecar ou Poderia não Pecar?

Possibilidades:

Reconhecidas pela História da Teologia Cristã

  •  Existência exclusiva da realidade humana em Cristo:
    1. Seria como Adão
    2. Sem pecado,
    3. Com possibilidade para pecar
    4. Não efetuaria Eterna Redenção pelo Pecado

  •  Existência exclusiva da realidade da divindade de Cristo:
    1. Seria Deus
    2. Não Encarnado
    3. Sem possibilidade de pecar
    4. Não redimiria a Raça Humana

  •  Existência completa afirmada pela União Hipostática[1]:
    1. Seria o Cristo prometido;
    2. Sem Pecado
    3. Poderia não Pecar /  Não Poderia Pecar
    4. Efetuaria Eterna Redenção Redimindo a Humanidade

 

Verdades inegociáveis:

Afirmadas pelas Escrituras e ratificadas pela História da Teologia Cristã

  1. Jesus é plenamente Homem e plenamente Deus
  2. Homens podem e são tentados
  3. Deus não pode, não é e não será tentado pelo Mal (Tg.1.13)

Fatos Observáveis:

Pela demonstração Histórica dos Relatos Inspirados.

  1. Jesus foi tentado (Mt.4.1ss; 16.1ss; 19.3ss; Lc.4.2; Jo.8.6)
  2. As tentações foram reais
  3. Jesus jamais pecou (Hb.4.15)
  4. Deus foi tentado (Ex.17.2 7; At.15.10)
  5. As tentações são reais
  6. Deus jamais pecou e jamais pecaria (1Jo.1.5)

Realidade da Tentação

Fatos reais na experiência Cristã.

  1. Origem: Na cobiça (sedução e atração)
  2. Resultado Imediato: Concebe o pecado
  3. Resultado Intermediário: Dá a luz ao Pecado
  4. Resultado Final: Gera a morte (Tg.1.13-15)

Realidade da Cobiça:

epithumeö (gr.): Ter grande desejo para possuir algo; Ter demasiado interesse sexual por alguém.

peirázö (gr.): Realizar um teste para descobrir a natureza ou caráter de algo ou alguém.

  • Ex.20.17: Ordem para não Cobiçar bens materiais ou pessoas
    1. A Ordem é a Expressão do Caráter e da Vontade de Deus
    2. A Violação da Ordem é a Violação do Caráter e da Vontade de Deus
    3. Por esta razão é que cobiçar é pecado

  • Mt.5.28: Relacionado ao Sexo não consumado (imaginado; suposto)
    1. Está além do ver;
    2. Está ligado ao ver (ouvir,sentir)
    3. É um pecado que se perfaz internamente
  • Rm.7.7: Reconhecimento da origem do pecado
    1. A Lei apresenta o pecado
    2. O Reconhecimento do pecado vem com a identificação da Cobiça
    3. Embora interna, é o pecado origem de outros pecados

Por que a Premissa “Poderia não Pecar” não é aceitável?

  • As tentativas do Diabo seriam Infrutíferas de qualquer forma.
    1. A tentação necessita da cobiça pessoal para ser perfeito
    2. Se houvesse possibilidade de que Jesus cobiçasse algo, a tentação poderia ter sido completa;
    3. Portanto, para defender que Jesus poderia ter pecado é necessário afirmar que ele teria possibilidade de Cobiçar algo;
      • Pedra em Pão: A primeira tentativa do Diabo na tentação de Jesus foi oferecer uma proposta para satisfazer sua fome, afinal estava a 40 dias no deserto sem comer. Será que isso teria excitado a cobiça de Cristo a ponto de pensar no caso?
      • Base Jump Do Pináculo: A segunda tentativa foi pedir que Jesus se jogasse do alto do Pináculo para que os anjos o segurassem. Isso certamente não era nada cobiçável.
      • Ter todo Domínio dos Reinos: Na terceira e última tentativa o Diabo oferece algo que não era seu em troca da adoração. Ou seja, é como eu dar um Civic pra cada um dos que beijarem meu pé. Ainda que a proposta possa ser atraente a princípio, todos sabem que não posse dar o que prometi. Isso certamente não foi provocou a cobiça de Jesus;

  • As investidas do Diabo eram fundamentadas no não conhecimento de Jesus.
    1. Todas as abordagens do Diabo a Jesus iniciam-se com a partícula “SE”.
    2. Ora, em duas situações são aceitáveis o seu uso: (1) Na tentativa de colocar em dúvida quem é questionado; ou (2) Ter dúvida com relação a resposta a pergunta que se faz
    3. Em qualquer dos casos desconhecia-se quem era Jesus.

 

  • Jesus era consciente de sua posição, obra e missão
    1. Esta consciência é observável antes da encarnação
    2. Como parte do cumprimento teria que passar por dor e sofrimento, e inda que não quisesse passar, sabia que era necessário
    3. Portanto é certo que não deixar-se-ia levar por tão pouco.

 

  • Jesus é Perfeito (Ausente de ausências)
    1. As escrituras afirmam que o homem que domina sua língua é Perfeito (Tg.3.2)
    2. Cristo é reconhecido como alguém em quem não se pode encontrar dolo na sua boca (1Pe.2.22);
    3. Portanto Cristo não tem defeitos ou falhas. Nada lhe falta.

 

  • A impecabilidade de Cristo havia sido prometida
    1. Aquilo que é prometido por Deus nas Escrituras não tem possibilidade de não se cumprir.
    2. A impecabilidade de Cristo foi anunciada pelos profetas (Is.53.9)
    3. Segue-se que era impossível que Cristo pecasse..

 

Excurso Exegético

As afirmações de onde podem-se tirar a conclusão de que Cristo “poderia não pecar” não foram observadas.

  •  Hb.4.15: Texto utilizado para demonstrar a abrangência das tentações de Cristo, que não aconteceram exclusivamente nos 40 dias no deserto. “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (ARA)
    1. Todas as Coisas: Essa expressão aponta para o fato de que não houve circunstância em que Cristo não tenha sido tentado. Logo, não existe situação em que não possa nos socorrer.
    2. À nossa semelhança: Tal como nós. A idéia da construção grega é que ele foi tentado em situações similares.
    3. Sem pecado: Aqui existem duas possibilidades de interpretação:
      • Que Cristo passou por tudo o que passamos, mas sem pecar
      • Que Cristo passou por tudo o que passamos, mas sem o acréscimo depreciador do pecado. Tal opção parece mais plausível, visto que o termo grego é um substantivo e não um verbo. Com esta identificação fica ainda mais evidente a partícula anterior, de que Cristo foi tentado em situações similares e não idênticas.
    4. Tentado: O sentido do termo grego para tentar não é provocar ao pecado ou ainda, convidá-lo à prática do pecado, mas experimentar, testar, aprovar. Ou seja, Cristo foi experimentado em tudo a nossa semelhança, por isso pode nos auxiliar. (O termo foi traduzido como gerúndio, por ser um acusativo, masculino, singular, no perfeito do particípio ativo de peirázo. É possível que um uso adverbial de causa seja melhor aplicado)
  • Hb.5.7-10: Texto utilizado para apresentar a Cristo como em uma crescente moral, onde vem a tornar-se perfeito pelo sofrimento e por isso, pode ser Autor da Salvação. Ou seja, poderia ter sucumbido moralmente, mas não o fez, por isso pode o Salvador. Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque
    1. Aprendeu a Obediência: O termo grego para “aprender” é “mantano”. A idéia do termo é ensinar, descobrir, aprender pela experiência. A experiência é fator importante em um aprendizado. Portanto, diz-se que Cristo aprendeu pela experiência da Obediência. A descrição dos evangelhos nos apresenta Cristo em clamor e lágrimas, orações e súplicas a Deus, que o podia livrar da morte, inda que soubesse qual era a vontade de Deus. Essa identificação com a humanidade não detrata sua Perfeição Divina, antes, Ele mesmo pôde experimentar nosso sofrimento.
    2. Tendo sido aperfeiçoado: Ser aperfeiçoado corresponde ao termo grego “teleioo”, que é traduzido como Realizar, Consumar, Aperfeiçoar, Completar. Ou seja, o sofrimento experimentado por Cristo o possibilitou a Completar, Consumar a Realizar a Obra que lhe estava proposta.
    3. Tornou-se:o Verbo “gnomai” é o responsável pela construção do sentido de “vir a ser” apresentado no texto, embora não sugira que houve tempo em que Cristo não fosse perfeito ou Autor da Salvação Eterna, mas que pelo progresso de sua vida e sua constante aprovação diante das “tentação” (ou provas) ele é reconhecido como Apto a ser a “Causa” da Salvação Eterna. Ou seja, o que não é causado por Cristo, não pode ser a Salvação Eterna, da qual ele é o Autor.

[1] União Hipostática é a expressão que descreve a existência de duas naturezas distintas, juntas e sem mistura, humana e divina, na pessoa única de Jesus Cristo, de forma que sua humanidade não diminuiu sua divindade, bem como sua divindade não detratou sua humanidade (Marcos Mendes Granconato)

3 comentários sobre “Cristo poderia pecar?

  1. Se o Senhor Jesus não pudesse pecar, com certeza a sua tentação não seria genuína e o texto de Hb 4.15 perderia o sentido. Existem alguns conceitos sobre a impecabilidade de Jesus que nos remetem ao docetismo.

    1. José Antônio,

      Obrigado por sua participação. Como costumo dizer repetidas vezes no Teologando, cada um tem sua opinião, e isso não é problema para nós.

      Realmente esse é um assunto interessante, mas algumas definições são abrandadas em suas críticas e gostaria de levantar uma breve reflexão sobre elas:

      1. A impossibilidade de Jesus pecar faria da tentação não genuína? É claro que não. O fato de que Jesus não seria sucetível ao erro, não significa que Satanás não o pudesse tentar. Pense por um momento em uma luta entre eu e o lutador Anderson Silva: A luta não será irreal ou não genúina só por que podemos declarar o resultado da luta mesmo antes de ela começar, afinal temos certeza que serei vencido. O fato de não conseguir vencê-lo não fará da minha tentativa não genuína, a tornará infrutífera. Esse seria o caso com Cristo, ainda que Satanás o pudesse tentar “realmente”, a vitória de Cristo já estava declarada.

      2. Se Jesus não pudesse pecar Hb.4.15 perderia o sentido? Acredito que não, aliás, esse texto apresenta claramente a distinção entre Cristo e eu: Ele foi tentado em todas as coisas, mas sem pecado, eu, por outro lado, sou tentato em muitas coisas, mas com pecado. A diferença essencial entre eu e Cristo está diretamente relacionado ao pecado como parte de nossa natureza, o que Ele não teve, por isso foi tentado, mas sem pecado. Essa simples distinção, faz toda diferença.

      Mas, isso não é assunto que nos divide ou separa, afinal ambos cremos que Cristo não pecou, sendo possível ou não que o fizesse, e isso é o que realmente importa.

      Marcelo Berti

  2. Parabéns pelo artigo. Cremos que Cristo além de não ter pecado, também não poderia ter pecado, pois a possibilidade de pecar procede da natureza adâmica. Como sabemos, Cristo nasceu como homem, mas não da semente de Adão, pois desceu sobre sua mãe o Espírito Santo e ela foi envolvida pelo poder do Altíssimo, para que o ente que dela nascesse fosse o Santo Filho de Deus (Lc 1.35). Portanto, fica claro que, se Ele não nasceu com natureza caída, é bem óbvio que não poderia estar inclinado a pecar.

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