Conseqüências da Obra de Cristo


Diante dos principais significados da Obra de Cristo a nosso favor é necessário demonstrar que tal Obra tem conseqüências diretas àqueles que são beneficiados por ela.

Justificação

A Justificação não é apenas uma das conseqüências da Obra de Cristo a nosso favor, mas um tema doutrinário central na Salvação e fundamental para a essência do cristianismo. Tal importância é expressa pelo próprio vocábulo: “JUSTIFICAR”, que carrega o sentido de declara justo diante de Deus“. Isso não significa que uma pessoa, ao ser declarada justa, seja absolutamente sem falhas ou completamente justa no seu proceder, mas que a partir desse momento ela é Posicionalmente Justa, ou livre de culpa do pecado. “A justificação é o pronunciamento do juiz justo de que o homem em Cristo é justo; mas esta justiça é uma questão de relacionamento, e não de caráter ético[7]“.

A Justificação é um empreendimento do próprio Deus, e aparece como o complemento de Deus na obra da Salvação, é uma declaração de Deus a respeito do cristão de que foi feito para sempre justo e aceitável diante de Deus. Segundo a Confissão de Fé de Westminster “a Justificação é um ato da livre graça de Deus, pela qual Ele perdoa todos os nossos pecados, e nos aceita como justos à sua vista, somente pela justiça de Cristo, imputada a nós, e recebida pela fé somente”.

Existe estreita ligação entre a Justificação e a Ressurreição de Cristo, pois a ressurreição de Cristo mostrou que a morte como resultado do pecado de Adão, teve seu poder neutralizado. Se a morte foi vencida, segue-se que a culpa foi removida. Assim, a ressurreição é uma prova ou garantia de que o problema da culpa, geradora da morte, foi resolvido. Ora, a Justificação é o termo que se refere ao livramento da culpa. Daí a relação entre a Ressurreição de Cristo e a Justificação dos cristãos. Tal pensamento tem fundamento evidente em Rm.4.25:

…o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.

Diante dos fatos levantados é notório que existe uma ligação entre a Justificação e a Lei, por conseguinte com um Juiz. Sobre isso não há dúvidas, pois Deus não é apenas o legislador, mas o Justo Juiz (2Tm.4.8; Tg.5.9). Logo, o sentido forense da expressão está completo. Mas é válido demonstrar que, diante do Juiz, o justificado tem acesso pela fé a esta graça (Rm.5.2; 9.30), desfruta de um relacionamento de paz com Deus (Rm.5.1) e implica na demonstração de uma conduta concernente com a Nova Posição (Rm.6.7; Tg.2.24).

Adoção

Como já ficou muito evidente, não existe dignidade suficiente no homem que o faça merecer Tão Graciosa Obra da Salvação. Mas, não há tão maior prova de ausência de mérito senão a expressão “eivj ui’oqesi,an” (para a adoção) em Ef.1.5 (cf. Gl.4.5; Rm.8.15), “por que um filho adotado deve sua posição à graça e não ao direito, e, ainda mais, é trazido ao seio da família, passando a ter os mesmos privilégios e deveres de um filho de nascimento[8]“.

Adoção é uma palavra normalmente utilizada no meio romano. Em uma cerimônia legal, o filho adotado era determinado a todos os direitos de um filho natural. É possível que Paulo tenha emprestado este termo para o empregar eficientemente à salvação. A palavra em pauta, na literatura paulina, “descreve os direitos e privilégios como também a nova posição do crente em Cristo[9]“.

Segundo Hendriksen, a adoção vai ainda um pouco além, pois “ela outorga aos seus recipientes não apenas um novo nome, um novo status legal e uma nova relação familiar, mas também uma nova imagem, a imagem de Cristo (Rm.8.29)[10]“.

J.I Packer afirma que no mundo de Paulo a “adoção era ordinariamente de homens jovens de bom caráter, que se tornavam os herdeiros e mantinham o sobrenome dos ricos sem filhos. Porém, o NT proclama a adoção cortesa de Deus a pessoas de mal caráter para se tornar ‘os herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo’[11]” (Rom. 8:17). Mais uma vez é digno de nota que o adotado não tem qualquer mérito pela escolha do “Adotador”, embora possa desfrutar de todos os benefícios e, principalmente, responsabilidades de um filho natural, pois a “soberania divina  exclui com eficácia qualquer mérito[12]“.

Paulo ensina que o presente de justificação (i.e., aceitação presente por Deus como o Juiz do mundo) traz com isto o estado de filho por adoção (i.e., intimidade permanente com Deus como o Pai divino da pessoa, Gl. 3:26; 4:4-7).   Justificação é a bênção básica na qual adoção é fundada; adoção é a bênção de coroamento para a qual justificação é direcionada. O status de adotado pertence a todos que recebem o Cristo (Jo.1:12). Agora, os crentes estão debaixo do cuidado paternal de Deus e de sua disciplina (Mat.6:26; Hb.12:5-11) e é dirigido, especialmente por Jesus, a viver suas vidas levando em conta o reconhecimento de que Deus é seu Pai celestial. .

Adoção e regeneração acompanham um ao outro como dois aspectos da salvação que o Cristo traz (Jo.1:12-13), mas eles serão distinguidos. Adoção é o favor de uma relação, enquanto regeneração é a transformação de nossa natureza moral. Ainda a ligação é evidente; Deus quer as crianças dele quem ele ama, agüentar o caráter dele, e entra em ação adequadamente.


Santificação

Santificação, segundo o  Catecismo Menor de Westminster (Q.35), é “a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão.” O conceito não é que o pecado é totalmente erradicado ou completamente controlado, mas de uma divina mudança de disposições, virtudes, hábitos pecaminosos e caráter, forjados nos moldes de Cristo.

Santificação é uma transformação contínua dentro de uma consagração mantida, e gera real retidão. Por “santo” entende-se aqui como um portador de uma verdadeira semelhança com Deus. Santificação é o estado de ser separado permanentemente para Deus, e aflora desde a cruz, onde Deus, em Cristo, nos comprou e nos conduziu para Ele (At.20:28; 26:18; Hb.10:10). Santificação implica em renovação moral (Rm.8:13; 12:1-2; 1Co.6:11, 19-20; 2Co.3:18; Ef.4:22-24; 1Ts.5:23; 2Ts.2:13; Hb.13:20-21).

A Santificação é a continuação do que foi iniciado na salvação, quando uma novidade de vida foi conferida ao crente e sobre ele instalada. Contudo, é importante saber que a palavra santificação possui dois significados básicos: (1) é uma característica formal de um grupo de pessoas salvas (1Co.1.2; Ef.2.19; 1Pe.2.9); (2) é uma qualidade moral almejável e conseqüência do significado anterior. Assim, os cristãos são Santos, diante de Deus, mas buscam a Santidade em suas vidas.

O conceito correto de Santificação repousa sobre uma tensão muito grande: É uma obra da graça de Deus, mas exige busca pessoal do cristão. Uma ênfase demasiada no primeiro lado dessa tensão, conclui-se que a Santificação é passiva. Da mesma sorte, uma ênfase demasiada no segundo lado dessa tensão, a Santificação passa a ser encarada com um grau meritório, e fruto apenas do esforço humano, o que é impossível. Por isso, deve-se admitir que a santificação é uma obra sobrenatural (1Ts.5.23; cf. Ef.5.26; Tt.2.14; Hb.13.20, 21) da qual o cristão participa ativamente (Gl.5.16, 25; Fp.2.12, 13; Rm.8.13; 12.1, 2, 9, 16, 17). Embora a santificação seja exclusivamente de Deus, o crente é constantemente exortado a trabalhar e crescer nas questões que dizem respeito à salvação.

Sobre esse assunto, é importante ressaltar que a Santificação tem alvo claro: Semelhança com Cristo (Rm.8.29); e é encarada com um progresso, que se inicia na salvação e dura toda a vida do homem.

Perseverança

Diante do que já foi anunciado uma pergunta precisa ser feita: “Aquele que foi justificado, adotado, santificado persistirá para sempre neste estado?”. Ou melhor: “Será um cristão sempre um cristão?”. Ou ainda: “Existe possibilidade de se perder a salvação?”.

Historicamente a resposta para a questão em pauta sempre correu para dois lados distintos: o sim (arminianos)  e o não (calvinistas). Diante da lógica é obvio que aquele que é recipiente da salvação, que é iniciada e perfeita por Deus, permanecerá salvo pela graça de Deus. Contudo, não é a mera lógica que sustenta o fato da Perseverança dos Santos, pois existe grande número de evidências bíblicas que testemunham a favor da indestrutibilidade da salvação. 1Pe.1.3-5 é um exemplo desses:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.

Romanos 8.38-39 também testemunha esse fato:

Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

O próprio Cristo testemunhou essa verdade quando falou que aqueles que o Pai lhe dá, irá até ele e Ele de modo nenhum os jogará fora (Jo.6.37). Neste mesmo trecho é anunciado por Ele que a vontade de Deus Pai é que todo o que crer tenha a vida eterna e seja ressuscitado por Ele no último dia (v.39, 40, 44; cf. Jo.10.27-30).

Assim, nota-se que Cristo não apenas nos concede vida eterna e nos abandona em nosso próprio esforço, mas antes, a obra que foi por Ele iniciada em nós continua até ser completada (Fp.1.6). Paulo testemunha essa fato quando diz: “Não me envergonho, por que sei em quem tenho crido e estou bem certo de que é poderoso para guardar meu tesouro até o dia final” (2Tm.1.12).

Em Efésios 2, o conceito correto da salvação é exposto, e no v.4 nota-se que aquele que é salvo é feito assentar nas regiões celestiais com Cristo. Assim, como este poderia ser retirado de onde está, uma vez que tal atividade é realizada a semelhança da experiência de Cristo, testemunhada pouco antes (1.20)? Se o cristão pode ser derrubado de sua posição de assentado nas regiões celestiais, o mesmo espera-se de Cristo, o que é ilógico.

Outro detalhe que é comumente esquecido é que a vida eterna é eterna, no sentido de que não tem mais fim. Assim, como alguém que tem uma vida sem fim pode morrer? Dessa forma, podemos crer, diante da clareza das escrituras, que nossa salvação está garantida perante Deus.

Glorificação

A Glorificação é a confirmação dessa certeza obtida pela doutrina da Perseverança dos Santos. A Glorificação é o estágio final da salvação e é aplicado a todos os salvos incondicionalmente.  Essa doutrina impulsiona a Perseverança no texto de Rm.8.28, 30:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Se analisado com cautela o texto, notar-se-á que todos os verbos relacionados a Salvação são ativos e reportam para uma atividade realizada por completo no passado: Conheceu, Predestinou, Chamou, Justificou, Glorificou. Ou seja, aquele que é salvo, já era conhecido por Deus e predestinado por ele para a salvação, mesmo que ainda seria chamado, justificado e glorificado. O que nota-se com clareza aqui é que Deus, quando resolveu conceder salvação eterna aos homens ele o fez de maneira completa. Logo, aquele que já foi Predestinado para salvação, já está Glorificado, mesmo que isso seja um evento futuro.

Fim da Lei

Com relação à Lei e a sua validade, é necessário ter muita cautela em fazer uma afirmação, pois o tema é delicado e tem implicações muito complexas para a práxis cristã e para uma teologia saudável. Anunciar o Fim da Lei em Cristo, não é uma questão de dizer que ela não tem mais validade, ou que em Cristo não se necessita mais dela. Portanto, é necessário compreender a expressão: “te,loj ga.r no,mou Cristo.j” (télos gar nomou Cristós: Por que o fim da Lei é Cristo, Rm.10.4).

A mesma palavra grega utilizada para “fim” em Rm.10.4, é utilizada em Rm.6.21-22, como se lê: “Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna”. Ou seja, se Cristo é o fim (télos) da Lei, pode-se dizer que Cristo é o alvo final da Lei. Logo, pode-se dizer que a primeira possibilidade a respeito de Cristo ser o fim da Lei é esta: A Lei teve Cristo por alvo, ou testemunhava a seu favor (Calvino). Por outro lado, o vocábulo ainda pode ser utilizado com o sentido de completar, cumprir, como se lê em Lc.22.37, que diz: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido“. A idéia expressa pelo vocábulo neste texto sugere a idéia de completar ou cumprir, o que pode ser aplicado a Cristo, que veio para cumprir a Lei: “não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt.5.17b). Assim, pode-se afirmar que outra possibilidade é esta: Em Cristo a Lei foi completa ou cumprida, ou teve suas exigências satisfeitas (Hodge).

Contudo, a tônica em Romanos não parece estar voltada para nenhuma dessas possibilidades, antes direcionada para a idéia de que em Cristo, a lei teve seu término. Com essa afirmação concordam Ryrie, John Sttot, F.F Bruce e L.S. Chafer. Ryrie, sobre esse assunto, afirma:

A declaração de Paulo em Romanos 10.4, dizendo que Cristo é o fim da lei, pode ser entendida como término ou propósito. Em outras palavras, ou Cristo terminou com a lei ou o propósito da vinda de Cristo era cumprir a lei. No entanto, término claramente parece ser o significado nesse contexto, por causa do contraste (iniciado em 9.30) entre lei e a justiça de Deus[13].

John Sttot afirma:

Telós pode ter dois significados. Um é “fim” no sentido de alvo, ou “completar algo”, significando que a lei apontava para Cristo e que ele a cumpriu. Ou então poderia significar poderia significar um “fim” no sentido de “terminalidade” ou “conclusão”, indicando que Cristo aboliu a lei. Paulo com certeza se refere a este último sentido[14].

F.F. Bruce diz:

Cristo é a terminação da lei no sentido de que, com Ele, a velha ordem, da qual a lei fazia parte, foi eliminada, para ser substituída pela nova ordem do Espírito[15].

Deve-se ter em mente que as idéias que mencionadas anteriormente, não são de todo excluídas, mas antes não se restringe a elas o significado da Obra de Cristo em relação a Lei. Pois, não se pode se negar que a Lei testemunhou a respeito de Cristo (Jo.12.4; Gl.3.24) ou que em Cristo ela é Satisfeita (Rm.3.29-31). Contudo, não se retira de Rm.10.4 essas idéias. Assim, o que se pode dizer sobre a Obra de Cristo em relação a Lei, é uma das conseqüências dela é o Término da Lei (At.15.10, 24; Rm.3.21, 22; Gl.5.1, 4, 13).