Cordeiro de Deus


Esse texto é resultado da reflexão do autor ao texto de Donald M. Baillie Cordeiro de Deus do livro Deus estava em Cristo.

Bom Proveito

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Santo Anselmo é, muitas vezes, acusado de iniciar o estudo da expiação a partir do final, por que seu primeiro passo consiste em mostrar, abstratamente, a urgência da situação que exigia semelhante expiação divina para, somente então, contemplar a provisão efetiva de Deus, em Jesus Cristo. Eu poderia ser acusado do mesmo erro. Mas, ainda que, neste caso, esteja muito bem acompanhado, parece-me que seria mais exato dizer que procurei mostrar a experiência cristã da reconciliação para daí reconsiderar aquilo que a tornou possível, a Cruz e a Paixão de Cristo” (pp.206).

 

Por que morreu Jesus?

Se quisermos compreender a relação que há entre a Expiação divina e a Cruz de Cristo, devemos voltar nossa atenção ao relato evangélico e ao Jesus da história” (pp.206). Baillie, depois de expor a idéia de expiação quer fazer a ligação entre tal conceito e a Morte de Cristo. Para que isso seja evidente, ele procura demonstrar que é necessário compreender quem foi de fato este que morreu. Por isso, quer voltar sua atenção ao relato dos Evangelhos para buscar Jesus como personagem histórico. “Foram preservadas [as narrativas sobre Jesus], na tradição, por que o significado da Cruz não seria compreendido sem o conhecimento e a compreensão daquele que foi crucificado” (pp.206).

Algumas perguntas propostas por Baillie sobre a morte de Cristo: “Por que Jesus morreu? Por que foi condenado à morte pelo Procurador Romano? Por que as autoridades judaicas tramaram sua condenação? Qual o propósito final da morte de Jesus na economia divina, na providência de Deus? Em que sentido e por que razão Jesus ‘entregou-se’ ao destino da Cruz?” (pp.207). Sobre a voluntariedade de Jesus para a morte na concepção de Baillie implica em dizer que Ele o fez através da fé humana. Para ele é certo que Jesus aceitou a cruz como vontade e propósito de Deus. Quando ele afirma que Jesus fez isso mediante a fé humana ele quer enfatizar a humanidade de Cristo a ponto de não ser “guiado por um conhecimento sobre-humano que lhe faria discernir ‘o fim desde o começo’. Seria artificial pensar nele como tendo desde o início a consciência clara de que viera ao mundo para morrer de morte violenta pela salvação humana. Seria igualmente artificial concebe-lo em qualquer ponto de sua vida a formar a intenção de estar condenado a morte” (pp.207). Para Baillie, “os evangelhos foram escritos numa época em que os cristãos podiam olhar para trás e se gloriar da Cruz, aceitando-a como ordenada pelo propósito de Deus; mas não ocultaram o fato de que Jesus, ao contemplar o seu futuro e percebendo como haveria de ser, via-o como tragédia indescritível, aceitando-o contudo pela fé, e que até na última noite esperou e orou para que não chegasse” (pp.207-8).

É válido relembrar que, segundo Baillie, Jesus não morreu como vítima indefesa, “ele poderia ter escapado mas prosseguiu com olhos bem abertos” (pp.208). Segundo tal autor, se Jesus tivesse alterado o caráter de seus ensino, o número de confrontos com as autoridades judaicas, se tivesse mantido-se reservadamente com seus discípulo, por certo as autoridades judaicas o deixariam viver, e assim Ele teria salvo sua vida.  “Mas mesmo quando os seus próprios discípulos tivessem desejado que tomasse o caminho menos perigoso – o que tornou muito mais difícil sua decisão (Mc.8.31-35) – ele não hesitou. ‘O que salvar a sua vida perde-la-á’ – havia ensinado. Poderia ter salvo a sua vida, mas seria a perda de tudo o que tinha sentido para a sua própria vida. E, assim, não haveria de voltar atrás no caminho que lhe conduzia ao sofrimento, à vergonha e à morte“. (pp.208).

Algumas perguntas interessantes são propostas por Baillie:

  • Qual era o caminho que não podia abandonar embora tivesse que morrer?
  • Para que morreu?
  • Que objetivo levou-o a tal fim?

Provavelmente a respostas a todas essas perguntas sejam resumidas a um vocábulo: “AMOR”. Contudo, seria ainda necessário considerar a existência do objeto desse amor. Logo, “AMOR AOS PECADORES” seria a mais plausível das respostas. A pouco, discutimos sobre o amor incondicional de Deus, como deve ser ele compreendido de maneira correta. “Não há nada tão certo e tão autenticado no relato dos evangelhos do que o assombro que o Rabi de Nazaré causava, indispondo-se mesmo com as autoridades ao manter relações de amizade e simpatia com homens e mulheres de caráter duvidoso e pela atitude que demonstrava para com estas pessoas. Freqüentava suas casas e lhes falava com familiaridade. Demonstrava mais interesse nessas pessoas do que em outras e praticamente disse que Deus também fazia o mesmo. Disse que a sua própria missão não era para os ‘justos’ mas para os ‘pecadores’ (…) Não que considerasse os ‘justos’ – escribas e fariseus – sem pecado. Talvez fossem piores do que os ‘publicanos e pecadores’ aos olhos de Deus. Eram também pecadores e precisavam de arrependimento. E quando lhes falou com tanta severidade sobre os seus pecados não foi, em última análise, por que também os amava e desejava que se arrependessem?” (pp.209). “Mas à parte da profecia mencionada e de todas as interpretações teológicas, é verdade que ele morreu pelos pecadores no mais pleno sentido histórico: foi o seu amor pelos pecadores que o levou a morrer na Cruz” (pp.210).

 

A Cruz e o Amor de Deus

A crucifixão de Jesus levou os homens à reflexão, mas do que qualquer outro acontecimento na vida da raça humana. E o fato mais notável na história do pensamento religiosos é que, quando os cristãos primitivos se reportavam ao que havia acontecido e consideravam os momentos terríveis do Calvário, eram levados a meditar no amor redentor de Deus” (pp.211). É interessante tal afirmação, pois para uma mente inquiridora e saudável, a morte trágica e sofrível, tal como a sofrida por Cristo, deveria ser encarada como a mais faltosa de amor, ou como atitude inescrupulosa de Deus. Talvez, ainda, considerada como a mais cruel de todas as atitudes, ou como afirma Baillie, “a crucifixão poderia ser vista como reductio ad absurdum” (pp.211). O ponto de vista de Baillie da presente argumentação sobre a Morte de Cristo é que, a princípio ela parece cruel demais para revelar um Deus amoroso por trás. O que ele reconhece facilmente é que Jesus demonstra claramente seu amor para com o homem. Mas o paradoxo da Morte de Cristo é reconhecer o amor de Deus por trás de tudo isso. “Se Deus era bom, como havia permitido que tal coisa acontecesse?” (pp.210). Isso é ainda pior quando notamos que os seguidores mais próximos de Cristo nunca inquiriram estas perguntas, ao contrário, consideravam a crucificação como ponto central na exposição do evangelho (ver pregações em Atos). É provável que tal atitude para com a crucifixão de Cristo tenha nascido a partir dos acontecimentos da manhã da Páscoa.

Desde os primeiros dias da vida da Igreja diziam, aparentemente, que de alguma forma tudo acontecera pelos propósitos de Deus e, ainda mais, pelo propósito misericordiosos de Deus par ao perdão dos pecados – um perdão que poderia alcançar até os homens que haviam crucificado Jesus” (cf. At.2.23, 38; 3.17-19,  26; 4.27ss; 1Co.15.3).

Na verdade, não muitos problemas com a preocupação de Baillie em compreender o amor de Deus por trás da morte de Cristo, visto que há farto número de referências neo-testamentárias para esse fim (Rm.5.8; 8.32; Jo.3.16; 1Jo.4.10).

Em resumo ‘tudo é de Deus’: o desejo de perdoar e reconciliar, os meios indicados, a provisão da vítima vindo do seu próprio seio, mediante preço infinito. Tudo acontece dentro da própria vida de Deus: pois se tomamos a Cristologia do Novo Testamento, temos de afirmar que ‘Deus estava em Cristo’ neste grande sacrifício expiatório, e que o Sacerdote e a Vítima eram o mesmo Deus“. (pp.215).

Mas seja qual for o meio empregado no processo da salvação através da cruz, a atitude misericordiosa de Deus para com os pecadores nunca é vista como o resultado do processo, mas como sua causa e origem” (pp.215-6).