Milagre e Mensagem


“A cura do aleijado, por intermédio de Simão Pedro, e o provocativo discurso que ele fez na ocasião, provocou um primeiro choque entre cristãos e as autoridades dos judeus Isso assinalou o início do declínio da popularidade da comunidade cristã, o que é descrito em At.2.47. Esse choque era verdadeiramente inevitável, como também doi a oposiçã ocontra o Senhor Jesus”.

Russel Norman Champlin

1.      Introdução

O estudo do livro de Atos tem nos levado a conclusões importantes sobre a vida e a essencia da Igreja de Cristo e da realidade da pregação do Evangelho. No último estudo, em particular, pudemos observar a forma em que Pedro expõe o evangelho pela primeira vez e retirar de sua exposição informações que nos auxiliam na pregação autêntica do evangelho verdadeiro. No estudo de hoje poderemos fazer o mesmo e retirarmos ainda mais informações sobre a exposição do evangelho.

Contudo, é importante ressaltarmos que estamos presenciando um momento especial da história: Os cristãos ainda não tinham compreendido a necessiade de levar o evangelho além de Jerusalém (Note isso na pregação de Pedro – 2.14, 22,  36 – pois ele ainda tem um foco judaico na exposição do evangelho). Vale a pena relembrar que a expectativa dos discípulos, que eram judeus, antes da ascesão de Cristo estava intimamente ligada ao reestabelecimento do Reino de Israel (cf. 1.6).

No estudo de hoje veremos um dos “muitos sinais e prodígios feitos por intermédio dos apóstolos“, como Lucas havia mencionado pouco antes. Não podemos afirmar com certeza a distância de tempo entre a pregação no dia de Pentecostes, e este fato mencionado no capítulo seguinte. O que é certo é que o resumo da vida da Igreja Primitiva é um apêndice entre as duas histórias e realça aquilo que acontecia de importante na Igreja. Sendo assim, vamos observar um pouco mais de perto mais uma parte dessa história do poder de Deus manifesto entre os apóstolos.

2.      Milagre (At.3.1-11)

A História para Lucas parece ser o registro das ações dos homens. Como historiador, Lucas preocupa-se em enfatizar aquilo que é realizado pelos personagens que compoem a história que está sendo contada. Mas, uma análise um pouco mais ampla da narrativa de Atos vai nos mostrar como alguns acontecimento, como esse, tem paralelos semelhantes em outros lugares no mesmo livro (cf. 5.12-42; v.t.14.8-10). Assim questiona-se que tal história possa ser a mesma narrada em no capítulo 5, embora com outros detalhes. Porém, tal sugestão descredita os inúmeros detalhes em desconformidade entre os textos. Portanto, não pode-se julgar de maneira inadequada o texto porduzido por Lucas, que até aqui parece ter-nos conduzido com maestria pela históiria. O que pode-se concluir, entretanto, é que a história é organizada previamente por Lucas e exposta de forma padrão. Sobre isso David Williams diz que Lucas “narra sua história mediante pessoas e eventos que funcionam como exemplos ou padrões[1]“. Ou seja, Lucas mostra-se um excelente historiador, que tem o plano mestre bem defindo e expõe a historia da perspectiva dos personagens envolvidos.

Nesta narrativa podemos observar que João e Pedro subiam ao templo para a oração da hora nona (3.00h da tarde considerando que o dia judaico começava às 6.00h da manhã), que era a o momento do sacrifício da tarde que era acompanhado com orações pela congregação.Nesse texto podemos notar que os discípulos “subiam ao templo“, o que parece ser normativo na experiência da Igreja Primitiva visto não ser feito nenhuma nota sobre a singularidade desse episódio. Outro detalhe é a especificidade que é dada por Lucas para a atividade: “para a oração da hora nona“. Ou seja, os discípulos não estavam subindo ao templo para fazer qualquer oração, mas “para observarem o costume judaico de orações em horas determinadas[2]” Essa situação apenas ilustara qual deveria ser a condição da Igreja Primitiva, que ainda não tinha desvenciliado das tradições da religião judaica. É bem possível que os cerimoniais e festas religiosas ainda fossem observadas pelos primeiros cirstãos. Até aqui não havia sido delimitado que era judaísmo e o que era cristianismo, por isso tal prática. Vale a penas ser dito que os cristãos não eram judeus por religião, eram cristãos que ainda participavam parcialmente das práticas da religião judaica.

Segundo a narrativa, era carragado diariamente para a porta do Templo um coxo de nascença, com o objetivo de esmolar. Na cultura e religião judaica da esmolas é um ato religiosamente meritório, sendo assim, nada mais apropriado que colocá-lo na porta do Templo. Sendo isso verdadeiro, podemos dizer que a expectativa do paralítico descrita no v.5 era de receber algo que teria muito valor. Contudo, tal expectaiva vai por água abaixo quando Pedro completa: “Não possuo nem prata nem ouro[3], mas o que tenho isto te dou” (v.6). O interesse do paralítico não era outra coisa senão dinheiro, por isso é possível que ele tenha desanimado não crendo no que seria dito[4]. Contudo Pedro não deixa dúvidas do que ele está querendo enfatizar: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!“.

Note que o destaque nesta oração, dita por Pedro, é o nome de Jesus. Isso não significa que a sentença “Em nome de Jesus” seja uma fórmula mágica que deve ser dita antes da execução do milagre almejado. Não trata-se de uma regra para obtenção de um fim específico, mas “o ponto principal desta história, porém, é que o nome de Jesus continua com poder para operar os mesmos graciosos milagres de cura que, nos Evangelhos, eram sinais da chegada do reino ou domínio de Deus[5]“. O que Pedro diz com tal sentaça é “pela autoridade e poder de Jesus” o homem pode ser curado. Deve-se lembrar que o próprio Jesus tinha falado sobre isso, como relatado nos evangelhos (cf. Jo.5.20; 14.12), e demonstrado em At.1.8: “recebereis poder“. Por certo o poder necessário para executar tal milagre não veio de Pedro ou João, antes este poder foi outorgado por Cristo mediante a obra do Espírito Santo na vida deles. Isso era observado pela Igreja Primitiva e não pode ser esquecido aqui (cf.43).

Contudo, o mais importante deve ser ressaltado aqui: o resultado empreendido nessa ocasião. Como é bem dito por Lucas muitos eram os sinais feitos por intermédio dos apóstolos, e um sinal tem o claro propósito de evidenciar algo. Isso não seria diferente com este sinal miraculoso. O objetivo desse milagre é claramente percebido: despertar o interesse sobre a realidade de Jesus e testumnhar a cerca de seu poder manifesto por meio de Pedro e João. Observe o que diz o texto sobre o paralítico: “entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus” (v.8). Mas esse não é único observável, note: “Viu-o todo o povo a andar e a louvar a Deus e reconheceram ser ele o mesmo que esmolava (…) e se encheram de admiração e assombro”.

É importante observar que admiração e assombro não significa “necessariamente a mesma coisa que a fé nAquele que operou o milagre; uma pessoa pode impressionar-se com o espetacular sem corresponder àquilo que significa: o poder e a graça de Deus“. Por isso era necessário uma explicação sobre o incidente. E isso é exatamente o que Pedro faz.

3.      Mensagem (At.3.12-26)

A mensagem dita por Pedro e redigida por Lucas, segue um padrão interessante aqui, pois é deveras semelhante ao encontrado no capítulo anterior: Um evento incomum, seguido de uma mensagem de Pedro à uma multidão ainda atônita, sendo que, o início desta corresponde a explicação de tal evento (sobre a redação de Lucas veja o primeiro parágrafo do tópico anterior). Outros detalhes semelhantes são também observados: (1) As mensagens têem teor messiânico, ou seja, enfatizam a Jesus Cristo como messias prometido aos judeus; (2) Ambas dão testemunho da rejeição judaica de Jesus Cristo (cristoj [cristós]= messias); (3) Ambas destacam a ressurreição de Cristo; (4) apresentam o arrependimento como atitude necessária; e finalmente (5) Ambas alicerçadas nas profecias do Velho Testamento, o que evidencia o caráter mêssiânico da mensagem.

A cura sobrenatural homem aleijado realizada por Deus por intermédio de Pedro e João (v. 7), junto com a resposta exuberante dele (v. 8), atraiu uma multidão pasmada (cheios admiração e assombro) ao que tinha acontecido. Eles correram e ajuntaram-se à Colunata de Solomão, um pórtico de colunas que correm o comprimento do lado oriental do tribunal exterior (cf. 5:12)[6]”. Pode-se, à luz da história, imaginar a euforia das pessoas ao presenciarem um aleijado de nascença pulando nas dependencias do Templo. A grande pergunta que poderia ter permeado parte dos presentes pode ser expressa da seguinte maneira: “Que quer isto dizer?” (At.2.12). É provável que os presentes imaginassem que Pedro ou João tivessem poderes especiais para a realização de fatos como esses. Deve ser por essa media que Pedro inicia assim o seu discurso: “Israelitas, por que vos maravilhais disto ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” (v.12).

Nessa mensagem podemos observar que Pedro explica o fato ocorrido ressaltando que não era por causa de seu poder ou piedade que tal fato se consolidou, mas que pela autoridade e poder de Jesus é que o milagre pode ser realizado (v.16). Mas o cerne dessa explicação se encontra no fato de que Jesus foi glorificado por Deus, morto pelos judeus e ressuscitado por Deus. Ou seja, a explicação de Pedro é claramente evangelística. Ele não poderia perder a oportunidade de expor o evangelho em uma situação como essa.

Ainda alguns pontos imporantes podem ser bem colocados aqui. O v.17 demonstra que a atitude dos judeus diante do messias foi fundamentada em sua ignorância. Por ignorância Pedro não está enfatizando o caráter agressivo ou desejoso de morte dos judeus, mas a falta de conhecimento adequado da parte deles. O mesmo aconteceu com as autoridades do povo. Por outro lado, isso não significa que Deus não estivesse a par do que estava acontecendo. Isso não significa que isso aconteceu sem o conhecimento de Deus ou contra Seu desejo, mas fez parte de sua vontade e planejamento, visto que isto fora anunciado anteriormente aos profetas. Se Deus disse por intermédio dos prefetas que seu Cristo haveria de padecer, e isso aconteceu, Deus é Fiel na administração e execução do Seu Plano.

Esse ponto desta pregação petrina é muito semelhante a anterior. Veja que em At.2.23 Pedro utiliza a expressão “sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus“. As palavras destacadas podem ser assim entendidas: visto que desígnio é sinônimo de propósito e determinado tem significado muito claro, podemos concluir que Jesus foi entregue pelo Propósito Determinado de Deus. Potanto, Deus tem papel ativo na morte de Cristo. O segundo termo afirma que Deus Sabia Antes que isso aconteceria. Logo, Deus tem pleno conhecimento da morte de Cristo. Sendo assim, Deus é Soberano sobre a morte de Cristo. Diante das informações aqui recolhidas, podemos dizer que a Morte de Cristo demonsta que Deus é Fiel e Soberano.

O v.19 amplia a idéia colocada sobre o arrependimento exposta em At.2.38. Nós vimos no estudo anterior que o verdadeiro arrependimento vem necessariamente acompanhado por mudança de idéia (de mente), em relação a situação anterior ao conhecimento de tal mensagem. No verso em questão, Pedro apregoa a seguinte expressão: “Arrependei-vos, poi, e convertei-vos”. A idéia de converter nada mais é do que mudar de  direção, retornar ou voltar atrás. Assim, podemos izer que arrependimento deve ser seguido uma mudança de vida. O propósito disto é o cancelamento dos vossos pecados. O termo “cancelar” pode ser também entendido como aniquilar ou destruir.

Diante dessas colocações podemos dizer que os dois primeiros sermões de Pedro são relativamente parecidos, mas não podemos deixar de ressaltar as diefenças. Entretanto, apenas uma será aqui exposta: o caráter moral do evangelho. Observe o o v.26: “Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente a vós outros para vos abençoar, no sentido de que cada um se aparte das suas perversidades“. O ato abençoador de Deus é colocado aqui como afastar o pecador do pecado, entretanto essa é uma tarefa confiada a cada um que, arrependendo volte-se ao Seu Senhor e Criador. Dessa forma, o evangelho tem papel imprescindível na correção moral do ser humano. O padrão moral é por certo o caráter de Deus, conforme exposto pelas Escrituras. Portanto, o evangelho tem o caráter moral em alta.


[1]WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Atos.pp.80

[2]CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamente Interpretado versículo por versículo. Vol.3, pp. 76

[3]Considere At.2.45 e 4.34-35 e questione se era uma situação momentânea ou uma decisão do apóstolos para aquela ocasião em especial.

[4]Sobre a possibilidade de um milagre ser executado sem a expressão de fé daquele que o recebe, ver Jo.11, onde Jesus ressucistou a Lázaro.

[5]MARSHALL, Howard, Atos Introdução e Comentário. pp.86

[6]WALVOORD, Jonh F., ZUCK, Roy B. The Bible Knowledge Commentary. Parsons Tecnology, INC.