Eleição Universal


O Universalismo prega a Eleição de, absolutamente, toda a humanidade para a Salvação. Ou seja, no plano redentor que Deus propôs, Cristo morre por todos os homens e assim todos eles são salvos, por que Deus é amoroso e misericordioso.

Apresentação da Ideologia

Segundo os universalistas: Sem qualquer sombra de dúvidas as Escrituras nos declaram que a intenção de Deus é salvar todas as suas criaturas. Ou seja, não importa seu caráter moral, sua condição ou suas atitudes diante da verdade, aliás, não é nem necessário crer, pois Deus irá salvar a todos. Isso está de acordo com a revelação de Seu caráter amoroso, gracioso e misericordioso demonstrado em sua Palavra.

Fundamento para isso é encontrado em textos como Rm.11.32 e 5.18 que demonstram claramente essa intenção soteriológica universal de Deus. Observe:

Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. (Rm.11.32) Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (Rm.5.18)

Deve-se ter em mente que essa proposta não é sem fundamento, pois ainda podem-se assinalar mais dois textos que confirmam sua proposta 1Tm.2.4 somado com Jô.42.2

…o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm.2.4) Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. (Jó.42.2)

Seguindo essa interpretação dos textos acima, podemos dizer que a Intenção de Deus é Salvar todos os seres humanos.

Defensor da Ideologia

Diante da proposição universalista feita e de sua réplica, é necessário conhecer quem é o teólogo que propôs tal idéia. É possível que o pai desta ideologia seja Karl Barth. Para ele Deus elegeu a raça humana para a salvação. Ou seja, aquele que é ser humano pode participar das bênçãos dessa salvação.

A identificação dessa idéia encontra-se em textos, como Ef.,1.5, que afirmam que Deus nos escolheu em Cristo. A conclusão retirada deste texto é que “em Cristo” todos os seres humanos podem ser salvos. Observe:

…o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos (1Tm.2.4-6).

Diante de textos como esse, Karl Barth chegou à conclusão de que Deus é quem realiza a escolha dos salvos, que são todos os seres humanos. Isso pode ser demonstrado:

A eterna palavra de Deus escolheu essência e existência humana, santificou-a e assumiu-a até fazer dela uma só realidade consigo mesmo, de maneira a tornar-se, enquanto verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a Palavra da reconciliação dita aos homens por Deus.[2]

Embora alguns conceitos soem estranhos, Barth afirma que Deus é o executor, por meio de Cristo, da salvação. Contudo, em Cristo todos, absolutamente todos podem chegar à salvação. Assim, a escolha feita anteriormente por Deus é expandida a todos em Cristo. Para ele Cristo é o “Mediador único entre Deus e os seres humanos[3]“. Assim quem realiza a escolha dos salvos é Deus, mas que o crivo dessa escolha é Jesus, e por meio dele todos, absolutamente todos podem chegar à salvação. Segue-se que a escolha feita anteriormente por Deus é expandida a todos em Cristo, e que “a única distinção básica não é entre eleitos e não-eleitos, e, sim, entre os que têm consciência de sua eleição e os que não tem[4]“.

Essa afirmação é a base do inclusivismo soteriológico, que afirma a salvação a todos os homens, apenas pela conexão indiscriminada com Cristo. Logicamente o pensamento exposto por esse teólogo não tem respaldo bíblico, embora seja encontrado de maneira sutil dentro do pensamento de muitos cristãos.

Réplica da Ideologia

Em primeiro lugar, necessita-se compreender de forma adequada a pessoa de Deus. É ponto pacífico que Ele seja amoroso, gracioso bem como misericordioso. Contudo não podemos encerrar Seus atributos apenas nesses aspectos. Fazer isso é cometer heresia, que por definição é superestimar aspectos da verdade. Precisamos compreender que Deus é, na mesma medida justo, poderoso, reto. Logo, não age apenas em uso do amor ou misericórdia ou graça, mas no exercício pleno de Seus atributos.

Assim percebemos que o raciocínio Auniversalista@ parece fazer menos sentido. Entretanto existem outras falácias no argumento, como a utilização de textos sem o menor estudo de contexto, quer histórico como textual. Por exemplo, o texto de Rm.11.32 é plausível no argumento universalista, mas inconsistente à luz do contexto. O versículo, sozinho, afirma que Deus vai usar misericórdia com todos. Ao ler o contexto nota-se que Paulo discursa com respeito aos Propósitos históricos de Deus, a saber, que outrora os gentios eram desobedientes a Deus, mas alcançaram misericórdia na desobediência de Israel e assim todos, quer gentios como israelitas, foram encerrados na desobediência, afim de usar misericórdia com todos, quer gentios como israelitas. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.

O mesmo fato acontece em Rm.5.18, onde o texto enfatiza claramente um contraste em termos de resultado entre Adão e Cristo. Em Adão, temos juízo a todos os homens, em Cristo justificação a todos os homens. Ou seja, todos os morreram em Adão e serão vivificados em Cristo. Mas precisamos entender que, embora seja universal o alcance do pecado, em Adão, ele não é irremediável. Bem como a justificação que, em Cristo é acessível universalmente, mesmo que nem todos serão justificados. A ênfase do texto se dá na superioridade da Obra Redentora em relação a queda, pois em Cristo os resultados da queda podem ser remediados. Isso fica evidente no versículo 19 que diz que muitos se tornaram pecadores em Adão e em Cristo muitos se tornarão justos, e não todos. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.

Falácia semelhante acontece no uso de 1 Tm.2.4 em conjunto com Jó 42.2. O primeiro afirma que o desejo de Deus é que todos sejam salvos e o segundo, que os planos de Deus não podem ser frustrados. Logo, Jesus foi uma encenação histórica. No texto de 1 Tm.2.4 vemos que o contexto é apenas um enfeite inútil para o que se quer entender. A expressão Atodos os homens@ aparece antes em 2.1, com respeito a oração do cristão que deve ser em favor de Atodos os homens@. Seguindo vemos uma classificação dentro desse Atodo@, que são os Areis e de todos os que se acham investidos de autoridade@. Logo, a utilização seguinte do mesmo terno, em 2.4, significa, todos, inclusive os reis e as autoridades, dando um sentido classificatório à expressão. Essa distinção era necessária, pois os cristãos dessa época sofriam perseguições pelas autoridades, mas que ainda assim eles deveriam orar por eles, sabendo que era desejo de Deus que eles também sejam salvos, pois Cristo se dera em resgate de todos (2.6), inclusive dos reis e autoridades. Logo, dentro do contexto o argumento universalista é inconsistente.

Em Jó, vemos o mesmo problema. A partir do cap.38 vemos se iniciar um diálogo entre Deus e Jó. Neste Jó é desafiado a responder perguntas feitas por Deus. E isso segue alguns capítulos. Até que é dada uma oportunidade de resposta a Jó que diz ser indigno, pois não saberia o que responder a Deus. E, novamente Deus faz perguntas a Jó, mostrando que é quem manda na História, quem é que tem poder, quem criou o mundo e tudo o que nele há, quem é de fato o Todo-Poderoso. A luz disso vem a famosa frase do 42.2: ABem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos podem ser frustrados@.  Isto expressa o reconhecimento de Jó a pessoa de Deus, revelando sua Onipotência e Imutabilidade, pois tudo pode, e seus planos não podem ser frustrados. Isso até poderia auxiliar a leitura herege universalista, mas é mister compreender que não é plano de Deus salvar todo homem. Se tal premissa fosse consistente fora do sistema universalista, teríamos de rejeitar a Obra Messiânica, bem como todas as profecias em relação a esse acontecimentos, bem como o Caráter de Deus. Logo, dentro da realidade da revelação bíblica o pensamento universalista é inaceitável.