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“Duas coisas são indisputáveis: Deus é soberano, o homem é responsável. Ressaltar a soberania de Deus, sem acentuar, ao mesmo tempo, que a criatura é responsável, tende ao fatalismo; preocupar-se tanto em manter a responsabilidade do homem, ao ponto de perder a soberania de Deus, é exaltar a criatura e rebaixar o Criador”[1].

A.W. Pink

A colocação de Pink é fundamental para o início de nosso estudo sobre a salvação, pois não temos a intenção de superestimar apenas aspectos verdadeiros do todo da verdade. Contudo, o real entendimento da Soberania de Deus, e da responsabilidade do homem é fundamental para a compreensão da salvação.

Por isso, antes de qualquer progresso com o estudo mais detalhado da salvação, vamos buscar compreender os dois grandes pilares  dela, a saber: Deus e o homem. Por uma questão de ordem lógica, vamos observar primeiro a Deus, e então o homem.

A.           Quem é Deus?

Definir a Deus, é sempre um problema de grandes proporções, pois é impossível defini-lo exaustivamente. Uma mente finita não pode conceber completamente um Deus Eterno, sem princípio, sem fim. Entretanto, é possível defini-lo corretamente, em linhas gerais, sem que sua dignidade seja ofendida. Assim: “Deus é, no mínimo, a soma integral de todos os Seus Atributos“. Essa definição, apesar de simples, reconhece os atributos de Deus de forma que não existe um atributo maior que outro e que, estes, sendo revelados, tornam possível o conhecimento de Deus. Ou seja, para uma compreensão correta de Deus, é necessário conhecer Seus Atributos.

Contudo, nessa altura do estudo teológico,  não faremos um estudo exaustivo dos atributos de Deus, visto que isso já foi realizado anteriormente. Por isso, vamos ressaltar os atributos de Deus que têm sido mais desprezados pelos cristãos de todo o mundo: a SOBERANIA e a JUSTIÇA.

Deus é Soberano

 

Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina (Pr.21.1)

Todos os cristãos conseguem afirmar que Deus é Soberano, mas muitos não podem admitir que Ele o seja de fato. Na Igreja, as pregações enfatizam apenas o que o público quer ouvir, e não o que eles necessitam ouvir. Não se ouve pregações sobre pecado do homem  e suas conseqüências, nem mesmo a Soberania de Deus e sua abrangência. Ou seja, a igreja abandonou o conceito saudável e salutar da SOBERANIA de Deus, e sobre isso McArthur chega a dizer:

“Não existe doutrina mais desprezada pela mente natural do que a verdade de que Deus é absolutamente soberano. O orgulho humano odeia a idéia de que Deus a tudo ordena, a tudo controla e reina sobre tudo[2]“.

Contudo, por uma questão de coerência com a Bíblia é necessário afirmar que Deus é absolutamente Soberano na totalidade do Seu Ser. Ou seja, Deus é Soberano no exercício de Seu Poder, na concessão de sua misericórdia, no exercício de Sua Justiça, na demonstração de Sua Santidade. Mas sem esse reconhecimento, sempre nos perguntaremos: “Por que Deus faz isso?” E para essa resposta nunca haverá outra opção, senão: “Por que Deus é Soberano, Ele faz o que quer, quando Ele quer, por que Ele quer“.

 

“Por que Deus é soberano, Ele faz o que bem lhe apraz”

Ou seja, não existem limites para a execução da vontade de Deus, por que afirmar que Deus é Soberano é asseverar que Ele é Onipotente. Afirmar que Deus é Soberano é afiançar a Supremacia de Deus, que Ele é o Altíssimo, e em última análise, que Deus é Deus. Portanto, Deus não é sujeito a ninguém, não influenciado por nada, absolutamente independente e infinitamente mais elevado do que a mais eleva das criaturas. Ele é Deus.

Deus é Justo

 

Por isso, o SENHOR cuidou em trazer sobre nós o mal e o fez vir sobre nós; pois justo é o SENHOR, nosso Deus, em todas as suas obras que faz, pois não obedecemos à sua voz. (Dn.9.14)

A Justiça, nos nossos dias, tem tomado sentido errado em função da estulta tentativa de aproximar a Justiça de Deus com o parâmetro errôneo da justiça humana. Ou seja, Deus não pode demonstrar sua Ira para com os homens, por que Ele é como o bondoso velhinho do natal capitalista, sempre perdoa e concede presentes a quem quer que seja. Rebaixar Deus a esse padrão é mais degradante que desconsiderar sua existência.

Por isso, uma consideração correta de Deus exige a compreensão adequada de sua Justiça, que pode ser demonstrada com duas ênfases:

É relacionado com o Governo Legal de Deus, e refere-se ao caráter essencial do Seu governo. Ou seja, Deus Rege o Universo de maneira Justa.

Por conseqüência disto, a Justiça de Deus está diretamente vinculado e dependente do caráter Santo de Deus. Ou seja, a Lei de Deus reflete Sua Santidade, e quando a Lei é infringida, a santidade de Deus o obriga a manifestar-se de forma justa, em Ira.

Por que Deus é Santo ele não pode deixar de punir o pecado. Esta punição é vista na Bíblia como Deus derramando a sua IRA contra os pecadores. Deus deixa isto estampado claramente na Bíblia, por mais que pessoas tentem esconder essa verdade diante dos seus olhos. “É como tampar o Sol com a Peneira” (Dt.32.39-43; Ex.22.23, 24; Nm.11.1, 10, 32, 33; 1Sm.15.3 cf. Dt.7.2-8; Rm.1.18). Deus odeia o pecado por que é Santo; e por que odeia, seu furor se acende:

Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias. Se o homem não se converter, afiará Deus a sua espada; já armou o arco, tem-no pronto; para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas inflamadas. (Sl.7.11-13).

Muitos cristãos não gostam de ouvir essas palavras. Muitos consideram que se Deus executar sua Justiça, como a Bíblia afirma, Deus seria injusto e que tal atitude não está em conformidade com o amor de Deus. Contudo, sobre isso Paulo fala: “Porventura, será Deus injusto por aplicar a sua ira? Certo que não. Do contrário, como julgará Deus o mundo?” (Rm.3.5-6). Ou seja, se Deus não demonstrar sua Ira, Ele será injusto consigo mesmo, por negará sua própria santidade, o que é impossível, por que Deus não pode fazer nada que negue o seu próprio caráter (2Tm.2.13).

“Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb.10.31).

A conclusão a que se chega após essa síntese sobre esses atributos esquecidos de Deus é que, se Ele resolver condenar todos os homens ao Inferno, Ele estaria exercendo soberanamente sua justiça, de modo que ninguém poderia queixar-se disso, ou teria mérito ou prestígio para tal.

B.            Quem é o homem?

Responder a essa pergunta é, de fato, muito mais simples, pois trata de nós mesmo. É válido lembrar que o homem foi criado por Deus de maneira especial, como já foi estudado. Entretanto, este estado original já foi corrompido. Por isso, três conclusões podem ser lançadas:

O homem é totalmente depravado

“O homem, devido à sua queda num estado de pecado, perdeu completamente toda capacidade para querer algum bem espiritual que acompanhe a salvação. É assim que, como homem natural que está inteiramente oposto ao bem e morto no pecado, não pode, por sua própria força converter-se ou preparar-se para isso”.

Sobre isso, a confissão de Westminster é clara, não existe mérito ou dignidade no homem que o faça merecer a salvação. O homem por si só está perdido, morto em seus delitos e pecados. E nada pode fazer, por suas próprias forças, para sair dessa situação. (Ef.4.17-19).

O homem é totalmente incapaz de agradar a Deus

Além de totalmente corrompido, o homem natural, não regenerado, é incapaz de agradar a Deus. Nada que, porventura, ele venha a fazer seja suficiente para conseguir a aprovação de Deus. A inconformidade do homem com as exigências morais da Lei de Deus faz com que ele seja impossibilitado de agradar a Deus (Rm.8.8; Hb.11.6).

O homem não é livre, é escravo do pecado

Se absolutamente todos os homens estão corrompidos, e essa corrupção atinge cada aspecto do seu ser, é impossível que o homem seja livre. Enquanto o homem está debaixo do pecado, sujeito a ele, escravizado por ele, não pode ser livre. Apenas quando este conhece a verdade, ele é retirado, pela verdade, da escravidão para a liberdade (Jo.8.32; cf. 14.6; 17.17). Paulo diz que na salvação o homem muda de senhorio: do pecado à para Deus (Rm.6.18, 22). Contudo, a submissão a Deus não aprisiona ninguém, muito pelo contrário, abre portas para a liberdade (Gl.5.1, 13).

O homem é totalmente responsável por sua condição

A Bíblia nunca coloca sobre Deus a responsabilidade da prática ou da culpa do pecado, mas antes, sobre aqueles que praticam o mal é que sobrevém a culpa, a punição e o peso dessa infração da lei moral de Deus. Isso se chama responsabilidade. Assim, o homem natural, não regenerado, além de desprovido da Graça, de ser incapaz de agradar a Deus, escravo do pecado, é responsável por cada uma de suas ofensas a Deus. Nunca uma ação individual pecaminosa pode ter sua culpa ou responsabilidade lançada sobre outro dentro da perspectiva bíblica. Isso pode ser claramente observado no Texto de Rm.1.18-32, onde todos os verbos relacionados às práticas dos homens são ativos.


[1] PINK, A.W. Deus é Soberano. pp.05

[2] MCARTHUR, Jonh F. Com Vergonha do Evangelho. pp.178