Eleição Prevista


Outra possibilidade para a Eleição é que Deus, por causa do seu conhecimento antecipado de todos os fatos, resolveu escolher todos aqueles que creram no evangelho. Em termos gerais, é a ideologia que afirma a Liberdade de Escolhas do Homem, e que suas opções subjugam as decisões de Deus.

Apresentação da Ideologia

A ideologia é exposta dentro da teologia ortodoxa e defendida por cristãos sinceros. A idéia primeira é de que o homem tem Livre Arbítrio. Ou seja, ele pode optar por ser salvo ou não. Contudo, isso não exclui a Soberania de Deus, onde este escolhe aqueles que o escolheram. Ou seja, na salvação existe co-participação entre Deus e os homens, mas o livre arbítrio do homem precede a decisão de Deus.

A idéia nasce a partir da leitura de Rm.8.29 com uma conexão direta com 1Pe.1.2. Vejamos os textos:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas

As palavras destacadas referem-se a dois termos gregos que significam literalmente: pré-conhecer e pré-conhecimento. As duas palavras têm mesma raiz, mesmo sufixo mas a primeira refere-se ao uso verbal e a segunda ao uso substantivo do termo. Assim, Deus pré-conheceu aqueles que irão crer e elege por causa do seu pré-conhecimento.

Dessa forma, o homem tem sua liberdade e Deus sua Soberania. Enquanto o homem pode, pelo poder que lhe é próprio, decidir seu destino e seus atos, Deus em sua Soberania pode escolher aqueles que querem ser escolhidos. Em resumo, essa ideologia afirma: “A eleição é a escolha de Deus de algumas pessoas para a salvação e privilégios, fundamentada na escolha inicial feita por essas mesmas pessoas“. Outros textos: Is.55.1-3; Ez.18.32; Mt.11.28; Lc.9.23; 1Co.1.21; 1Tm.2.6; 2Pe.2.1; Hb.2.9; 1Jo.2.2; Ap.22.17.

Defensores da ideologia

Segundo um dos defensores de tal ideologia, a eleição é o “diploma divino com que é agraciado todo o que recebe a Cristo Jesus como seu Único e Suficiente Salvador (Jo.3.16)[5]“. Ou seja, Eleição de Deus é apenas como um seguro que o homem tem para a salvação, uma vez que ele “aceita a Cristo” não o perde mais. Contudo, esta Eleição é precedida pela Predestinação, que é muito semelhante ao conceito anterior, visto que é oferecida a todos os seres humanos. Observe:

Ora, quanto à eleição, é necessário dizer que ela é precedida pela predestinação. Noutras palavras: toda a humanidade, sem quaisquer exceções, foi predestinada à vida eterna. Mas a eleição está reservada àqueles que acreditam na eficácia do sangue de Jesus[6].

Neste ponto, a Doutrina da Salvação da Convenção da Igreja Batista Brasileira está em acordo com as opções de Claudionor. Veja:

Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça. Antes da criação do mundo, Deus, no exercício da sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu, chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os homens. A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação.

Outro escritor cristão que deve ser lembrado é Norman Geisler. Para ele a Soberania de Deus abrange todas as coisas, mesmo a liberdade de escolhas do homem. Contudo Deus, em sua Soberania, autolimita-se na salvação do homem, visto que oferece salvação a todos mas só são aceitos aqueles que crêem. Sua base é o Argumento da Causalidade, que diz que cada evento tem uma causa. Assim, a escolha para salvação é uma ação auto-causada, como ele chama. Ou seja, o homem é a causa da sua própria salvação. Em sua concepção isso não fere a dignidade de Deus, pois ele determinou que o homem seria livre. Observe sua lógica:

Deus determinou que as criaturas façam as coisas livremente. Ele não determinou que sejam forçados a fazer atos livres. O que é forçado não é livre, e o que é livre não é forçado[7].

Entrementes, a opção da Eleição Prevista tem suas divergências, pois segundo alguns defensores esses que escolhem a Deus, podem deixá-lo. Esse pensamento é exposto por Raimundo de Oliveira:

A Bíblia dá a entender que muitos daqueles pelos quais Cristo morreu, aceitarão a sua provisão salvadora, mas depois abandonarão, perdendo com isto o direito à vida eterna. Sobre esses escreveram Paulo e Pedro: “Perece o irmão fraco pelo qual Cristo morreu”. “Negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição”[8].

Porém, este escritor ainda aceita as opções soteriológicas comuns a esse grupo de pensadores. Para ele a salvação é impossível sem cooperação entre Deus e os homens, de forma que a decisão do homem subjuga a decisão de Deus. Observe:

Os defensores do determismo estão equivocados quando salientam demasiadamente a verdade da majestade, da graça e do poder de Deus, em detrimento da insuficiência do homem para fazer  qualquer coisa sem auxílio divino. Ignoram a capacidade de decisão do homem quanto à determinação do seu futuro eterno (…) A salvação (…) só é possível com a cooperação do crente[9].

Assim, a idéia básica é:

(1) O homem tem livre escolha;

(2) Deus sabe quem vai crer;

(3) Logo, Deus escolhe quem irá crer.

Ou, como disse Thiessen:

Por eleição, entendemos aquele ato soberano de Deus em graça, pelo qual Ele escolheu em Jesus Cristo para a salvação todos aqueles que de antemão sabia que O aceitariam[10].

Réplica da Ideologia

A ideologia exposta é sem sombra de dúvidas problemática, pois necessita de superposição temática dentro da terminologia dos termos bíblicos. O primeiro argumento dos defensores dessa idéia é que o homem tem livre arbítrio. O segundo é que Deus sabe quem vai crer e por isso escolhe. Assim, o homem livre escolhe ser salvo e Deus por seu conhecimento antecipado o predestina para salvação.

Se levado a sério a idéia concluir-se-á que as ações dos homens determinam as ações de Deus. Logo, Deus não tem liberdade para agir, antes é dependente do homem. Ou seja, Deus quer salvar mais não pode, precisa que o homem deixe ser salvo.

Dois problemas são claros: (1) Não compreendem corretamente a Deus; (2) Não compreendem quem o homem é. Sem esses dois reconhecimentos é impossível compreender a salvação. Deve-se lembrar que a Eleição nunca ofende a dignidade de Deus ao mesmo tempo que não retira do homem a responsabilidade. Observe o que Walter T. Conner diz:

Lembremos, no entanto, que o propósito de Deus em relação à eleição não vai ao ponto de o homem ser salvo independente de se arrepender e crer. Antes, é parte do propósito de Deus trazer o homem ao arrependimento e à fé. E Deus não obriga o eleito a crer. Ele o guia e persuade, através dos apelos do evangelho e trabalho do seu Espírito Santo, mas é o indivíduo que decide vir a Cristo (…) Lembremo-nos que o propósito de Deus na eleição era o de efetuar a mesma coisa que ele realiza ao salvar esse homem. Portanto, se a salvação de um homem não interfere na sua liberdade, o propósito na mente de Deus, em virtude do qual ele foi salvo, não interferiria tampouco na sua liberdade[11].

Ideologia fundamentada no Mal uso de terminologias bíblicas:

A premissa de Geisler, sobre a determinação de Deus com relação a liberdade humana, não tem fundamento bíblico, apenas lógico e filosófico. A idéia de Claudionor e Thiessen são fundamentadas no mal uso dos termos pré-conhecer e pré-conhecimento. Pois observe onde mais eles são usados:

…Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu (Rm.11.2)

conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós (1Pe.1.20)

…sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos (At.2.23)

Nos outros textos em que os termos aparecem é impossível dizer que se referem apenas a um conhecimento antecipado de Deus. Em Rm.11.2 é impossível que o texto diga que Deus apenas sabia que Israel o iria aceitar. Isso não é visto em nenhum texto do Velho Testamento. O que se sabe sobre a origem da Nação de Israel é que Deus escolheu um casal e por meio deles estabeleceu uma nação. Não se pode dizer que Deus sabia que Abraão teria um filho e que desse filho viria uma nação. O que é certo é o que Paulo afirma: “O que Israel busca, isso não conseguiu, mas a eleição o alcançou” (Rm.11.7).

Em 1Pe.1.20 e At.2.23 fica mais difícil fazer a afirmação do pré-conhecimento passivo de Deus, pois é impossível que se diga que Deus sabia que Jesus ia morrer. Ao contrário, Deus estabeleceu assim. Ou seja, talvez o termo usado para defender um conhecimento passivo de Deus na salvação não defende.

Ideologia fundamentada no Mal uso de textos:

Outro pequeno detalhe é que a base estrutural do pensamento da Eleição prevista está lançada sobre Rm.8.29 somado com 1Pe.1.2, que não sustentam tal idéia. Não precisa ser um grande conhecedor de terminologias para perceber isso. Observe:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas.

Observe que essa idéia diz que Deus salva os homens que querem ser salvos. Contudo o primeiro texto diz que o fato de conhecer não antecede nem fundamenta a predestinação, mas diz que os dois fatos acontecem. Ou seja, ele conhece quem predestina, e não predestina por que conhece como insistem os adeptos dessa idéia. Outro detalhe observado no primeiro texto é que o objetivo da salvação é ser conforme Cristo. Logo, ninguém pode ser salvo por ser conforme Cristo como insistem os adeptos dessa idéia, mas para ser conforme Cristo.

No segundo texto nota-se que a presciência não é o fundamento da salvação, como insistem os adeptos dessa ideologia, mas, antes este pré-conhecimento está em conformidade com a eleição. Pedro diz que nós somos eleitos em conformidade com a presciência, e não por causa dela. Sem contar que para ele o objetivo da eleição é a obediência. Logo, ninguém pode ser salvo por obedecer, mas para obedecer.

Assim, diante desses fatos é certo que a idéia da Eleição Prevista não tem fundamento bíblico por três grandes motivos: (1) Não existem textos bíblicos que confirmem a absoluta liberdade do homem em relação ao seu destino eterno; (2) Não existem provas bíblicas para a idéia de que Deus escolhe quem irá crer; (3) Não existe fundamento escriturístico para afirmar a falta de liberdade de Deus na Salvação