Perseguição e Expansão


“A grandeza da Igreja consiste no fato de sermos odiados por todo o mundo”.

Inácio de Antioquia

1.      Introdução

No último encontro pudemos notar com clareza a ação de Deus contra o pecado. Por ser Santo, Deus não pode deixar de punir o pecado. Pudemos perceber que se Deus utilizasse a mesma sentença aplicada a todos os homens, poucos seriam os que ficariam vivo. Entretanto, Observamos que a exortação de Pedro e a disciplina ministrada diretamente por Deus tiveram um propósito bem definido, e vimos que ele foi cumprido cabalmente. Portanto, o cerne da disciplina não está na severidade em que foi ministrada, mas no resultado auferido (cf. At.5.5, 11, 13). Por um lado, a disciplina resultou em temor dos cristãos. Por outro, demonstrou a seriedade da Igreja, como instituição de Deus na terra.

Deve-se a esse fato disciplinador de Deus a reação do povo assim exposta em Atos: “Dos demais, ninguém ousava juntar-se a eles, embora o povo os tivesse em alto conceito[1]” (At.5.13). Ou seja, embora a Igreja fosse digna de respeito e admiração, o mesmo sentimento dos cristãos era compartilhado pelo povo: TEMOR. Sendo assim, vemos que Deus em sua administração histórica demonstrou a seriedade da Igreja bem como a severidade da Sua disciplina. Concluímos então que “de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear isso também ceifará“.

No estudo de hoje veremos mais uma página da história do poder de Deus manifesto por meio dos apóstolos. Alguns detalhes iniciais devem ser ressaltados aqui, antes da progressão com o estudo. Em primeiro lugar, deve-se dizer que os primeiros versículos do estudo de hoje (At.5.12-17) fazem parte de um resumo tópico da história feito por Lucas. Ou seja, não se trata de um fato isolado, mas de mais uma informação sobre a vida da Igreja Primitiva. Isso significa que Deus estava manifestando seu poder por meio dos apóstolos com sinais e prodígios, como Lucas já havia dito (cf. At.2.43; 4.30). Em segundo lugar, o texto não está afirmando que a missão da Igreja eram os sinais e prodígios, mas afirma que eles acompanharam a progressão da expansão da verdade a respeito de Cristo. Como se trata de um resumo tópico da história, Lucas separa, por temas, fatos para expor a história da Igreja. Ou seja, os versos em pauta dizem respeito a um arranjo literário, um resumo temático, daquilo que era feito no seio da Igreja.

2.      Sinais e Crescimento

Como já foi dito, os versículos lidos aqui fazem parte de um arranjo literário, um resumo temático. Ou seja, trata-se de um grupo de informações colocadas juntas para exemplificar fatos concernentes a Igreja Primitiva. Sobre isso Howard Marshall diz  que Lucas “narra em termos gerais como as atividades da Igreja estavam aumentando a tal ponto que as autoridades sentiam que deviam, mais uma vez, empreender ações contra ela[2]” (Grifo do autor). Por outro lado, são informações fidedignas que expressam a verdade sobre a Igreja.

Antes de progredirmos com o estudo, é importante nos lembrarmos que a atuação miraculosa de Deus havia sido solicitada pelos próprios apóstolos na oração feita no capítulo 4: “…agora Senhor, olha para as ameaças, e concede aos teus servos que anunciem com toda intrepidez a tua Palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios, por intermédio do nome de teu Santo Servo Jesus” (v.29-30).

Como vimos em poucos versículos atrás, a severidade de Deus em disciplinar produziu um misto de temor e admiração no povo que observava o crescimento e desenvolvimento da Igreja em meio suas dificuldades. A popularidade  da Igreja, entre o povo, “crescia mais e mais“. Já não era inumeráveis as pessoas que se agregavam à Igreja, sendo mais uma vez chamada de multidão.

É provável que tal crescimento tenha ocorrido em função da atuação especial de Deus por meio de Pedro e João, no caso do paralítico. Por isso, talvez, é que “afluía muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém, levando doentes e atormentados de espíritos imundos” (v.16). A mão de Deus deve ser reconhecida aqui, visto que Lucas nos instrui que “todos eram curados“.

3.      Perseguição dos Apóstolos

Neste tópico merece nossa atenção a frase de Inácio de Antioquia, ressaltada no alto da página: “A grandeza da Igreja consiste no fato de sermos odiados por todo o mundo“. Inácio foi bispo em Antioquia durante sua vida, e foi um dos sucessores dos apóstolos, sendo considerado pela história da Igreja como um dos “pais da Igreja“. Inácio de Antioquia foi martirizado, em decorrência a grande perseguição da Igreja, no ano de 107 d.C. Ou seja, a frase dita por ele sobre a realidade da igreja é influenciada pela sua experiência de sofre uma perseguição na pele. Vale lembrar que tal experiência reflete poucos anos à frente daquilo que temos visto em Atos. A perseguição a que Inácio refere-se é a Grande Perseguição da Igreja realizada pelo Império Romano. Contudo, a perseguição nascera em ambiente judaico e com o tempo cresceu e se estendeu pelo mundo conhecido.

A Igreja nunca tinha sido bem vista pela religião judaica, pois seus líderes a consideravam uma perversão das verdades de Deus. Por esta razão os líderes judeus sempre procuraram uma forma de abafar os movimentos de evangelismo e testemunho. Os motivos para isso eram religiosos, mas maculados por sentimentos completamente pecaminosos. Note o que Lucas fala a respeito da motivação da atitude dos líderes religiosos dos judeus: “tomaram-se de inveja[3]“. David Williams diz que “a inveja (gr. Zelós) foi um ataque de partidarismo fanático (…) contra os que tinham opinião contrária[4]“. A menção dos saduceus aqui é importante ser ressaltada, pois deixa claro o motivo religioso da perseguição visto não acreditarem na ressurreição do corpo. A inveja, por certo, é fundamentada nas obras realizadas por Deus por intermédio dos apóstolos que escolhera. Como vimos a pouco, muitos sinais e prodígios eram feitos pelos apóstolos. Diante dos fatos observados, a impossibilidades de se reproduzi-los, sendo ainda, tomados pela inveja, o sumo-sacerdote e os saduceus prenderam os apóstolos em prisão pública.

A partir desse ponto, podemos dizer que Lucas considera os fatos com uma certa dose de humor, pois relata a forma sobrenatural que os apóstolos foram libertos, ao mesmo tempo em que afirma o ajuntamento solene do Sinédrio e sua espera pelos apóstolos que já estavam no templo novamente pregando. O relato oferecido pelos guardas ao Sinédrio merece nossa atenção: “Mas os guardas, indo, não os acharam no cárcere; e, tendo voltado, relataram, dizendo: Achamos o cárcere fechado com toda a segurança e as sentinelas nos seus postos junto às portas; mas, abrindo-as, a ninguém encontramos dentro“. Como o texto nos informa, tudo estava nos seus devidos lugares, da mesma forma que deveriam estar, a exceção dos apóstolos.

No v.25 o Sinédrio é informado sobre o paradeiro dos apóstolos, que estavam ensinando no templo. Por certo, os apóstolos falavam sobre “todas as palavras desta Vida” (v.20). Ao tomar conhecimento desse fato, o capitão do templo e os guardas foram buscar os apóstolos, mas “sem uso de força“, pois temiam ser apedrejados pelo povo. O grande objetivo da reunião do Sinédrio era a confrontação dos apóstolos, por dois motivos: (1) Os apóstolos já tinham sido avisados para não ensinarem a respeito de Cristo (At.4.18, cf. 5.28a); (2) Os apóstolos colocavam sobre os judeus a culpa pela morte de Jesus (At.2.23, 40; 3.13, 14, 17; 4.10; cf. 5.28b).

Era de se esperar que Pedro, em nome dos apóstolos,  na sua defesa excluísse os termos a acusação, mas isso seria negar, não somente a verdade a respeito de Cristo, como o próprio Cristo. Sua introdução é a resposta para a pergunta que ele pessoalmente tinha feito para os líderes judaicos em sua oportunidade anterior (“Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que mais a Deus?”  – At.4.19): “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At.5.29). O cerne da mensagem é o mesmo, mesmo sendo advertido para não fazê-lo. Pedro executa aquilo que cria ser o importante: Obedecer a Deus; e assim, não cessaram de falar sobre Cristo (v.30-32).

A reação dos líderes judaicos não poderiam ter outra atitude senão: “se enfureceram e queriam matá-los“. As infrações dos apóstolos tinham chegado a um limite: não uma, nem duas vezes, mas era a terceira vez que eles infringiam a mesma ordem, e agora diante das autoridades. Era um desacato à autoridade digna de severa punição, por isso queriam matá-los.

Entretanto, alguém com um pouco de bom senso resolveu dar uma nova perspectiva na história. Gamalieu “mestre da lei, respeitado por todo povo“, com sua experiência e visão de vida observa que os resultados dependem da fonte  (V.39). O argumento de Gamalieu é muito bem fundamentado na história recente[5] do povo judeu. Gamalieu pode lembrar-se de Teudas, um homem que achou que era alguém, mas depois de morto seus seguidores se dispersaram. Fato semelhante acontece com Judas. Ou seja, se os apóstolos não estivessem falando em nome de Deus eles não dariam em nada. Por isso a conclusão do Sinédrio foi: “Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele” (At.5.38-39). Historicamente, podemos dizer que Gamaliel estava certo na segunda premissa.

Qual o resultado obtido nesse conflito todo: “E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome. E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo”.


[1]Sobre a segunda sentença da oração, a tradução da revista e atualizada diz: “porém o povo lhes tributava grande admiração“. As idéias expostas pelas traduções da NVI e ARA completam o sentido do termo grego utilizado, que diz respeito a “engrandecer“, mas é utilizado aqui com sentido figurado tendo a seguinte conotação: “ter grande respeito” ou “reconhecer importância“. Assim, a idéia é ter admiração e considerar importante.

[2]MARSHALL, Howard. Atos Introdução e Comentário. pp.112

[3]O termo grego utilizado para expressar a idéia de “inveja” é “zelós”. Tal verbete pode ser traduzido como zelo no sentido religioso, ressaltando o valor religioso da perseguição. Howard Marshall levanta essa possibilidade na pp. 114 considerando a passagem de At.13.45. Contudo, opta pela tradução de “inveja”, explicando a idéia como “irritação diante do sucesso da Igreja” (idem, ibid).

[4]WILLIAMS, David. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. pp.126.

[5]Recente para o momento histórico em questão.