Vida e Disciplina na Igreja Primitiva


“A Igreja existe, não para oferecer entretenimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas, para adorar a Deus”.

Philip Yancey

1.      Introdução

No estudo anterior pudemos acompanhar a atividade apostólica no que tange ao evangelismo e a defesa da fé que havia sido ensinada pelo Senhor. Vemos que em todas as oportunidades que Pedro teve não hesitou em testemunhar sobre a verdade de Cristo. Pudemos perceber que nem mesmo a perseguição conseguiu inibir o ardor evangelístico de Pedro, mesmo diante das principais autoridades do povo de Israel Pedro não se sentiu intimidado.

Isso pode ser claramente atribuído à atividade do Espírito Santo na vida do apóstolo, e não às suas virtudes pessoais, visto que quando esteve por sua própria força acabou por falhar (cf. Mt.26.33-35; 51; 69-75; vt. Lc.22.61). No texto estudado no encontro anterior podemos ler: “Então Pedro, cheio do Espírito Santo disse…“. A intrepidez de Pedro ao defender o evangelho enquanto evangeliza é Obra do Espírito Santo em sua vida. Mas podemos ver também que isso é igualmente atribuído a todos os participantes da Igreja Primitiva: “…todos ficaram cheios do Espírito Santo, e, com intrepidez, anunciavam a palavra da Deus” (At.4.31). Portanto, devemos concluir que cada cristão em particular é capaz de evangelizar com intrepidez, desde que esteja cheio do Espírito Santo.

Deve-se lembrar que para estar cheio do Espírito Santo é necessário esvaziar-se de si mesmo e das vontades e paixões da carne e dos pensamentos. Ou seja, é necessária uma vida de total dedicação e exclusividade a Deus, o que é um sinal claro de maturidade espiritual e crescimento na verdade. Portanto, a Plenitude do Espírito pode ser experimentada por todos aqueles que buscam ardentemente a Deus e sua Palavra. No estudo de hoje poderemos observar alguns dos resultados obtidos por uma comunidade que, mediante as situações que estava passando, resolveu em comum acordo buscar a Deus e sua Palavra de modo ardente.

2.      A vida social da Igreja Primitiva

“Por que a Igreja é importante? Que diferença ela faz? Em primeiro lugar, podemos dizer que a igreja é extremamente importante neste mundo porque fornece o contexto em que ocorre a cura substancial nas relações interpessoais. É na igreja local que pessoas de diferentes idades, origens, etnias, culturas, formações e níveis sociais são convidadas a viver em plena harmonia, formando uma verdadeira família”.

Marcos Mendes Granconato

 

            Ao observar essa sentença podemos ainda afirmar que neste sentido nenhuma outra instituição pode se comparar a Igreja. A Igreja é única por sua essência e pela prática dela. A vida da Igreja consiste em um organismo organizado que visa cada um dos seus integrantes e por meio deles busca glorificar a Deus em todas as suas atividades. Por essa razão a Igreja mantinha-se unidade e compartilhava seus bens e realizava ação social.

A unidade descrita por Lucas em um possível hebraísmo “era só um o coração e a alma“, significa acordo total (1Cr.12.38). A comunidade Cristã era  exemplo para a sociedade em que estava inserida, o cuidado dos mais necessitados era prioritário na igreja, mas não obrigatória. Ao que tudo indica, a Unidade da Igreja Primitiva, o cuidado com o necessitado era voluntário. Note que “ninguém considerava exclusivamente seu nem uma das cousas que possuía“. Apesar de não considerar como sendo seu, ainda estava sob seu domínio. O que o texto sugere senão que o cristão “era ‘dono’ de seus bens, até o momento em que sentisse ser mais apropriado abrir mão deles[1]“. Isso se chama cuidado social e é parte das atividades da Igreja Primitiva e deve inspirar a prática da Igreja Contemporânea, no que tange os próprios irmãos em Cristo. Sendo assim, podemos nos lembrar do texto de Tiago que nos instrui da seguinte maneira: “A religião pura e sem mácula, para com nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tg.1.27a; cf. Dt.14.29; Jó.31.32; Is.58.7;Ez.18.5-9; Mt.25.35-40; Hb.13.2; Tg.2.15).

O sistema adotado pela igreja Primitiva era o seguinte: O cristão que observasse a necessidade de um irmão, venderia algo seu e concederia o valor aos apóstolos para que distribuíssem o produto entre os necessitados. Ou seja, a liderança da Igreja era responsável por administrar o produto das ofertas dos cristãos e assim conceder aos irmãos que padeciam necessidades. Dessa forma, os primeiros cristãos conseguiram com que não houvesse nenhum necessitado entre eles (v.34). Portanto podemos concluir que aos cristãos cabe o papel de ofertar em conformidade com aquilo que tem observado, mas tal contribuição deve ser administrada pela liderança da Igreja de forma que ela distribua o produto entre os necessitados.

Os versos 36 e 37 são importantíssimos aqui, pois eles ilustram tudo o que havia sido dito anteriormente sobre a vida da igreja. Ou seja, Em Barnabé Lucas comprova as atividades sociais da Igreja Primitiva. Contudo, em termo de literatura lucana, o exemplo de Barnabé é colocado como um padrão a ser contrastado. A intenção de Lucas com essa colocação de Barnabé é ressaltar a imprudência de Ananias e Safira, que tem sua história relatada pouco à frente.

3.      A Disciplina de Deus na Igreja Primitiva

“A busca pela glória, o  sórdido amor pela auto-imagem e, a cobiça pelo ouro fundamentadas na mentira e no perjúrio são demonstrações claras da falta de temor. Sua conseqüência não poderia ser menos severa, seu resultado não poderia ser melhor”.

Marcelo Berti

            A disciplina bíblica, conforme apresentada em Mt.18 e 1Co.5, deve ser ministradas pela Igreja. Normalmente aplica-se a disciplina por meio da Igreja quando se refere a questões que podem ser julgadas, ou seja, quando é possível avaliar diante da comunidade aquilo que foi realizado em público. Vemos base para isso em 1Co.5 quando Paulo exige que aquele que pratica o incesto publicamente seja “entregue a Satanás para a destruição da carne” (1Co.5.5). Vale a ressalva, aqui, que esta disciplina aplica-se somente em “casos de pecado obstinado, quando todas as alternativas de recuperar o ofensor foram infrutíferas[2]“. Por outro lado, não estamos dizendo que a disciplina efetuada pela Igreja exclui a participação e Deus, mas que Deus está disciplinando por meio da Igreja, segundo estipulações dadas por Ele mesmo nas escrituras.

Contudo, disciplina não se restringe a isso, pois ela pode ser ministrada diretamente por Deus. Em 1Co.11.30 podemos observar que alguns (“não poucos”) dos cristãos haviam sido participantes da disciplina eliminatória do Senhor. O que se entende por disciplina eliminatória do Senhor, senão que Ele mesmo deu cabo de cristãos que estavam em desconformidade com seus valores morais e religiosos? Ou seja, no que tange a pecados secretos, que não são conhecidos, que foram realizados sem o consentimento dos membros corpo de Cristo e líderes da Igreja, o próprio Deus se incube de ministrar sua disciplina.

Há, porém um terceiro conceito disciplinar que parecer ser o caso em que se incluem Ananias e Safira, que são pecados cometidos em secreto com objetivo de iludir e enganar a Igreja de Cristo, que eventualmente chegam ao conhecimento da liderança da Igreja. Neste caso vemos a as duras colocações de Pedro o líder da Igreja acompanhadas da severa punição de Deus. Talvez alguém possa questionar tal severidade e notar que se Deus tratasse com mesma intensidade todos os cristãos, boa parte deles já haveria sido dizimada.

Neste caso em especial não podemos ir além da “observação de que só Deus sabe por que Ele decidiu purificar sua família na terra deste modo naquela ocasião[3]“. Por outro lado, podemos nos lembrar do efeito produzido: “E, sobreveio grande temor a toda igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos” (At.5.11); e ainda “Mas do restante, ninguém ousava ajuntar-se a eles” (v.14).             Com a Igreja Primitiva aprendemos que não devemos desprezar o pecado pessoal cometido às escondidas, pois “de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl.6.7). Para concluir, vamos observar as colocações do Dr. Shedd:

“Em princípio a morte dupla de Ananias e Safira nos mostra que não cabe à igreja procurar saber os pensamentos secretos de seus membros. Deus cuidará do que fica escondido nas mentes dos homens. Nenhuma hipocrisia pode ser encoberta dos santos olhos de Deus (Ef.5.13)[4]

            Lições aprendidas com a história de Ananias e Safira:

  • 1. Todo sacrifício pessoal é recomendável, desde que seja proceda de uma intenção genuína e voluntária, e não para a vanglória;
  • 2. A hipocrisia é detestável e odiosa, como Jesus já havia cansado de enfatiza no seu ministério terreno;
  • 3. O amor ao dinheiro é um grande e perniciosos mal. (cf. Judas Iscariotes);
  • 4. Nenhum ato religioso, consagração ou ofertas são aceitáveis se tiverem a hipocrisia como ponto de partida;
  • 5. O ludíbrio é um mal tremendo e deve ser evitado;
  • 6. A generosidade é muito recomendável, como no caso de Barnabé, contudo deve ser livre da hipocrisia.
  • 7. Que a disciplina de Deus é severa tão quanto necessária (cf. Hb.12.4-12);
  • 8. Os pecados cometidos por qualquer integrante da Igreja são muito sérios por que envolvem de alguma forma toda a comunidade e os resultados são sentidos por todos.

[1]WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. pp.112

[2]GRANCONATO, Marcos Mendes. Prática da Igreja de Deus. pp.26

[3]SHEDD, Russel. Disciplina na Igreja. pp.57

[4]Idem pp.58.