Pregação e Congregação Inicial


“Igreja primitiva nos brinda com a simplicidade do evangelho, que inibe as preocupações com questões que não dizem respeito à verdadeira expressão de fé na comunidade cristã, que destrói o partidarismo e o egoísmo e que, sobretudo, apaga a infante idéia de buscar agradar o público”.

Marcelo Berti

1.      Introdução

Em nosso último encontro pudemos estudar um pouco sobre a necessidade de se estudar Atos, o seu propósito e observar como se deu à preparação para o início de toda uma história que paulatinamente estaremos estudando. Como foi bem evidenciado no último estudo, Lucas nos demonstrou a realidade da Soberania de Deus, mesmo nos fatos mais simples. Note que o foco do primeiro trecho estudado reflete a Soberania de Deus demonstrada no ministério de Cristo após a ressurreição, na ascensão de Cristo, na proposta de Pedro e na escolha de Matias.

O que vamos observar hoje é a continuidade dessa história, também debaixo da Soberania de Deus, mas marcada por intensa atividade apostólica. Nesse estudo veremos não somente o Pentecostes como cumprimento das profecias de Cristo, mas os primeiros fatos relacionados com ele, tais como a primeira pregação e a congregação inicial fruto dessa pregação. Que comece a história!

2.      O Pentecostes (At.2.1-13)

O derramamento do Espírito Santo é narrado de forma impressionante, “acompanhada de sinais sobrenaturais e fazendo com que [os discípulos] irrompessem em louvores a Deus em línguas diferentes das suas próprias. Na medida em que os discípulos saíam para as ruas, a sua atividade estranha atraía a atenção das pessoas que ficavam atônitas com aquilo que ouviram[1]”.

Neste ponto é mais que necessário dizer que os fenômenos que acompanharam o derramamento do Espírito Santo são evidências da veracidade do poder de Deus derramado. Observe que tais fenômenos acompanham o derramamento do Espírito Santo em Jerusalém, Judéia e Samaria, e nos confins da terra. Portanto, Lucas não ensina que todo cristão que o recebe fala em línguas, mas afirma que todo cristão recebe o ES, e os fenômenos de caráter miraculosos são provas da validade da missão gentílica na salvação. George Eldon Ladd alude a G.W.Lampe quando diz que “podemos dizer que há um Pentecostes judaico, um Pentecostes samaritano e um Pentecostes gentílico[2]”.

Pentecostes” é o nome dado no Novo Testamento à Festa das Semanas, quando a ceifa do trigo era celebrada por uma festa de um dia, durante a qual se oferecia sacrifícios especiais (Ex.23.16; Lv.23.15-21; Dt.16.9-12). Assim como outras festas se associavam com eventos na história de Israel (cf. Páscoa com o Êxodo do Egito), assim também no judaísmo a festa se associava com a renovação da aliança feita com Noé e depois com Moisés.

3.      A primeira pregação (At.2.14-41)

Pedro inicia sua pregação defendendo a integridade dos seus companheiros, pois não estavam bêbados apesar de ser essa uma opção para os que estavam observando. O que acontecia ilustrava a verdade exposta pelo profeta Joel. Depois, Pedro enfatizou Cristo, como centro de sua pregação, fundamentando em Salmos suas colocações enquanto procurava explica os fatos referentes a Ele, também fundamentos no livro de Salmos. Depois de feito isso, Pedro conclama os ouvintes a se arrependerem. Essa pregação tem grande marca na história do cristianismo por que ilustra o conteúdo correto a ser exposto na evangelização; por que é completamente fundamentada na Palavra de Deus; e por causa do resultado: 3.000 pessoas entenderam a verdade e foram incorporados à comunidade cristã que tinha aproximadamente 120 pessoas.

Vamos observar mais detalhadamente essa pregação:

3.1      Defesa dos cristãos com fundamento profético (v.14-21)

O primeiro ponto da homilia de Pedro é a defesa de seus companheiros. “Atentai para as minhas palavras“. O povo que observava atônito estava demasiadamente preocupado com a atitude desses que falavam em outras línguas. A  acusação era: “Estão embriagados“. Mas Pedro deixa claro um fato: “Estes homens não estão bêbados como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia“. O que Pedro está dizendo com isso é que ninguém, às 9.00h[3], estaria bêbado[4].

O fundamento de Pedro aqui diz respeito ao acontecimento no dia de Pentecostes, e baseado em Joel, quando este anuncia um evento que faz parte da escatologia do Velho Testamento. A citação não confere ao cumprimento pleno, mas o apóstolo fez referência à semelhante situação[5].

3.2      Exposição de Cristo com fundamento profético (v.22-28)

A pregação de Pedro é muito bem arranjada. As colocações iniciais são claras: “Jesus, esse homem que vocês bem conhecem, foi entregue por Deus e vocês o mataram, mas ele ressuscitou por que não poderia ser retido pela morte“.  Essa mensagem demonstra que Pedro tinha em mente a última recomendação de Cristo: “…sereis minhas testemunhas…”. Diante dessa mensagem podemos mencionar três elementos básicos da pregação apostólica:

  • (1) O Jesus Histórico – aquele que viveu e conviveu entre os homens (2.22);
  • (2) O Cristo crucificado – as colocações sobre a crucificação são diretamente relacionadas com a culpa dos ouvintes (v.23);
  • (3) O Cristo ressureto – a ressurreição não pode ser deixada de lado, pois ela é a confirmação da veracidade da obra messiânica de Cristo.

 

Exposição

Note que Pedro apresenta a Jesus como Nazareno, ou seja, como aquele que vem de Nazaré. Embora Jesus não tenha nascido em Nazaré, durante o período do seu ministério foi por muitas vezes chamado de Nazareno. Quando os soldados o procuravam a fim de prendê-lo, o identificaram dessa maneira (Jo.18.5, 7) e em diversas outras situações (cf. Mt.26.71; Lc.18.37; Jo.19.19). Mas segundo Mt.2.23 isso se refere ao cumprimento de uma profecia do Antigo Testamento.

Deve ser destacado que Cristo é apresentado como Varão Aprovado. A palavra grega que se refere a “aprovado” tem o sentido de uma demonstração pública de clara provação, de modo que veio a ser considerado verdadeiro. Ou seja, Jesus é um homem que em provações públicas foi considerado sem falta. É importante ressaltar que essa aprovação foi diante de Deus e dos homens, onde os milagres, milagres e sinais são a clara demonstração dessa aprovação.

Outro detalhe que deve ser observado é que a Morte de Cristo estava em consonância com o “determinado desígnio e presciência de Deus“, mas a responsabilidade e culpa pelo acontecido está posta sobre os homens: “vós o matastes“. Embora Deus assim quisesse, o homem é plenamente responsável pelos seus atos.

Fundamentação

Pedro, de forma muito inteligente, utiliza um salmo messiânico de Davi (Sl.16.8-11), que muito provavelmente era conhecido pelos ouvintes, para dar base a sua explicação da Ressurreição. Em Salmos Davi mostra sua certeza em que não ficaria na sepultura, mas fala que Deus não permitirá que Seu Santo veja a corrupção. Entretanto, Pedro afirma que isso não se aplica a Davi pelo fato de que até os dias dele, o túmulo de Davi estava lá. Assim ele aplicou o conceito de Cristo. É muito provável que o texto já tivesse essa conotação messiânica.

3.3      Explicação sobre Cristo com fundamento profético (v.29-36)

Pedro começa com a explicação do texto que utilizou para fundamentar a exposição de Cristo. Ao citar o trecho “não permitirás que Seu Santo veja corrupção“, Pedro quis enfatizar  o caráter messiânico do trecho, ou seja, Davi não se referia a si mesmo, mas ao messias que viria: “prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção“.

O ponto alto das afirmações feitas até aqui se encontra nessas palavras: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis“. Isto pode ser observado pela clara conexão de idéias que Pedro faz, pois no VT Deus prometeu que o messias não seria deixado na morte; contudo, Jesus já havia ressuscitado, logo Jesus é o Cristo (Messias). Ou seja, depois de tanta exposição Pedro declara, muito bem fundamentado, que “este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor (=Deus) e Cristo (=Messias)“.

O texto usado nesse trecho da pregação encontra-se em Salmos 110.1, onde Davi demonstra a existência do Seu Senhor. Provavelmente Pedro teria aprendido esse argumento com o próprio Senhor (Mt.22.41-46). O texto usado por Pedro faz menção à expectativa messiânica da nação de Israel: O Messias seria descendente de Davi (cf. 2Sm.7.12-16; Sl.89.3-4, 34-37). Mas segundo mesmo texto, esse descendente era chamado por Davi de “meu Senhor“. Essa identificação faz menção a Cristo sentado à destra de Deus, provando sua ascensão.

3.4      Apelo e resultado (2.37-41)

Ao ouvirem o que Pedro tinha a dizer a reação foi geral: “E agora, o que devemos fazer?“. Note que a reação do povo, ante a colocação clara do evangelho, é de arrependimento. Para um arrependimento sincero acontecer é necessário ao menos um passo anterior: Reconhecer o erro. Certamente os que ouviam a palavra de Pedro poderiam se lembrar de Jesus e a forma com que Ele foi morto, e por isso não podiam crer que esse que morreu era de fato o Messias tão esperado. Mas Pedro, de forma nenhuma, anuncia que isso ocorreu à parte da Soberania de Deus, mas que Ele não só sabia previamente como também determinou assim (v.23).

Assim, Pedro declara: “Arrependei-vos, e cada um seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo“. Muitos dos presentes compreenderam a verdade sobre Cristo, sua pecaminosidade[6] e a necessidade do perdão de Deus, e naquele dia 3.000 pessoas passaram a fazer parte da Igreja.

4.      A primeira congregação (At.2.42-47)

Uma das características de Lucas é separar os vários incidentes da primeira parte de Atos por meio de pequenos parágrafos ou versículos que dão resumos da situação da igreja nas várias etapas do seu progresso[7]“. Esse fato ressaltado por Howard Marshall acontece claramente aqui, e é a primeira vez que acontece em referência ao livro de Atos, mas é um recurso literário de Lucas já conhecido e evidenciado no prólogo, quando se referiu ao Evangelho (At.1.1-3). O grande valor desse resumo de Lucas é que podemos observar como a Igreja Primitiva mantinha-se fiel a exigências de Cristo ante a propagação da mensagem do evangelho e do crescimento numérico que a acompanhava. Vamos observar isso mais de perto:

4.1      A Igreja Primitiva mantinha-se simples (2.42 e 47)

Ao afirmarmos que a Igreja mantinha-se simples não estamos dizendo que a igreja primitiva era uma igreja pobre, ou uma igreja não sofisticada, mas uma igreja que vivia em conformidade com a essência da fé cristã. Note que existem seis declarações nesse versículo que expressam as atividades da Igreja Primitiva:

Doutrina dos Apóstolos

O primeiro ponto a ser ressaltado é a Doutrina dos Apóstolos. O que Lucas quer dizer com “perseveravam na doutrina dos apóstolos” é que a Igreja Primitiva mantinha-se firmada na instrução dos apóstolos. A idéia expressa pelo verbete “perseverar” é dar constante atenção a alguma coisa. Ou seja, a Igreja Primitiva mantinha-se constantemente alicerçada pelo ensino apostólico.

É importante ressaltar que até este ponto da história a doutrina da igreja primitiva podia ser resumida pelo v.36 do mesmo capítulo: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo“. Contudo, é digno de nota que todos os apóstolos tinham sido instruídos por Cristo, e por certo podiam repassar aquilo que haviam aprendido. Aliás, a expressão grega referente a “doutrina dos apóstolos” sugere que tal instrução seja procedente dos apóstolos. Ou seja, o ensino da igreja é mantido por aqueles que tem autoridade e capacidade para tal tarefa.

Comunhão

Lucas não poderia estar equivocado quando utilizou o vocábulo “comunhão” quando se referiu à Igreja Primitiva. A descrição subseqüente, esplanada no tópico sobre unidade da igreja, expõe de forma muito clara as considerações dessa igreja. Assim, deve-se ressaltar que os primeiros cristãos “eram perseverantes (…) na comunhão“. E como foi anteriormente ressaltado, isso implica em dizer que eles eram fundamentados na experiência comum do corpo. Assim, como os outros pontos ressaltados por Lucas, a comunhão era essência da vitalidade da Igreja.

Partir do Pão

A expressão “partir do pão” não diz respeito a uma refeição típica da época, e que os cristãos mantinham-se comendo apenas pão, mas a expressão diz respeito à prática da Ceia do Senhor. O termo grego equivalente a partir em português é apenas utilizado no NT em referência à ceia. Alias. É digno de nota que o termo (the klasei tou artou) é apenas utilizado duas vezes no NT, ambas feitas por Lucas, e é de uso restrito à ceia. O uso da expressão é quase que um pleonasmo, visto que klasei (partir) só é aplicado a artou (pão). Segue-se que, com absoluta certeza, a igreja primitiva mantinha-se firmada constantemente no memorial da morte de Cristo.

Orações

As orações tinham um papel fundamental na vida da Igreja Primitiva. Isso pode ser claramente percebido pelo relado deixado por Lucas, que diversas vezes considera as orações dos primeiros cristãos.  Em Atos podemos ver que a oração foi a atitude dos cristãos diante das decisões a serem tomadas (1.14), a atitude da liderança da igreja em situação de crescimento (6.4) e a prática da igreja quando estava em situação de perigo e perseguição (12.5).

Louvor

Esta é uma das poucas referências encontradas em Atos que descreve essa atitude dos cristãos. Isso, no entanto, não quer dizer que os primeiros cristãos não adoravam a Deus, mas que suas reuniões estavam mais voltadas para a instrução, a oração  e a comunhão. Contudo, devemos notar que todos os outros fatos ocorriam enquanto os cristãos louvavam a Deus[8] . Ou seja, embora sejam poucas as referências era uma atividade que estava intimamente ligada a expressão de adoração da igreja. Entretanto, não podemos afirmar com certeza se isso acontecia por meio da música, embora possa ser muito bem expressa por ela.

Evangelismo

No mesmo versículo podemos perceber, ainda que um pouco escondido, a atividade evangelizadora da Igreja Primitiva. Note: “e dia-a-dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos“. Por mais que a atividade esteja centralizada na atividade divina na salvação, sabe-se que “aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1Co.1.21). Portanto, não se pode negar que o evangelismo era parte integral da vida da igreja primitiva, sendo que isto acontecia diariamente. Segue-se, então, que a proclamação da verdade, o kerigma na Igreja Primitiva era parte essencial da vitalidade da Igreja de Cristo, assim como todos os elementos já mencionados.

A conclusão que devemos chegar aqui é que estes quatro elementos são essenciais na prática e na experiência da Igreja de Cristo. Portanto, a igreja local que não viabiliza a execução desses quatro pontos não pode ser considerada uma igreja saudável. Em alguns casos é possível que nem possa ser considerada como parte da Igreja de Cristo.

4.2      A Igreja Primitiva mantinha-se unida (2.43-47)

Na introdução deste estudo foi utilizado uma frase que expressa um pouco daquilo que encontramos neste trecho, pois aqui vemos o aspecto mais forte, ou o mais enfatizado por Lucas em suas descrições da Igreja Primitiva: A Unidade, que destrói idéias contrárias, a preferência, o egoísmo e principalmente o fermento que toma conta das igrejas atuais, o partidarismo.

Provavelmente isto se deve à necessidade bíblica da Unidade que é muito bem exposta por Cristo antes de se morrer e ser elevado às alturas. Note algumas considerações de Cristo sobre a unidade na Igreja: “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo.17.11). Jesus em sua oração pede a Deus que aqueles que são seus mantenham-se unidos, ou melhor que seja “um” como Ele o é com Deus Pai (cf. 17.22);Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim, a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo.17.20-21). Note que a unidade do Corpo de Cristo é a Vontade de Cristo para sua Igreja e um pré-requisito para o testemunho na comunidade, portanto não deve estar em falta na comunidade cristã. Assim, é importante compreender o que é Unidade na Igreja Primitiva. Para tanto podemos considerar os seguintes pontos:

Auxílio Social

Auxílio Social é uma marca muito bem delineada da Igreja Primitiva. Observe no v.45 a consideração da dos participantes da igreja: “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade“. Os primeiros cristãos tem vívida a idéia de unidade na comunidade a ponto de que entre eles ninguém tenha problemas com o essencial para a vida física.

O meio pelo qual isso era feito é estampado pelo trecho em negrito no supracitado versículo, entretanto resguardado pela premissa sublinhada no mesmo. Assim, os cristãos preservavam a integridade física uns dos outros por meio da prática da ação social. Isso reflete a forma como estavam unidos os irmãos da Igreja Primitiva.

Em At.4.34-5 a declaração é ainda mais clara: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade“. A preocupação da comunidade cristã primitiva era levar a cabo as exigências de Cristo e assim ser testemunho ao mundo da Graça de Deus.

A conclusão que se chega ao ler esse trecho é que a Igreja Primitiva é exemplo de uma comunidade que sabe como investir seu dinheiro, pois investe em pessoas.

Comunhão

A comunhão tem papel fundamental na vitalidade da Igreja, e isso é claramente percebido na experiência da Igreja Primitiva. Esta é a idéia é exposta pelo termo “estavam juntos” que literalmente significa “eram próximos uns dos outros“. Ou seja, viviam uma vida comunitária em unidade. Veja essa descrição: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração“. Mas é importante dizer que a Igreja Primitiva vive em unidade e não em uniformidade.

Mesmo Sentimento

Dentre todos os pontos destacados até aqui, nenhum me chama tanto a atenção como este. Note que algumas vezes na nossa leitura observamos a seguinte expressão “perseveravam unânimes” (cf. 1.14; 2.46). A idéia de perseverar já foi bem exposta, entretanto nada foi dito sobre essa “unanimidade“. O termo grego utilizado é “omotumadón” que é um advérbio. Tal advérbio é utilizado dez vezes no livro Atos sendo que são apenas onze em todo o NT. Seguindo essa sugestão, pode-s afirmar que o termo é de grande importância para Lucas e merece ser bem observada.

O termo em pauta pode ser traduzido pelas seguintes sentenças: “comum acordo” (At.12.20); “pleno acordo” (At.15.25); “concordemente” (At.18.12, cf. Rm.15.6); “à uma” (At.19.29), sendo encontrado na literatura grega antiga como “comum consenso“, “com uma mente“, “com um propósito“.  Todas as opções encontradas nos levam a uma conclusão interessante, pois os discípulos mantinham-se firmes em comum acordo. Isso é apenas possível se os participantes possuírem o mesmo propósito, estarem em comum consenso com o mesmo modo de sentir e pensar. Contudo, não se deve confundir isto com uniformidade ideológica, mas unidade em termos de propósito, modo de pensar, agir e sentir.

O mesmo sentido é exposto por Paulo, por outros termos, quando diz: “completai minha alegria, de modo que penseis a mesma cousa¸ tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento” (Fl.2.2; cf. Rm.12.16; 2Co.13.11). Mas é importante dizer que é provável que essa unidade seja uma tentativa de um viver em conformidade com Cristo que é padrão da vida cristã: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fl.2.5; cf. Rm.15.5; Cl.3.2).

Sendo assim, podemos dizer que unidade na Igreja Primitiva significava ter o mesmo sentimento, tendo o mesmo propósito, pensar, agir e sentir. Isso pode ser claramente percebido pela expressão feito por Lucas, pouco depois: “Da multidão dos que creram era só um o coração e a alma” (At.4.32).

4.3      A Igreja Primitiva era madura (2.42-47)

Um detalhe que parece antagônico é que a Jovem Igreja Primitiva era Madura e procedia em Maturidade. Maturidade esta que apaga a infante idéia de agradar o público, mas, ao contrário disto, busca agradar somente aquele que é digno de Glória. Essa idéia é importante ser ressaltada pois está em falta em boa parte das comunidades cristãs hoje. Isso pode ser percebido em três pequenos detalhes:

Temor

            Na vida de cada cristão havia temor : “Em cada alma havia temor” (v.43). O temor é um ponto primordial para a vida da igreja e parece ser uma exigência em Hb.12.28-29. O sentido expresso pelo termo “temor” está além de medo, embora o inclua. O termo sugere devota reverencia em relação a Deus. Na Igreja Primitiva, tal medo reverente existia em cada um dos cristãos (cf. At.5.1-11).

 

Líderes como Instrumento

Na Igreja Primitiva os líderes são instrumentos e não Senhores da Igreja (v.43: “e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos“). Na Igreja Primitiva os líderes não eram os “milagreiros“, mas homens que nas mãos de Deus eram instrumentos de sua graça.

 

Reconhecimento da Atuação de Deus

O reconhecimento do crescimento como obra divina (v.47 “Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos“) A Igreja Primitiva tinha o conceito correto de que crescimento é competência divina.


[1]MARSHALL, M. Howard, Atos – Introdução e Comentário. pp.67

[2]LADD, Geroge Eldon. Teologia do Novo Testamento. pp.326.

[3]Provavelmente às 9.00h da manhã era da oração matinal em Israel. Compare essa idéia com 1Ts.5.17.

[4]Veja a condenação de Deus para esse tipo de atitude em Ec.10.16 e Is.5.11.

[5]Há grande debate teológico sobre essa citação de Pedro, mas o que é inquestionável é que alguns detalhes do que foi dito na profecia não foram cumpridos, tais como “O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue“. Por esses fatos crê-se que Pedro ilustra a situação com o trecho mencionado.

[6]Não é apenas o pecado praticado, intencionado, a culpa pelo pecado ou sua natureza pecaminosa, mas a plena capacidade e habilidade para pecar.

[7]MARSHALL, M. Howard, Atos – Introdução e Comentário. pp.83

[8] É importante ressaltar que o gerúndio “louvando”  refere-se a um verbo no presente do particípio ativo grego e é melhor traduzido pelo uso adverbial temporal. Ou seja, “enquanto louvavam“.