Imagem de Deus


Esse tópico visa cuidar especificamente do aspecto  mais interessante do homem, a saber a Imagem e a Semelhança de Deus em que foi criado o homem. Normalmente nas obras de Teologia Sistemática utiliza-se um termo em latim para designar esse fato, Imago Dei (Imagem de Deus), e por isso continuam nesta forma neste estudo.

Imago Dei é o grande diferencial na criação do homem, é o que, por certo, diferencia o homem do resto da criação. Entretanto, é tema antigo de debates teológicos, pois historicamente, não se chegou a um consenso a respeito deste termo. Assim é válido observar algumas das diferentes opiniões históricas sobre esse tema.

A.           Breve Histórico

Alguns dos “Pais da Igreja” concordavam que a Imagem de Deus no homem consistia em suas capacidades racionais, morais e na capacidade para a santidade. Entrementes alguns tendiam a crer que existiam alguns aspectos físicos pertencentes a essa Imagem de Deus.

Em outros desses “Pais da Igreja”, criam que Imagem e Semelhança eram aspectos distintos e que como tal tinham implicações distintas. Para Clemente de Alexandria e Orígenes (gregos), que  rejeitavam qualquer relação do termo com o corpo, criam que Imagem estava relacionado a características do homem como tal, e Semelhança como qualidades não essenciais do homem.

Esse tipo de abordagem, que distingue Imagem de Semelhança, foi também encontrada nos escolásticos, embora nem sempre  expressa do mesmo modo. Já os reformadores abandonaram a distinção entre Imagem e Semelhança, pois “consideravam a justiça original como incluída na imagem de Deus e como pertencente à própria natureza do homem em sua condição originária[1]”.

Alguns teólogos mais recentes tem discordado de todas essas possibilidades, como Scheleiermacher, que rejeitou a possibilidade de que houvesse justiça original no homem original, pois cria que essa justiça só era possível por meio de desenvolvimento.

B.                             Significado do termo

As palavras hebraicas de Gênesis 1.26,27 são tselem  e demuth, o equivalente às palavras gregas eikon e homoiosis (que em latim são imago e similitudo). Tselem significa imagem moldada, uma figura moldada, imagem no sentido concreto da palavra (2Rs.11.18; Ez.23.14; Am.5.26). Já demuth também se refere à idéia de similaridade, mas num aspecto mais abstrato ou idealístico. Segundo Addison Leitch, “o autor bíblico parece estar tentando expressar uma idéia muito difícil, na qual deseja deixar claro que o homem, de alguma maneira, é o reflexo concreto de Deus[2]“.

Embora durante muito tempo se tentou diferenciar as palavras, nos relatos bíblicos as palavras imagem e semelhança são empregadas como sinônimos. Em Gn.1.26 são empregada as duas palavras, mas no v.27 apenas a primeira delas. Em Gn.5.1 só ocorre a palavra semelhança e no v.3 ambas novamente. Porém em Gn.9.6 aparece apenas a palavra imagem. Ou seja, são utilizadas em Gênesis de maneira intercambiável. Outro detalhe importante é que, até mesmo as preposições utilizadas são igualmente intercambiáveis (cf. Gn.1.26,27 e 5.1-3).

Portanto o que se pode concluir até aqui é que não se deve apoiar na utilização das palavras unicamente para enfatizar diferenças de ênfases ou de aspectos desse fato. Logo, é prudente os aspectos envolvidos a fim de encontrar uma definição mais plausível para os termos utilizados em Gênesis.

C.           Aspectos envolvidos

Antes de procurar definir, é importante observar na literatura bíblica algumas afirmações relevantes para compreensão correta do termo teológico Imago Dei.

Justiça Original

A imagem de Deus, na qual foi criado o homem, certamente inclui o que normalmente se denomina “justiça original”. Esse termo diz respeito a condição do homem, que foi criado sem pecado. Esse fato tem grande respaldo escriturístico. Em Gn.1.31, após a criação do homem fala que tudo o que Deus fizera eram muito bom. Salomão também faz uma boa observação do homem com criatura especial de Deus quando diz :

“Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias”. (Ec.7.29)

O Novo Testamento testemunha de maneira semelhante, mas o faz retratando a condição do salvo como uma volta a um estado anterior. Paulo, em sua epístola aos colossensses faz a seguinte observação:

“Não mintais uns aos outros,, uma vez que vos despistes do velho homem com seus feitos, e vos revestistes do novo homem que se refaz[3] para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl.3.10)

Em Efésios, Paulo faz semelhante afirmação:

“…e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef.4.24)[4]

O que se pode notar nessas citações paulinas é que a condição a qual o homem retorna na salvação é sua condição original. Esse fato é evidenciado pela palavra refaz, que traz a idéia de realizar novamente algo anteriormente pronto ou de fazer novo novamente, como sugere a forma grega da palavra em pauta. Se essa conclusão é exata, pode-se ainda conferir o aspecto original do homem, que se perdeu com a entrada do pecado, que é de pleno conhecimento, justiça e santidade. Logo, as referências à Imagem de Deus nestes textos refletem sua imagem moral, que estão presentes no homem. Assim, o homem é criado segundo a imagem moral de Deus.

Portanto, “a criação do homem segundo esta imagem moral implica que a condição original do homem era de santidade positiva, e não um estado de inocência ou de neutralidade moral[5]“.

Constituição natural do homem

Não há dúvidas que o fato do homem ser criado segundo a Imagem de Deus implica que até mesmo os aspectos mais naturais do homem derivem de Dele. Ou seja, as faculdades intelectuais, sentimentos naturais, liberdade moral e a volição, no homem são reflexos do que Deus é em primeiro lugar.

Por ser criado a Imagem de Deus o homem dispõe de uma capacidade moral e racional. Essas capacidades asseguram a condição de homem ao ser humano, e é impossível que participe dessa condição sem a presença dessas dádivas. Ou seja, embora o homem hoje esteja em um estado de pecado, não perdeu completamente essas características, mas é impossível que elas sejam exatamente como foram outrora.

Portanto, é importante evidenciar que, ainda que o homem tenha a capacidade moral e intelectual, ela foi maculada pelo pecado. Entretanto, é válido demonstrar que mesmo após a queda o homem é apresentado como sendo imagem de Deus (Gn.9.6; 1Co.11.7; Tg.3.9). Segue-se que é impossível afirmar que o homem perdeu totalmente a Imagem de Deus, da mesma forma que é impossível afirmar que ela seja identicamente a mesma.

Constituição  espiritual do homem

É natural esperar que o homem sendo criado a imagem de Deus desfrute de uma condição espiritual, pois “Deus é espírito” (Jo.4.24). E não é difícil observar esse fato, pois mesmo na narrativa da criação podemos encontrar dados referentes a esse fato:

“…lhes soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn.2.7)

Dois fatos podem ser ressaltados e considerados importantes nesta questão, (1) a vida do homem só foi possível após o sopro de vida da parte de Deus, sendo considerado como o princípio da vida do homem e (2) a expressão “alma vivente” é considerada condição de sua vida.

Embora não seja o cunho deste tópico tratar da constituição do homem no que diz respeito às suas divisões, é válido demonstrar que o homem criado a Imagem de Deus é formado pelo corpo e pela alma. Isso não indica que estes são os únicos aspectos do homem, mas que existe em sua totalidade única uma duplicidade constitucional. Ou seja, existe a parte material e visível do homem bem como a imaterial e invisível. Porém estes assuntos serão melhores discutidos pouco à frente (Ponto V).

Vida Infinita

Parece pouco contraditório afirmar que o homem original desfrute da vida sem fim, pelo fato de não estar presente hoje em algum lugar da terra. Parece mais contraditório ainda quando notamos que não existem referências a outro ser que não morre a não ser a Deus (1Tm.6.16).

Contudo, ao ser criado a Imagem de Deus, o homem participa dessa vida, não de maneira completa e perfeita como o próprio Deus (que é eterno por definição). Assim, essa Vida é verdadeira, considerada como uma dádiva de Deus e não uma fonte autônoma de vida derivada do próprio homem. Segundo Chafer, o sopro divino foi a doação de uma vida interminável, ainda que a punição pelo pecado incluísse a morte do corpo (física).

Mas se pensarmos coerentemente, nalgum sentido da palavra a existência do homem é sem fim, pois, apesar da morte física ser real, a alma do homem é dotada de uma existência interminável. É válido afirmar que a utilização do termo aqui não implica em uma vida semelhante a de Deus (que não tem nem origem nem fim), mas em uma vida que não tem fim unicamente.

D.           Definição do termo

Segundo o conceituado teólogo Carlos Osvaldo Pinto Th.M e Ph.D., a definição de Imago Dei é: “Personalidade teomórfica dependente manifesta em estrutura relacionamento e domínio[6]“. Embora sucinta seja essa definição é necessário compreender sua profundidade.

Personalidade

Tudo o que torna possível um ser autoconsciente, incluindo os aspectos materiais e imateriais do homem.

Teomórfica

Indica que o arquétipo do homem é o Deus trino e que nossos atributos refletem, ainda que imperfeitamente, o caráter de Deus.

Dependente

Indica que o homem não é um ser autônomo, derivando sua própria existência dAquele que o criou.

Estrutura

Por estrutura quer-se dizer não estrutura física, mas emocional, intelectual e volitiva. O aspecto físico do homem reflete o plano original de Deus de encarnar-se para a redenção da humanidade.

Relacionamento

Indica que o perfeito amor existente entre a Trindade estaria refletido na interação entre os seres humanos.

Domínio

Por fim, domínio sugere o exercício de uma autoridade construtiva no seio da criação, onde o homem é o regente de Deus.


[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã:São Paulo, 2004. pp.187

[2] LEITCH, Addison. Image of God. In: RYRIE, Charles. Teologia Básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp. 218.

[3] Pode-se afirmar a possibilidade de tradução como “renovar”.

[4] Deve-se ressaltar que a palavra retidão, originalmente carrega a idéia de santidade, e que segundo a tradução KJV pode-se ler: “verdadeira santidade“. Entretanto, o termo referente a verdade é um Genitivo de Origem, ou seja, justiça e santidade procedem da verdade, como ficou bem demonstrada pela tradução ARA.

[5] BERKHOF, Louis, pp. 189

[6] PINTO, Carlos Osvaldo. Teologia Sistemática III. Material não publicado.

4 comentários sobre “Imagem de Deus

  1. Marilene

    Realmente ninguem ainda me convenceu como que Deus o Supremo Soberano é imagagem do homem. Para min imagem é estrutura fisica e Deus é contra imagem em sentido geral. Por favor me ajudem nesta resposta. Faço teologia a 6 meses e me envergonho em perguntar aos profesores ainda não tive resposta concreta.
    Obrigada e aguardo respostas

    1. Marilene,

      Sua pergunta é honesta, mas foi feita da forma invertida. Na verdade as Escrituras ensinam que o homem foi feito à imagem de Deus, e não que Deus é a imagem do homem como você expressou em sua pergunta.

      Sobre as implicações desse conceito, muitos teólogos tem oferecido suas opiniões. Por exemplo, há quem defenda que Imagem significa estrutura imaterial, enquanto Semelhança refere-se apenas à moralidade. Outros preferem dizer que Imagem é uma referência à estrutura física, enquanto Semelhança a estrutura imaterial.

      Qualquer que seja o significado, ainda não li alguém que ousasse dizer que Deus seria contra “imagem em sentido geral”. Eu acho que você está confundindo dois conceitos: Imagem no sentido de idolatria, na qual Deus opoe-se de forma clara, e Imagem no sentido especial da criação de Deus, que as escrituras ensinam claramente.

      As escrituras ensinam que o homem foi criado à Imagem e Semelhança de Deus (Gn.1.27). Também ensinam que Jesus é a Imagem do Deus invisível (Cl.1.15). Essas são verdades bíblicas claras, muito embora suas implicações sejam reconhecidas de modo diferente por diferentes teólogos.

      Sugiro que você busque seus professores e pergunte a eles o que eles entendem. Se quiser conhecer minha opinião, leia atentamente o artigo que você comentou.

      Um grande abraço,
      Marcelo Berti

  2. juarez Rodrigues

    NA VERDADE QUANDO DEUS CRIOU O HOMEM ELE ESTAVA CRIANDO ALGO QUE ESTAVA PASSANDO EM SUA MENTE OU SEJA NÃO TEMOS A MESMA APARENCIA FISICA COM DEUS POIS O MESMO PROIBIU EM EXODO CAP 20:1-5,NÓS SOMOS FRUTOS DO QUE PASSAVA EM SUA MENTE;POR EXEMPLO QUANDO ALGUM ARQUITETO QUER CONSTRUIR ALGO DIFERENTE NOVO A PRIMEIRA COISA QUE ACONTESSE É QUE O QUE ELE QUER FAZER SE PASSA PRIMEIRO NA SUA MENTE PARA DEPOIS ELE EXECUTAR O PROJETO COM DEUS NÃO FOI DIFERENTE TUDO ESTAVA NA SUA MENTE UM SER MARAVILHOSO RACIONAL, INTELECTUAL, E ESPIRITUAL POSSIVEL DE COMUNICAR-SE COM SEU CRIADOR,APESAR DE DEUS SER ESPIRITO DOTOU O HOMEM COM ESSA CAPACIDADE.

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