Delimitação Geográfica da Ação Evangelística


Talvez essa declaração seja uma das mais importantes nesses versos, e se mal compreendida pode produzir alguns problemas para prática ministerial da igreja local. Observe a frase: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações“. Como já observamos a descrição da ação evangelística, nos cabe, então, intuir sobre a abrangência de tal declaração.

A expressão grega que complementa a ordem de fazer discípulos é “pánta tà etne”. A expressão “panta” provém da mesma expressão que “passa”, que já foi demonstrada (Pâs, passa, pan), e tem uso similar nesse caso em particular. Ela descreve a abrangência total da expressão a que se refere, a saber nações. Ou seja, a ordem máxima de Cristo, sobre a missão dos discípulos, é realizar o que Ele mesmo realizou com absolutamente todas as nações.

Já a palavra para nações provém de “etnós” que nos deu a palavra “etnia”. Bom, aqui há significativa diferença na declaração da sentença, pois Cristo não está enfatizando regiões específicas do globo, mas pessoas de regiões específicas do globo. O termo “etnós” é observado em dois importantes usos:

  • Como um conjunto de pessoas unidas por semelhança cultural e tradições comuns, um povo, uma nação (Jo.18.35; At.8.9)
  • Um grupo de povo específico pertencente a uma determinada nação ou etnia (Ef.2.9; Hb.11.13; cf. Literatura Grega Clássica: uma expressão nacionalista para estrangeiros)
    • Pode apontar para Gentios, Não cristãos e outras nações (Mt.10.18; At.11.1; 14.5; Rm.3.29; 9.24)
    • Bem como a Cristãos não Judeus (Rm.16.4; Gl.2.12; Ef.3.1);

Considerando as possibilidades, podemos obviamente descartar a última possibilidade, visto ser completamente impossível que Cristo ordenasse que os discípulos fizessem outros discípulos a partir de cristãos convertidos espalhados pelo mundo. Outro detalhe importante é que não haviam outros cristãos espalhados pelo mundo. Por outro lado, não podemos considerar que a ordem de Cristo havia sido dada para que os discípulos alcançassem nações em geral, sem alguma especificação mais clara. Portanto, a ordem de Cristo é centrada no “fazei discípulos” a partir de não cristãos, gentios dentre todas as nações do mundo.

O que se conclui é que Cristo tem interesse em todas as culturas existentes no planeta, pois não faz acepção de pessoas (Rm.2.11) nem para salvação nem para preterição. Ou seja, não deveria haver racismo, bairrismo, exclusivismo, sentimento sectarista ou qualquer forma de preconceito entre os discípulos. Eles devem realizar tal tarefa baseados na própria missão de Cristo (Lc.19.10), que é a base e fundamento da ação evangelística.

Contudo, ainda nos restam algumas perguntas, já não mais de caráter lexicográfico nem exegético, mas especulativo. Segundo a abrangência descrita acima, tal missão:

  1. É para os indivíduos salvos por Deus executarem pessoalmente?
  2. É descritiva para a Igreja Local como executora específica de tal ordem?
  3. Ou, trata-se de uma ordem dada levando-se em conta a Igreja Universal?

Em resposta a primeira pergunta, não creio que cada indivíduo seja capaz de realizar por si mesmo tal missão na abrangência que é descrita por Cristo. Caso fosse responsabilidade de cada cristão ter ao menos um discípulo em cada uma das etnias do mundo, o cristão, além de demonstrar-se como servo infiel por ser incapaz de fazer, seria julgado mediante uma missão que jamais cumpriria. Não parece fazer sentido tal declaração.

Considerando a segunda possibilidade, podemos dizer que a Igreja Local pode nortear tal padrão para sua missão, mas ainda assim seria impossível que pudesse realizá-la a cabo. Alguns fatores podem ser demonstrados a favor dessa impossibilidade:

  • O sistema denominacional que reina no pensamento protestante atual é uma barreira quase insuperável se considerarmos a missão para a igreja local, pois haveria grande discórdia entre as denominações na execução da tarefa, visto que onde faltasse uma “congregação” de tal denominação, caracterizaria um povo não alcançado (o que é uma mentira absurda).
  • As igrejas locais variam de tamanho, capacidade e estratégia. Caso tal missão fosse obrigação de cada uma das comunidades cristãs, as menores seriam desfavorecidas, por não terem pessoas e recursos suficientes para executar um tarefa desse tamanho. Isso obrigaria as menores, subjugar-se a igreja maiores para então, como um parasita que desfruta da sua vitalidade, lucrar do benefício de ser fiel (o que não passa de uma tolice).

Bom, resta-nos apenas uma opção, a opção de que tal missão deve ser desenvolvida, a que é centrada no todo, na Igreja Universal. Se esta é a o aspecto em que Cristo tem em mente, podemos traçar alguma considerações importantes para a prática individual e da Igreja Local de tal missão.

Se, tal missão diz respeito à Igreja Universal, as igrejas locais, como componentes do todo, são responsáveis pela execução de tal tarefa à medida que lhe é possível. Ou seja, à medida que uma determinada comunidade tem pessoas e recursos deve empenhar-se, em fazendo parte do todo, cumprir tal missão.

Isso significa que os discípulos de Cristo, de todas as regiões e etnias do mundo, estão envolvidos pessoalmente, debaixo da supervisão de sua Igreja Local como parte do todo da Igreja Universal. Ou seja, é possível para a Igreja Universal cumprir tal missão, onde cada discípulo alcança alguém de diferente etnia no progresso do crescimento da fé cristã.

Se considerarmos a abrangência da missão, o tamanho do mundo e as diversas etnias espalhadas nele, bem como a abrangência da Igreja Universal hoje, que está em muitas das diversas etnias conhecidas no globo, é possível que tal missão seja levado à cabo. Contudo, para tanto, será necessário um regresso aos conceitos fundamentais da fé e da consciência de missão, descritas nesses versos. Portanto, o papel de cada discípulo maduro ser um representante onde se está, e alcançar os que em sua volta estão, contribuindo com sua Igreja Local e com a Igreja Universal.

Seguindo esse raciocínio, o que podemos dizer da Obra Missionária, torna-se não necessária? De modo algum, pois não é verdadeira a premissa que diz: “Alcance seu vizinho e o mundo será salvo“. Ainda permanecem muitas etnias que não foram alcançadas pelo Evangelho, e que carecem da graça de Deus. É portanto necessária a iniciativa missionária, especialmente para regiões de difícil acesso, onde poucos cristãos se atreveriam a ir. Contudo, fica explícito que isso é trabalho a ser realizado, como indivíduo ligado a uma Igreja Local enquanto pertencente a Igreja Universal.

O que ser conclui até aqui é que, se considerada as colocações anteriores, temos chance de produzirmos significativa diferença onde estamos para realizar tal missão na compreensão de sua geométrica abrangência e específica responsabilidade.