Hábitos Relacionados com as Escrituras


Certamente somos convictos de que a transformação em nossas vidas pelas Escrituras não acontecem instantaneamente. Mas somos também convictos de que sem ela não podemos crescer, ou chegar à Maturidade Cristã. É por esta razão que existem algumas atitudes que devem ser implementadas em sua vida para que a realidade das Escrituras possa ser real na sua vida.

A.      Meditar nas Escrituras

O Objetivo da vida cristã é ter uma prática exemplar em meio a esse mundo. Contudo, são os conceitos que vão delinear essa prática. Se os conceitos forem corretos, a prática que dele decorre poderá ser correta, dependendo da motivação que o envolve. Mas, se forem errados, a prática certamente será errada. Se forem inconsistentes, a prática será desastrosa. Se forem equivocados a prática será igualmente equivocada. Isso acontece pelo fato de que o agir é um reflexo do pensar.

Mas, há ainda um outro problema, pois todos os conceitos são traduzidos gráfica ou verbalmente por palavras. Quando nós desintegramos o valor de uma palavra, podemos acabar destruindo a existência de uma prática. C.S. Lewis diz em seu livro “Cartas do Inferno” que parte da estratégia do Demônio é desacreditar uma virtude. Mas segundo o conhecimento do “Murcegão” (o demônio mais experiente), a maneira mais eficiente para desacreditar uma virtude “é enxovalhar o seu nome, ou seja, introduzir associações que sutilmente alterem os sentimentos e percepções das pessoas, de modo que a palavra não signifique aquilo para que foi usada[1]“.

Esse é o fato que aconteceu com a Palavra MEDITAR. Como o Héber bem colocou na semana passada, muitas vezes nossa prática de MEDITAÇÃO é desfeita pelo conceito que temos sobre ela. Assim, gostaria de resgatar com você o sentido que essa palavra tem e então demonstrar a validade de sua prática.

1.       O que é meditar?

“Ao contrário, sua satisfação está na lei do SENHOR, e nessa lei medita dia e noite” Sl.1.2

Para compreender exatamente o que o salmista está anunciando aqui, é preciso compreender o conceito hebraico por trás da palavra empregada para “meditar”. O verbo é “hägâ”, que é utilizado no VT como suspirar, pensar, falar, considerar, gemer, entre alguns outros usos que trazem a toma tais significados. Ou seja, é um termo que expressa uma ação executada tanto interna como externamente. Observe outros usos do mesmo termo

Considerarei em todas as tuas obras e cogitarei em todos os teus feitos” Sl.77.12

Neste caso em especial o verbo hebraico “haga” é visto como uma “Consideração“, uma análise apreciativa, uma atenta ponderação.

“O justo pensa bem antes de responder…” Pv.15.28

Meditar está diretamente ligado ao ato de pensar bem, inquirir, avaliar.

“Minha língua celebrará a tua justiça e o teu louvor o dia inteiro”. Sl.35.28

Meditar não é apenas o processo mental de reter uma informação mediante estudo ou esforço acadêmico, trata-se de um compreender e proclamar.

“A boca do justo profere sabedoria, e a sua língua fala conforme a justiça”. Sl.37.30

“Também a minha língua sempre falará dos teus atos de justiça”. Sl.71.25

“Porque as nossas transgressões se multiplicam perante ti, e os nossos pecados testificam contra nós; porque as nossas transgressões estão conosco, e conhecemos as nossas iniqüidades, como o prevaricar, o mentir contra o SENHOR, o retirarmo-nos do nosso Deus, o pregar opressão e rebeldia, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” Is.59.13 (ARA)

proferir as mentiras que os nossos corações conceberam” (NVI)

Como já foi anunciado, a ação de MEDITAR implica em movimento interno (avaliar, considerar, pensar bem) acompanhado de um movimento externo (falar, proclamar, celebrar). Logo, a vida do cristão deve ser marcada pela presença diária da palavra de Deus. “…e nela medita de dia e de noite” deve ser compreendido neste sentido: Alguém que busca transbordar-se do conhecimento de Deus, certamente derramará sua verdade aos que estão a sua volta dura dia e noite.

Vale ainda demonstrar que tal prática não é desempenhada por obrigação, mas por SATISFAÇÃO:

“sua satisfação está na lei do SENHOR, e nessa lei medita dia e noite” Sl.1.2

O termo satisfação tem sentido de afeição, prazer. Logo, as Escrituras são alvo de prazer para o cristão, satisfação. Sua vida pode ser satisfeita no aplicar-se às escrituras. Existe um prazer no uso das escrituras e tal deve ser o motivo de ter uma vida devota à ela. Não, pois, do dia pra noite que noite e dia se proclama a verdade de Deus concebida no Estudo diário.

“A minha alma consome-se de perene desejo das tuas ordenanças” Sl.119.20

2.       Benefícios da Meditação

Aquele que dispõe-se a executar tal ação certamente será abençoado. Aliás, essa é a verdade exposta no verso seguinte em Salmos:

“É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham” Sl.1.3

Observe que a linguagem empregada é figurativa. Não trata-se do caso de um cristão tornar-se uma Figueira, mas que sua vida será comparada a de uma árvore bem regada: O Fruto é Certo e sua folhagem é vívida. Observe a mesma verdade exposta em outros termos:

“Os justos florescerão como a palmeira, crescerão como o cedro do Líbano; plantados na casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Mesmo na velhice darão fruto, permanecerão viçosos e verdejantes, para proclamar que o SENHOR é justo. Ele é a minha Rocha; nele não há injustiça.” Sl.92.12-15

A vitalidade do Cristão como filho de Deus depende de sua vida de Meditação nas Escrituras. A Beleza da vitalidade do Cristão é apenas percebida em uma Vida de Meditação nas Escrituras.

“Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ela não temerá quando chegar o calor, porque as suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto”. Jr.17.8

Outro benefício é que não existe medo pelos tempos de seca; não existe ansiedade nas dificuldades, pois a confiança está lançada no Senhor que fala por intermédio de sua palavra.

B.      Buscar Crescimento

A vida do cristão deve ser marcada pela busca do crescimento, inda que seja difícil ser alcançado em determinadas situações.           Buscamos crescimento nas Escrituras, e não em nenhum outro lugar, pois temos convicção de que as Escrituras são suficientes para nos conduzir nesse processo.

1.       A busca da Santidade inicia-se nas Escrituras

A santidade pode ser vista de dois prismas verdadeiros: como um processo que inicia-se na conversão e estende-se por toda a vida do cristão, ou como a posição do cristão em Cristo. Para a segunda declaração, veja o que Paulo fala aos Corintios:

“à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus e chamados para serem santos” 1Co.1.2

Em Cristo nós somos declarados santos, mas somos convidados para ser santos na vida prática. Ou seja, a santidade posicional serve como alvo para a Santidade a ser conquistada, e sua busca, mas deve iniciar-se nas Escrituras. Observe a opinião de Jesus:

“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” Jo.7.17

A palavra de Deus é a Verdade que Santifica. Ou o cristão dispõe-se a moldar-se nas Escrituras ou certamente deixará de viver os conceitos ensinados por Deus através dela.

“A minha alma está apegada ao pó; vivifica-me segundo a tua palavra“. Sl.119.25

Neste trecho o salmista apresenta uma realidade espiritual, a Palavra de Deus vivifica espiritualmente o cristão.

“A minha alma, de tristeza, verte lágrimas; fortalece-me segundo a tua palavra” Sl.119.28

De modo semelhante vemos que as Escrituras tem poder de Fortalecer o Cristão no processo da santificação. Mas, o fato é que é impossível manter-se debruçado nas Escrituras e ter uma vida marcada pela pecaminosidade.

“Afasto os pés de todo caminho mau para obedecer à tua palavra“.

2.       A busca de uma vida de Oração nasce nas Escrituras

Não podemos excluir o valor da oração na vida de maturidade do cristão, mas é certo que tal atitude nasce nas escrituras. É na Palavra de Deus que encontramos muitas recomendações sobre a prática saudável da oração. Assim, o Cristão que dia-a-dia alimenta-se das escrituras certamente conhecerá as estipulações bíblicas para a oração.

Nas escrituras nós encontramos desde o motivo da oração até mesmo o objeto da oração:

  • Orar por que: Mt.26.41; Mc.14.38
  • Orar por quem: Mt.5.44;
  • Quando Orar: 1Ts.5.17 (cf. At.12.5)
  • Exemplo de Cristo: Jo.17.9; 20

É certo que temos muitas outras recomendações sobre essa prática e minha intenção não é ser exaustivo, mas ressaltar valores que facilmente se perdem. A oração já foi definida de diversas maneiras, mas uma em particular me atrai: “A oração é a respiração da fé“. De que vale um cristão consciente de sua posição em Cristo, suas responsabilidades, do cheio de conhecimento e auto-suficiencia. A Oração neste ponto, centra-nos em nossa incapacidade e dependência de Deus.

3.       A vida de Testemunho da Verdade é conforme as Escrituras

Muitas são as recomendações das escrituras sobre a vida do Cristão, mas Pedro destaca algumas características interessantes, observe:

Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma. Vivam entre os pagãos de maneira exemplar para que, mesmo que eles os acusem de praticarem o mal, observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da sua intervenção. 1Pe.2.11-12

Pedro demonstra qual deve ser a visão do cristão: Viver no mundo de maneira exemplar. De nada adianta um bom cristão dentro da igreja, deveríamos ser sal fora das portas da Igreja, “ser sal fora do saleiro[2]“. Ao nos abstermos nas paixões da carne nossa vida será certamente diferente das demais pessoas, que tem os mesmos conflitos sem os mesmos padrões. Entretanto, tal pratica deve ser levada com o objetivo de levar pessoas a GLORIFICAREM a Deus e não ao seu comportamento. O que isto faz por vanglória, condenação disto terá.

Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos. 1Pe.2.15

Novamente Pedro apresenta um princípio importantíssimo para a Vida do Cristão: Calar a Ignorância dos Insensatos. Neste caso, insensatos não são os desprovidos de raciocínio lógico, mas aqueles que apresentam agressões em qualquer modelo às práticas cristãs. Aquele que insistentemente oferece-se em comentários desrespeitosos contra o cristianismo autêntico. A esses devemos calar, não com a força do argumento, mas com a prática saudável dos ensinos de Cristo.

Este princípio é certamente difícil de se realizar, contudo, o cristão que está sendo alimentado constantemente pelas escrituras, certamente demonstrará sua vida permeada pelos princípios bíblicos, e fará o insensato calar-se pelo brilho ofuscante da Luz de Deus que dele resplandece.

4.       O Exemplo de Esdras

Esdras é o exemplo de uma pessoa moldada pelas escrituras. Alias, as escrituras definem Esdras como alguém que é versado (ARA) nas escrituras. Ou seja, ele é um grande conhecedor, um perito da Lei de Deus (Ed.7.6). Este escriba foi responsável pelo reavivamento espiritual da nação de Israel no período pós-exílico. A razão disto é que:

“Pois Esdras tinha decidido dedicar-se a estudar a Lei do SENHOR e a praticá-la, e a ensinar os seus decretos e mandamentos aos israelitas” Ed.7.10

Note que a disposição do coração de Esdras não tinha a intenção de estudar a Lei do Senhor como um fim em si, ou como uma atitude desacompanhada da prática, antes as duas ações fazem parte de sua vida. Nisto ele certamente é um exemplo. Contudo, o mais interessante em sua história é que sua vida de devoção às escrituras, demonstraram ao povo os valores apresentados na Lei do Senhor.

C.      Prática das Escrituras

Se o conhecimento não for reproduzido é inútil. Crescer no conhecimento das escrituras, como um movimento dissociado da prática é tolice intelectual, academicismo irrelevante, perda de tempo. É a apresentação da vaidade nas práticas cristãs, é correr atrás do vento. Qualquer atitude de vanglória, de vaidade é uma busca inútil e sem frutos. Há crescimento intelectual, mas não vivencial. É como um belo prédio, forte, alto, bonito e sem vida e sem frutos. A vida cristã é análoga à vida: deve crescer, prosseguir à maturidade, reproduzir, instruir, disciplinar, ser disciplinado, buscar aperfeiçoamento, ser aperfeiçoado, contudo, sem orgulho ou vanglória.


[1] C.S.Lewis, Screwtapes Letters (New York:Macmillan, 1952), pp. 131ss IN: PETERSON, Eugene, Um pastor Segundo o coração de Deus(Rio de Janeiro:Textus, 2000), pp.13.

[2] Caio Fábio.