Pré-conhecimento


Existe uma constante luta entre alguns termos bíblicos, a saber, pré-conhecer (Rm.8.29; 1Pe.1.2) e Predestinar (Ef.1.5). Todos os comentaristas que não adotam uma postura mais reformada em termos de soteriologia, tendem a agrupar os vocabulos alistados em referência a uma possível ordem para salvação. Ou seja, para eles Deus precisa conhecer alguém, e por seu conhecimento antecipado dos fatos, sabendo que este creria, então Ele predestinaria este.

Essa ordem é, em primeiro lugar, uma superposição temática, teológica e contextual, e uma declaração equivocada em função de uma má observação dos vocábulos gregos. Assim é necessário observá-los em seus contextos. A tentativa não é de afirmar a isenção de ligação entre os vocábulos, mas compreender o seu real significado no ambiente em que é utilizado. Mas, vamos por partes. A princípio vamos observar o texto de Rm.8.29:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos

Este é o texto do qual normalmente se retiram o verbete conhecer em referência a salvação. Note que os tradutores da versão ARA utilizam o vocábulo conhecer associado com o advérbio antemão. Em conjunto eles veêm a significar um conhecimento prévio, antecipado, ou seja, um pré-conhecimento.

Segundo os teólogos aversos à teologia reformada afirmam que esse vocábulo implica em dizer que Deus conhece a cada um daqueles que “aceitarão a Jesus” no futuro, e então, segundo o texto, ele os predestina à salvação. Ou seja, Deus em seu conhecimento prévio resolver predestinar a salvação aqueles que, Ele sabe, já se predestinaram a salvação eterna “aceitando a Jesus” como salvador. Logo, a conclusão que se chega é que a Predestinação da parte de Deus é na verdade uma obra em cooperação com o homem. E sobre isso muito bem acentuou Spurgeon:

De acordo com o esquema do livre-arbítrio, o Senhor tem boas intenções, mas precisa aguardar como um servo, a iniciativa de sua criatura, para saber qual é a intenção dela. Deus quer o bem e o faria, mas não pode, por causa de um homem indisposto, o qual não deseja que sejam realizadas as boas coisas de Deus. (…) Se eu decidir, tornarei ineficaz o sangue de Cristo, pois sou mais poderoso que o sangue, o sangue do próprio Filho de Deus. Embora Deus estipule seu propósito, me rirei desse propósito; será o meu propósito que fará o dEle realizar-se ou não”. Senhores, se isto não é ateísmo, é idolatria; é colocar o homem onde Deus deveria estar.[1]

Contudo, esse corrente teológica tende a minimizar a Obra Salvífica de Deus, que é um ato iniciado e perfeito por Ele. Assim é mister compreender o significado deste vocábulo, no ambiente bíblico, a fim de observar quão grande obra foi realizada por Deus na salvação do homem.

Prognosko

O verbo utilizado por Paulo em Romanos 8.29 é proginosko. Esse vocábulo e formado a a partir da junção do verbo ginosko com  a preposição pró, que passa a modificar o sentido do verbo. Segundo Collin Brown e  Lothar Coenen, o verbo “é atestado de Eurípedes em diante (Hippolytus, 1072)[2]”, ou seja, um termo relativamente recente.

O verbo ginosko tem significado simples e pode ser utilizado basicamente de duas maneiras: de maneira universal e particular. No que diz respeito aos usos mais universais do verbo, ele vem a sigficar conhecer, saber, vir a conhecer, compreender, obter conhecimento ou, como sugere o Thayer’s Greek Lexicon, como um eufemismo hebraico referindo-se à conexão carnal íntimas entre homem e mulher (LXX Gn.4.1, 17, 19.8; 1Sm.1.19).  De maneira particular pode referir-se ao conhecimento de Deus e de Cristo e das coisas relativas a Eles ou procedentes Deles.

Neste aspecto mais particular é que parece ser utilizado o vocábulo, mesmo que precedido por uma preposição, pois refere-se ao conhecimento relativo a Deus, pois, como lê-se: “Porquanto [Deus] aos que de antemão conheceu, também os predestinou…”. Assim, esse conhecimento seria prévio, exclusivo de Deus embora ainda não manifesto claremente ao homem, como sugeriu Eurípedes, Platão e Xenofontes ao aplicarem o vocábulo proginosko em referência direta a Deus. O que se pode concluir que esse vocábulo não pode ser aplicado ao simples fato de que Deus previu algo, mas que desde a eternidade passada ele já tinha conhecimento.

Entrementes, pode-se perceber que a busca para a definição léxica do verbete é fundamentada apenas nas citações do grego clássico. Isso poderia criar objeção à definição visto não ser retirada do ambiente bíblico. Mas, antes que se pense de maneira inadequada, é necessário observar atentamente as citações bíblicas e procurar compreender qual uso os autores do Novo Testamento fizeram desse vocábulo.

Nas citações bíblicas pode-se observar 5 utilizações do vocábulo, sendo uma de Lucas (At.26.5), duas de Paulo (Rm.8.29, 11.2) e duas de Pedro (1Pe.1.20; 2Pe.3.17). Em Atos é que observa-se a colocação mais simples, pois trata-se de uma defesa pessoal de Paulo. Em sua defesa ele afirma: “pois, na verdade, eu era conhecido deles desde o princípio, se assim o quiserem testemunhar, porque vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião”. A intenção de Paulo é demonstrar que os fariseus o coheciam a muito tempo, ou seja, o conheciam anteriormente ao julgamento. Essa colocação não pode ser classificada de outra maneira, senão no uso mais universal do verbo, referindo-se a atividades humanas de recordação (cf. 2Pe.3.17). As outras três citações dizem respeito às atividades de Deus, e por certo, estão classificadas de maneira mais particular, pois refere-se ao conhecimento anterior que Deus tem.

Romanos 8.29

Antes de qualquer discução no que diga respeito ao vocábulo e o ambiente em que ele está inserido, é necessário observar algumas características da epístola em que o ambiente, que contém o vocábulo, está inserido.

Paulo escreve esta Carta-Tratado, aos Romanos, com alguns pontos em mente.  Tais como Justiça de Deus  que se revela no Evangelho (1.17). Sendo revelada no Evangelho, qualquer outra possibilidade de Justificação é anulada, pois todos estão debaixo do Pecado (1.18-3.31). E fora do evangelho, permanecerá como tal (1.17-3.31). Dessa forma é necessária a justificação, que é ilustrada (4.1-25), é recebida pela fé (5.1-11) e aplicada a muitos (5.11.19) em função da manifestação da graça de Deus (5.20-21), sendo esta graça atribuida a pecadores, isso não isenta a responsabilidade do salvo em relação ao pecado (6.1-23),  a busca pela santificação (7.1-25) embora se pudesse ter muitas questões sobre o cristão e a lei judaica.

Nesse interím, sabendo de todas as informações acima lancadas, Paulo passa a criar o ambiente em que a palavra é utilizada. O ambiente parece denotar um aspecto da vida cristã que é muito desgostasa, as tribulações. Mas, Paulo, de maneira muito madura, contrasta as tribulações e sofrimentos com a glória que em nós será revelada. (8.18). pois, segundo ele, até mesmo a natureza e toda a criação de Deus sofre com o problema do pecado no mundo, e isso inclui o homem (8.19-23). A partir deste ponto Paulo faz uma demonstração de que o ápice da posição do cristão encontra-se no fato de que no futuro será glorificado (8.24-30). Então, é nesse contexto que encontramos o vocábulo, onde lê-se:

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmão. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. Rm.8.28-29       .

Note que a contrução do versículo: “…aos que de antemão conheceu, também os predestinou”. Se observado dentro da gramática em português, fica evidente que o fato de que Deus conheceu não é a base, nem o fundamento da predestinação, pois o advérbio entre conhecer previamente e predestinar é “também”. Em grego isso fica mais estampado, pois lê-se: “o[ti ou]j proe,gnw( kai. prow,risen)))”. O vocábulo “kai,” utilizado neste texto não pode ser traduzido por “por causa”, muito menos por “por isso”. Normalmente o termo é utilizado apenas para conectar cláusulas e sentenças, bem como narrativas, além de, epexegeticamente, anexar palavras e sentenças. A função sintática do termo restringe-se a isso.

Assim, não pode-se afirmar que a razão da predestinação é o pré-conhecimento que Deus tem. O que pode-se concluir é que Deus de fato conheceu e predestinou, embora o texto não faça distinção entre tempo ou época em que isso aconteceu.

A exceção dessa observação, a própria palavra que refere-se ao pré-conhecimento, não expressa o sentido desejado pelos teólogos aversos à teologia mais reformada, no que tange à salvação. E sobre isso J.I Paker diz:

Para a pergunta, “Em que base escolheu Deus os indivíduos para salvação?” às vezes é respondido: em base da presciência dele que quando os confrontou com o evangelho eles escolheriam a Cristo como Salvador deles. Nesta resposta, pre-conhecimento significa previsão passiva da parte de Deus do que os indivíduos irão fazer, sem o predeterminar de suas ações dEle. Mas

(a) Pré-conhecimento em romanos 8:29 e 11:2 (…): não expressa a idéia da antecipação de um espectador do que acontecerá espontaneamente[3].

Sendo assim, observa-se que a fundamentação é vaga, pois não tem base exegética. Mas é valido afirmar que pré-conhecimento e predestinação não referem-se ao mesmo evento, sendo isso evidenciado pelo uso de duas palavras diferentes para a especificação das atividades que são iniciadas por Deus e perfeitas por Ele. Assim, é muito mais provavel que esse conhecer seja marcado pelo senso hebreu de escolha antecipada[4], como sugeriu Archibald Thomas Robertson.

Portanto, é mister afiançar que o texto diz que “aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à Imagem de Seu Filho”, o que inibe a possibilidade em que se afirme que fomos eleitos por que Deus sabia que creríamos, pois sabe-se que ser conforme a imagem de Seu Filho é consequência da salvação. Ao contrário, deve-se afirmar que fomos eleitos com objetivo de sermos conformes à Imagem de seu Filho, como bem destaca a preposição “eivj” no texto. Ou seja, não se deve considerar como fundamento, como normalmente alguns teólogos tem feito de maneira indevida, o que é conseqüência da salvação. Assim, “a eleição não se pode basear em obediência, obras e santidade previstas, porque isso tudo é resultado da eleição, e não sua causa[5]”.

Logo, conclui-se que o ato de conhecer fatos antecipadamente da parte de Deus não significa que Ele tenha previsto fatos futuros como um profeta, nem mesmo que isto fundamente sua predestinação, como fica bem estampado pelo grego no texto em pauta. Mas é válido relembrar que o termo não é um sinônimo de predestinar, visto que, neste texto, Paulo usa os dois termos juntos. Contudo é necessário que se diga que ambos estão em acordo.

Romanos 11.2

Este texto é muito pouco utilizado para defender o pré-conhecimento passivo e soteriológico, embora utilize a mesma palavra que Rm.8.29. Possivelmente isto aconteça em função de que o texto não corrobora para o fim desejado por aqueles que visam distorcer os texto e verdades bíblicas.

Antes de qualquer qualquer menção seja feita sobre este texto é necessário fazê-lo exposto: “Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu…”. O discurso de Paulo, que está ao redor deste versículo, refere-se à possivel rejeição de Deus do povo de Israel. Mas, sua conclusão, no texto, é bem clara, pois Deus não repudiou seu povo. Em confirmação a esta premissa, ele ilustra a partir da história de Elias, que não estava sozinho e diz: “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. Segue-se que Deus não repudiou seu povo, que conheceu de antemão.

A esse conhecimento de Deus é impossível que se diga que Ele simplesmente sabia que este povo o iria cultuar e aceitar seu plano pactual e remissor.  Aqui fica evidente que a palavra é utilizada no sentido de escolha antecipada. Embora não seja a mesma palavra que “predestinação”, esse conhecimento antecipado está em consonâcia com ela.

Segue-se que o pre-conhecimento de Deus não é passivo, muito menos espectador das atividades humanas, mas, é ativo e eletivo, como foi bem demonstrado acima.

1 Pedro.1.20

Neste texto acontece fenômeno semelhante com o que acontece em Rm.11.2, como lê-se: “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram,  mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós”.

Neste caso é impossível que diga-se que esse conhecimento de Deus refere-se à sua estimada previsão que Cristo iria entregar sua vida em resgate de muitos. Principalemente pelo fato de que no grego pode-se observar uma certa ênfase no que tange a esse conhecimento, como lê-se: “proegnwsme,nou me.n pro. katabolh/j ko,smou”. Se traduzido com mais literalidade, notar-se-á a seguinte tradução: “conhecido antecipadamente, com efeito, antes da fundação do mundo”. Assim, a definição desse conhecimento é anterior à fundação do mundo, como fica bem enfatizado pelos termos bíblicos utilizados por Pedro.

Logo, é impossível dizer que este texto afirma apenas um saber desconexo com seu determinar. Porém, se isso é de fato verdade, como alguns creêm piamente, a morte propiciatória de Cristo passa a ser um evento estranho ao propósito de Deus, e ser considerado um anexo posterior ou um apêndice, que veio a colaborar com suas espectativas. Sem contar que a remissão dos pecados não faria parte dos Seus Planos.

Mas como é muito bem observado pela literatura bíblica, Cristo não é um evento histórico, mas o centro dos Propósitos de Deus para a humanidade. Deus não sabia que Cristo morreira, mas assim predeterminou, pois “a crucificação foi o centro de seu plano eterno para a redenção[6]” (veja ponto 2.2, At.2.23). Assim, não se pode chegar a outra conclusão, senão que o ato de pre-conhecer de Deus está em conformidade com o ato de predestinar, é ativo e que por vezes carrega um aspecto de eleição e determinação antecipada, como pôde-se observar nos textos analisados. Segue-se que afirmar que Deus predestinou aqueles que sabia que o aceitaria não passa de uma declaração não bíblica, senão, como afirmado por Spurgeon, uma heresia:

Qual é a heresia de Roma, senão acrescentar algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, ou seja, trazer obras da carne,  para ajudarem na justificação? E qual é a heresia do arminianismo, senão acrescentar alguma coisa à obra do Redentor? Toda heresia, analisada com profundidade, se descobrirá aqui[7].

Prognosis

Este é a forma substantiva do verbo anteriormente mencionado, um termo bíblico utilizado para pré-conhecimento, sendo encontrado em 1Pe.1.2, e imediatamente ligado com Rm.8.29, como já observado. Como prognwskw, prognosij é formado pela junção de pro com gnosis. Como é muito bem conhecido, a primeira partícula deste vocábulo refere-se a temporalidade, e a segunda a conhecimento. Assim, encontra-se mais uma palvra bíblica que refere-se ao conhecimento prévio de Deus.

Nas escrituras o termo aparece apenas duas vezes, à exceção das duas citações encontradas na septuaginta (Jd.9.6 – h’ kri,sij sou evn prognw,sei: juízos previstos de antemão; 11.19 –  tau/ta evlalh,qh moi kata. pro,gnwsi,n mou: estas coisa me foram ditas previamente), em At.2.23 e 1Pe.1.2. Esse vocábulo parece não acontecer no Grego clássico, o que sugere que seu significado pode ser muito bem identificado nas citações bíblicas.

Por ser um verbo composto é válido observar as ocorrências do verbo sem o prefixo “pro,”. Das 29 ocorrências de “gnw,sij”, nenhuma foge da idéia de conhecimento, sabedoria, saber, ciência. Assim, pode-se afirmar que “gnw,sis” é um sinônimo de “gnwskw”, como também afirma o Thayer’s Greek Lexicon.

Logo, pode-se perceber que esta é apenas outra forma para expressar a idéia de conhecimento antecipado, ou pré-conhecimento, como se tem insistido neste trabalho. Vale assim observar as ocorrências Neo-testamentárias desse vocábulos.

1 Pedro.1.2

Este parece ser o mais polêmico dos textos, no que se refere a esse conhecimento antecipado de Deus. Todo o problema parece surgir no mesmo ponto, pois segundo todos os comentaristas que não concordam com a predestinação bíblica tentar dar outro significado ao termo bíblico.

Entretanto, de todas as definições encontradas, nenhuma é mais interessante que a encontrada no Bauer’s Lexicon, pois este define o verbete como a sabedoria e intenção onisciênte de Deus. Essa definição vai além de todas as outras definições encontradas, visto que traz em si o reconhecimento correto de que pré-conhecer não isenta o fato do Pleno,  Perfeito, Infinito e Eterno Conhecimento de Deus, Sua Onisicência. Ou seja, “Deus conhece os infinitos resultados das infinitas possibilidades[8]”. Assim nada pode escapar de seu conhecimento.

Mas o fato mais interessante dessa definição, é que encontra-se nesta definição uma partícula que retira e inibe toda a passividade que se possa encontrar nesse conhecimento, pois diz respeito a sua intenção. Não aplica-se o termo apenas a uma espécie de conhecimento que, porventura Deus possa ter, mas Suas Intenções são caracterizadas por essa sabedoria onisciênte.

Mas, é possível que algum mal informado possa afirmar que tal argumento não está estampado nas páginas bíblicas, pois afinal de contas trata-se de uma definição léxico-teológica. Entremente, em resposta a esse raciocínio infundado pode-se dizer que a própria utilização em 1Pe.1.2 favorece a tal definição.

Note que Pedro escreve àqueles que são “eleitos” (1.1). Porém pouco a frente acrescenta “eleitos, segundo a presciência de Deus”. Em um raciocínio simples há de se notar que os cristãos, a quem escreve Pedro, foram escolhidos. Ou sejam, trata-se de um povo que foi escolhido por alguém, visto ser impossível ser que a ação, que Pedro demonstra, faça menção a uma atividade autocausada, onde o homem é o motivo, executor e alvo da ação. Sem contar que a segunda afirmação, que diz respeito à eleição, é clara em afirmar que é segundo a presciência de Deus. Como a presciência não é um departamento, ou aspecto independente em Deus, pode-se afirmar sem medo que os cristãos foram eleitos por Deus, sendo que essa atividade está em conformidade com seu conhecimento prévio.

Rapidamente pôde-se perceber que a presciência de Deus não refere-se apenas a uma antecipação, ou previsão da parte de Deus, dos fatos que viriam a acontecer, mas a uma intenção que permeia sua escolha, que é realizada segundo seu pré-conhecimento. Sobre isso muito bem afirmou McArthur:

Ao escrever que ‘somos eleitos, segundo a presciência de Deus Pai (1Pe.1. 2), Pedro não estava usando a palavra ‘presciência’ para significar que Deus sabia de antemão quem haveria de crer e, por isso, escolheu a essas pessoas pela fé que previra nelas. Em vez disso, Pedro estava dizendo que Deus determinou, antes do princípio dos tempos, conhecê-las, amá-las e salvá-las; e escolheu-as sem levar em conta qualquer coisa boa ou ruim que pudessem fazer[9].

A declaração de McArthur parece concordar com a definição do Bauer’s Lexicon, visto que a presciência não trata-se de um conhecimento passivo, mas efetivo e determinante na questão da eleição. Sem contar que o texto não afirma que  “Deus predestinou ou elegeu aqueles cuja fé, santidade e perseverança ele conheceu de antemão[10]”. Sobre isso Samuel ainda argumenta:

Se a presciência divina do arrependimento e da fé do homem fosse a base par a eleição, Deus teria oferecido uma oportunidade às cidades pagãs de Tiro, Sidom e Sodoma, as quais, conforme Jesus disse (Mt.11.20-24), ter-se-iam arrependido se tivessem presenciado seus milagres. Deus previu que elas se arrependeriam e, apesar disso, não lhes deu uma oportunidade de ver as obras de Cristo e de se arrependerem (…) Portanto, a eleição não depende de Deus conhecer previamente o arrependimento e a fé, mas depende de sua vontade e soberania[11].

A partir deste ponto, é necessário que se apresente alguns argumentos fundamentados diretamente no texto grego. E neste lê-se: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j”. Note que a expressão que acompanha o pré-conhecimento de Deus é “kata,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, kata, é uma preposição que denota movimento, difusão ou direção de cima para o baixo, basicamente. Emobora, possa ser subdividida em dois grandes grupos de possibilidades de tradução. A primeira, acompanhando palavras no caso genitivo, e a segunda, no acusativo. Com genitivo, a preposição significa basicamente “contra”, “para baixo”. Com acusativo, no que diz respeito a tempo pode significar “durante”, mas no que tange a referência ou relação, significa “em conformidade”, “de acordo com”, “segundo”. Como fica bem estampado no texto, “pro,gnwsin ” deve ser identificado como um substantivo comum, no acusativo, feminino, singular de “pro,gnwsij”. Assim restringe-se as possibilidades de tradução.

Vale anotar que “pré-conhecimento”, embora tenha uma conotação temporal, não pode ser usado com o aspecto temporal da preposição “kata,” visto não fazer o menor sentido. Logo, a que conclusão se chega, senão que a melhor tradução para os termos associados seria: “em conformidade com o pré-conhecimento”.

Mais uma vez chega-se a conclusão que não se pode afirmar que o conhecimento antecipado de Deus é a causa efetiva da ação, nem mesmo a inspiração motivadora, mas significa dizer que a eleição está em acordo com esse Seu conhecimento. Com obviedade, existe uma distinção considerável em afirmar que a eleição está em acordo com o pré-conhecimento, do que afirmar que foi por causa deste pré-conhecimento.

Dessa forma, claramente nota-se que a preposição “kata.” utilizada por Pedro inibe a possibilidade de que esse preconhecimento seja o motivo pelo qual Deus escolhe, pois o fato claro é que Deus sabia de antemão em quem iria atuar, por isso os escolheu.

Outro detalhe que acaba por derrubar o argumento infundado que afirmar a eleição em função do pré-conhecimento, é outra preposição muito bem ajustada com o texto e muito bem colocada, a preposição “eij”. Uma particularidade dessa preposição é que ela é utilizada apenas com o caso acusativo, e segundo o Lothar Coenen e Collin Brown, “nínguém nunca questionou que eis pode expressar a direção metafórica, isto é, alvo ou propósito[12]”. Trata-se, na verdade, do uso télico ou final da preposição grega, que é um uso comum no Novo Testamento.

Mas que ligação teria essa preposição com o argumento anteriormente lançado, a saber, a impossibilidade de que se diga que a eleição é fundamentada sobre o pré-conhecimento? A resposta está estampada no texto grego de 1Pe.1:2: “kata. pro,gnwsin qeou/ patro.j evn a’giasmw/| pneu,matoj eivj u’pakoh.n kai. r’antismo.n ai[matoj VIhsou/ Cristou/”. O que Pedro parece estar estampando no versículo nada mais é do que o propósito da Eleição. A utilização de “eij” não deixa dúvidas.

Assim, se o texto demonstra que o propósito da Eleição é a obediência, ninguém pode argumentar que fomos eleitos por que Deus sabia que obedeceríamos. Obviamente, há quem diga que “eij” neste texto possa ser utilizado como causa, sendo traduzido por “eleitos segundo a presciência (…) por causa da obediência”. A primeira ojeção que pode-se fazer sobre essa malfadada tradução é, de fato, não existe utilização como essa no Novo Testamento. Sobre isso Lothar Coenen e Collin Brown afirmam que “tal significado para eis parece improvável em quer uma das passagens às vezes aduzidas[13]”. Já no Léxico Liddell-Scott, não encontra-se qualquer análise de uso causal da preposição em pauta. O mesmo acontece com o Thayer’s Greek Lexicon e o Friberg Lexicon. Conclui-se que seguramente pode-se afirmar que tal uso é indevido na passagem, sem contar que parece tratar-se de uma desvirtuação do texto em prol de uma ideolgia filosófica que não tem seus princípios estampados nas páginas bíblicas. A segunda objeção que pode-se fazer está em caráter de lógica, pois não pode-se fundamentar como causa o que é efeito, como outrora demonstrado. Nas páginas do Novo Testamento pode-se observar que a obediência é resultado da salvação, como fica bem exposto por Paulo em Rm.1.5 “por intermédio de quem [Jesus Cristo] viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé”. (cf. Rm.16.26).

Segue-se que o pré-conhecimento de Deus não é o fundamento da sua eleição, mas pode-se assumir com segurança que a eleição está em conformidade com seu pré-conhecimento. Além de que, este pré-conhecimento não é passivo, mas trata-se de uma sabedoria e intenção onisciente, que está além das estipulações da vontade humana.

Atos 2.23

Este é mais um texto que utiliza a forma substantiva de “prognwskw”, a saber “prognwsij”. Mas, como é de se esperar, não é um texto utilizado para comprovar a antipática e antibíblica ideologia do pré-conhecimento como base ou fundamento para a eleição.

Mas, antes de qualquer colocação é válido fazer o texto conhecido: “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis, sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;”.

Este texto encontra-se na primeira defesa pública da Vida De Jesus Cristo, feita por um dos seus discípulos, pouco após ter recebido, junto com outros discípulos, a promessa do derramento do Espírito Santo. Este é o momento de ápice na defesa-testemunho de Pedro, pois chega onde todo evangelismo deveria chegar, na mensagem da morte da Jesus Cristo e consequentemente na sua ressureição.

Note a forma como Pedro estampa o fato de que Jesus foi entregue por Deus para ser morto pelo judeus, que o mataram. Ou seja, dois fatos estão acontecendo em consonância nesta ação, o decreto de Deus e a responsabilidade dos homens. Mas o mais interessante é que dois termos estão muito próximos aqui, a saber “determinado desígnio” e “presciência”.

A palavra grega referente a palavra portuguesa para “determinado” é “o’ri,zw”, já conhecida pelo estudo de “proori,zw” estampado em boa parte do trabaho anterior. Esse verbete, como já preanunciado, está intimamente ligado com a ação de determinar, designar, decidir.  A palavra que acompanha essa “determinação”, demonstrada por “ovri,zw” é “boulh,”. Segundo o Thayer’s Greek Lexicon, este substantivo encontrado em At.2.23 fala “especialmente do propósito de Deus com respeito à salvação de homens por Cristo”. Assim, “boulh,” não apenas caracteriza uma vontade determinada, mas a um propósito determinado por Deus. Logo, conclui-se que a morte de Cristo é um decreto eterno de Deus em relação ao seu plano redentor para o homem.

Somado a esse reconhecimento, muito necessário, é válido afirmar que esse propósito determinado acompanha o pré-conhecimento de Deus. Note o texto grego: “tou/ton th/| w’risme,nh| boulh/| kai. prognw,sei tou/ qeou/ e;kdoton”. Em uma pequena observação, perceber-se-á que a conjunção que une o determinado desígnio de Deus e sua presciência é a partícula “kai,”.

A utilização dessa conjunção nesse tipo de contexto já foi comentado em Rm.8.29, porém é válido lembrar que aqui a conjunção deve ser identificada como uma conexão entre os termos. Logo, determinado desígnio está ligado sintaticamente à presciência. Ou seja, a determinação estampada pelo verbo “ovri,zw” atinge tanto a “desígnio” quanto “presciência”, visto que ambos substantivos concordam em caso com o verbo substantivado, identificado como um particípio de uso adjetivo. Segue-se que, tanto o desígnio quanto a presciência de Deus são determinadas por seu propósito.

À luz dessa conclusão, não se pode afirmar que Deus apenas previu o sacrifício de Cristo, como apenas um ato voluntário da parte de Jesus. Mas foi um predeterminação da parte de Deus. Isso está em acordo com Jamiesson, Fausset and Brow, que afirmam que “a morte de Cristo tinha sido predeterminada de antes da fundação do mundo (veja 1Pe.1.19, 20; Ap.13:8)[14]”. Mas isso não implica em afirmar isenção de responsabilidade humana, pois Pedro demonstra a culpabilidade dos homens pela morte de Cristo no texto. Sobre isso Archibald Thomas Robertson diz: “Deus teve legado a morte de Jesus (Jo.3:16) e a morte de Judas (At.1:16), mas aquele fato não perdoou o Judas da responsabilidade e culpa dele (Lc.22:22). Ele agiu como um livre agente moral[15]”.

O que se quer afirmar nada mais é do que, muito bem fez Jonh Walvoord e Roy Zuck, ao dizer que “o ponto deste verso está claro: a Crucificação não era nenhum acidente. Estava no propósito de jogo de Deus (“plano”) e era o determinado desígnio de Deus, não somente a inclinação dele. Era uma necessidade divina (cf. 4:28)[16]”.

Que se conclui, então? Presciência, ou pré-conhecimento, não é um aspecto independente de Deus, nem mesmo um anexo a sua Onisciência. Pré-conhecimento em referência a Deus não pode ser considerado apenas como uma previsão profética, mas uma determinação onisciênte da parte de Deus, que por vezes diz respeito a Cristo e em outras a salvação dos homens. Visto que, tanto a ação de pre-conhecer como o pré-conhecimento em si referem-se à salvação dos homens, considera-se ambos tenham um aspecto ativo e eletivo da parte de Deus.

Portanto, qualquer afirmação que se faça que fuja das afirmações acima alistadas, trata-se de afirmações equivocadas e sem respaldo bíblico e exegético podendo ser considerada como heresia, como o fez Charles Spurgeon


[1] SPURGEON, Charles H., Implicações do Livre Arbítrio.

[2] BROWN, Collin, COENEN, Lothar, Dicionáio Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp1792.

[3] PACKER, J.I, Concise Theology: a guide to historic Christian beliefs. Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois. 1997

[4] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.

[5] FALCÃO, Samuel. Escolhidos em Cristo. Cultura Cristâ:São Paulo, 1997.  pp.127

[6] MCARTHUR, Jonh F., Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo.1997. pp. 192

[7] SPURGEON, Charles H., Spurgeon’s Autobiography. Londre: Passmore and Alabaster, 1897. pp.168, 169

[8] GRANCONATO, Marcos Mendes. Teologia Sistemática 3, material não publicado.

[9] MACARTHUR, John F. Com Vergonha do Evangelho. Fiel:São Paulo, 1997. pp.179.

[10] FALCÃO, Samuel, Escolhidos em Cristo. Cultura Cristã:São Paulo, 1997. pp.121.

[11] Idem. pp.123

[12] COENEN, Lothar, BROWN, Collin, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova:São Paulo, 2000. pp.1764

[13] Idem, pp.1765

[14] JAMIESON, FAUSSET and BROWN, New Commentary on the Whole Bible. Parsons Tecnology:Iowa. 1998. Tradução Pessoal.

[15] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Technology, Hiawatha, Iowa.

[16] WALVOORD, Jonh F., ZUCK, Roy B., The Bible Knowledge Commentary. Press:Canadá.